EmMusas - The Lost Canvas

53 O amor cega e a saudade esclarece


Notas iniciais
Oie, queridxs leitorxs. Tudo bem por aí? Bom, eu to num estado deplorável de gripe, então assim... Queria muito informar que o próximo capítulo vai demorar pra sair, sério. E não é porque eu quero, mas porque eu preciso de tempo e disposição para escrever os próximos antes de postar o seguinte deste. Sim, sou dessas. Garantia é tudo, gente. Mas ow, não fiquem desanimadxs porque esse daqui tem OITO MIL palavras!! Tipo, vocês também precisam de tempo pra ler e comentar, não é mesmo? É mesmo! Ah, sim, peço muito que vocês não deixem de comentar! Eu sei que de vez em quando dá uma preguicinha e tals, mas é muito feliz pro autor e é uma forma de apoiar a fic, porque autor também desanima, gente. Mas não é o meu caso, graças ao carinho de vocês! Gostaria muito que continuassem porque, considerando que só precisa de alguns minutinhos pra comentar, o tempo que o autor usa pra escrever é bem maior, então né hahahah É uma troca agradável! =) Bom, espero que a leitura seja boa! E, GENTE, PREPAREM-SE PARA ~LE CAPÍTULO DRAMÁTICO~

Capítulo 53

Ele não se importou por ter deixado o colega zangado, muito menos por ter saído sem avisar nada. Se tivesse que voltar e se desculpar com o leonino, fá-lo-ia após confirmar suas suspeitas; nada poderia passar por mera ilusão. Por isso, Manigold apertou o passo na subida das casas zodiacais. Teve um pouco de dificuldade devido aos pensamentos embaralhados que, por vezes, fizeram-no se desequilibrar; a ansiedade também dificultou sua trajetória, ao mesmo tempo em que deu suporte para uma corrida ainda maior. Sentiu o corpo mais pesado devido ao processo falho de respiração, mas pouco se importou.

Como todos os protetores das Casas Zodiacais, com exceção de Albafica e Kárdia, estavam nas arenas, o canceriano passou sem se preocupar, porém fez questão de, pelo menos, informar, por cosmo, sua passagem para quem quer que estivesse ali. Kárdia, por exemplo, não estava. No fim da subida, sentiu uma rajada de ar passando a centímetros de seu rosto, para então perceber que foi o rastro de uma rosa carmin. Não parou de correr, no entanto; mas pediu desculpas timidamente para Albafica por não ter passado pela casa decentemente. Embora tenha demonstrado certo respeito na subida, parou imediatamente ao dar de cara com a entrada do Templo do Grande Mestre. Nem se importou com as formalidades. Escancarou aquela porta com toda a força — que o abandonou assim que ele viu quem tanto queria ver desde a última fogueira.

– MUSINHA! – Manigold gritou, mal acreditando que Tália estava realmente ali, com um sorriso bobo para as irmãs que a abraçavam. As nove musas se viraram para ele, deixando-o meramente intimidado com seus fortes olhares.

– Argh, mas você não muda mesmo... – foi a resposta de Tália. Manigold nem soube como se portar diante disso, estava tão feliz que não cabia em si, porém também não sabia como demonstrar. Iniciou uma caminhada até o altar, parando no meio assim que ouviu Sage falar.

– Pelo amor de Zeus, vocês não sabem mais como se apresentar diante dos outros? E parem de me desobedecer! – o patriarca bufou destacadamente; e só então Manigold percebeu a presença de Kárdia no espaço.

– Tália, quem ele chamou de musinha? – uma voz fininha chamou atenção de todos naquele ambiente, fazendo Manigold desviar rapidamente a atenção para a dona da voz.

– Erato... Relaxe, não se preocupe. – Tália disse, com um cuidado exagerado. Aliás, o canceriano percebeu que todas as musas adotaram um semblante preocupado assim que a mais nova delas se pronunciou.

– Não... Quero entender... Aquele cavaleiro lhe chamou de musinha? – a última palavra foi dita, por Erato, com evidente desgosto, mas, em seu rosto, um contraste disso se apresentava na forma de um estranho sorriso.

– Não, não, não! Erato, está tudo bem! – Tália balançou as mãos e se colocou diante da irmã menor. – Vem cá, me dê um abraço. – Erato obedeceu, mas seus olhos permaneceram cortantes em relação à Manigold.

– É, Erato. Ele falou brincando, não foi, Manigold? – dessa vez, Clio interveio.

– Claro que foi. Tália até gosta, certo? – Euterpe fez o mesmo, sua voz tremeu minimamente.

Manigold e Kárdia se entreolharam, sem entender absolutamente nada, mas o primeiro aproveitou para checar a musa da comédia, que assentiu com desgosto. Ah, ele sabia que ela não gostava, mas por que as musas estavam protegendo-o?

– Como você poderia saber, Euterpe? E não me parece que você gosta, Tália. – Erato disse, seriamente.

– Pare, irmã, ela gosta sim. – Terpsícore se meteu, graciosamente. – Venha, temos tanto para conversar! Precisamos atualizar Tália, não acha?

– Ei, ei, parem com isso! Preciso falar com ela! – Manigold se ergueu, completamente indignado, e se virou para Tália. – Musinha, se você fugir de novo...

– PARE DE CHAMÁ-LA DE MUSINHA! – Erato bradou, desencadeando um denso silêncio. Ninguém ousou sequer suspirar alto.

– Ehhhh, Manigold, melhor parar. Ela tá ficando meio vermelha. – Kárdia sussurrou para o colega, sem deixar de observar a pequena musa.

Erato estava nos braços de Terpsícore que, assim como todas as outras musas, encarava o canceriano com uma expressão de desespero. Foi bastante claro o recado de calar a boca ou parar de chamar Tália daquela forma.

– De qualquer forma – Tália recomeçou, sentindo obrigação de finalizar a situação. -, o Grande Mestre deve estar cansado de todas nós aqui, então acho melhor levarmos a conversa para outro lugar.

– Antes, Tália, Calíope e Urânia, fico feliz que tenham voltado! – Sasha abriu os braços para receber o abraço das musas, menos de Calíope, que ainda não se sentia íntima a esse ponto. – Se houver qualquer desejo que puder ser realizado, por favor, não hesitem em nos informar.

– Obrigada, Sasha. Creio que poderei lhe ajudar novamente nos registros celestiais. Acho que muita coisa já foi bastante... – Urânia hesitou. – Confirmada.

– Falaremos disso depois. Não preencha sua cabeça com tais pensamentos. – Sasha a confortou com um afago no braço e, depois da assentida da musa, retirou-se.

– E vocês, cavaleiros, voltem para seus afazeres, ou serei obrigado a lhes enviar numa missão de reconhecimento. Não sei mais se compreendem seus lugares! – Sage bradou, irremediavelmente irritado. Mas ele tinha razão, seus cavaleiros não pareciam levá-lo à sério diante das musas; e isso era inadmissível.

