Notas iniciais
Espero estar passando o carinho que quero para vocês através da fic. Sei que disse que esse aqui esquentaria algumas coisas. Bom, não menti, realmente esse capítulo vai aflorar quenturas em certos corações, mas as consequências só serão lidas mais à frente hihi Não me matem, já já aparece um momento estilo caçada de Defteros para vocêsss. Tenho costume de não terminar toda a história num cap, então, propositalmente, não encontrarão um dos casais queridos nesse cap porque quis focar num outro casal que está meio distante! Paciência que certos incêndios serão apagados aos poucos ;) Aproveitemos! E agora que tenho um Snickers gostoso pra devorar na madruga boladona, a cobra vai fumar! Ah, sobre referência musical: dou muito valor às músicas que escuto para descrever certas cenas (como por exemplo, Time Is Running Out, entre outras de Muse, me influenciou bastante no hentai de Defteros do cap. 10 :x), então digo que, dessa vez, a música especial que acompanha o primeiro casal de hoje é All Of Me de John Legend – mas, claro, há outras. Enfim, chega de enrolar! Boa leitura!

Capítulo 16

Melpomene não se importou com mais nada após ter tomado o impulso para chegar até seu pisciano solitário. Incentivada pela brisa fresca, a musa partiu em disparada até a décima segunda casa, tendo esforço apenas a partir da sexta casa. Mel não estava pensando muito, havia outro domínio dentro de si que mal podia reconhecer, mas era o mesmo domínio que a fazia beber aqueles elixires de Redka e passar a tarde desmaiada enquanto o veneno conhecia sua nova moradia. Um domínio que, consequentemente, mexia com sua calma e aflorava sua ansiedade, quase podia dizer que era um tipo de veneno – mas havia começado muito antes dos elixires.

Chegando na última das Doze Casas, ela se encolheu. O ambiente escuro juntamente com o ar mais frio parecia pedir ajuda, não só por esses dois fatores, mas pela carga solitária que preenchia aquela entrada. Não custava, na mente dela, Albafica amenizar sua essência na casa. Mas tudo bem, ela gostava disso.

– Melpomene?

A voz dele chamando seu nome não poderia causar mais do que arrepios na musa, desses que arrepiam até a alma. Algo muito grandioso deveria existir por trás daquele chamado singelo, caso contrário, não o receberia dessa forma. Ela não respondeu, queria que ele aparecesse sozinho, e era lindo saber que ele a reconhecia com facilidade.

O cavaleiro de peixes se mostrou cuidadosamente, deixando metade de sua silhueta iluminada pela luz da lua que entrava pelos pilares, e permaneceu observando a musa de longe. Mel não saberia dizer quanto tempo passaram apenas se olhando nos olhos, contudo saberia dizer quanto tempo poderia passar daquele jeito. A leve brisa balançava o cabelo azul-claro dele. Azul que lembrava água cristalina, tranquila... Por segundos, ela se pegou perguntando-se como seria mergulhar naquelas madeixas lisas, qual aroma possuíam... O cheiro de Albafica era de rosas, mas e se ela se aproximasse mais? Seria o mesmo aroma ou um aroma mais íntimo, misterioso e desafiador?

– Melpomene, o que faz aqui? – perguntou ele, com a voz imponente e quase grossa. Uma voz que continha medo, medo de ela se machucar.

Albafica observou que Mel ainda segurava sua rosa branca.

– Não lhe avisaram que é perigoso fazer o caminho do Santuário desacompanhada de um protetor?

Mel não queria responder, apenas observá-lo. Mal sabia ele que, quando se preocupava, arregalava os olhos e franzia minimamente o lábio inferior... Detalhes que poderiam passar despercebidos por qualquer uma, mas que pra ela eram fascinantes.

– Melpomene, vou chamar alguém para lhe levar de volta para o luau. – disse ele, antes de virar para uma porta.

– Não! – Mel finalmente se pronunciou. Assim que ele dissera a frase, ela se desesperou.

– Como não?

