EmMusas - The Lost Canvas
15 Sobre primeiros beijos
Notas iniciais

Capítulo 15
Sísifo finalmente conseguira um tempo sozinho com Urânia e chamou-a para molhar os pés na água. Via a musa rodeada de pessoas discreta e indiscretamente; algumas só queriam se confortar em tamanha áurea celestial, outras apreciavam a musa por tudo que a compunha. O sagitariano até compreendia a devoção, mas nada mais justo ter uma atenção mais especial... Rindo consigo mesmo, ele convidou a musa.
Chegando perto da beira do mar, perceberam que a lua finalmente se mostrava completamente. Sísifo ficou deslumbrado com a vista, não só por ver uma lua enorme e linda iluminando o momento, mas principalmente pela presença da belíssima musa que era banhada por tal iluminação, tendo sua pele mais brilhante e seus olhos mais celestiais ainda. Urânia não parecia uma musa, parecia uma deusa.
Sentindo-se contemplada, ela virou para ver o sagitariano – que estava a dois metros de distância dela – e sorriu, deixando-o mais desconcentrado ainda. Ela caminhou até ele e pegou suas mãos, sem desviar seus olhos verdes-água dos dele.
– Uma pena você estar com essa armadura tão limitante. Caso contrário, poderia sentir como a água do mar muda com a influência da lua. Uma pena que não possa molhar os pés, cavaleiro... – provocou ela, suavemente, enquanto sorria. Sísifo sorriu de volta, cada vez mais extasiado com o contato.
De repente, Urânia se afastou e entrou no mar, até onde a água batia em seus joelhos, abaixou-se um pouco e, com um dedo, tocou na água e depois fez o contorno dos próprios lábios. O coração de Sísifo quase parou com a cena. Logo depois ela se aproximou novamente.
– Uma pena. Mas acharia injusto você sair daqui sem provar. – levantou o corpo, ficando na ponta dos pés, e depositou um selinho nos lábios dele, possibilitando-o de sentir o leve gosto salgado do mar nos lábios dela.
Sísifo, com uma mão, envolveu a cintura da musa e, com a outra, acariciou a mão dela que repousava em seu ombro. Os dois aprofundaram o beijo.
– Terei de discordar de você, Urânia. – disse ele, ao finalizar o beijo, mas sem deixá-la se mover um centímetro para longe dele; ela sequer tentaria mesmo. – Não consigo enxergar pena nesse momento. Qualquer falta é suprida com um beijo seu, uma pena seria se eu não pudesse tê-lo.
Urânia mordeu o lábio enquanto as bochechas intensificavam o vermelho.
– Receio dizer, mas sua beleza com certeza supera a da lua...
– Shh. – interrompeu ela, tapando a boca dela com uma das mãos. – Fale baixinho, senão a Lua pode ouvir e ficar chateada. – finalizou sorrindo e rindo baixo. Sísifo tirou a mão dela de si lentamente e depositou um beijo, os olhos ainda vidrados em cada traço que compunha tal rosto.
Em segundos, ela sentiu o rosto dele enterrado no espaço entre seu pescoço e ombro, depois um beijo delicado e, por fim, o toque dos lábios dele em seu ouvido.
– Se eu falar aqui... – sussurrou ele, fazendo-a se arrepiar profundamente. – Que você é linda, mais que a própria Lua... – mordeu de leve o lóbulo. – Tão linda que eu viria para esse luau só para lhe admirar, a ponto de esquecer os demais propósitos... – deslizou os lábios para a bochecha, roçando também o nariz e tirando suspiros da musa.
Sísifo pôde sentir o corpo dela arrepiando e um leve aperto em seu braço, causado pela pequena mão dela. Um suspiro também foi ouvido, e tudo só o atiçava. Ele aproveitou para encostar seus lábios no dela, sem beijar, apenas repousando enquanto sentia a respiração suave.
– Você acharia ruim? – perguntou por fim. Urânia já tremia devido aos carinhos.
– Não. Nunca. – respondeu entre gemidos e beijou o sagitariano com desejo, puxando os finos cabelos dele com intuito de aproximar mais o rosto. Sísifo entrou na onda e fez o mesmo, o desejo só não era proporcional aos carinhos que fizera porque se controlara demais ao fazê-los.
