EmMusas - The Lost Canvas

14 Nem reparou que sorria


Notas iniciais
Mesmo tendo falado há um minuto com vocês (e vocês provavelmente não leram nenhum dos caps ainda hahaha), estou aqui, às 2h da manhã, agilizando esse esquema e trazendo esse cap que eu gosto muito. Bom, nesse cap, começamos o luau com pequenas mudanças... Há um momento quentezinho – pelo menos eu achei porque eu imaginei melhor do que consegui passar – que vai desencadear bastante coisa mais pra frente! Também dará pra perceber alguns sentimentos aflorando por umas três partes. Fiquei bem empolgada escrevendo esse capítulo, que só não demorou porque eu achei meus headphones e agora posso escrever totalmente imersa na minha viagem – até porque ter mãe e padrasto capricornianos é foda, eles falam, falam e não estão nem aí se tu tá escutando ou não (o erro!!!). Mas bom, deu tudo certo! Queria dizer, também, que eu escutei muito Sam Smith pra escrever esses capítulos de EmMusas, ele tem a vibe que me inspira pra esses romances delicados (ou não, né, Defteros?). Então, recomendo deixar uma playlist dele, do youtube mesmo, tocando pra intensificar esses climinhas! Enfim, chega de enrolação e vamos logo à leitura, espero que seja boa! Beijos beijos Ps.: vejam a imagem porque preparei os visus com certas intenções, haha. Na imagem, as de cima: Urânia, Calíope e Terpsícore; as de baixo: Clio, Melpomene e Tália.

Capítulo 14

Urânia acordara mais cedo que o normal para poder ajudar Sasha na investigação dos registros celestes passados. As duas sentiam uma certa proximidade com o que achavam que deviam descobrir, ainda mais com a ajuda do Planisfério Celeste Sul. Sim, a relação que a musa fizera com as marcações observadas fora extremamente importante para um notável avanço na leitura dos registros. Perceberam semelhantes posições nos mapas das constelações copiados nos registros e sentiam, cada vez mais, que a reencarnação passada de Athena lhes queria alertar sobre algo.

– Veja, Sasha, nesse aqui. – Sasha se aproximou para observar o mapa. – Vê? Ela anotou 35 graus negativos em libra. Aliás, entre zero e trinta e cinco. Ou seja... – Urânia mexendo no planisfério. – Se considerarmos que os registros são noturnos, esse céu corresponde a início de Maio.

– Ela está nos apontando datas.

– Estimativas. Nada certo. Qual é a classificação desses? – perguntou a musa, folheando outros registros. – Impetum. Ataque. Mas... De quem seria esse ataque?

Sasha se perguntava o mesmo desde o início de sua investigação. Esperava encontrar um norte sobre isso, mas os nortes apareciam diante de outras questões; ainda assim, todos eram bem vindos.

– Urânia, se corresponde a início de Maio, então podemos traçar o movimento das estrelas, de acordo com os registros e anotações! – a mente de Sasha iluminou, pelo visto as coisas correriam mais rápido. Uma data era tudo que elas precisavam.

– Pensei exatamente isso, Sasha! – Urânia sorriu para a deusa. – Mas temos de tomar cuidado. Se nos convencermos de que estamos no caminho exato, podemos nos distrair em relação a pequenos detalhes importantes. Detalhes que talvez mudem todo o rumo dessa trajetória.

– De fato, está certa. Ainda assim, podemos fazer o mesmo que minha reencarnação fez: estimar. – nada seria desperdiçado e tudo seria valioso para Sasha. Conter uma alegria, naquele momento, era quase absurdo.

– Sim, poderia me alcançar esses outros? – perguntou a musa, apontando para quatro folhas distantes. A deusa prontamente atendeu. – Obrigada. – e reposicionou os registros um ao lado do outro. – Veja, entre trinta e sessenta graus negativos: a constelação de Lobo. – Ou seja, hmm – mexendo no Planisfério novamente. – Meio de Maio.

– Está parecendo um calendário de ataques. – disse Sasha, despretensiosamente.