Manigold e Kárdia se entreolharam novamente, compartilhando de um sentimento de indignação. Os dois tinham algo em comum: a vontade de conversar com uma musa sobre algo que consideravam sério. Por isso, nenhum se contrapôs em relação ao outro. Porém, o canceriano parecia mais frustrado. Tália sequer o olhara com alguma expressão mais carinhosa. Foi como se não tivesse gostado de vê-lo, ou que não houvesse diferença em sua presença e ausência. Se não obtivesse respostas logo, continuaria remoendo tudo que juntou em relação à musinha. Ou seja, obedecer Sage seria ainda mais difícil.

Assim que viram as nove musas se moverem em direção ao corredor lateral da cortina do altar, Manigold e Kárdia deram um passo à frente.

– TÁLIA!

– EUTERPE!

Ao mesmo tempo, gritaram. As duas musas mencionadas se viraram normalmente, sem muita surpresa, e, por espontaneidade, responderam:

– Depois conversamos. – em seguida, saíram, rindo pela coincidência.

~

Por estarem em maior número, as nove musas foram levadas imediatamente para uma Sala ainda maior que a de Athena, com espaço para que todas se sentassem confortavelmente, espalhadas pelo espaço. Entretanto, em sintonia, optaram por lugares que formassem um tipo de círculo, para que a comunicação fosse facilitada e a reunião integrasse ainda mais as participações. Eram sempre assim: morriam de saudade, mas demonstravam de formas mínimas, até porque a ligação sempre permanecia — independentemente de onde estivessem. As energias estavam tão fortes que foi inevitável a sensação densa que se apossou do ambiente, cheia de positivas vibrações, para as duas servas que as acompanharam. Sensação libertadora, inspiradora e confortante.

– Ehn... – Pío, a serva particular de Athena, se encolheu ao ver todas as musas em seus lugares escolhidos. Acabou engolindo seco ao sentir o olhar de Calíope sobre si. – D-devo trazer algum chá ou... Talvez...? – a serva travou.

– Calíope, pare de intimidá-la. – Euterpe disse, repentinamente. Estava sentada ao lado de Urânia, no sofá oposto ao de Calíope e Clio. No lado direito do sofá, Mel e Tália estavam em duas poltronas separadas, enquanto no outro lado, Polímnia, Terpsícore e Erato dividiam o terceiro sofá da Sala.

– Não estou fazendo isso. – a ruiva se defendeu, sem mudar o semblante. – Estou esperando ela terminar a pergunta.

– Até eu teria medo de terminar a pergunta se tivesse que suportar esse olhar tão-

– Euterpe, nem comece. – Polímnia interveio, já cortando a amada provocação de Euterpe. Se ninguém intervisse, as duas começariam com as alfinetadas, principalmente depois de tanto tempo sem. Euterpe encarava isso de uma forma divertida, porém Calíope nem tanto.

– Tudo bem, aceito ser flexível hoje. Mas queria dizer que estava muito mais agradável e convidativo o que estávamos fazendo lá fora. – Euterpe cruzou os braços e as pernas, oferecendo um sorriso normal.

– Eu queria conversar com Tália a sós por um momento. – Clio foi direta.

– Eu também. – Urânia logo se levantou, mas foi puxada por uma Euterpe ciumenta.

– Não, eu quero conversar com você a sós também! – a musa da música informou.

– Nossa, me sinto tão amada. – Tália brincou, recebendo um olhar de tédio fingido de Melpomene e devolvendo em forma de sorriso.

Quando Tália sorriu, todas as musas se calaram. O sorriso de Tália era uma das coisas que mais fazia falta entre elas, era um sorriso acolhedor, que aquecia a alma e convidava todos os seres a sorrirem também.

– Ahhhh, eu senti tanta falta de vocês! Menos da Calíope, porque né... Tanto faz! – Tália brincou novamente, arrancando uma reviravolta de olhos da irmã mais velha. Só que Calíope estava feliz demais para revidar fingindo o contrário.

– Tália, minha saudade acabou de morrer por conta da besteira que você proferiu.

– Esperem. Calíope acabou de brincar? – Euterpe, chocada, virou-se para Tália.

– Você também sentiu isso?! – perguntou, tão animada quanto a irmã.

– Deem um desconto a ela, por favor. – Clio disse, controlando um riso, algo que as outras irmãs não fizeram, com exceção de Calíope, que manteve a elegância. – Enfim, Urânia, acho melhor você conversar com Euterpe enquanto eu converso com Tália. Calíope, vá descansar. Agradeço em nome de todas o seu esforço até então.

– Meu esforço é contínuo, Clio. – Calíope bufou.

– Embora você se finja de durona, sei que está feliz, irmã. – Tália disse, com um sorriso esperto. – Aliás, está tão arrumada! Isso tudo foi para me receber ou ainda pretende passar na Casa de Virgem?

Todas silenciaram. Apenas Calíope ficou boquiaberta. Enquanto isso, as outras musas trancafiaram seus risinhos, que queriam explodir; e Tália sustentou o olhar da musa mais velha com um sorriso zombeteiro.

– O que é? Acha que eu não percebo as coisas? – Tália continuou, perante o olhar de questionamento de Calíope, que bufou.

– Que seja. – respondeu, desviando o olhar. Estava fraca demais para discutir sua vida pessoal, mesmo que com as irmãs. Mas não resistiu em acrescentar um incômodo que a acompanhou desde o início: – Não é como se ele pudesse me ver, também.

– Como assim? – Erato fez a pergunta que a maioria queria fazer.

– Asmita é... Visualmente limitado. – Calíope não soube como colocar direito e acabou corando ao perceber a própria falha nas palavras.

– Ah, bom, pelo menos ele não é cego, né? – Tália disse, dando de ombros. Se ele fosse cego, Calíope deixaria claro. Certo?

Entretanto, todas ficaram em silêncio. Tália só foi entender algum ponto quando olhou para Clio e a viu constrangida, para então ver Calíope, pela primeira vez, completamente desestruturada e corada. Franziu o cenho ao juntar as peças convenientes.

– Espere... O cavaleiro de virgem é cego? – Tália perguntou, seriamente.

– ...

– Hmpff... HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH – a musa da comédia desabou da poltrona.

Ao contrário das outras musas, que não souberam como reagir, Calíope bufou e revirou os olhos, contendo a indignação que tentou sair em forma de palavras rudes. Em outra ocasião, teria estourado na frente de Tália, mas quis evitar dessa vez, mesmo sem um motivo específico.

– Tália, você rir de algo assim só mostra o quão inconveniente e mal educada é. Espero que esteja ciente disso. – disse, em tom de reprovação. Clio assentiu, concordando.

– Hahahaha Me desculpe, mas... Hahahaha Não estou rindo disso, juro! – Tália, tentando recuperar o fôlego. – Estou rindo porque você foi se apaixonar logo por alguém que não pode babar pela sua aparência e apreciar esse monte de enfeite que você coloca quando se veste!

