Notas iniciais
OOOOOOOOOOOOOEEEEEEEEE GALEREEEEE!!! Gente, sério, QUE SAUDADE disso aqui. Não sei nem o que escrever porque hoje eu escrevi pra cacete nesse capítulo de TREZE MIL PALAVRAS. Sério, ow, não vou nem pedir perdão porque EU SEI que mereço, depois de trazer esse capítulo colossal pra vocês! Não vou falar muito porque eu sei que vocês querem ler e etc, mas, gente, sério, esse final de semestre foi O ERRO!!! Não, tá dando tudo certo, mas, minha nossa, to cansada p POR- aí assim, cá estou, com um capítulo recém-saído do forno. E ah, coisa importante: eu me instiguei MUITO pra escrever hoje porque ontem eu recebi três favoritadas aqui na fic, daí fiquei comovida. Pra vocês verem como essa valorização incentiva um autor!!! Comentários e recomendações também, viuuu =D BEIJOS, nos vemos lá embaixo. Boa leitura!

O amor é um sentimento muito forte, mas creio que não chega aos pés do que eu sinto por você.

Com o indicador da mão direita, passou a ponta do dedo no altar de mármore branco que há muito havia construído, sozinha, naquela gruta. Tudo ali havia sido obra dela, tudo tinha sua influência, mas nem tudo tinha seu toque. Podia mover a água com a voz, isso era raro e poucos acreditavam. Não fazia questão de provar, porém. Não fazia questão de nada.

Só de terminar o maldito espelho.

Passou novamente o indicador no mármore, limpando-o mais um pouco da sujeira causada pela mão de obra. Esfregou o indicador no polegar, partindo ainda mais os míseros ruídos de nitrato de prata que havia usado para construir o espelho. Poderia muito bem ter trazido um de seu templo, mas não. Precisava se distrair. Precisava de qualquer coisa que mantivesse a mente fora do caminho que insistentemente escolhia tomar.

Inevitável era essa busca. Era como um nó. Um nó tão amarrado quanto o que encontrou em uma de suas madeixas ruivas. Só o visualizou mesmo quando finalizou o espelho, que, embora pequeno, tinha utilidade. A água não bastava, era doloroso olhar para baixo.

Mantinha o olhar para frente – não havia muito que ver -, o nariz empinado e a boca fechada numa linha muda, ambígua para quem olhasse de longe e um tanto duvidosa para quem o fizesse de perto. Suas expressões estavam anuladas naquela penumbra. Tudo parecia ainda mais escuro por causa da umidade da gruta- mas era apenas uma questão psicológica.

Penteou a madeixa com quatro dedos, mas não conseguiu remover o nó. Ajeitou o espelho um pouco para a direita, pacientemente, e se admirou – não como antes. Se deixasse, teria olheiras e poucas rachaduras nos lábios, porém até na profunda tristeza se cuidava como a divindade que era. Ajeitou o espelho novamente, dessa vez para a esquerda. Ótimo, seu melhor ângulo – ainda que fosse absurdamente bela em todos.

O seu aroma é doce, ao contrário de sua personalidade. Sua pele é macia, assim como sua voz, mas não como as palavras rudes que diz. Seu gosto é como uma saborosa fruta em seu melhor estado para ser degustada, mas, ainda assim, sua essência é desagradável.

Ela sorriu ao lembrar-se daquelas palavras. Foi um sorriso triste, cansado e frustrado, que honrou inteiramente seu estado. Mas havia um tom de humor. Porque, no fundo, agora, ela estava exatamente como seria pertinente para resolver os defeitos que ele um dia apontara. O aroma emanado da pele não mais tão macia era o seco que a gruta acumulava. Mesmo agradável, não combinava com ela. Não poderia dizer palavras rudes, já que não tinha sequer vontade de cantar.

E do canto ele gostava.

– Ai! – exclamou baixinho, ao puxar com mais afinco o nó. Ouviu o eco da própria voz e se sentiu estranha. Fazia tempo que não se ouvia. Estava naquela gruta havia duas semanas desde aquele dia.

