Notas iniciais
Olá, queridíssimxs leitorxs! QUE SAUDADE, MEU DEUS. Bom, ok, novamente vou me desculpar pelo imenso atraso, que ultrapassou um mês. Acontece que eu estou, ironicamente, com falta de vitamina D. SIM, falta de vitamina D, olha que show! E ironicamente porque eu moro na conhecida Cidade do Sol HAHAHAHA Ai, gente, que beleza. Estive me recuperando de gripes e crises, bem como trabalhando e estudando bastante, porque preciso de din din e a vida não é fácil. Tive um grande cansaço mental também, por isso, consequentemente, minha mente me bloqueou um pouco, mas finalmente voltei. Espero que entendam. Não vou prometer uma prazo curto pro próximo capítulo, ok? Mas farei de tudo pra que seja rápido. Enfim, to atrasada pra um espetáculo, mas fiz questão de finalizar e postar hoje o capítulo, então BOA LEITURA, AMORES. E comentem pra mim, tá? ♥ ps.: Perdoem os erros. Amanhã revisarei o capítulo direitinho!

Capítulo 61

– Cavaleiro de Pégaso, pretende voltar a enfrentar o Imperador do Inferno nesta vida.

– Não pode ser... Por quê? – o fato de o cavaleiro vestir a armadura de ouro não fazia sentido para Tenma. O que um cavaleiro de ouro estaria fazendo no Inferno quando deveria se mostrar aliado à Athena?

E o pior detalhe: seu cosmo possuía a agressividade de um potente inimigo.

– Escutei muito falar do grande transgressor da ordem dos Deuses. – disse, sem mover mais do que os lábios. – Mas quando o encontro, só vejo um reles garoto. Estou decepcionado. Athena é tola demais por, após tantas Guerras Santas, ter perdido a capacidade do julgamento. Vejo que a razão não está do lado da jovem deusa nesta guerra. Talvez o verdadeiro caminho seja o proposto por Hades.

– REPITA ISSO! – Tenma se exaltou. O maldito tocara logo em seu ponto fraco. Como tinha coragem de dizer algo assim? – Você quer trair Athena mesmo sendo um cavaleiro de ouro?!

Era inacreditável, irritante e incogitável, porém também era o que se mostrava. E o fato de Asmita continuar em sua serenidade fazia com que um incômodo profundo se apossasse no corpo do garoto.

– E o que fará se isso for verdade?

– Lógico que eu lutarei contra você! – num impulso, Tenma saltou em direção à Asmita. – Meteoro de Pégaso!

KAHN.

Na face de Pégaso, estampado em cada traço, havia surpresa. Seus meteoros resultaram em absolutamente nada.

– Acha mesmo que esses seus socos movidos pela raiva poderiam surtir algum efeito em mim? Morra pela segunda vez e que suas cinzas se espalhem e se percam no espaço-tempo! – com um movimento de mão, proporcionou a queda de Tenma naquela cachoeira de sangue. – Tsc. Patético.

Tenam sentia a raiva ferver dentro do peito, quase palpável, louca para explodir e gastar o último fiapo de força contra aquele cavaleiro maldito. A visão ficou turva por alguns instantes, deixando claro que, se não controlasse o ódio, perderia facilmente no próximo golpe. Levantou-se pouco determinado, mas levantou e sentiu as gotas quentes de sangue escorrendo pelo corpo. Não sentiu nojo, porém, pois seus olhos insistiam em focar, juntamente com a mente, o traidor diante de si.

– Ainda não morreu com meu golpe? – Asmita perguntou no mesmo tom morno. – Merece sua alcunha de matador de deuses.

Irritante.

– O quê? Você fica aí falando e falando, mas não sei de nada do que está dizendo! Não sei nada desse negócio de ser pecador de ordem nenhuma ou de matador de deuses! – ah, era difícil manter o controle. Sentia o deboche na face neutra e sem expressão do virginiano.

– Não julgaria o contrário. Pode não acreditar em minhas palavras, mas você possui uma ligação com o Imperador do Inferno desde eras mitológicas. E essa ligação pode até mesmo mudar o destino desta Guerra Santa. O cavaleiro de Pégaso sempre lutou ao lado de Athena na batalha contra Hades. Além disso, foi o único humano que conseguiu ferir um deus, o Imperador do Inferno. Mas, até onde vi, o Pégaso desta encarnação não passa de um garoto imaturo, bárbaro e dominado pela exaustão. Se deixarem a salvação da Terra em suas mãos, então não haverá salvação.

