EmMusas - The Lost Canvas
52 O raro retrato
Notas iniciais
Capítulo 52
O Sol quente da manhã parecia um pouco amenizado naquela área do jardim do Templo do Grande Mestre, porém as flores refletiam tal luz com a mesma intensidade e brilho de sempre, proporcionando os melhores aromas para quem usufruía daquele espaço. Alguns pássaros se amontoavam nos galhos finos das árvores que cobriam os bancos de madeira, enquanto outros bicavam o chão, à procura de alimento. Havia uma harmonia ali, era evidente. Alguns pássaros não estavam ali apenas por interesses próprios, mas porque era inevitável não parar para desfrutar daquele momento tão inspirador, embalado por seis energias diferentes.
Euterpe era a mais animada, permanecia firmemente com a flauta doce nos lábios e os dedos em agilidade para combinar o som que queria; ao mesmo tempo, saltitava no ritmo de sua música, juntamente com um sorriso exibido por covinhas. A musa da música, porém, não tocava só; Terpsícore a acompanhava com sua lira, enquanto dançava animadamente pelo extenso espaço verde de grama macia que se estendia à sua frente. De todas, era a mais empolgada com a energia que dali fluía incessantemente.
Num dos bancos de madeira cobertos pelas sombras frescas das árvores, Polímnia, sentada confortavelmente, fazia carinhos nos cabelos ruivos de Erato, que estava sentada na grama, com a cabeça carinhosamente encostada no joelho da irmã. Ao lado, Mel viajava em belos pensamentos, enquanto murmurava uma doce canção ritmada com a melodia dos instrumentos musicais – e era um canto bem alegre; sua face demonstrava todo o deleite que sentia naquele momento, ainda mais por ter os pensamentos repletos de lembranças de Albafica.
No outro banco, posicionado em “L” com o das três musas anteriores, Clio mantinha tranquilamente uma leitura do terceiro volume de seu fiel companheiro livro: A História da Guerra de Peloponeso. Tinha o costume de, vez ou outra, abrir uma página qualquer de um dos volumes e procurar, nas entrelinhas, detalhes talvez despercebidos anteriormente. Só que, nesse momento, sua determinação era ainda maior, pois, apesar de estar calma, sentia ainda o incômodo por ver Terpsícore e se lembrar do dia anterior, no qual teve uma péssima informação recebida. Ainda em processo de aceitação, preferiu relevar os fatos naquele momento, até porque era raro se reunir com as irmãs dessa forma, ainda mais num espaço fora do Monte Parnaso.
Numa atmosfera completamente recheada de boas energias inspiradoras, as seis agregaram as atenções e intensificaram a cumplicidade através de sorrisos e olhares. Estava agradável demais compartilhar daquele momento, até porque a tensão da guerra e dos problemas pessoais de cada uma era perfeitamente sentida por elas. No intuito de desopilar um pouco, nada mais ideal do que uma reunião daquelas. Só teria sido melhor se Urânia, Calíope e Tália estivessem presentes – cada uma pensava.
Nenhuma delas estava preocupada com algo naquele momento, e isso teria se estendido se não fosse pela repentina parada de Euterpe, seguida de sua fuga rápida para uma área qualquer do jardim. As cinco que ficaram se entreolharam, estranhando totalmente a atitude inesperada da musa da música.
– O que foi isso? O que aconteceu? – Terps perguntou, parando o rodopio.
– Alguém conseguiu ver o rosto dela? – Erato questionou. Só conseguiu perceber as costas de Euterpe no momento da fuga.
– Ela me pareceu um pouco surpresa, mas nada mais do que isso. – Polímnia destacou.
– Ah... – Clio inalou fundo. – Eu sei o que foi. – e recebeu as quatro atenções restantes.
Alguns barulhos de estalos de folhas foram ouvidos no lado esquerdo daquele espaço, o que chamou a atenção das cinco cabeças que ali estavam. As musas não demoraram em ver o cavaleiro de escorpião aparecer por entre os altos arbustos.
– Ah, faz sentido. – Mel disse, normalmente.
Kárdia estava com a roupa de treino, sem resquício algum de armadura. Sua expressão já denunciava a intenção por trás da aparição, pois a composição de rugas entre as sobrancelhas e um pequeno relevo nos lábios – indicando um beicinho – deixou claro seu mau humor. Para Erato e Polímnia, nada era muito claro ainda, tanto que o receberam com expressões de estranhamento; porém, para Clio, Mel e Terps, tal semblante era mais do que esperado.
