EmMusas - The Lost Canvas

3 Sobre águas e sustos


Notas iniciais
Terceiro capítulo da fic no ar! Agradecendo o apoio já recebido e desejando boa leitura!

Capítulo 3

Urânia e Sísifo desceram uma escadaria que havia numa das laterais da 13ª Casa, a qual levava direto para outra casa enorme – a biblioteca. Dois andares eram contemplados por gigantescas estantes de livros. Livros e muitos livros preenchiam a essência do local. A musa ficou maravilhada.

– Isso é maravilhoso! – exclamou.

Sísifo pôde ver um sorriso radiante abrir no rosto dela, não havia adjetivo para definir fielmente a beleza que havia ali. A musa já era dona de uma áurea celestial admirável, e não a tinha visto sorrir desde que a conhecera, mas agora ela sorria para ele, assim como seus olhos. A voz dela também tinha uma alegria expressiva, mas ela logo se recompôs, e ele a viu corar.

– Não, não faça isso. – pediu. Urânia levantou uma sobrancelha, confusa.

– Fazer o quê, cavaleiro?

– Não pare de se expressar... Sorrir... Se quiser, retiro-me. – Sísifo não sabia exatamente o que dera nele para dizer tal bobagem, apenas disse. Acabou mantenho os olhos nas feições da musa, ficou preocupado com usa reação. Mas, ao contrário do esperado, ela sorriu novamente.

– Não vejo necessidade de se retirar. Se o Grande Mestre pediu que me mostrasse a biblioteca, é porque você a conhece, certo? – dessa vez, quem corou foi ele.

– Certo.

– Então, precisarei de você. – Urânia sorriu novamente, fazendo Sísifo suspirar.

A musa sabia dos efeitos que causava, por isso tomava cuidado com seu jeito, afinal, já possuía o título de “A celestial” pela sua óbvia essência. No entanto, não se gabava disso como Calíope provavelmente faria, preferia se manter discreta, pois já chamava muita atenção por sua áurea – sabia disso. Ela não era de sorrir facilmente, encarava a vida com uma leve seriedade, mas não reprimia bons momentos.

Urânia buscava valentia nas estrelas, as quais ela considerava suas amigas; entretanto, nunca conseguira a valentia para encarar o mais nobre dos sentimentos, então tomava cuidado com qualquer ponto inicial de interesse — até porque já havia se apaixonado, e não obtivera sucesso algum nisso.

Por um tempo, os dois se envolveram com a variedade de livros que a biblioteca oferecia. Sísifo se mantinha como observador da bela musa, adorava a empolgação que ela mostrava para com certos livros que descobria; não pôde deixar de observar a bela pintinha que ela tinha no canto direito do rosto, não poderia ser mais charmosa. Urânia olhava o cavaleiro pelo canto dos olhos, algumas vezes; sabia que era observada, mas cuidava para não dar muita brecha.

Em determinado momento, ela subiu uma escada para alcançar um livro no alto da estante, mesmo contra a vontade de Sísifo — que se oferecera para fazer isso -, e acabou se desequilibrando enquanto descia com o livro em mãos, caindo em cima do cavaleiro.

Sísifo a tinha no colo e a observava procurando por vestígios de machucado, mas ela parecia muito bem. Por um segundo, pôde mergulhar nos olhos da musa bem de perto, e seu coração acelerou ferozmente. Ela mantinha um braço em seu pescoço.

– Perdão! – pediu, soltando-se dele e recompondo-se.

– Pelo o quê exatamente: não aceitar minha ajuda ou cair em cima de mim? – perguntou ele, brincando. Urânia quis sorrir com o descabimento dele, mas manteve-se na brincadeira.

– Preciso pedir perdão por rejeitar sua ajuda? – colocou as mãos na cintura. Sísifo riu, enquanto pensava se algum dia ela conseguiria deixar de ser tão linda.

– O que tem em mãos? — olhou o livro que ela segurava.

– Ah, é um pequeno livro de poesias que correspondem às constelações. Não sei quem o escreveu, mas aprecio cada palavra.

– Como sabia que estava aqui?

– Não sei, apenas soube. – ela foi até a sacada da ala, com o livro em mãos, para se refrescar um pouco. O sagitariano foi atrás. – Nossa, está tão quente, mal posso esperar pela chegada da noite.

– Além de poesia, o que mais você aprecia? Se não for incômodo dizer, é claro... – Sísifo não sabia muito bem como se portar diante da musa. Ao mesmo tempo em que ela parecia fechada, parecia aberta.

– Astronomia – era evidente. – e água.

– Água?

– Sim, água. A leveza que a água nos proporciona nunca será reproduzida fora dela. – a objetividade da resposta fez Sísifo se perguntar quantas vezes ela havia respondido a pergunta. Ele apenas sorriu em resposta, cada vez mais se convencia de que havia encontrado a mais bela das estrelas...