– E eu com isso?! – era absurda tamanha ladainha. – Eu só quero proteger a Terra e Sasha! – despertou novamente o cosmo e ergueu os punhos, prontificando-os para seu mais confiável golpe. Pôde sentir os meteoros serpenteando interiormente os braços.

– Já disse que seus golpes ridículos e sem força alguma não funcionam contra mim!

Tudo ocorreu rápido demais. De repente, Tenma se encontrou flutuando num local completamente diferente. Parecia até inexistir no mundo. A sensação era de perigo, mas a atmosfera transmitia também a impressão de serenidade – a mesma que acompanhava o semblante de Asmita.

E muitas flores de lótus surgiram no chão, mas logo desapareceram, dando espaço para uma enorme imagem de Buda, cujas mãos recebiam o cavaleiro de virgem.

– Não pode ser... Quem é você, afinal?

– Sou apenas um espírito em busca da verdade. Se não for capaz de me derrotar, não poderá vencer o Imperador do Inferno. Farei você expor toda a sua essência e a razão que o motiva! Uma guerra sem uma causa justa não tem salvação.

Tenma piscou profundamente os olhos, incomodado pela iluminação que tomou conta daquele espaço. Ao mesmo tempo em que era admirável, emanava perigo. Observou Asmita mover os braços e as mãos, num gente que não reconheceu. “Ohm”. Entretanto, o cavaleiro de ouro não deixou de ser divino aos seus olhos.

– Receba a bênção do Senhor das Trevas... Rendição Divina.

~

Não havia se preocupado tanto desde que desafiara o espectro de Benu, no dia em que descobriu sua existência na vida de Urânia. Imediatamente, as lembranças o fizeram sacudir a cabeça, procurando expurgá-los. Ultimamente, anda assim, cheio de conflitos na mente, conflitos muito mal vindos quando se tratavam de assuntos triviais, se comparados ao maior deles: a guerra.

Sísifo subia as intermináveis escadas das Casas Zodiacais com pouco esforço. Em sua testa, gotículas de suor ameaçavam escorrer, mas ele as limpava constantemente. Não negava o calor, mas este era o de menos naquela desafiadora trajetória. Se Athena se esforçava para manter a barreira que protegia o Santuário, ele, de forma alguma, poderia sequer estremecer perante os obstáculos.

Sentia o tremendo esforço da deusa para com a ocasião e, mais do que isso, sentia a horrível agonia de ser impotente, de ser insuficiente no auxílio dessa árdua tarefa. Era a verdade, ele não poderia ajudá-la, nenhum deles. De que adianta, então, ser um cavaleiro de ouro, a elite entre os oitenta e oito cavaleiros de Athena? Sísifo sofria com isso.

– Dê-me licença para passar pela oitava casa, Kárdia. – anunciou-se, em alta voz.

Achou cômico quando viu o escorpiano saltar por trás do balcão da cozinha, num semblante atordoado e meramente suado. Sísifo revirou os olhos e aguardou resposta:

– Não precisava disso, Sísifo. – Kárdia levantou os cabelos azuis com uma mão e, com a outra, abanou o próprio pescoço. Seu rosto adquirira um tom escarlate que denunciou completamente seu estado de vergonha.

Não que isso importasse para o sagitariano. Não esse detalhe, pelo menos.

– Preciso dizer para que desça imediatamente ou já estava para fazê-lo? – Sísifo desviou o olhar, dando à Kárdia a oportunidade de se recompor calmamente. – Todos estão em atividade, não esperarei um motivo para que justifique sua falta.

– E nem pretendia dar. Descerei em poucos minutos.

Sísifo voltou seu olhar ao escorpiano que, estranhamente, não havia se movido um passo sequer e continuava atrás do balcão. A certa perspectiva, Kárdia parecia bastante incomodado com a terceira presença. Terceira, pois Sísifo já havia reconhecido uma segunda que chegara antes dele. Em instantes, com um esforço maior, teve certeza de quem era, e, balançando a cabeça para os lados, reprovou o escorpiano:

– Espero lhe ver lá na arena em menos de uma hora, Kárdia.

– Acho estranho isso vir da sua boca. – rebateu, observando as próprias cutículas sem interesse.

– O quê?