Apesar de ter se ofendido, a musa da poesia épica percebeu a verdade na fala da irmã. Tália era assim, de qualquer jeito: opinava a partir de sátiras espontâneas que fazia. Era um traço de sua personalidade. E Calíope, de vez em quando, identificava-se com isso. Porém não foi isso que a incomodou no momento.

– Por que você acha que estou apaixonada? – Calíope perguntou, incomodada.

– Porque você não negou ou fez escândalo no exato momento em que eu disse isso. Se tivesse feito, provavelmente eu estaria com outra cicatriz agora, não? – Tália perguntou, brincando.

Realmente, era difícil levar o jeito da musa na ofensiva.

– Não fale bobagens. – Calíope revidou.

– Ai, ai, por mais inacreditável que seja, admito que senti sua falta.

– Pois eu não.

Algumas musas riram da tentativa inútil de Calíope em se mostrar resistente perante Tália. Inclusive, a própria musa da poesia épica se permitiu sorrir rapidamente para a irmã mais nova, no intuito de intensificar o clima agradável que tinha se formado. Apesar de se provocarem com frequência, nenhuma realmente tinha a intenção de machucar a outra. E, de certa forma, a musa da poesia épica se sentia mais confortável por estar trocando gentilezas e brincadeiras com as irmãs, o que de fato era novidade já que tinha o costume de ignorá-las normalmente.

– Tália, precisamos lhe informar... – Clio começou, lançando um olhar urgente para Mel, Urânia e Calíope, que desviou o olhar e resmungou.

– Ihh, pelo visto a notícia é ruim. – Tália ajeitou-se na poltrona.

– Para algumas. – Calíope, demonstrando seu evidente mau humor.

– Acho que este momento é ideal para isso, pois faremos de Polímnia, Terpsícore e Erato nossas testemunhas. – Clio disse, para então mirar Tália. – Nós, eu, Melpomene, Urânia e Calíope, tivemos um momento de fraqueza e acabamos revelando um conteúdo pessoal seu para o cavaleiro de ouro de câncer, logo após a sua partida.

Nenhuma das musas olhou para Tália, mas ela levantou uma sobrancelha, em evidente confusão.

– Ressalte que foi porque ele não parou de nos importunar quanto a isso. – Calíope acrescentou, fitando o teto.

– Oi? Manigold fez o quê? – Tália sentiu uma leve sensação de prazer e satisfação, mesmo sem possuir um fundamento completo e pertinente.

– O importante é que nós contamos o que ocorreu no dia em que você e Melpomene foram ao festival de teatro. – Clio respirou fundo antes de encarar a musa da comédia. – Perdoe-nos.

Tália demorou alguns segundos para responder. Na verdade, ela compreendeu o que aquilo implicou. Tinha bastante conhecimento das leis divinas quanto à sua classificação. Mas o que mais lhe chamou atenção foi a atmosfera que apareceu repentinamente ali.

Com um pouco mais de observação, percebeu como as quatro irmãs responsáveis pelo caso ficaram sem jeito, assim como tentaram evitar contato visual. Um sorriso de adoração foi inevitável, ainda mais após a constatação final que teve. Tudo muito divertido, na perspectiva da musa da comédia.

– Oh... Entendo... – Tália disse, fingindo-se de pensativa. Quase deixou um sorriso escapar ao sentir as irmãs mais temerosas. – Então isso quer dizer que vocês quatro estão em dívida divina comigo. Isso é grave, não acham? – sorriu maliciosamente, mantendo o tom de voz normal.

– O quê? – Calíope se levantou, fitando a irmã de cima. – É só isso? Não vai chorar ou gritar?

– Claro que não! Por que eu faria algo estúpido assim? Óbvio que estou incomodada, queria ter contado por mim mesma, mas não vou causar o caos por causa disso. Até porque olha só o que ganhei: favores de vocês! – Tália respondeu, animadamente. Um tom típico de deboche também foi sentido em sua fala, intensificando o zango da ruiva. – Ah, espera! Garanto que Melpomene dramatizou o fato!

– Um pouquinho. – Urânia e Clio disseram.

– Não mesmo! O fato foi dramático por si só, vocês sabem! – Mel se defendeu, meio incomodada. Só viu Polímnia apoiá-la com um sorriso maternal.

– Tá, tá. Enfim, passou. Certo? Já foi revelado. O que posso fazer é usar isso a meu favor, claro. – Tália não resistiu, deu seu mais esperto sorriso só para ver as irmãs estremecerem. Afinal, dever favor divino era algo que ninguém gostaria de ter nas costas. – Vou adorar ter vocês como reféns das minhas vontades, irmãs!

– Deixe de ser convencida, Tália. – Calíope ronsou.

– ESPECIALMENTE VOCÊ, minha poderosíssima irmã! HAHAHA Nem acredito que a ilustríssima musa da poesia épica, ciência e eloquência, está em dívida divina comigo! Oh, céus, isso é maravilhoso! – Tália comemorou, rodopiando pelos três sofás. – E eu achando que a notícia era ruim!

– Grrrrr, Tália! Isso não tem graça!

Clio observou Tália rir e rodopiar perto de Calíope, que iniciou uma série de reclamações, das quais apenas algumas palavras prenderam atenção de suas irmãs. Erato, Terpsícore e Polímnia riram desde o primeiro momento; as três quase sempre apoiavam as atitudes da musa da comédia, até porque ver Calíope incomodada geralmente causava boas memórias. Não era uma visão ruim, Clio pensou. Na verdade, todos os sentimentos compartilhados entre elas sempre eram bem-vindos, mesmo que através de provocações de Euterpe ou Tália, humores oscilantes de Calíope, comentários meio avoados de Urânia, visões distorcidas de Melpomene, risinhos duvidosos de Terpsícore, transformações inesperadas de Erato, ou iniciativas maternais de Polímnia. Todas elas se conectavam de várias formas, por isso conseguiam seguir fortemente juntas em qualquer circunstância da vida.

Por culpa de uma almofada que encontrou diretamente sua face, Clio saiu dos pensamentos analíticos e se levantou. Como sempre, chamou atenção das irmãs sem sequer tentar.

– Sei que estamos todas precisando matar qualquer saudade que sentimos uma das outras, mas eu realmente gostaria de conversar com Tália. Portanto, por favor, poderiam nos dar licença por um momento? – perguntou, com um semblante neutro.

Tália assentiu e se levantou, sem esperar todas as musas concordarem. No fundo, essa formalidade toda de Clio nem era necessária. Querendo ou não, todas tinham de compreender as vontades individuais e, nesse caso de Clio, restaria apenas a vontade de Tália para que as duas conversassem. E ela conversaria, com certeza. Sobretudo, deixaria Clio guiá-la dentro da conversa, pois sempre deu certo, desde o momento após a tragédia no festival de teatro. Tália nunca se esqueceu de quando ficou no templo da Musa da História para se recuperar emocionalmente, onde também recebeu todo o apoio da irmã, que a protegeu como ninguém.

