Notas iniciais
Olá, queridxs leitorxs! Awn, novamente, peço desculpas pelo atraso. Meu PC tinha parado de funcionar - algo que me deixou desesperada, descabelada, desorientada -, e achei que só o conseguiria de volta dps de 17 dias, MAS não foi assim - yay! Ah, não sei se vocês costumam ouvir as músicas que eu sugiro, mas sei que tem gente que gosta, então assim, acho que será bem agradável se vocês escutarem "Heartbreak Warfare" do John Mayer no último "~" que estará SUBLINHADO. Porémmmm, eu escrevi escutando "Demons", de Imagine Dragons! Aí fica na escolha de vocês. Bom, vamos lá! Boa leitura :*

Capítulo 56

Tudo parecia tão leve, tão frágil. Tudo parecia cada vez mais distante. Não, não tudo; seu sentimento ainda pulsava belamente em seu coração, como se fosse a última coisa a qual poderia se apegar nesse momento de horror. Somente o céu parecia mais distante.

E fazia sentido, pois ela estava caindo.

Entretanto, o céu poderia estar mais bonito nesse momento, já que sua queda era certeira, mas ele só parecia se fechar cada vez mais. A sensação de perigo aumentava a cada rajada forte de vento, causada pela velocidade com que caía para o nada.

Urânia não queria fechar os olhos, pois não queria, de forma alguma, acreditar que sua última visão seria a trajetória de sua queda. Mas estava difícil, cada vez mais difícil. Principalmente por ter os olhos lutando contra as chicoteadas de seus finos cabelos, que teimavam em dançar diante deles, deixando claro o que estava acontecendo. Já sua mente tentava, com mais força, ignorar as imagens e o que elas queriam significar. Afinal, ela não queria acreditar que novamente falhara com Sísifo.

Não o encontraria mais tarde na Casa de Sagitário – tinha certeza. Quem a salvaria? Kagaho que não. Claro que não. Por que sua segurança seria prioridade naquele momento, ainda mais depois de ter dito palavras rude para ele?

Palavras rudes, porém verdadeiras. Ah, sim, quanto a isso, Urânia estava feliz. Finalmente desabafou seguramente o que estava em seu coração. Fizera mais do que isso: deixou claro quem estava em seu coração. E não era Kagaho.

No entanto, por um segundo, um relapso de ódio tomou seu interior, pois a realidade de que tudo acabaria no momento em que encontrasse o chão chegou. De que adiantava ser uma divindade se acabaria morrendo dessa forma? Seu corpo, embora fosse divino, continha necessidades humanas por renascer na terra. Não era um corpo comum, evidentemente, mas poderia morrer, bem como renascer dali a um tempo, exatamente como fora deixado. Mas o problema era justamente esse tempo, que sempre se mostrava indefinido.

Se morresse agora, provavelmente renasceria num momento sem Sísifo no mundo. E isso doía mais do que qualquer outra verdade.

Foi justamente esse pensamento que a fez encorajar Melpomene a usufruir o tempo com Albafica. Sempre soube das possibilidades ruins que o veneno desencadearia no corpo de Mel, mas de que valia essa proteção toda se fosse para manter as vontades reprimidas? Ou pior: o amor? De nada, obviamente. Entretanto, Urânia se descuidou.

E agora caía.

– Sísifo...

Pela primeira vez, o chamou. Sentiu-se mal por chamá-lo num momento tão doloroso. Sentiu-se covarde por ter dito o nome dele como um sussurro de adeus. Porque era assim que se sentia: como se estivesse dizendo adeus. Como se sua voz pudesse chegar até ele, naquele momento, daquela forma, com tal intenção...

E, finalmente, ela fechou os olhos e relaxou o corpo, mas a necessidade de dizer aquele nome tão belo, nome que significava a pessoa mais bela que já conhecera, novamente se mostrou:

– Sísifo... – apesar da dificuldade em respirar, continuou: — Sísifo, eu-

Não conseguiu terminar, pois, repentinamente, um baque parou sua queda.

~

Após deixarem Euterpe seguir com suas provocações, Terpsícore e Erato caminharam até a entrada da parte Leste da floresta, onde a primeira havia dito que ficava a mais bela cachoeira do Santuário. Embora o tempo estivesse fechando, as duas não viram outra opção de entretenimento mais convidativo do que essa, ainda mais por procurarem um espaço onde pudessem conversar com tranquilidade.

Conversar. Terpsícore precisava conversar com alguém sobre sua nova descoberta. Tudo se tornou mais confuso em sua mente depois que soube da existência de Aspros, e não era a figura em si que a assustava, mas sim a história por trás dela. Tinha certeza de que Defteros não havia contado tudo, porém nem sentiu necessidade, pois o semblante do geminiano naquele breve momento deixou claro que o assunto era delicado demais para ser aprofundado. E tudo que ela menos queria fazer era deixá-lo incomodado com sua presença.

Entretanto, as palavras a sufocavam.

– Tem certeza de que é por aqui? – Erato perguntou, cortando a irmã dos devaneios. Rapidamente percebeu que Terps estava longe, pois a viu tropeçar duas vezes.

– Sim, sim. Está sentindo esse cheiro doce? – Terps inalou fundo e, ao ver a irmã assentir, sorriu: — Logo chegaremos a uma clareira enorme, cheia de flores. Quando passarmos dela, encontraremos a cachoeira. Já fui lá várias vezes, confie em mim.

– Eu confio. – Erato sorriu de volta, mas seu sorriso logo se desfez ao ouvir o som de galhos quebrando. – Vai nos seguir até quando sem falar nada, cavaleiro?

Terpsícore parou o passo para olhar com questionamento a irmã. Não havia percebido presença alguma devido à imersão em pensamentos, mas, no momento em Erato falou, pôde sentir.

Erato se virou para um canto do bosque, parando em seguida com as mãos na cintura e uma expressão de tédio. De onde ela mirava, o cavaleiro saiu, com o rosto completamente vermelho.

– Eh... Demorou. – Régulus disse, coçando a nuca. Não ousou mirar a musa mais nova nos olhos.

