Notas iniciais
Olá, queridíssi...AHHHH, pera!! Gente, sério, abaixem essas facas, eu juro que posso explicar!!! Antes de qualquer coisa, EU SEEEIIIII, demorei demais e queria me desculpar, porque cometi um crime: fiquei mais de 10 dias sem postar aqui. Mas ow, eu tenho a justificativa mais pertinente de todas: meu cachorro morreu. Brinks, não tenho cachorro, só hamster - e Athena está muito viva! Porém EU quase morri de cansaço nesse final de semestre que foi ba-ba-do. Decorar falas de uma encenação longa em apenas uma semana NÃO é fácil. Queria agradecer MUITO à querida leitora Cassiaaisha que recomendou a fic! Gata, muito obrigada, fiquei muito emocionada e é um prazer escrever para pessoas como você! Esse capítulo é pra ti! Se vocês tiverem conta no Nyah... E acharem que eu mereço recomendação... E quiserem fazer um agradinho... E tal... Hehe... Fiquem à vontade! Que mais que eu preciso falar?... Bom, tem uma informação lá embaixo nas Notas Finais e, hm... Ah sim! Gente, EU SEI que Calíope e Asmita andam conversando demais ultimamente. E tipo... Só conversando. MAS eu juro que é necessário. Todo casal tem uma linha e uma essência pensadas, uns são mais complexos que os outros, portanto requerem paciência. Mas confiem em mim, ok? Quem escreve fic com os dourados, sabe o quanto os virginianos são complicados!! Gente, depois da primeira divisão do capítulo (que eu indico pelo sinal: ~) eu me inspirei muito ao escrever o casal que aparece com a música “Slow dancing in a burning room” de John Mayer. Então, se quiserem... Dá ó, um clima legal. E, finalmente, BOA LEITURA!

Capítulo 55

Ela já tinha estado naquele lugar. Lembrava-se da vista de cima, no alto daquela montanha, onde apenas um chão ralo de grama oferecia um canto macio; o resto era pura vegetação seca e entristecida no passar do tempo. Árvores secas, naturalmente posicionadas num círculo ao seu redor, deixavam o aspecto mais assustador por parecerem invasivas e por limitarem seu espaço, como se estivessem lhe aprisionando.

Diferentemente de um sonho comum, não sentia frio, ou calor. Na verdade, não sentia absolutamente nada, como se não houvesse vida ali. Tudo muito sombrio e hostil, escuro e intrigante – num sentido nada convidativo. No entanto, lá estava ela; atraída pelo mistério, como sempre.

E então ouviu um “tsc”, alto o bastante para que sua cabeça virasse automaticamente.

– Sempre encontra uma nova forma de demonstrar que não aprende com os erros. – Kagaho se mostrou, com braços cruzados, encarando-a com ferocidade. Sua sapuris negra enfatizava o semblante autoritário e violento que emanava de todo seu corpo. Mas, pela primeira vez, não atraiu desesperadamente a atenção da musa da astronomia.

Urânia permaneceu quieta, ainda que, em sinal de nervosismo, sua mão tenha descido até a lateral do vestido e o apertado discretamente. A intenção foi de conter um susto, ou uma expressão de frustração. Não se importou em pensar, mas seus olhos, cristalinos e ferventes em ira, cravaram-se nos do espectro, cuja expressão de sarcasmo se ampliou num sorriso.

E a mão de Urânia apertou com mais força.

– Por que não fala? Já reconheceu o que está acontecendo. Aceite. Venha me ver.

Urânia nenhum movimento fez, o que implicou num Kagaho notoriamente insatisfeito. No entanto, o sorriso sarcástico continuou lá, assustando-a. Segundos depois, ele se aproximou, mas parou assim que ela finalmente se moveu para a direção oposta.

– Isso é só um sonho. – ela sussurrou, porém não foi a única que ouviu.

– Não é um sonho. – Kagaho logo cortou, irritado. – Estou te chamando. Disse que nos veríamos ainda, Urânia. Não ignore meu chamado.

– Estou com preocupações mais importantes do que a tarefa de atender a seus mimos, espectro. – pela primeira vez, o desgosto saiu como um veneno da boca da musa.

Kagaho, entretanto, mostrou sua surpresa levantando as sobrancelhas, para então gargalhar descaradamente – embora sentisse um ódio maior enviar ondas negativas em seu interior. Nunca foi tratado de tal maneira por Urânia, por isso, apesar de surpreso, lá no fundo, seu humor foi minimamente alterado. Mas ele não demonstraria.

– Ah, é? Diga-me, musa, que tarefas são essas. Vamos conversar. – Kagaho fez o movimento de sentar com seu corpo, mesmo sem suporte algum. No entanto, foi apenas necessária uma piscada de olhos para que Urânia, de repente, enxergasse uma pedra ali, onde ele havia sentado. Por dúvida, coçou os olhos e o encarou novamente, recebendo um riso de escárnio como resposta. – Quer uma?

– Não. Quero ir embora.

– Só vai quando eu quiser.

– De forma alguma.

– Acha que sabe como sair daqui? Vai me dizer que se sente livre o bastante nesse lugar pra saber como sair dele. Vai me dizer que não se sente agoniada por parecer presa numa gaiola de árvores. – Kagaho, apesar de imóvel, despejou todo o ácido de seu olhar em cada frase dita, cada vez com maior intensidade. Urânia, mesmo querendo, não conseguiu desviar tal olhar.

Realmente, ela se sentia exatamente como ele dissera, porém ainda pior por estar na companhia dele. Sentia falta de impulsos mais firmes diante das imposições que lhe foram colocadas — fato que isso a deixava ainda mais confusa. Ela estava perdida, mesmo num lugar que reconhecia facilmente. Nenhum ponto de luz era visto ali, e isso a assustava mais do que qualquer outro detalhe, pois a falta de luz, geralmente, indicava a possível fraqueza da esperança. Mas ela não admitiria isso.

– Liberte-me, Kagaho. Liberte-me agora. – disse, decidida.

– Para quê? Ainda não me disse o que pretende fazer.

– Não lhe interessa! – Kagaho adorou vê-la se alterar, deixando bem claro ao demonstrar um sorriso malicioso.

– Aí é que você se engana, musa. – ele se aproximou novamente, com mais lentidão ainda, sem desviar o olhar. – Tudo em você me interessa. – quando viu Urânia se afastar, riu. – Não adianta, você ainda virá até mim. Há algo protetor que precisa da sua proteção.

Dessa vez, quem se permitiu rir com escárnio foi ela.

– Jamais.

– Mas eu tenho algo que você procura...

