EmMusas - The Lost Canvas
21 Mergulhe em mim
Notas iniciais

Capítulo 21
Uma semana se passou desde as palavras finais de Calíope. Como esperado, nenhuma das musas tocou no tópico que lhes foi relacionado. Primeiro porque não queriam dar continuidade à discussão que crescia entre elas, as divergências estavam cada vez mais nítidas. Em segundo porque havia um sentimento de impotência diante de palavras tão duras e, possível, senão provavelmente, verdadeiras. E em terceiro porque ninguém queria admitir a própria falha. Sim, todas tinham consciência de que estavam falhando umas com as outras. A existência do laço que as une é clara, porém, para muitos, duvidosa. Uma musa não deveria entrar em desarmonia com outras musas, pois elas equilibravam a inspiração que movia boa parte do mundo. Era muita responsabilidade, e, no fundo, todas pensavam nisso.
A falta das outras três irmãs já as deixava incomodadas. Questionavam direto o motivo delas não terem vindo para o Santuário, a única que tinha palpites era Clio, mas não falaria abertamente. Urânia também especulava ao tentar ler as estrelas; sentira-se profundamente abalada ao perceber que Calíope estava certa. Ela mal percebera um movimento mal vindo na constelação de Peixes. Prestaria mais atenção, com certeza; ainda mais no período perigoso que se aproximava cada vez mais e intensificava a tensão do Santuário. E de Sasha. Passava a maioria dos dias com a deusa no intuito de ajudá-la a avançar nas leituras dos registros antigos, porém não descobriram mais nada que pudesse confirmar as suspeitas de que se tratava de um calendário de ataques. Era até provável que a reencarnação anterior quisesse prevenir a próxima. Isso que era ter fé na própria força, nos próprios guerreiros, na própria batalha.
Por outro lado, uma das musas permanecia com uma preocupação menos grave em relação à sua função. Terpsícore sentia uma dor maior se apossando dela. Entendia que não era pessoal, Clio apenas queria cuidar dela. Mas, pelo visto, a musa da história não conhecia os limites da musa da dança. Um ponto era proteger, o outro era interferir no fluxo dos ares que a cercavam. Terps não admitia interferências, ainda mais quando se sentia perto de descobrir o que acontecia dentro de si – sim, o cavaleiro de gêmeos parecia ter causado uma revolução interna. A perfeita personificação do caos. Quase imaginava Defteros, numa realidade paralela, oferecendo-lhe uma taça de loucura; a mesma taça que ele beberia todos os dias para intensificar a desordem que ocupava sua mente e insistia em lhe tirar o sono. Doía, também, ter que passar o dia sem vê-lo. Ela podia quase confirmar que ele a estava ignorando. Mas também... Quem não o faria depois da bronca de Clio? Sim, o pior de tudo, é que ela soubera do fato.
Tália e Mel se estranhavam um pouco. As duas não sabiam uma da outra, mas compartilhavam do mesmo sentimento de incômodo em relação ao tratamento seco com o qual se cumprimentavam nos dias passados. Ao final do gesto, sempre faziam uma careta para si, pois nenhuma gostava do afastamento. Era infundado, de fato. A única faísca que soltaram na conversa sobre Terpsícore foi fruto do questionamento de Tália. Mel não gostou nem um pouco, achava absurdo a irmã questionar sua sanidade quando era ela quem geralmente tinha carência de maiores noções – pensamento reprovável, porém. Mel sabia que estava fugindo um pouco de certa sabedoria- afinal, quem injetaria veneno no próprio corpo em prol de um sentimento egoísta? -, mas ficaria tudo bem se não se esquecesse de sua função. E até o momento, não o tinha feito.
Já Clio estava muda. Preferia não falar mais nada, pois achava que falara demais. Uma pontada de dúvida surgiu em seu peito após os conflitos que incendiara, principalmente quando Calíope soltou a língua. Havia uma verdade gritante naquelas palavras e isso a incomodou mais até do que o fato de Terps ter se envolvido com o cavaleiro de gêmeos. Na verdade, incomodava-a porque continha verdades sobre si que nem ela percebera. “Vá viver”, Calíope dissera. Muita coisa cabia nessa ordem, o problema era decidir como segui-la.
