EmMusas - The Lost Canvas

45 No tempo de cada um


Notas iniciais
Olááá, queridxs leitorxs! Eu não pretendia postar hoje, MAS, como terminei um dos capítulos mais babados hoje, decidi postar esse aqui! =) AHHHHHHH vocês nem imaginam o que tem no próximo huhuhu E ah, temos mais um finalmente neste cap! Boa leitura, amores.

Capítulo 45

O som das cortinas se chocando com a janela de vidro, apesar de baixo, ecoava com intensidade na sala particular da deusa Athena. O vento mantinha o patrocínio desse som, que incomodava profundamente o interior de Clio. Sentada, com sua melhor postura, numa das poltronas da sala, mantinha o olhar baixo e vazio num ponto fixo do tapete de arabescos dourados, e muito bem trabalhado na costura, como se este fosse lhe dar algum subterfúgio para aquela situação que se estendia.

No caso, Grande Mestre e Sasha processavam a informação que ela havia dado. Entendia perfeitamente o peso do conteúdo, principalmente para a deusa. Num canto da sala, Terpsícore observava constantemente cada mínimo movimento seu.

– Entendo. – Sage finalmente quebrou o silêncio incômodo, alisando a longa barba lisa. – Como não temos tempo para analisar a situação mais profundamente, defendo que procurar um solução para a continuação da pesquisa seja prioridade. Infelizmente, não contaremos com a musa da Astronomia.

– Sage... – Sasha disse, baixinho. Em sua face, um reflexo de tristeza podia ser visto. – Você provavelmente tem razão, mas não sei se entendi tão bem... Urânia se isolou? – virou-se para Clio. – Por quê?

Lentamente, a musa levantou o rosto e respirou fundo. Seu olhar frustrado a acompanhou.

– Como posso dizer? – perguntou retoricamente. – Urânia tomou uma decisão diante de um caso, há muito tempo. Esse caso acabou de se repetir, mas de uma forma diferente, é claro. Sei que vocês não sabem disso e provavelmente não interessa a essa altura, mas o cuidado para com a sensibilidade de Urânia é muito grande e crítico, pois é por decisões como essas que a preocupação que levamos se intensifica sempre. – decidiu levantar e explorar o chão com pequenos passos involuntários. Ficar sentada poderia aumentar sua tensão, ainda mais numa escolha tão difícil de palavras.

A questão não era justificar, mas como fazê-lo sem expor o íntimo de sua irmã. Portanto, para Clio, todo cuidado era pouco.

– Quando Urânia iniciou essa pesquisa, percebi que ela ficou bastante balançada pelas possibilidades de, algum dia, se deparar com esse espectro de Hades novamente. Tenho certeza que vocês deduziram um pouco o que há por trás disso, não? – Clio observou Sasha assentir.

– Entrelinhas, ela me contou sobre sua desilusão, mas nunca citou nome algum. – a deusa comentou, receosa.

– E ela não citaria. Não quando teme tanto um nome em seu íntimo. – Clio chacoalhou a cabeça levemente ao perceber a frase pessoal que disse. Procurou seu foco novamente após respirar fundo. – Nessa pesquisa, ela perdeu seu foco. Não, ela o transformou em outro para que fosse útil, por isso muitas de suas leituras habituais se perderam e ela não pôde prever a aparição dele. No entanto, ela o sentiu, assim como nós, mas não o reconheceu. E esse pequeno, porém poderoso, detalhe é o que a está consumindo agora. – uma pequena pausa foi cedida para que pudesse recuperar o raciocínio. Pensar nos problemas da irmã era, de certa forma, exaustivo. Mas foi bastante necessário após constatar outro ponto: — Só que isso não foi o único problema...

Três olhares curiosos miraram Clio instantaneamente.

– Se Urânia tivesse maior apoio, poderia resistir a essa fraqueza que o espectro desencadeou nela. Porém, novamente, ela se desiludiu. – a voz severa de Clio foi uma indireta, obviamente. Mas não para quem estava na sala. E só uma pessoa percebeu.

Sasha varreu os olhos pela própria sala, por mais que já tivesse entendido o que a musa quis dizer, e suspirou:

– Oh! Entendi.