Urânia abriu os olhos com precisão. Sua cabeça logo deu sinal de dores, latejando em determinados pontos. Sua respiração se mostrou completamente acelerada e com requícios de umidade. Suor. Havia suor em sua testa também, onde os alguns fios escuros estavam grudados e arrepiados. Sua boca entreaberta deixou diversas arfadas saírem, num ritmo que foi gradualmente desacelerando, mas que ainda assim chamaram atenção de uma deusa preocupada.

– Urânia? Urânia, você está bem? – Sasha se aproximou de outra figura que Urânia só notou após uma movimentação. Provavelmente uma serva.

Não esperou muito para se sentar no sofá onde estava deitada, apoiando uma das mãos na testa e franzindo o cenho. Observou o redor antes de falar qualquer coisa. Ah, estava na Sala Particular de Athena. Percebeu o olhar aflito de Sasha, para então se lembrar de que devia uma resposta.

– Estou... O que houve? Adormeci? – parando para pensar, ela não sabia como havia acordado quando sequer lembrava de que havia dormindo. Viu a deusa negar suavemente com a cabeça.

– Você desmaiou. Simplesmente apagou.

– Hã? – Urânia moveu a cabeça, como se não tivesse compreendido.

– Assim que Iara falou sobre o sumiço dos documentos, você desmaiou. – Sasha disse. Seus olhos trabalhavam atenciosamente no semblante da musa, no intuito de não perder nenhum detalhe que denunciasse seu estado.

Urânia ofegou em surpresa. De repente, lembrou-se de tudo.

– Sasha! Os documentos foram encontrados? – perguntou, alterada.

– Não... Nem Pío. – a deusa baixou a cabeça, em evidência tristeza. Ultimamente, Urânia observou que Sasha escondia muito mais suas dores do que qualquer um naquele Santuário, pois, aos poucos, percebeu-a desabafando mais verdadeiramente para si através de gestos sinceros. De certa forma, ver Athena aflita parecia um crime.

– Entendo... Há alguma garantia de que os documentos tenham saído do Santuário? – a deusa negou para a pergunta. – Há pelo menos alguma suspeita de traição?

– Também não. Sage está investigando todos os passantes desse templo e seus históricos de passagens em outros lugares do Santuário, à procura de suspeitos maiores, mas, sinceramente, acho que nada disso adiantará, Urânia. – disse, murchando a voz.

– Também acho. Se alguém queria esses documentos, provavelmente os tirou de perto de quem os tinha. Não seria nem um pouco lógico guardá-los perto de onde foram tirados.

– Ou seria lógico demais, pois ninguém pensaria nisso, como você bem disse. – Sasha pontuou, sabiamente, fazendo a musa repensar.

– Sasha, você acha que Pío os roubou?

– Já considerei essa possibilidade, mas para que ela faria algo assim? Digo... Sei que todo mundo possui um lado que pode cair na tentação da traição, em prol de algo maior. Mas Pío nunca demonstrou tamanha ambição, sequer interesse pelo o que fazíamos com os registros. E ela sempre esteve ao meu lado, onde pudesse vê-la. – por fim, suspirou.

– Hmm... – Urânia se deitou novamente, a pedidos de sua dor de cabeça, enquanto Sasha se acomodou na poltrona ao lado do sofá.

As duas não trocaram mais palavras. Entraram imediatamente em pensamentos individuais acerca do mesmo assunto. De um lado, Sasha procurava outras possibilidades, movida pela iniciativa emocional que a fazia considerar pontos mais complexos. Do outro, Urânia pensava na figura da serva desaparecida, embalando-se nas chances mais remotas. Por vezes, sacudiu a cabeça por ter que expulsar colocações óbvias demais. Se ficasse nesse território do óbvio, poderia se perder nos detalhes, como acontecia geralmente.

As opções não se mostraram tantas, no entanto. Mas algo dizia que a serva estava diretamente envolvida com o sumiço dos documentos, independentemente do motivo. Urânia quase podia visualizá-la carregando-os. Mas por que ela o faria? Sabendo que isso acarretaria em sua traição e condenação caso voltasse para o Santuário, por que se arriscaria? Ainda mais, por que deixaria tão aberto a acusações? Eram muitas perguntas para poucos fatos a se pensar.

Instinto. A serva poderia muito bem ter agido por instinto ao roubar os documentos. Estímulo. Poderia ter se sentido estimulada, de alguma forma, a usá-los em prol de interesses próprios. Sobrevivência. A sobrevivência, no olhar da musa, já estava implícita no instinto, em certo ângulo. Só que mais uma palavra martelava em sua cabeça ao pensar por esses vieses: proteção. O ser humano era muito assim, arriscava-se para proteger alguém sem pensar duas vezes. Isso também era instinto. Mas ainda assim...

Não adianta, você ainda virá até mim. Há algo protetor que precisa da sua proteção. Tenho algo que você procura.

Droga.

Urânia saltou do sofá com urgência, ajeitou o vestido azul — antes amassado pelo acolchoado – e se virou para a deusa, que já a encarava com olhos preocupados.

– Sasha, sei onde Pío está. Vou buscá-la. Apenas confie em mim. – nada mais disse, pois saiu em disparada, torcendo muito para que a deusa levasse suas palavras à sério.

~

– Você não precisava ter vindo. – El Cid disse, sentindo um pequeno alívio ao ter a testa coberta por um pano úmido e frio.

Apesar da febre, sentia-se quente, em maioria, pelo rosto corado, intensificado a cada retomada de realidade: estava em sua cama, com trajes simples, completamente vulnerável e sendo cuidado pela Musa da História e Criatividade. Nenhuma prova maior poderia superar sua fraqueza naquele instante.

Clio pressionou levemente os dedos no pano úmido, fazendo com que algumas gotas deslizassem pelo rosto endurecido do capricorniano. A essa altura, ela já entendia que o orgulho dele estava vacilando diante de tal acontecimento, mas tentava não demonstrar importância – até porque não via dessa forma.

– E quem teria vindo? – perguntou, sem olhar diretamente nos olhos dele.

– Uma serva.

– Você preferia uma serva? – Clio afastou-se para sentar adequadamente no espaço disponível da cama. Estava de frente para ele, que se encontrava deitado e com as costas apoiadas em dois travesseiros de penas.

El Cid não comentou, mas percebeu a desviada de olhar de Clio. Por um momento, perguntou-se mentalmente se ela ficou com resquícios de ciúmes por ele ter mencionado o fato. O rubor predominante nas bochechas dela o deixou ainda mais inclinado a acreditar nisso.

– Não. – tratou de tranquilizá-la, com um tom mais suave. Não hesitou em tocá-la na face também, com as costas dos dedos. – Você sabe que não.

– Será?

– Analisa demais as coisas para me deixar na dúvida, Clio.