~
A mão esquerda dele deslizou com elegância na cintura dela, enquanto seu peito colava nas costas e o a mão esquerda ajeitava o braço dela, levantando-o delicadamente até ficar numa altura próxima a dos olhos. Ela sentia a respiração dele em sua nuca, fato que dificultava sua concentração e desorganizava seus pensamentos, tomando todo o foco para si. Os ombros mostravam uma leve tensão com uma pitada de nervosismo. Ele sabia do efeito que causava nela, via os pelos arrepiados e a respiração um pouco descompassada, via também o esforço charmoso dela de se concentrar com ele tão tentado atrás. Sem resistir, ele apertou um pouco a cintura fina que segurava, a qual, se não fosse o vestido, ofereceria a pele macia para ser sentida.
Os dedos dela, apertados, quase não tinham força para resistir àquele toque pretensioso. Ela podia sentir o divertimento dele para com seus efeitos, já nem sabia o porquê de estar segurando a flecha ainda. Envolvida num misto singelo de amor e prazer, ela apertou mais os dedos, em resposta aos estímulos quase mínimos que ele fazia. A mão dele subiu bobamente até uma região próxima a do seio esquerdo e ficou ali, ameaçando-a, fingindo que não queria tocá-lo, mas sugerindo um toque ainda maior. Pura tentação. Sísifo era pura tentação.
– Você já poderia ter soltado. – ele sussurrou no ouvido dela.
Os dois se encontravam numa clareira onde ele treinava, na parte leste da floresta. O local era rodeado por árvores altas que cobriam o espaço com um teto de folhas, deixando feixes da luz do sol entrarem por entre elas. Sísifo realizava mais uma vontade de sua querida Urânia. Como ela demonstrara interesse na prática do arco e flecha, foi como se alguém lhe tivesse mandado o foco do próximo convite. As opções de entretenimento ou propostas de passeios eram poucas no Santuário, ainda mais em seu curto tempo, mas essa fora ideal. Obviamente, Urânia se prontificou quando teve liberação de Sasha depois de pesquisarem mais um pouco os registros.
– Eu sei. – ela respondeu com sofreguidão. Não se esquecera do último passeio que dera com Sísifo, no qual ele mostrou muito bem como pode envolvê-la. A musa se sentia nas nuvens desde então; o único problema estava na sensação que ela sentia com todo o toque dele. Infelizmente (ou não), seu corpo se identificou tanto com aquele carinho que agora pedia por mais. Como se não conseguisse vê-lo com outros olhos.
– Então – ele beijou os cabelos negros dela. -, por que não soltou ainda?
Até parece que ele não sabia a resposta. Urânia riu sarcasticamente.
– Não sei... Tem alguma coisa me prendendo. Aliás, prendendo não, me desprendendo do foco. Compreende? – respondeu ironicamente, bufando por dentro por causa da dificuldade de ter Sísifo a abraçando.
– Perfeitamente. – ele devolveu no mesmo tom, porém mais gentil. – Meu mestre me ensinou que devemos nos desprender do que nos desprende do foco. Algumas vezes, podemos usar a mente e seu instinto racional. Geralmente, uso dessa forma. – aproximou mais a boca do ouvido dela. — Mas se você preferir usar o corpo e deixar seu instinto emocional cuidar desse empecilho que te impede de focar, não há problema. Você sabe que apoiarei.
Urânia não evitou o sorriso que se formava, largou o arco e a flecha na grama e se virou, jogando-se para os braços do sagitariano. Era muita sacanagem testá-la dessa forma, ainda mais confirmando que sente o mesmo.
Beijaram-se apaixonadamente enquanto suas mãos exploravam o corpo um do outro. Urânia se maravilhava ao sentir o abdômen lapidado do cavaleiro, enlouquecia quando tocava nas marcações que indicavam a entrada de sua região mais íntima, como se a convidassem o tempo todo. Maldito cavaleiro de sagitário por andar assim, exibindo um de seus fragmentos mais belos e irresistíveis. A musa não tinha controle das próprias mãos, elas simplesmente tinham fome do corpo dele e expressavam isso de uma forma ousada. Apenas. Às vezes, até suas unhas se expressavam naqueles braços musculosos e protetores que ele insistia em mostrar. E o resultado disso era o melhor: as arfadas.