– Eu não. Gostaria que me explicasse, senhorita Clio. – Sage colocou com firmeza. O tempo era precioso demais para ter que filosofar em cada frase da musa. Se não corressem de volta para as pesquisas, poderiam perder algumas observações importantes.

– Permita-me, Grande Mestre. – Sasha tomou a frente. – Pelo o que entendi, Urânia foi ferida, há muito tempo, e procurou cicatrizar ao longo de outras inspirações que não contassem com a maior de todas. Mas, pelo o que percebi, aqui no Santuário ela achou novamente seu elemento principal de inspiração...

– Hum. – a onomatopeia de Sage incentivou a continuação do raciocínio.

– Se Urânia percebeu que havia grande possibilidade de se encontrar com o espectro e mesmo assim continuou exposta e firme na pesquisa, foi porque acreditou que poderia resistir devido a esse novo sentimento que encontrou aqui. Certo, Clio? – um tom mais animado foi sentido na fala da deusa. A musa apenas assentiu com a mesma expressão séria, porém.

– Sentimento esse, Grande Mestre, que você pode chamar de Sísifo de Sagitário. – Terpsícore interveio, atraindo os outros três olhares. Pela cara da irmã, sentiu uma leve falha em sua intervenção.

– Bom, já que Terpsícore deu o nome, está mais fácil de compreender? – Clio perguntou.

– Estão dizendo que Urânia se isolou porque entrou em conflito com o cavaleiro de Sagitário? – Sage, em seu íntimo, se irritou com a constatação.

– Não é tão simples assim, Grande Mestre.

– Perdoe-me a palavra, mas está parecendo que a Musa da Astronomia se isolou por capricho! – ele nem se preocupou em mostrar sua irritação.

– Não menospreze o que nos move, por favor. – surpreendentemente, a dona da fala foi a musa da dança. Sasha e Clio involuntariamente arregalaram os olhos. – Você pode achar que o amor não machuca a esfera mais profunda da alma, mas ele pode fazer isso, e mais de uma vez. Ninguém é forte para sempre depois da primeira queda, Grande Mestre. A força vem com quedas ainda maiores e Urânia caiu novamente porque, quando decidiu abrir seu coração, uma fatalidade aconteceu e ninguém a ajudou a levantar! E a força vem no tempo de cada um. O que o senhor faria se sua inspiração fosse arrancada de você?

Ninguém ousou responder porque, simplesmente, aquela não parecia a meiga e tímida musa da dança. Clio não se impressionou tanto quanto os outros dois, mas teve uma leve surpresa, pois, de fato, Terpsícore mudou. A firmeza na fala foi o bastante para uma pontada de orgulho surgir em Clio.

– Tenho certeza de que o Grande Mestre não quis ofendê-la, Terpsícore. – Sasha disse, junto a um sorriso doce. – Acredito que ele, inclusive, compreendeu do que se trata o isolamento de Urânia. Não é? – ainda sorridente, virou-se para o patriarca, que permaneceu estático.

– Um pouco mais, sim. Mas por que ela precisa se isolar em Star Hill?

– Urânia se isolou porque está procurando se fortalecer novamente. – Clio, objetivamente. – Ela só conseguirá entrar em harmonia conosco quando superar essa fraqueza que mantém internamente.

– Harmonia? Vocês entrarão em desarmonia? Isso não é muito sério? – Sasha se preocupou, levando o indicador até os lábios.

– Não, Calíope, felizmente, foi rápida e se isolou também. – Clio disse.

Se ela não tivesse respondido com se não fosse nada, Sage não teria se enfurecido.

– Como assim se isolotou também? Por Zeus! Vocês fazem isso com que frequência? Sei que não possuo conhecimento o suficiente sobre o que constitui vocês, Musas, mas não vejo como isso pode ajudar num momento como este! – o patriarca se permitiu proferir as palavras um pouco mais alto do que aceitaria. Com certeza, arrepender-se-ia depois, mas o impulso foi inevitável dessa vez.

Ao contrário do esperado, Sasha viu Clio e Terpsícore perfeitamente calmas – algo que ela mesma não compreendeu. Em sua perspectiva, a situação parecia muito crítica.