As duas seguiram até uma sacada da Sala, enquanto as outras permaneceram em conversas nostálgicas. No guarda-corpo, apoiaram os cotovelos e inclinaram o corpo para frente, sentindo a brisa refrescante naquela altura envolvê-las. Inicialmente, ficaram em silêncio. Tália sentiu que Clio queria falar, mas que estava lhe dando espaço para se acostumar com alguma coisa, mesmo que não soubesse o quê. Por fim, ela decidiu esperar pelas palavras da irmã, que não tardaram a vir:

– Eu conheço você, sabe?

– Eu sei.

– Você pode não parecer ou então não se enxergar desta forma, mas é uma das musas mais estratégicas e inteligentes das nove. Tudo o que você faz eu sinto obrigação de observar com três olhares diferenciados, porque sua forma poética sempre se mostra envolvida. – Clio disse, sem tirar os olhos do horizonte. – Acredito que você já deduziu o que pretendo perguntar, não?

– Sim, mas por que está enrolando tanto, Clio? Pergunte logo!

– Até essa sua ansiedade me vem de uma forma diferente. Enxergo toda a sua necessidade de escapar das boas palavras, Tália. Parece que você não se deixa ser vista de boa forma.

– É falta de costume, apenas. – deu de ombros.

– Mas sou eu quem está falando. – Clio, dessa vez, virou-se para a irmã. – Além disso, você sabe que eu não minto. Mesmo que não esteja acostumada a ouvir coisas boas a respeito de si, deixe a possibilidade fluir. – após uma profunda respirada, deu dois passos para o lado oposto de onde Tália estava e continuou falando: — Nem sei por que estou falando isso, sinceramente. Não há nada aqui que você não saiba. O que quero dizer é: eu sei que sua partida não foi só por causa de uma lembrança ruim. Só que, por mais que eu martele minha mente, não vou encontrar a resposta sozinha. Diga-me, Tália – Clio parou, distante da irmã, e a encarou: -, você partiu para aliviar apenas uma dor?

– Essa sua fome de leitura me surpreende, Clio. – Tália começou, sem sair do lugar onde estava. – Não acha que é meio invasiva de vez em quando?

– Sim, mas, nesse caso, eu realmente me preocupei mais do que o normal. E se pretende fazer de novo algum dia, quero saber, de verdade, o motivo. Você deveria levar nossa preocupação em consideração, porque, por mais que deixemos você em paz quando se esconde, ficamos cogitando motivos que lhe deram tal impulso. O melhor seria reduzir nossas opções, não acha?

– Eu sei disso. – Tália desviou o olhar de Clio. Sentiu um leve desconforto diante daquelas palavras, assim como uma mera culpa por ter deixado as irmãs tão preocupadas. Mas seu senso de independência nunca permitiria que se prendesse a determinados motivos, pois era difícil selecioná-los. Aliás, era meio que impossível para ela. – O que posso te dizer, Clio, é que eu não fui embora apenas para aliviar essa dor da lembrança.

– Imaginei. – Clio subiu uma mão ao queixo. – O que mais lhe moveu?

– Uma promessa que fiz para mim mesma na noite da fogueira.

– Suponho que tem a ver com o cavaleiro de câncer.

– Sim, tem tudo a ver. – Tália se apoiou novamente no guarda-corpo e fitou as montanhas, após uma retomada funda de ar.

– Tália, não acha melhor se desapegar dele? – a musa voltou a se aproximar da irmã, em passos lentos. – Sei que ele tem um olhar gentil e atencioso, porém os deslizes já prejudicaram bastante.

Apesar de compreender o lado da irmã, Tália não se comoveu com tais palavras. Por ter voltado para o vale, teve a chance de refletir muito sobre a etapa que passou no Santuário, por isso muito foi descoberto sobre si mesma, tratando-se de relações diversas. Muito do que compreendeu seria bom de compartilhar com Clio, mas aquele não era o momento adequado ainda. E, antes de qualquer resposta, ela ofereceu à irmã um adorável sorriso.

– Você está enganada, Clio. Na verdade, Manigold não é assim, ele só precisou de um empurrão para perceber o que realmente quer.

Clio franziu o cenho.

– Não estou entendendo.

– Uma vez, um andarilho me disse que já havia sido feliz na vida. Que nunca tivera nada de bens materiais ou moedas para conseguir comida o suficiente em suas viagens, mas que sua companheira o ajudava muito e tornava seus dias mais felizes. – Tália se ajeitou no guarda-corpo. – Na verdade, acho que ele foi o primeiro ser humano inteligente que encontrei, sabe? Pois ele parecia reconhecer o verdadeiro valor dos dias ensolarados. No entanto, ele sempre reprimia sua companheira quando ela citava a importância de compartilharem um amor mais íntimo. – acabou rindo ao se lembrar disso. – Ela queria casar com ele, mas ele dizia que casamento era coisa de gente rica. Ao mesmo tempo, achava que ser rico era viver a vida em liberdade. Vai entender... Os humanos podem se contradizer bastante, mesmo quando inteligentes.

– Ainda não compreendo aonde quer chegar, Tália.

– Acalme-se, estou no caminho. – novamente, sorriu. – Um belo dia, a companheira dele não aguentou mais aquela vida, até porque ela queria algo a mais com ele. Segundo ele, ela disse que não queria viver presa ao amor que sentia, o qual ele oprimia com frequência. Por isso, ela o deixou. – Tália deitou a cabeça de lado nos braços apoiados. – Um tempo depois, ele começou a entristecer pela falta dela e passou a procurá-la em certos vilarejos, deixando de lado a fome de mundo que tinha. Até que, um dia, ele foi parar num porto, onde passou a noite por falta de força, deitado na rua. Até que uma moça, coberta por um vestido com capuz, passou e ofereceu uma quantidade de moedas ao andarilho, mas ele não aceitou e disse que não estava procurando por isso, e sim por uma pessoa. E então ela revelou seu rosto. Era a antiga companheira dele. É claro que ele ficou feliz e pediu para continuarem a vida juntos, mas ela disse que era tarde demais, que não sentia mais o amor por ele, que estava com outro alguém e esperava que ele encontrasse alguém que o fizesse sentir tão livre quanto ela se sentia.

Tália, com as duas mãos apoiadas no guarda-corpo, impulsionou o corpo para cima até adquirir sustentação para se ajeitar na borda, sentando-se num plano mais alto que antes. Clio continuou observando, pacientemente.

– Por fim, os dois não ficaram juntos, mas ele não ficou mais triste após vê-la. Sabe por quê? – Tália viu Clio imóvel, com os olhos atenciosos. – Porque ela tinha encontrado a liberdade dela e feito ele perceber a sua. Ela acabou se juntando a alguém que quis o amor dela. Ele continuou querendo esse amor, porém não o teve. No entanto, o que tirou disso tudo serviu para evitar com que outras pessoas fizessem isso. Quando ele me encontrou e contou a história toda, finalizou dizendo que tendemos a sentir melhor a falta de alguém quando o perdemos, pois descobrimos a intensidade da presença desse alguém em nosso coração a partir da saudade. O amor cega e a saudade esclarece. – Tália riu com a constatação final.