– Não, vim aqui para ficar com você. – admitiu ela, encolhida novamente, enquanto fitava a rosa branca. De repente, fitá-lo pareceu uma tarefa difícil. Pôde ouvi-lo bufar.

– Já lhe disse que isso não é possível. Por que insiste?

– Porque ninguém deveria ficar sozinho numa noite tão bela como essa. – os olhos subiram para ele dessa vez, e com intuito de desafiá-lo.

Albafica percebeu a mudança de postura dela, com certeza Mel tinha noção do que fazia, mas gostava de provocá-lo.

– Esse tipo de... Atitude sua... É dolorosa, Melpomene. – o rosto dele não pôde mais ser visto, pois Albafica baixou a cabeça lamentavelmente.

No fundo, Mel sabia que doía, pois doía nela também, como se pudesse absolver a dor do pisciano. Certo, talvez seja exagero, mas conseguia senti-lo diferente. Por vezes, sentiu ele sorrindo quando entregou-lhe flores e vice-versa. Contudo, ela tinha que ser forte pelos dois, sua tentativa com veneno era puramente um tentativa de fazê-los felizes e ela sabia que o caminho estava se abrindo, senão não continuaria com essa ideia absurda.

– Eu sei. – foi a única coisa que ela conseguiu dizer. Odiava quando ele escondia o rosto.

– Eu sei que sabe. – para a felicidade dela, ele recompôs a postura, exibindo novamente seu belíssimo rosto. – Venha, vamos lá fora.

Os dois seguiram para a sacada da lateral da Casa de Peixes, cujo jardim de rosas preenchia a parte de baixo e oferecia um doce aroma para os visitantes. Numa extremidade da larga sacada, Albafica de pôs a olhar as estrelas, enquanto era observado por Mel, que teve de ficar na outra extremidade por condição dele.

– Mantenha-me longe o quanto puder, Albafica. – disse olhando para as estrelas e fazendo-o fitá-la seriamente. – Em breve, mudarei isso.

– Do que está falando? – franzindo a testa.

– Vou lhe mostrar que você não pode me machucar. Vou lhe convencer que essa distância alarmante é desnecessária e que nós... Somos possíveis.

Enquanto dizia, lágrimas se acumulavam em seus olhos, o que, por sorte, Albafica não pôde ver. Ele, por outro lado, franzia cada vez mais o rosto não só porque parecia que Mel estava enlouquecendo, mas também por saber que era, sim, impossível.

– Não sei quando passei a alimentar essa maldita ideia na sua cabeça, mas se continuar com ela, prefiro que se mantenha definitivamente longe daqui. – disse ele.

As palavras, por mais duras, não surtiram efeito na musa que, assim que o conhecera, adquirira uma confiança surpreendente.

– Guarde suas palavras, Albafica. Não quero que, quando virarmos possíveis, você gaste o tempo se desculpando por estar errado. – revidou ela, sorrindo de canto.

– Melpomene, devo passar a desconfiar de você?

– Pelo contrário. Contudo, essa tarefa vai demorar, acredito. – a seriedade fazia parte do semblante de Mel, algo que Albafica estranhou. Ela estava realmente acreditando nas próprias palavras?

– Não haverá tarefa nenhuma. Não tente mudar o que já foi estabelecido e se encontra em harmonia.

– Você é tão teimoso, Albafica! – exclamou, virando-se para ele. – Parece que tem medo de mudar!

– Tenho sim. Não, na verdade – ele fez o mesmo e a encarou -, tenho medo de tentar, pois, na melhor das hipóteses, machucarei só a mim. Você pode não compreender por motivos óbvios, mas não deixarei que enfie esperança num lugar onde os fatos já se mostraram imutáveis.

– Isso é ridículo! Você pretende desperdiçar sua vida dessa forma? Sequer tentando encontrar uma maneira de conviver com os outros. – uma chateação se acumulava no coração da musa.

– Já encontrei. – a voz dele agravou, trazendo um peso maior nas palavras. — Minha maneira é ficar longe e minha única missão é servir Athena. Enquanto estiver fazendo isso nas expectativas certas, não precisarei mudar nada. – ele suspirou, não esperaria resposta dela. –Ponha os pés no chão, Melpomene.