Sísifo, entretanto, não saía por baixo. Usava as mãos com as mesmas funções que ela. Gostava de contornar cada curva bem feita da musa da astronomia, e o fazia com maestria. Às vezes arrancava suspiros dela e sentia as unhas apertarem seus braços, nenhuma reação era mais sensual do que a de Urânia em seu corpo. Não entendia o motivo de não terem passado dessa fase, mas quase via como algo a ser cuidadosamente alcançado. Como se fazer amor com ela fosse algo sagrado. Talvez fosse mesmo, porque era totalmente possível quando se tinha um ser tão delicado, divino, doce e delicioso o abraçando, com a áurea celestial cada vez mais viva. Ele não deixava de imaginar como ela se expressaria se fizessem isso, conseguia quase visualizar a carinha de prazer dela mais expressiva do que quando ele a beijou nos seios. Maldita musa da astronomia por ser assim, tão elegante e charmosa sem ao menos tentar.
Um pequeno desconforto nas calças de treino alertou Sísifo que era melhor parar por ali, já que estavam numa área tão propícia a passantes. E ainda havia a mania chata das servas o seguirem quando o viam por locais menos movimentados.
Urânia o sentiu se afastar e soltou um muxoxo de reclamação.
– Ainda estou sem foco, cavaleiro. – ela disse, num tom mais grave e sexy do que antes, resultado de seu estado descontrolado. Sísifo quase a amaldiçoou por isso.
– Não me tente, Urânia. – pediu ele, tentando ser sério.
– Então, não me provoque, Sísifo. – retrucou ela, com um leve sorriso travesso.
– Certo, vou lhe ajudar. – pegou o arco e flecha atirados na grama. – Esse arco e essa flecha são quase uma réplica dos que tenho em minha armadura. Mas, obviamente, não é de ouro e não possui efeito cósmico algum. O peso é o mais próximo do real e as medidas seguem fielmente sua referência, portanto, você está tendo a chance de experimentar com o meu instrumento de treino e ensinamento. – ele falava com orgulho e felicidade, que aumentou após vê-la atenta.
– Usa-os para ensinar também? – perguntou surpresa.
– Sim, eles me servem muito na hora de trabalhar a agilidade e a força dos meus discípulos. É necessário se preparar dessa forma, pois não só influencia no manuseio do arco e da flecha, mas também na técnica de resolução em situações mais críticas, fisicamente falando. Consegue compreender? – olhou para ela com olhos curiosos e a viu assentir. Acabou deixando um sorriso escapar, o qual arrepiou Urânia novamente.
– Consegui compreender, agora passe esse arco e flecha para cá! – estendeu os braços.
Com o mesmo sorriso, ele depositou os dois objetos nas mãos dela e a esperou se posicionar para atirar. Assim feito, aproximou-se.
– Não. – Urânia impôs, sem desviar os olhos da árvore em que mirava. – Não se aproxime ou vou perder o foco de novo.
– Mas...
– Sísifo. – num tom de reprovação. Quase podia sentir a malícia do olhar dele, mesmo sem o vê-lo. O cavaleiro riu baixo e se manteve como observador.
Urânia permaneceu na posição por um tempo, tomando cuidado com cada passo dito por ele, como se buscasse a memória fotográfica de Sísifo ensinando. Mas péssima ideia, rapidamente perdeu o foco ao pensar nele sem camisa. Balançou a cabeça em auto reprovação e estreitou os olhos para a árvore como se ela fosse a culpada de sua falta de concentração. Realmente, Clio estava certa.
Enquanto isso, Sísifo admirava a posição da musa, que mais parecia uma guerreira. Será que existia alguma posição em que Urânia não transbordasse sensualidade? Era quase absurdo o grau de calor que tomava seu corpo quando a via de qualquer jeito, sentia vontade de agarrá-la ali mesmo. Via novamente o esforço dela em se concentrar e não deixou de rir para si. O que a deixava tão assim? Como se não soubesse a resposta...
E então ela atirou.
Os dois observaram a flecha quase ultrapassar a árvore fina que fora vítima dela. E logo Urânia girou os calcanhares, ficando de frente para Sísifo.
– Viu só? – ela sorriu esperta.
