EmMusas - The Lost Canvas
63 Os humanos superestimam seus deuses
Notas iniciais
Capítulo 63
Algumas estrelas já apareciam nitidamente em meio ao tom alaranjado que pintava o céu, a cada descida do grandioso Sol. A brisa leve, não tão fria, mas o suficiente para refrescar o interior da carroça, fazia seus lisos fios balançarem agradavelmente, vivos e dançantes, às vezes serpenteando em seu rosto pálido. Seus olhos cristalinos observavam a paisagem, parando com frequência no enquadramento em que ele estava. O cavaleiro, em seu semblante prepotente, conduzia a carroça numa velocidade razoável, nada desagradável.
– Tão quieta.
– Estou apreciando essa variedade de verdes. – Urânia se aproximou da abertura da carroça em que se encontrava o assento de Sísifo. – Não que o Santuário seja precário no aspecto.
– Não diga isso a mim, estou tão envolvido quanto você. – respondeu, em tom de diversão. Olhou-a por cima do ombro direto e pôde ver o sorriso de deleite da musa. – Que bom que está feliz.
– Feliz, porém curiosa. Quando vai me dizer para onde estamos nos dirigindo?
– Ansiosa. – virou-se novamente para frente, sorrindo satisfeito.
– Admito, estou sim. Mas quem não ficaria se fosse convocada, inesperadamente, por um cavaleiro de ouro que alega ter de levá-la a uma missão, por ordem de Athena? Sequer sabia que ela podia fazer isso. Sasha nunca comentou, nem pareceu interessada em tal função. – enrolou uma mecha de fios nos dedos magros, olhando sem interesse.
– Está confortável aí atrás?
– Estou bem. Estes edredons são realmente necessários? O tempo me parece quente demais.
– Está certa quanto ao dia, mas nunca se sabe quanto à noite. – Sísifo gemeu algo para o cavalo, que retomou o ritmo de antes. – Acho que Ulisses está com sede. Se importa de pararmos um pouco?
– Não. – Urânia sentiu o baque do freio da carroça em segundos. – Uli parece aliviado, realmente. – disse, ao ver o sagitariano oferecer uma bacia com água ao animal. Teve de sorrir ao vê-lo acariciar o amigo com carinho. Já havia conhecido Ulisses, que virou testemunha dos primeiros contatos íntimos entre ela e o cavaleiro, num belo dia quente de verão.
– Quer água também? Só não garanto que esteja muito fria. – Sísifo a olhou e sorriu. Adorou vê-la corar brevemente.
– Não, obrigada.
Urânia permaneceu observando-o. Sísifo, enquanto esperava o cavalo se saciar, deixou os olhos firmemente mirados em cada sutil movimento dela. Sentiu o coração acelerar ao ver Urânia levantar os cabelos negros num coque desajeitado, apenas para refrescar o pescoço, e engoliu seco com a vontade que adquiriu de beijá-la ali mesmo, no meio da estrada de terra, com apenas árvores altas como observadoras do momento. Mas havia uma missão dentro da missão.
Normalmente, ele se aproximou, apoiou os cotovelos no assento e a admirou de perto.
– Alguma coisa que posso fazer para aliviar seu tédio, senhorita?
– Sim. – respondeu rapidamente, virando-se para ele. Não disse nada, apenas sorriu.
– Não.
– Sísifo, diga-me logo, por favor. – tomou as mãos dele com agilidade e aproximou o rosto, para mirá-lo com mais intensidade.
Sísifo, ao se deparara com os olhos cristalinos de Urânia, sentiu o corpo reagir. Os pelos do corpo imediatamente se arrepiaram e cogitou uma possível fraqueza nas pernas. Aquela musa era perigosamente irresistível. Afastou-se, portanto, num rompante e respirou fundo, buscando concentração.
Urânia riu da reação.
– Urânia, não direi até que cheguemos lá. Ordens de Athena. Mas posso te dizer o motivo disso: não quero que sua leitura celestial seja influenciada previamente por essa informação. Posso dizer que é um lugar que conhece, portanto há riscos. – Sísifo coçou a barba rala do queixo. – Acredite, essa missão é mais sua do que minha. Se Athena ou o patriarca deram condições, devem ser seguidas para que a chance da missão de dar certo seja ainda maior.
– Entendo. É como ter vícios. Vícios que me atrapalhariam. – ela o viu assentir. – Mas não devo me preparar para o que devo fazer?
– A sua falta de preparação é o que nos ajudará. Apenas aproveite o trajeto, meu amor.
Com essa, Urânia se calou. Não deixou de sorrir com as últimas palavras. Levou a mão ao coração para se acalmar, mas foi inútil. Quis abraçá-lo ao vê-lo com suas majestosas costas viradas para ela, enquanto conduzia a carroça com habilidade. Seu silêncio, entretanto, não durou muito:
– Estou intrigada. Como assim essa missão é mais minha do que sua?
Sísifo riu gentilmente e a olhou por cima do ombro novamente, oferecendo um sorriso.
– Acho que alguém precisa se distrair.
– Hunf, talvez o verde tenha perdido a graça diante de suas palavras. – fez um singelo bico, o que o fez rir mais uma vez.
Urânia estranhou quando Sísifo parou novamente a carroça e se virou totalmente para ela.
Carinhosamente, ele a pegou pelo rosto e a trouxe para perto, deixando apenas os narizes se encostando. Gostava desse tipo de contato delicado com ela, principalmente quando a musa parecia quebradiça, embora soubesse que fosse excepcionalmente forte.
– Urânia, eu gostaria de acabar com todas as suas dúvidas, mas não posso. Devo maior lealdade à Athena e não me martirizo pelo fato. Se há sigilo entre nós, neste momento, é porque há um sentido por trás. Um sentido seguro. Caso contrário, eu questionaria as ordens e tentaria negociá-las. Pode ser um pedido egoísta, mas relaxe a mente e confie em mim.
– Eu já disse que confio. É só desconfortável demais ficar sem saber das coisas. – Urânia relaxou os ombros.
– Acredito, eu entendo. Mais do que isso, compartilho dessa sensação. Compartilho inclusive agora. Também me agonia que não saiba inteiramente da missão. Principalmente quando prometemos franqueza e abertura um para com o outro. – Sísifo suspirou, cabisbaixo. — Mas devo cumprir os deveres que me são dados, por um bem maior.