– Demorei para deixar claro, não? Mas percebi você no momento em que entramos no bosque. – como se não fosse nada, virou-se para seguir caminho. – Vamos, Terps.

– Ei, ei! – Régulus chamou. Não deixaria a musa ignorá-lo novamente. – Vou com vocês.

– E por quê? – Erato não se virou, apenas enroscou o braço no de Terps, que não entendeu nada.

– Porque, em tempos como esses, não devemos deixar senhoritas saírem sozinhas por aí, mesmo dentro dos limites do Santuário. – disse, convincente.

– Eu sei que você é um cavaleiro de ouro, mas o que você, sozinho, pode fazer tanto para nos proteger? – Erato perguntou, normalmente, ainda sem se virar.

– Ora, não me julgue assim. Posso fazer muito mais do que muitos que conheço. – Régulus retrucou, ofendido. Perguntou-se por que aquela musa parecia ter prazer em desmerecê-lo tão facilmente. Até pensou em concretizar a pergunta, mas ao ver Erato rir tão graciosamente, desestruturou-se.

– Desculpe-me, cavaleiro. Você está certo. – dessa vez, ela o mirou por cima do ombro, oferecendo, também, um doce sorriso. – Aceitamos sua companhia!

Régulus não evitou o enorme sorriso que brilhou em sua face – e que desapareceu assim que Erato se voltou para frente e continuou o caminho com Terpsícore. A cada momento que passava, ele se perguntava qual era a real intenção da musa para consigo. Ou se havia alguma. Estranhava a resistência dela para com seu charme já que, geralmente, extraía suspiros de muitas amazonas. Não tanto quanto seu tio, porém.

Bom, conseguir a função de protetor era melhor do que nada, portanto seguiu logo atrás das musas.

– Erato, queria conversar a sós com você. Por que aceitou a companhia do cavaleiro de Leão? – Terps perguntou, quase num sussurro.

– Acalme-se, Terps. Nós conversaremos sozinhas sim. – a ruiva respondeu serenamente. No seu doce tom de voz característico.

Chegando na altura da cachoeira, Erato se deslumbrou com a paisagem que viu. Realmente, valia a pena passar a maior parte do tempo naquele local, pois tudo ali convergia harmonicamente para a melhor energia acolhedora que poderia encontrar. A água cristalina parecia chamá-la com intensidade, tomando conta de toda a beleza do espaço. E as pedras pareiam brilhar e refletir algumas cores vindas das flores tímidas que se espalhavam por alguns cantos, compondo ainda mais o belíssimo retrato.

– Ah! – Erato suspirou, encantada. – É maravilhoso!

Não esperou mais para saltar até um plano mais baixo do local, onde algumas pedras maiores ficavam. Teria ocorrido tudo bem se Régulus não tivesse se assustado com a atitude e soltado uma suspiro de horror, que causou comoção em Terps.

– Está tudo bem, cavaleiro. Isso é normal. – ela disse, afagando o braço direito dele, no intuito de acalmá-lo.

– Ela poderia ter se machucado!

– Hm... – Terps fingiu pensar. – Não, não, ela faz isso de alturas maiores. Aprendeu com Tália.

Inesperadamente, Régulus gargalhou. Não entendeu por quê, apenas o fez. Sentiu uma imensa vontade de rir daquilo, não só por ter se preocupado à toa, mas porque se sentiu surpreendido com uma atitude tão ousada. E, por um breve instante, sorriu também por se achar desnecessário ali, pois, em momento algum, aquelas musas demonstraram necessidade de proteção. Mas ainda assim ficaria, nem que fosse apenas para admirar a pequena musa da poesia romântica, que o intrigava cada vez mais.

Erato finalmente chegou até à beira da cachoeira e mirou Terpsícore, que já se encontrava nas pedras onde antes esteve. As duas trocaram olhares de cumplicidade – os quais não passaram despercebidos pelo leonino. Mas algo a mais foi trocado entre elas, um sorriso que ele não compreendeu.

Entretanto, sua falta de compreensão durou pouco, pois, em seguida, viu-as se despirem rápida e totalmente.

– O-O que...

Não conseguiu terminar a frase. E também não saberia como terminar, pois as palavras pareceram lhe abandonar por completo, deixando-o à mercê do fluxo daquela situação constrangedora. O que faria? O que seria digno e honrável perante aquilo? Não estava acostumado com garotas tirando a roupa livremente em sua frente, mas parecia uma boa oportunidade para aflorar suas percepções. No entanto, não foram dois corpos que chamaram sua atenção, mas um. O de Erato.

Era um corpo pequeno, branco e aparentemente quebradiço, totalmente livre de marcas. As clavículas – já conhecidas por ele – indicavam a entrada de um caminho inteiramente convidativo para a região dos seios, cujo tamanho pequeno tornava o corpo ainda mais delicado. No vale entre eles, havia um adorável sinal, discreto, que só apareceria se fosse procurado. Só que Régulus o havia achado à distância, tamanha era sua atenção naquele corpo. Mais abaixo, uma barriga lisa, cujas cinturas abriam um pouco, deixando um esbelto quadril como composição para, logo então, introduzir a parte mais temida. A parte que ele tentou não olhar, a parte que o umbigo o impulsionou a olhar quando ele viu que havia duas entradinhas na cintura.

E, bem na hora, Erato se virou para prender os cabelos ruivos – os quais só potencializavam o charme daquele corpo. Sendo assim, Régulus pôde ver a bela curva do bumbum arrebitado dela, tão proporcional quanto o resto do corpo. Bumbum pequeno e redondo.

– Cavaleiro, não me importo que olhe, mas poderia ser um pouco mais discreto? – Erato perguntou, rindo descontroladamente e puxando Terpsícore para rir consigo.

A vermelhidão que se apossou do rosto do leonino só alimentou esse momento engraçado que elas encaravam. Totalmente envergonhado, Régulus virou marcadamente a cabeça para o outro lado, deixando claro que não olharia mais. Agradeceu por elas não terem visto o bico de insatisfação que fez.