Urânia deixou o Planisfério cair, fazendo um barulho incômodo para as duas na sala. Virou-se lentamente para a deusa, com uma expressão indecifrável.

– Sasha, e se o registro for dos ataques do inimigo? E se Athena estiver nos apontando o momento de aumentar a guarda?! – Urânia arregalou os olhos em sinal de surpresa. Sasha riu timidamente e a musa estranhou. – Oh, entendi. Athena é você então, consequentemente, está nos guiando aqui.

Sasha não deixou de rir com a descontração da musa, mas era isso mesmo e, ao mesmo tempo, não.

– Se eu tivesse feito isso realmente, não estaríamos procurando o motivo dos registros. Então, de certa forma, você está correta ao falar em terceira pessoa. – Sasha sorriu bondosamente.

– Admito que estou um pouco confusa. – corando.

– Não fique, Urânia. Apenas deixe de lado, você está mais que certa. – encostando a mão no ombro da musa. – Acho que devíamos fazer uma pausa. Aliás, não. Devíamos parar por hoje, certo?

Antes que Urânia pudesse responder, ouviram batidas na porta. Uma serva pequena e loira entrou com uma bandeja de chá.

– Oh, Pío, obrigada! – agradeceu a deusa, oferecendo um sorriso gentil à serva, que acenou com a cabeça. – Antes de sair, diga-me como vão os preparativos para o luau.

– Tudo está sendo montado e preparado com a maior antecedência e cuidado, deusa Athena. – disse a pequena, enquanto fazia uma reverência. Athena agradeceu e dispensou a serva.

– Sasha... – Urânia chamou, assim que a serva saiu.

A deusa franziu os lábios na tentativa de conter o riso e virou o rosto como se estivesse olhando o mapa da parede. Não contara que investira mais do que Urânia queria no luau, mas o fez porque a ideia lhe era adorável e merecida de uma boa confraternização. Seria, inclusive, ideal para seus cavaleiros e amazonas.

– Sasha... – dessa vez, a deusa virou lentamente o rosto, com uma expressão suspeita. – O que andou preparando para o luau? – a musa estreitou os olhos e Sasha não aguentou e riu.

– Você verá, Urânia, e gostará!

~

A tarde passara normalmente para todas as musas, que preferiram repousar na Décima Terceira Casa, exceto Mel, que foi até a vila ter mais uma sessão de elixir com Redka. Por desmaiar novamente, permaneceu boa parte da tarde no quartinho que havia nos fundos da loja, enquanto a amiga atendia os clientes.

Clio e Urânia se envolveram com os vários livros da biblioteca do Santuário, parando apenas para fazer um lanche na companhia de Sasha. Clio notara um brilho diferente nos olhos da irmã, e sua áurea celestial parecia ainda mais intensa; Urânia estava mudada. Não... Estava apaixonada – estado dela que as irmãs conheciam bem, infelizmente. Se fosse o caso, torcia para que o escolhido não fosse que nem o anterior.

Terpsícore passara o dia tocando sua lira e dançando no jardim, agradava-lhe tal contato com a natureza, sem falar que o jardim da 13ª Casa era absurdamente encantador e grande. Não muito longe dali, Tália descansava no tronco de uma árvore grossa e alta, refletindo sobre certas palavras estranhas que ouvira do canceriano abusado.

Você ainda não chegou lá, musinha”. O que ele quis dizer com isso? Onde era o “lá”? Pela primeira vez, Tália teve medo de afastar alguém devido à sua estranha maneira de ser. Manigold, por mais convencido que fosse, agradava-lhe a ponto de procurar sua companhia. Seria lamentável se isso mudasse, talvez ela tivesse que ter uma leve mudança para impedir tal possibilidade. E assim o faria!

– Calíope?

A musa da poesia épica terminava de abotoar o vestido branco, de regata com as bordas de um amarelo claro, até ouvir o nome chamado por Tália, que se encontrava na porta de seu quarto, com uma expressão diferente. A musa da comédia sabia que não poderia ter se enganado; Calíope estava muito bonita, só não estava linda porque sua personalidade não deixava.

– Entre, Tália. – disse séria, o que surpreendeu Tália, que chegou de fininho esperando uma provocação. – Por que não se vestiu ainda?