– Tão honrado. – ela deixou um tímido sorriso sair, o que extraiu o mesmo dele, que levantou a cabeça para olhá-la. Havia agradecimento em seus olhos, ela percebeu.
– É honra que me vem à mente, mas, sem dúvidas, mais do que isso que me vem ao coração. Me alegra ajudar a cuidar deste mundo, sinceramente. – Sísifo corou. Não era acostumado a mostrar seu lado sensível, sobretudo com tanta sinceridade.
~
A noite já predominava o céu quando chegaram a Delfos. A conversa havia encerrado cedo por precaução – Sísifo não queria chamar atenção naquele caminho estreito, ainda que pudesse lidar com saltimbancos facilmente. Apenas não queria por Urânia em risco.
Entretanto, o silêncio de Sísifo só deixou a musa mais inquieta e ansiosa. Urânia deixou de se entediar somente quando reconheceu o lugar, um pouco antes de chegarem. Não comentou nada, porém. Preferiu acionar os instintos que sua representação lhe oferecia enquanto divindade e procurou qualquer informação que pudesse haver ali.
Ao contrário do que Urânia pensou, Sísifo não parou a carroça quando adentraram a cidade. Ele seguiu pelo caminho destacado na entrada da floresta, ao leste, e reduziu a velocidade devido aos pequenos obstáculos que a estrada apresentou.
Sísifo não deixou de estranhar o silêncio da musa. Perguntou-se se ela já havia deduzido algo – provavelmente sim -, mas preferiu esperar até chegarem ao verdadeiro destino, o que não demorou muito.
– Isso é pouco seguro, sabia? – Urânia disse, tomando a mão que Sísifo ofereceu para ajudá-la a descer da carroça.
– O quê?
– Pensar em montar um abrigo aqui, na entrada do Oráculo de Delfos.
– Não estou pensando, estou me preparando para fazê-lo. – Sísifo sorriu, esperto, arrancando um olhar falsamente reprovativo dela. – Tudo bem, não pretendo montar aqui na entrada, mas próximo, sim. É melhor procurarmos o lugar certo a pé do que com a carroça.
– Entendo.
– Porém discorda de algo?
– Não, não. Está bem, vou lhe ajudar, Sísifo. – sorriu docemente para seu cavaleiro, que a retribuiu com um casto beijo.
– Estava necessitado disso. – revelou, olhando-a com carinho e, ao mesmo tempo, seriedade. Não demorou em soltá-la e seguir para o meio da folhagem alta que contornava a entrada do Oráculo.
Devido à escuridão da noite, não demoraram muito a achar um lugar interessante, nos aspectos mais consideráveis, para montar o pequeno abrigo. Pequeno, pois não queriam chamar atenção. Não apenas ele, como ela também sabia dos perigos de se acampar em áreas desconhecidas, com alta rotatividade de pessoas e pouquíssima segurança. Também consideravam o fato de estar próximos ao Oráculo de Delfos, ponto um tanto abandonado, escuro e levemente hostil por causa das ruínas e dos sons que estranhamente se reproduziam ali, na solidão fria.
Não era, naquela época, o espaço mais convidativo para um templo. Principalmente um templo dedicado a Apolo.
– Estranho... – Urânia comentou repentinamente, enquanto observava, ao longe, o topo do templo.
Sísifo imediatamente se endireitou. Já havia terminado de montar a pequena barraca, que, por improviso, adquiriu um visual levemente rústico; a fogueira baixa era o suficiente para dar uma noção de espaço e um pouco de calor, ainda que a noite não estivesse tão fria; Ulisses descansava a dois metros do lugar. Enquanto montava a barraca, procurava se desprender dos pensamentos acerca dos pensamentos de Urânia. Estava ansioso para falar com ela sobre a missão, por isso se surpreendeu ao ouvi-la finalmente.
– O que sente?
– Sisifo, já pode me contar sobre a missão agora? – virou-se para vê-lo assentir. — Pediram para que eu viesse para ler as estrelas, bem como sentir as intenções de Apolo em meio à Guerra Santa, não é verdade?
– Você é incrível, Urânia. Espero que não esteja chateada. – engoliu seco, discretamente.
– Não, acho que fizeram certo. – ela mirou o céu estrelado. — E você tinha razão. Se eu chegasse aqui sabendo do que se tratava, teria me deixado viajar em memórias e lembranças que afetariam meu sentido cósmico, sem dúvidas. – desceu o rosto para mirá-lo. — Mas é estranho.
– O que é? Preciso que compartilhe comigo. – Sísifo disse, seriamente. Procurava controlar a ansiedade enquanto se sentava em volta da fogueira, numa espécie de tapete que trouxera consigo.
– Assim o farei, mas há algo muito nítido querendo se mostrar para mim e eu não estou entendendo. Estou agoniada, Sísifo!
Sísifo levantou-se num rompante e a acariciou nos braços. Vê-la aflita o deixava aflito.
– Acalme-se, não é obrigada a tentar agora. Temos três dias para isso.
– Não! – Urânia exclamou, causando surpresa no sagitariano, que foi se afastou em centímetros. — Não temos, não devemos nos prolongar. E quanto mais atrasar a leitura, menos perfeita será. Não posso! Preciso de espaço, você se importa?
– Não... – Sísifo disse, com certeza incerteza no olhar.
– Oh, não entenda errado. Preciso me concentrar apenas. E você é um foco muito tentador. — Urânia corou ao dizer.
– Certo. Mas não posso deixá-la longe de mim, Urânia. Essa área está restrita, pelo o que pude ver. Parece que o governante de Delfos quer reformar as ruínas. – seu tom saiu levemente autoritário, mas não se importou. Só de pensar em deixar a musa sozinha, estremeceu.
– Como assim?
– O oráculo de Delfos possui partes abandonadas.
– Eu sei disso, lembro-me delas... — Urânia pausou.
– São partes vazias, perfeitas para passantes e viajantes que precisam de abrigo e não se importam com leis.
– E quanto a nós? – aproximou-se calmamente dele. Sísifo não deixou o contato entre olhares se quebrar.
– Temos autorização para isso, ainda que não saibam desta urgente missão.
– E você tem receio de que haja saltimbancos por aqui? – Urânia se aproximou o suficiente para ter a cintura abraçada.