– Bom dia, Kárdia. – Clio cumprimentou, educadamente. Tentou oferecer um sorriso, que foi logo apagado por um resmungo do cavaleiro. Apesar de compadecida, quis rir, como as outras.
– Ehh... Bom dia, senhoritas. – Kárdia fez uma leve reverência para depois passar os olhos por cada rosto bonito naquele jardim. Se não estivesse tão incomodado, pararia por ali mesmo para prosear com elas. Mas se virou apenas para a musa que lhe cumprimentou. – Clio, você sabe o que eu estou procurando, não sabe?
– Todas nós sabemos, cavaleiros. – quem respondeu foi Erato, docemente.
– Ah, sim, é... Foi mal. Não quis ignorar vocês, só que... Enfim. – Kárdia ficou sem jeito, acabou coçando bruscamente a nuca. – Ela não está aqui com vocês?
– Talvez... – Erato novamente respondeu, jogando um olhar esperto para Terpsícore.
– Oh, sim... Talvez. – a loira decidiu participar. – Mas podemos passar sua fala a ela, se quiser! – disse, sorrindo. Fazia tempo que não brincava com alguém dessa forma.
– O quê?! – Kárdia, levemente indignado. – Eu quero falar com ela a sós! – berrou, para então perceber sua grosseria. – Hmm, desculpe-me, é só que...
O escorpiano nem se deu o trabalho de finalizar a fala após ver as duas musas mais novas rirem de sua reação. Antes que pudesse respondê-las, viu Clio bufar e se levantar:
– Kárdia. – a musa estendeu o braço direito, juntamente com o dedo indicador. – Lá.
Kárdia sorriu abertamente.
– Valeu, Clio, você é maravilhosa! – disse alto, já seguindo para dentro de outra área do jardim.
– Ahn, Clio, que estraga prazer. – Erato resmungou, cabisbaixa. Polímnia riu e a acariciou com mais intensidade na cabeça.
– Prazer? Estou é com pena do cavaleiro de escorpião. Se depender de Euterpe... – Clio se defendeu. Esperou, do fundo do coração, que a irmã fugida não estendesse o joguinho com o escorpiano.
~
Euterpe suspirou e olhou para o vestido azul que usava. Um pequeno furo foi avistado bem na lateral, provavelmente causado pelo galho que tentou atrapalhar sua fuga. Talvez correr em vegetações desconhecidas não fosse a melhor opção, realmente. Assim que recuperou a respiração, varreu aquele perímetro com os olhos azuis, no intuito de reconhecer o espaço. Nada muito novo foi avistado, apenas algumas flores diferentes e formatos de arbustos diversificados. No entanto, um som de folhas sendo quebradas foi ouvido, no canto de um arbusto.
– Um coelho? – perguntou-se, aproximando-se do foco. Assim que viu a figura de Kárdia sair, num pulo, dali, retraiu-se. Em sua face, o tédio fingido estava estampado. – Não, um escorpião.
– Ah, olha só! Disso ela admite que se lembra! – Kárdia, arrumando os trajes de treino. – Decidiu parar de fugir?
– Não, pra que parar com algo tão agradável? – respondeu, num tom provocador.
– Nem venha com essa! Já entendi que você só gosta de arranjar problemas. Não vou cair nesse seu joguinho barato.
– Ah, é? E veio aqui pra que então? – Euterpe não alterou o tom sensual de sua voz; em vez disso, intensificou sua provocação através do olhar. Kárdia sentiu um arrepio de imediato.
– Pra você me explicar o que foi aquela sacanagem toda. Desde o início você sabia quem eu era, por que não me contou que também era musa? – perguntou. Seu semblante era de pura indignação.
– Porque eu não queria passar essa informação para ninguém, ora! É um direito meu, não? Não devo nada a você, cavaleiro. Me desculpe se dei a entender errado. – Euterpe chegou a se virar de costas, mas foi impedida de fazê-lo por completo ao ter o braço puxado pelo escorpiano, que fez questão de encostar o corpo dela no seu.
Kárdia sabia do efeito que causava nas mulheres, mas nessa, em especial, parecia não causar absolutamente nada. Contudo, desistir não era um traço seu, por isso sentia necessidade de encarar os belos olhos azulados da musa com os seus, da maneira mais feroz possível – até porque estava sentindo muita raiva, mas também uma sensação nova, como se a provocação não fosse de todo ruim.