– Cavaleiro, por favor, poderia nos proteger aí de cima? – Erato perguntou, um pouco mais alto. Viu-o assentir, ainda com o rosto virado para o alto. – Ei... Ei... Régulus! – chamou até vê-lo finalmente virar o rosto vermelho. Controlou uma risadinha e ofereceu um sorriso. – Obrigada.

Instantaneamente, o coração do leonino acelerou ao ver que não só o sorriso dela se fez doce, como também seu olhar. A forma que ela o olhou foi diferente, ele percebeu. Como poderia desobedecer? Ainda mais após ela tê-lo chamado pelo nome... Ah, de fato, ele gostava de ouvi-la chamá-lo assim.

Poucos minutos depois, Terps e Erato entraram na água. A ansiedade que tomava a primeira não a deixou controlar a vontade de iniciar logo a conversa que queria, e, encorajada pelo olhar paciente de Erato, nem se preocupou.

– Defteros tem um irmão gêmeo.

– O quê?! – Erato arregalou os olhos. – Mesmo? Onde ele está?

– Bom, eu não sei, só descobri a existência dele recentemente... – Terps levou a cabeça para trás até molhar todo o cabelo.

– Não sei o que dizer. Por que me disse isso?

– Porque está me incomodando e nem sei por quê.

– Como incomodando? – Erato imitou a irmã e sorriu ao sentir a água refrescante se misturar com seus cabelos, deixando-os leves. Seus braços, naturalmente, abriram-se.

– Parece que, depois que descobri sobre ele, passei a senti-lo na casa de Gêmeos... Não sei... Mas é um pouco assustador. – Terps se ergueu para observar a irmã. – Eu o vi no espelho, Erato.

– Que espelho?

– Do quarto de Defteros. Tenho certeza de que era ele, pois, ainda que sejam gêmeos, são completamente diferentes! – sua voz saiu um pouco mais alarmada do que queria, a tal ponto que Erato se ergueu também, convencida da tensão de Terps.

Ainda assim, a ruiva estranhou o relato.

– Terps, será que você não está só incomodada porque não sabe tudo sobre esse gêmeo ainda?

– Quando eu o vi no espelho, ainda não sabia sobre ele... – Terps deixou os braços dançarem na água, no intuito de relaxar o corpo, porém não se sentiu nem um pouco relaxada.

– Então faz sentido. Você o viu ou sentiu depois que soube da história?

– Ainda não.

– Bom, por que você não testa isso? Talvez se você for lá hoje... – Erato deixou subentendido, nem estendeu a fala quando viu a irmã assentir. – Mas, sabe o que eu acho disso? — esperou Terps mirá-la. – Muito romântico! Imagine só que bonito você num amor compartilhado com irmãos gêmeos! Daria uma bela história eu acho! – juntou as mãos, apaixonadamente.

– Não fale bobagens! – Terpsícore exclamou, um pouco alto demais, e, ao obter uma risada da irmã como resposta, não hesitou em jogar uma porção de água no rosto dela. E se surpreendeu ao receber o mesmo.

De cima, Régulus admirou as duas musas em sua guerra de águas. Achou sexy demais Erato em ação. Não deixou de perceber que, embora a musa fosse pequena, emanava uma segurança forte em seus atos e gestos – tanto que, por vezes, sentiu-se intimidado pelo fato. Mal percebeu que levou as mãos na boca ao prestigiar o momento. Estava admirado demais com aquela musa.

– São muitos momentos para imaginar e se inspirar antes de dormir, não é mesmo, cavaleiro? – uma voz pouco rouca e muito sensual chamou a atenção do leonino inesperadamente.

Régulus quase engoliu a língua ao ver a musa da música parada ao seu lado, com um semblante de quem se divertia com seu estado. Euterpe, em contrapartida, sorriu da forma mais meiga que pôde, antes de dar mais um passo.

– E vocês falam de mim! – a musa gritou para as irmãs que ainda guerreavam. Só continuou quando teve a atenção que queria. – Como podem fazer isso com esse jovem rapaz? – perguntou, negando com a cabeça, porém rindo. – Confesso que estou impressionada com uma iniciativa de provocação dessas. Minhas pequenas estão crescendo, afinal!

– Nós temos a melhor das referências. – Erato respondeu, afiada.

Euterpe gargalhou de prazer.

– Muito bem, minha florzinha. – elogiou, aprovando com a cabeça e sorrindo. Quase morreu de amores ao ver o sorriso doce e infantil de Erato como resposta. Já Terpsícore apenas revidou os olhos e corou ferozmente, como o esperado.

Se Erato era a mais tranquila quanto às malícias que Euterpe ensinava, Terpsícore era a mais tímida. Entretanto, ambas levavam à sério os ensinamentos da irmã morena.

– E-Ei... Eu não... O que você está insinuando tanto, senhorita? – Régulus se meteu, mais constrangido do que nunca. Odiava ser desmerecido por sua idade, mas tal detalhe foi o de menos na fala da musa da música. Seu semblante se desfez mais ainda quando viu Euterpe se virar lentamente e encarar-lhe com uma expressão maliciosa.

– Se você não compreendeu, quem sou eu para impor minha compreensão? – ela respondeu, vitoriosa.

Euterpe voltou seu rosto novamente para as irmãs, mas sentiu um enorme desgosto ao perceber outra presença.

– Eu imponho sem problemas, Régulus. – a voz arranhada e debochada do cavaleiro de escorpião logo invadiu o espaço.

O leonino não deixou de sentir certo alívio por ver o parceiro ao lado.

– Mas será possível! – Euterpe disse, virando-se da mesma forma lenta para fitar o escorpiano, que mostrou sua melhor cara de ironia.

– Boa tarde, senhorita. Com muito calor? Por que não faz o mesmo que suas adoráveis irmãs e nos ajuda a admirar mais a paisagem? – Kárdia abriu o sorriso.

– Porque seu pedido é idiota, cavaleiro. Embora eu saiba da sua ardente vontade de me ver nua, hoje não é seu dia de sorte.

– Aguardarei ansiosamente por esse dia.

– Melhor se sentar, então.