– Então – Tália entrou no quarto e Calíope pôde ver que segurava o vestido branco que usaria. -, gostaria que me ajudasse a... Mudar um pouco o visual. Seria possível?

A cara da ruiva diante do pedido inusitado era de choque, não só porque as irmãs nunca pediram isso a ela, mas também por ser justamente a autêntica Tália a ter a primeira vez. Sem preparo para isso, a musa sorriu sugestivamente.

– Achei que esse dia nunca chegaria. Finalmente você se deu conta. – levantou-se e se virou para Tália. – Venha, sente-se.

A musa da comédia sentou na cadeira da penteadeira e, em segundos, foi tomada pelas mãos habilidosas de Calíope. Enquanto isso, Tália mergulhava nos pensamentos acerca do que lhe fora dito pelo canceriano; se tivesse de haver mudança, haveria. Não era de negar um desafio, a menos que fosse inconveniente ou absurdo, mas esse não parecia conter tais características. Aliás, o desafio fora inventado por ela, Manigold apenas a provocou...

~

Athena, o Grande Mestre, Sísifo e El Cid aguardavam as musas no Salão Principal. Os dois cavaleiros de ouro haviam se disponibilizado para acompanharem a descida desde o início, e informaram que seriam acompanhados, ao longo dela, pelos outros cavaleiros. Logo Clio, Terpsícore, Melpomene e Urânia chegaram – essa última arrancou um suspiro de Sísifo assim que se apresentou. Tirando os cavaleiros, que vestiam as armaduras, todos os presentes vestiam branco – como requerido por Urânia, ao jogar a proposta. Então, podia-se dizer que havia uma áurea compartilhada desde já. Em seguida, Calíope e Tália se juntaram.

Muitas testas franzidas foram vistas pela musa da comédia.

Os presentes, principalmente as musas, estranharam a mudança visual de Tália. Não que ela não estivesse apresentável, mas parecia ter tirado a própria essência em função de algo supérfluo. A própria expressão dela não combinava com o cabelo solto e a franja alisada; o batom, então, era quase absurdo naquela boca, pois era a única musa que não via vantagem alguma nessa peça de maquiagem. Já Calíope, ao lado da irmã, enchia o peito de orgulho por ter feito tal obra de arte.

A descida foi rápida, a maioria dos cavaleiros já se encontrava na praia e os que tinham ficado em suas casas se juntaram ao grupo que descia. Melpomene, andando mais atrás como de costume, admirava a rosa branca que tinha em mãos. Ao passar pela Casa de Peixes, novamente ouviu que Albafica ficaria em seu posto, teria ficado triste se não tivesse ganhado a rosa e escutado o que escutara.

– Essa rosa branca é tão bela! – disse ela, assim que a recebeu, sem se importar se o grupo já estava distante. Albafica, apesar de se preocupar minimamente com o atraso da musa, ficava feliz por receber sua atenção dessa forma.

– Perde apenas para você, Melpomene. – revidou ele, com um tom carinhoso.

Ele também pensava nela depois que a musa saíra de sua Casa. Lembrou-se das bochechas coradas assim que a elogiara e em como ela juntou a rosa ao peito, como se representasse uma aproximação que gostaria de ter com ele.

Entretanto, o pisciano não deixou de notar que a áurea dela estava diferente, um pouco pesada, como se envolvesse algo mais denso. Sem identificar, contentou-se com a lembrança do momento.

Assim que o grupo chegou na praia, Urânia estacou. Por mais que às vezes investisse nesses luais que fazia, nunca havia preparado tanta coisa como o que Sasha mandara preparar. Quatro tendas brancas estavam organizadas uma do lado da outra, cada uma contendo grandes tapetes de tecido fino e tatames japoneses, juntamente com várias almofadas coloridas e pequenas mesas de madeira onde se via várias garrafas de vinho. No meio de duas tendas, havia uma mesa comprida, coberta por uma toalha branca e muitas frutas, pães, patês e doces. Um grupo de músicos reunidos na segunda tenda tocava para embelezar ainda mais a noite.

