Notas iniciais
Postando mais um pra compensar a demora da publicação haha Boa leitura!

Capítulo 4

Calíope caminhava despretensiosamente pela ampla área do Santuário, perdera a vontade de meditar depois de passar pela Casa de Virgem – o que era irônico, de fato. Estava desgostosa com a falta de atenção de Asmita; fora o único que a tratou como se sua representação não fosse importante, e isso a incomodava profundamente. Por mais que tivesse sido admirada nas Casas seguintes, não admitia esse furo.

A musa se aproximou da arena onde os cavaleiros de prata treinavam e passou a observá-los, mas não demorou muito para sair, pois a violência dos golpes não era atraente. No entanto, só não saíra de imediato porque foi elogiada assim que chegara. Ela não perderia a oportunidade de ser ainda mais admirada.

– Calíope!

A musa virou e viu suas duas irmãs, Tália e Terpsícore, aproximando-se dela. Caminhavam alegremente, mas pôde ver uma pequena tensão na segunda.

– Que acha de esfriar essa cabeça quente na cachoeira conosco? – Tália perguntou, rindo. Sentia prazer em provocar a irmã mais velha.

– E ser vista ao seu lado? – a musa respondeu com desdém. Tália não achava graça quando ela apelava para a ignorância, mas não demonstrava.

– Por que você não canta pra nós enquanto tomamos banho? – Terpsícore na melhor das intenções.

– Porque não sou sua serva. Mas vamos logo, prevejo incômodo pelo resto do dia se rejeitar essa proposta. – Calíope bufou e seguiu com as duas.

O relacionamento das outras irmãs com Calíope não era dos mais saudáveis, apenas Urânia a aturava com paciência, mas as musas sabiam que, quanto mais unidas, mais fortes seriam para evitar desgraças futuras.

Seguiram o caminho informado pela serva e chegaram rapidamente à clareira que antecedia a cachoeira. O local era coberto por uma manta de várias flores diferentes e coloridas, borboletas preenchiam o ar em grande quantidade e pequenas sombras marcavam os cantos. Terpsícore atravessou saltitante pelas flores; Tália observava encantada o espaço ao redor, enquanto Calíope seguia uma borboleta. Pareciam crianças, sentiam-se felizes por desfrutar de um espaço tão familiar. Não demoraram em encontrar a cachoeira.

– Nossa, quem precisa de musa para se inspirar quando se tem uma cachoeira dessas? – Tália comentou, extasiada com a vista.

– Que ridículo, Tália. Não se fala isso! Somos consideradas Musas justamente por oferecer mais do que os olhos podem captar. Se acha que essa cachoeira supera uma musa, então essa musa é você, ou então se contenta com muito pouco. – Calíope discursou, era incrível a capacidade de cortar o barato. Tália, em resposta, fez uma careta.

– Eu realmente a convidei pra vir? – Tália perguntou para Terpsícore, alto o bastante para que a outra musa escutasse. A loira deu de ombros. – Enfim, vamos! – pegou a mão da musa da dança e pulou na água.

A sensação da água no corpo, em contraste com o calor, era maravilhosa. O único problema é que, no calor da emoção, esqueceram-se de se despir. Saíram da água com as roupas grudadas no corpo e as tiraram, colocando-as numa pedra onde o sol iluminava – logo secariam. Nuas, então, pularam na água novamente. Calíope iniciou um canto para agradar ainda mais o clima, encontrava-se sentada numa pedra.

– Eu não aconselho nudez por aqui. – uma voz masculina tirou a leveza das musas. Todas se viraram para a direção da voz, mas Tália e Terpsícore não fizeram questão de se tapar.

– Imaginamos, mas nos informaram de que os cavaleiros estavam treinando. – Terpsícore comentou.

– Estão, mas alguns têm o costume de correr por aqui também. – o cavaleiro saiu de trás da árvore, com os olhos fechados.

– Pode abrir os olhos, Cavaleiro de Áries, não temos problemas com isso. – Calíope disse, um pouco aliviada por ser Shion. O cavaleiro fora um dos mais cordiais dentre os outros, adquirindo a simpatia das musas. Shion, mesmo assim, não abriu os olhos; fora atraído pelo canto da musa da poesia épica.