– Concordo, o ângulo daqui – sentou-se ao lado de Régulus, sem pestanejar, e fitou o bumbum da musa – é igualmente satisfatório.

– Que bom, cavaleiro! – assim dito, jogou os espessos cabelos pretos para trás, movimento que Kárdia acompanhou muito bem, e o fitou por cima do ombro, exalando sensualidade. – Fique aí, então.

Kárdia continuou devorando a parte traseira do corpo da musa com olhos predadores, deliciando-se com cada marca que pode encontrar – principalmente as das costas nuas. A pele de Euterpe parecia ainda mais macia naquele momento, convidando-o impiedosamente a tocá-la. Quase podia sentir um formigamento nas mãos. Só que ele estava insatisfeito com um detalhe: Euterpe não o chamara pelo nome.

Embora estivesse feliz pela aproximação com a musa, sentia falta de algo mais íntimo – ainda mais após vê-la passando como se fosse a maioral, na arena em que treinava. Quando viu que os cavaleiros a miraram da mesma forma que ele, sentiu necessidade de marcar algum tipo de território, mesmo não tendo posse sobre ela. Mas ele era assim: possessivo. Aliás, não era, mas passou a ser assim que ela apareceu na sua frente – e na frente dos outros babacas que comeram ela com os olhos.

Só que Euterpe não parecia o tipo de mulher que se deixava ser tomada como posse. E isso era irritante. Mais irritante que quando revidava suas provocações com outras ainda mais instigantes.

Provavelmente, Euterpe era o tipo de pessoa que precisava de algo marcante para marcar alguém. Assim como ele.

Foi então que Kárdia teve a melhor das ideias. Observou atentamente a musa à sua frente, enquanto ela conversava com as irmãs, e se levantou calmamente, sentindo-se um predador diante da presa, que se assustaria com qualquer barulho que fosse. Olhou para Régulus e fez sinal para que mantivesse calado; nem deu importância para a cara de indagação que o leonino fez. Como estava sem armadura, só com a roupa de treino, sentiu-se mais motivado ainda a realizar a brilhante ideia, ideia esta que o deixaria marcado pelo menos por um tempo na memória daquela musa cretina.

E então Kárdia correu, enlaçou Euterpe pela cintura e se jogou com ela na cachoeira.

Se ainda não podia apagar o fogo dela do jeito que queria, arranjaria outra maneira.

~

Ao ver que Mel caiu em sono profundo, Polímnia decidiu sair do quarto. Tinha ficado por seis horas seguidas zelando o sono da irmã, vendo-a se agitar com pesadelos e acalmando-a através de afagos e mantras suaves. Aproveitou para rechear os cabelos de Mel com cafunés e carinhos, no intuito de relaxá-la por completo. Por isso, permitiu-se ter um momento de lazer, mas só acabou o fazendo quando Tália apareceu no quarto para continuar cuidando de Mel. Foi nesse momento que Polímnia se sentiu segura para sair, pois não havia alguém melhor no mundo para cuidar de Mel do que Tália.

Quando saiu, já tinha em mente o lugar que queria ir, por isso não demorou em se apresentar na arena dos aspirantes do Cavaleiro de Ouro de Touro, cavaleiro com quem acabou criando uma boa relação. Sentia-se bem por poder conversar com ele acerca de suas filosofias, ainda mais por observá-lo em momentos de ensinamentos e aprendizados.

Polímnia ficou tão feliz por ter se enganado a respeito dele, em sua primeira impressão (achou-o severo e insano por submeter as crianças a treinos árduos), que se sentiu comovida a ajudá-lo em aspectos variados, como no cuidado de machucados mais sérios dos aspirantes, em meio aos treinos – muitas vezes o fazia através do cosmo, em outras levava o aspirante ferido à enfermaria. Todos gostavam disso, pois a musa passava a mais pura sensação de calma e tranquilidade, derivada de seu jeito excepcionalmente maternal.

– A senhorita está realmente levanto à sério isso de auxiliar no que pode.

Polímnia se surpreendeu ao ouvir uma voz ao seu lado. Estava sentada num dos degraus do meio da arquibancada, ao lado esquerdo da arena, observando o treino, como de costume. Ao virar-se, deparou-se com um sorridente Dohko, cuja simpatia já a havia conquistado de primeira. Não era a primeira vez que ele aparecia na arquibancada para conversar com ela.

A musa devolveu o sorriso antes de falar:

– Estou levando à sério porque é algo que considero sério, embora não me diga total respeito. – voltou o olhar gentil para os aspirantes que treinavam. – Acho gratificante ficar perto dessas crianças. Elas diminuem a impressão pesada que a guerra traz, mesmo que estejam se transformando em guerreiros.

– Confesso é isso que me faz ir ao orfanato na maioria das vezes. Contato com crianças é como recuperar a parte inocente da alma. – Dohko disse. Seu olhar, igualmente gentil, acompanhou o treino por alguns segundos e depois encontrou o olhar ilegível de Hasgard, que soltou um aceno leve com a cabeça.

– Imagino.

– Polímnia... Hum – pigarreou, meio constrangido. – Posso lhe chamar pelo nome, sim? – sentiu-se aliviado ao vê-la assentir. – Obrigado. Bom, Polímnia, entendo muito bem que há conteúdos que você não pode dizer porque envolvem assuntos pessoais de suas irmãs, mas até que ponto, dessa estadia de vocês, não posso perguntar sobre o motivo por trás?

Um breve silêncio acompanhou a musa em pensamentos. Enquanto Dohko manteve os olhos atentos, ela buscou em sua mente tudo o que sabia sobre o tópico abordado. Por fim, suspirou.

Suspiro que Dohko não conseguiu reconhecer.

– Cavaleiro. Não, Dohko... – ela sorriu. – Pode perguntar o que quiser, porém a resposta só vai até o ponto em que sei. Na verdade, não sabemos de muito. Não sabemos se há um grande motivo por trás da nossa vinda. E, embora isso seja angustiante, decidimos obedecer Zeus, sem questioná-lo. – por um breve momento, a musa correu os olhos pela extensão da arena, mesmo não focando em nada. – Eu, particularmente, creio que há um motivo específico... De certa forma, até tenho em mente que há algo relacionado a vocês, cavaleiros de ouro. Pois, pelo o que se pode ver, todas nós criamos certos vínculos afetivos maiores com vocês... E nem fomos conduzidas a isso.