– Quem está subindo para averiguar o estado da deusa quando deveria se manter na arena treinando aspirantes? Sua carga de responsabilidade é tão grande quanto a minha, Sagitário. Eu até diria que é maior, devido à quantidade de pirralho que você toma como pupilo, mas é como dizem: quantidade não é, necessariamente, equivalente à qualidade. Certo? – Kárdia colocou, deixando em destaque um irônico sorriso de canto.

– Não lhe devo satisfações.

– Então não me cobre tantas, meu caro. – Kárdia soltou o cabelo e voltou o olhar para o passante.

– Não preciso dizer que são pontos diferentes, certo?

– Questão de perspectiva.

Sísifo bufou diante da língua afiada do escorpiano.

– Espero que não se esqueça de sua missão, cavaleiro.

– Só porque não a sigo da mesma forma que você, não significa que a esqueci, Sísifo. – Kárdia disse, encarando o colega com seriedade.

– Está certo. Com licença. – Sísifo deu um passo, porém parou. – E ah, antes que me esqueça — virou-se de costas para o balcão. -, a senhorita Clio viajou e deixou indefinido o tempo que estará ausente, senhorita. Achei pertinente lhe informar.

Com o mesmo semblante que entrou, o cavaleiro de sagitário saiu, deixando para trás dois amantes profundamente encabulados. Kárdia havia assimilado um pouco melhor a aparição de Sísifo e sua intromissão, porém ela não.

– Já pode se levantar.

– E você pode baixar. – ela disse, irritada, porém não se levantou.

Kárdia riu ao constatar o próprio volume entre as calças.

– Um pouco difícil quando você está assim, abaixada nessa altura e se escondendo dos outros. Torna tudo mais excitante. – Kárdia se abaixou ao perceber que ela não levantaria e tocou-a no rosto com certa ternura. – Está emburrada por quê?

– Ora emburrada! – livrou-se da mão dele com um tapa. – Só achei vergonhoso o cavaleiro de sagitário me reconhecer nessa situação! – seu rosto avermelhou-se ainda mais.

– Hmmm... – com as duas mãos, o escorpiano puxou o rosto dela para si e, na boca, depositou um beijo rápido. – Eu estou emburrado, sabe por quê? Porque fui interrompido. E quando estou emburrado, não consigo fazer nada direito. Quem vai resolver isso?

Em seu famoso atrevimento, Kárdia deslizou as mãos pelas curvas da moça, até encontrar as coxas fartas, protegidas por uma cara e refinada seda de tom verde – cor ideal para realçar a pele levemente bronzeada dela. Toda sutil reação que repercutia daquele corpo que tocava era o bastante para tentar-lhe imediatamente. Assim, Kárdia a apertou, trazendo-a para si.

Antes que pudesse beijá-la, foi empurrado por duas mãos no peitoral.

– Isso não é problema meu.

– Ah, adoro quando você se faz de difícil. Torna tudo mais excitante.

– Tudo é excitante pra você, cavaleiro. – revirou os olhos para ele.

– Corrigindo: tudo que envolve você se torna excitante para mim, mas não pense que para por aí.

Inesperadamente, Kárdia sentiu o pescoço se puxado e os lábios selados pelos dela. Lábios macios e espessos, num natural tom rosado; lábios atrevidos, que só enganavam que os via, pois, ao se mostrarem ativos, impressionavam o sortudo rapaz.

– Sem romances, por favor. — ela se afastou e o mirou com seus olhos azuis. – Cretino.

~

Polímnia mordiscou o oitavo biscoito. O próximo passo, com certeza, seria o de bebericar o chá já frio, que aguardava em cima da mesa de centro daquela sala. Estava nesses passos há um bom tempo já, enquanto esperava alguma palavra da irmã. Ambas não haviam saído dali desde que acordaram, porém os motivos eram diferentes, Polímnia só estava ali com intenção de acompanhar a indecisa Urânia.

– Sinceramente, não vejo motivos para que se incomode tanto assim com a desconfiança de Tália. – disse, após um longo período de silêncio.

– Finalmente você falou. – Urânia não se virou. Estava encostada numa das enormes janelas da sala, como habitual, observando a vista sem realmente fazê-lo.

– Estava me esperando? – bebericou o chá, por fim.

– Talvez.

– Vocês precisam aprender a me deixar quieta quando quero.

– E por acaso não deixei, irmã?

– Mas falsamente, pois esperou alguma iniciativa.

Urânia sorriu timidamente:

– Tendemos a esperar, pois ela sempre vem.

– Acho que não há como continuar nessa discussão. – Polímnia riu sozinha. – O ponto não é esse.

A musa da astronomia suspirou.