As últimas palavras atingiram de certeira a musa, que, de repente, viu um calcanhar de Aquiles em sua confiança. Como ele poderia pedir isso a ela? Se colocasse os pés no chão, perderia tudo. Pelo visto, não adiantaria conversar com ele sobre isso, Albafica não era o tipo de pessoa que acreditava nas palavras, então só poderia ser do tipo que acredita nas ações. Entretanto, se ela dissesse que estava inserindo veneno no próprio corpo por ele, o efeito poderia ser o contrário: mais culpa na alma do pisciano.

Não. Nunca poderia lhe revelar a mágica. Teria de batalhar agregando o tempo como aliado.

Na outra extremidade, Albafica a observava atentamente, vendo-a assentir sem parar, enquanto pregava os olhos no chão. Sua intenção não era machucá-la, nem deixá-la cabisbaixa, mas se isso significava que estava compreendendo a verdade – e colocando os pés no chão -, paciência. Contudo, não queria proporcionar um clima ruim para a musa que, de tão bom grado, veio lhe fazer companhia. Ah, a doce Mel...

– Poderia saber... O que seu colar significa? – perguntou sem cerimônia, para a surpresa de Mel.

– C-Claro. Hãn... – ela pegou o colar e o olhou. – Os três círculos simbolizam os três atos* da vida; as três fases principais pelas quais os seres vivos passam. O primeiro é o nascimento, não só do ser, mas do conflito. Nesse caso, o conflito não é necessariamente ruim, mas não deixa de ter essa essência atribuída ao herói* que nasce. O segundo círculo é a vida em si e tudo o que compõe os dias que existem entre o primeiro e o terceiro círculo. É a fase marcada pelas lições*. Todo herói recebe-as através de seus conflitos. E, por fim, o terceiro círculo é a morte do herói. É o fim da tragédia, não totalmente trágica, mas a morte, por si só, é uma finalização trágica dessa trajetória emocionante que é a vida.

– Mais interessante do que eu imaginava. – comentou Albafica, que se encontrava totalmente impressionado com tamanho significado.

– O que você imaginava?

– Prólogo, episódio e êxodo.

– Aristóteles é muito influente, porém não é único. – Mel sorriu. Gostara de saber que seu querido conhecia um dos filósofos que dissertara sobre a tragédia grega. Albafica, por sua vez, gostara de ver um sorriso brotar no rosto delicado da musa.

– Entendi. – suspirou, recompondo-se. – Eu... Fiz uma breve pesquisa sobre você...s. Musas. Descobri que não só a musa da poesia épica possui uma bela voz digna de ser ouvida.

Mel sorriu assim que viu o pisciano corar – pelo visto, corara bastante, pois ela viu a vermelhidão de longe -, ele havia pesquisado sobre elas e descobrira um fato sobre si que mal comentara com alguém no Santuário.

– Está me pedindo um canto, cavaleiro? – o sorriso travesso dela apareceu, desconcentrando o pisciano.

– Se estiver, você canta? – perguntou ele, tentando parecer sério.

Como resposta, Mel iniciou sua canção favorita.

~

Apesar de certa timidez devido à novidade do momento, Redka e Degél roubavam beijos um do outro com frequência. Era muito novo e inesperado, mas, para o dois, aconteceu e aconteceria mais. O aquariano mal se reconhecia diante da presença dela, sentia que só queria mais, sentia que esperara muito por algo que era quase certo. Sempre a vira como uma amiga? Não, algo mais, mas não se mostrava por medo de não ser correspondido. Ela, da mesma forma, guardava para si a proporção do deleite que sentia ao vê-lo pela vila. Agora os dois matavam uma saudade que nem sabiam que existia.

– Não sei o que dizer. – Redka ao terminar mais um beijo. – Acho que precisamos ir devagar, não é novidade só para nós.

Degél observou o redor e viu que eram alvo de olhadas surpresas. Bom, era de se esperar, já que ninguém nunca o vira com um par.