Euterpe, por outro lado, não estava preocupada, ou indignada, sequer incomodada com aquele contato. No fundo, a sensação de ser tocada por mãos tão quentes foi até agradável e teria sido ainda melhor se ele tivesse desviado aqueles olhos tão intensos, que, por um segundo, fizeram-na perder um pouco do ar. Mas isso foi logo recuperado quando ela o afastou com calma.
– Essa resposta é tão falsa quanto sua atuação ontem de manhã. É tão óbvio que você se lembra de mim que eu chego a sentir a estupidez de vir aqui confirmar com você. – ele disse, entre dentes. – Agora, coopere comigo e me fale o que foi tudo aquilo.
– Não passa pela sua cabeça que eu gosto de fazer o que quero? Sinceramente, a melhor resposta que dou, para a maioria das perguntas que me fazem, é essa que acabei de lhe dar. E é também a mais verdadeira, olha só! – o sarcasmo de Euterpe só atiçou ainda mais o instinto do escorpiano. Kárdia novamente a puxou para si, sem perder o contato visual.
– Não passa pela sua cabeça que causar problemas gratuitamente é um exercício bastante ilegítimo?
– Estou causando tanto problema assim? Engraçado, o Santuário me parece tranquilo quanto à minha pessoa. – dessa vez, Euterpe não desviou o olhar.
– Argh! Pare com isso! Responda direito, cacete! – foi inevitável não aumentar o volume, mas ele se controlou para não chacoalhá-la.
– Pare você com isso, é patético. – ela respondeu, como se nada estivesse acontecendo. Se ela tivesse se alterado um pouquinho, ele teria recebido a resposta de melhor forma.
Só que era exaustivo demais ficar daquele jeito com a musa. Kárdia não queria alimentar uma raiva que não poderia descontar depois. Soltou-a, então, com cuidado e seguiu até uma mureta que limitava o jardim, para observar a vista do plano baixo. Aproveitou o momento, também, para recuperar a respiração.
Euterpe não saiu dali, fitou as costas largas e parcialmente expostas do escorpiano, as quais respingavam suor, cujas gotas deslizavam convidativamente desde os ombros até onde a camiseta iniciava. Os braços torneados também chamaram atenção dos olhos dela, mas por pouco tempo, pois Kárdia se moveu para frente novamente, fitando-a com olhos frustrados.
– Por que isso? Por que age como se não me conhecesse? – perguntou, chateado.
– Porque eu não lhe conheço de fato, cavaleiro.
– Não me chame de cavaleiro, você sabe meu nome, Euterpe!
– Nome é algo íntimo demais, não acha? Nós sempre o falamos por aí, mas nunca paramos pra pensar em como ele deveria corresponder a uma única pessoa, mesmo que se repita para outros indivíduos.
– Que filosofia bosta. – Kárdia cuspiu, para então ver o semblante da musa mudar completamente.
– Tá certo, escorpião grosseiro, eu não estou a fim de continuar essa conversa. Aliás, que impaciência inútil a sua, sequer rende uma boa tensão ou provocação! – Euterpe falou, cruzando os braços na altura dos seios e emanando seriedade na face. – Eu não preciso ter motivos para tudo o que faço!
– Mas você tem! Eu tenho certeza de que tem. Sabe por quê? Porque suas palavras se diferenciam das outras quando se tratam de me provocar.
– Oh, que convencido!
– Não, realista. Admita, Euterpe, você está atraída por mim.
– Se estivesse, teria deixado você me pagar o vinho naquela vez.
– Viu como você lembra bem? – Kárdia, em seu interior, sentiu o coração saltar de alegria, ainda mais após ver um indício de rubor no rosto da musa. – Ah, você lembra sim... – aproximou-se, lentamente. – Me diga, musa, por que me rejeita tão abertamente? Eu mexo tanto assim com você que é necessária toda essa muralha de defesa? – como uma de suas melhores características, usou a abusou de seu tom provocante, sensual e grave, a cada pouco que se movia para perto da musa.
Euterpe permaneceu em silêncio, permitindo a aproximação do escorpiano. Seus braços cruzados logo caíram soltos nas laterais de seu corpo, possibilitando uma abertura para Kárdia, que vibrou internamente ao perceber o fato. Ele, porém, continuou no ritmo lento, optando por deslizar suavemente os dedos da mão esquerda no braço direito dela.