– Não estou tão incomodada quanto pareço. Sei que Tália agiu por impulso emocional e sei também que, em breve, ela perceberá isso. O que me incomoda, no entanto, é o que ela levantou em questão.

– Como assim? – Polímnia se ajeitou no sofá, procurando um melhor ângulo para observar a irmã.

– Polímnia, você que acompanhou os argumentos nitidamente, em quem confiaria: Tália ou Euterpe?

Embora Urânia não tenha demonstrado, Polímnia reconheceu a enorme insegurança por trás da fala da irmã, que, com certeza, andava guardando muitas dores em sua mais profunda esfera interna.

– Eu confiaria em você, já que ambas as possibilidades dizem respeito aos seus atos e, portanto, apenas você poderia me esclarecer. – rapidamente, respondeu.

– Entendo... E se eu não soubesse esclarecer?

Polímnia franziu o cenho.

– De que forma isso seria possível?

Antes de dar continuidade, Urânia fez questão de se virar para a irmã mais velha e mirá-la. Confiava demais em Polímnia para duvidar de suas palavras, mas algo a fazia sentir necessidade de olhar nos olhos das pessoas ao pedir uma resposta verdadeira, principalmente após ouvir sobre a desconfiança de Tália. O que menos queria era desestruturar as forças entre as musas.

– Se eu não soubesse dizer se deixei em segredo ou não o destino de Albafica? Se eu não soubesse dizer se reconheci ou não o final dessa história entre ele e Melpomene?

– O que está dizendo, Urânia? – seus olhos se tornaram sérios.

– Estou dizendo que percebi um movimento estranho na constelação de peixes, antes de vocês chegarem no Santuário. Cheguei a interceptar Mel, numa das tardes, para lhe falar sobre isso, mas não tive coragem. Não tive coragem de expor minhas desconfianças, por mais incertas que fossem... – a voz de Urânia estremeceu e seus olhos se perderam. – Eu deveria ter dito algo? Deveria ter evitado que esse amor deles crescesse? Deveria ter interrompido os momentos? Teria eu sido justa com ela se tivesse me colocado no meio do caminho e evitado esse sofrimento?

– Talvez a pergunta seja: teria sido justo evitar a felicidade que Mel sentiu pelos poucos momentos que passou ao lado desse cavaleiro? – Polímnia, suavemente, questionou, oferecendo um gentil olhar na face, que imediatamente impediu Urânia de se exaltar. – Urânia, não vejo mais sentido em procurar uma resposta, considerando que, infelizmente, o cavaleiro não se encontra mais aqui. Mas, ainda que fosse o caso, haveria duas perspectivas. Então, eu enfatizo: não optaria pela colocação de Tália ou de Euterpe, optaria por confiar em você.

– Entendi. – respondeu, fracamente, deixando um mínimo sorriso se formar no rosto. Um sorriso um tanto preocupado, contudo mais aliviado. – Sinto-me um pouco inútil ultimamente.

– Por quais motivos?

– Já se perguntou o porquê de estarmos aqui?

Polímnia assentiu, enquanto levava, em seus polidos movimentos, a xícara de chá para aos lábios, mais uma vez.

– Pergunto-me todos os dias.

– Pois bem. Se não é para ajudar Athena, não consigo encontrar outro. Ao mesmo tempo, vejo um enorme obstáculo nisso: como ou o que devemos fazer para ajudá-la? Isso está me tirando o sono, Polímnia. Quero saber o que podemos fazer para evitar com que ela tenha que passar pelo o que está passando neste exato momento!

– Talvez não seja de nossa responsabilidade.

– Então o que estamos fazendo aqui?! – a morena abriu os braços, expressando parte da indignação que, aos poucos, acumulava.

– Urânia, acalme-se. – pediu, em baixo tom. – Você sabe que Athena é a única capaz de proteger o Santuário da forma que está fazendo. E talvez não haja forma mais eficaz do que essa. Teríamos de fazer o mesmo em nossos templos. Cada lugar possui uma ligação com sua divindade protetora e, muitas vezes, apenas essa divindade é capaz de corresponder a ela, ainda que possua apoios tão poderosos quanto.

– Sei disso! – seus punhos se fecharam. – É só que... Perdoe-me por me exaltar, mas me sinto diferente desde que cheguei aqui.

– Claro que sim, sua vida mudou. Você não é mais a mesma e está em constante transformação, como todas nós. Porém seu fator possui algo a mais. Acredito que seja bem inteligente para perceber do que estou falando, irmã. – Polímnia piscou discretamente. – Você não quer apenas ajudar a deusa...