– Mas andei perdendo muitos detalhes ainda assim... – a voz dela murchou. Lembrou-se de como foi desatenta para certas questões de suas irmãs.

– Todo mundo tem fraquezas. – El Cid retomou a seriedade, mas se desestruturou ao ouvir um riso sonoro da musa.

– Tem, claro que tem. Inclusive você, que não quer admitir. – ela riu tão gostosamente que foi impossível deixá-lo mal humorado, ainda que as palavras não fossem agradáveis.

– Não é questão de admissão, mas sim reconhecimento.

– Me diga como. – Clio pediu, sorrindo. El Cid não deixou de admirar a espontaneidade com que ela estava conduzindo aquele momento.

– Eu reconheço que essa mísera febre não é o bastante para me impedir de treinar os aspirantes. – respondeu, seco.

– Isso não cabe a você. O Grande Mestre deixou as ordens claras, El Cid. – pegou a mão dele que estava próxima de sua coxa e iniciou um carinho suave. – Além disso, apesar de ser um grandioso cavaleiro de ouro, você é humano e possui um corpo com limites, ainda que sejam maiores do que os dos demais. Não se esqueça de sua origem.

El Cid revirou os olhos para aquelas verdades. Embora se sentisse tremendamente bem aos cuidados de Clio, sentia-se também bastante analisado pelos profundos olhos de mel dela. Por vezes, sentia que ela lhe analisava a alma e que, a partir disso, julgava as atitudes que tomava para consigo.

Clio não deixou de perceber o demorado instante em que o capricorniano a encarou seriamente e depois a desviou, corado. Mais do que com qualquer outra pessoa, ela se intrigava ao se deparar com ações assim de El Cid. O enorme obstáculo que aparecia entre as leituras que poderia fazer dele era um incômodo, porém via nisso uma forma de controlar sua invasiva forma de observar os outros – como Tália já havia dito. Não que antes tivesse experimentado tal ato ou sequer cogitado isso. Simplesmente nunca se importou, mas agora tinha motivos para isso. Não queria que El Cid se afastasse.

Ou que chamasse uma serva.

– Como está se sentindo?

– Bem. – El Cid retirou o pano da testa e o jogou na mesa de cabeceira. – Não é disso que preciso. – encarou-a desafiadoramente. Mesmo que não funcionasse, tentou deixar bastante claro, em seu olhar, o que queria que seguisse ali. E pelo rosto corado de Clio, ela compreendeu.

Devagar e com cautela, o capricorniano fez o leve esforço de se inclinar para frente, no intuito de aproximar mais seu corpo do dela, já sentindo o calor da pequena distância entre eles. A necessidade de tê-la havia aumentado consideravelmente, a ponto de não conseguir mais ignorar os bons modos. Porém o respeito existia sempre. Com as duas mãos, puxou os ombros de Clio para perto, indo de encontro ao rosto dela para lhe selar em um beijo.

Como todos os anteriores, o beijo foi recheado de sentimentos compatíveis, que pareciam ter esperado séculos para se liberarem numa oportunidade como essa. As duas bocas não tomavam pressa, simplesmente fluíam de acordo com seus desejos e necessidades – dois fatores que convergiam sempre para um calor compartilhado. Mãos deslizavam pelas poucas partes expostas dos corpos, no intuito de proporcionar apenas um carinho singelo. Isso os dois faziam com ternura.

Já havia um tempo que trocavam beijos como aqueles, porém, por sempre desencadearem algo íntimo, apenas faziam quando estavam à sós. A intimidade não se estendia no âmbito sexual porque El Cid sempre se segurava, procurando respeitar o ritmo de Clio. Mas, nas entrelinhas do beijo, ambos sempre deixavam claro como cada fragmento era apenas um do outro para um e outro. Estava subentendido que aquilo passava de algo casual.

Dessa vez, o arrepio que El Cid sentiu foi ainda mais intenso, pois foi causado por uma mão inesperada de Clio em seu peitoral coberto apenas por uma regata desgastada. A pequena mão da musa acariciou sua clavícula com uma timidez evidente, tanto que ela não abriu os olhos nem quando interromperam o beijo para recuperar o ar. Com as duas testas encostadas, ficaram por uns segundos, deixando apenas os lábios superiores se tocarem por espontaneidade, sem iniciar um novo beijo. Enquanto ele a admirava, ela fechava os olhos, concentrando a atenção na mão que o acariciava.

– Clio... – ele disse, apenas por dizer. Foi só isso, vontade de chamar o nome da mulher que tanto o embaralhava interiormente.

Por outro lado, ela manteve o silêncio, enquanto a mão descia até o fim da regata. El Cid paralisou ao sentir a roupa subir e os dedos de Clio acompanharem a trajetória de volta para cima, passando por seu abdômen e encontrando o início do seu peito.

– Clio. – dessa vez, quis que ela respondesse, mas a viu com os mesmo olhos fechados, diferente apenas pela respiração acelerada.

– Tire. – inesperadamente, ela pediu, baixo, só para ele ouvir.

El Cid engoliu seco, sem saber direito o que fazer. Ela pediu para que tirasse, mas ele não sabia se era saudável se testar dessa forma. Não sabia dizer se poderia parar caso ela pedisse para que tirasse mais alguma peça. Não sabia dizer se aceitaria ser o único a fazê-lo. Mas arriscou e se afastou de Clio para cumprir seu desejo.

Ela se manteve parada, exatamente como foi deixada, de olhos fechados e coração acelerado. Pôde ouvir o som de tecido roçar na pele e se chocar quase inaudivelmente com outro tecido – provavelmente ele jogou a regata na cama. Mordeu o lábio, procurando amenizar o nervosismo que seu corpo emanava, mas o soltou assim que sentiu outros lábios pedindo espaço.

El Cid não ficou apenas nos lábios, porém.

Seguiu uma trilha de beijos tenros da bochecha até a curva do pescoço de Clio, onde parou para mordiscar levemente. Já excitado, procurou se distrair um pouco, pois o beijo envolvente e molhado dela só o provocou. Se não obedecesse ao próprio autocontrole, poderia pôr tudo a perder. Ali, onde seus lábios se encontravam, ele lambeu — e quase delirou ao ouvir um arfado da musa. Entretanto, precisou se afastar para conter um passo mais luxurioso.

– Clio, abra os olhos.

Clio não abriu os olhos.

Em resposta, El Cid a envolveu na cintura com os braços e a deitou, sem cerimônias, desencadeando no ato que queria: a abertura dos olhos dela. Espantados, surpresos e acompanhados por duas bochechas vermelhas escarlates, os dois olhos de mel fitaram o capricorniano.