– Desculpe-me por lhe desapontar, mas o olhar dos outros não me importa quando tenho o seu. – o toque das mãos dele nas bochechas dela a fez estremecer. Degel mal se reconhecia pelas palavras românticas, talvez tivesse realmente uma magia em volta da lua. Redka riu do comentário para disfarçar que se derretera.

– Esse seu lado nunca se mostrou para mim antes. Aliás, acho que o único lado que você mostrava era seu gosto por flores, já que sempre aparecia lá na loja... – disse ela, divertida, enquanto brincava com uma mecha verde dele.

– Meu interesse não estava exatamente nas flores...

A mensagem fora captada de imediato por ela, que abriu a boca em um perfeito “O”, para a graça de Degél. Em seguida, ela mordeu o lábio.

– Aconselho a não fazer isso, Redka... – disse ele fitando o lábio inferior dela, que foi logo solto.

– Então, aconselho que pare com o galanteio. – com as bochechas vermelhas. Ela corada ficava ainda mais linda, pois a sarda acompanhava e o charme aumentava, na perspectiva do aquariano.

– Acho conveniente. – respondeu com um leve sorriso de canto. – Me conte o que tem feito com Mel, soube que as duas estão cada vez mais próximas.

– Eh?

– Sim, ela vai todos os dias na vila lhe ver, não? Pelo menos, é o que nos informam.

– Por que informam? – perguntou, um pouco preocupada com outras informações que poderiam ter sido ditas.

– Algum problema? Precisamos saber para poder buscá-la no final da tarde. Um de nós sempre é mandado para acompanhar as musas no caminho que passa do Santuário. Mas por que essa cara de preocupação?

Droga, ela não sabia disfarçar, ainda mais para ele, que era tão observador. Como se nada tivesse acontecido, Redka se recompôs.

– Nenhum. Apenas curiosidade. Vai que estivessem botando espiões por aí. Heheh. – contornou ela, sem muito sucesso, pois viu uma sobrancelha do aquariano levantar.

– E se botassem, o que descobririam?

– Que Mel me ajuda na loja. – boa! Provavelmente, fora convincente. – E, por mais que eu tenha dito para ela não me ajudar, ela insiste porque gosta de cuidar das flores como eu. Mas, se descobrirem, posso ser julgada por permitir que uma Musa trabalhe!

Depois de colocar as palavras ao ar, Redka percebeu que realmente tinha que achar outra desculpa para dar, pois, se desse essa para mais perguntadores, poderia se prejudicar de verdade.

Degél deixou um riso sair e abraçou a garota com ternura, depositando um beijo em sua testa.

– Ninguém vai lhe julgar. – afagou o cabelo ruivo.

Os dois permaneceram trocando carinhos singelos e se deixaram levar pelo agradável som que os músicos faziam com os instrumentos de corda. Redka se sentia um pouco mal por ter que mentir, ou omitir, sobre o que acontecia em sua loja quando Mel a visitava, mas, ao mesmo tempo, prometera para a musa que iria ajudá-la. Não poderia julgá-la pela loucura de inserir veneno em si mesma, afinal, estava sofrendo da mesma doença que ela. Por um momento, perguntou até onde iria por Degél.

– Vejo que o luau está bem mais agradável agora! – a voz doce de Clio tirou os dois de seu transe.

A musa e o cavaleiro trocaram sorrisos cúmplices; Clio sabia que era questão de tempo e iniciativa – e talvez de Lua também. Redka também sorriu e recebeu um da musa.

– Bom, não vim com intenções de interferir nesse belo momento. Na verdade, gostaria apenas de saber se viram Melpomene por aqui.

Clio parara para perceber que Mel não estava no evento segundos antes de abordar o novo casal, que respondeu não ter visto a musa da tragédia depois de tempos.

–Se quiser ajuda para procurá-la, estou à disposição, senhorita. – uma voz seca e fria se aproximou de Clio, que se virou e viu o cavaleiro de capricórnio a encarando.

– El Cid, gostaria sim de sua ajuda! – disse ela, mais animada. Ter a ajuda de um cavaleiro influente poderia facilitar as respostas da busca. Quando se tratava das irmãs, Clio exagerava na atenção e precisão.