– Entendi. Você fez Manigold achar que tinha lhe perdido.

– Não é tão simples. Às vezes, as pessoas usam isso só para checar um lado do caso, mas eu também precisei perder o tempo ao lado dele para ver o quanto minha dor era responsabilidade dele. Descobri que também era minha, pois eu brinquei muito mais com a situação do que poderia ter feito. Eu arrisquei com essa fuga. Poderia ter dito a ele sobre o que aconteceu no passado, mas preferi fugir para ver se, dentro dele, existia algum sentimento por mim. Eu simplesmente... Fui. Queria que ele entendesse o que quer que fosse sincero em sua cabeça em relação a mim.

– E como tem certeza de que ele sentiu sua falta? – Clio perguntou, pensativa.

– Como você bem disse: olhos gentis. Sobretudo, sinceros. Manigold nunca mentiu pra mim, nunca fingiu ser quem não era, porém eu fui a única testemunha dessa sinceridade toda. Nem ele reparou nisso. Ele tem uma cabeça meio atrasada, sabe? – Tália riu ao pensar tal coisa.

– Ou seja, você foi embora para ele acordar para si mesmo. – objetivou a outra.

– Exatamente! – a musa da comédia pulou de volta para o chão, felizmente. Após se ajeitar novamente naquela parte da sacada, esperou alguma fala de Clio, sustentando seu olhar tranquilamente.

– Eu tenho orgulho de você, sabia? – Clio disse, seriamente.

– Queria ter uma forma de registrar essa sua fala para sempre. – Tália brincou, desencadeando o riso das duas.

– Isso me faz parecer tão insensível. – Clio repensou.

– Mas, me diga, por que lhe dou orgulho?

– Porque, apesar da tempestade, você pensa num jeito de fazer a canoa manter a força perante o mar agitado. Sua sensibilidade mantém uma bela harmonia com sua racionalidade, Tália. Isso é o que lhe torna uma das pessoas mais admiráveis que tenho em minha vida.

Clio se aproximou e tomou as duas mãos de Tália, para então afagá-las, oferecendo junto um sorriso acolhedor e maduro. Rapidamente, retomou a fala:

– Admiro você, principalmente, por acreditar no que sente e se manter fiel às convicções que preza, mesmo num momento em que nós queríamos que seguisse em frente sem ele. – por fim, apertou levemente as mãos da irmã e a encarou com gentileza. Tália, meio constrangida, corou fortemente.

– Nunca tive intenções de deixar aquele arbusto azul, até porque é como o processo de aprendizagem de uma criança: só porque ela não compreende algumas coisas, não significa que deva desistir dela e que ela não tenha capacidade para isso.

Clio quis rir como qualquer um, mas limitou-se a sorrir, até porque compreendeu o estado encabulado de Tália. Não é que a musa da comédia rejeitasse carinho, mas não era tão acostumada quanto às outras, por isso se mantinha mais distante de contatos físicos. Exceto com Melpomene, por quem tinha grande satisfação em abraçar e ser abraçada. Eram gêmeas afinal. Mas o mais engraçado eram os subterfúgios que Tália procurava para desviar o excesso de carinho que recebia, vez ou outra, das irmãs. Normalmente, a quebra do momento vinha através de comentários debochados ou engraçados. Ou até metáforas mal elaboradas.

– Sábias palavras, Tália. – Clio disse, mesmo não considerando tão sábias assim.

– E, nesse caso, Manigold é um bebezão. – disse, por fim, levando as duas mãos à cintura e inflando o peito.

Por mais um bom tempo, as duas mantiveram uma agradável conversa na sacada, enquanto as outras sete musas faziam o mesmo, dentro da Sala. Clio se permitiu abrir um pouco para Tália sobre sua relação com El Cid, e óbvio que não foi poupada dos diversos comentários entusiastas da irmã da comédia, que demonstrou sua melhor expressão de apoio em cada frase proferida. Deixaram de falar sobre Manigold, até porque Clio compreendeu perfeitamente os motivos por trás das atitudes de Tália, e, sinceramente, ficou mais empolgada por vê-la tão determinada a transformar o canceriano. Se havia algo de que Clio tinha certeza era da capacidade de Tália em melhorar as pessoas.

Com passos apressados, Urânia entrou na área externa, surpreendendo as duas musas que conversavam.

– Clio, você já monopolizou Tália o bastante. Eu realmente preciso falar com ela. – Urânia disse, num tom estranho. Parecia conter a intenção de urgência em sua fala, o que definitivamente não passou despercebido por nenhuma das outras duas.

– Antes, Tália, gostaria que me respondesse: você não chegou ontem, por onde esteve?

– Ehh... Dei uma passadinha no orfanato da Vila de Rodório. Aqueles monstrinhos estavam loucos por uma dose de Tália! – divertiu-se ao se lembrar das crianças.

– E andou ocultando o cosmo, não foi? – Clio, em tom de reprovação.

– Um pouquinho só. – Tália respondeu, para a irmã que bufou.

Clio rapidamente se retirou, deixando um olhar revirado para Tália. Urânia, em seguida, apossou-se do antigo ponto de Clio, para então respirar fundo e dizer:

– Precisamos falar sobre Mel.

~

Ela foi a única que saiu da Sala depois de tanto tempo em prosa com as irmãs. Claro que sentiu falta de todas, principalmente de Tália, mas também sentiu falta de sua dose diária de amor. As irmãs entenderiam, obviamente. Portanto, Mel seguiu para o quarto, no intuito de tomar um banho e se arrumar. Nem se preocupou em passar perfume, pois o aroma que predominava a Casa de Peixes era o seu favorito; e ela não se atreveria desafiá-lo com outro aroma qualquer.

Após a preparação, encarou a própria imagem no espelho da penteadeira e depois se virou para mirar a janela. O entardecer já dava sinal para a entrada do anoitecer, exibindo o céu de estrelas que cobria o Santuário, bem como introduzindo o clima noturno — muito bem visto pelos moradores do local. De fato, toda a noite do Santuário era bonita, mesmo tendo um aspecto meio assustador em sua composição, devido à tensão da guerra santa. Contanto que nada interferisse em sua felicidade, Mel encararia a realidade tranquilamente.

Em poucos minutos, chegou à frente da Casa de Peixes, onde esperou encontrar o guardião, já que anunciou sua aproximação com o cosmo, porém não o viu. Sem cerimônias, e com uma pitada de ansiedade, ela adentrou a ala privada da casa, à procura do protetor. Subitamente, estranhou a falta de iluminação, tida apenas pela luz da lua que entrava, por frestas, em determinados espaços dos cômodos, e que contribuiu para a demora de Mel em reconhecer a silhueta do cavaleiro de peixes no outro lado da sala, apoiado no guarda-corpo de uma das grandes janelas.

– Albafica? – Mel chamou, suavemente. Ele, que antes observava o céu, virou-se lentamente para ela, ainda inserido na escuridão, dificultando uma visão melhor da musa sobre si.

– Melpomene.