– E-El Cid... – Clio gaguejou. Só então reparou que agarrava fortemente os ombros nus dele.

– Acalme-se, não farei nada que não quiser. – esclareceu, clamo. O vermelho no rosto de Clio enfatizou-se notavelmente. – Por que me pediu para tirar?

– P-Porque eu... – ela precisou procurar outro foco de seu olhar para se concentrar. Vê-lo tão perto e íntimo, sem camisa, expondo o belo e forte corpo, resultado de suas árduas tarefas, só a deixou mais admirada.

Deitados na cama, um de frente para o outro, os dois se encararam um pouco mais. Mesmo querendo beijá-la mais vezes, El Cid optou por esperar o fim do silêncio de Clio para tomar a próxima decisão.

– Eu queria só... Tocar... Em você. – com uma falha voz, Clio finalmente disse.

De fato, seu único interesse no pedido foi o de se vislumbrar um pouco mais com o charme evidente do cavaleiro de capricórnio, mas também de tocá-lo. Estranhamente, ela não parou para pensar nas consequências morais que seu pedido acarretaria antes de fazê-lo, mas, igualmente, não se arrependeu. El Cid parecia desencadear a verdade por trás de seus desejos mais profundos, portanto ela não se sentia resistente o bastante quando eles se expressavam. Sentia-se aos poucos mais envolvida com ele do que sequer cogitara inicialmente, porém nada disso parecia ruim.

– Então – El Cid, lentamente, pegou a mão dela e pousou em seu tórax. – me toque.

E Clio não esperou mais. Deixou a sensação tomar conta da timidez e sua mão fazer o trajeto que queria, passando pelo largo peitoral do capricorniano e descendo pelo abdômen ridiculamente definido e marcado. Algumas cicatrizes ocupavam aquele espaço, fazendo a musa imaginar suas histórias. Absurdamente agradável, ela pensou. A pele quente, embalada pela respiração calma, parecia convidá-la ainda mais para o toque, despertando algo em seu baixo ventre – algo que não reconheceu, mas gostou. Desceu um pouco mais a mão, até chegar na borda da calça de El Cid, para então sentir o corpo dele arrepiado e ouvir um resquício de gemido aprisionado na garganta. Não ousou olhá-lo, entretanto. Continuou explorando aquela parte do corpo, levando a ponta dos dedos pela cintura e deixando que as unhas arranhassem levemente. Em resposta, ouviu um suspiro no ouvido e ficou feliz ao declarar que estava agradando.

Apesar de não olhá-lo diretamente nos olhos enquanto o tocava, ela sabia que estava sendo observada atentamente. Sentia o cosmo de El Cid oscilar entre uma agitação diferente e uma calmaria forçada, como se estivesse se controlando. Bom, ela imaginou que despertaria certas sensações nele, mas não sabia como se expressariam naquele corpo. Tudo era muito tentador no âmbito do conhecimento; tudo era muito novo, por isso ainda mais convidativo.

– Clio... Me deixe te tocar também. – ele pediu, com voz vacilante. Só então Clio percebeu o quão corado ele estava.

Por um momento, cogitou parar a ação para checar a febre dele, mas não teve tempo de sequer responder a fala, pois foi puxada carinhosamente para perto e assaltada num beijo caloroso. Clio tinha de admitir que o espanhol era muito quente.

Deixou-se ser envolvida pela língua dele que desceu pelo seu colo, atrevidamente, e pela mão que baixou a alça única de seu vestido. Não tinha vontade de reclamar a ousadia de El Cid, principalmente porque, no fundo, ela o provocou de alguma forma. Estava apenas recebendo as consequências — nada mais justo. Permitiu-se, inclusive, virar o rosto para que ele tivesse um melhor acesso ao seu pescoço — o qual ele não desperdiçou, abocanhando com lascívia, mas sem deixar o carinho de lado. Sentiu também o seio ser acariciado com cuidado, só assim percebeu que essa parte estava exposta. Mas não se importou. Foi difícil se importar, na verdade, pois, logo em seguida, não foi a mão que sentiu no seio, e sim uma língua agitada, desafiando sua sanidade loucamente. Espontaneamente, suas costas responderam por ela, arqueando-se e, consequentemente, extraindo um gemido de satisfação do capricorniano.

A língua de El Cid circulava seu mamilo, oscilando na velocidade para que pudesse delirar da forma que queria. Clio já tinha desistido de pensar em algo, era melhor se entregar ao momento e cumprir os desejos gritantes que faziam questão de aparecer para os dois. Ela pouco se reconhecia no momento, mas isso também não importava.

El Cid tinha o dom de fazê-la não se importar, mas também de se importar, só que apenas com ele.

El Cid tinha o dom de roubar sua importância. El Cid era um egoísta.

Não, ela era a egoísta, pois era ela quem queria apenas se importar com ele e com mais nada e ninguém. Era mais gostoso assim...

– Clio... – El Cid praticamente gemeu o nome dela. Não estava mais aguentando, seu membro o incomodava dolorosamente. – Acho melhor pararmos. – com muito esforço, disse.

Ao contrário dele, ela estava completamente fora dali, imersa num mar de boas sensações. Contrário porque El Cid era o único tomando cuidado entre os dois, o único que sabia até onde os limites existiam nessa troca de toques íntimos, o único que fazia questão de ser atento, mesmo que não quisesse. Por saber que tudo era novidade para Clio, sentia-se na obrigação de cuidar dela em todas as ocasiões que envolvessem esse tipo de relação, portanto tinha de se controlar. Por ela. Por ele. Pelos dois.

Entretanto, a expressão de prazer dela, cujo rosto se mostrava inteiramente corado, cujos olhos pareciam longe dali e num estado de deleite, era terrivelmente excitante para ele. E o perigo existia exatamente nisso, pois, como ela bem lembrou: ele era humano. Humanos erravam, humanos arriscavam, humanos tinham instintos... Mas ele não seria assim com ela, afinal ela não era qualquer mulher em sua vida.

Rapidamente, El Cid se afastou de Clio, mas sem antes depositar um beijo suave nos lábios claros. Sentou-se ao lado dela, que continuou deitada, observando-o de baixo.

– Estou me sentindo melhor. – informou, num tom lúdico, porém ainda seco.

– Se fosse uma serva, não estaria... – Clio disse, com certa provocação, mas deixando um leve sorriso crescer.

– É claro que não. – El Cid a olhou, por cima do ombro. Não resistiu. Teve de sorrir ao vê-la sorrindo.