Sasha e Sísifo riram juntos ao verem os olhos de Urânia brilharem como duas estrelas, e assim que ela percebeu tratou de agradecer a deusa pelo carinho para com sua proposta. As outras musas também admiravam o local, ainda mais porque o charme todo estava em ser tudo na beira da praia. O mar estava relativamente calmo e a lua aparecia timidamente atrás de nuvens rasas, via-se que ela não desapontaria nessa noite.

Vários cavaleiros e amazonas já desfrutavam do evento, mostrando descontração e uma energia muito boa entre todos. Parecia muito aconchegante deitar num tapete e observar as estrelas, pois, aqueles que o faziam, estavam evidentemente se divertindo. De repente, duas pessoas se aproximaram do grupo. Degél estava acompanhado.

– Redka! – Mel gritou, animada por ver a amiga no evento. – Nem sabia que viria, que ótima surpresa! – abraçou e aproveitou para sussurrar no ouvido da amiga. – Não estou mais distribuindo choque, estou?

Redka riu e abraçou de volta, tranquilizando Mel ao responder que não. A ruiva vestia um leve e curto modelo de vestido branco que deixava seus ombros à mostra e, no cabelo, um lírio branco repousava numa das orelhas delicadas. Clio se aproximou e abraçou a amiga ruiva com igual consideração. Ficara feliz por vê-la ao lado do aquariano, ainda mais depois que ele se apresentou para buscá-la quando Clio informou sobre o convite. Degél estava tomando as atitudes sozinho, ela apenas apresentava as oportunidades.

– Obrigada por aceitar o convite. – disse a musa da história, Mel franziu a testa.

– Obrigada por tê-lo feito. – a florista devolveu, visivelmente feliz. Após cumprimentarem Degél e Redka, que foram em direção à mesa, Mel se virou para a irmã.

– Você a convidou?

– Sim, por quê? – Clio sem entender a expressão triste da musa.

– Eu deveria ter feito isso... – comentou Mel. Realmente, sentiu-se mal por não ter feito o convite depois de tanto trabalho que deu para a amiga. Clio passou um braço pelos ombros dela.

– Não se reprima, o importante é a atenção que daremos a ela. – sorriu a musa. – Não há necessidade de tamanha cobrança, Melpomene.

Era necessário utilizar um tom mais sério com Melpomene quando ela se chateava por algo que julgava sua culpa, pois, por uma enorme sensibilidade, ela tendia a remoer e intensificar a “tragédia” que havia no fato, por mais mínimo que este fosse. Clio não a deixaria arruinar a própria noite com uma besteira dessas. Entretanto, como nada passava inocentemente por sua mente, perguntou-se porquê Mel sentia o que parecia um tipo de dever para com Redka. O que elas tanto fizeram na tarde anterior?

– Enfim – Clio disse para si mesma. -, entendeu? – para Mel, que assentiu em resposta e pediu licença, indo em direção à Redka. – Ótimo...

– Olá, belíssima. – uma voz arranhada e engraçada falou, no ouvido de Clio, fazendo-a tomar um susto.

– Kárdia! – sorrindo para ele. – Obrigada.

Kárdia, de longe, vira a musa chegar e a admirara; Clio parecia nunca se esforçar para ficar bela, era incrível como qualquer coisa lhe caía bem. O penteado nada comum que arrumara, envolvendo os cabelos com a trança, fizera com que seu rosto se destacasse ainda mais, principalmente a região dos olhos, e, consequentemente, chamasse mais atenção ainda. Ah, a belíssima Clio, que já havia ganhado esse adjetivo como necessário na mente do escorpiano. Apesar de ela ser o oposto de Kárdia, conseguia atraí-lo com um magnetismo quase inaceitável.

– Por que trouxe um livro, Clio? – curiosamente olhando o livro verde que ela tanto apertava, enquanto segurava seu vinho.

– Na verdade, não é um livro, é uma espécie de caderno, no qual eu escrevo sobre momentos. Às vezes, desenvolvo contos inspirados nos outros... – respondeu meio aérea, era interessante relembrar a utilidade de seu adorável objeto.