– Talvez eu tenha. – ele corou. – Bom, não me demorarei, apenas peço para que tenham cuidado. Com licença. – sorriu e adentrou a floresta novamente.

– Ele é tão doce e bonito. – Terpsícore foi a primeira a comentar.

– Hmmm, estava demorando para ouvir comentários assim! – Tália jogou água na irmã. Calíope sentiu respingos.

– Tália, cuidado! Não quero me molhar, poderia respeitar? – fechou a cara, mas tinha que concordar: Shion era bonito. Na verdade, poucos cavaleiros eram fracos em atração, todos tinham seu charme particular. Entretanto, apenas um havia chamado a atenção da musa, mas não só por sua beleza incomum.

As três permaneceram na cachoeira, Calíope cantava mais baixo para não chamar atenção, levando à sério o conselho de Shion; Tália e Terpsícore nadavam tranquilamente e comentavam sobre o Santuário. Tudo estava bem, até a musa da dança se lembrar do cavaleiro de gêmeos.

~

– “Se a energia do Universo quiser, hei de herdá-la também,

Aliás, rezarei pelo Universo, talvez seja ele quem precise,

Por um milagre,

Das minhas energias.

A mentira poderia ser uma invenção da mente assim como a verdade? Perguntaria o poeta,

Que verdades você, Universo, tem para me contar?

E mentiras, alguma?

Não importa o que digam, o Universo sabe de mim,

O Universo sou eu.” – Urânia finalizava um dos poemas do livro que pegara. Apesar de não saber o autor, admirava quem o escrevera.

Sísifo não poderia estar mais admirado com a musa da astronomia, até ao ler o poema ela encantava. Sentia-se um pouco imprudente por não ter o que falar diante de tamanha graciosidade, e, ao mesmo tempo, não achava interessante elogiá-la com frequência. Com muita dificuldade, guardava os elogios para si.

– Gostou? – Urânia se virou para ele, sorrindo.

– Sim, você o declamou muito bem. – admitiu corando.

– Você acredita nesse poema?

Sísifo, de início, não compreendeu a pergunta. Não era por menos, mantinha a mente ocupada com os belos detalhes que percebia da musa, mas a percebeu o fitando curiosa.

– Em certas partes, sim.

– Me diga quais.

– Acredito que já recebemos a energia do Universo, e isso é inevitável, o importante é saber se conseguimos honrá-la. Acredito, também, que somos o Universo, ou, pelo menos, que possuímos um dentro de nós. – respondeu, meio tímido. Urânia gostou da resposta, mas não havia novidade nela.

– O que acha sobre a mentira e a verdade serem invenções da mente?

– Não acredito nisso. Acredito que são fatos e existem sem invenções individuais.

– Tudo depende da forma que lemos o que nos é dito, cavaleiro. Talvez você enxergue mentira no que vejo como verdade. – ela propôs. A essência do poema era ampla, sabia disso, mas talvez Sísifo tentasse apenas lê-lo de forma objetiva, e isso não era totalmente interessante.

– E a forma com a qual compreendemos, não conta?

– Claro, mas não podemos tomar nosso ponto de vista como verdade absoluta, afinal, como você disse, todo mundo tem um universo dentro de si, imagine o choque que há entre esses universos... Quem poderá definir a mentira e a verdade? – as palavras saíram cuidadosas.

– Então, eu poderia discordar de você nesse seu ponto de vista? – Sísifo se mostrava mais interessado no assunto, ao mesmo tempo em que fitava a boca da musa.

– Completamente, sou só mais um universo dentre tantos. – ela sorriu e deixou um leve riso escapar, devolvendo o olhar.

– Esse poema é mais complexo do que parece. – ele compartilhou o riso.

– Não, cavaleiro, nós somos.

O sagitariano não conseguia pensar direito, encontrava-se com uma musa excepcionalmente bela e inteligente, intrigante e poética, graciosa e segura. Pela primeira vez, sentiu a própria objetividade lhe abandonando. Urânia era encantadora de todas as formas, e sua áurea celestial o prendia no mais adorável deleite. Admirou-a um pouco mais enquanto ela folheava o livro de poesia, e, assim que notou seu colar de estrela, pensou nas outras musas e seus colares respectivos.

