EmMusas - The Lost Canvas
11 Os olhos que não veem

Capítulo 11
Defteros saiu da cama, deixando Terpsícore se recuperar do momento, mas, ao perceber sua lentidão, decidiu agilizá-la.
– Aconselho sair logo daqui, Terpsícore. – ela o viu de braços cruzados e com um semblante sério e sombrio, a fitava ainda com olhos famintos, mas um pouco mais controlados. Procurou força nos braços para se impulsionar, mas sentiu a dor vacilar a tentativa. Defteros a viu caindo na cama novamente e decidiu ajudar, pegou nas coxas dela e a puxou agressivamente para frente, de forma que possibilitava a musa de se reerguer. A indelicadeza dele só gerou mais hematomas nela. – Isso é maravilhoso. – fitando o vermelho na pele branca.
Terpsícore não pensou duas vezes e se pôs a correr porta afora, desceu as escadas e se deparou num corredor com uma luz no final, seguiu-a e, finalmente, por todos os deuses, encontrou a saída da Casa de Gêmeos. Precisava apagar o fogo que consumia seu corpo.
Defteros tomou um banho gelado assim que a musa saiu de sua casa, estava enlouquecido com a cena que tivera com ela. Por vezes, sentiu vontade de maltratá-la bastante, mas, caso o fizesse, talvez não se controlaria e acabaria a possuindo sem pena. Precisava respirar e colocar a cabeça no lugar, já havia percebido que ela aparecia em seus pensamentos com certa frequência. Provavelmente, era apenas o desejo de se satisfazer com aquela vulnerabilidade toda.
Assim que se arrumou para o treino, sentiu a presença de Manigold e caminhou até a sala.
– Achei que estivesse treinando. – disse o geminiano, no pior dos humores.
– Bom dia pra você também. – Manigold respondeu tranquilamente. – Ah, vi Terpsícore sair correndo daqui, o que vocês andam fazendo, hein? – abrindo um sorriso malicioso.
Defteros, em resposta, fuzilou o canceriano com o olhar.
– Caramba, Defteros, você estragou a musa! – disse preocupado, mas soltando um riso no final. – Quero ver você explicar aquelas marcas no corpo de fada dela. – Manigold fora esperto ao vê-la sair de Gêmeos, conseguiu observar seus movimentos lentos devido à noção da velocidade da luz que utilizou, e percebeu marcas severas nos braços, colo e pescoço da musa.
Defteros deu de ombros e desapareceu pela casa, deixando Manigold sem companhia para descer o restante do caminho.
~
– Athena!
Sasha imediatamente se virou para Urânia, que parecia triunfante ao chamá-la. Observou a musa jogar seu Planisfério Celeste Geral para o lado e pegar outro menor.
– Pelos meus cálculos, apenas uma pequena margem de erro permite que algumas constelações se distanciem de outras nesses registros. Mais um ponto em comum encontrado. Certo? – comentou para Sasha, que assentiu atenciosamente. – Certo. Observe que esses registros possuem uma marca em pequeno relevo, como se a reencarnação passada tivesse feito com um lápis pontudo que não risca. – apontou para quatro marcas em registros diferentes, deixando a deusa mais interessada.
– “S”? Espere, tem uma pequena estrela aqui do lado. – dessa vez Sasha apontou. Urânia assentiu empolgada.
– Sim, mas possui quatro pontas e, pelas proporções, deve ser uma rosa-dos-ventos! – Urânia pegou um dos planisférios menores. – Acredito que devemos observar os registros tendo como base o Planisfério do Hemisfério Celeste Sul. É um palpite, pois nada está muito claro aqui. Acho que não custa nada tentar...
Athena olhou para Urânia, que estava totalmente compenetrada na investigação, e sorriu satisfeita.
– É muito bom saber que posso contar com você, irmã. – Sasha disse, surpreendendo a musa.
– Pode sempre... Sasha. – Urânia sorriu para ela e, inconscientemente, envolveu o espaço com sua áurea celestial. Sasha não conteve a alegria ao ser chamada pelo nome, esperava por um momento desses quando estava com as musas. Ter o nome dito dessa forma indicava intimidade, e era isso que ela procurava com as irmãs. Batidas na porta tiraram as duas do momento de cumplicidade e Sasha deu permissão para a pessoa se apresentar.
– Sísifo! – a deusa correu em direção ao cavaleiro, envolvendo-o num abraço apertado. Urânia corou na hora que o viu. – Que faz por aqui? Não deveria estar treinando? – levantou uma sobrancelha.