~

Tália e Terpsícore desciam as escadas animadas. A primeira com uma alegria um pouco caótica, divertindo-se à custa de tudo o que fazia parte dos dias, não enxergava tempo ruim, apenas uma boa oportunidade de satirizar as mazelas sociais e humanas; por ir na contramão da convenção, Tália quase não passava por musa aos olhos dos outros – algo que incomodava Zeus também. A segunda era o deleite em pessoa, seus passos quase sempre eram rodopiados e a bela energia que emanava era quase tangível. Possuía um jeito livre, leve e solto de encarar as coisas, a menos que alguém estivesse triste. Não via motivos para não dançar, ainda mais com a lira em mãos.

Manigold já as observava do telhado da Casa de Câncer. Assim que elas entraram, ele pulou.

– AH! – Terpsícore gritou, e Manigold a segurou antes de ela cair de susto.

– Ah, vai, não sou tão horroroso assim. – brincou, soltando a musa delicadamente. A pele macia dela, assim que tocada, ficou levemente vermelha. O canceriano estranhou.

Tália riu do comentário dele e Terpsícore fez o mesmo; ele gostou da reação das duas.

– Posso saber o destino das duas musas? – perguntou numa voz galanteadora. Tália logo corou.

– Estamos indo à cachoeira, cavaleiro. – apesar de ter respondido, Manigold só tinha olhos para a loira.

– Entendo. Me tire uma dúvida, sim? – pegou a mão de Terpsícore, ignorando Tália por um momento. – A inspiração que eu terei depois de vê-la é imediata ou nem existe?

– O-o quê? – a musa da dança corou profundamente, não sabia como reagir a certas graças.

– Ele fez referência à musa inspiradora, Terpsícore. – Tália esclareceu, fingindo não perceber a ignorada.

– Ah! – a musa riu e retirou a mão do cavaleiro, Manigold adorou a graciosidade dela, mas virou-se para Tália.

– Você estragou a piada, sabia? Talvez nem lhe deixe passar.

– Isso não foi uma piada, cavaleiro! – ela o provocou, sorrindo convencida. – E, se foi, é uma piada muito ruim.

– E a senhorita tem muita piada boa por ser musa da comédia? – ele se aproximou dela, fingindo desentendimento. Tália corou levemente e caminhou para trás, sem desviar os olhos dele.

– Talvez...

– Que deselegante. Mas espero que sua visita me inspire, musa da comédia. Só por ser representante de algo que me agrada, deixarei que passe. – ele sorriu e se afastou, vitorioso. Antes de entrar na casa, deu uma olhada de cima a baixo em Terpsícore, o que não passou despercebido por Tália.

As duas seguiram em frente normalmente, mas uma intriga nasceu no interior de Tália. O cavaleiro de câncer a ignorara por quê? Sabia que sua aparência afastava pessoas, e a da musa da dança fazia o contrário, mas se sentiu um pouco magoada – e mal sabia o porquê.

– Todos os cavaleiros são tão gentis, não? – Terpsícore quebrou o silêncio repentino. Exibia um lindo sorriso no rosto, apreciando tudo à sua volta.

– Sim, mas duvido que você encontre um que lhe desagrade, irmã. – Tália riu.

As duas desceram para a próxima casa, mas Terpsícore hesitou antes de chegar no último degrau.

– O que foi? – Tália perguntou, percebeu que o brilho da musa ao seu lado diminuíra.

– Não sei, só... De repente, me senti mal vinda. – estava séria e com o olhar fixo na casa à sua frente, sentia como se estivesse sendo observada com má vontade. Uma onda sombria percorreu sua espinha, deixando a musa arrepiada. Terpsícore pegou o pulso de Tália e seguiu em frente.

Adentrando a Casa de Gêmeos, Tália percebeu que a musa da dança tremia — algo estava errado. Quando chegavam no fim do corredor, passando pela sala principal, perceberam a silhueta do cavaleiro de gêmeos. Terpsícore parou de imediato.

– Terpsícore, os inimigos estão lá fora, não aqui. Relaxe um pouco. – Tália falou baixo no ouvido da irmã, que mantinha os olhos verdes arregalados fitando a figura à sua frente.

– Olá. – o cavaleiro disse, sem aparecer para elas.

– Olá. – as duas responderam.

– Podem passar.

Tália puxou Terpsícore, mas a musa não se moveu. Dessa vez, a expressão em seu rosto era confusa.

– Quem é você?

– Me chamo Aspros. – o cavaleiro disse, ainda sem aparecer totalmente.

– Como? – perguntou Tália.

– Defteros. – o cavaleiro dessa vez se mexeu um pouco; Terpsícore o observava, curiosa.

– Mas não foi isso que você acabou de dizer. – a musa da dança tentou, não compreendia o cavaleiro, apenas sentia sua áurea sombria.

– O que você ouviu? – dessa vez, a voz dele saiu mais aveludada, intensificando um arrepio na loira.

– Vamos, Terpsícore, ele só quer nos confundir. – Tália puxou a musa e passou ao lado do cavaleiro. A loira até tentou olhá-lo, mas não conseguiu vê-lo, pois não estava mais lá.

Quase na saída da Casa, andando com pressa, as duas viram a silhueta de novo à sua frente.

– Sinto que já vi essa cena antes. – Tália brincou, as duas se entreolharam e quando voltaram o olhar para a silhueta, ela havia sumido novamente. – Mas o que é isso, afinal?!

