EmMusas - The Lost Canvas

30 O melhor dos pesadelos


Notas iniciais
Olá, queridxs leitorxs. Como vão? Tô com saudade de vocês, inclusive dos que comentam hahahaha Ah, acho um porre quando pedem pra comentar e tals, mas reconheço que dá um gás do caramba pra nós, autorxs. Enfim, fiquem à vontade! Não sou de ameaçar a fic de acordo com a quantidade de comentários, então manterei, prometo! :D Bom, NOTÍCIA BOA pras pervas: os próximos 4 caps terão momentos hots. Incluindo este aqui - só que é bem leve, então acho que nem conta... As coisas vão começar a tensionar pro lado das musas, hein... Boa leitura!

Capítulo 30

(Flashback ON)

– Ah, Dora, sinto que tomei uma atitude muito baixa, considerando minhas convicções. Espero que não tenha mudado sua opinião sobre mim. – Clio disse, bebericando o vinho que Dora trouxe após derrubar o seu em Cléo.

– Não, não, não, querida, claro que não mudei minha opinião. Infelizmente, você fez o que muitos queriam ter feito. O que falta nesse povo é coragem, sabe? E incluo Cid nisso, depois terei uma conversinha com ele sobre a falta de atitude dele. – Dora ponderou e fechou a cara e Clio riu inevitavelmente. – Ah, viu só? Esse é o sorriso que eu gosto!

– Confesso que é a segunda vez que El Cid fica sem reação diante dessa moça. Isso me... Preocupa um pouco.

Dora bebeu um pouco de seu vinho e logo recolocou a taça na mesa para poder pegar na mão de Clio. O toque foi totalmente maternal, Clio gostou, mas sorriu sem graça.

– Querida, desculpe o palavreado, mas tire essas minhocas da cabeça e desconsidere o que aconteceu aqui. – Dora falou seriamente. – Cléo é uma pessoa sofrida, não teve o amor dos pais quando pequena, assim como muitos aqui. Qualquer demonstração de carinho a fisga de uma forma que nunca vi! O que ela sente por Cid, infelizmente, não é correspondido. Digo infelizmente por causa dela, mas, no fundo, fico feliz sinceramente, aqueça moça não aguentaria uma vida ao lado dele. Entende? El Cid vive outra realidade.

– De certa forma, eu também, Dora. – Clio pegou a taça com a mão livre e bebeu, sem levantar os olhos. – Talvez Cléo seja sortuda por não se envolver com ele. A tensão que preenche o Santuário atualmente é muito sentida por todos. E nós, eu e minhas irmãs, estamos vivendo isso sem entender exatamente o motivo.

– Não, não, você entendeu errado. Sabe por que sei disso? Porque você é a única que fez Cid sorrir depois de muito tempo. – lançou um sorriso doce para a musa. – Eu o vejo com frequência, quero dizer, via. Acho que ele encontrou um motivo pra permanecer no Santuário por mais tempo. – Dora deu uma piscadinha para Clio, que corou. – E por conhecer Cid, sei que ele não levaria uma moça para jantar se não tivesse boas intenções. Se ele tem boas intenções, quer dizer que encontrou alguém digno de ser sua companheira. E, francamente, nunca o vi fazer isso.

– Nem com Cléo? – a pergunta foi inevitável e fez Dora rir.

– Nem com Cléo. Talvez ele não tenha percebido o que os próprios olhos expressam. Ou então está com um pouco de medo... Se bem que ele me pareceu bem descontraído com você, Clio.

– É, admito que percebi, mas tive que fazer alguma coisa, senão nosso jantar teria sido totalmente silencioso. – Clio falou.

– Talvez. Mas acho que Cid não conseguiria manter a pose de fechadão com você por muito tempo. – as duas riram e beberam um pouco mais.

– Ah, Dora, você é muito gentil. – Clio sorriu para a mulher que afagava sua mão. Dora riu.

– Querida, não há o que essa velha coroca aqui não perceba quando se depara com alguém. Inclusive – ela se ajeitou mais para frente e encarou a musa com uma cara esperta. – a senhorita também parece ignorar o que seus olhos de mel expressam.