– Então quer dizer que preciso estar longe para que seu foco lhe mantenha no caminho certo?
– Não, não é isso. – ela se aproximou lentamente, ele fez o mesmo. – Quer dizer que – ela entrelaçou os dedos nos dele e o fitou. – eu preciso que você esteja sempre me apoiando, mesmo não estando comigo. Preciso saber que está comigo sempre, mas de outra forma. E quer dizer, também, que a ligação que nós criamos é forte e controlável.
Ele estava emocionado com as palavras, não podia negar, mas se segurou para manter a postura.
– Controlável?
– Sim, você controla essas mãos e eu controlo meu foco. – concluiu rindo e extraindo uma gargalhada gostosa dele.
– Você é incrível. – Sísifo a abraçou fortemente.
Seu corpo pedia por isso e o dela também. A ligação existia sim e estava mais forte do que nunca, atraindo os dois como se dependessem um do outro para se mantiverem fortes. E ela estava certa, queria dizer tudo aquilo e até mais. Um “mais” que eles já identificavam... Um “mais” que o faria prometer que nunca deixaria de apoiá-la e enxergar um futuro para os dois, por mais que o segundo ato fosse perigoso para um cavaleiro de Athena.
~
Numa das arenas, aspirantes de Cavaleiros de Ouro treinavam arduamente; principalmente com o Cavaleiro de Capricórnio. El Cid mantinha uma rotina rigorosa para seus discípulos e a enfatizava em certos dias de treino, nos quais se sentia inspirado. E não era inspiração que vinha de Clio, apesar de a musa estar, novamente, observando-o da arquibancada, com seu caderno em mãos. Ela acabara de chegar e ele ainda não tinha falado com ela, mal poderia esperar o momento em que ela virasse o rosto, pois tinha que dar atenção aos discípulos, mas já se encontrava satisfeito pela presença da musa.
– Você não devia deixar as pessoas com dúvidas do que é seu ou não. – uma voz arranhada e debochada surgiu atrás do capricorniano.
– Do que está falando, Kárdia? – ele bufou, não sabia se deveria ter perguntado.
Kárdia exibia o físico bem definido e usava apenas a calça de treino e as proteções artificiais, exibia também um sorriso zombeteiro que insinuava satisfação.
– Sua pergunta confirma minha perspectiva. Mas pra deixar claro, eu não disse nada. – ele levantou as palmas da mão. El Cid lançou um olhar intimidador.
– Se veio falar coisa importante, apresse-se, não tenho tempo para perder com besteiras.
– Acalme-se, El Cid. – Kárdia riu. – Não, mas sério. Acho que falta esclarecimento de sua parte para com certa donzela de Rodório que insiste em negar os outros por sua causa. E esses outros estão ficando sem paciência, seria bom se você tirasse essa ideia da mente perturbada dessa donzela e liberasse o caminho até as pernas dela para os outros.
El Cid entendera de imediato no início da fala do escorpiano. Havia um veneno nítido naquelas palavras, o capricorniano não duvidava de tal donzela ter sido alimentada em tais ideias pelo cavaleiro de escorpião. Entretanto, não poderia ignorar o caso. Não se quisesse pôr uma ideia que teve em prática.
– Falarei com Cléo, agora volte à sua função. – disse El Cid, com o pior dos humores.
Kárdia não estava satisfeito, era evidente. Odiava quando suas provocações eram cortadas por El Cid e não compreendia como ele fazia isso com tanta sagacidade. Não evitou de revirar os olhos para a resposta do capricorniano, ato que foi interessante assim que eles pararam numa musa no alto da arquibancada. Kárdia sorriu.
– O que ela está fazendo aqui? – perguntou animado e num tom de malícia. El Cid controlou-se.
– Eu a convidei e ela aceitou... Pela segunda vez. – não pôde evitar se vangloriar disso, sabia que incomodaria o escorpiano. Dito e feito, Kárdia fechou a cara, descontente. El Cid sorriu de canto. – O que foi? Muita informação?
Kárdia não esperou mais e se pôs em marcha até Clio. Num impulso, El Cid ofereceu cinco minutos de descanso para os discípulos e fez o mesmo, sem tirar os olhos do companheiro de batalha.