Após alguns beijos, apaixonados pelas duas partes, Sísifo finalmente abriu os braços para deixar a musa usufruir da beira do mar. Observava-a pulando e rodopiando enquanto admirava os símbolos de sua representação. Ao achar a constelação de Sagitário, fez questão de mostrar ao cavaleiro que a admirava; Sísifo, por segundos, amaldiçoou-se por estar de armadura, pois adoraria entrar na água com ela...
~
Num canto da segunda tenda, sentados em grandes almofadas verdes e amarelas, Redka e Degél conversavam. A conversa variava entre animada e tímida, pois os dois tinham receios quanto a certos assuntos a serem puxados. Entretanto, um deles nunca deixava o assunto morrer.
– Fico bastante satisfeito com sua aproximação com as musas. – disse ele, meio duro. Acabava de voltar da mesa, onde servira mais vinho para sis.
– Obrigada. –Redka pegou sua taça e bebericou. – Sim, eu também fico, ainda mais por serem pessoas tão especiais. Digo... No sentindo de personalidade, não pela posição em que se encontram.
– Entendi perfeitamente, mas de qualquer forma elas também são especiais por suas posições.
– É, bom... Assim como você. – disse meio baixo. Degél se virou para ela atenciosamente, dando a entender que havia ouvido. Meio errada e bastante corada, ela se recompôs, enquanto brincava com os dedos devido ao nervosismo. – Digo, vocês Cavaleiros de Ouro. Não... Cavaleiros de Athena!
Degél reparara no nervosismo dela. Aliás, reparara em tanta coisa naquela garota que os assuntos, à vezes, lhe faltavam. O lírio branco na orelha contrastava com a cor ruiva do cabelo, os olhos negros pareciam dois pequenos fragmentos do Universo; a região abaixo dos olhos era repleta de sardas claras que davam um charme maior para o rosto todo; os lábios finos, sendo o superior ainda mais, estavam levemente destacados com uma cor de tinta de batom mais clara, um tipo de rosa... Ideal. Redka estava linda, ainda mais com o vestido que revelava os ombros convidativos...
– Degél?
O aquariano piscou fortemente os olhos, recompondo seus pensamentos e sua atenção para a conversa.
– Perdão, distraí-me. – pigarreou e bebeu o vinho para desviar.
– Posso saber com o quê? – os olhos dela o desafiavam agora, e, estranhamente, ele gostou disso.
– Você está muito bonita.
Redka travou, não esperava um elogio direto dele. Quer dizer, ele era uma pessoa direta e objetiva, mas não costumava fazer comentários de tal tipo, ainda mais para ela. Reparara, então, em toda a atenção que ele vinha lhe dando, desde o momento em que a buscara na vila; não era a primeira vez que ele se distraía em sua presença. De repente, notou algo quase impossível: Degél estava corado.
– Não que você não seja normalmente. – disse ele, tentando consertar a ilusória falha e fazendo Redka sorrir ainda mais. – Não entenda errado, por favor.
– Degél, não é necessário se preocupar com isso. – doce e direta, Redka conseguiu acalmá-lo.
Degél não resistiu em pegar a mão da florista, surpreendeu-se por ela ter mãos tão macias mesmo trabalhando com flores – sim, ele sabia das luvas especiais, mas a vira várias vezes sem elas. Dessa vez foi a vez de Redka corar com a carícia e, ao direcionar os olhos para ele, viu-se observada.
– É quase inevitável me preocupar com você, Redka. – os olhos violetas de Degél penetravam diretamente os dela.
Com o rosto mais, próximo, Redka não resistiu e se curvou até encostar os lábios nos dele. Ao perceber o que havia feito, afastou-se bruscamente e se levantou.
– Perdão, Degél! – exclamou, desnorteada. Por que seu coração tão despreparado havia tomado a coragem tão repentinamente?
Quando iniciou um passo, foi puxada pela mão do aquariano, que a fez cair em seu colo. Ela se manteve calada e nervosa, ele não. A sensação de tê-la nos braços era maravilhosa.
– Só exigirei perdão se correr de mim. – dito isso, ele fez o mesmo que ela havia feito, mas dessa vez aprofundou um beijo com vontade, pedindo passagem com sua língua.
Concedida, Redka passou os braços em volta do pescoço do cavaleiro timidamente, mas ele o fez em sua cintura de forma totalmente contrária, puxando-a para si com a mesma vontade com que a beijava. O primeiro beijo já marcava os dois deliciosamente.