~

Calíope sorriu ao sentir carícias em seus cabelos ruivos, tendo dedos finos o penteando e alisando, às vezes sentindo um pouco mais dedicação em algumas partes, quase como uma massagem. Pensou em abrir os olhos, mas permaneceu com eles fechados ao sentir a passagem da mão fina para a lateral de seu rosto, onde foi acariciada com mais delicadeza e ternura. A sensação que sentiu foi indescritível. Seu rosto pareceu ser tocado por alguma espécie de anjo com áurea especialmente divina. Era tão singelo que só enfatizava sua vontade de permanecer ali, onde quer que estivesse.

A curiosidade, no entanto, foi o bastante para fazê-la abrir os olhos e ver o dono de adoráveis carícias se manifestar com um sorriso ao horizonte.

– Acordou. – Asmita disse, sem parar o movimento dos dedos.

– Não... – Calíope o abraçou, só então percebeu que estava com a cabeça no colo do virginiano e os dois se encontravam num jardim. Porém não era o de antes. – Onde estamos?

– No jardim da Casa de Virgem. Achei melhor virmos pra cá quando adormeceu.

– Adormeci? Oh! – ficou estática e logo fechou a cara. Novamente adormeceu naquela casa, sem sequer cuidar das conveniências. Bufou em descontentamento, e teria feito de novo se não tivesse ouvido um riso quase inaudível.

– Não se reprima, sou demasiadamente culpado por isso. – o tom usado deixou claro que havia alguma piada interna para ele, mas Calíope não fez questão de saber.

– Infelizmente, atrapalhei você de novo. – endireitou-se para se sentar, mas foi presa por braços finos que a impediram.

– Já disse que é muito pelo contrário. Ter sua presença aqui é um privilégio para mim. – Asmita recomeçou o movimento de carinho no rosto da musa, ignorando os murmúrios de protestos que ela soltou ao ser puxada. – Achei melhor virmos para cá porque não sei até que ponto aquele jardim é espiritualmente seguro para você, Calíope.

A musa nada disse, apenas assentiu para mostrar que entendera.

– No entanto – Asmita retomou a fala -, creio que terei de subir em breve para falar com o Grande Mestre. Estou seriamente preocupado com o que envolve os treinamentos dos aspirantes. À essa altura da Guerra Santa, já deveríamos ter pelo menos dois terços dos aspirantes com o cosmo desperto no nível intermediário, porém só sinto o que considero como básico. E o básico não ajudará na segurança de Athena, é evidente.

– Acha que isso é culpa de quem?

– Não de quem, mas de o quê. Acredito que a falta de uma ocasião eminente de perigo colabora para a pouca noção da verdade desse perigo. Como os aspirantes poderão lutar diante de inimigos poderosos se sequer passaram por treinamentos em que se deparam com isso? É burrice manter um treinamento artificial diante de um evento tão eliminatório. – Asmita disse.

Não apenas o tom de voz dele mostrou a plausível preocupação, mas também uma ruga entre as sobrancelhas loiras, sugeridas pela franja assimétrica. Embora a expressão fosse dura, Calíope não resistiu em admirar a beleza do virginiano. Em outra época, estaria cobrando tal admiração.

– Por que você não intervém? – ela perguntou.

– Porque não cabe a mim. O máximo que posso fazer é levar minhas considerações ao Grande Mestre, e é algo que pretendo fazer. No entanto, não posso correr o risco ao sugerir formas de treinamento para os demais cavaleiros de ouro. O ego do ser humano não possibilita que enxergue de forma construtiva uma crítica, na maioria das vezes. Então é provável que se ofendam.

– Talvez seja seu jeito arrogante de falar. – Calíope disse, num tom de brincadeira. Soube que Asmita compreendeu sua intenção assim que o viu sorrir.

– Talvez. Mas ainda assim sou um suspeito para muitos que aqui vivem. Não sei se percebeu, mas não tenho proximidade com cavaleiro algum. – Asmita pegou uma mecha ruiva e passou a enrolá-la nos dedos.

– Isso não é culpa da sua insistência em permanecer isolado?

– Está equivocada por achar que me isolo. Sou o cavaleiro mais presente por aqui. – ele respondeu, mesmo sabendo que a pergunta dela não fora sobre isso.

Calíope revirou os olhos, bem como ele achou que ela o faria.

– Dita a raiz de toda minha preocupação atual, poderia me dizer a sua? – lentamente, o virginiano aproximou os lábios dos da musa, mas não os selou como ela quis. Ao abrir os olhos, ouviu um dos sons mais adorados de sua existência: o arfar de surpresa dela. Adorava causar, nela, essa reação.

Ao contrário do esperado, Asmita sentiu duas mãos delicadas colocarem suas mechas loiras para trás, no intuito de evitar que caíssem no rosto dela, e acariciarem-lhe a face logo mais. Devagar, as mesmas mãos trouxeram seu rosto para baixo, fazendo o que ele antes não fizera: selando os lábios. Imediatamente, ele pediu passagem com a língua, e lhe foi concedida.

Eram raros os momentos em que os dois se permitiam aquele contato, pois ambos consideravam algo íntimo demais para ser feito futilmente, mas, quando acontecia, a intensidade que os envolvia era quase desconhecida. Sempre parecia algo novo, como se nunca tivessem se beijado antes. E sempre era diferente; o único detalhe que permanecia era a sintonia das batidas dos dois corações.

Asmita migrou os lábios para uma das bochechas macias de Calíope, deixando o nariz deslizar como composição de seu toque até encostar no dela, e iniciou um novo beijo, ainda mais sedento do que o anterior. O fato de não praticar tais ações não significava sua ignorância sobre elas. Ele sabia muito bem o que era a sensação de prazer que sentia ao ficar assim com ela; quando sentia as mãos deslizantes dela em seu corpo, sabia que era algo que deveria evitar. Mas aquela musa era simplesmente irresistível e, a cada dia que passava, tornava-se maior fato de que ela havia aparecido para si como um teste a ser superado. No entanto, havia inverdade nisso, pois Asmita não a enxergava dessa maneira nem de longe – e já tinha admitido isso.

Os dois lábios se afastaram minimamente para a retomada de ar, porém os superiores mantiveram o toque.

– Não tenho preocupações atuais. – Calíope disse.

– Equívoco seu achar que acreditarei nisso.

– Tudo bem, minhas preocupações são bobas diante das suas. – delicadamente, iniciou um carinho nas madeixas loiras que teimaram em cair.

– Isso é relativo e ainda assim não importa. Interesso-me do mesmo jeito.

De repente, um pensamento chegou na mente de Calíope: Tália estava certa. Era óbvio que estava apaixonada por Asmita, mais óbvio ainda que sentia frustração por não poder ser admirada por ele da forma que queria. Mas, ainda assim, ele a via muito melhor do que qualquer um, algo que refletia em seu adorável jeito de olhar o mundo, algo que Calíope adoraria possuir – a possibilidade de ver de outra forma. Asmita parecia conhecê-la muito bem, mas ela não se sentia assim, principalmente porque não sabia como ele a enxergava de fato.