– Olá, Clio! – Kárdia cumprimentou animado, sentando-se ao lado dela. – Não vou perguntar como vai porque a resposta está emanando, você está ótima.
Clio revirou os olhos com o galanteio, extraindo um sorriso de canto de El Cid.
– Kárdia! – ela fechou o caderno. – Acho que há uma margem de erro na sua conclusão, hoje não é um dos meus melhores dias. Mas agradeço o elogio. – sorriu gentilmente.
– Não quer desabafar? Podemos tomar um vinho lá na Casa de Escorpião e observar a lua enquanto conversamos sobre seus problemas... – a voz era sedutora, mas não seduziu.
Clio estava visivelmente constrangida, mas antes que pudesse responder à altura, El Cid interveio:
– Ela não pode, vai jantar comigo essa noite, Kárdia. – quase autoritário.
– Eu vou? – perguntou Clio confusa.
– Ela vai? – Kárdia mais confuso ainda.
– Sim. Lembra, Clio? – o olhar que ele lançou a ela esclareceu perfeitamente a intenção.
– Ah, sim, claro! Vamos sim.
Kárdia bufou para El Cid e se virou para Clio com uma expressão pidona.
– Clio, por que você nunca aceita meus convites? – fez um bico levemente sexy, notado por ela.
– N-Não é assim, nossos horários se chocam, apenas. – Clio engoliu seco.
Por que gaguejara? Isso era ridículo, nunca gaguejava. Não entendia também o sentimento de incômodo por El Cid estar presenciando o galanteio de Kárdia. Ela queria encerrar o papo e se concentrar na proposta do capricorniano – que agora teria de rolar e não era uma má ideia. Havia esse sentimento de satisfação que cutucou Clio no momento em El Cid interveio com essa colocação. Botando em palavras práticas, ela queria que Kárdia saísse dali para que pudesse perguntar a hora que sairia com o outro para jantar.
– Hmm. – Kárdia não engoliu. – E onde vão jantar?
– Na vila. Basta de informação pra você. – El Cid novamente cortou. Clio agradeceu baixinho.
Uma leve na falha, entretanto. Kárdia sorriu sarcasticamente.
– Já que você vai na vila, não esquece de falar com sua querida donzela.
El Cid congelou e percebeu uma leve franzida na testa da musa. Maldito Kárdia.
– Certo, agora vamos voltar. – disse ele, virando-se para Clio. – Com licença, senhorita.
– Tchau, belíssima. – Kárida foi mais atrevido e depositou um beijo na mão dela, para o descontentamento de El Cid, que ainda a viu corar.
Cloio viu os dois descerem apressadamente e Kárdia dar uma última olhada para trás. Nunca parara para perceber, mas agora percebia a malícia por trás do escorpiano – e não se agradava com isso. Não estendera a mão para ele, então ele não deveria ter beijado, mas, ao mesmo tempo, sentia-se culpada por não ter impedido o gesto. Desde quando era tão imprudente para consigo mesma? E não evitou corar, isso foi o pior. Não, o pior, por mais irônico que pareça, foi ser assistida por El Cid. O cavaleiro que a levaria para jantar. O cavaleiro que tinha uma donzela querida.
– Você não tem medo de confundir os dois nomes? Clio, Cléo... – Kárdia perguntou assim que desceram o último degrau.
– Isso é algo esperado de você, Kárdia. – El Cid seco.
– Verdade. São muitos nomes de amantes para guardar, mas no fim compensa. – cruzou os braços e observou os que treinavam.
– Até quando?
O escorpiano estranhou aquele tom. Quase se assustou, cogitando que uma terceira pessoa havia aparecido na conversa, o tom de El Cid parecia melancólico. Certo, o cavaleiro não era dos mais felizes e animados, pelo contrário, mas esse tom fora diferente, com certeza. Possuíra um misto de sofreguidão com lamento, aos ouvidos de Kárdia.
– Hãn? – franziu a testa.
– Até quando compensa? – o tom seco voltara.
– Ah, não sei. Até onde der. Difícil especular com a Guerra Santa chegando.
– Então deveria aproveitar em qualidade, não quantidade. – El Cid refletiu. Esse era um pensamento que tomava para si desde sempre.
– Está com pensamento positivo? – agora quem apresentava um tom diferente era Kárdia, algo próximo do sério.