~
Manigold procurava por Tália enquanto bebia mais vinho, a atenção variava entre as amazonas e as musas. Vira Sísifo observando Urânia na beira do mar, com certeza aqueles dois pombinhos apaixonados não queriam ser interrompidos. Bom para o sagitariano, que pegou uma das mais bonitas, na visão do canceriano. Um pouco para o lado, Terpsícore bebia vinho enquanto observava a lua, perto da mesa; ah, se ele não estivesse procurando por Tália... Quem mostrava proximidade era Defteros, que virou o rosto assim que a viu por perto. Tsc, como se um passarinho amarelo como Terpsícore fosse se interessar por um brutamonte louco – Manigold pensava. Se bem que era interessante ter Defteros como colega, geralmente ele causava intriga entre as garotas e isso proporcionava divertimento.
Em seguida, o canceriano avistou Tália conversando com Dohko e Shion numa das tendas. Ora, ela o abandonava para ir conversar com os cavaleiros mais “legais”. Que piada! Não esperou nem um segundo para se aproximar.
– Tália. – disse ele. Os três que conversavam se focaram nele. – Quero falar com você.
– Mas eu estou num assunto tão interessante. Dohko estava contando como encontrou Tenma!
Assunto mais chato impossível. Manigold bufou enquanto pensava.
– Mas Dohko pode contar depois, certo? Tá aí uma história que ele nunca esquece. – o canceriano. Não diria com todas as palavras, mas o libriano sempre repetia essa história.
– Pode contar depois como também pode contar agora. – Tália virou-se de costas para Manigold. – Continue, cavaleiro! – para Dohko.
Dohko e Shion se entreolharam, estranhando a cena, e depois viram Manigold bufar. O canceriano não desistiria fácil, muito menos deixaria a musa lhe dar as costas sem motivo. Entretanto, não seria bruto dessa vez, sabia muito bem como convidá-la...
– Tália – disse ele, acariciando as costas descobertas dela lentamente. O toque a arrepiou instantaneamente. – Por favor, me acompanhe. Gostaria de falar com você, prometo ser rápido. – num tom de voz quase irreconhecível. Para ela, era como se não fosse o canceriano lhe falando.
Ela olhou para Dohko e Shion, que se mostravam neutros diante da situação. Só então ela percebeu que estava corada e que todos ali perceberam, ou seja, estava denunciando seu estado na presença do canceriano. Ótimo. O único que não a via era o próprio, que estava atrás dela, provocando-a. Se tivesse que segui-lo para fazê-lo parar, então que fosse.
– Com licença, cavaleiros. – disse ela educadamente. — Tá, vamos logo. – e disparou na frente, arrancando um suspiro de Manigold.
Chegaram num local onde havia um pequeno gramado num espaço mais elevado, onde havia apenas um banco quase idealizado para observar o céu estrelado. Um lugar ideal para se ter uma conversa. Tália se sentou numa das extremidades do banco, enquanto Manigold fez o mesmo na outra.
Apoiando o rosto na mão esquerda, ela bufou, esperando a iniciativa dele. Já ele procurava as palavras.
– Tália, você está estranha. – disse ele, sem cerimônias. Já havia percebido que com ela era melhor ser assim, pois a esperta sacava todas as entrelinhas.
– Você também, parece que a cada dia esse seu arbusto azul fica pior picotado!
Ela está desviando. Seria mais difícil do que o normal. Se bem que... O que seria difícil? De repente, ele se perguntou o verdadeiro motivo de tê-la chamado.
– Meu cabelo não interessa agora. – bufou. – O seu me parece mais interessante. Me diga porquê mudou.
– Pensei que já me conhecesse nesse sentido, cavaleiro. Ou não presta atenção no que digo?
– Tália, deixe de fazer drama. Ah, esqueci, você parece gostar disso.
– Gostar de drama? Não, isso é com Melpomene. – ironizou. – Gosto mais de comédia, por isso adoro ser alvo de piada e cara feia quando tento ser eu mesma.
– Quando fiz isso?! – a indireta foi recebida.
– Hm, está se acusando?! Não citei nomes, cavaleiro.
– Você é muito esperta, musinha. – Manigold cruzou os braços e fechou o cenho.
– Ah, agora voltou com o apelido? Até agora só tinha ouvido meu nome. Acho que não foi só eu que mudei...
– Deixe de provocação e me diga logo o que aconteceu para estar assim. Você não é assim. – impaciente.
– Ah é? Me diga então, cavaleiro, como eu sou.