Com cuidado, penteou novamente a madeixa. E assim permaneceu até se enervar. O infeliz nó não se desfazia de jeito algum, o que a fez aumentar a velocidade dos dedos, arrebentando aos poucos os fios. Sabia que estava fazendo mal, mas se sentia bem. Sentia um delicioso desespero se manifestando internamente, como se pulsasse dentro de si. E seu corpo passou a tremer. Não bastou, porém, pois seu coração se juntou à sensação, acelerando incalculavelmente. Já podia sentir as gotículas de um suor nervoso se formando na testa franzida, assim como os pelos se arrepiando ao longo das investidas cada vez mais agressivas que fazia no cabelo. Os dedos queimavam cada vez mais, mas não conseguia parar.

Precisava tirar aquele nó.

Olhava-se no espelho e via apenas uma mulher à beira de um choro, que sofria calada e sem forças.

Na verdade, havia força, mas ela não queria deixar sair. Não quando deveria renascer, pois havia admitido que estava enlouquecendo. Não conseguia pensar em mais nada a não ser onde ele poderia estar. Não conseguia mais controlar o desespero do cosmo por não conseguir encontrar o dele. Não conseguia aceitar um final assim. Simplesmente não conseguia parar de desfazer o nó no cabelo.

De repente, parou, olhou para o colo e viu os numerosos fios que havia arrancado, dentre eles estava o pequeno nó. Tão insignificante, que poderia ter sido desfeito com paciência e cautela. Era pequeno e frágil, simples. Olhou, novamente, para o espelho e viu o estado em que se encontrava: os cabelos grudados no rosto úmido não só de suor, mas de pouquíssimas lágrimas; o peito subindo e descendo numa velocidade razoável, aos poucos retomando certa calma; os punhos meio fechados e os olhos muito abertos.

Pareceria tranquila se não estivesse com o cosmo ardendo.

O nó se encontrava dentro, não fora.

E depois de muitos dias, deixou a voz sair, calma e rouca, na forma do nome de quem a deixara assim:

Asmita...

Desceu a mão pelo corpo até parar no local que acariciaria pela décima vez. Renasceria, mas não o faria sozinha.

~

Um passo mais rápido que o outro, correndo em direção indefinida. A respiração entrecortada, incontrolada, insuficiente, quase inexistente, repercutindo na fraqueza aparente do corpo. Não era hora para isso. Precisava lutar contra, pois a luta havia apenas começado.

E ele já estava ganhando.

Claro que estava, conhecia bem aquele lugar, aquelas trevas, aquele miserável chão escorregadio, que proporcionava lentidão para os passos cada vez mais doídos. Ela não tinha coordenação para melhorá-los, muito menos força.

Tinha desespero o suficiente, entretanto.

Deveria parar e encará-lo, mas não queria correr o risco. Ele estava estranho, incontrolável, animalesco. Crueldade no timbre de voz. Um tom ameno e calmo que só intensificava o arrepio na espinha. Passos pesados que só indicavam sua proximidade. Um animal que queria ser descoberto, apenas para mostrar à presa quem estava no domínio. Era um ciclo claro e cru.

Não que a presa fosse ignorante a ponto de não saber.

Na verdade, era só divertimento da parte dele, que adorava vê-la enlouquecida e aterrorizada. As bochechas ficavam vermelhas e o choro cada vez mais audível. Um choro de criança. Uma criança que não sabia correr direito.

Em algum momento, ela cairia – enquanto não caísse, ele se divertiria.

Ela pregueava contra a maldita falta de percepção. Já havia sobrevivido uma vez. O labirinto não era totalmente desconhecido.

Sobrevivido? Não mesmo.

Havia provado a primeira dimensão de um abatimento de sucesso, assim como se deliciado com o lado profano da entrega carnal, sem ao menos ter conhecimento de tudo aquilo. Sobreviveu para contar que gozou loucamente em todas as vezes, mesmo que tenha sido forçada a tal.