Urânia desviou a piscada, certamente encabulada devido às insinuações da irmã mais velha. Era bastante óbvia a necessidade que sentia de acompanhar seu querido cavaleiro em todas as tarefas e decisões que fazia. No entanto, esse não era seu papel e isso a indignava. Queria estará sempre ao lado de Sísifo, sendo a mulher que prometer ser, a companheira em todas as situações, aquela que ofereceria o maior apoio, mas claro que não seria assim. Deveria ter imaginado que seriam poucos os momentos em que realmente poderia ajudar.

– Gostaria de ter acompanhado Clio na viagem, mas ela me rejeitou. – Urânia riu, sem achar graça, achando melhor mudar o assunto.

– Rejeitou?

– Acredito que perdi um pouco da confiança dela após ter revelado que sempre soube da ingestão de veneno de Mel.

– Hm... Bom, Urânia, isso eu não aprovei, portanto prefiro não comentar algo mais.

– Eu sei. Cometi muitos erros desde que cheguei aqui, não? – enrolou uma mexa de cabelo nos dedos, enquanto escondia o rubor nas bochechas.

– Até a musa mais madura comete deslizes, Urânia. – Polímnia se levantou e seguiu até a janela, ao lado da irmã. Em seu tom maternal, disse: — Então perdoe-se, isso bastará.

– Tentarei.

– E também torça para que a suspeita de Clio esteja errada.

Urânia se virou para Polímnia, com evidente conflito estampado no rosto.

– Suspeita?

~

– Isso não faz sentido, sabe? Ele lhe desenha para depois esconder o resultado e lhe dizer que somente ele pode ter acesso. Isso é problemático, mas também romântico. – Erato discursou, analisando os próprios pensamentos após a informação recebida.

– Prefiro não fala sobre isso.

– Menos sentido ainda, Terps. Você me conta sobre coisas sobre as quais não posso falar! – a mais nova entortou a expressão.

As duas musas reviraram os olhos, rindo em seguida pela coincidência. Estavam sentadas na parte mais alta da arquibanca da segunda arena e, por mais que Erato não quisesse, assistindo o treino dos cavaleiros presentes. A musa mais nova havia procurado Terps para um passeio, por puro tédio e monotonia, e acabou aceitando, sem realmente querer, quando esta propôs que fossem fazer o que estava fazendo.

Erato sabia o motivo de Terps ter insistido nisso. Aliás, foi quando chegou na arena que acabou descobrindo, de fato. O dono do coração de sua irmã estava surrando alguém, dando a impressão de que uma briga estivesse se formando ali, porém, devido à inércia dos demais cavaleiros, deduziram que era mais uma etapa do árduo treino. Terps, ainda assim, não havia se acostumado.

– Quando vai me contar sobre suas amizades?

– Que amizades? – Erato se afastou, perplexa.

– Não pense que não lhe vi mais de uma vez ao lado de certo cavaleiro. – a insinuação nítida em sua fala intrigou ainda mais a irmã mais nova, que abriu a boca numa careta indignada.

– Está se referindo ao cavaleiro de leão.

– Estou.

– Pois bem, ele é uma graça, mas seu orgulho me afasta. Possui um ego maior do que cabe dentro dele.

– Talvez você esteja enganada, Erato. Ouvi dizer que ele passa impressões erradas quanto ao seu tamanho...

– Mais forte do que os outros ele não deve ser!

– E isso importa? — Importa no momento em que ele decide usar isso como uma forma de se promover perante os outros. Isso não é nada romântico! – Erato cruzou os braços na altura dos seios e varreu a arena com os olhos, à procura de algum ponto que despertasse sua atenção. Não estava gostando do rumo do assunto.

Terps se aproximou da pequena irmã e envolveu os ombros com seu braço, finalizando numa carícia suave. Adorava a meiguice espontânea de Erato.

– Conheço um ser muito novo, pequeno e surpreendente, que, ao ser provocado, explode uma força incalculável e impressiona qualquer um que ousou julgá-lo. – Terps roçou a ponta do nariz na bochecha de Erato, que, a essa altura, exibia um sorriso encabulado. – E esse mesmo ser é encantador até em ataques de fúria! Acredito que exista um cavaleiro na mesma condição. E talvez só dependa do pequeno ser para deixar com que isso seja comprovado.

Erato afastou lentamente a irmã, sem realmente querê-la longe, só por manha.