– Hehe, eu não tive tanta sorte. – Dohko se lembrou imediatamente de Tália, mas nenhuma chateação tomou seu coração, pelo contrário: sentiu-se muito bem por se lembrar dela.

– De qualquer forma, ainda assim não sei dizer nada. Estamos brincando com muitas hipóteses e me parece que as dicas estão nas atitudes de minhas irmãs. E das minhas, claro.

– Uma via sem caminho definido. – Dohko disse, involuntariamente.

– Algo assim. – Polímnia concordou com a cabeça. – Mas por que o interesse repentino?

– Porque me parece que ninguém pensa sobre isso a não ser Shion e o Grande Mestre. Tô achando perigoso demais deixar esse detalhe de lado.

– Não estou entendendo...

– É quase óbvio que vocês não estão aqui por acaso. Alguém sabe de algo que nós não sabemos. E tenho medo que esse conhecimento implique no rumo dessa guerra Santa. – Dohko disse, com uma apreensão indiscutível na voz. Polímnia não deixou de sentir um leve arrepio com tais palavras.

Antes que pudesse responder, sentiu três pingos atingirem seu rosto, e, quando se virou para o libriano, viu-o com quatro escorrendo pelas bochechas. Os dois compreenderam o que viria.

– É raro chover nesse período. Melhor sairmos daqui porque a arena fica terrível em dias de chuva. Essa lama aí vai sujar todo o seu vestido. – Dohko se levantou e estendeu a mão para a musa.

– Muito obrigada por se preocupar com o meu vestido. – ela disse, num tom de brincadeira, depositando a mão na dele e descendo em seguida.

Na companhia de Dohko, Polímnia seguiu em direção às Doze Casas, enquanto Hasgard finalizou alguns ensinamentos, antes de liberar os aspirantes para os dormitórios. Pela nuvem que se apresentava ao longe, a chuva demoraria a passar, e, como logo anoiteceria, os treinos foram cancelados.

Na Casa de Áries, Dohko e Polímnia aproveitaram para conversar rapidamente sobre assuntos triviais. A musa e o libriano não tocaram no assunto de antes; não o fizeram porque, sem saber, acabaram adentrando em pensamentos individuais acerca do tópico, portanto ambos mantiveram silêncio. Em pouco tempo, Euterpe, Terpsícore, Erato, Kárdia e Régulus chegaram, sendo o último membro o único inteiramente seco.

– Por que suas roupas estão molhadas, Euterpe? – Polímnia perguntou ao ver que só as musas mais novas estavam com roupas secas, embora os cabelos estivessem molhados.

– Por quê? Ora, por quê! Pergunte a esse cretino de rabo torto! – Euterpe apontou para Kárdia, que não poderia ter apresentado um sorriso mais satisfeito.

– Pelo visto, precisamos de uma dose de chuva pra apagar esse fogo também! – ele retrucou. Régulus, Terps e Erato não hesitaram em rir.

– De fato, escorpião, porque você, sozinho, não conseguiria nunca. – a musa da música respondeu, ainda mais enfurecida.

– Uhhhh! – Dohko exclamou, recebendo um olhar de reprovação de Shion.

– Kárdia, tenha mais respeito aqui em minha casa. – o ariano se impôs. Polímnia, internamente, agradeceu.

– A sua irmã perguntou, mas eu ainda não respondi. – Kárdia disse à Euterpe, ignorando completamente o alerta de Shion. Logo se virou para Polímnia. – Então, senhorita, precisei tomar medidas drásticas, porém divertidíssimas, para acalmar essa fera que você chama de irmã! – em seguida, parou e inalou fundo, desviando-se do foco. – Que cheiro é esse? Shion, tá cozinhando? – animadamente, mirou o protetor da casa.

– Também estou sentindo! – Régulus comentou.

– Ah, olha só! Você voltou a falar. – Erato disse, olhando para o leonino. De fato, o cavaleiro de leão tinha mantido um enorme silêncio desde o momento constrangedor na cachoeira. Só que a musa não entendeu exatamente o porquê e acabou se preocupando no caminho.

Polímnia, de repente, viu-se no meio de um bombardeio de palavras, originado por vários lados: de um, Euterpe e Kárdia trocavam faíscas verbais e visuais, onde era evidente que ele estava se divertindo às custas do irritamento de sua irmã, que, no fundo, parecia se divertir também, mesmo fingindo que não; do outro, Erato tentava fazer o jovem Régulus falar novamente, provocando-o através de um assunto que Polímnia não compreendeu muito bem, mas já imaginava – algo a ver com nudez na cachoeira. À parte, Shion e Dohko maneavam as cabeças de acordo com a conversa que acompanhavam; ambos mantinham os braços cruzados e expressões diferentes – Dohko ria incansavelmente, enquanto Shion, por vezes, revirava os olhos. A única que estava quieta e pensativa era Terpsícore.

– Ah, todo mundo decidiu levar as musas em segurança pra casa hoje, hein! – Kárdia lançou um olhar malicioso para todos os cavaleiros.

– A sua companhia é dispensável, escorpião. – Euterpe puxou as duas irmãs mais novas pelas mãos. – Vamos subir. Essa chuva está aumentando.

Devido ao último comentário de Euterpe, todos viraram o rosto para observar o tempo entre as colunas da entrada da Casa de Áries. Uma brisa veloz e fria apenas confirmou o que a musa havia dito.

– Ehhh, eu já saquei a sua, Euterpe. – Kárdia lançou a ela um olhar que, inesperadamente, recebeu de volta. Era só o que faltava ela saber encarar da mesma forma que ele! Aquela cretina. Pensar nisso só o deixou mais empolgado, mais do que no momento em que os dois caíram na cachoeira. Nunca sentiu tanto tesão em ser chamado de cretino, e ainda teve seu nome dito na mesma frase.