Ora forçada. Adorou e quis de novo. Quis mais forte, mais fundo, mais duro, mais dolorido.

A dor já estava aparecendo, porém não da forma sexual que ela tanto queria. Era apenas dor nos pés de tanto correr. Deveria parar e se entregar logo àquela besta que a perseguia. Uma besta cordial, bela e atraente, que só mostrava os dentes quando se encontravam na toca.

Musa safada, posso ouvir seus gemidos de longe. Já está excitada? Nem toquei em você ainda. – em seguida, liberou uma risada intimidadora e grave, sabendo que só a assustaria ainda mais.

Era verdade, ela estava excitada, afobada, quase implorando internamente para ser abatida. Sentia o sexo formigando, já molhado só com a ideia de o que viria logo mais.

Mas virou à esquerda e adentrou mais um corredor.

De repente, sentiu algo deslizando por sua coxa esquerda. Um braço. Não um, dois... Três... Quatro. Muitos. Muitos braços saindo das paredes escuras e frias, paredes que pareciam se fechar nela. Paredes que a engoliriam nas trevas caso não conseguisse passar por ali.

Ele estava passando dos limites.

Não. Ele estava impaciente. E punindo-a.

Tropeçou novamente, dessa vez torcendo o pé – exatamente como aconteceu na primeira vez, quando parou na toca da besta por acidente. Quase riu da desgraça, mas ao invés disso, tirou com nojo as mãos que lhe tocavam. Algumas chegavam a afagar com volúpia, tentando alcançar entre suas pernas. Uma conseguiu, mas por alguns instantes apenas, pois ela desesperadamente a removeu.

Por favor! – soltou, sem saber por quê. Por favor o quê?

Duas mãos a empurraram para o oposto lado da parede e ali ela foi presa por mais quatro. Quatro mãos que mentiram as carícias, começando de forma lenta e sensual e terminando com unhas agressivas, causando vergões na pele pálida. Vermelho no claro. Gotículas de sangue escorrendo, talvez.

E Terpsícore gemeu. Alto.

Hahahahahaha... – a risada pareceu mais perto do que ela esperava. E, num impulso, a musa forçou os próprios braços contra os que a prendiam, conseguindo se libertar (adquirindo hematomas na luta) e correndo para o fim incerto do corredor. – Parem.

Ela não se virou para vê-lo, apenas agradeceu interiormente por ter feito aqueles braços horripilantes pararem de acariciá-la.

Se sobrevivesse, agradecê-lo-ia depois.

Finalmente abriu uma porta qualquer e o cenário mudou: já não mais tão escuro, era um salão enorme, espaçoso e convidativo apenas por esses fatores. Janelas altas e superficiais permitiam um pouco de luz, embora não oferecessem a vista do outro lado. De resto, ela só teve tempo de enxergar o que causou seu grito.

Estátuas de anjos.

Não, estátuas de anjos siameses. Anjos gêmeos, ligados por alguma parte do corpo distorcida. Anjos que pareciam mirá-la.

Terpsícore tapou a boca com as mãos, horrorizada, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas não autorizadas. Seu coração quase parou ao se perceber ali. Instintivamente, deu meia volta, aspirando por sair por onde entrou, mas a porta tampouco estava ali.

Não...

Não podia ficar ali, naquele salão colossal e composto por diversas estátuas aterrorizantes. Eram bonitas, porém horríveis. Eram perigosas, Terps sentia.

Com certeza era observada atentamente por cada uma.

Acabou fazendo o que temeu desde que entrou na sala: virou-se para aquelas estátuas novamente.

Suas pernas tremeram. As estátuas tinham mudado de posição.

Mas não de foco.

O desespero aflorou e Terps começou a espancar a parte da parede onde antes a porta esteve. Estava louca, só podia. Seu maior tormento havia mudado de forma. Antes era caçada, agora era mirada com divertimento – porque, sim, os anjos pareciam rir de sua condição física e psicológica. Podia ver a satisfação em seus olhos mortos.