Degél, que havia visto a cena de Kárdia e El Cid de longe, riu consigo mesmo ao ver que, dessa vez, quem estava mais à frente na conquista pela musa era o capricorniano. Provavelmente, Kárdia dormiria de mau humor essa noite, ou então dormiria fora para curar a frustração.

Após umas voltas, Clio e El Cid seguem para a entrada do caminho pelo qual se volta para o Santuário, lá estavam três cavaleiros de prata cuidando quem entrava e quem saía e Clio perguntou se sua irmã havia saído. Dois dos cavaleiros responderam que sim e que ela havia saído com bastante pressa, alegando que precisava ser liberada logo. El Cid aproveitou para dar uma bronca neles por terem permitido que ela saísse desacompanhada e, por fim, perguntou se ela tinha informado o destino, mas a resposta foi negativa e rendeu mais uma bronca para os dois prateados.

– Eu vou atrás dela, cavaleiro. – disse Clio, pondo-se para a frente. Não deu nem um passo e foi pega pelo capricorniano.

– Não vai, Clio. Se quiser, eu vou, mas antes podemos tentar encontrá-la por outro meio. Talvez ela tenha subido até o Templo do Grande Mestre.

Clio mantinha os olhos fixos nos dele enquanto pensava acerca da proposta. Mal perceberam a proximidade dos rostos; El Cid mantinha o braço passado na cintura fina da musa.

– Que outro meio é esse? – perguntou ela, voltando para a realidade.

– O cosmo. Vou tentar me comunicar com Albafica para ver se ela passou por lá.

Clio deixou um risinho escapar com a possibilidade, não seria surpresa se Mel tivesse subido as doze casas para ver o cavaleiro de peixes. Há tempos ela já percebera o interesse da irmã representante da tragédia. Uma pena que sua sina só se intensificava com o sentimento que ela acumulava pelo cavaleiro proibido.

Dito e feito, El Cid obteve a resposta positiva de Albafica, que informou sobre a passagem da musa por sua casa e nada mais. Clio, aliviada, pegou a mão de El Cid e se dirigiu à mesa dos vinhos.

– Acho que mereço beber depois dessa preocupação. – ela ria enquanto se servia na taça.

– Deixe-me servi-la, por favor.

– Já fez demais, agradeço sua iniciativa, cavaleiro. Talvez piorasse o caso se eu tivesse saído para procurá-la.

– Não teria lhe deixado sozinha, Clio. – os dois brindaram levemente e Clio sorriu.

– Obrigada, El Cid.

Dessa vez, quem via a cena de fundo era o escorpiano.

~

Terpsícore, para se distrair do incêndio que parecia dominar seu corpo, decidiu se juntar à roda de músicos e iniciar uma dança. O vestido solto a convidava a rodopiar e se mexer ao som dos instrumentos de corda. Acabou chamando tanta atenção que mais cavaleiros e amazonas se juntaram à roda. Sem perceber, Terps inspirou os músicos com sua dança e as melodias ficavam cada vez mais ricas. Não só os músicos como também as pessoas que a viam dançar se inspiraram, e a “pista” passou a receber mais dançarinos.

A felicidade estampada na cara da musa a tornava mais bela ainda; os cabelos dançavam em harmonia com o corpo e liberavam o aroma doce que fazia parte de sua composição. Tudo isso era fato consumado por todos, inclusive por um cavaleiro distante, que comia, novamente, a musa com os olhos. Totalmente enraivecido com a cena, Defteros virou o conteúdo da taça de vinho na boca e inspirou fundo. Até de lá conseguia sentir o aroma da maldita musa. Continuou observando-a dançar até ver um dos músicos lhe emprestar a lira – o maldito instrumento que ela tanto adorava – e a felicidade estampada nela aumentar consideravelmente; em seguida, Terps começou a tocar e dançar para o músico, fazendo-o babar tanto quanto Defteros babaria se fosse para ele.

De repente, a taça que o geminiano segurava transformou-se em vários cacos. Terpsícore pagaria mais tarde...