– Urânia, poderia lhe perguntar algo que me deixou curioso? – Sísifo mantinha a atenção no colar dela. Ela percebeu e corou.

– Fique à vontade. Se puder responder, assim o farei, Sísifo. – quando disse o nome dele, quase o fez se esquecer do que queria perguntar. Ela mantinha uma formalidade com ele desde que chegaram à biblioteca, e agora se aproximava através do nome. Ele sorriu com o pensamento.

– Percebi que... Vocês seis usam colares, menos a musa da comédia, Tália, certo?

– Sim! – já imaginando o que viria.

– Então, gostaria de saber se há algum motivo especial para o uso deles. Se sim, poderia matar minha curiosidade? – tentou ser o mais calmo possível. Urânia riu levemente com o pedido, deixando o cavaleiro confuso.

– Poderia contar o meu, mas acredito que seja evidente. No entanto, não posso matar sua curiosidade quanto às outras musas, pois todo conteúdo que contempla uma musa deve ser revelado por ela. – sorriu, por fim. Sísifo, por mais curioso que estivesse, aceitou a condição com devoção.

Os dois permaneceram lendo as poesias do livro, mas ele prestava mais atenção no que contemplava os trejeitos da musa do que em qualquer outra coisa.

– Queria saber mais sobre você...

– Tudo tem seu tempo, Sísifo. – ela toca a mão do cavaleiro, que a aperta e deposita um leve beijo, deixando a musa corada.

– Sísifo! – Régulus acabava de entrar no corredor onde os dois estavam. – Ah, olá, Urânia! – ele sorriu, olhando-a de cima para baixo. O sagitariano o reprovou de imediato com o olhar.

– Olá, cavaleiro de leão. – ela se fechou um pouco, tirando a mão de Sísifoc, mas não deixou de ser educada. Régulus fez uma pequena reverência e se virou para o cavaleiro.

– Sísifo, precisamos treinar.

– Sim, é claro. – disse tristemente, preferia passar o dia na companhia da musa. Virou-se para ela. – Queira me desculpar por não poder acompanhá-la por mais tempo, Urânia. – baixou a cabeça. Ela viu Régulus observar a janela e se abriu novamente, tocando o rosto do sagitariano.

– Sua companhia me deixou muito feliz, Sísifo, mas não posso abusar dela. – ela sorriu, ele assentiu, subindo o rosto para fitá-la. Os olhos verde-água dela quase o prendiam, e, com muita dificuldade, desvencilhou-se de seu toque, partindo da biblioteca com Régulus.

~

Melpomene, enquanto descia as doze casas, não conseguia parar de pensar em Albafica; carregava a rosa que ganhara dele e a olhava com frequência, pensando em como ele havia feito a rosa sem veneno. Se podia controlar isso, por que não poderia controlar o veneno de outras formas? Como fizera isso?!

Ela o intrigara – fato consumado -, adoraria conhecê-lo mais de perto, algo em seus olhos parecia compreendê-la, e tal compreensão era recíproca, tinha certeza. Além disso, o cavaleiro era tão bonito que prendia a atenção completamente. Mel considerava um pecado um cavaleiro tão belo ser tão solitário. A solidão, ela sabia bem como era, mas não por destino, e sim por escolha própria. Fora frequentemente afastada por ter sua sina na tragédia, mas isso não significava que admirava apenas essa vertente; no entanto, as pessoas pareciam tão julgadoras que Mel preferia se manter só.

O problema maior que ela via no fato de ser musa era a inspiração delimitada, parecia quase um crime ter que seguir o contrário de sua representação. Não tinha coragem para experimentar o contrário, como Tália fazia — admirava a irmã por não se importar com as insinuações de que não era musa. A irmã gêmea fazia o contrário, brincava com a vida – sua representação se mostrava em essência nisso, de certa forma – e não se abalava com os fatores que a influenciavam. Era quase possível acreditar que Tália não sofria, mas Melpomene, como ninguém, sabia que não era bem assim.

Seguiu caminho até chegar num pico alto da floresta, onde pôde se maravilhar com a vista dos terrenos do Santuário. Manteve-se ali, pensando em seu objetivo. Como musa, deveria inspirar, mas como poderia fazê-lo quando não se sentia inspirada? Ou pior, quando apenas uma pessoa, que se mantinha afastada de todos, poderia inspirá-la?