Onde ele estava nesses momentos? Não havia mais graça. Quis gritar o nome dele, mas não achou que fosse buscá-la. Ele gostava de vê-la assim e, provavelmente, estava causando tudo isso. Por que atenderia seu pedido? Por que facilitaria para sobreviver?

Eram muitos pensamentos, e ao mesmo tempo poucos. Muitos pensamentos tentando entrar na mente, num momento de terror.

Levantou um pouco a cabeça e se percebeu de verdade: estava encolhida no chão, olhando para a calcinha que agora aparecia, já que o vestido estava amassado à altura da barriga. As pernas protegiam os seios e as mãos a testa. A umidade das lágrimas era refrescante a certo ponto. Quando levantou totalmente a cabeça, desejou nunca tê-lo feito.

Os anjos siameses estavam mais perto.

Arranhou as pernas, muitas vezes. Simplesmente não soube como lidar com aquilo e a voz não saiu. Lembrou-se do sonho em que quase transou com Defteros e Aspros ao mesmo tempo, no qual não conseguiu falar nada.

Sentia-se assim, mas sabia que possuía voz.

A cada piscada demorada, os anjos pareciam mais perto.

Terps não conseguia controlar a tremedeira de seus dentes, muito menos a sequência de arranhões que suas mãos faziam no corpo. Sentia a ardência de cada abertura e o temor em cada piscada de olhos — que também ardiam. Começou a murmurar lamentações, como um choro, porém mais bagunçado. Estava sozinha, no chão frio do salão colossal, cercada por anjos horríveis e sem a presença de seu cavaleiro.

Cavaleiro que, muito provavelmente, estava se divertindo com tudo.

Ela abriu os olhos e os viu mais de perto. Eram absurdos, macabros e falsamente gentis.

Encolhia-se na medida em que se aproximavam. Pressionava os dentes para que o grito não saísse. Apertava as unhas fixas nas panturrilhas, à procura de força.

Piscou. Um braço se aproximou de seu rosto, numa velocidade impossível de captar. Piscou novamente, dessa vez liberando mais lágrimas. Uma mão gelada de mármore encostou em sua bochecha esquerda. Permaneceu de olhos abertos até esses cansarem.

Que erro.

Sentiu a textura estranha e a temperatura baixa nos lábios.

DEFTEROS!!!

Apenas alguns segundos passaram.

De olhos fechados, ouviu o barulho de algo quebrando. Não, de vários. Ao abrir os olhos, deparou-se com as poeiras no ar e os mármores quebrados no chão.

Finalmente.

Defteros puxou-a pelos braços e a virou, chocando-a contra a parede e tendo-a de costas para si. Desceu a mão com força naquela região, arrancando o vestido sem dó e aproveitando para apertar as nádegas. Deliciou-se ao ver as algumas marcas nos antebraços delicados — marcas vermelhas, vergões...

Ao remover a peça toda, ansioso pelo corpo nu e macio, afastou as pernas dela e enfiou o membro ali, apenas roçando na calcinha que voltou a se molhar. Com uma mão prendeu a nuca da musa, fazendo-a pressionar a testa na parede, e com a outra apertou o seio, colocando o mamilo entre o dedo indicador e o do meio e apertando-o.

Afastou os cabelos loiros que tapavam a curva do ombro e mordeu. Fez mais de uma vez, porque arrancar o gemido rouco de Terpsícore só fez seu membro endurecer. Consequentemente, ele demonstrou o fato roçando ainda mais.

Seria hipocrisia dela se reclamasse.

Terps não percebeu quando sua nuca foi solta, só quando sentiu um violento tapa na coxa esquerda. A mão permaneceu ali, contorcendo sua pele e fincando as garras. E ela gemeu. Gemeu alto e com prazer. Chegou a girar o pescoço para que o cavaleiro tivesse maior acesso àquela parte, até porque quis sentir novamente os caninos mordendo-a.