– Não. – suspirou e passou o olhar horizontalmente. – Mas... – parou o olhar em Clio. – Um pouco.
~
Água. Elemento associado ao planeta da água, Mercúrio. Mercúrio, planeta regente de apenas dois signos do zodíaco: Gêmeos e Virgem. Virgem, constelação protetora de Asmita. Risos, Calíope estava rindo. Ria serenamente enquanto a água da cachoeira caía em seu corpo com uma vontade feroz. Água, o elemento que ela apreciava mais do que os outros, que a deixava submersa não apenas física, mas mentalmente. Urânia tinha isso em comum com ela, as duas já debateram sobre as sensações de se deixar levar por ela. Era um bom pensamento, incentivava o corpo a acentuar o carinho que a gota fazia ao deslizar. Tudo na água era bom.
Um pensamento atrevido passou raspando rapidamente, mas lento o bastante para fazê-la corar.
Um aroma diferente preencheu o ar em volta dela. Não era desconhecido, só estava minimizado, assim como outra energia vital. Uma leve sensação de estar sendo observada se apossou de Calíope e ela abriu os olhos.
O coração que batia em ritmo normal pareceu disparar numa corrida à procura da realidade daquele momento. Asmita estava ali, de frente para ela, sentado do outro lado da cachoeira, na grama. E o mais estranho: numa posição totalmente aconchegada, sem as formalidades da meditação. Quase inacreditável. O Cavaleiro de Virgem simplesmente não deixava a Casa de Virgem.
– Percebo que já sente minha presença com mais facilidade. – ele disse.
– Talvez, mas não identifico o dono ainda. Caso contrário, não teria me assustado.
Calíope o observava atenta e maravilhada, seu coração pedia por atenção enquanto ela prendia uma respiração que queria sair a tempos. Mas era simplesmente inacreditável! Ela teria se incomodado bastante com um simples fato se não fosse por outro simples fato: estava completamente nua na cachoeira, suas roupas amassadas cobriam uma pequena pedra; por outro lado, o cavaleiro não poderia vê-la literalmente, a não ser que...
– Deixe-me vê-la. – pediu ele, sem cerimônias. Realmente, era perceptível a mudança na relação deles quando se tratava de palavras. Na maioria das vezes, Asmita era cordial e impecavelmente educado, mas às vezes cometia seus deslizes, os quais davam impressão da existência de certa impaciência. Impaciência por não poder vê-la.
Calíope corou novamente.
– Estou... Nua. – revelou, quase num sussurro e extremamente envergonhada.
– Eu sei.
A resposta nunca seria esperada.
Os olhos de Calíope se arregalaram instantaneamente com a informação. Como ele sabia? Ela sabia da possibilidade de ver através do cosmo do outro, mas não havia ninguém olhando para ela. O outro detalhe era a distância que eles se encontravam um do outro. Ela rapidamente tapou os seios com as mãos, desfazendo-se de sua posição.
– Pode perguntar se quiser. – ele sorriu de boca fechada, compreendendo o tumulto interno na musa pela agitação de seu cosmo.
– Por que não fala logo? – ela com uma notável irritação na voz.
– Conheço seu cheiro, Calíope. Conheço mais do que seria saudável. Sei que está nua porque o cheiro que emana de seu corpo é mais forte do que o que emana de suas roupas, que estão ali. – apontou para a esquerda. – Sei que as roupas estão ali porque consigo sentir mais um cheiro diferente, similar ao de um perfume, cujo foi levado pela água quando estava em seu corpo. Então, refletindo sobre a intensidade do cheiro nos dois pontos, deduzi que, se o ponto mais forte era você, o outro só poderia ser alguma peça de roupa.
A musa estava boquiaberta. Nunca imaginara que o olfato de Asmita fosse assim, absurdamente aguçado. Mas era esperado de um cavaleiro que aprofundara os sentidos que tem para suprir ainda mais o que não tem. Não, não era esperado, ainda assim. Não dessa forma.
– Asmita, você é fascinante. – Calíope deixou escapar, logo se arrependeu. Mas as palavras pegaram o virginiano de surpresa, e ele não segurou o sorriso. – Não se convença, falei sem querer.
– Por isso foi mais sincero. Não posso ficar satisfeito com um elogio vindo de você?