– Calíope é responsável por manter o equilíbrio entre nós quando nos deparamos com uma situação dessas, mas não se preocupem, ela ainda está aqui no Santuário. Entretanto, precisa se isolar para adquirir total concentração em sua tarefa, sem influência ou fator externo que atrapalhe sequer um instante. – a musa da história suspirou. – Vocês podem... Me dar licença? Preciso resolver uma pendência na vila.

Terpsícore observou a irmã sair da sala após a aprovação de Athena e do Grande Mestre e, em seguida, pediu a mesma permissão. Não demorou em correr atrás da irmã, percebeu seu estado minimamente alterar e isso nunca rendeu boa notícia. Quando chegou à porta do quarto, encontrou Clio saindo.

– Ei! Vou com você à vila. Tem problema? – Terps perguntou, meramente animada.

– Não, mas vou na frente. Nos encontramos na Casa de Capricórnio. – sem ânimo algum, seguiu o rumo; não esperaria resposta da irmã mais nova.

Na descida, Clio foi tomada por mil pensamentos acerca dos momentos que se seguia. Questionou-se, por vezes, quando foi que deixou de ter o controle sobre as coisas, ou ter utilidade perante os problemas que apareciam. Era como se suas funções perdessem o sentido e um enorme buraco vazia estivesse à espera de ser preenchido com grandes causas. Porém nada a impulsionava, nada. Perder-se nas próprias agonias e indecisões parecia um ato recorrente em seus atuais dias, e isso era inadmissível. O problema, no entanto, permanecia na falta de coragem. Clio se sentia intimidade pela onda de novidades que a encharcou por completo quando tudo passou a fazer sentido naquele lugar.

O envolvimento das musas com os dourados. A relação inesperada de suas irmãs com a deusa Athena. A pesquisa intrigante acerca dos registros deixados pela reencarnação passada. O conflito com o cavaleiro de gêmeos em prol da segurança de Terpsícore, que apenas gerou inimizade entre elas. A insegurança repentina de Urânia, que se mostrou fundada na maldita aparição de seu antigo amor. E, por fim, os profundos e incompreensíveis sentimentos pelo cavaleiro de ouro de protegia a décima casa zodiacal.

Com certeza, se estivesse em seu vale, não teria tanto com que se preocupar. Mas também não teria tanto com que viver – ela reconhecia.

– Clio? – ela ouviu o nome ser dito com hesitação, mas continuou caminho. — CLIO! – porém parou, pois seu braço foi delicadamente puxado.

Clio saiu de seu transe. Deparar-se com as duas esferas escuras, de um brilho queimando em preocupação, instantaneamente acalmou seu coração. El Cid não apresentava a mesma expressão de sempre, dessa vez tinha uma movimentação de traços mais bonita. Talvez porque vê-lo variar tenha sido uma surpresinha boa. Clio não soube dizer, só sentiu o coração aquecer aos poucos.

– Você está bem? Por que não me cumprimentou? – um pouco aflito. El Cid manteve o braço dela acomodado em sua mão, enquanto seu polegar iniciou mínimos carinhos.

Clio quis rir com a óbvia e esperada preocupação dele. Ele era tão assim... Mas preferiu voltar à realidade e assumir sua postura.

– Desculpe-me, El Cid. Na verdade, nem sei para onde estava indo. – foi o melhor que conseguiu dizer.

– E quanto à primeira pergunta? – Clio mal lembrou dela, mas algo no olhar de El Cid deixou claro que ele realmente queria saber.

Ela até queria mentir e dizer que nada estava errado, queria, principalmente, passar confiança de que poderia lidar com qualquer ocasião desconfortável que aparecesse. Mais do que isso: queria esclarecer, em palavras, tudo o que a afligia até então. Mas não seria bom, pois tudo era incerto e ele não merecia ouvir informação errada.