– Sim, querida deusa, não tenho desculpas para estar aqui, apenas queria vê-las. – disse, olhando diretamente para Urânia. Sasha soltou um risinho com a insinuação do cavaleiro-amigo, e deu espaço para ele entrar.
– Não liberarei Urânia ainda, Sísifo. Estamos num momento importante dessa investigação.
– Eu sei, mas queria fazer um convite às duas. Um leve piquenique nas margens do rio amanhã, que tal? – perguntou ele, extremamente encabulado. As duas se entreolharam e sorriram, mas Urânia logo se lembrou de algo.
– Na verdade, amanhã é um dia especial, a lua estará enorme. Costumo fazer uma pequena homenagem a ela nesses momentos, como uma espécie de luau improvisado. – ela riu de si mesma. Sísifo mordeu o lábio ao ver tamanha graciosidade. – Gostaria, inclusive, de pedir sua autorização para realizá-lo na praia que compõe a área do Santuário, Sasha.
Ouvir seu nome dito deixou a deusa novamente feliz e não pensou duas vezes em responder.
– Sim! Como funciona esse luau? – perguntou curiosa, Sísifo riu da reação da deusa.
– Bom, não é nada de mais, mas, geralmente, usamos branco e bebemos vinho. É uma bela visão que se tem do céu nessas noites... — um ar de deslumbre apareceu no rosto da musa.
– Então, terei que deixar o piquenique para outro dia. – disse Sísifo, fingindo tristeza.
– Não, leve seu piquenique para a praia, cavaleiro. – Urânia sorriu e o fitou com os olhos verdes-água, deixando-o arrepiado.
– Se você me acompanhar... – respondeu ele com uma voz mais envolvente. Sasha não deixou de reparar que os dois se olhavam com certo brilho nos olhos, e sorriu. Obviamente, Sísifo estava apaixonado, e, para ela, isso era precioso demais, mas os trabalhos pediam atenção.
– Sísifo, quanto mais você nos interrompe, mais tarde teremos de ficar aqui. – Sasha retomando a atenção. – Sugiro que treine para que o tempo passe logo e vocês possam... Conversar.
– Sim, claro. – Sísifo, na hora, perdeu a graça e viu Urânia rir baixo. Ah, como ela era adorável... Ele se aproximou e beijou a mão da musa, em seguida fez o mesmo com Sasha, junto de uma reverência. – Com licença, senhoritas. – e saiu.
Urânia, que acompanhou tudo com os olhos hipnotizados, percebeu-se observada por Sasha.
– Planisfério do Hemisfério Celeste Sul? – perguntou a deusa ao ver a irmã sem muitas palavras e com o rosto corado. Urânia assentiu e se permitiu rir da situação.
~
Tália, como havia dito, não esperaria pela irmã loira, então seguiu para a arena onde os cavaleiros treinavam seus aspirantes. Sentou no alto da arquibancada, desviando os olhares curiosos que pairavam nela; sabia que chamava atenção pela sua aparência excêntrica, mas não significava que ela apreciava isso.
Assim que se sentou, viu Régulus treinando com um aspirante. Os dois pareciam ter a mesma idade, a única diferença era a força. O leonino era, de longe, mais forte que o aspirante, mas era perceptível que ele não usava toda a força, até porque era apenas um treino. Régulus viu a musa e acenou para ela, oferecendo-lhe um sorriso.
Tália correspondeu do mesmo jeito, admirando-o sem demonstrar. Régulus tinha uma beleza mais jovial e um semblante mais tranquilo, mas, ao mesmo tempo, imponente e seguro. A rapidez de seus movimentos era excepcional, parecia um felino caçando. A musa estava admirada, o que só aumentou quando ele jogou o cabelo para o lado com um movimento da cabeça, tirando alguns fios grudados na testa devido ao suor. Tália arfou de admiração.
– Musinha, acho bom recuperar essa cara. Ele não é tudo isso. – a voz rasgada e engraçada de Manigold a tirou dos pensamentos. Tália mal sentira quando ele se aproximou e sentou ao seu lado, sequer o vira por perto.
– Ah, ele não é?
– Não, é apenas um filhote de leão que nem rugir direito sabe.
– Devo confiar no seu gosto quando se trata de homens até que ponto, cavaleiro? – perguntou ela, num tom de provocação. Manigold arregalou os olhos.