– Certo, direi mesmo. Você é meiga, garota, não esse poço de ironia que está tentando ser agora. Aliás, você é a única pessoa que conheci que não tenta ser quem não é, mesmo conhecendo-lhe pouco. E você é, acima de tudo, autêntica, mas parece que deixou uma daquelas servas pomposas lhe arrumar!
Manigold fechou a boca assim que percebeu que a expressão de Tália era ilegível. Droga, odiava não saber o que ela pensava! De repente, ouviu a musa gargalhar e rolar na grama.
– O que foi, garota? – perguntou ele, irritado. Odiava quando não era levado a sério.
– Nada! Hahahahaha É só que... Hahahahahaha – ela se contorcia com as mãos na barriga, até conseguir se acalmar e simplesmente deitar, aproveitando para olhar as estrelas. – Pedi ajuda para Calíope, na verdade. E se ela lhe ouvir falando assim sobre o que ela fez, vai morrer de desgraça e lhe punir até a próxima vida. – finalizou, soltando um riso no final.
O bom desses instantes foi o sorriso que brotou em Tália e permaneceu. O corpo da musa, iluminado pela lua, adquiriu uma sensibilidade ainda maior que a de sempre, os ombros expostos em sintonia com a clavícula suavemente destacada eram sensuais; até os olhos de cores diferentes brilhavam mais, como se a risada da musa fosse o elemento que a ascendesse; o colo subia e descia devido à respiração descompassada, sendo tapado um pouco pelo lenço verde; os cabelos soltos e lisos esparramados pela grama eram a única coisa que intrigava o canceriano.
– Você não parece feliz desse jeito... Por que mudou? – perguntou ele. – Prefiro você do outro jeito. Nem parece a musa que é...
Sem esperar pela resposta, deitou-se ao lado dela na grama – atitude que a impressionou, mas, em vez de questioná-lo, simplesmente aproveitou.
– Digamos que foi um experimento. – respondeu ela, sem desviar os olhos do céu e sabendo que era foco dos olhos dele.
– Deu certo?
– Hmm, relativamente, sim. Não gerou o que eu esperava, mas serviu para mostrar que não preciso mais disso. – virou-se para ele. – Na verdade, deu bastante certo.
Os olhares cruzados quase denunciavam ambas as intenções, mas o canceriano foi mais rápido para demonstrá-la, encerrando a distância entre os dois lábios. Não aprofundou o beijo, apenas depositou (ou roubou) o selinho da musa. Tália não reagiu, apenas continuou o fitando com a mesma intensidade de antes.
– Você continua roubando beijos meus sem nem saber que ninguém nunca havia feito isso. – comentou ela, sem emoção. Sentia-se como se fosse um passatempo dele, quando, na verdade, o que ele fazia significava muito para ela.
– Seu primeiro beijo foi comigo? – o espanto era perceptível, ele até levantou um pouco a cabeça para olhá-la melhor. Tália apenas assentiu com um semblante desanimado.
Manigold não entendia mais nada. Ela sempre parecera tão solta e tranquila quanto a esses roubos e provocações, mas, no fundo, aquilo era outra coisa. Mesmo ele não entendendo muito bem o porquê de o primeiro beijo ser tão importante para uma garota – mesmo ela sendo musa, não deixava de ser garota -, conseguia imaginar o valor. Além disso, o canceriano não entendia o sentimento de satisfação que crescia dentro de si, como se a informação fosse a melhor do mundo. Ser o primeiro a beijá-la não estava sendo pouca coisa dentro do coração dele.
– Na verdade – começou ele, passando uma mão pela cintura dela. -, você não teve o primeiro beijo ainda. – puxou-a para si, até ficarem de frente, com os narizes encostando de leve. – Mas terá e será comigo.
Dessa vez, o selinho foi aprofundado. Manigold não hesitou em pedir passagem com a língua, e lhe foi concedida de imediato. Tália não sabia o que estava fazendo, nem como fazer, mas seguiu seus instintos e traçou uma linha entre o ombro, pescoço e cabelo dele com a ponta dos dedos, até puxá-lo mais para si. Com a atitude, o canceriano se animou totalmente, ainda mais por não imaginar tal iniciativa dela.