– Eu me pergunto se seu teatro começou lá na Toca. – Kárdia disse roucamente no ouvido dela. – Ou então se essa firmeza toda é só para se destacar entre as outras mulheres. – encostou o nariz no lóbulo na musa, que estremeceu levemente. – Talvez... – sua outra mão pendeu nas costas nuas dela. – Seja para chamar minha atenção? – apesar de estar seduzindo-a, sentiu-se completamente seduzido pela maciez da pele dela, juntamente com o aroma delicioso que emanou de tal corpo. Euterpe vestia um vestido azul royal tão ideal para o contraste de sua pele clara, que ele não evitou a pura admiração. Maldita musa deliciosa.
Num rápido movimento, Euterpe se virou de frente para Kárdia, permitindo que os dois corpos se juntassem ainda mais e tomando o rosto dele com as mãos, para então fitar a boca ousada do escorpiano. Deixou os dedos deslizarem pelas bochechas minimamente ásperas dele e os desceu até as clavículas bem acentuadas. Euterpe não tinha pudor quanto ao suor naquele corpo esculpido do grego; na verdade, esse era um dos pontos mais atraentes em tal visual.
– Oh, você está tão certo. — assim que mirou os olhos dele, sorriu.
Kárdia sentiu um leve tom de ironia na fala dela, mas, de qualquer forma, interpretou como uma aprovação. No fundo, podia muito bem não ser – já que a musa da música era diferente de qualquer outra mulher que conhecera -, mas ele queria que fosse, queria avançar naquela oportunidade, e por isso tentou. No entanto, seus lábios se depararam com a bochecha direita da maldita musa.
– Respondendo sua pergunta – ela iniciou, ainda com o rosto colado no dele. -, meu teatro começou lá, mas terminou aqui e agora. – afastou-se e se virou para ele, para então sorrir da forma mais provocante que conseguiu. Num impulso rápido, deu um passo para trás, sem deixar de encará-lo.
Kárdia ficou estático, perplexo, incrédulo, e pior: não conseguiu ter reação alguma, só vê-la sair como se nada tivesse acontecido. A maldita musa o fez de tolo novamente. Se não fosse a raiva que acumulou ainda mais, teria passado o dia ali, feito uma estátua de jardim, mas agradeceu aos deuses por encontrar o amor próprio e conseguir sair daquele estado, para seguir atrás da musa desgraçada.
– EUTERPE! – gritou, ao vê-la um pouco longe.
– Pare de me seguir, ou sumirei por entre as árvores, escorpião! – ela gritou de volta.
– Isso não vai ficar assim, sua cretina! – dessa vez, Kárdia foi mais raivoso, mas não demorou em se arrepender quando viu que a merda que proferiu realmente irritou a musa. Euterpe parou do nada à sua frente.
– O que disse?
– Ah, olha só! Parece que ela tem sentimentos humanos, apesar de tudo. – o escorpiano ironizou, sorrindo.
– Ninguém me chama de cretina, seu cretino. – levando o indicador no rosto dele, enquanto a outra mão repousava na cintura. Apesar de rude, Kárdia não evitou achá-la deliciosa daquele jeito.
– E você, toda musa, filhinha do papai Zeus, se achando a dona do pedaço só porque é gostosa e chegou ontem, acha que pode chamar um Santo de Athena de cretino? – Kárdia estreitou os olhos e Euterpe o imitou.
– Os santos são os piores.
Kárdia teve de devolver o sorriso malicioso que recebeu da musa. De certa forma, sentiu algo interessante emanando entre eles, mesmo que irritantemente. Não soube dizer se foi a sinuosidade com a qual fazia cada movimento do corpo, ou se foram as várias mudanças sutis nas expressões que demonstrava junto com a voz. Mas algo naquela musa desencadeou em si uma vontade de mostrar que ela estava enganada.
– Isso depende da ocasião e do ponto de vista. Quando poderei mostrar meu argumento? – seu tom aveludado extraiu um suspiro teatral de Euterpe.
– Hmm, quem sabe num outro momento, escorpião. – assim como ele, ela deixou a sugestão na voz. Um breve silêncio os envolveu numa atmosfera diferente, um tanto lúdica e bastante íntima. E, de repente, Euterpe saltou, assustada. – Oh, céus! Preciso correr!