– Hmm – Clio se ajeitou para frente também. -, parece que encontrei uma pessoa analítica à minha altura. – e sorriu esperta, fazendo Dora soltar outra gargalhada. Consequentemente, a musa fez o mesmo.

– Que tal um brinde às analíticas? – Dora levantou sua taça e Clio também; assim que o som agudo do tilintar saiu, as duas sorriram. – Agora, me prometa uma coisinha, sim? Não desperdice seu tempo, Clio, e viva tranquilamente. Seja com Cid ou não.

A musa assentiu.

– Obrigada, Dora. Não me esquecerei de você.

(Flashback OFF)

Foi com essa lembrança que Clio acordou de seu sono. Com um sorriso no rosto e disposição no corpo, seguiu para o banheiro, onde fez sua higiene pessoal, vestiu-se com uma roupa leve e fez o desjejum. Tomou cuidado para fazer tudo com rapidez, pois, de alguma forma, se sentiu inspirada para aproveitar o dia e encontrar El Cid. Antes de descer as doze casas, passou em seu quarto para passar um creme no rosto um tanto ressecado; o calor que a recebeu logo pela manhã deixou claro como seria a temperatura do dia, então se prevenir era quase obrigação.

Clio sentiu uma felicidade diferente crescer em seu interior; o dia a recebeu muito bem em seu despertar, pois se lembrar da conversa com Dora animou-a tanto que passou cada palavra dita pela mulher, em sua mente, lentamente, no intuito de não perder nenhuma mensagem subliminar. Sim, analisou Dora e percebeu que ela era uma mulher de pequenos enigmas. Nunca pensou em fazer amigos fora do Santuário, mas iniciou amizade com Redka e agora Dora; os ares, com certeza, tornaram-se mais convidativos após esses ganhos.

Arrumada e cheirosa, Clio abriu a porta e deu de cara com um cavaleiro de capricórnio corado.

– Oi! – ela disse.

– Oi!

– O que faz por aqui?

– Vim lhe dar tchau, estou de saída para uma missão com Sísifo. – El Cid engoliu seco só de ver a musa como estava. – Hãn... Achei pertinente lhe informar.

Clio observou os olhos inquietos de El Cid, que dançavam por todos os pontos que não fossem ela. De certa forma, achou graça disso; o nervosismo puro e evidente dele deve ter se enfatizado após o selinho que ela deu. Lembrar-se disso a deixou igualmente corada, mas ele não viu. Clio não queria que ele continuasse assim perto dela – apesar de achar fofo – e, novamente, tomou a atitude e afagou o braço do cavaleiro, protegido pela armadura de ouro.

El Cid teve uma reação imediata: pegou a mão delicada da musa e depositou um leve beijo, sem desfazer sua expressão dura.

– Obrigada por me avisar. Tem ideia de quando volta, cavaleiro? – ela retirou lentamente a mão após o ato e manteve os olhos no belo rosto dele.

– Não. Tempo indeterminado. – respondeu automaticamente. – Enquanto isso, hãn... Espero que se divirta.

Uma fala engraça por ter boa intenção e sair tão séria.

El Cid não deixou Clio responder e investiu um beijo sutil na bochecha dela, que estranhou um pouco. Na mente da musa, teria sido melhor se ele a tivesse beijado do mesmo jeito que ela o fez no final do jantar, mas sorriu forçadamente e esperou o cavaleiro sair. Sentiu-se estranha, como se ele não quisesse corresponder seu carinho. Clio murmurou de insatisfação, mas logo se reprovou. Não compreendeu o motivo de seu desgosto; afinal, ele a beijou! Entretanto e estranhamente, não da forma que ela queria.

~

Tália e Dohko, em meio a conversas, desceram as escadas animadamente. Ele se encantou cada vez mais por ela, ainda mais quando ela contou sobre sua classe e vida. De fato e inevitavelmente, constatou que Tália era uma musa interessante e enigmática; pelo visto, ela aproveitava isso para cativar ainda mais quem a rodeava – seu sorriso esperto denunciava o fato.