~

Num canto escuro da praia, ao lado das grandes pedras que delimitavam a ponta da praia do Santuário, longe das quatro tendas, perto da tranquilidade da luz da lua, uma musa encostava a cabeça na armadura fria de um cavaleiro.

Os dois se mantinham em silêncio, observando a lua, trocando carícias suaves e singelas; ele brincando com mechas macias do cabelo ruivo dela; ela contornando as formas em relevo da Armadura de Ouro de Virgem com o dedo fino, seguindo com ele até a bochecha do cavaleiro e se demorando em circulá-la. A musa mantinha os olhos fechados, acompanhando o costume dele.

– Parece que apreciou minha forma de ver. – ele quebrou o silêncio com a voz baixa, ao sentir os dedos dela passando por seu nariz. Asmita sorria com o toque.

– Apreciei principalmente por ter sido uma surpresa.

Calíope não tinha vontade de falar, queria apenas aquele momento. Nunca imaginara se encontrar desse jeito com único cavaleiro que a desprezara. De repente, tudo pareceu apenas imaginação.

– O que me importa agora é saber se está mais calma quanto a esse fato. – disse ele, nunca deixando de acariciar as madeixas dela.

– Não deveria ter me exaltado tanto, fui indelicada. – uma lágrima solitária deslizou pela bochecha dela. Não sabia se era emoção ou comoção.

– Foi, mas já era esperado.

Asmita sentiu a musa levantar um pouco a cabeça.

– O que quer dizer com isso? – perguntou de forma explosiva, já se preparando para outra hostilidade dele.

– Acalme-se, Calíope. – Asmita deitou a cabeça dela delicadamente em seu peito, mantendo o carinho na nuca da musa. – A verdade é que eu esperava tal reação exaltada diante de uma surpresa nada agradável e previsível para você, ainda mais por ser um ser tão apreciado pelo sentido da visão. – ele suspirou, percebendo que a tensão dela passava. – No fundo, eu não sabia como lhe relatar o fato.

Era estranho, para ele, admitir que não sabia como fazer algo tão fácil. Cada vez mais, Asmita sentia que a musa, em vez de inspirá-lo, intrigava-o por dificultar certos costumes. Nunca teve problema em revelar sua cegueira para os outros, mas teve o cuidado para não deixá-la informada sobre isso. Por quê?

– E eu não soube como recebê-lo... – Calíope se referindo ao fato, tristemente.

Novamente, ele sentiu a sensação ruim ao vê-la chateada. Apesar de ser uma nova sensação, Asmita sentia a intuição esclarecer o que deveria fazer para confortá-la. E, num impulso, puxou o rosto de Calíope e a beijou na mesma intensidade que antes. Sentiu a mão dela subir para seu pescoço e puxá-lo ainda mais. Em resposta, ele envolveu-a pela cintura e colocou os corpos – impedidos de se sentirem mais devido à armadura.

Após finalizarem o beijo, Asmita disse algo bem interessante.

– O que importante é que você sabe o que há por trás disso.

– Sei? – Calíope fitou o rosto divino do cavaleiro, fechando os olhos em seguida e deitando o rosto em seu peito. – A única coisa que sei no momento é que ninguém nunca me olhou tão bem...

Asmita sorriu de canto.

– Acredito que ainda há muito que olhar...

– Tudo tem seu tempo, cavaleiro. – recebendo e revidando o tom de malícia.

Os dois permaneceram abraçados desfrutando do silêncio que os embalava. Calíope poderia facilmente dormir daquele jeito, com aquele homem e naquele lugar, mas se manteve acordada, pois preferiu vê-lo dormir, se é que o cavaleiro de virgem estava realmente dormindo.

Notas finais
Sobre os asteriscos: Ato = divisão de uma peça teatral que oferece outra noção de tempo, espaço, estrutura e ação da cena. Herói = principal personagem de uma tragédia, cujo erro proporciona lições ao longo do espetáculo, no corpo social, e que tem sua queda no final devido a erros cometidos. O herói é um símbolo importante para passar conhecimento para os espectadores, pois o herói descobre que sua queda é resultado de suas ações. Nos dramas gregos, seu erro mais frequente é o orgulho.