– Não. Não estou bem. Na verdade, não consigo sequer lembrar o que significa estar bem comigo mesma! – suas mãos subiram apressadamente até as laterais de seu rosto, enquanto seus traços faciais evidenciaram sua agonia. – Queria voltar no tempo e analisar cada momento pra retomar o ponto de partida onde minha burrice começou, porque simplesmente não entendo mais nada! Sinto como se os problemas estivessem escorrendo por entre meus dedos como areia e isso é muito angustiante, El Cid! Minhas irmãs estão sofrendo, eu sinto isso. Todas de alguma forma estão sofrendo e eu não estou sabendo como lidar com isso! Sinto-me egoísta por pensar em ficar bem num momento tão crítico como esse! – sua voz adquiriu um tom embargado que foi difícil de ignorar, mas ela não se importou. – Não consigo achar certo analisar alguma delas porque sinto que não entendo o que estão sentindo. Aliás, seria pura hipocrisia, pois mal compreendo o que eu estou sentindo! – ela não resistiu, precisou fitar o capricorniano, mesmo com os olhos marejados. — O que eu estou sentindo, El Cid? Pela primeira vez estou perguntando isso a alguém, mas não me importo mais com meu orgulho, eu só quero saber o que é tudo isso! Eu preciso de respostas, porque não as encontro mais!

– Quer mesmo ajuda? – El Cid perguntou secamente, sem desviar seu olhar do dela, e se aproximou. Não esperou mais do que um movimento de assentida dela para puxá-la, sem cerimônias, e acabar com o espaço entre suas bocas.

Aos poucos, Clio se entregou àquele beijo repentino. O leve roçar de narizes, em um contato tão mínimo e ligeiro, atiçou seu arrepio, intensificado pelo pequeno selinho roubado no fim e enfatizado pelo início de um novo beijo, tão faminto quanto o outro. Sentiu a ponta dos dedos dele tocarem pretensiosamente sua face, mas como se fosse algo difícil, pois o contato era raro. Até finalmente se concretizar num carinho mais desenhado na bochecha e se estender até sua nuca.

Num deleite aproveitado de olhos fechados, ela se entregou ainda mais quando ele migrou os lábios para seu queixo, onde depositou uma pequena mordidinha – muito bem vinda, por sinal. E depois teve novamente a boca tomada com gosto pela do capricorniano, enquanto o polegar dele acariciava sua bochecha com carinho.

Ela nunca havia pensando no gostoso sabor que os lábios dele escondiam, nem na maciez que ele demonstrava através do toque; sequer tinha pensado na sinuosidade de sua língua cada vez mais envolvente, convidando a sua a se mexer também. Sentiu necessidade de seguir aquele carinho úmido e diferente, enfatizando cada vez mais aquela calma no coração que sentiu minutos atrás. Por isso, mesmo sem jeito, ela devolveu o beijo numa intensidade maior.

Repentinamente, Clio se assustou ao sentir o corpo ser envolvido pelos braços de El Cid e levantado. Estava no colo dele, afinal. Quando se virou para compreender que estava adentrando a ala privada da casa de Capricórnio, soltou um arfado em surpresa.

– Clio. – ele chamou. Ela se virou, com a boca já aberta para falar o que queria, mas foi rápido demais. Novamente, foi surpreendida com um beijo.

Sem força e vontade de parar, ela retribuiu o beijo com dedicação. Mal se reconheceu, mas também não se importou. Estava no colo dele, sentindo o calor daquele corpo marcante e nos cuidados de suas intenções – fossem as que fossem. Ela não se importou. Pela primeira vez depois de semanas, tudo pareceu bem. Quieta e envolvida no beijo, deixou-se ser envolvida por ele.

~

O cheiro da maresia envolvida no das diversas espécies de árvores da floresta, ao leste do Santuário, causaram um leve delírio em Melpomene. Delicioso era sentir aquele aroma tão diversificado ao longo de cada passo adentro do local. Não poupou os olhos ao admirar cada canto que pôde enquanto seguia até perto de onde sabia que Calíope estaria. Assim que a localizou, sentou-se num grosso tronco e relaxou os ombros para, em seguida, emanar o cosmo:

Precisa de ajuda?” – Mel perguntou. Não podia realmente ver Calíope, mas sabia que ela estava por perto.

Não. Volte aos seus afazeres.” – curta e rápida.

Oh, certo. Mas acho que está na hora, Calíope. Você pode até aguentar sozinha, mas sem Tália, e diante do problema de Urânia, acho que não é saudável.” – pegou uma joaninha que pousou em seu colo.

Concordo. Você... Poderia chamá-las por mim?

Foi para isso que eu vim.” – sorriu, mesmo que o único vendo fosse aquele pequeno ser da natureza.