– Você acha que eu daria um bom conto?

Clio não evitou rir da pergunta, até porque nunca a ouvira antes.

– Bom... Não tenho como definir dessa forma, preciso observá-lo ou compartilhar coisas com você, cavaleiro.

– Por favor, não me chame assim. Acho que já passamos dessa barreira de “cavaleiro”, me chame pelo nome, Clio. Ou você não gosta quando lhe chamo pelo nome? – o jeito afobado do escorpiano ficara em evidência na fala, deixando a musa mais descontraída.

– Chamo sim, Kárdia. Acho que passamos dessa barreira sim. – ela sorriu, recebendo um sorriso tentador de volta.

– Então, ouvi que devo compartilhar coisas com você, é? – ele se aproximou dela, que, para sua surpresa, não se afastou.

De fato, tanto Clio quanto Kárdia estavam envolvidos um pelo olhar do outro. Os olhos azuis tentavam algo que, antes, não tinham tentado: envolver sensualmente. Clio fora fisgada de leve, sabia que havia uma diferença naquele olhar que recebia, mas, ao contrário de Kárdia, não se esforçava para olhá-lo de tal forma.

– Pode começar compartilhando esse vinho... – disse ela num tom mais baixo, que, aos ouvidos do escorpiano, foi bastante sexy.

Ele entregou o copo e ela bebericou lentamente, sem tirar os olhos de Kárdia. Igualmente, ele a devorava em pensamentos, exibindo apenas o semblante seguro de sempre. Não demorou em chamá-la para se servirem de mais na mesa, e ela o acompanhou.

De longe, um cavaleiro amargurado observava a aproximação, franzindo a boca e endurecendo o maxilar. El Cid, por um momento, desejou ter alguma porcentagem dessa espontaneidade de Kárdia.

~

Numa ponta da mesa, Tália e Terpsícore dividiam um cacho de uva, já que nenhuma das duas pretendia beber vinho nessa noite. Observando as pessoas ao redor, elas dividiam, também, um silêncio; sabiam que cada uma procurava algo, ou alguém, e a cumplicidade ajudava a manter a harmonia.

Tália sabia que Manigold já estava na praia, mas não o encontrava em lugar algum. Virou diversas vezes o corpo para poder ampliar seus ângulos, entretanto, de nada adiantou. Levou a quarta uva à boca em homenagem a própria frustração, mastigando-a com tédio.

Terpsícore, por outro lado, achara logo quem procurava. Quase se sentiu atraída para o ponto onde ele estava, pois era observada indiscretamente. Corada, encarou de volta o olhar atrevido e maldoso que recebia de Defteros, e, assim que o desviou, viu que estava acompanhado de duas amazonas que pareciam admiradas. Um leve sorriso vitorioso foi dado, por ele, ao ver a musa atingida pelo que via. Estranhamente, ela sentiu um misto de calor com incômodo ao vê-lo por completo.

– Boa noite, belas musas. – a voz arranhada de Manigold foi ouvida pelas duas. Tália se virou animada, mas tentou não demonstrar.

– Boa noite, cavaleiro. – respondeu ela, com uma expressão desafiadora.

Manigold ia responder, mas parou para observá-la direito. Tália estava completamente diferente, quase uma outra pessoa. Apenas o lenço verde de sempre fazia parte do figurino, mas, de resto, nada a ver. Primeiramente, o cabelo liso e arrumado não combinava; segundamente, o vestido branco era justo demais – ressaltando seu belo corpo, o que era bom, mas ainda assim limitando seus movimentos espontâneos; terceiramente, ela não parecia confortável, sequer parecia Tália. A única coisa que achou sensual foi os lábios pintados de escuro.

Tália percebeu que a expressão de Manigold a analisava e pôde ver mudar para uma de estranhamento. Pelo visto, não o agradara. Se ele, pelo menos, evitasse a cara que estava fazendo, seria mais aceitável o fato de que seu esforço valeu de nada; que ficaria ridícula no resto da noite por nada; e que sua submissão à Calíope fora em vão. Ah, definitivamente, esse último fato ficaria marcado. Num impulso, ela se retirou dali, indo em direção a uma das tendas mais afastadas, deixando Manigold mais intrigado ainda.