– O ser vai pensar no assunto. – respondeu, sem graça, extraindo uma risada gostosa da irmã. – Mas e você, Terps? O que vai fazer?

– Hm? – a mais velha levantou uma sobrancelha, não compreendendo.

– É bastante óbvio que anda infeliz por achar que vai perder seu cavaleiro.

– Como é possível que você tenha percebido isso? Não é óbvio para ninguém! Sequer para mim... – baixou a cabeça, entristecida. Por que Erato tinha de levantar tal assunto naquele momento? Estava querendo evita ao máximo pensar por esse rumo, mas parecia inevitável. Perguntou-se se Defteros havia suspeitado de algo.

– Às vezes, quem está de fora enxerga melhor. – cantarolou Erato, sorrindo, mas logo retomou a normalidade: — Mas, Terps, estou falando sério... Sei que a pergunta não é bem vinda, mas acho necessário levantá-la: o que fará se algo acontecer a ele?

Terps estremeceu. Passou um bom tempo procurando formas de evitar que os pensamentos tomassem tal rumo, bem como que a tomassem por total e a fizessem cair em desgosto. Não se sentia exatamente infeliz – isso era quase impossível, considerando a enorme atenção que vinha recebendo de Defteros -, mas a existência da possibilidade levantada por Erato era o bastante para perturbar-lhe o sono.

O problema em responder a pergunta não estava, contudo, na resposta. O problema era mais fundo que isso, pois Terps, simplesmente, não tinha respostas.

Terpsícore não fazia ideia de como ficaria se algo acontecesse com Defteros.

~

Abriu os olhos pela centésima vez. Ou seria milésima? Não soube dizer, só soube que só havia falhado na tentativa de voltar a dormir, ou sequer meditar. A ausência de Asmita e o desconhecimento de seu paradeiro haviam influenciado mais do que ela esperava, atrapalhando não só o sono, como também a respiração. E tudo isso devido à ansiedade.

Não o havia visto desde que adormecera após ter se entregado ao virginiano, de corpo e alma. Esperou acordar ao lado dele, porém dele só havia a cama em contato com sua pele. Não ousou procurá-lo, pois imediatamente se tornou amargurada. No entanto, o tempo só aumentava, assim como a ausência.

Decidida a encontrá-lo, levantando-se num rompante, Calíope seguiu, descalça, pelo chão frio da Casa de Virgem, até o corredor onde, uma vez, descobriu a entrada do Jardim das arvores Sala Gêmeas. Asmita havia dito que a entrada só se mostrava para divindade e pessoas que, de alguma forma, poderiam contribuir para sua missão — Calíope achava o fato incrível -, e provavelmente foi por isso que ela se sentiu tão acolhida lá dentro.

Assim que se deparou com a parede, perfeitamente nítida em sua memória, tocou-a suavemente, com a ponta dos dedos, fechou os olhos e respirou fundo, antes de abri-los novamente. No ato, concentrou toda a energia gentil e ansiosa, preocupada pelo paradeiro do protetor, talvez isso ajudasse no reconhecimento de sua pessoa.

Nada.

Nada mudou. A parede de pedra continuou ali, fria e escura, como se nunca antes tivesse se transformado numa belíssima porta de madeira, ornamentada por arabescos. Calíope tinha certeza de que não estava delirado. Havia passado um tempo com Asmita ali. Como poderia ter imaginado algo? Claro que não. Aquela maldita porta estava de sacanagem com ela, claramente.

– Você vai aparecer! – concentrou novamente o poderoso cosmo, até sentir a áurea externa se concretizar numa luz divina e brilhar intensamente, machucando-lhe um pouco os olhos. Os punhos fechados permaneceram na altura das coxas, que também estavam tensionadas, não apenas pelo esforço, mas pelo nervosismo.

Calíope estava errando, tinha noção disso. Seu estado de espírito não estava em condições de se concentrar para desencadear o que queria através do cosmo. Sentia-se exausta e frustrada, emocionalmente desestruturada. Sentia-se desprotegida e impotente perante aquela parede. Sentia-, sobretudo, cheia de dúvidas e saudades, como se tivesse passado uma eternidade sem o esnobe virginiano.

Em instantes, seu cosmo se reduziu novamente, causando-lhe um tremor nas pernas e enfraquecendo sua base. Perto da parede, Calíope bateu com os punhos, na altura de seu rosto, sem se importar com o impacto doloroso que lhe foi causado. Como quem perde forças, escorregou ali mesmo, deixando-se perder nas próprias frustrações. Mas não ousou chorar.