– Perfeitamente. Preciso que encontre um lugar em que eu possa, pelo menos, te observar de longe...
Urânia o encarou com mistério. Sísifo adorava ser alvo das esferas cristalinas, mas não deixava de se perguntar o que passavam por elas. Ela parecia ver através de si.
– Hum... Isso é apenas por medidas de segurança ou também certa medida de capricho seu? — ela sorriu e o afagou delicadamente na lateral do rosto.
– Um pouco dos dois.
A admissão dele arrancou uma leve risada da musa.
– Compreendo. Pois bem, me dê licença.
~
Podia vê-la e ela estava fascinante. Urânia se encontrava sentada, como se meditasse, no topo de uma das pedras mais altas da entrada do Oráculo. Mantinha os olhos fechados, mas era quase nítido o quanto se comunicava com as estrelas, mesmo imóvel. Sua áurea se expandia para além de seu perímetro x, como se quisesse compartilhar as informações em um formato alternativo, já que ninguém compreendia o seu. Estava fascinante porque, acima de tudo, fazia o que fazia com uma naturalidade inigualável e um charme indescritível.
Sísifo estava bobo e a observava de seu lugar na fogueira, procurando admirá-la onde a pouca luz iluminava (ou só sugeria através de uma penumbra). Entretanto, também a cuidava de longe, a protegia com seus olhos espertos e cheios de amor. Prestava atenção em cada movimento, ainda que fossem mínimos, para que nada faltasse.
Desesperou-se ao vê-la caindo da pedra lentamente e correu sem pensar, pronto para salvá-la da queda com os braços estendidos. Ele ainda ofegava por conta do medo de deixá-la se machucar e só conseguiu acalmar o coração quando a viu abrir os olhos serenamente. Estava sã e salva, não sofrera sequer um arranhão, mas apresentava uma expressão de indignação.
– Não podemos prolongar esta missão. – Sísifo não esperou por tais palavras, até se surpreendeu por não vê-la nem um pouco assustada com a queda.
– O que houve?
Urânia saiu do colo dele às pressas e passou a caminhar de um lado para outro:
– Estamos, inclusive, atrasados quanto à informação que adquiri. Acredito que teria sido melhor ter vindo muito antes!
Sísifo a olhou com a testa franzida.
– Por favor, Urânia, esclareça.
– Não que seja de muita importância para esta Guerra, pois nenhum deus ousaria se envolver na guerra de outrem, mas considerando a irmandade de Apolo e Athena, teria sido mais prudente confirmar o mais cedo possível, porque essa energia minimamente hostil que senti ao chegar não é apenas um aviso. É uma declaração. – Urânia falou tudo muito rápido devido ao estado em que se encontrava, porém, com esforço, Sísifo compreendeu.
– Imaginei que não, pela sua agitação. Mas o que Apolo está declarando com sua ausência?
A musa da astronomia finalmente parou de se mexer e o mirou com os olhos precisos:
– A energia evidente diz mais do que ausência dele, mostra a falta de apoio nessa guerra Santa. Provavelmente é isso que Athena quer checar.
Sísifo finalmente entendeu. Apolo não apenas não se meteria na guerra, como também não apoiaria Athena de fora.
– Esse... — Sísifo fechou os punhos. — Covarde.
– Sim, covarde. – Urânia se aproximou e afagou os punhos do sagitariano. — Mas não devemos julgar.
– E o que devemos fazer? Não há uma forma de nos comunicarmos diretamente com ele aqui? Esse oráculo pertence a ele, céus! – Sísifo se afastou, bufando.
– Acalme-se, Sísifo. Exaltar-se não ajudará. – novamente tocou em seus punhos, dessa vez puxando-os e conduzindo o cavaleiro até a fogueira: — Apolo não seria facilmente convencido a dar apoio à Athena, principalmente quando sua gêmea possui claras desavenças com ela.
– Artemis? – Sísifo se sentou ao lado de Urânia e deixou a mão ser afagada pela dela.
– Sim. Artemis não só deixa sua completa antipatia por Athena descaradamente à mostra como também possui um desprezo particular por Calíope.
– E Calíope está do lado de Athena.
– Para falar a verdade, eu não sei o que Calíope está fazendo. – lentamente, ela levantou o rosto para encará-lo. — Desculpe-me, Sísifo, mas não posso afirmar nada pelas minhas irmãs, apenas por mim.
– E de qual lado está? – Sísifo suportou o olhar.
– Acho que já deixei perfeitamente claro.
– Perfeitamente. – ambos sorriram e ele não demorou em se inclinar para iniciar um beijo.
Não tiveram pressa no ato. Beijaram-se com calma, desfrutando do sabor e da textura do lábio do outro, com olhos fechados, entregando. Era sempre assim com eles, qualquer pequeno ato se transformava em algo importante se ambos estivessem envolvidos de corpo e alma. O tempo seria sempre relativo, pois a intensidade era algo certo.
Sísifo parou o beijo apenas para receber o que tanto gostava depois do que faziam: receber pequenos beijinhos no rosto, de Urânia. Poucos minutos depois, achou importante retomar:
– Há algo me incomodando no que me revelou. Apolo não seria facilmente convencido apenas por ser partidário dos caprichos da irmã?
Ela endireitou-se antes de responder:
– Não apenas. Ele é um tipo arrogante, embora seja carismático com aqueles por quem tem afeto. – disse, iniciando um pentear de cabelos com os dedos. — Já tivemos seu afeto e a maioria de nós ainda possui, mas Calíope e Euterpe são exceções atualmente.
– Não compreendo uma das exceções ser Euterpe, mas não me admiro pela outra ser Calíope.
– Não diga isso, Calíope vale mais do que Apolo, a meu ver. Calíope não deixa de lado suas convicções para agradar aqueles que desprezam o mundo. – Sísifo percebeu um leve rancor nas palavras da musa. — Sei que ela possui características questionáveis, mas seu nariz empinado já salvou muitos seres humanos. E eu devo me calar agora, senão falarei o que não devo. – sua expressão se suavizou. — Mas Calíope já se deu bem com Apolo... Bem até demais.
Sísifo não soube dizer se escutou o que achou ter escutado no final da fala de Urânia, mas preferiu deixar a curiosidade de lado, pois sabia da limitação dela em relação aos assuntos pessoais das irmãs. Levantou-se com calma, deixando a musa da astronomia mergulhada em pensamentos, e procurou numa das sacolas de pano uma garrafa de vinho.