~

Clio, Kárdia e Degel finalmente entraram na livraria – para a alegria do escorpiano, que achara o local -, a musa explorava as estantes de livros, enquanto os dois cavaleiros permaneciam na entrada da livraria, apenas observando. Degel gostava de livros, mas não estava interessado naquele momento, seus pensamentos estavam distantes.

– Você não vai dar oi para a sua “amiga”? – Kárdia perguntou, queria que Degel saísse dali para poder ficar a sós com Clio, nada melhor que sugerir a amiga do aquariano que trabalhava na vila.

– Ela está trabalhando, Kárdia. – Degel respondeu com indiferença, mas cogitara a possibilidade antes mesmo do amigo comentar.

– Podemos passar na loja, ora, ela é florista!

– Nem crie expectativas – o aquariano não deixaria Kárdia sozinho com Clio, apesar de sentir uma grande vontade de visitar a amiga florista, mas Kárdia poderia aborrecer a musa.

Kárdia bufou e seguiu para onde Clio estava, acabou se envolvendo com sua visão sobre os livros, mostrou um interesse sincero. Por mais que não fosse acostumado a ter mulheres daquele tipo em sua volta, apreciou a companhia dela, sentindo-se só um pouco deslocado por não ter o conhecimento que Degel tinha, limitando-se apenas a assentir para os comentários dela sobre os livros.

~

Melpomene, ao adentrar mais a floresta, encontrou uma bela clareira, onde pôde ouvir as vozes das irmãs se divertindo na cachoeira. Antes de ir ao encontro delas, observou as belas flores que enfeitavam o caminho e não resistiu em pegar uma orquídea branca.

Chegando à cachoeira, viu Calíope deitada numa pedra, cantando baixo; Tália e Terpsícore nadavam nuas.

– Oh, céus! – Mel exclamou.

– Mel! Venha, junte-se a nós! – Tália chamou, levantando-se um pouco e exibindo o corpo.

– Estão loucas? Não deviam nada nuas num local que mal conhecemos e que tem constante presença de cavaleiros! – a musa da tragédia tratou de reprimi-las.

– Tentei chamar atenção delas para isso, mas nem se preocuparam em me ouvir. – Calíope disse em tom esnobe.

– Não há problema nenhum nisso, qualquer coisa, jogamos a musa das musas no cavaleiro que aparecer a saímos correndo! – Tália ironizou, apontando para Calíope e fazendo Terpsícore rir.

– Enfim, fico feliz por não ter havido complicações. – Mel disse.

– Exceto pela aparição de Shion, mas não foi uma complicação. – Tália provocou, olhando para Calíope. – Acho que algo atraiu o cavaleiro até aqui...

– O quê? – a musa da tragédia se preocupou. – O Cavaleiro de Áries apareceu aqui?

– De olhos fechados, irmã, não se preocupe. Calíope, inclusive, o informou de que não temos problemas com nudez, então... – Tália intensificou a provocação, estava adorando a cena. Melpomene logo se virou para a musa da poesia épica, estreitando os olhos. Calíope apenas revirou os olhos e deu de ombros.

– Certo, está ficando tarde, vou voltar para a 13ª casa, alguém me acompanha? – Melpomene, no fundo, estava ansiosa para voltar, mas não porque estava cansada...

As três musas que já estavam na cachoeira confirmaram companhia na volta para a última casa, e logo todas saíram de lá.

Na subida, para o alívio de Terpsícore, a casa de Gêmeos estava sem seu protetor, assim como a de Câncer, para o desânimo de Tália; Áries, Escorpião, Sagitário, Leão e Aquário também estavam vazias. Assim que chegaram em Peixes, Albafica recebeu as musas e permitiu suas passagens, mas Melpomente pediu para que seguissem sem ela. Albafica percebeu que Mel mantinha a rosa dele em mãos, mas havia outra flor também.

– Albafica. – ela chamou, ele logo se mostrou diante dela, mas numa distância considerável. Mel jogou a orquídea branca para ele, que pegou ligeiramente. – Como agradecimento pela rosa. – ela sorriu em seguida, ele apenas assentiu.

Assim que ela saiu de sua casa, Albafica fitou a orquídea e deixou um tímido sorriso sair.

Notas finais
:) :*