Mel não comentou, mas sentiu algo estranho naquele tom de voz, como se ele estivesse desanimado por tê-la ali. No entanto, decidiu não se intimidar, mesmo com milhões de possibilidades trágicas — sobre o porquê de ter sido recebida dessa forma — passando pela cabeça. Se fosse se deixar levar pelas aparências, poderia se prejudicar e extrair reclamações de Albafica, como já fizera várias vezes antes. Além disso, sua confiança no guardião da casa era tanta que ela sabia que, se algo o deixasse incomodado, logo seria exposto e esclarecido.

Então, caminhou para mais perto, mas parou ao vê-lo se afastar discretamente. Não deixou de se questionar se ele havia feito de propósito.

– Albafica?

– Sim? – ele se virou para o outro lado, sem encará-la.

Mesmo lutando contra, uma sensação horrível se apossou do interior de Mel, fazendo-a estremecer junto a um coração desesperadamente acelerado. Mal conseguiu respirar direito ao perceber passos mais distantes de Albafica, que sequer ofereceu um sorriso ao vê-la. Algo estava errado, muito errado. Tão errado que a atmosfera da casa de peixes foi evidentemente transformada em algo hostil e assustador. Como se não bastasse a penumbra. Quase foi possível sentir alguém expulsando-a dali.

– Está tudo bem? – ela arriscou, com a voz falhando. – Você parece diferente.

Albafica não respondeu enquanto caminhou até um canto da sala, onde havia um espelho. Mel se manteve como observadora; presa em seu medo por vê-lo tão estranho; até perceber um ponto de iluminação quente onde ele estava. Albafica tinha acendido um candelabro de ouro.

– Perdão. Poderia repetir? – ele pediu.

– Você parece diferente. – Mel permaneceu imóvel e distante, sentindo o coração desencadear vibrações por todo seu corpo, como se pedisse loucamente para sair pela boca. Viu que o pisciano alongou o pescoço antes de se virar para ela. A expressão dele foi tão neutra que só enfatizou o estado temeroso da musa. Qualquer impossibilidade de leitura era assustadora para ela.

– Ah, pareço? – Albafica se sentou numa poltrona, perto de uma das janelas, e fitou Mel de cima a baixo. – Desculpe, ando mergulhado em reflexões. Em pensamentos...

– Algum deles tem a ver comigo?

– A maioria dos meus pensamentos tem a ver com você, Melpomene. – o tom aveludado do pisciano, ao contrário do normal, não pareceu amigável. Em alguma perspectiva, Mel sentiu que Albafica quis intimidá-la.

– Há algo lhe incomodando, eu posso sentir. Você sabe que pode se abrir comigo! – Mel se aproximou, para parar em seguida, após ver o pisciano se levantar e se afastar um pouco mais daquele espaço. – Albafica...

– Você se abriria comigo se algo estivesse lhe incomodando, Melpomene? – Albafica a viu assentir. – Então o que lhe incomoda neste exato momento?

– Essa sua atitude me é estranha. Isso está me incomodando... – foi sincera. Seu coração, por outro lado, demonstrou muito mais nervosismo do que ela permitiu.

– E por quê? Está escondendo alguma coisa de mim? Parece preocupada demais...

– Estou preocupada porque você parece distante. – Mel engoliu seco. Quase disse o porquê de estar tão nervosa. Quase.

– Distância. É uma boa palavra. Eu não deveria me manter distante das pessoas? – Albafica caminhou mais um pouco para longe. – Sempre foi assim. Sempre estive distante para que elas pudessem andar livremente por aí, perto das pessoas por quem possuem afeto. E de repente você apareceu, diferentemente das outras pessoas. Pergunto-me se o fato de você ser uma musa me torna possível como companhia próxima.

Mel captou a insinuação, mas nada disse. Como poderia falar algo a respeito disso sem se comprometer? Esperaria Albafica falar um pouco mais, até sentir abertura para contra-argumentar. Afinal, sempre foi assim que Clio ensinou.

– Porém, não experimentei me aproximar das suas irmãs. Na vez em que citei isso, você me acusou de interesse, não foi? – cansado de passear pela própria sala, encostou as costas na mesa de jantar e fitou a musa, de longe. Mel parecia atenta, mas também distante em pensamentos.

Albafica sentiu o coração doer. Primeiro, porque esperou o contrário da atitude que estava vendo dela. Se Mel estava realmente incomodada, por que não tentava mudar a atmosfera? Por que não contra-argumentava logo para quebrar todas as insinuações que ele estava fazendo? Por que ela não se abria logo? Por que só parecia cada vez mais, por sinais corporais e vocais, que ela estava realmente escondendo algo? E algo grave.

Por favor, Melpomene, reaja contra. Reaja contra.

Ele não queria acreditar na reflexão que adquiriu após a ronda, mas Degél parecia mais certo do que nunca...

(Flaschback ON)

– O que está insinuando Degél? – Albafica parou no meio do caminho.

– Que você está seguro demais perante a musa da tragédia, sem saber, direito, como ela consegue ficar perto de você. – o aquariano respondeu, normalmente. Sequer virou o rosto para ver a expressão confusa do pisciano.

– Eu confio em Melpomene.

– Não estou dizendo para não confiar. Só que sua cegueira está prejudicando algo na frente de seus olhos. Seria melhor se decidisse tirar essa venda e observar os fatos por trás desse relacionamento de vocês.

– Que venda? Do que está falando? – já perdendo um pouco da paciência.

– Já se perguntou como Melpomene é a única que tentou se aproximar de você?

– Compartilhamos de um sentimento, Degél. Você sabe disso. – bufou.

– Sim, eu sei. Não é esse o meu ponto.

– Nunca me aproximei de nenhuma outra musa para saber como Mel consegue se manter intacta perto de mim. – seus punhos se fecharam em desgosto.

– E por quê? Não seria essa uma bela oportunidade para descobrir as possibilidades do seu veneno nas suas relações?

– Melpomene é um ser divino, talvez esse seja o diferencial. – Albafica engrossou a voz.

Apesar de ter captado a irritação do colega, Degél continuou:

– Athena também é, nem por isso ela pode se aproximar de você. – ainda sem olhar para ele. – Seja sincero, Albafica: por que nunca se aproximou de outra musa além de Melpomene, apenas para testar a informação?

Albafica, de repente, silenciou-se. Não andou mais, só se manteve ali, no meio das ruínas. Degél parou apenas para observá-lo por cima do ombro e vê-lo com a expressão final.

– Pelo visto, você entendeu o que eu quis dizer. – o aquariano disse, para então continuar seu caminho. Nem precisou olhar para trás para saber que Albafica não o seguiu mais.

(Flashback OFF)

Mel se virou, quase deixando uma lágrima descer, e encarou o pisciano. Mesmo do outro lado, o arrepio que sentiu veio na intensidade que viria caso estivesse a dois centímetros do corpo dele.

– Albafica... Você poderia ser mais claro? – a voz embargada denunciou, para ambos, que ela já sabia do que se tratava.