Embora estivesse presa, ela ousou levar as mãos até o abdômen estupidamente definido que pressionava suas costas.

A mordida se intensificou.

Ahh...

Isso.

Terps já delirava com aquele estímulo no seio, na vagina, na coxa, na mente. Defteros era um desgraçado por desgraçá-la de todas as formas. E ela se abria ainda mais, por isso era caçada com frequência. Estava viciada na dor que ele proporcionava, ainda que saísse triste muitas vezes.

Uma grande mentira. Estava mais feliz do que nunca.

OH. – Terps gritou quando ele a penetrou sem avisos.

Defteros estava mais duro do que o normal. Mais agressivo. Mais dominador.

Ela precisou apoiar o corpo com as duas mãos na parede. As pernas já tremiam e seu bumbum já se chocava fortemente contra o delicioso corpo dele. Queria virar a cabeça para vê-lo enquanto rugia, mas não se atrevia. Tinha medo de ser reprovada. Era melhor permanecer ali, sendo dominada — até porque não tinha vontade alguma de ir contra o que ele estava impondo.

Os gemidos aumentavam gradativamente, bem como a velocidade com que Defteros estocava. As mãos firmes se encontravam apertando rudemente a cintura fina da musa, como se ela fosse escapar, como se precisasse colocar toda a pressão para ela entrar até o fundo, engoli-lo por completo.

Chegava a ser enlouquecedor o quanto Terpsícore era apertada.

Vire-se pra mim. – ordenou, saindo de dentro dela.

Defteros segurou-a no maxilar com uma mão e a trouxe para si, para então beijá-la agressivamente, do jeito que ela gostava. A outra mão agarrou um dos seios e o polegar brincou com o mamilo. Ouviu Terps reclamar no meio do beijo, mas não deu atenção. Ela estava gostando, sabia disso. Afastou-se e a encarou.

Me mostre essa língua.

Defteros sorriu ao ver a pequena boca o obedecendo. As duas mãos grandes pousaram nos pequenos ombros brancos e os pressionaram para baixo, até ela se ajoelhar apropriadamente.

Veja bem, Terpsícore. – não precisou falar muito para que ela entendesse. Bastou encará-la com malícia e mover uma das mãos para a cabeça loira. O rosto dela já estava próximo de seu pênis. – Abra a boca... Isso.

Uma tímida lambida foi dada na glande. Defteros expirou profundamente, seus dedos se cravaram nas madeixas loiras, seus olhos não ousaram se fechar, precisou apenas se controlar para não enlouquecer e cometer uma loucura. Terpsícore estava gostosa demais ajoelhada e com medo.

Não precisou mandá-la tocar em si para que isso acontecesse. Assim que sentiu as mãos macias dela em seu membro, uma onda de satisfação balançou seu corpo – principalmente quando ela começou a movê-las. A masturbação que começou tímida, logo ganhou dimensão.

Isso. – aprovou-a, ao sentir a língua mais atrevida, que se movimentava circularmente. Defteros adorou, mas não deixou de se questionar sobre a iniciativa. – Segure com mais firmeza.

Terps obedeceu, mas não parou nisso. Sentiu vontade de lamber mais daquela parte, afinal era algo novo, excitante e estava dando prazer ao seu cavaleiro. Se quisesse chegar ao nível dele, teria que se submeter às tentativas. Portanto, abriu mais a boca e abocanhou até a metade do membro, deixando a língua envolvê-lo na volta – e corando ferozmente em seguida.

De cima, Defteros pirou ainda mais ao vê-la vermelha e inocentemente o encarando, como se quisesse aprovação. Se era o que queria, daria. Fechou mais ainda a mão nos cabelos dela e a incentivou nos movimentos, fazendo-a engolir mais ainda seu grandioso membro e voltar, repetidas vezes. Podia ouvi-la murmurar.