– Asmita, eu queria que você me visse. – admitiu, finalizando a fala num suspiro.

– Mas eu já lhe vi, Calíope.

– Não digo da forma que você vê...

– Nem eu. Estou me referindo à forma que você vê.

– Como é possível? Você é... – quase disse ‘visualmente limitado’, mas a verdade era maior e deveria ser dita. – Cego.

– Sim, sou, mas também sou telepata.

Essa surpresa Calíope não conseguiu ignorar. Saltou do colo do virginiano, sentando-se direitamente para encará-lo no mesmo nível.

– Como?!

– Sou telepata, posso ver o que aquele que se comunica comigo através desse poder quer que eu veja. – Asmita procurou em segundos a mão da musa para voltar a segurar e sentiu um leve aperto ao encontrá-la, o que o fez sorrir. – Pedi para que Shion me mostrasse você. Eu não faria algo assim anteriormente, mas confesso que minha curiosidade me incomodou de forma que não consegui evitar.

Calíope estava perplexa. Nunca imaginou que tivesse sido vista por ele.

– E...? – perguntar foi inevitável. Nem precisou estender para que ele entendesse.

Asmita sorriu largamente, enfatizando o rubor no rosto da musa.

– Eu já sabia que você era belíssima, Calíope. – em seguida, virou o rosto, à procura dos lábios dela, que rapidamente o atendeu.

– Hunf. Eu ainda prefiro sua maneira de ver... – claro que preferia, era a maneira mais especial que encontrara no mundo. A visão através dos demais sentidos era absurdamente encantadora e fazia parecer que todas as aparências contempladas pela visão fossem superficiais.

– Nunca achei que fosse admitir. – Asmita riu pelo nariz, puxando-a aos poucos para de volta ao seu peito. – Mas também prefiro ver você dessa forma que vejo.

Inesperadamente, Calíope sentiu o corpo tocar na grama e ser coberto pelo do virginiano, que manteve as mãos ao lado de sua cabeça, apoiando-se. Estava tão perto, mas ainda tão longe.

– Asmita... – iniciou, ofegante. – Quero que me ensine a ver da forma que vê.

– Um longo processo.

– O que você sugere? – fitando os lábios finos próximos.

– Que se mude para a Casa de Virgem.

Em seguida, puxou-a para mais um beijo, até sentir os dois corpos se colarem.

~

Desesperadamente, Urânia correu. Seus pés e panturrilhas, já bastante arranhados devido aos galhos daquela floresta, faziam mais esforço do que nunca, ansiando por chegar logo no objetivo local. Não foi difícil constatar a localização do espectro de Benu na área da floresta que ia além da barreira protetora de Athena. Assim que se deparou com a resposta, Urânia simplesmente correu, sem se manifestar direito para os protetores das casas zodiacais, muito menos para qualquer outro cavaleiro que encontrou no caminho. Acabou fazendo o que Clio tanto disse para não fazer: ocultou o cosmo até sair da barreira.

E agora corria rapidamente, pegando passagem entre as árvores, deslizando de uma para a outra como sua categoria permitia, e, determinada, mantinha o olhar aberto e feroz, ainda que gotículas de chuva caíssem em seus olhos, incomodando com eficiência sua disposição.

Sentia o cosmo de Kagaho minimamente se expondo para ela, como se a chamasse e a quisesse logo. Em momentos como esse, apertava o passo, enquanto o coração acelerava ainda mais e a expressão se fechava numa indignação excepcional. Sim, estava furiosa com ele, mas também havia algo a mais... Seu coração estava batendo por algo a mais... Sentia a boca atiçando gosto de cinzas, gosto ardido de ansiedade e medo, gosto amargo de insegurança engaiolada na esfera mais profunda da alma. Uma esfera mal resolvida por conveniência própria, ilusoriamente carregada do discurso desleixado da força interior.

Nem percebeu quando iniciou um choro silencioso, mas o fez e o aceitou até o momento em que chegou num dos abismos da floresta, onde viu a figura imponente e intimidadora de Kagaho, vestida com a armadura de Benu e encarada com um sorriso sarcástico no rosto, cujos olhos fervilharam de excitação.

– Urânia. – Kagaho disse, observando-a intensamente.

Urânia sentiu um tom a mais, diferente, algo próximo do admirado. Decidiu respirar fundo antes de proferir qualquer palavra e fechou imediatamente seu semblante, de forma que demonstrasse o máximo da inimizade que pulsava em seu interior.

– Deixaram você sair facilmente ou andou ocultando o cosmo? Lembro-me de quando você fazia isso com frequência. Se não me engano, sua fase rebelde começou logo depois que suas irmãs descobriram sobre mim. – explanou, orgulhosamente.

– Não quero provocações, Kagaho. Me dê os documentos.

– O que tem de mais nesses documentos? Só os peguei pra poder ter essa chance de te ver, admito. Mas – tirou os documentos de um dos mecanismos de suas grandiosas asas e os folheou pretensiosamente. – acredito que sejam importantes, não? Isso me parece antigo. – folheou mais um pouco, sem cuidado algum, e fechou os na mão. – Vai matar minha curiosidade? – seu sorriso se ampliou.

– De forma alguma. – ela respondeu, procurando o tom mais normal possível. Não daria o luxo de se comover com provocações, mesmo sendo difícil. Entretanto, vacilou em seguida: — V-você... Hãn... – droga! – Me passe logo isso.

Ao contrário do que foi pedido, Kagaho colocou as folhas novamente entre as asas e se aproximou lentamente, sem quebrar a linha imaginária tênue que ligava seu olhar ao dela. Os azuis cristalinos que eram os olhos da musa nunca deixaram de hipnotizá-lo sequer um instante. Por isso, mesmo em vias hostis, nunca era fácil encará-la e desafiá-la. Kagaho reconhecia isso.

Urânia permaneceu imóvel enquanto ele se aproximava. Já previa assédios e tormentos psicológicos, mas não conseguia reagir. Ir até ele foi, desde o início, um ato impensado, porém necessário. Era em momentos como esses que ela se deixava levar pela emoção e pelo instinto. Além disso, ninguém mais poderia exercer sua função no momento, afinal ele queria somente a ela. Mesmo em meio a tais pensamentos, esqueceu-se de respirar por um tempo, até sentir as pontas dos dedos do espectro tocarem seu colo.

– Hunf. – Kagaho pegou o pingente de estrela, encarou-o e depois subiu seu olhar de volta para o dela. – Você ainda se arrepia muito fácil comigo, Urânia.