Mel não era de ter expectativas positivas diante do mundo, mas, graças ao seu amado cavaleiro, passou a enxergar tudo de outra forma. E era inevitável pensar que, no fim, tudo ficaria bem.

Segundos depois, emanou o cosmo para terras mais distantes...

~

Terpsícore hesitou ao dar o primeiro passo na descida das doze casas, mas não porque se sentiu cansada, mas por se lembrar da companhia de Defteros ao subir. Mais do que isso, lembrou-se de como ele se manteve distante e calado, sem trocar olhar algum ou palavra que fosse. E o problema não foi apenas nesse âmbito, mas também no que envolvia o desejo dela de ter sua atenção. Onde antes ele não hesitava, hesitou e a tratou como se não o estivesse acompanhando. E o que a deixou mais aflita foi perceber que ele estava diferente, num mal sentido.

Nem percebeu que, enquanto pensava no cavaleiro de gêmeos, desceu até a décima casa, onde ficou de encontrar Clio. Só que não havia ninguém ali.

– Clio? – Terps chamou, mas não obteve resposta. – Clio? CLIO.

– Senhorita. – em vez disso, quem apareceu foi o protetor da casa. Terps não deixou de observar que ele não vestia a armadura dourada dessa vez, e sim roupa normal de treino. – Pode passar.

– Ah, mas fiquei de encontrar Clio aqui.

– Eu sei, mas sua irmã adormeceu. Seria muito inconveniente pedir que fizesse silêncio para não acordá-la?

Terps processou a informação. Quando parou para observar o cavaleiro, viu-o um pouco estranho, com um brilho diferente no olhar. Não que tivesse parado para realmente observá-lo anteriormente, mas a diferença era evidente demais. Entrou num turbilhão de pensamentos acerca do motivo de Clio ter adormecido na casa de Capricórnio. Isso era incomum demais para assimilar. Meio sem jeito, ela assentiu. Não ousaria questionar as decisões de Clio, pois seria mais incomum ainda.

– Sim. Então, poderia avisá-la de que segui para a vila sozinha?

– Sim. – El Cid respondeu com pressa. Ao ver a musa se virar e iniciar seus passos, ele acrescentou: — Tenha cuidado na vila, peça para algum cavaleiro lhe acompanhar na volta, caso retorne muito tarde.

Terps assentiu e saiu, enquanto El Cid, rapidamente, voltou para o quarto, onde Clio, adormecida em sua cama, repousava.

~

Degél não se importou se alguém poderia entrar na loja naquele exato momento, apenas enlaçou a cintura de Redka e a puxou para um beijo, recheado de saudade e louco para ser realizado após os dias que passaram sem ela. Nem pensou em hesitar a mão quando acariciou as costas meramente desnudas dela, oferecidas pela blusa bastante cavada naquela região. O contato com a pele quente da moça foi o bastante para que seu coração se aquecesse. Aproveitou o deleite de ambos para mordiscar os lábios finos dela, sem dar muito espaço de tempo entre um novo beijo tão faminto quanto o outro. Mas uma hora o ar se fez necessário.

– Espero que tenha compreendido a mensagem. – ele disse, entre leves suspiros, sem deixá-la sair de seus braços.

– De não viajar por tanto tempo?

– Eu diria de não viajar por completo. – a resposta fez Redka rir.

Os olhos escuros dela dificultaram qualquer concentração que o aquariano tentou manter e desencadeou num novo beijo, que não durou tanto quanto os anteriores, pois ela o afastou com cuidado.

– Deixe de ser mimado, Degél. – Redka graciosamente beijou o cavaleiro na bochecha.

– Devo entender que não faço falta? – com as mãos fechadas nas costas, ele fez uma pequena trajetória num dos corredores floridos da loja em poucos passos.

Redka revirou os olhos. Sacou na hora a intenção dele. No balançar de cintura, ela o seguiu, fingindo despretensão.

O clima lúdico entre eles sempre se mostrava assim: discretamente, de forma que só a comunicação entre eles fosse clara. Era como uma provocação mútua entre duas pessoas com desejos igualmente necessitados de atenção. Porém os dois, de suas formas objetivas (e subjetivas) mostravam diferentemente.