Ah... Isso, Terpsícore...

Teprs sentiu a cabeça cada vez mais rápida nos movimentos e compreendeu. Aumentou ela mesma o ritmo e as lambidas, chupando intensamente a cada investida e delirando com o som rouco dos gemidos dele. Sem pensar, levou uma das mãos à cintura do geminiano, onde fincou as curtas unhas. Sentiu vontade de tossir.

Gosta de arranhar? – Defteros perguntou, entre suspiros pesados. — Se tentar, vou punir você.

Em um segundo, a musa criou um rastro de unhas naquela cintura, enquanto chupava com mais força.

E Defteros entendeu o recado.

Com rapidez e força, puxou Terpsícore para cima e a levou até uma das bases onde antes havia uma estátua, sem se importar com os restos que ali tinham. Colocou-a de frente para si, não deu tempo para que se ajeitasse, abriu as pernas da musa e encostou a glande em sua entrada, colocando e tirando devagar.

Terps suspirou, derrotada. Ele iria provocá-la até que implorasse, com certeza.

Mas não esperou pela penetração violenta que se seguiu.

O grito da musa ecoou no salão colossal, juntamente com o som dos sexos molhados se chocando e dos grunhidos do cavaleiro de gêmeos. Defteros fazia questão de abrir mais as pernas dela, só para que ficasse ainda mais apertada e machucada.

Ela já não poderia mais parar de gemer, ou parar para respirar adequadamente. Teria de contar com o orgasmo que não demoraria a vir – tinha certeza, estava ensopada demais, não havia espaço para dúvidas. E também não conseguia deixar de encarar o delicioso corpo dele, cujos músculos se contraíam para ela. O movimento de cintura de Defteros era absurdamente excitante, continha certo rebolado quando enfiava.

Delírio.

Ambos deliravam naquele salão assustador e Terps já não se sentia desprotegida e ameaçada. Já havia sido abatida e estava apenas recebendo a consequência. Deliciosa consequência. Não existia mais medo. O que eram simples anjos siameses diante do onipotente cavaleiro de gêmeos? Se tivesse que temer alguém, que temesse a ele.

Mas como poderia, quando ele proporcionava-lhe tanto prazer?

Terps saiu dos pensamentos ao sentir o pescoço encurralado. Defteros estava a enforcando superficialmente. E lá estava ela, tola, gozando com tal ato, excitando-se com uma metida forte e bruta. Lá estava ela sorrindo para ele, que sorria um demoníaco sorriso de volta.

...

Observando-a dormir, concluiu que esteve nítido desde o início. Poderia ter concluído antes, considerando a ingenuidade dela e de suas reações. Ele a corrompeu, de fato. Levaria a culpa para o resto dos dias, que tinha certeza de que seriam poucos. Não que achasse que morreria, mas contava com a possibilidade, principalmente após a revolta de seu irmão. Ainda havia o que fazer quanto a isso.

Foi decidido.

Olhou-a um pouco mais, adormecida em seus braços na enorme cama, e a chacoalhou agressivamente:

– Vamos, acorde. Tenho que treinar.

Terps abriu os olhos sem entender a grosseria, mas sorriu. Rapidamente mudou a expressão ao ser levantada a força e empurrada para fora da cama.

– Estou falando sério, Terpsícore.

Dessa vez, ela se encolheu.

– E-Eu... Entendi. – os olhos gritantemente abertos desceram pelo rosto e corpo do cavaleiro de gêmeos, fitando cada espaço rígido e inexpressivo. Defteros apenas a encarava de volta.

– O que está esperando?

– O quê? – Terps pareceu acordar novamente.

– Está esperando que eu te leve até a última casa? Desapareça logo daqui. – em seguida, virou-se de costas e vestiu a camisa de treino. Sentiu a presença da musa no quarto por mais algum tempo.