– Não seja convencido. – ela conseguiu falar.

– Impossível. Você me envolve descaradamente. Já te pedi pra não fazer isso. – disse, com graça e deboche. Riu, sem piedade, na cara da musa só para ver a belíssima expressão de dor que ela costumava fazer. – Enfim, eu disse que íamos nos ver de novo, não disse? Ainda bem que me obedeceu e não ousou se esquecer de mim.

– Engana-se, Kagaho. Vivi um ótimo tempo sem me lembrar de sua existência. – mentiu e mentiria para sair melhor. Mentiu e mentiria para pisar no orgulho barato de Kagaho. – Teria continuado assim se não tivesse aparecido... – sem querer, sua voz murchou.

– E teria acontecido o quê? Você teria continuado com essa atuação ridícula de ajudante de Athena? – Kagaho se afastou para iniciar uma caminhada de vai e vem pelo espaço, sempre mirando a musa confusa. Seus braços cruzados evidenciavam o semblante de figura superior.

Uma nuvem espessa de chuva tomou o cenário por trás de Kagaho, anunciando o clima que se estenderia dali a algumas horas. Todo o céu, naquela área da floresta, estava bastante escuro e hostil, inclusive enfatizando o perigo de estarem perto de um abismo tão perigoso. Mas Urânia estava focada demais nele para se importar com esse detalhe trivial. Seus olhos queriam atacá-lo da forma mais agressiva, mas seu coração, em algum canto, parecia hesitar, trazendo novamente o gosto de cinzas na boca.

– Vou continuar ajudando Athena com ou sem você no caminho. – ela bradou, determinada, porém o espectro gargalhou, demonstrando toda a falta de seriedade.

– Então vou dificultar as coisas pra você e jogar essa merda lá embaixo, que tal? – Kagaho ameaçou, com os documentos novamente em mãos. Adorou ver a musa travando em seu semblante de terror. – Como pensei... – sorriu maldosamente. – Agora vamos falar sério, Urânia. Por que foi para o Santuário?

– Quem está perguntando isso: Kagaho de Benu, Estrela Celeste da Violência, espectro de Hades, ou Kagaho?

– E você acha que vou optar por um nome sem título algum? – novamente, ele sorriu, seguindo até uma pedra mais alta, posicionada ao lado de uma grande árvore. Olhá-la de cima era ainda melhor.

– Você acha que, quando optei por você, optei por causa de algum título?

Kagaho, que tinha os olhos vidrados no horizonte, voltou-se para a musa, com uma séria expressão. Não esperava por aquele tipo de pergunta, meio carinhosa e ao mesmo tempo intimidadora. Não era esse tipo de reação que estava esperando de Urânia, mas, ainda assim, sentiu algo morno aquecer seu interior. Nos olhos dela, viu um brilho escondido.

– Não importa quem está perguntando. – virou o rosto bruscamente, não queria que ela o visse corado. – Apenas responda.

– Não sei por que fui para lá, mas sei por que estou atualmente. – imediatamente, Urânia pensou em Sísifo. Lembrou-se das palavras que dissera antes de sair correndo e não resistiu em sorrir ao pensar que o encontraria à noite para uma conversa. Isso se tudo desse certo...

Da pedra, Kagaho a observou pelo canto do olho, mas logo se arrependeu. Viu aquele brilho, antes escondido, manifestar-se enquanto ela se silenciava e sentiu a raiva acumulada palpitar no peito. Ela estava pensando em algo feliz, algo que, com certeza, não o envolvia e que, provavelmente, envolvia outro alguém.

Rapidamente, ele recuperou o semblante.

– Deixe-me adivinhar. Você está apaixonada pelo cavaleiro de ouro de Sagitário. – em seguida, pulou para perto de Urânia, que se assustou com o ato repentino.

Embora as palavras tenham saído com evidente sarcasmo, Urânia não deixou de captar o ressentimento e o desprezo por trás. Perigoso. Kagaho sempre fora muito possessivo quando se tratou dela, mesmo no fim do relacionamento. Não queria ter que desafiar esse orgulho dele, mas mentir também não era opção. Mas as palavras não saíram.

– Ah, Urânia, como você é tola. Continua insistindo nesse sentimento nojento que só desgraça os dias que existem... – Kagaho disse, mas pareceu dizer mais para si do que para ela, a musa observou.

– O que preciso falar para que me entregue os documentos? – optou por desviar, não teve jeito. De forma alguma iniciaria uma discussão acerca de seu atual envolvimento com outra pessoa. Ver a forma rude com que ele recebeu a notícia já a deixou tensa demais.

– Não, não, musa. Volte para o tópico anterior, fiquei curioso. – Kagaho coçou o queixo. – Está realmente levando à sério se envolver com aquele cavaleiro? – dessa vez, parou para encará-la.

– Se levei você à sério, por que não?

Kagaho gargalhou com a resposta.

– Sugiro tomar cuidado. Você afiada só me excita mais.

Foi tudo rápido demais. Quando ela percebeu, foi prensada numa árvore e presa pelos braços do espectro, enquanto sentia a respiração dele em seu pescoço, migrando gradualmente para perto de sua boca. Mas ele não fez mais do que isso, pois subiu o rosto para encará-la de perto com os olhos violetas e penetrantes. Em outra época, ela teria se excitado imediatamente e pedido para ele possuí-la com todo o desejo acumulado, mas naquele momento, só conseguia pensar na proximidade exagerada dele de forma negativa.

– Não, Kagaho. Você não está excitado. Está bravo e solitário, como sempre foi... – sussurrou ela, alto o bastante para que ele ouvisse. Para sua surpresa, Kagaho se afastou, com os olhos meramente arregalados. Conhecia-o o suficiente para saber que havia lhe chateado com tais palavras.

– Nada era solitário com você na minha cola. – deu as costas bruscamente para a musa, que suspirou aliviada.

Kagaho caminhou até a beira do abismo e o fitou de cima.

– Sabe, Urânia, fiquei surpreso ao te ver ao lado daquele cavaleiro, mas ao mesmo tempo senti muito nojo por perceber que você continua idiota e burra quanto a esse assunto de amar. Mas você gosta de sofrer, não é? – olhou-a por cima do ombro direito. – Gosta de se isolar, de se fazer de vítima, de se enfraquecer para se testar... Gosta de depender das irmãs... Não foi assim que você buscou conforto quando eu te deixei? Não foi assim que buscou conforto quando Sísifo de Sagitário não te ouviu naquele dia? – sorriu ao vê-la franzir a testa em chateação. – Eu soube que você se isolou... Realmente acha que aquele cavaleiro é capaz de amar você? Ele é preso àquela deusa tanto quanto você é presa ao seu passado comigo.