Degél caminhou até um espaço próximo da grande janela de vidro que dava para o espaço da praça e se virou para observar Redka se aproximando. Não resistiu em recebê-la com um meio sorriso, até porque manter aquela pose era um pouco difícil quando ainda havia saudade no peito. Ela não demorou em tocá-lo no peito com uma mão e fitá-lo juntamente a um sorriso mais delineado.

– Às vezes, é difícil acreditar que você é a quem se mostra diante da maioria das pessoas. É inconcebível, para mim, ver você de forma fria. – admitiu ela, com a voz calma. Seus olhos mergulharam na expressão de satisfação dele.

– Isso se deve ao fato de que eu mudo quando estou ao seu lado. Não é óbvio?

– É sim, e eu gosto disso.

A mão dele rapidamente se encontrou na bochecha macia da moça para acariciá-la com ternura. Seu desejo de permanecer ali por mais tempo palpitou na mente, mas, consequentemente, ele se lembrou de suas tarefas.

– Preciso me retirar. Antes, queria convidá-la para jantar comigo amanhã, como sei que está cansada hoje.

Apesar da fala ter saído seca, Redka reconheceu a amabilidade por trás do convite. Não esperou algo diferente, pois, na maioria das vezes, Degél sorria com os olhos – percepção que só ela, como o papel importante que tinha na vida do aquariano, poderia ter. Ela sabia que ele se abria de formas diferentes para ela; desde o início, ele a deixou entrar em seu ser, num âmbito desconhecido por qualquer outra pessoa. Era isso que a confortava nos momentos de ausência. Degél era frio, mas também quente.

– Por que está sorrindo assim? – ele perguntou ao ver a boca de Redka se estender.

– Francamente, Degél, às vezes acho que superestimo sua inteligência. – disse, rindo da expressão desgostosa dele. – Hum... Certo, inteligência não, mas sensibilidade talvez. Primeiro, estou sorrindo por causa do convite. Algo que supus como óbvio. – novamente, riu ao ver o aquariano revirar os olhos. – Segundo, porque estou feliz em te ver. – subiu as duas mãos para o rosto dele calmamente. – Te tocar. Saber que está seguro.

Num movimento, ele juntou suas mãos às dela e ofereceu um sorriso maior.

– Eu que fiquei aflito por você ter viajado sem a minha proteção.

– Ora, que bobagem! – Redka voltou as mãos para a própria cintura. – Já viajei várias vezes e nunca ouvi algo assim de você. Sou forte, não preciso de proteção.

A florista quase não acreditou no que seguiu após seu comentário: Degél permitiu uma risada natural sair de sua boca, sem se importar. Momentos como esse eram raros.

Sem cerimônias, ele a puxou para um abraço apertado e aproveitou para acariciar os cabelos ruivos.

– Por favor, precise de mim. – apesar de ele ter dito de modo ameno e lúdico, uma grande pitada de verdade transpareceu.

– E eu preciso. – retribuiu o abraço na mesma intensidade.

Enlaçada no abraço, com a cabeça em repouso no peito acolhedor do aquariano, Redka se encolheu, à procura de desfrutar de cada espaço envolvido naquele corpo. O aroma cítrico de Degél adentrou suas narinas e desembaralhou sua mente, a ponto de não possuir mais foco algum que prendesse sua atenção a não ser aquele instante. Manteve os olhos abertos, porém esses não viram nada além de qualquer coisa. Sim, porque poderia passar qualquer coisa que nada a tiraria dali.

Exceto por Terpsícore. Rapidamente, os olhos escuros da florista acompanharam a musa da dança passando pela praça, mas só porque foi algo bastante incomum. Red viu Terps entrar na casa de chá de um dos moradores da vila e momentaneamente se preocupou. O dono da loja era conhecido por seus leves truques de chá caseiros. Talvez fosse melhor avisá-la, mas o abraço do aquariano ainda mantinha o efeito inebriante...

Notas finais
ATENÇÃO: o próximo capítulo é um dos ~mais esperados~ dessa fic. Portanto, se vocês COMENTAREM nesse daqui, mostrando que querem logo sacar o babado, eu posto em menos de dois dias! Uma dica? Um spoiler? ~ A presa está na mira do predador ~. HAHAHAHA um beijo