Se tivesse de esperá-lo – ideia que não lhe agradava, pois feria seu orgulho -, esperaria meditando no jardim que não tinha escolha em se fechar para ela. Fechada em seu semblante hostil, seguiu para o jardim da lateral da Casa de Virgem.

~

Ficou surpreendido, inegavelmente. Era a primeira vez que provava de uma sensação tão incomum. Tinha um leve sabor de frustração, ao mesmo tempo em que aparentava algo bom. Com certeza, quebrou suas expectativas, considerando que nunca vira algo assim. O garoto tinha resistido à Rendição Divina e ao Círculo das Seis Existências, porém tinha certeza de que não resistiria ao Tesouro do Céu. Inclusive, deu a ele a honra de ser morto pelo seu golpe mais poderoso. Mas ao vê-lo quebrar sua ilusão apenas com o punho que aparentava fragilidade, surpreendeu-se.

Observou Pégaso hesitar:

– O quê? A Mokurenji...? – Tenma disse. – Como ela veio parar aqui? E onde foi parar Asmita?

– Estou impressionado!

Decidiu se pronunciar.

– Por um instante, conseguiu ultrapassar seu sexto sentido e me acertar. – por mais duro que tenha sido, admitiu calmamente. – Não posso deixar de reconhecer que existe verdade em sua motivação.

– Impossível! – Tenma gritou, ao percebê-lo à sua frente, próximo à Mokurenji. – Quer dizer que minha luta com você foi apenas uma ilusão?!

– Ora, onde terá terminado a realidade para começar a ilusão? – momentaneamente, Asmita teve a impressão de questionar-se o mesmo. – Aliás, que diferença isso faria em seu estado etéreo? Veja. Esta é a Mokurenji, o único ser vivo existente no Reino dos Mortos. Ela deu seu último fruto em resposta à elevação de seu cosmo. – com um movimento, acelerou a queda dos frutos da grandiosa árvore. – O Mestre de Jamiel deve estar atrás destes frutos. Leve isto com você. As cento e oito contas.

Em segundos, Tenma sentiu o corpo ser jogado para trás, diante de uma explosão. Só teve tempo de ouvir a despedida de seu recém conhecido:

– Nós nos veremos novamente no mundo dos vivos, Pégaso.

~

Calíope sorriu.

Depois de algumas horas, conseguiu finalmente alcançou Asmita em sua meditação. Conseguiu ouvi-lo chamá-la suavemente e não ousou esperar um minuto a mais para atendê-lo. Levantou-se em desespero e correu até o corredor da porta que antes a rejeitou. Dessa vez, assustou-se ao vê-la ali, perfeitamente esculpida e viva, entreaberta, iluminando boa parte do corredor escuro e frio.

Seguindo o caminho da luz, Calíope foi apressadamente e, sem cerimônias, abriu um pouco mais a porta, até vê-lo ali, meditando serenamente, como uma divindade intocável e intocada. Um anjo pronto para acolhê-la.

– Asmita. – sussurrou, deixando que o som fosse levado pela brisa daquele jardim até ele.

Viu-o sorrir de lábios fechados e fazer um movimento para que se aproximasse, algo que ela rapidamente fez, e encarou-o com olhos de saudade.

– Você se tornou fraca, Calíope.

O sorriso da musa se desfez.

– De quem é a culpa? – ela questionou, num passo de se indignar.

– Sua e somente sua. A responsável por seus atos sempre será você. – respondeu, normalmente.

– Você me deixou aqui. – acusou, evidentemente ressentida.

– Terá sempre que estar pronta para quando lhe abandonarem.

Calíope sentiu uma pontada no peito, mas preferiu ignorar.

– Dependendo de quem, posso evitar que aconteça. – seus punhos se fecharam e sua fala saiu com uma dose de raiva.

Asmita sorriu, abrindo os braços com calma, sem querer assustá-la, chamando-a para perto.

– Sim, você pode. – ao sentir Calíope colada em seu corpo, abraçou-a com ternura e penteou os ruivos cabelos com os dedos. – Agora descanse.

~

Sasha sentiu o coração se acalmar minimamente ao vê-lo se ajoelhar diante de si, respeitosamente.

– Suas dúvidas desapareceram, Asmita?

Ele removeu o elmo.

– Sim. Perdoe-me por toda minha insolência.