O pisciano respirou fundo, antes de tudo. Precisou desviar o olhar para poder formular a pergunta decisiva, do tipo que definiria o rumo daquela relação, inevitavelmente. Depois de longos instantes de preparo, ele levantou o rosto, para que seus olhos penetrassem os dela, seriamente.

– Melpomene, diga-me a verdade. Você é a única que pode ficar perto de mim, isso já é óbvio. Mas por quê?

– Isso não é importante...

– Não é importante? Não é importante?! – a segunda pergunta saiu quase como um grito. – Se você está escondendo e demonstrando tanto nervosismo perante essa pergunta é porque anda arranjando um meio absurdo de tornar isso possível! Só pode!

– Não é verdade. Não é absurdo.

– Que você tomaria medidas drásticas para ter um momento de felicidade eu já percebi. Agora quero saber que medidas são essas. Trate de me dizer. – a voz autoritária do pisciano deixou-a cada vez mais encolhida naquela enorme sala. Gradualmente, Albafica foi liberando sua decepção.

– Já disse que não é importante!

O pisciano respirou fundo. Se não o fizesse, com certeza descontaria toda a sua raiva na musa.

– Então, me dê licença para ir até o Templo do Grande Mestre para confraternizar com suas irmãs. O que me diz? Pelo visto, é possível minha aproximação, já que tenho você como prova. – argumentou com sarcasmo, deixando sua irritação em total evidência.

Mel, apesar de assustada, estava admirada. Albafica era absurdamente lindo com todo o fervor emanando de seu corpo e cosmo; os orbes azuis, fervendo em raiva e decepção, eram difíceis de encarar, porém tão belos quanto o dono; a expressão de tristeza e ira dele também era drasticamente atraente. Não adiantava. Mel, diante de sua representação, sempre o veria com muito amor e admiração.

Entretanto, ela não queria que ele sofresse, principalmente sabendo que ele sofria demais pela própria existência. Por vezes, ao dormir ao lado dele, presenciou o sono turbulento que teve devido aos pesadelos. Mas era nesses momentos que ela o confortava e amava ainda mais; ele acordava e então faziam amor de novo e de novo, até se cansarem. Até atingirem a intensidade que os caracterizava. E, apesar de morrer de medo de perder esse amor, era pior ver o pisciano sofrendo por sua causa.

No fundo, ela sabia que essa hora chegaria.

– Não é possível. – ela disse, secamente. Seus olhos se tornaram vazios assim como sua voz. – Não é possível com minhas irmãs, porque elas não possuem... Não possuem... Elas não... Não possuem veneno no corpo...

– E nem você. – Albafica logo cortou. Uma resposta óbvia dessas ele não queria.

– Não. Você não entendeu... – Mel ergueu o rosto para finalmente encará-lo. – Elas não possuem veneno no corpo como eu.

O cavaleiro franziu o cenho, em total desentendimento. Quis rebater, mas esperou a musa continuar:

– Quando cheguei aqui, eu me apaixonei diretamente por você. No início, não compreendi o que era esse sentimento, mas queria permanecer por mais tempo ao seu lado e ouvir o que tinha a dizer. Sua beleza perigosa me atraiu logo e... – Mel, extremamente corada, pigarreou, à procura de tempo para se recuperar. Em seguida, suspirou. – Seu cosmo acolhedor abraçou o meu. Só que isso não bastou pra mim, por isso procurei, nas palavras de Athena, uma solução. E rapidamente encontrei... Eu... Eu fui até Redka e... – fez uma leve pausa assim que viu os olhos do pisciano arregalarem. Ele estava chegando à dedução. – Lá, nós... Fizemos experimentos com alguns espécimes venenosos... – a esse ponto, Mel já estava liberando todas as lágrimas traidoras que insistiam em cair, juntamente a uns mínimos soluços.

– Não... – Albafica disse, mais para si do que para ela. Não podia acreditar.

– Elixires e... – Mel soltou em palavras. Sua capacidade de construir frases foi reprimida pelo medo de perder o pisciano para a verdade. – Bebi elixires para ficar perto de você...

Albafica sentiu o corpo deslizar até o chão espontaneamente, assim como a perda total de controle sobre ele. Nem se importou com a aproximação de Mel, pois sua mente ainda processava cada palavra e choro da musa, cada fragmento da revelação que ele nunca esperou. As palavras não faziam sentido. Aliás, nada fazia sentido, nunca fizera. O fato de Mel ser a única capaz de se aproximar não fazia sentido, muito menos com a falta de explicação por trás. Como não pôde perceber?

Só que a realidade que lhe bateu não foi só essa. Na verdade, ele sempre soube que Mel escondia algo. E algo grave. No entanto, seu desejo por ter alguém que amava por perto, a ponto de ter maravilhosas oportunidades de carinho e prazer, deixou-o cego, como Degél bem disse. Ele se cegou com consciência para poder desfrutar da musa que passou a amar. Portanto, a culpa também era sua. No fundo, a culpa era só e somente sua por ter ignorado o broto de dúvida que esteve presente o tempo todo, e por ter possibilitado, mesmo que inconscientemente, a musa de cometer um absurdo desses. Por Zeus, Melpomene consumiu veneno apenas para ficar ao seu lado!

Ca... Fica... Albafica... – ele ouviu, aos poucos, até perceber Mel à sua frente, muito próxima.

– Saia de perto de mim! – num impulso, Albafica a empurrou e correu para o outro lado da sala. Seu aspecto era de puro desespero, incredulidade, decepção e horror pelo o que havia feito.

Mel se levantou com facilidade; o que doeu mesmo foi ver o semblante de seu amado, que optou por se encolher num dos cantos da sala, completamente atordoado. As mãos de Albafica, localizadas no rosto, denunciaram toda a dor que o consumiu após a dedução. Mel não conseguiu reprimir a enorme culpa que sentiu. E, como esperado, os dois compartilhavam de uma culpa indiscutível.

Cada lágrima que deslizava pelas bochechas de Mel levava, consigo, o reflexo de cada instante daquele momento, como se ela quisesse expulsar a realidade do fato. Como se quisesse se convencer de era apenas um pesadelo, que acordaria em segundos no colo do pisciano e o veria ressonar em paz. Mas não, o choro de Albafica a acordou.

– Não acredito que lhe submeti a isso. Sou um desgraçado. – Albafica observou as próprias mãos, como quem procura suporte em algo palpável. O sentido começava a aparecer mais fortemente, assim como sua dor. – Não posso acreditar. Não posso acreditar. Não posso acreditar.

– Alb-

– Como você pôde fazer algo tão estúpido para poder apenas ficar comigo? Não pensou no mal que causou a si própria, Melpomene? – ele preferiu tais palavras juntamente a um olhar tão decepcionado que, em primeira resposta, Mel deixou mais lágrimas saírem. Doía muito vê-lo dessa forma.

– Não foi estúpido, Albafica. – negou com a cabeça, fungando. — De que adianta manter um corpo saudável e viver sem poder estar com quem eu gosto?