Urânia não se virou para ver o que ele fazia, sentiu a mente, aos poucos, levá-la para longe dali, numa das queridas memórias que tinha com as irmãs...
...
Juntamente com as encostas do córrego preferido de Apolo, naquelas montanhas ocultas e quase privadas, espaço onde cantavam vitórias e comemoravam a música natural da fauna, ele e suas preciosas musas dançavam e o acompanhavam ao som de sua lira.
– Está cansada, Terpsícore? – Euterpe riu da irmã mais nova, que, por vezes, parou de dançar para tirar o cabelo curto do rosto.
– Não! – Terps rodopiou para provar o que dissera, porém quase tropeçou, o que fez a mais velha rir.
– Oh, Terps, está cansada! – Euterpe disse, enquanto observava a própria flauta, preparando-a para levar à boca.
– Não provoque a doce Terpsícore, Euterpe. – Apolo pediu, calmamente, sem se mover do banco de mármore em que repousava e observava. Euterpe assentiu, sorrindo, depositou a flauta entre as pernas para poder prender o cabelo com as mãos. Percebeu os olhos do deus passando por sua imagem. – E também não me provoque... – Apolo sorriu para Euterpe, que lhe retribuiu do mesmo jeito.
– Hunf.
Apolo sorriu para si, conhecia bem aquele som de insatisfação que fora solto ao seu lado. Não poderia ser outra se não sua musa mais querida. Virou-se para vê-la e não deixou de se fascinar com as madeixas vivamente ruivas que caíam por aquele corpo alvo e sem marcas, parcialmente nu e molhado.
– Está cansada, Calíope? – perguntou, ternamente.
– Um pouco. – respondeu, falsamente irritada, sem olhá-lo. Apolo, ao contrário da maioria, achava-a completamente desejável quando fazia birra. Tocou-a no braço e, delicadamente, a trouxe para que sentasse em seu colo. Calíope não apresentou resistência.
De longe, Euterpe gargalhou com a cena, mas Calíope não se importou, estava convencida de que era pura e simples inveja da irmã. Seu ego estava amaciado com a iniciativa do deus, que havia parado de tocar lira apenas para tê-la nos braços.
– Eu não gostei disso! – uma pequenina Erato bufou diante dele, com as mãos na cintura, evidentemente enraivecida.
Apolo riu, encantado com a graciosidade da mais jovem. Mal teve tempo de respondê-la, pois a segunda musa se aproximou, com sua áurea maternal e gentil. Viu-a pegar a lira com calma.
– Posso? – Polímnia sorriu, puxando Erato para si com carinho.
Os olhos do deus brilharam.
– É claro. Mostre-me essa sua ternura no seu canto sagrado, Polímnia. – Apolo incentivou. Em seguida, sentiu um aperto de Calíope em seu ombro. – E por que você não se junta a ela e me presenteia com essa maravilhosa voz?
– Porque não sou sua serva. – a musa se levantou, mas foi presa pela cintura.
– Você adora dizer isso, mas sempre cede. – Apolo já estava excitado com aquela atitude.
– Só cedo quando me é interessante, não pense errado.
– Adoro quando você foge. – ele sorriu e a soltou, apenas porque sabia que ela queria o contrário.
– Vai à merda.
– Calíope! – Polímnia tampou os ouvidos de Erato, que riu por ter sido tarde demais.
Calíope deu as costas e se dirigiu até o outro banco, próximo de onde Terps dançava e Euterpe tocava flauta doce.
– Não quero canto sagrado agora, quero dançar! – Erato protestou.
– Tudo bem, minha florzinha. – Apolo se levantou e apegou pela mão. – Vamos dançar. Polímnia, por favor. – estendeu a mão para pegar de volta a lira.
Assim que começou a tocá-la, atraiu a atenção das presentes. Terps pegou sua lira e passou para Polímnia, que tomou o lado de Euterpe e procurou a sintonia entre a flauta e a lira do deus. Erato e Terps dançavam com um ânimo inabalável. Rapidamente, Tália e Melpomene apareceram, com algumas folhas nos cabelos soltos, denunciando por onde andavam e o que faziam. Tália, pela felicidade de todos, encontrava-se intacta, então nenhuma queda havia acontecido, já Melpomene parecia ter decidido nunca mais escalar uma árvore.
Clio e Urânia se encontravam num banco mais afastado, porém nada alheias aos acontecimentos. Apenas aguardavam a animação que com certeza chegariam. Ao contrário das demais, possuíam uma empolgação momentaneamente limitada – momentaneamente, pois, assim que suas irmãs iniciavam os rituais, elas se incentivavam. Clio adorava participar, sobretudo observar as irmãs. Urânia dependia do momento, era dilua, seguia as vontades.
Apolo dançava com todas, sem exceção. Distribuía bem a atenção e procurava animar cada uma com algum toque particular e, ao mesmo tempo, aproveitava brechas para observar suas musas com admiração e afeto. Todas eram importantes para ele e influenciavam de alguma forma em seu olhar sobre o mundo, sobre as coisas que formavam a vida. Se não fossem os malditos humanos procurando-as como se fossem dignos, o mundo seria mais bonito – ele pensava. Era difícil aceitar que elas inspirassem outros, especialmente a mais velha.
Decerto, tinha olhos diferentes para a musa da poesia épica.
Urânia viu quando Apolo puxou Calíope repentinamente. Às vezes isso acontecia, mas sua curiosidade nunca foi tão forte a ponto de fazê-la espiar, como ela desejava no momento. Não sabia dizer por que, mas sentia um forte impulso de ir atrás dos dois para descobrir o que tanto faziam às escondidas. Já havia percebido, assim com as irmãs, a clara fascinação do deus para com Calíope. Nunca achou que pudesse ser algo questionável, porém dessa vez sentiu algo diferente. Sentiu como se não fosse ideal deixar a irmã seguir com essas fugas de Apolo.
O sentimento que a fazia pensar isso era desconhecido. Urânia não queria evitá-lo, porém. Tinha tomado mais consciência desse tipo de envolvimento após ter conhecido Kagaho. Tinha inclusive fugido com ele algumas vezes já, no entanto, em nenhuma delas, havia sentido receio.