Assim que chegaram perto da arena das amazonas, Dohko viu dois cavaleiros de bronze discutirem sobre algo e pediu para que ela o esperasse alguns minutos para que ele pudesse checar o que estava acontecendo. Tália assentiu mais do que satisfeita, pois, no mesmo momento, viu Terpsícore treinar com uma amazona desconhecida. Compreendeu, na hora, o que ela quis dizer quanto à questão de tempo até saber se impor. Não deixou de sorrir com isso, nada era melhor do que ver sua pequena irmã aprender por si só sobre a vida. Com certeza, Mel e Urânia tiveram muita razão ao constatar a necessidade de uma ação mais independente por parte da musa da dança; quase se arrependeu por ter discordado.

A visão se tornou mais rica após observar que Calíope também estava presente na arena, e acabou ampliando seu sorriso.

– Ah, Calíope, você nem imagina que estou te observando observar Terpsícore! – a musa da comédia falou para si, achando graça.

– E você nem imagina que estou te observando enquanto você observa Calíope observar Terpsícore. – uma voz arranhada e irônica soou atrás dela, e a musa se virou já reconhecendo o dono.

Arbusto azul mal picotado. – Tália cumprimentou, fingindo-se de séria com as mãos na cintura e olhos estreitos.

Musinha. – Manigold retribuiu o olhar. Os dois riram em seguida e ele a pegou no colo e rodopiou-a no ar.

– Argh! Você e essa mania de me girar assim. Me põe no chão, cavaleiro! – ela exclamou e o apertou com as unhas.

– Ouch! Precisa disso? – ele atendeu ao pedido.

– Todo cuidado perto de você é pouco!

Manigold gargalhou.

– Então, veio me ver treinar hoje também? – ele sorriu, galante. Tália deu de ombros.

– Dessa vez, não. Seu treino me traz tédio. – provocou.

– Ah, é? Se quiser, posso machucar os aspirantes para lhe divertir. Que acha?

– Que horror, Manigold! – ela o reprovou com o olhar, extraindo um riso mais alto dele. – Prefiro sair com Dohko! – o canceriano franziu o cenho segundos depois.

– O quê?!

Ah, aí estava a oportunidade que ela tanto procurou. Reconheceu os sintomas de Manigold inevitavelmente, pois também se sentiu enciumada no dia anterior.

– Pois é, vou com o cavaleiro de libra à vila. – ela falou como se fosse o programa mais interessante de todos, fez questão de abrir um sorriso e olhar para o céu, como se estivesse admirada.

– Que chato. – ele disse, controlando a língua que implorava para xingar alguém. – Não há o que fazer na vila, ainda mais com Dohko. – bufou.

– Está tentando tirar minha acompanhante, Manigold? – Dohko apareceu amigavelmente e rindo. Deu um leve tapinha no ombro do canceriano e deixou a mão ali, depois abriu um sorriso para a musa. – Vamos, Tália?

– Sim! Afinal, o que aconteceu entre os cavaleiros? – perguntou.

– Que curiosa! – ele disse.

– Um curioso reconhece outro, Dohko. – ela repetiu as palavras que ele dissera no desjejum. Dohko riu gostosamente.

Manigold, obviamente, compreendeu que havia alguma piada interna no meio dessa fala, o que não gostou nem um pouco. Odiava se sentir excluído das coisas, ainda mais se fossem divertidas. Só que, dessa vez, ficou mais incomodado ainda por ser Tália a pessoa que tinha piadas internas com o libriano.

– Que cara é essa, arbusto? Parece a máscara da tragédia de Melpomene! – Tália falou alto, o que arrancou mais risadas de Dohko.

– Nhé. – ele revirou os olhos. – Engraçadinha.

– Arbusto? Que história é essa, Tália? – Dohko disse, após uma forte ofegada da risada. A musa não perdeu tempo e envolveu um dos braços dele com suas mãos.