– PARE! – gritou. – Não me venha com essa justificativa absurda! Você é uma tola, Melpomene! Você me ocultou algo assim, você me permitiu tocar em seu corpo como se não fosse prejudicial. Você me iludiu! – explodiu, sem se importar com mais nada. — E no fundo, ainda assim, a culpa é minha. – e caiu de joelhos no chão, completamente desolado.

– Não há culpados quando dois trabalham em prol de algo bom. – Mel disse, controlando a vontade de abraçá-lo. Não o faria, porém. Não queria correr o risco de irritá-lo ainda mais.

Albafica teve de erguer a cabeça para a musa. Parou, incrédulo. Em sua face, o asco era perceptível.

– Melpomene... – ao máximo, procurou paciência para falar. – Sabe o que tudo isso me prova? Que é impossível, para alguém como eu, sobreviver nesse mundo recebendo amor. Eu achei que sua aparição tivesse mostrado o contrário, mas não. Mostrou só em um momento, porque agora terminou assim, do mesmo jeito que terminaria com qualquer pessoa. Talvez outras pessoas não tomariam a atitude idiota que você tomou. – levantou-se lentamente, ainda encarando-a com olhos tristes. – Como pôde se arriscar dessa forma por algo incerto? Eu posso morrer amanhã! E você? Você continuaria tomando veneno até quando, se fosse para ficar assim? Continuaria mentindo até quando? Até quase morrer ou prejudicar totalmente seu corpo? Como? – esperou uma resposta que não veio. – Irresponsável. Sequer pensou nisso. Sequer pensou em como eu viveria se você, de repente, morresse por causa desse veneno todo. Você foi egoísta, Melpomene, assim como eu. Porque, no fundo, eu sabia que algo estava errado, mas não fui atrás. Então, sim, somos dois culpados trabalhando em prol de algo que um dia foi bom.

– Albafica... – a voz embargada de Mel foi como um golpe no coração de Albafica. Queria muito pegá-la nos braços e afagá-la até fazê-la adormecer, mas agora, mais do que nunca, não a tocaria. – Por favor, não se preocupe comigo, nada vai me acontecer.

– Não me peça isso jamais, Melpomene. Aliás, não me peça mais nada. É minha vez de pedir algo a você. – Albafica se aproximou até alguns metros de onde a musa estava. – Por favor, pare de consumir o que quer que esteja consumindo. Não venha mais à Casa de Peixes no intuito de ficar comigo. E procure se desapegar do sentimento que alimentou por mim. – a seriedade com a qual o pisciano proferiu as ordens foi como um soco na alma de Mel, que permaneceu imóvel, incrédula.

– Eu me recuso. – foi apenas o que saiu da boca dela, num tom mais baixo do que o normal, porém alto o bastante para Albafica receber com raiva. – Eu amo você. Eu amo tanto que sinto vontade de chorar por mal acreditar que você exista pra mim...

Albafica fechou os olhos para se concentrar melhor. Todo o baque de sensações gritava em sua mente, procurando provocar seu instinto mais sensível. Mas ele seria mais forte e colocaria, de uma vez por todas, o entendimento na cabeça da musa. Nem que tivesse de ameaçar quem não tinha culpa.

– Se você se recusar, arrumarei um jeito de fechar a loja de flores de Redka e sequer lhe receberei em minha casa quando passar. – foi evidente o controle que ele teve ao falar e o esforço que fez para ignorar o que veio depois da recusa. A vontade de gritar novamente com Melpomene ainda estava ali, louca para exercer a função e despejar todo o mar de terríveis sentimentos que lhe envolveu a alma.

Cabisbaixa, Mel chorou. Chorou porque, simplesmente, não lhe restou outra reação de afirmação se não aquela. Chorou porque, apesar de seu coração gritar em desespero, ela teve de aceitar. Chorou porque envolveu mais de uma pessoa nessa mentira. Mas chorou, principalmente, por sentir a dor de Albafica, cujo olhar se mostrou tão vazio quanto o dela, como se repelisse qualquer sentimento alimentado pelos dois. Como se a desprezasse... Como se quisesse urgentemente se livrar de mais uma culpa.

E, para variar, Mel trouxe novamente a tragédia para alguém além dela mesma. E isso era inadmissível. Albafica tinha o direito de lhe dizer palavras tristes e carregadas de decepção, afinal ela o provocou.

– Acredito que não há necessidade de prolongar esta conversa. – ele disse, quebrando o incômodo silêncio que tomou conta do ambiente.

Mel levantou o olhar para vê-lo encarando-a de volta. Ambos sentiram a enorme falta de vontade de se afastar, mas também compreenderam que era o final do que tinham construído. Ambos os corações palpitavam em frequência igual, alimentada pelo confronto com a realidade daquele instante. Nenhum deles, algum dia, esteve preparado para isso. Até nisso, compartilharam da mesma dor, tristeza e frustração.

O olhar de Mel desafiou o de Albafica, que revidou com toda a agonia que passou a sentir. Eles sabiam que, se um desviasse o olhar naquele momento, o rompimento seria dado. O corte daquela ligação existiria no instante seguinte se isso ocorresse. E ocorreria, restava apenas saber quem desviaria primeiro.

E foi o cavaleiro de peixes que o fez.

– Boa noite, Melpomene. – disse, sem olhá-la, para então desaparecer num canto escuro do cômodo.

Mel não esperou mais que um segundo para correr dali, de volta para o templo do Grande Mestre. Subiu as escadas correndo com toda a velocidade que conseguiu, como se fugisse de um monstro, cuja face fosse justamente a realidade que acabara de enfrentar com Albafica. Seu coração destroçado por palavras firmes mal batia direito, mas ela não se importou com tal detalhe, assim como não se importou para onde estava indo de fato. Só precisava correr para longe dali.

Como Albafica muito bem colocou: ela foi egoísta. Ela foi tão egoísta que permitiu que o tempo acumulasse mais uma etapa de sofrimento para o pisciano. Mel não se importou em como seria caso ele descobrisse; não teve cuidado algum e ainda envolveu Redka, que não tinha de carregar esse peso junto com ela. Por fim, Mel só estava recebendo o que devia. Só estava indo na maré de sua própria representação. Mas, pela primeira vez, não se sentiu inspirada diante da tragédia, porque sua representação foi de encontro ao elemento primordial de inspiração. Bendito amor.

Assim que seus pés alcançaram o último andar da escadaria que dava ao último templo, ela parou, respirando distorcidamente, diante das duas figuras que a encaravam com olhos acolhedores. Duas figuras que, com certeza, tinham a força que ela precisava naquele momento, mesmo que quisesse ficar sozinha. Urânia e Tália se aproximaram de braços abertos, e Mel correu até elas, desajeitadamente, agarrando-as como se fossem as duas últimas chamas de esperanças em seu mundo de tristezas.

Notas finais
Eu disse que ia ter drama, não disse? Imagina: Um pisciano com a musa mais dramática de todas! Bom, eu sei que tá todo mundo abalado com essa história deles, mas peço para que ninguém desanime. Ainda há chão pra pisar e pra colocar grama