O receio de Calíope, entretanto, foi quase palpável. E Urânia foi atrás.
Apolo prendeu a musa ruiva com o corpo, contra uma larga árvore, depois de alguns minutos de caminhada. Olhando-a intensamente, sorriu.
– Não faça essa cara, eu quem deveria estar indignado. Aceito seu jeito arrogante e confesso que até me excita, mas não me mande ir à merda na frente das suas irmãs novamente. – a voz do deus engrossou, o que deixou Calíope alarmada. – Assim como elas, você me deve respeito.
– E você me deve também, portanto me solte. Agora. – ela tentou se soltar, porém Apolo afundou os lábios em seu pescoço.
– Você é um desafio pra mim, sabia? Desafia meu bom senso, minha responsabilidade enquanto um dos maiores deuses do Olimpo. Quando eu deveria te punir e me vingar, só consigo me derreter nesse corpo que você insiste em negar a mim.
– O seu problema é achar que sou culpada pelos seus erros, Apolo. – Calíope estava tensa, mas não perdeu a firmeza ao proferir as palavras.
– Que erros? Não cometo erros, musa. – com um pouco mais de força, ele a mordeu no ombro e a ouviu reprimir um suspiro de dor. – Só cometo desvios e ainda assim não sou culpado, você é quem me tenta.
– Oh, isso é ridículo! – Calíope o afastou, com força. Não se arrependeu mesmo depois de ver a expressão ofendida de Apolo. – Desde quando passou a falar tamanhos absurdos? Não está isento de nada, ainda que seja um deus, Apolo. E acredito que sua irmã discordaria dos seus “desvios” se visse o quanto você me persegue!
– Espero que não esteja insinuando que sou eu quem corre atrás de você, Calíope.
– Oh, não, não estou insinuando, estou afirmando.
– Sabemos que não é verdade. – ele novamente se aproximou, com mais lentidão e um sorriso zombeteiro no rosto.
– Iluda-se sozinho então. – Calíope cruzou os braços, deixando claro que não queria contato. Apolo se irritou com a atitude, porém respirou fundo.
– Calíope, não seja assim, você é a mais graciosa de todas, a mais bela, a que mais quero ao meu lado, mas não é a única que existe. – ele disse, acariciando a lateral do rosto amargo da musa. Sabia que havia atingido o orgulho dela, portanto estava satisfeito.
No entanto, Apolo sentiu um leve calafrio ao ver Calíope sorrir. Reconheceu a vitória nos olhos dela.
– Eu sei que não sou a única que existe, mas será que Artemis também sabe? – Calíope degustou cada palavra da frase dita.
– Você não tem coragem. – Apolo a encarou ferozmente.
– Você sabe que tenho. – ela sustentou o olhar.
– Mas não vai dizer nada.
– Teme por Artemis considerar sua liberdade um erro?
– Artemis não tem que considerar nada. – ele rebateu, amargurado.
– Acredito que ela vá se chatear com essas palavras. – ela não poderia estar mais satisfeita.
– Não, pois não chegarão aos ouvidos dela.
– É muito tolo por achar que não há desconfiança entre vocês.
– É muito tola por achar que não saberia manipular minha irmãzinha. – Apolo novamente a prendeu com o corpo e sussurrou em seu ouvido: — Mas é mais tola ainda, bela Calíope, por achar que pode ir contra mim.
– Você está com tanto medo assim de perder nesse jogo que criou?
– De forma alguma. – ele se afastou, sem deixar de encará-la.
– E desde quando está apaixonado por mim? – Calíope o pegou de surpresa, já havia percebido esse sentimento dele, só não sabia como rejeitar.
– Não estou, musa. E mesmo que estivesse, não seria o bastante para eu te deixar em paz caso iniciássemos um conflito.
– Você – Calíope deu dois leves tapas no rosto esculpido de Apolo. – tem muitos conflitos!
Quando se virou para sair dali, foi puxada agressivamente e calada com um beijo faminto. Em sua mente, ela lamentava a paixão de Apolo. Com certeza, isso não demoraria a ser descoberto pela gêmea do deus.
...
– Urânia!
O estalo das folhas caídas e o sussurro inusitado de Sísifo despertaram Urânia imediatamente. Não demorou a perceber que havia alguém se aproximando – a cada segundo, o som se expandia, dando a impressão de que não era apenas um passante. Portanto, ela rapidamente se ergueu e puxou o braço do cavaleiro de semblante preocupado, que já se preparava para defendê-la. Podia senti-lo atento, preparando-se.
– O que está fazendo? – Sísifo questionou, evidentemente incrédulo. Não era acostumado a fugir do perigo e pensar que Urânia queria protegê-lo feria seu orgulho em pequena escala.
– Sei que pode nos defender de qualquer coisa, mas não vejo necessidade de nos expor. Vamos averiguar o perigo antes de eliminá-lo. Que tal? – Urânia não recebeu resposta imediata, mas seu tom de voz ameno fez com que ele aceitasse mais facilmente. Ela percebeu pela falta de resistência dele ao ser puxado para trás de um aglomerado de árvores finas.
– É absurdo que me esconda, sabia?
– Sísifo, achei que fosse mais racional. – tentou brincar.
– Tsc. Eu sou. – e era, mas a presença da musa mudava completamente suas estratégias. Havia se preparado para estar sempre pronto.
De onde estavam, podiam ver três homens, aparentemente saltimbancos pela forma com que observavam o redor da fogueira abandonada, aproximarem-se com dois enormes sacos sujos de pano. Os homens não conversavam alto, cochichavam palavras difíceis de compreender devido à distância. Entretanto, a intenção deles era óbvia e eles, provavelmente, encontrariam a barraca caso o cavaleiro e a musa não fizessem nada.
– Sísifo, afaste-se um pouco, por favor. Aliás, não, permita-me me afastar. – Urânia não falou no intuito de pedir, não tinha tempo para que ele pensasse em negar. Sua intenção foi apenas de alertá-lo do que ia fazer. Queria apenas ter desfrutado um pouco mais da expressão engraçada de incredulidade do cavaleiro.