– KÁRDIA, SEU CRETINOOOO! – ela berrou, enquanto os dois, enroscados, caíam em direção à água.

O escorpiano não esqueceria.

Os que antes chegaram à Casa de Áries, partiram para uma subida cansativa na escadaria das casas zodiacais, porém um dos presentes acabou ficando na terceira casa.

Terps observou a entrada da Casa de Gêmeos com uma demora exagerada, até tomar forças para entrar e se dirigir ao quarto do protetor.

~~

Sísifo pegou a xícara de porcelana branca e a trouxe para perto dos lábios, sentindo a quentura adentrar suas narinas e o cheio de chá preencher sua mente – que já não estava ali, naquele momento, mas sim muito distante, procurando o paradeiro da musa da astronomia. Perguntava-se o motivo de ela não ter aparecido ainda. Será que havia se chateado tanto com ele a ponto de não querer mais esclarecer os fatos? Dificilmente. O sagitariano não a via assim.

Mas estava doendo ainda...

Então não conseguia ver os fatos com bons olhos. Não enquanto estivesse assim com ela.

No balcão da cozinha, apoiou os dois cotovelos e finalizou o conteúdo da xícara, para então deixá-la ali e seguir até a sala, onde a lareira oferecia as últimas brasas da fogueira que ascendera minutos antes. Não estava tão frio para tal, mas a áurea solitária e fria que preenchia o ambiente da ala principal de Sagitário fez com que o protetor quisesse um ponto de luz quente e acolhedora.

Com o restante da casa toda escura, Sísifo seguiu com cuidado até o sofá central de sua sala e relaxou. Como estava vestido apenas com uma calça moletom, nada mais, pôde desfrutar do tecido macio que revestia o sofá – era algo de seu agrado naquela casa. E assim ficou até ouvir passos tímidos.

– Senhor Sísifo? – uma voz fininha, conhecida, o chamou.

– Entre.

A serva o procurou perto do ponto de luminosidade que encontrou e o viu de costas.

– Vim buscas as garrafas. – ela informou.

– Estão no canto direito da entrada da cozinha. Pode pegá-las.

Um minuto depois, a serva anunciou sua saída.

Sísifo suspirou. Por um momento, achou que os passos eram de Urânia, o que o deixou bastante frustrado ao descobrir que não. Ainda nesse estado, pendeu a cabeça para trás e mirou o breu do teto alto da ala. Quase fechou os olhos, mas precisou abri-los para se concentrar nas vozes que vinham da entrada de sua casa. O barulho de chuva forte dificultava a tarefa, mas ainda assim ele não conseguia ignorar.

– Sim?

– Entregue isso nas mãos de Athena, o mais rápido possível! Não fale ou mostre para ninguém!

– Pode deixar, senhorita. Mas não é melhor vir comigo e se secar?

– Não! Vá, agora!

– Mas o que é isso? – Sísifo falou para si. Estavam fazendo baderna na frente de sua casa?

Pensou em levantar e resolver o que quer que estivesse acontecendo ali, mesmo sem vontade alguma, porém só conseguiu fazer a primeira etapa disso, pois paralisou assim que viu Urânia na entrada da ala privada, completamente encharcada, tremendo e o encarando com olhos brilhantes, destacados pela pele branca e pelos aglomerados de fios que enroscaram em sua face.

O semblante da musa era indecifrável. Um misto de choque, horror, emoção e encantamento. E, embora estivesse aterrorizante, estava linda – Sísifo pensou. Ao mesmo tempo, o sagitariano sentiu uma enorme ira se aflorar em seu interior ao vê-la naquele estado deplorável. Urânia estava machucada? Alguém havia tocado nela? Era o que parecia, pois seus abraços pareciam abraçar o corpo possessivamente.

– Urânia! – ele finalmente encontrou voz para chamá-la, e ficou aliviado a vê-la desfazer a pose autoprotetora. Na verdade, ela fez mais do que isso, deixou os braços caírem em volta da cintura e o colo expandir, como se estivesse pronta para encarar alguma fera. Seu rosto também mudou para uma feição menos apavorante e mais suave.

E o mais inesperado aconteceu: Urânia não disse nada e não deu início algum de que começaria uma conversa; ao invés disso, correu desesperadamente até Sísifo e o abraçou, enlaçando-o pelo pescoço com os braços e pulando a ponto de circulá-lo pela cintura com as pernas.

(Flashback On)

– Sísifo...? – sussurrou, de olhos fechados.

Urânia não sabia o que havia parado sua queda, mas, se minutos depois disso não havia sentido nada diferente, então não estava morta. Estava? Não teve coragem de abrir os olhos. Se estivesse morta, choraria. Se estava consciente e morta, então poderia chorar. Aliás, já estava querendo chorar só de se imaginar morta, porque isso significaria que não veria Sísifo nunca mais.

No entanto, existia alguma esperança ali. Um fiapo miserável de esperança que foi o bastante para fazê-la abrir os olhos e se deparar com uma visão turva. Só reconheceu um enorme par de asas...

– Sísifo... – repetiu, emocionada, mas logo repensou. As asas eram negras.

– Não, Kagaho.

Assustada, arregalou totalmente os olhos, na esperança de identificar a figura que parou sua queda – o que se mostrou inútil, porque ela já sabia, no fundo, quem fora. Reconheceu-se nos braços do espectro, subindo e se aproximando do céu. Pôde sentir o frio e o cosmo maligno que emanavam da armadura hostil de Benu, bem como o aroma agradável que caracterizava a pele de Kagaho – a qual ela conhecia muito bem. Estava com o rosto próximo da parte que mais gostava dele – o pescoço -, mas a armadura a impossibilitava de um contato maior.

E ela não o queria, de qualquer forma. Lembrou-se rapidamente de todo o contexto daquele momento indesejável com o espectro.

Ao subir o olhar, deparou-se com a expressão fechada de Kagaho, que contemplava os sentimentos de insatisfação e raiva perfeitamente. Era perceptível o desgosto dele até na forma em que ele a segurava; a mão esquerda apertava as costas dos joelhos com força desnecessária, enquanto a direita fazia o mesmo com o antebraço direito dela.