– O que aconteceu com sua irmã? – perguntou ele à Terpsícore, que não prestava nem um por cento de atenção na conversa dos dois. Seus olhos fitavam o cavaleiro de gêmeos com receio e uma leve chateação. – Terpsícore?

Ou ouvir o nome, Terps olhou para Manigold com uma expressão mesclada de desentendimento e desconforto, desejando sair dali rapidamente. Também num impulso, a musa pegou a taça de vinho do canceriano e virou o conteúdo, sem saboreá-lo, e saiu na direção oposto à do cavaleiro de gêmeos.

– A lua cheia por acaso muda a personalidade das musas e eu não to sabendo? – perguntou ele, para si, abrindo os braços. Sem muita opção, foi atrás de Tália.

~

Perto da quarta tenda, Calíope observa o céu, esperando ser iluminada pela grande lua que se escondia atrás das nuvens. Havia ido para aquele lugar para se afastar do que vira: Asmita. Quando ele finalmente decidira socializar, ela não conseguia encará-lo. Não via lógica em suas atitudes, pois apenas descobrira que o cavaleiro é cego. Só isso.

O problema era que ela não via como “só” e se intrigava com o porquê. Por que fora tão cortante descobrir tal fato? Apenas por não poder ser admirava pelo único cavaleiro que ela admira? De fato, estava sendo egoísta se considerar que apenas olhava sua situação; estava preocupada por ele não poder vê-la quando, na verdade, a tragédia disso tudo não estava nela, e sim na ausência desse sentido no cavaleiro. Ninguém gostaria de ser cego!

No fundo, ela sabia que estava sendo egoísta, mas simplesmente se encontrava travada. Alguma coisa dizia para ela ir falar com Asmita e se desculpar por sua reação, por mais ferida que estivesse pelas palavras que ouvira dele, mas ela não conseguia, o corpo não reagia, a mente não liberava e o coração não acalmava.

De repente, foi tirada de seus pensamentos ao ver que Asmita se dirigia à tenda em que estava, então saiu em direção à uma área menos iluminada, perto das rochas que delimitavam a praia do Santuário. Sentada na areia, pôs-se a olhar o mar, podendo, perfeitamente, dividir suas lágrimas com ele.

Asmita sentia o vento salgado vindo do mar, gostava da sensação dos cabelos voando e do cheiro que o local proporcionava, mas havia outro cheiro vindo de outra direção; um cheiro que ele já conhecia bem. Decidiu por segui-lo, prestando atenção nos sons que poderiam ajudá-lo a encontrá-la. Não demorou em sentir a presença da musa da poesia épica, que, provavelmente, estava sentada na areia.

Calíope, em míseros segundos, sentiu a presença confortante de Asmita ao seu lado, ele sentara na areia, cruzando as pernas como sempre fazia. Para ela, foi surpresa, havia saído de perto dos outros para justamente lamentar o que sentia pelo virginiano. O corpo dela permanecia travado.

Os dois permaneceram por alguns minutos em silêncio, apenas observando o mar da forma que podiam, até que Asmita decide pegar a mão dela e acariciar levemente.

– Sua pele é macia, atrevo-me a dizer que nenhum tecido superaria a sensação. – disse ele normalmente. Calíope ficou intrigada. Por que isso agora? Essa gentileza soaria falsa se não soubesse o quanto Asmita era verdadeiro. Ela retirou a mão e se encolheu um pouco mais. – Calíope...

– O quê? – com a voz emburrada. Sabia que parecia tola aos olhos dele, mas não havia olhos para olhá-la, então não importava tanto.

– Por acaso lhe ofende o fato de eu ser cego? – perguntou com certa preocupação, dessa vez tocou no pescoço dela até achar a mecha de cabelo solta para que pudesse envolver com os dedos. O toque deixou Calíope arrepiada e ela não sabia como responder a pergunta. – Responde com sinceridade.