– Ehh? – Kárdia a segurou novamente pelo braço.
– Me solte, Kárdia, preciso voltar! – ela forçadamente se soltou, parando um segundo para reprová-lo com um olhar, porém não conseguiu ao vê-lo com um sorriso bobo.
– Você finalmente disse me nome, heheheh. – Euterpe revirou os olhos.
– Tchau, cavaleiro. – e Kárdia murchou.
Ainda sob o efeito do charme da musa, o escorpiano permaneceu alguns segundos em repleto deleite, relembrando os minutos passados, mas, ao se perceber, chacoalhou a cabeça, querendo expulsar qualquer admiração da mente. Aquela musa, por mais bela que fosse, possuía certa arrogância que ele não gostava – porque, no fundo, ia de encontro com a sua, e isso era inadmissível. Se alguém tinha que reinar perante a provocação era ele, não ela. O fato de ter caído no joguinho dela – principalmente ao tentar beija-la – era imperdoável e machucava seu ego como se fosse o pior dos crimes. Não poderia admitir mais uma derrota para aquela musa audaciosa e exibida, mesmo que ela lhe agradasse.
Não, não podia.
Embalado por tais pensamentos incômodos, Kárdia correu, seguindo o caminho que viu a musa fazer. Não interessava o problema que havia surgido para fazê-la sair correndo; talvez fosse apenas mais uma desculpa para fugir dele. Enfim, tiraria a resposta clara dela, com certeza. Desceu as escadas estreitas que davam para a área de entrada do Templo do Grande Mestre, pelas alas internas, e adentrou o corredor até o Salão Principal, porém parou de correr assim que observou o retrato que se formou nos quatro degraus que destacavam o altar do chão: Polímnia e Calíope, sentadas no mais alto, de mãos dadas, acariciavam os cabelos negros de Urânia, que alisava a cabeça de Euterpe em seu colo, cujas mãos entrelaçavam as coxas da musa da astronomia – as duas no segundo degrau mais alto; Terpsícore e Erato estavam no degrau abaixo desse, observando Urânia e recebendo afagos de Clio, que estava no outro lado da musa da astronomia; Mel se encontrava no degrau mais baixo, com a cabeça apoiada nas pernas de Terps.
As oito musas estavam inacreditáveis, mais lindas do que nunca, por mais que emanassem uma áurea melancólica. Estavam todas consolando Urânia e, espontaneamente, inspirando a todos com a energia que dali saía. Havia tanta cumplicidade ali no meio que até o ato de olhar parecia invasivo, mas o escorpiano simplesmente não conseguiu desviar o foco de uma imagem tão bela. Elas pareciam completamente conectadas, mesmo com os olhares distantes.
No lado direito do altar, Sasha, o Grande Mestre e duas servas observavam em absoluto silêncio, tentando não mover sequer um dedo, como se compartilhassem da mesma melancolia que as musas demonstravam. E talvez o fizessem mesmo. Kárdia era o único que sentia um pouco deslocado, porém isso não influenciava em incômodo algum; por mais que fosse uma cena um tanto triste, não conseguiu se sentir mal. A energia era gentil demais para causar algo assim.
O olhar do escorpiano bateu rápida e repentinamente no de Euterpe, que, por milésimos de segundos, subiu os olhos para encontrá-lo. Ela parecia outra musa, nada semelhante à mulher firme e forte que se mostrara minutos antes; na verdade, Kárdia a viu como uma criança assustada, com um beicinho birrento no colo da mãe. Euterpe parecia tão mansa que era quase inacreditável. Mas, ao mesmo tempo, ela parecia feliz, como se o colo de Urânia fosse algum tipo de porto seguro. E Kárdia, apesar de admirá-la em um estado mais efusivo, não resistiu em se encantar com aquele semblante suave e inesperado.
Por mais um tempo, ele aceitou ficar em pé, fitando aquele belo retrato de musas no degrau do altar, porém sentiu uma quebra espiritual assim que viu todas as oito cabeças se virarem para a direção da porta principal do Salão. Foi inevitável não fazer o mesmo.
– E eu esperando uma recepção animada, mas, nossa, que climinha trágico! E nem é obra de Melpomene... Ainda bem que cheguei!
– TÁLIA! – as oito musas gritaram, entre sorrisos.
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