Com passos leves como plumas, ela se moveu a três metros de onde estavam e se concentrou, procurando despertar suavemente o cosmo sem ascendê-lo no corpo. Usaria apenas o suficiente de suas habilidades naturais ali, mas para isso teria de focar no objetivo, para que nada transbordasse. Podia sentir o corpo esfriando e os pelos se arrepiando conforme afastava as mãos uma da outra para iniciar a película. Quando pronta, deixou um sopro de ar sair em direção à fogueira, que se apagou imediatamente. Urânia pôde ouvir Sísifo arfar de surpresa e sorriu, mas voltou rapidamente a atenção para os três saltimbancos, que já estavam suficientemente intimidados com a repentina escuridão.
– Móno aftí ti forá, den pigaínoun kat 'eftheían*... – Urânia sussurrou, vendo a película se formar fria e gradualmente diante de seus olhos cristalinos, como uma espécie de cortina.
A película se estendeu à frente, aproximando-se dos três homens confusos. A musa sabia que, se seus próximos passos não fossem em direção à barraca, seriam em direção ao ponto onde ela se encontrava com Sísifo. De forma alguma queria que todos se enfrentassem, até porque tinha completa noção do risco que os três homens correriam se decidissem encarar seu cavaleiro, portanto a melhor maneira de afastá-los era aquela penumbra.
Sísifo, mais afastado de Urânia, não deixava de observá-la nem um minuto sequer; no entanto, sentia uma amarga onda de solidão emanando de onde ela estava. Não enxergava o que ela provocava, mas sabia que ela fazia algo dali, estava concentrada como sempre costumava ficar quando trabalhar em algum gesto importante e útil. Ficou estupefato ao ver o efeito causado nos saltimbancos, que saíram dali como se estivessem tristemente hipnotizados. Mais do que isso, pareciam pessoas que obedeciam sem questionar, sem duvidar, sem sequer entender o que estavam fazendo. Desacreditado, aproximou-se de sua musa com cautela, pois ela ainda parecia concentrada.
– Vamos voltar? – ela, de repente, despertou e o encarou, sorrindo e oferecendo a mão.
– O que você fez? — Sísifo aceitou a mão e caminhou com ela de volta à fogueira apagada.
Antes de falar, Urânia pediu que ele ascendesse novamente para que pudessem relaxar.
– Eu os espantei com uma película noturna. – ela disse, normalmente. Riu ao ver que Sísifo não se contentaria com uma simples resposta. Continuou, após ser servida com vinho: – Pois bem, a película que criei faz com que a pessoa que a encontra perca a referência da luz da lua. Não apenas isso, mas também enxerga um caminho nada convidativo.
– Em que aspecto? – Sísifo virou a taça de vinho, sem deixar de olhá-la.
– Hm... Numa perspectiva próxima, é algo que atua como uma espécie de escudo. Eu vejo através dele porque o criei, porém que se depara com ele se sente intimidado com o caminho à frente, ainda que esse caminho não pareça diferente do que era antes. Como uma penumbra fina e fria, que não atrai a ninguém. – Urânia sorriu. – Fazia tempo que não criava uma...
– E como foi possível? Não sabia que tinha poderes.
– Não é poder, é uma habilidade específica, derivada de outras que compõem a minha representação: a astronomia. Tudo o que eu posso fazer é originado disso ou então aprimorado de algo que nasceu de mim e faz parte. Não demorei muito para descobrir essa película, mas confesso que nunca achei tão interessante usá-la. Dá a impressão de que se cairá num abismo se continuar caminhando, pois não há mais nada que se possa enxergar. É um truque até simples, se me permite dizer.
– Então você controlou aqueles homens? É confuso, me desculpe. – Sísifo riu, nervoso, algo que Urânia achou adorável. Ele a escutava com tanto silêncio e seriedade que, para ela, era desfrutável compartilhar com ele.
– Não se reprima, Sísifo. É realmente confuso. E não, não controlei aqueles homens, eles poderiam ter escolhido ignorar essa impressão miserável e seguir em frente. Para nós, seria uma infeliz escolha, já que não queríamos conhecê-los, certo? – Urânia observou as faíscas da fogueira. – Diferentemente da parangelìa**, eu apenas intimidei e sugeri outra opção para eles.
– Qual é a diferença? – Sísifo sentiu a curiosidade inflar. Nunca tinha parado para conversar com ela sobre o que fazia parte daquele conceito.
– Parangelìa é uma habilidade que nós, musas, temos em comum, que nos dá a capacidade de controlar um ser humano a partir da inspiração. Surgiu como uma espécie de defesa, porém nos foi proibida pelo Olimpo por ser tentadora demais. – Urânia deu um leve riso de escárnio. – Sinceramente? Acho que nos proibiram porque nenhum daqueles deuses deixaria de usar essa habilidade em prol do próprio interesse, portanto eles não confiariam em nós.
– Mas como poderia controlar um ser humano a partir da inspiração? Isso parece mais uma capacidade mascarada.
– Realmente é. – Urânia se serviu de mais vinho. — Faz parte de nós inspirar as pessoas, é natural e inevitável, portanto a parangelìa também seria natural, porém ela é evitável. Confesso que é arriscado usá-la, pois se a ordem for dada erradamente, não haverá volta. Além disso, a duração desse controle provém da intenção da nossa ordem. E, assim como todos os seres, incluindo os deuses, nós podemos errar. Por isso, aceitamos a proibição. O problema é a punição.
– Entendi. É uma habilidade que vocês não sabem controlar totalmente, estou certo? Considerando que não podem pô-la em prática... – Sísifo a viu suspirar, como se compartilhasse de um lamento interno.
– Sim, verdade. Só aconteceu uma vez e não sei como deu certo. Bom, relativamente certo.*** — ela o encarou, sorrindo. – Mas sobre isso eu não posso contar.
– Imaginei. – ele devolveu o sorriso. Pensativo, sentiu um turbilhão de perguntas nascerem na mente, aumentando a vontade de proferi-las. No entanto, sabia dos limites da musa. Misturou um pouco o vinho, mexendo a taça, antes de perguntar: — Vocês possuem capacidade de controlar elementos da natureza?
– Não. Fenômenos, talvez. Não chega a ser controle, isso é grandioso demais para nós.
– Como apagou o fogo? – Sísifo estava com a pergunta entalada desde o momento em que a viu fazer isso.
Urânia sorriu diante do interesse e, antes de responder, pegou a mão do sagitariano para afagar.