– Nunca o considerei insolente. – a deusa esclareceu, sinceramente. – Sei que nascer privado da visão o faz sentir o mundo mais intensamente do que os outros e que isso o encheu de dúvidas.

– Sim. – ainda cabisbaixo, ele respondeu. — A Terra que meus outros sentidos conseguem captar está repleta de dúvidas e sofrimentos. Isso me fez refletir muito sobre o sentido de viver em um mundo como este. No entanto...

– Acredito que você tenha encontrado um possível sentido. – Sasha disse. Em sua face, a serenidade plena permanecia.

Asmita não precisou de mais palavras para compreender, ou sequer responder, o que a deusa havia insinuado. Não tinha forças, porém, para continuar nesse pensamento. Não queria correr o risco de por sua ilusão em risco.

Esperou, em silêncio, pela próxima fala da deusa:

– Você se encontrou com Tenma no Mundo dos Mortos, não é? – um tom mais animado acompanhou a fala de Sasha, que já podia sentir um alívio maior em seu coração. – Como era o Tenma visto pelos seus olhos?

Sem alterar um centímetro de sua posição, Asmita respondeu:

– Ele é exaltado, dominado pela paixão e sem juízo, mas, ao mesmo tempo, é muito humano. – terminou levantando o rosto em direção à deusa por impulso ao senti-la fraquejar diante da árdua tarefa. Manter a barreira que protegia o Santuário estava, certamente, consumindo muita energia de Athena. – Athena, vim até aqui para lhe fazer um pedido.

~

Na Casa de Libra, Dohko deixava a brisa refrescar-lhe o rosto e esfriar a mente dos pensamentos indesejáveis acerca da guerra. Muitas vezes, sentia que isso lhe impedia de pensar direito, devido aos vários perigos que pensava ter a obrigada de cogitar. Sozinho, nada conseguiria fazer, porém. E, por sozinho, compreendia-se sem seu querido pupilo.

– Finalmente, você voltou para a sua casa, Dohko.

O libriano, ainda sério, virou-se:

– Asmita? E quanto a você? Não sabia que estava fora da Casa de Virgem. – engrossou a voz: -Onde você esteve?

– Nada de mais. Apenas fui ao encontro de Athena.

Dohko surpreendeu-se. Questionou-se imediatamente como o virginiano havia ido até a deusa sem passar por sua casa.

– Não é motivo para tanta surpresa. – Asmita disse, por cima do ombro. Dohko não deixou de se sentir levemente ofendido. – Dohko. Aquele seu aprendiz não é perfeito, mas é um jovem que promete muito.

– Como você conheceu Tenma?! – exaltou-se. – Para onde está indo Asmita? O que pretende? – seu corpo adquiriu um semblante defensivo, porém este se desfez ao ver a tranquilidade com a qual o virginiano proferiu as palavras seguintes.

– Eu sou Asmita de Virgem. Nada mais e nada menos que isso. – virou-se de costas para o colega, sem deixá-lo perceber seu sorriso sem graça. – E os Cavaleiros só vão para um lugar: o local onde a morte nos acena.

– Asmita...

~

Perdoe-me.

– Hm? – Calíope oscilou ao abrir os olhos, abrindo-os à procura de identificar o espaço, e fechando-os por ter acordado recentemente e ainda sentir um leve sono.

Sentia os cabelos serem penteados com dedos e a cintura afagada com ternura, mas não havia quentura em gesto algum. Podia sentir o toque que tanto conhecia, que havia gravado em seu mais íntimo espaço, mas não havia essência ou identidade. Parecia uma cópia.

Virou-se, portanto, para vê-lo e ali ele estava, sereno e com seu semblante esnobe, como sempre. Mas não parecia real.

– Asmita? – chamou-o e o viu virar o rosto lentamente.

Asmita sorriu. E esse sorriso foi o único gesto sincero que pareceu desde que entraram juntos naquele jardim.

Só havia uma forma de descobrir o que havia de errado naquele instante, naquele Asmita.

– Beije-me. – ela pediu e foi prontamente obedecida. Fechou os olhos para recebê-lo e pode senti-lo com a boca na sua, mas quando abriu os olhos, encontrou-se num jardim.

Não era mais o jardim das árvores Sala Gêmeas, era o comum jardim que havia na lateral da Casa de Virgem. O jardim onde havia adormecido e esperado por ele.

Tudo não tinha passado de uma ilusão. Asmita havia partido sem se despedir.

Notas finais
Beijos, amores. Espero os feedbacks! :D