– Ah, te conto no caminho, cavaleiro. Vamos? – ela disse docemente. Manigold quase vomitou com a cena, mas logo se recuperou quando percebeu o conteúdo da conversa.

– VOCÊ NÃO VAI FALAR NADA, MUSINHA. OUVIU BEM? – ele berrou para os dois que já estavam longe. Era só o que faltava virar motivo de chacota por causa de um apelido estúpido imposto pela musinha! Ouviu-a rir de longe. – Grgrgrgrrrrr, Tália... – fechou a cara e seguiu para a arena. Ah, o dia seria longo.

~

No caminho até a vila, Dohko não deixou de fazer mais perguntas para Tália em troca de perguntas sobre si, tentou até se aproximar do assunto que envolvia o passado da musa, mas, sutilmente, ela deixou claro que não era um assunto bem-vindo. O libriano amaldiçoou a existência da curiosidade nesse momento. Enquanto andaram, ela aproveitou para observar o cenário à sua volta e ele desfrutou dos belos comentários que ela fez; sempre foi bom ver pessoas valorizando a vila, ainda mais quando vinham de fora. Em poucos minutos, pararam em frente a uma casa um pouco maior que as lojas que viram e Tália franziu o cenho ao tentar identificar o local. Dohko aproveitou para observá-la; Tália sempre fazia caras e bocas expressivas o bastante para lhe atrair.

– Hmm... – Tália fechou os olhos, inspirou fundo e sorriu para si. – Cheiro de inocência. Aposto em orfanato.

Dohko arregalou os olhos com o comentário e impediu um riso sair. Assentiu sem parar quando a musa se virou para confirmar.

– Não vou nem perguntar como adivinhou tão facilmente. Cheiro de inocência, é? – ele sorriu com um leve sarcasmo e recebeu um olhar convencido dela.

– Truques e truques. Mas por que viemos aqui?

– Isso é um assunto pouco pessoal, porém bem evidente se for reparar nas reações que a nossa deusa tem quando vê crianças. Athena consegue ultrapassar todos os níveis de bondade que penso existirem, um exemplo disso é a nossa vinda aqui. Estamos nesse orfanato para checar o que está em falta, em todos os âmbitos. Não se passaram duas semanas desde a última vez que vim para a mesma tarefa. – ele sorriu docemente enquanto lavou as mãos numa torneira improvisada do lado de fora do orfanato e Tália o seguiu.

– Se faz pouco tempo, por que veio novamente?

– Porque Athena gosta de mimar essas crianças. – os dois riram. – Estamos rindo, mas é verdade. Por não poder abrigá-las no Santuário e torná-las pupilas, ela prefere investir numa vida repleta de outras tarefas interessantes para as crianças deste orfanato. – as feições do libriano adquiriram um semblante mais sério. – Sei que ela gostaria de visitá-las, mas, como não pode, procura enviar esse sentimento que tem de outra forma. No entanto, nada disso é o bastante para Athena.

– Continue falando assim e eu afundarei mais ainda na tristeza de não conviver mais com ela. – Tália descontraiu, arrancando uma risada graciosa de Dohko.

A musa não conseguiu conter a emoção ao entrar naquele local e ser recebida por várias criaturinhas diferentes e alegres. Já havia entrado em orfanatos antes – poucos, porém -, mas aquele era outra coisa. A maioria das crianças não era tímida, pelo contrário. Quase não soube o que fazer com toda a atenção que recebeu enquanto Dohko foi atacado por mais outro monte de criaturinhas animadas e saltitantes. Foi como se tivesse desaprendida a parar de rir, porque a energia daquele espaço a contagiou irrevogavelmente. Abraços aqui e acolá, crianças se pendurando em seus braços e elogiando seu cabelo – sim, Tália quase chorou ao ouvir comentários positivos sobre sua aparência nada convencional, talvez eles nem soubessem sobre sua classe. Naturalmente, algumas crianças a estranharam, mas não a destrataram em momento algum; pelo contrário, foram extremamente cuidadosas, porém sinceras, aos fazerem perguntas curiosíssimas sobre sua escolha estética. “Por que seu cabelo é assim?”, “Por que você usa esse lenço?”, “Por que seus olhos são de cores diferentes?”, “Por que você tem essa cicatriz?”. Tália respondeu todas as perguntas, exceto a última. Com uma pequena dor no coração, ela desviou o assunto.