Asmita se levantou, sem aguardar a resposta, e se aproximou, passando calmamente por entre as pedras como se pudesse vê-las. Calíope não tinha o que falar, não conseguia ocupar sua mente com outra coisa que não fosse a movimentação do belo cavaleiro que parecia cada vez mais próximo.
– Por que não se permite falar o que quer, Calíope? Não deveria se reprimir tanto, ainda mais com essa bela voz...
Ele estava cada vez mais próximo dela, que automaticamente se levantou e saiu da água que caía, hipnotizada pela possibilidade de sentir o aroma divino daquele cavaleiro tão humano.
– E você fala tudo que quer, cavaleiro? – perguntou, com uma voz que denuncia seu estado de deleite.
– Não. Não posso me dar o luxo quando tenho obrigações mais... Necessárias. – queria dizer “importantes”, mas talvez ela não compreendesse seu sentido.
– No fundo, ninguém tem esse luxo nunca. – a voz doce dela ganhou um tom mais grave, deixando-a delicadamente sensual.
O calor dos dois corpos impulsionou-os para que encurtassem a distância logo. E assim feito, Asmita tocou a bochecha de Calíope, quase sem fazê-lo de verdade. Ela conseguia sentir apenas os milímetros que separavam o contato das pontas dos dedos dele, mas não demorou em senti-los totalmente. Esse contato já era conhecido, talvez tenha sido o primeiro entre eles, seguido por um beijo que, eles admitindo ou não, havia mudado muita coisa. Os dedos brincaram um pouco naquela face deliciosa da musa da poesia épica, contornando os lábios medianamente carnudos, porém imensamente atraentes; acariciaram os traços que juntavam sobrancelhas, olhos, nariz, boca e queixo, contemplando um caminho quase que poético. Ela, de olhos fechados, ficou tentada em abri-los apenas para ver o sorriso que ele oferecia, bobo por aquele contato. A pele molhada da musa oferecia perigo eminente para o estado de espírito do virginiano, pois era uma sensação tão nova que o tentava a explorar a própria libido.
Calíope se sentia totalmente envolvida por aquele carinho singelo, característico do cavaleiro de virgem. Arrepiava-se a cada segundo, parecia que a pele sairia de seu corpo por causa da força do arrepio. Mas se saísse não teria problema, não sentiria dor. Sentia tudo naquele momento, menos dor. Ouviu alguém arfar, mas não sabia dizer se era ele ou ela. Estava nadando no mar de sensações que ele provocava nela e o deixaria nadar junto. Ou melhor, deixaria mergulhar mais fundo.
Ela pegou a mão dele que traçava seu rosto e a desceu até o vale entre seus seios. Nenhum dos dois abriu os olhos, mas os dois sorriram. Tornava-se cada vez mais difícil controlar qualquer outra vontade que crescia ali no meio, tanto para ele como para ela. Os dois mergulharam juntos nisso, então teriam apoio um do outro se algum se assustasse durante o mergulho. Asmita seguiu a intenção dela e deslizou um dedo na curva baixa do seio, delicadamente, apenas para provocá-la. Estava ficando bom nisso. O segredo era seguir os instintos que, às vezes, apareciam. Não, não “às vezes”, apenas na presença dessa mulher.
– Cada vez que toco em você, percebo que não conheço nem um décimo do que lhe forma. – Asmita encheu uma das mãos com um dos seios e passou o polegar no mamilo rosado da musa, sorrindo. – Cada vez que toco em você, descubro que sua beleza está em constante transformação, sempre avançando, como se quisesse atingir a perfeição. – apertou o seio de leve, arrancando uma arfada dela. – Mas a perfeição não é interessante... Não nesse caso. – passou os lábios nos dela, tentado a beijá-la.
– E não é o que você procura? — ela mordiscou o lábio atrevido do virginiano e o puxou sem força.
Foi a vez de Asmita arfar.
– Procuro muitos atributos e possibilidades. – continuou dizendo, agora com as duas mãos massageando os seios grandes de Calíope. – Estou tentando a achar que encontrei uma.