– KAGAHO. – Urânia não aguentou, precisou gritar, expressar seu ódio diante daquelas palavras. – Não ouse dizer que sou presa a qualquer coisa que envolva você.

– Onde está a mentira no que eu disse? – Kagaho riu, debochadamente, amando a reação da ex-amante.

– Só porque você não é capaz de amar, não significa que outros não sejam! – Urânia fechou os punhos. Sua respiração foi presa por um sentimento amargo e pulsante em seu interior. Percebeu que a voz estava cada vez mais alta de acordo com as respostas que dava.

– Ah, é? – cruzou os braços, fuzilando-a com o olhar. Quase sentiu o coração mais pesado devido à enorme dosagem de raiva que adquiriu após o que ouviu. – Talvez seja bom manter esse amor escondido então, pois há mais inimigos por perto do que longe. Lembro-me daquela sua bela irmã que se apaixonou por mim no mesmo tempo que você. Euterpe, não? – forçadamente, gargalhou com desprezo ao dizer o nome da musa da música.

Urânia não soube dizer como não conseguiu se controlar, mas, com o cosmo, empurrou Kagaho para abismo adentro, completamente furiosa. Seus negros cabelos chicotearam o ar, fazendo questão de entortar o diadema de estrelas, e seu vestido esvoaçou agitadamente, maltratando-lhe as pernas com passadas agressivas. Só seu corpo permaneceu imóvel entre a nuvem branca que se concretizou com seu cosmo.

Em poucos segundos, viu a figura do espectro retornando, suportada pelo bater das enormes asas da armadura de Benu. O sorriso matador no rosto dele denunciou todo o ódio contido até então.

Só que Urânia não esperaria mais para falar:

– Não ouse citar o nome da minha irmã, espectro. – com todo o asco possível.

Kagaho bateu palminhas enquanto retornava para o chão.

– Muito bem, Urânia. Confesso que agora me excitei de verdade. – iniciou, com divertimento. – Mas se você não quer acreditar em mim, deixarei que volte com o que quiser. Sei que em breve verei o resultado das suas frustrações. Até porque não temos intenção de perder essa guerra. E se, por um milagre, Sísifo de Sagitário sobreviver, eu mesmo volto e coloco um fim naquela luta que não conseguimos ter graças a você.

Dessa vez, Urânia não deixou de devolver o sorriso maldoso.

– Ponha-se no seu lugar, espectro. Você não passa de um humano, desprezível e solitário, servo de um deus por quem sequer tem afeto. Eu sou uma Musa, uma divindade, e só não lhe esmago porque sua morte não me diz respeito. – a superioridade que esteve ausente o tempo todo veio como um baque só no semblante iluminado que Urânia fez questão de monstrar. De fato, ela acreditava nas próprias palavras, e era isso que estava faltando desde o início. – E, se por um milagre, você sobreviver a essa guerra e enfrentar Sísifo de Sagitário, eu me meterei novamente. Porque não há prazer maior em ajudar o homem que eu amo.

– Ridículo. Não me menospreze só porque é uma Musa, não se esqueça de que consegui acabar com suas forças apenas com palavras. – Kagaho se defendeu, visivelmente ofendido. Mal se lembrou de esconder o orgulho ferido. Engoliu seco ao ver o olhar desafiador de Urânia, tão intenso quanto quando o olhava com amor. Porém ele entendeu que, dessa vez, o sentimento passava longe disso.

– Cale-se, Kagaho. Entregue-me os documentos e volte para as suas trevas. Você não é bem vindo onde há luz. – rebateu, séria e cansada de argumentação barata. Mal esperava pelo momento de retornar, só que havia mais um motivo para seu encontro com o espectro. Olhou cuidadosamente o espaço. – Onde está Pío? Sei que você tem a ver com o sumiço dela.

Silêncio. Kagaho manteve um silêncio, enquanto encarava o horizonte novamente, de costas para ela. De primeira, a musa estranhou, mas manteve o corpo em estado de alerta. Geralmente, quando ele ficava assim, desenvolvia alguma estratégia para resolver problemas específicos – muitas vezes, ela não captava tais problemas. Só que ele parecia distante demais...

Repentinamente, ela teve sua atenção roubada pelo barulho de folhas caindo no chão e então viu os documentos espalhados num canto de uma árvore. Kagaho os havia jogado para o alto. Sem esperar, ela correu e se abaixou para pegá-los rapidamente, não se importando com a ordem das folhas. Pensou em questioná-lo diante do ato, mas achou melhor alongar o silêncio. Talvez ele entregasse logo Pío também. Mas não, ele manteve-se imóvel.

– Kagaho...?

– A serva... – começou, sem se virar para a musa. – Está lá embaixo. Está morta.

– O quê?! – Urânia se levantou e correu até o limite daquele espaço, para então olhar para baixo. Só viu neblina, porém.

– A serva caiu. – respondeu, enraivecido. Só então viu o olhar perplexo da musa para si. – Tsc. Cacete, não vim aqui para ficar cuidando de seres inferiores. Ela caiu e morreu. Está lá embaixo. Quer que eu te leve lá?

Kagaho não ouviu resposta, apenas viu a musa se encolher no chão e chorar. Não entendeu nada. Por que diabo Urânia estava chorando por uma mera serva? Essa era a questão em sua mente – porém a questão mais insignificante. Permaneceu com os braços cruzados, ali mesmo, ao lado dela, ouvindo o choro lamurioso da musa da astronomia, enquanto observava o nada, com seus olhos vazios. Não teria tentado salvar a serva, mas também não sentia nada bom quando Urânia chorava.

– Por que ela estava aqui? – ela piou, baixinho.

– Ela se preocupava demais com a família. Foi fácil ameaçar e conseguir o que eu queria.

Pelo canto do olho, o espectro viu a musa se levantar e endireitar o vestido branco. Assim que se viu observado, desviou o olhar, sabendo, pela visão periférica, que ela se aproximou aos poucos. Só que tudo foi muito rápido quando Urânia pisou em falso e caiu.

E Kagaho a observou cair e se perder na neblina, ouvindo um grito mudo em seu interior que foi incapaz de ser liberto.

Não, ela não.

Notas finais
EAINNNNNNN, POVO! Salvar ou não salvar Urânia? EIS A QUESTÃO. MUAHAHAHA E QUEM AÍ SENTIU FALTA DO JORNAL “PERGUNTAS ÀS MUSAS?” Sabe o que fiz pra vocês? UM ESPECIAL DA MUSINHA ~sim. Cá está o link: http://socialspirit.com.br/perfil/cguerra/jornal/perguntas-as-musas-iii--especial-talia-3621975 Beijos, amores.