– Para quê? Para você me criticar e dizer o quão mimada sou? – com voz chorosa. Asmita não respondeu de imediato. Na verdade, ele fez algo extremamente inusitado quando deitou a cabeça na dela.

Calíope travou, cada toque a deixava mais tensa por não saber o que fazer, ao mesmo tempo em que se sentia desconfiada da atitude dele. Esperava algo tipo o beijo que levou seguido de palavras cruéis. Sim parecia que todo carinho de Asmita tinha um preço desse tipo.

– Se eu disser que posso vê-la, você me deixaria lhe provar?

Por um momento, Calíope não sentiu mais nada. A única coisa que importava eram as palavras ditas por ele. Claro que ela deixaria que ele provasse algo assim, mas como seria possível? Ela respondeu que sim.

– Então, peço para que se vire para mim. – dessa vez, o pedido saiu com um leve sorriso, o que deixou a musa desnorteada. Asmita tinha uma beleza divina. Sendo assim, ela se sentou de frente para ele. – Antes de tudo, digo-lhe que sei que é linda.

– Como?

– Posso não enxergar com os olhos, mas, como já lhe disse, posso ver de outras formas. A sua primeira beleza que apareceu para mim foi sua voz. – com serenidade, ele contava. Calíope se surpreendeu com a colocação e corou; os olhos atentos arregalaram um pouco. – Tenho certeza de que ouvir seu canto seria um privilégio. O seu aroma floral é outro fator que lhe torna mais bela, é quase uma onda que atrai os amantes do mar. – ele fez uma pausa na fala para cheirá-la no pescoço delicadamente. Calíope fechou os olhos ao sentir a ponta do nariz de Asmita deslizar pelo seu ombro. – Sim, seu aroma é definitivamente adorável. – e se afastou.

O virginiano, então, subiu uma das mãos e com os dedos tocou a face dela, deslizando da testa até o queixo, passando pelos lábios – onde se demorou um pouco ao contorná-los – e depois pela bochecha direita, a qual afagou com o polegar.

– Sua pele, como já lhe disse também, é macia e, provavelmente, não há tecido melhor que ela. – ele aproximou o rosto dela, que automaticamente tocou no dele. – Ah, aí está. O seu toque também é bonito, delicado e singelo... – Asmita sorriu de satisfação ao vê-la mais envolvida e atenta. Calíope decidiu fechar os olhos e imitá-lo, ao mesmo tempo em que sentia seu rosto explorado pelos finos dedos dele. – Você é bela, Calíope. Belíssima.

Asmita não resistiu e a envolveu com os braços, puxando-a para um beijo. Surpresa, porém maravilhada, Calíope entrelaçou os cabelos loiros dele com os dedos, envolvendo-o mais no beijo, enquanto ele, com uma das mãos, acariciava as costas dela e, com a outra, envolvia a cintura fina.

Num ritmo mais lento, os dois enroscados acabaram deitando na areia, aprofundando ainda mais o beijo quando Asmita se inclinou um pouco em cima dela. Nenhum dos dois tinha coragem (ou vontade) de finalizar aquele beijo cálido; degustavam das mais intensas formas.

Calíope, assim que se viu presa por ele, levantou as mãos de forma que descansassem acima de sua cabeça, na areia, e se permitiu aproveitar cada carinho que recebia do virginiano. Manteve-se de olhos fechados, compreendendo como era melhor para sentir o que a cercava. Com certeza, era melhor sentir o que estava acontecendo do que assistir. Sentiu, então, seu joelho ser levemente flexionado quando Asmita o trouxe mais para cima, no intuito de deslizar a mão por ela, que, em resposta, arfou e apertou o cabelo dele – algo que só incentivou a fazer o mesmo na coxa dela.

Ele finalizou o beijo, passando os lábios para o braço esquerdo dela e o pegando; beijou a pontinha de cada dedo delicado dela. Ela aproveitou para tocá-lo nos lábios com as pontas beijadas dos dedos. Nem reparou que sorria com a atenção que ele lhe dava, o coração estava calmo, era confortante ter Asmita ao lado.

Notas finais
Queria nem dizer, mas achei a mudança de Tália O erro!!! Beijos pra quem também madruga :**