– Eu o manipulei, na verdade. Faz parte do que sou. O fogo está presente em muitos fenômenos astronômicos, portanto ele é um elemento harmônico na minha composição enquanto musa da astronomia. Não poderia criar um fogo, mas manipular o que já existisse.
– Você nunca deixa de ser interessante. – Sísifo se aproximou e roubou um beijo rápido dela, cuidando sempre para observar cada centímetro de suas expressões. Urânia riu e olhou para o céu estrelado, trazendo Sísifo consigo.
– O universo é ainda mais. Um exemplo fácil: meteoritos. Meteoritos são bolas de fogo que rasgam o espaço e se comportam de forma inesperada e imprevisível. Eu os acho fascinantes, embora reconheça seu perigo. – disse, balançando os pés espontaneamente, enquanto olhava para cima.
Os olhos de Sísifo desceram para ela, contornando de perto a clavícula exposta pelo vestido de um ombro só que usava. Com uma voz aveludada, deixou escapar o comentário:
– Há quem diga que o perigo é fascinante, certamente.
– Sim – Urânia se virou para mirá-lo ternamente. – Há quem viva por esse perigo. – inevitavelmente, pensou em Mel.
Sísifo percebeu o repentino desânimo de Urânia. Discretamente, pegou a taça de sua mão e encheu com mais vinho, para então colocá-la novamente na delicada mão da musa. Observou-a em cada gesto até sentir certo desconforto por vê-la tão imóvel e pensativa. A razão o fazia ficar quieto, esperando alguma reação dela, alguma quebra que indicasse uma nova atmosfera. Por outro lado, instinto dizia para iniciar uma nova conversa e salvá-la do que quer que estivesse a prendendo naquela melancolia. E, no âmbito da salvação, Sísifo estaria sempre disposto a ela.
– Me fale sobre como vê o céu daqui. – disse. Foi a primeira coisa que passou por sua cabeça, considerando a pressa em vê-la sorrir novamente. Sísifo se animou ao perceber que havia dado certo.
– Consigo ver muito bem, mas não com a mesma eficiência com que vejo quando estou em meu templo. – Urânia mais uma vez mirou o céu. — Possuo um espaço que tenho como o centro de todos os melhores ângulos. Não sei explicar, mas é como se meu olhar viajasse pelo espaço e chegasse aonde quero, por isso vejo nitidamente. – seus olhos se estreitaram — Além disso, é um dever. Não admito falhar, embora já o tenha feito algumas vezes. — voltou-se para Sísifo, que a admirava dedicadamente — É isso que não nos difere de humanos: os erros. Divindades também erram, nunca se esqueça disso. – Urânia manteve um silêncio enquanto sua boca continuou aberta, como se a qualquer momento fosse iniciar uma nova fala. E não demorou: — Sabia que uma nebulosa é um berço de estrelas? Melhor dizendo, berço estelar.
Ela inclinou o corpo para frente na tentativa de alcançar o saco de pães que haviam trazido. Sísifo acabou estendendo para ela.
– Isso já é conhecido? – ele perguntou, aproveitando para pegar um pão para si.
– Já, mas ainda falta muita coisa para os cientistas descobrirem. – com vontade, mordeu um pão, deliciando-se com a maciez.
Sísifo parou e a mirou.
– Por que não os ajuda? – erguei uma sobrancelha e assentiu ao ver a musa pedir para que a esperasse terminar de mastigar.
– Eu ajudo. Certamente, não dou as respostas, porém os guio para descobri-las. Dou apenas o que eles precisam. – voltou a comer normalmente.
– Inspiração.
Urânia assentiu.
– Dar respostas, muitas vezes, tira a autonomia do indivíduo de procurar por aquilo que ele quer conhecer ou que o intriga, tira a capacidade de pensar numa possível solução, além de limitar a utilidade da bagagem de vida que ele agregou ao longo do tempo. Não seria digno de minha função dar respostas a cientistas com fome de descoberta. Descobrir por si só é muito mais enriquecedor do que descobrir por terceiros. – ao fim da fala, ela piscou para ele.
Sísifo não poderia estar mais admirado. Mais do que isso, sentia-se emocionado por ter a chance de conversar com sua amada tão espontaneamente e por vê-la tão à vontade, compartilhando com ele parte de seu mundo. Lamentava por não ter tantos fatos interessantes para retribuir na conversa, portanto procurava ser o melhor ouvinte para ela.
– Eu teria imaginado a tentação de revelar alguns segredos do Universo, mas você me convenceu que o contrário é melhor.
– Nem se eu quisesse eu passaria livre de repressões por revelar alguma coisa, quando não sou eu quem cuida do tempo. E revelar informações avançadas para aqueles que não têm como delas usufruir, por causa da precariedade de seus recursos, causaria conflitos na compreensão do espaço-tempo. – Urânia, de repente, adquiriu enorme seriedade na face, algo que ele estranhou. – Eu não gostaria de me enrolar com aquelas que cuidam desse assunto...
– Quem seriam elas?
– ... – Urânia permaneceu alguns segundos bebendo o vinho.
– Urânia, é uma informação proibida também? – Sísifo quase murchou. Urânia sabia como deixá-lo curioso como ninguém.
Viu-a negar com a cabeça, enquanto largou a taça ao lado e pegou um pedaço do pão para começar a tirar migalhas.
– Não é proibido, mas não sei... Não me sinto muito bem ao falar delas, é como se pudessem me ouvir o tempo todo.
– Elas quem? – procurou controlar a respiração ansiosa ao vê-la se virar.
– Aquelas que tecem o fio da vida, claro. Que cuidam do passado, do presente e do futuro ao mesmo tempo. Não, cuidam não, são.
Embora estivesse despretensiosamente esmigalhando o pão, Urânia dizia as palavras com evidente tensão nas entrelinhas. E Sísifo não precisou de muito para constatar a quem ela se referia:
– As moiras.
– Sim, as moiras. – ela o encarou, inexpressiva. – Admiro-as por serem os seres mais incríveis deste mundo, porém também sou sabida o suficiente para ter consciência de que devo temê-las.
– Mas o que as difere de uma divindade?
– A capacidade de matar uma divindade, Sísifo. Nem mesmo o grandioso deus do Olimpo pode escapar do fio que elas tecem. E muitos deuses tentam negociar seus destinos com elas, porém são traiçoeiras quando não simpatizam com alguém ou quando veem a oportunidade de transformar os valores. Por pertencerem aos deuses primordiais, elas possuem maiores capacidades do que os demais e não aceitam que alguém interfira na harmonia cósmica.