– Não foi isso que eu quis dizer. – e fechou rapidamente a cara. – Mas eu sei que ele não é tudo isso. – cruzou os braços. De repente, Régulus não chamava mais a atenção dela, e sim o canceriano possivelmente enciumado que estava ao seu lado.
– E você? Seria tudo isso? – levantando uma sobrancelha.
– E muito mais. – ele deu um sorriso galante e se aproximou. – Mas tenho certeza de que você já sabe disso, não é, musinha?
– Se continuar me chamando de musinha, esquecerei tudo o que sei sobre você. – ela se aproximou também. Com os dois rostos próximos, trocaram olhares desafiadores e riram em seguida.
– Viu como sou mais? Peguei sua atenção pra mim sem fazer muito esforço. – Manigold, em tom convencido, e ainda próximo da musa. Tália fez uma careta suave.
– E conseguiu quebrar isso me fazendo lembrar do cavaleiro gato que está lá embaixo treinando. – ela iniciou uma virada de rosto, mas Manigold a parou com a mão, trazendo o rosto dela de volta para si.
– Não, não, o cavaleiro gato está aqui em cima, na sua frente, esperando outro beijo roubado.
Os olhos dele já não brincavam tanto, pareciam esperançosos. Ele realmente dissera aquilo? Tália corou ferozmente e desviou o olhar, mas Manigold apertou levemente o rosto dela para que o olhar voltasse para ele.
– Não sou ladra de beijos, cavaleiro. – disse ela normalmente, o coração acelerado a impedia de fazer gracinha nesse momento, senão teria quebrado o clima na tentativa de se recompor.
– Mas eu sou. – em segundos, Manigold puxou o rosto dela e depositou um selinho demorado. Nenhum dos dois aprofundou o beijo; Tália não o fez porque nunca beijara mais do que um selinho, manteve-se estática com a iniciativa dele; Manigold não o fez porque não queria iludi-la. O canceriano se afastou e sorriu. – Agora sim haverá um cavaleiro gato treinando lá embaixo.
Tália o viu descer as arquibancadas rapidamente, até chegar onde Régulus e o aspirante lutavam. Observou os dois cavaleiros de ouro trocarem breves tapas de brincadeira e jogarem água um no outro, Manigold ria com vontade, enquanto a musa o admirava. Ela não sabia o que havia entre eles, mas gostava da espontaneidade dos momentos, menos quando ele era rude sem perceber. Logo os dois cavaleiros de ouro iniciaram um treino juntos, para o deslumbre da musa. Ao vê-lo tão entregue à luta, sorriu, e lembrou-se do selinho roubado, passando os dedos nos lábios onde fora beijada.
~
Subindo as doze casas lentamente, Calíope se encontrava em estado de choque, em frente à Casa de Escorpião. Não acreditava que uma criatura tão bela e imponente pudesse humilhá-la daquela forma. Sim, só conseguia se sentir assim perante o que Asmita lhe dissera, nenhuma palavra doce fora dita a ela; aliás, até fora, porém num contexto de crítica.
Quem era ele para dizer tais coisas? Ela era uma filha de Zeus, uma das nova Musas, a mais velha delas, inclusive, e, provavelmente, a mais bela. Sua voz conquistava quem quisesse e homens pagariam para vê-la e ter sua atenção. Não, ela não deveria se lamentar pelas palavras cruéis que lhe foram ditas, e sim fazer Asmita ouvir o porquê de elas serem erradas a seu respeito. Num impulso, deu meia volta da Casa de Escorpião e desceu, determinada a chegar em Virgem num estado melhor do que o que saíra de lá.
Passando por Libra, Calíope esbarrou em Terpsícore, que parecia desesperada para seguir em frente. Percebeu rapidamente algumas marcas vermelhas nos braços da irmã, mas como ela correu sem dizer nada, preferiu deixá-la só. Talvez Terpsícore tivesse caída da árvore e se assustado, como a bebê chorona que era.
Calíope o viu do mesmo jeito que antes, em posição de lótus, em cima do altar, de olhos fechados e mente aberta. Aproximou-se da figura poderosa e bela, mantendo-se em silêncio.
– Você definitivamente não tem bons modos. – disse Asmita, serenamente. Ela nada disse, em vez disso, desabotoou a lateral do vestido lentamente.
Asmita ouviu o som de algo desprendendo repetidas vezes, e depois o som do deslize de um tecido espesso, porém delicado. A leve rajada de ar que o ato proporcionou o fez deduzir o que a musa estava fazendo.
– Calíope... – o virginiano não sabia bem o que dizer, odiava ficar assim na frente dela, mas mil coisas invadiram sua mente com a dedução. Ela pôde vê-lo corar levemente. – O que você...