Beijaram-se intensamente, enquanto se acariciavam cuidadosamente; as línguas dançavam em perfeita sintonia. O beijo se encaixara perfeitamente naqueles lábios. Manigold apertava levemente a cintura de Tália, que estava deixando! A alegria dos dois era contagiante, parecia não haver necessidade de parar, mesmo faltando o ar. Um indício de excitação envolveu os dois e, como se entendessem, afastaram-se arfando, mantendo apenas o olhar um no outro e rindo em seguida. Manigold não resistiu e acariciou o rosto da musa, mas antes que pudesse falar algo, ela disse:
– Finalmente, cavaleiro. – com um sorriso atrevido.
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Do outro lado, na quarta tenda, Clio e Kárdia bebericavam vinho e comentavam sobre os contos que ela já havia escrito. Kárdia se mostrava realmente interessado, porém, às vezes, deixava algumas palavras dela passarem porque se distraía com os belos lábios da musa.
– Boa noite. – uma voz seca foi ouvida pelos dois, que, ao se virarem, depararam-se com El Cid. – Interrompo?
– Não! – disse Clio, sorrindo, ao mesmo tempo em que Kárdia disse “sim”. – Hm, Kárdia, há problema?
– Não. – respondeu, revirando discretamente os olhos. El Cid sorriu de canto.
– Entendo que é necessário usar a armadura dourada nesses eventos, mas, por curiosidade, vocês não tem a permissão de tirá-las por um minuto sequer? – perguntou ela.
– Na verdade, temos, mas algumas ocasiões só permitem algumas pessoas de verem. – Kárdia comentou, olhando para El Cid e rindo. Já o capricorniano corou ferozmente e o reprovou com o olhar. Clio fingiu desentendimento.
– Kárdia, deixe de ser inconveniente. – El Cid respondeu, levemente transtornado. Teria que tomar cuidado maior perante Clio, pois já começaram mal quando encontraram Cléo na vila.
– Inconveniente? O que andou pensando, Cid? Estou falando de quando Athena não está. Geralmente, a obrigação é usar a armadura na presença de Athena. Em eventos menos... Chamativos... Podemos usar vestes variadas. – a malícia na voz de Kárdia era admirável, no bom e no mau sentido. O bom porque ele se safava de insinuações alheias, o mau era porque ele insinuava a inconveniência alheia.
– Sim, é... É isso mesmo.
– Entendi. Perguntei porque imagino que seja desagradável ficar rodeado de pessoas aproveitando a maciez da areia e a suavidade do mar enquanto vocês são munidos de ouro no corpo. – Clio, sinceramente incomodada por eles.
– Não se preocupe, sempre somos compensados depois. – Kárdia disse. – Falando nisso, Cléo mandou lembranças, Cid. Passei na feira para acompanhar a musa da tragédia e me encontrei com ela...
Kárdia não sabia que Clio havia conhecido Cléo e sabido de sua relação com El Cid, por isso sua voz não incitava vitória, mas teria sido pior se soubesse. El Cid, pelo contrário, não sabia onde se enfiar.
– Engraçado – puxou El Cid, recuperando ar. -, disseram-me que Régulus foi quem buscou Melpomene, pois eu estava para realizar tal tarefa, mas o enviaram porque parece que quem deveria ter feito acabou se distraindo... Você disse “Cléo”, certo?
Dessa vez, quem ficou sem cara foi Kárdia. Realmente, ele havia ido buscar a musa, mas a florista dissera que estavam ocupadas, então ele foi se divertir até a musa se liberar. Que mal havia nisso? Entretanto, não seria interessante passar a informação para Clio.
– Houve um contratempo, nada de mais. – Kárdia disse.
– E onde você encontrou Cléo mesmo? – El Cid cutucou um pouco mais, não deixaria o escorpiano levar a melhor dessa vez.
Clio observava os dois entendendo o que estava acontecendo, a leve disputa entre eles era desnecessária e não levaria a lugar algum.
– No meio da rua, você sabe como ela é. Aliás, poderia ter escolhido uma menos aberta... Se é que me entende. – o escorpiano não resistiu e a faze de El Cid mudou para o vermelho escarlate que ele queria.
– Cale a boca, Kárdia. No âmbito da escolha, você não tem a moral que mostra ter. – El Cid já estava se irritando.
– Ah, é? Clio, me diga se você... – quando se virou para o lado, percebeu que ela não estava.
Os dois cavaleiros se entreolharam furiosos, pois haviam afastado a musa sem esforço algum. Patéticos era como se sentiam, e com razão. Em direções opostas, os dois saíram e, sem saber, procurariam a musa da história novamente.