Sem mais desejo de falar, Asmita deslizou uma das mãos para a cintura da musa, mas não antes de fazê-la na barriga lisa, enquanto a outra estimulava o seio de várias formas. Formas. Ele queria explorar as formas nas formas do corpo de Calíope. Queria tocá-lo inteiramente, descobrir cada centímetro e conhecê-lo intimamente, para vê-lo com perfeição. Perfeição, nesse caso, era interessante. Já não desejava apenas sentir o cheiro e a sensação, mas também o gosto. Definitivamente, Calíope mexera com seus valores.
Mal perceberam e já estavam envolvidos num longo beijo.
~
Terpsícore, por mais incomodada que estivesse em ter que ver Clio por perto sempre, decidiu tomar a opção da irmã e foi até a arena onde os cavaleiros de ouro treinavam. Sua decisão não foi apenas fruto de uma curiosidade, mas também de um tédio. Algo parecia tão errado em seus dias. Algo esse que ela julgaria certo em tempos anteriores, mas que depois se mostrou importante.
Ela sentia que o encontraria mais adiante. Ele tinha de estar na arena, não havia mais lugares onde procurá-lo e Terpsícore já estava cansando. Na verdade, ela havia atingido o cansaço há tempos, mas não libertara a coragem para enfrentar as irmãs quanto a isso. Dessa vez, estava sentindo os efeitos negativos por si só – e que servisse de lição. Era absurdo a verem apenas como imatura quando ela podia se cuidar perfeitamente – mesmo não sabendo direito com que criatura ela lidava realmente quando estava com Defteros -, vivia em seu vale perfeitamente bem e, na maioria das vezes, sozinha. Mas nunca teve que se preocupar com sentimentos.
Na arena dos cavaleiros de ouro, Defteros fazia questão de descontar seu descontentamento em Tenma. Sugava-o completamente a partir do treinamento árduo que implicava. Quem mandou Dohko deixá-lo com ele? Não poderiam dizer que não conheciam seus métodos, todos conheciam. Todos sabiam quem ele era, e sua história. Mostraria para o jovem idiota, que caía pela quinta vez ao tentar acertá-lo, que se não elevasse de verdade o cosmo, não sairia dali vivo.
– Se você não conseguir me acertar, será parte do meu jantar hoje, garoto! – berrou para o jovem guerreiro que recuperava a postura numa distância considerável, para onde fora jogado pelo seu mestre temporário. Tenam pôde ver Defteros lambendo o canino saltado direito, o que tornou a ameaça ainda mais apavorante.
O jovem, então, se concentrou mais uma vez, deixando o corpo se desprender das noções desnecessárias enquanto ritmava a própria respiração e abstraía o que não importava.
Defteros, ao perceber o indício do cosmo de Tenma, posicionou-se novamente e duplicou a atenção, os olhos estavam fixos no garoto e prontos para engoli-lo. Mas o tempo precisou apenas de segundos para patrocinar o que veio em seguida.
O geminiano estava totalmente concentrado, já via o movimento de Tenma em sua direção, entrariam na dança da luta em segundos, mas um cheiro dominou seu sentido de uma forma tão profunda e inesperada, suja e baixa, procurando realçar o sentimento de saudade, que ele não evitou olhar para o lado. E isso lhe rendeu um soco bem dado na bochecha, pelo garoto que não mais seria seu jantar.
Uma raiva súbita se apossou do cavaleiro quando ele viu o motivo de sua perda: Terpsícore se aproximou para assisti-los. Tenma pôde ver uma veia sutil da testa de Defteros se destacar, digna do sentimento de fúria que ele expressava apenas com os olhos.
– Vá se hidratar agora. – ordenou o mestre para o pupilo.
Defteros elevou seu cosmo e usou da velocidade da luz para chegar ao lado de Terpsícore na vontade que tinha. Ela segurou o grito que lutava fortemente para sair e sentiu o braço ser preso pela mão grande do geminiano. Ele tinha a boca próximo do ouvido dela.
– Me fez perder o jantar, musa safada. O que vou comer agora? – a espinha de Terpsícore sentiu até o fim desse tom ameaçador. — Até sugeriria você, mas não faz mais parte da minha dieta. – e a soltou bruscamente. – Agora saia daqui antes que eu me arrependa.
Com lágrimas nos olhos, ela correu para a floresta, sendo seguia pelo olhar duvidoso do cavaleiro de gêmeos.
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