– Não seja rude, pare de apertar. – Urânia disse, após sentir uma dor maior onde ele a apertava.

– Então pare de me chamar de Sísifo. – revidou imediatamente, sem encará-la. Kagaho, por sinal, mantinha a cabeça erguida para cima enquanto voava. Queria evitar os olhos chocados da musa a todo custo.

Quando chegaram perto do topo onde antes estiveram, Kagaho parou no ar, mais alto do que precisava. E finalmente baixou a cabeça para fitar Urânia.

– O que está fazendo?! – ela perguntou, aflita. – Coloque-nos no chão!

– Ainda não. – respondeu, seguramente. – Você não respondeu nenhuma pergunta minha.

– E não vou. Não acha que já me desgraçou o bastante? – olhou-o com raiva. Já estava cansada daquele ambiente hostil, e temia pela tempestade que se aproximava do Santuário. Porém desfez o semblante assim que viu o espectro engolir seco. – Kagaho...

– O que é? – revirou os olhos. Ela esperou. – Tsc. Que merda. – bufou e respirou fundo. – Me dê um bom motivo para te deixar ir agora.

– Me dê você um bom motivo para eu ficar. – Urânia desafiou. Claro que entendeu o que ele quis dizer. Ele não pediu para que ficasse com ele, mas para que não voltasse para o Santuário, apenas.

– Pare de me retrucar assim, musa. – disse, autoritariamente. – Se eu te soltar-

– Não vai fazer isso. – dessa vez, Urânia acalmou a voz e levou uma de suas mãos até uma das bochechas dele, para então afagar com cuidado. – Kagaho... Você não vai fazer isso.

– Não tenha tanta certeza. Não me desafie, Urânia. – engrossou a voz, mas seu olhar desviou. Maldita musa.

– Não estou desafiando. Olhe pra mim. – com a voz cada vez mais mansa, ela o chamou, trazendo-o pelo rosto que tocava, até ele pousar os olhos violetas nela.

Os olhos de Kagaho eram olhos intensos; olhos repletos de sentimentos ruins, ira, raiva, angústia, mas também de vazios em seu todo.

– Kagaho... Eu sei que você não vai me soltar, porque acabou de me salvar. – inesperadamente, ela sorriu ao repensar a verdade das próprias palavras. Afinal, ele ainda se importava com alguma coisa no mundo.

– A minha morte não lhe diz respeito, você disse. A sua também não me diz. – novamente, ele desviou os olhos, mas foi chamado pelo afago da musa.

– Eu não acredito que seja assim tão simples. – Urânia fixou intensamente seu olhar no dele e respirou suavemente. — Não acredito que me salvou por causa disso, mas sim por alguma outra força que lhe moveu a esse grandioso ato. Se você se limitou somente a me salvar de uma queda por causa dessa força, encontre-a novamente para me deixar ir agora.

Inesperadamente, Kagaho enterrou o rosto no colo da musa e a envolveu mais fortemente nos braços. Urânia não soube o que fazer, mas fez o que teve vontade: deslizou a mão para a nuca dele e acariciou. Ela sabia que ele não estava chorando ou algo do tipo, mas talvez estivesse pensando dentro de seus conflitos internos – cuja existência ela tinha consciência.

– Eu deixarei. – Kagaho disse. Sua voz saiu tão abafada que Urânia jurou ter ouvido errado.

– O quê?

O espectro afastou um pouco o rosto e ela pôde sentir a respiração quente dele em seu colo com mais intensidade.

– Eu deixarei você ir, Urânia. – por fim, levantou a cabeça por completo para encará-la com seriedade. – Mas esta será a última prova de amor que deixarei no mundo. Não tenha dúvidas.

– Eu não tenho mais dúvidas, Kagaho.

(Flashback Off)

Eu não tenho mais dúvidas. – por fim, ela disse, baixinho no ouvido dele.

Sísifo ficou eufórico. Sentir a pele gelada e molhada dela fez com que um turbilhão de sensações explodisse em seu interior; e sua primeira atitude foi abraçá-la de volta, na mesma intensidade, com a mesma paixão, liberando a mesma saudade e depositando a mesma vontade de acariciá-la. Nem sentiu inclinação em perguntar algo, senti-la foi prioridade. Ter a pele arrepiada dela roçando na sua não poderia ter sido mais revigorante. O abraço de Urânia pareceu apagar todo o sentimento ruim que existia em seu interior; toda a angústia pareceu miserável diante do impacto que o cosmo quente dela teve ao se encontrar com o seu, nesse abraço tão simples e cheio de sentimentos.

Sentimentos. Ele podia sentir os sentimentos dela.

Sísifo não hesitou em sorrir, inclusive liberou uma lágrima de felicidade ao sentir rápidos beijos em seu pescoço e um aperto maior no pescoço, que enfatizou o abraço. Com os braços enroscados na cintura da musa, ele fez o mesmo, apertou-a com carinho e cuidado e a levou até o sofá, onde sentou e a deixou em seu colo.

Por um segundo, sentiu Urânia se afastar, e congelou. Mas ela logo deixou claro o motivo e beijou-o sem demoras. Ele não conseguiu não retribuir. Agarrou-a com mais vontade, já deixando claro todos os desejos que ela estava despertando em si, e a puxou com mais ardor, querendo fundir-se com ela, juntar-se até dois corpos virarem um. Queria senti-la de todas as formas, jeitos e sabores. Acariciou os braços macios da musa — que seguravam seu pescoço -, subiu as mãos até os ombros e as desceu pelas costas molhadas dela, aproveitando para acariciar os cabelos negros. Num ato espontâneo, puxou a ponta desses cabelos até afastá-la do beijo, para então migrar os lábios para o pescoço, onde chupou delicadamente, e depois traçou, com a língua, um pequeno caminho até a garganta da musa.

E Urânia gemeu.

Sísifo sentiu as unhas dela lhe arranharem a cintura e agradeceu por estar sem camisa, pois assim poderia aquecê-la com o corpo. Só que para isso...