~
Na mesa da primeira tenda, Terpsícore enchia a quarta taça de vinho. Havia dito que não beberia nessa noite, mas não resistiu, sentiu uma provocação dentro de si depois de ver o cavaleiro de gêmeos rodeado de amazonas. Mordia o lábio só de pensar em Defteros fazendo com aquelas amazonas o que fizera com ela... Por algum motivo, queria que não fosse verdade.
De repente, sentiu uma presença ao lado e se virou; Defteros estava ao seu lado, quase encostado, servindo-se de mais vinho. Em seu rosto, um sorriso de canto que desafiava a normalidade, como se estivesse incitando a provocação dela sem se mexer. Terps, diante disso, virou o rosto e continuou encarando a lua. Ela esperava que o cavaleiro saísse logo, mas ele continuou ao seu lado, em silêncio.
O silêncio era absurdamente incômodo. Ela adoraria quebrá-lo com qualquer fala, sendo que o que faltava era justamente a fala. De qualquer forma, não poderia continuar em silêncio após o que fizeram.
– Por que está aqui? – perguntou ela, baixinho, enquanto rodava a taça.
– Porque posso.
– Por que não volta para sua atenção ridícula e evita essa grosseria comigo? – as palavras dela simplesmente saíram.
Defteros riu e se virou para ela, pegando seu queixo com o polegar e o indicador.
– Não questione minhas decisões. Eu faço o que quero. Se você não, então se vire. – aproximou mais seu rosto do dela. – Ridículo é esse seu penteado de criança. Aliás, você parece tão criança que não sei como me excitei ontem.
Ele pôde ver as bochechas brancas dela se enfatizarem num vermelho.
– Ah, você gostou? – sarcasticamente. – Quer de novo, não quer? Me diga o que você fez depois que correu da Casa de Gêmeos feito uma tola desiludida... É engraçado lhe ver assim, pedindo para que eu evite a grosseria, mas agindo como se gostasse. – soltou-a bruscamente.
– Não consigo entender como você consegue ser assim até sob essa linda lua! – ela disse, num misto de chateação e raiva. Ainda mais linda, no ponto de vista de Defteros.
Assim que a viu o seguindo, ele se virou e a apertou nos braços.
– Não me provoque, Terpsícore.
– Eu não posso, mas você pode? Bom, tudo bem, provoque suas amazonas e não a mim. – ela se virou, fazendo com que os cabelos presos batessem no rosto do geminiano.
Terpsícore não foi capaz de dar um passo, pois foi pega pela cintura e puxada para o peito do cavaleiro.
– Você não aprende mesmo. – Defteros a pegou no colo e seguiu em direção ao mar. Terpsícore, assim que viu a direção, esperneou-se e tentou se desvencilhar dos braços dele.
Ele conhecia aquela cena, ela se debatia, mas, no fundo, estava excitada. Era óbvio, ainda mais percebendo os mamilos dela eriçados debaixo do vestido. Defteros sentiu a armadura incomodar sua ereção; sim, bastava tê-la daquela forma para se excitar. Em resposta aos estímulos provocados sem querer, ele apertou a coxa que segurava com a mão direita.
– Ah. – gemeu ela com o aperto, para o infortúnio de Defteros, que se controla mais do que o normal. – Me desça, Defteros!
– Não, vou jogá-la no mar para ver se apaga esse fogo que evidentemente existe em você, musa safada. – chegando quase na beira do mar.
Terpsícore arregalou os olhos em sinal de desespero.
– Por favor, não faça isso! – implorou ela. Ah, ele adorou ouvir isso, com certeza botaria a nova ideia em prática, mas outro dia. Parou, então, de frente para o mar com a musa assustada nos braços e aproximou a boca do ouvido dela.
– Só não lhe jogo no mar porque sua roupa branca se tornaria transparente, e assim todos teriam a oportunidade de aflorar as mentes sujas com você e esse corpinho de musa. Com certeza, você inspiraria muitos cavaleiros aqui... – mordiscou a cartilagem, arrancando um gemido dela. – Mas você não. Você só deve inspirar a mim.
Defteros, ao terminar, roubou o beijo tão desejado dela, traçando a língua com a sua e deixando-a mais excitada ainda, depois se afastou e voltou para a terceira tenda.
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Mel não aguentava mais a falta que sentia de Albafica, ela achava absurdo alguém ter que passar a noite tão bela sem companhia. Independente de como tivesse que ficar ao lado dele, não o deixaria assim. Levantou-se, então, da almofada e seguiu caminho para as Doze Casas.
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