Terpsícore, no fundo, estava assustada, não pela ocasião, mas pela energia sombria que sentia — havia mágoa e uma dolorosa lembrança como composição. Ela não podia identificar nada, mas sentia uma enorme vontade de mudar a energia instaurada naquela casa.

– AH! – ela gritou ao ser tocada por algo. Percebeu que o cavaleiro tão procurado segurava sua mão e a olhava profundamente. A musa perdeu a respiração.

– Prazer, musas da dança e da comédia, meu nome é Defteros e sou o atual Cavaleiro de Ouro de Gêmeos deste Santuário.

Apesar da educação, Terpsícore pôde sentir todo o misto de sentimentos deturpados que aqueles olhos comunicavam. Não havia uma alegria completa neles, e sim muita dor. Como se tivesse sofrido muito para ser o que era. Ela logo retirou a mão, mas o olhar continuava mergulhado no dele.

– Esse é mesmo seu nome ou está querendo virar muso da comédia? – Tália perguntou desconfiada, mantinha um sorriso atrevido no rosto.

– Já disse que meu nome é Aspros, senhorita. – a resposta fez Tália bufar.

– Desisto, podemos passar, certo? – pegou a mão da irmã.

– É claro. – abriu um sorriso. – Não se esqueça de respirar, musa da dança.

Terpsícore, ao mesmo tempo em que queria correr dali e nunca mais voltar, sentia uma necessidade inexplicável de ficar. O sorriso dele era quase maléfico, havia um dente pontiagudo em destaque que lembrava um canino de um animal selvagem. Excepcionalmente excêntrico, porém encantadoramente belo.

Depois do comentário do cavaleiro, Tália sentiu que o clima perdera a graça e puxou Terpsícore com mais força para que saíssem logo de lá, seguindo o rumo à cachoeira.

~

Clio bebia um suco de laranja que comprara numa banca de Rodório, passeava com Degel e Kárdia, à procura de uma livraria. Mas a vila era tão agradável que a musa se desprendeu do primeiro objetivo e se abriu para um passeio despretensioso. Ela passava e atraía olhares por todos os cantos, muitas pessoas fitavam diretamente seus olhos. Clio não se importava, era acostumada, mas não se sentia muito bem quando socializavam com ela por causa disso.

Degel observava a postura da musa, era esbelta e andava confiante, ele já pensava em conversar com ela quando Kárdia se intrometeu novamente.

– Sabe, Clio, nesse mês os moradores de Rodório farão um festival de pratos típicos para arrecadarem dinheiro, gostaria de ser minha acompanhante?

– Informe direito, Kárdia. É um festival beneficente, o que for arrecadado servirá para a ampliação de vilarejos perto de Rodório. – Degel especificou. – E não é necessariamente um festival que se vá acompanhado.

Necessariamente, né, Degel? – Kárdia resmungou, cruzando os braços.

– Me interessa muito, mas, por curiosidade, como articulam o capital? – perguntou Clio. Degel se surpreendeu com o conteúdo da pergunta, mas já esperava por algo assim vindo de uma musa tão envolvida na política.

– Há uma pequena comissão na vila, formada por moradores escolhidos democraticamente, o dinheiro é monitorado e anunciado por eles.

– Parecem organizados, só incentiva minha participação. – ela sorriu para o aquariano. Kárdia se emburrou com a falta de atenção da musa.

– Você ouviu quando eu falei das comidas típicas, Clio? – perguntou com manha, fazendo a musa tocar seu rosto.

– Claro, Kárdia, viremos todos juntos desfrutar desse festival. – ele finalmente teve o sorriso dela como resposta também, acabou se sentindo mais animado.

Caminharam um pouco mais, até passarem um arco e chegarem a uma praça. Clio viu crianças brincarem alegremente e moradores proseando em bancos – logo sentiu vontade de escrever sobre eles. Degel percebeu o olhar encantado da musa, e Kárdia avistou uma livraria.

– Olhe, Clio, lá está sua livraria. – mas a musa não parou de fitar o centro da praça.

– Gostaria de sentar por aqui para um breve descanso, senhorita? – Degel gesticulou para o banco próximo deles. Viu o sorriso da musa aumentar.

– Sim! – os três sentaram no banco. Kárdia estava insatisfeito, não gostava de livrarias e, geralmente, achava pessoas que gostavam entediantes. Mas Clio era diferente, parecia ver algo bom em tudo e comentava sobre isso de uma forma alegre, quase irresistível. Então acabou prestando atenção até achar uma livraria para agradá-la. Bom, achou o local, mas não teve a reação que queria.

Degel tinha de admitir que era agradável ver a energia das crianças tão ativa e descontrolada, o clima lúdico era apreciado pela musa, que, inconscientemente, abençoava a criatividade que surgia das brincadeiras. O aquariano, de vez em quando, a admirava de canto, não queria ser indiscreto e incomodá-la, pois percebera sua timidez quanto às atenções que recebera. Com certeza, conversaria com ela depois.

Notas finais
Espero que gostem! Beijos