Urânia pareceu compreender, pois, numa movimento rápido, levantou os braços enquanto o fitou intensamente com seus olhos azuis cristalinos. Sísifo não investiu na lentidão, arrancou o vestido dela com pressa e o jogou em algum lugar em meio à escuridão da sala. E, embalado pela enorme saudade, puxou a musa para si e a envolveu em um beijo recheado de lascívia e paixão.

Ambos sentiam os corpos roçando, bem como o contraste de temperatura das peles. Ela gelada, ele quente – calor enfatizado não só pela fogueira e pelo corpo, mas pela evidente tensão sexual que crescia. Enquanto ele a envolvia pelos cabelos, pela cintura, pelas coxas e pelas demais partes que conseguia tocar e beijar, ela o provocava arfando, incentivando, movimentando os quadris, puxando-o mais para si e retribuindo cada beijo com a mesma vontade.

Sísifo deslizou a mão pelas pernas da musa, até receber uma mordida no pescoço, que deixou claro o quão sensível ela estava. Urânia estava excitada, e por causa dele. Urânia o queria tanto quanto ele a queria. Urânia não tinha mais dúvidas. Ele entendeu o que isso quis significar. Isso era muito mais do que uma frase, era uma declaração.

– Urânia... – Sísifo praticamente gemeu ao senti-la roçar-se em seu membro, já completamente duro de excitação.

Urânia estremeceu de prazer e levantou-se, ainda ajoelhada em cima dele, com as mãos apoiadas no suporte do sofá, uma de cada lado do belo rosto que agora fitava com muito amor. Não precisou falar nada. Sentiu os dedos de Sísifo penetrarem em seu sexo e estimularem, também, seu clitóris. Estava mais do que pronta para ele. No fundo, sempre esteve.

Enquanto a dedilhava, Sísifo a encarava. Queria muito beijar aqueles seios deliciosos e empinados, que o miravam, cujos mamilos excitados imploravam por sua língua. Mas observar a expressão de prazer de Urânia era magnífico. Não ousaria perder a oportunidade de desfrutar de tal expressão, tão vermelha de vergonha, mas também de prazer, cujos olhos estreitos simbolizavam o alto nível de prazer que ela sentia, bem como a boca entreaberta – e completamente convidativa.

O sagitariano poderia não saber, mas Urânia também admirava. Admirava a expressão dele, a qual continha um maxilar tenso, que deixava claro o enorme autocontrole de Sísifo; olhos azuis escuros semicerrados que a miravam com puro desejo, mas também carinho; lábios que, às vezes, eram molhados por uma língua que Urânia conhecia muito bem e que adorava envolver com a sua; dentes que mordiscavam os lábios, no intuito de conter certos gemidos. Talvez ele não soubesse, mas grande parte do prazer dela se dava por conta das expressões dele.

– Sísifo... – Urânia gemeu de volta o nome e assentiu com sofreguidão.

Num rápido movimento, o sagitariano afastou a calcinha do sexo completamente úmido dela e a penetrou. Ambos estavam ocupados e envolvidos demais para se preocuparem em tirar as peças principais. Em meio a enormes desejos, encontraram seus jeitos — e foi o bastante. Encaixaram-se com perfeição, como se tivessem sido feitos um para o outro. E ambos expressaram tudo isso em movimentos intensos, fiéis ao nível de deleite em que se encontravam. Urânia rebolava incansavelmente e Sísifo a incentivava, agarrando-a pela cintura e beijando-a lascivamente. Aos poucos, ele desceu as mãos para as coxas da musa, para que pudesse ajudá-la nos movimentos, apertando-a com carinho e malícia.

Em meio aos agrados causados pelas mãos de Sísifo, Urânia sorria e se permitia fechar os olhos para desfrutar de cada sensação, principalmente quando a língua dele passeava por seu colo e seios; ou quando migrava de um seio para o outro, mordiscando de vez em quando, só para extrair seu gemido... E ele nem precisava disso, pois ela não pararia de expressar toda a felicidade e satisfação por estar, finalmente, nos braços dele, fazendo amor e deliciando-se com um suor compartilhado. Suor de dois corpos que se atraíam com magnetismo inegável, efusivo, alimentado desde o início.

Sísifo, irresistivelmente, agarrou a cintura de Urânia, levantou-se, com ela ainda encaixada em seu membro, e seguiu até uma das enormes janelas da ala privada. Ainda estava chovendo, porém não tão forte quanto antes, mas era o bastante para aliviar aquele calor e refrescar aqueles corpos. Sabendo que ela estava confuso, tratou de distraí-la, estocando-a no meio do caminho e arrancando um gemido intenso de prazer. Inevitavelmente, ele também gemeu.

Ela movia-se sobre ele, desejando-o cada vez mais, deixando-se ser levada e depositada em algo gelado. Um guarda-corpo de mármore. Foi colocada de costas para fora, sentada perfeitamente na altura que permitia o encontro das duas bocas. Sentiu uma deliciosa sensação ao sentir as gotas suaves da chuva em suas costas e se deixou levar por isso até sentir os dedos de Sísifo em seu maxilar. Ao abrir os olhos, viu-o admirando-a com ternura.

– Eu estava esperando por você. – migrou os dedos até os lábios molhados dela, mirando-os com carinho.

– Eu também. – respondeu, trêmula. Não resistiu àquele olhar gentil e valioso do sagitariano, precisou puxá-lo para si novamente e beijá-lo perdidamente. Precisou arrastá-lo para dentro de si novamente, até sentir o membro penetrar-lhe profundamente. Precisou mordê-lo nos lábios para expressar todo o prazer daquele contato único. – Eu também. – repetiu, entre dentes, sem soltar o lábio dele.

E novamente colaram os lábios, dando continuidade à noite que demoraria a passar, à noite pela qual tanto esperaram, à noite em que uma dúvida havia sido apagada e uma certeza havia sido declarada.

Notas finais
Eu seeeeeeeei, eu seiiii, esse último momento foi rápido, mas juro que compensarei em algum outro :x Ah, já vou avisando... A partir de agora, a maior prova de amor que vocês poderão me dar será a de confiar em mim ATÉ nos piores momentos, OK? Preparem-se.