Dohko ficou igualmente emocionado com as crianças, mas já esperou por isso, como sempre. Entretanto, ver a repercussão da visita da musa o deixou entorpecido. Analisou todas as reações e ouviu todas as perguntas e respostas. Obviamente, sentiu-se responsável pela pequena amargura que passou de relance na expressão da musa após uma criança perguntar sobre sua cicatriz – pergunta que foi respondida com uma resposta evidentemente falsa de “consegui quando caí de uma árvore”. De qualquer forma, se Tália mentiu mais alguma delas, não deixou claro, pois a espontaneidade dela fazia tudo parecer verdadeiro. Claro, a adorável musa da comédia devia estar acostumada. Mas uma pequena curiosidade brotou em Dohko quando Tália respondeu qual comida gostava de comer quando ficava triste: era realmente alface? Ele riu ao constatar novamente como a peculiaridade dela era encantadora.

Após recolher as informações sobre o que faltava no orfanato – algo que foi difícil, pois a diretora não queria mais do que Athena já dava -, despediu-se junto com Tália das crianças e iniciou a trilha de volta para o Santuário. Ouviu atenciosamente os comentários positivos e engraçados da musa — ela era tão expressiva que não conseguia parar de gesticular. Estranhou, porém, quando alguns minutos de silêncio se instauraram.

– Me fale mais. – Dohko pediu, tentando reatar o assunto.

– Na verdade, estou pensando na falta de uma resposta sua. – disse, com o dedo encostando nos próprios lábios.

– Minha? – o libriano ergueu a sobrancelha, confuso.

– Sim. O que aqueles cavaleiros estavam discutindo hoje cedo, antes de irmos à vila?

– Ah, boa memória! Esqueci-me de comunicar: um dos cavaleiros de ouro propôs uma fogueira para hoje à noite. Gostaria de ir comigo, Tália? – ele sorriu.

– Ah, sim, estive presente quando o cavaleiro de escorpião falou com o Grande Mestre. – ela acabou rindo sozinha ao se lembrar de mais um detalhe daquele momento. – E sim, gostaria sim. No caso, encontrar você lá, certo?

– Sim, sim. – sorriu. — Então, vamos dar meia volta. Me esqueci, também, de comprar alguns mantimentos para essa noite. – esfregou a mão no cabelo repicado, demonstrando sua falta de graça diante de tanto esquecimento. Tália apenas riu e assentiu.

~

Ela se sentou no colo dele, que manteve as costas escoradas numa das árvores que ela mais apreciava; os dois estavam de frente um para o outro e tinham acabado de fazer amor. Pelo menos para ela, “fazer amor” definia o que costumavam fazer quando se encontravam. Repousou carinhosamente a cabeça dominada por um suor gostoso na curva do pescoço dele – também suado devido ao esforço de seu corpo. A habilidade que ele tinha de embalá-la em qualquer sentido que fosse sempre foi admirável; ela se entregava, todas as vezes, de corpo e alma, mesmo sabendo que pudesse doer mais tarde.

Dor.

De fato, ela sentia essa dor quando ele se afastava. Era a dor do primeiro amor. Ainda mais com ele, um estranho ser que tinha a capacidade de transformar todos os momentos em bons e ruins, com uma peculiaridade sombria, porém incrivelmente envolvente.

Ela sentiu o afago em suas costas pelas mãos másculas que subiam e desciam ali, às vezes arranhando, outras vezes tocando suavemente. Sorriu ao pensar que eram raros os momentos em que ele se mostrava calmo e gentil; não que pudesse reclamar das carícias mais violentas. Afinal, ele era assim: rude, sensual e possessivo.