– Isso não faz de vocês, musas, entidades relacionadas a elas?
Urânia se surpreendeu com a pergunta.
– Por que pensa isso?
– Essa harmonia cósmica...
– Nós entramos nisso no aspecto da inspiração, apenas. Mas, sim, é uma relação demasiadamente importante... – por alguns segundos, ela parou. Ele percebeu que ela refletia sobre algo. — Tão importante que a passividade das Moiras na proibição da parangelìa nunca foi questionada. E eu sinceramente adoraria saber sobre isso...
– Pelo o que estou entendendo, se elas sabem do destino de todos, então viram sentido na proibição.
– É, mas... Isso me faz pensar no que mais podemos esperar disso tudo.
De fato, Urânia sentia aflição ao pensar sobre o conhecimento que As Moiras deveriam ter sobre o futuro das musas, no dia em que a proibição da parangelìa foi aprovada. Não deixou de pensar em como elas teriam esperado Tália ser prejudicava e Calíope quebrar a regra e usar a parangelìa para defender a irmã, adquirindo a enorme e eterna punição de carregar nas costas, sozinha, qualquer desequilíbrio de cosmo entre elas. Não deixou de pensar no que mais as moiras poderiam saber e no tanto de sofrimento que os fatos poderiam causar futuramente. Tinha bem noção de que o passado movia o presente e influenciava no futuro, mas que isso também era capaz de ser contornado.
Urânia riu com ironia, para si mesma. Sentiu-se no papel que costumava guiar. Assim como ela não poderia dar respostas aos cientistas astrônomos, ela não poderia adquirir respostas sobre seu destino, caso buscasse as três irmãs que teciam seu fio.
Era muita agonia no interior da musa da astronomia.
– É inesperado que existam seres tão poderosos a ponto de superarem os deuses do Olimpo. – Sísifo comentou, processando toda a informação.
– Os humanos superestimam seus deuses.
Sísifo e Urânia se olharam em silêncio, compreendendo o fim daquela conversa. Pareciam se comunicar mentalmente, pois ambos, ao mesmo tempo, inclinaram-se para um beijo.
– Espero estar no seu destino.
– Há sempre uma forma de contorná-lo se não estiver. – lentamente, envolveu o pescoço dele com os braços e encostou os lábios nos dele: — Mas se o encontrei, é porque já está há muito tempo.
Sísifo não perdeu tempo ao levá-la para o espaço maior daquele tapete e arrancar-lhe as roupas. Urânia já estava molhada, ele sabia disso, sabia como ela ficava assanhada com um beijo. Prontamente, molhou-a um pouco mais com a língua, fazendo-a delirar com o sexo oral, bem ali, sob o céu estrelado que ela tanto amava. Não poderia ter escolhido lugar melhor para amá-la também.
Com as pernas enroscadas na cintura do sagitariano, ela o puxou com força para que a penetrasse logo. Estava sedenta por ele e precisava saciar-se com o jeito duro e ao mesmo tempo sinuoso de Sísifo. Adorava ser pega com firmeza e olhada com amor. Portanto, quando ele a penetrou, ela deixou escapar seu gemido mais aliviado e saboroso, dando início a uma longa noite de desejo.
~
Depois de três dias, decidiram voltar. Por mais apressada que ela estivesse, reconheceu que deveria passar mais tempo no Oráculo, onde poderia ler as estrelas de outra forma e, portanto, procurar qualquer evidência talvez despercebida. Ao perceber que dali não tiraria mais nada, Urânia aprovou o retorno. Demoraram poucos dias no caminho de volta.
– O que vocês tanto fizeram lá fora, heh? Não te cansa de sair em missão? Desse jeito vai parecer que há um ponto positivo em sair tanto. Diga, você se diverte sempre? – Kárdia gargalhou, encostado no pilar da entrada principal do Santuário. – Ops, nas outras vezes, não foi a senhorita Urânia que te acompanhou, hein?
– Cale a boca, Kárdia. Estou avisando. – Sísifo ordenou, grosseiramente.
Urânia engoliu seco, incomodada, mas não perdeu a elegância. Ao invés disso, optou por segurar o braço de Sísifo, em sinal de que confiava nele ainda diante das palavras venenosas do escorpiano.
No entanto, ambos travaram. Urânia largou-o imediatamente e se pôs a correr adiante.
– O que aconteceu aqui? – Sísifo perguntou, alarmado.
– Eh, então, eu vim aqui pra te acompanhar até o Grande Mestre. – o tom de voz de Kárdia não poderia ter denunciado mais a existência de um grande problema.
...
– Polímnia? Euterpe?
– Acalme-se, Urânia! – Tália a segurou, na tentativa de fazê-la parar de se mexer. Os olhos cristalinos procuravam pelas irmãs em cada canto do Salão do Grande Mestre.
Sage expirou pesadamente por trás do elmo de patriarca.
– Elas estão bem, senhorita Urânia. Apenas estão abatidas pela atual fatalidade.
– Que foi...? – Urânia não estava nem um pouco disposta a ser enrolada.
...
Sísifo se sentou no último degrau da escada do Décimo Terceiro Templo e deixou a cabeça descansar com o apoio das mãos. Cabisbaixo, lamentou. Passou as mãos pelos cabelos, despenteando-os sem se importar, e as trouxe até a boca. Não havia palavras para prender ou soltar, só a incredulidade dos olhos. Havia perdido mais um companheiro de ouro para a Guerra Santa.
Sentiu alguém sentar ao lado, mas não precisou se virar para saber quem era:
– Admito que, por um momento, achei que tivesse sido você.
– Não sou tão fácil de morrer, Sísifo. – o amigo respondeu, friamente como de costume.
– Ele também não era.
El Cid nada mais disse.
...
Urânia se sentou no último degrau do altar do Grande Mestre e deixou o corpo relaxar. Preferiu aguardar a irmã mais velha ali e ali ficaria até ela aparecer. No entanto, assim como as outras, não sabia onde achar Euterpe. E precisava saber o motivo de ela ter se abalado tão fortemente quanto Polímnia, mesmo sem ter perdido um querido cavaleiro.
Fale com o autor