– Você sabe o que estou fazendo, por que não olha direito? – ela tentou, a bela voz dela estava mais sensual, mas continuava digna de sua representação. Asmita engoliu seco. Era o homem mais próximo de deus, mas ainda era homem. Seria mais fácil imaginá-la se pudesse vê-la das formas que conseguia, mas nem em mil dias ousaria tocá-la de forma mais libidinosa.
– Sairá com mais uma tentativa frustrada se insistir nisso, Calíope. – disse seco, o que indicava que se importava com o ato dela. Obviamente, ela não esperava tamanha resistência, mas não desistiria fácil.
Ela caminhou até ficar muito próxima dele e soltou os cabelos. Asmita pôde sentir o aroma doce não só da pele dela, mas do cabelo. Por um momento, pensou em tocar nela, mas se conteve novamente. Maldita hora em que provocara a musa mais mimada. Sentiu a presença dela mais próxima de si.
– Você é teimoso, mas eu sou mais. – ela disse no ouvido dele. O virginiano estava fazendo um esforço maior do que o normal para permanecer parado, o que era estranho já que tinha facilidade em superar tais sentimentos humanos, mas Calíope parecia saber como importuná-lo. Além disso, era possível sentir o calor do corpo dela e o hálito doce da respiração, podia até imaginá-la de boca entreaberta, ansiosa pelo momento em que abrisse os olhos.
Calíope estava quase nua, apenas vestia a peça íntima, nada mais.
– Asmita... – chamou ela. Foram poucas as vezes em que ela disse o nome dele, se é que dissera, então foi o bastante para deixar o cavaleiro mais corado. Gostara de ouvir seu nome na bela voz dela; ela estava, inclusive, irreconhecível, pois se mostrava silenciosa e amena. Mas também estava nua e, caso outro cavaleiro passasse por ali, seria trágico.
– Vista-se, Calíope. – pediu ele normalmente (e, por dentro, ansiando pela sensação da pele dela).
– Só depois que você abrir os olhos! – disse ela com uma voz provocante, não pretendia ser a mimada que Asmita tanto criticou. A nova abordagem tinha de dar certo.
Asmita logo se preocupou ao sentir o cosmo de Sísifo a uma curta distância. Se ele a visse nua em sua frente poderia pensar besteira e julgá-lo como indigno de sua posição. Então, finalmente, abriu os olhos para ela.
Calíope mal podia acreditar que estava diante de olhos azuis tão belos e profundos – claro, não poderia esperar por menos daquele ser divino. Olhos que lembravam um mar calmo que esconde uma grande riqueza no fundo. Ao se dar conta disso, corou intensamente, pois estava quase nua, mas não se mexeu. Hipnotizada pelos olhos de Asmita, ela procurou as palavras.
– Seus olhos são tão bonitos. – ela comentou, sem perceber direito o que estava fazendo. Esperava, entretanto, algum comentário por parte dele; seus olhos, por mais abertos que estivessem, não pareciam realmente olhá-la. – Minha presença incomoda sua vista?
– Se eu pudesse vê-la, imagino que o efeito seria o contrário, Calíope. – disse normalmente, mas com um leve pesar na voz, e voltou a fechar os olhos. Ela congelou.
– Como assim?
– Não tenho o privilégio da visão, senhorita. Apenas os outros sentidos existentes, se é que posso considerar tal fato como “apenas”. – revelou, pensando em seu oitavo sentido. – Não vejo isso como algo ruim, pois consigo enxergar de outras formas, às vezes, muito mais interessantes. – ele deu um leve sorriso. – A falta desse sentido atiça outros mais importantes, Calíope.
Asmita esperou resposta dela. Não, esperou a musa explodir diante do fato, pois sabia que ela queria ser admirada da forma que ele não poderia fazer, mas não ouviu nada, apenas a respiração acelerada dela. Sua expressão logo voltou ao normal, com um toque de preocupação. Não imaginava que ter a musa quieta e parada poderia trazer mais agonia do que tê-la falante e irritada.
– Calíope?
Ela, num impulso, pegou lentamente o vestido e o colocou, abotoando. Depois prendeu os cabelos e calçou as sapatilhas. Cada movimento possuía um som que sugeria as ações para Asmita, e, de repente, o clima na Casa de Virgem adquiriu uma pequena chateação. Calíope foi embora sem dizer nada e o virginiano pôde apenas senti-la se afastando.
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