Um aperto mais intenso foi sentido, por ela, nas coxas; ele não teve cerimônias em manifestar novamente seu desejo e logo a arranhou no intuito de provocá-la, como sempre. Sem conter o gemido pelo simples ato, ela iniciou um rebolado excitante no membro acordado dele e enfatizou a consequência passando a língua fina em seus lábios macios. Como esperado, ele a virou de forma que a encostasse na árvore e avançou novamente os lábios nos dela, arrancando um beijo lascivo e violento. Apesar de ela ser delicada, ele sabia do efeito que causava quando agia de forma contrária. Qualquer expressão excitada dela despertava seu monstro interior tão obscuro quanto a neblina que às vezes tomava conta daquele vale quando ia vê-la; e ela sabia disso. Fazia de propósito.

Sem demoras, ele afastou as pernas sedosas dela e encaixou seu rosto perto da virilha, inspirou fundo o aroma que tanto gostava e enfiou sua língua com desejo na cavidade já úmida. A esperada arqueada de costas foi perceptível, apesar de ele não ter visto. Enquanto suas mãos apertavam as coxas, sua língua se movimentava com maestria naquela região tão idolatrada por ele; às vezes, passava a língua lentamente de propósito e com intenção de torturá-la – o que era um sucesso. Nunca negou sentir todo o desejo que sentia por ela; pelo contrário, sempre fez questão de mostrar sua reação para com qualquer ação que a envolvia. Ela sentiu o corpo estremecer diante do sexo oral intenso que recebeu até se derreter completamente e gozar. Um gemido alto e forte manifestou o término do ato e ela esperou a continuação que não veio.

– Ah, Urânia...

– AH! – a musa da astronomia despertou, completamente suada e ofegante. – Oh, céus!

Mal se sentou direito no sofá e percebeu sua intimidade tremendamente molhada. Sentiu um desespero tão grande que não se preocupou de imediato com o fato de ter dormido na sala particular da deusa sem finalizar uma das leituras. Claro que não, pois o que a atormentou irremediavelmente foi a lembrança do sonho que acabou de ter. Uma dor no peito convergiu com o pensamento da musa assim que ela percebeu que nunca e jamais deveria sonhar com algo assim. Não encontrou explicações para tal queda; seu maior erro foi se deixar inundar por pensamentos impróprios após pequenas citações de lembranças passadas. Mas, claro, nunca imaginou que elas fossem voltar depois de uma breve conversa com Mel. Sobretudo, dessa forma!

Chacoalhou a própria cabeça e levou as mãos até as têmporas. Não, não devia se deixar levar emocionalmente pelo recorte de um dos momentos mais intensos – e maravilhosos – de sua trajetória amorosa. O melhor dos pesadelos. Claro que não, pois, no fim, acabou tão trágica que poderia ser desdobrada num espetáculo teatral. Entretanto, identificou um grave problema.

Se sonhou com um dos bons momentos que passou com ele, provavelmente sua mente guardou-os com carinho quando não deveria sequer tê-los guardado. Um pequeno fio de memória desses poderia levá-la a um bolo enrolado de fios muito piores. Urânia se preocupou com isso, pois ela sabia dos riscos em meio ao período que estava vivenciando, mas...

Seu coração bateu mais rápido após constatar que, talvez, isso fosse um sinal. E um dos piores. Talvez...

– Não, por favor, não. – suplicou, observando o céu. Segundos depois, a porta foi aberta e Sasha entrou.

– Ah, você acordou! – sorriu docemente, mas franziu o rosto assim que viu o estado da musa. – Urânia, está bem?

Notas finais
Huhuhuhuh e aí, palpites sobre o antigo amor de Urânia? SE TIVEREM, por favor, não estraguem o prazer dxs leitorxs que não tiverem e comentem só pra mim, ok? :D Vamos deixar o rolê misterioso, que tal? No próximo, vamos à fogueira! E que haja fogo... SPOILERS: 1. Amor perfeito não existe; em algum momento, essa ilusão se quebra. 2. "Você só poder ser louca por me desafiar dessa maneira." 3. "Ele negou um beijo meu, agora o farei implorar por um." HUHUHU