No coração de Terps, um aperto passou a existir, juntamente a uma enorme vontade de chorar. Ela não conseguiu fazer mais do que dar pequenos passos fora do quarto, ainda encarando, esperançosa, as costas largas – e agora vestidas – do geminiano. Engoliu em seco ao ver que ele não se viraria mais para ela.

Defteros pôde ouvir os passos apressados vindo do corredor, cada vez mais distantes, assim como um baixo som de fungadas.

~

Olhou-a atentamente o tempo inteiro e procurou sinais que significassem a fraqueza dela, mas nada encontrou. Não foi surpresa, afinal a deusa era mais forte do que parecia.

Sísifo pigarreou, incomodado.

– Sísifo... – Sasha chamou, em sua doce entonação. Olhou-o com carinho, antes de seguir até onde ele estava, em sua sala particular. A janela aberta recebia uma brisa agradável para ambos.

Ele aguardou mais palavras, porém recebeu o gentil olhar que sempre acompanhava-a. Sentiu as bochechas corarem um pouco. Estar perto de Athena, por mais que já lhe fosse um hábito, causava-lhe um efeito estranho, como se fosse desrespeitoso demais ter tamanha intimidade. Como se fosse proibido, ainda que ela defendesse que conhecer seus cavaleiros devesse ser algo natural para os superiores do Santuário. Inclusive para os cavaleiros de ouro em relação aos de patentes mais baixas.

E Sísifo concordava, porém com ela era diferente.

– Diga-me o que lhe aflige. – ela pediu, depositando a pequena mão na dele.

– Athena, perdoe minha insolência. – baixou meramente a cabeça, em sinal de respeito, e retirou lentamente a mão. – Sou apenas um humano, ainda que um com habilidades maiores que os demais. – pigarreou novamente. – E não me atrevo a comparar minhas emoções com as suas, considerando que estão em níveis diferenciados.

– Sísifo, por que tanta formalidade? Está me deixando apreensiva. – uma ruga se formou entre as sobrancelhas lilases da deusa.

– Não foi minha intenção. Pois bem, sei da enorme carga que carrega como nossa divindade e não desejo que esta aumente, mas não consigo compreender como consegue permanecer calma sabendo que o cavaleiro de Pégaso ainda não retornou. Não temos sequer notícias de seu atual paradeiro, e-

– Sísifo.

O sagitariano imediatamente parou a fala e pousou os olhos na expressão tranquila e sorridente de Sasha. Ela sorria delicadamente, num traço de lábios, sem mostrar os dentes. Apenas sorria. Para ele, o fato deixou o caso ainda mais incompreensível.

– Eu sei onde Tenma está. Está a salvo e cumpriu a missão que lhe foi dada.

– E por onde anda? Que outra tarefa possui mais importante do que a de retornar ao Santuário e realizar suas funções como cavaleiro?

– Ele já o faz.

– Mas ainda corre risco.

– E sempre correrá. Todos nós corremos. Mas entenda – Sasha novamente tomou a mão do cavaleiro, sem deixar de mirá-lo. -, ainda que a esperança seja mínima e estejamos todos em perigo, não deixarei de acreditar em meus cavaleiros. Mesmo que o Sol deixe de existir e a Noite predomine o resto dos dias, sei que encontrarei luz no coração de vocês. Sei que darão o máximo de seus cosmos para aquecerem este mundo. E sei que se algum de vocês partir antes, não terá sido em vão, muito menos uma partida incompleta. Queria poder garantir-lhes uma vida repleta de felicidade e paz, mas não posso, por isso farei o que puder com toda a força que tiver: lutarei ao lado de vocês por este mundo.

Não havia o que dizer após esse discurso. Era óbvio. Sísifo inclusive apreciou o silêncio. Parecia que nada poderia atingir aquele espaço, contanto que Athena estivesse sorrindo e emanando sua doce e poderosa essência cósmica. Como poderia abandoná-la? Nunca.

Aquela jovem mulher, desapegada de sua infância e adolescência, mostrava-se, por vezes, mais sábia do que os mais experientes moradores do Santuário. Era uma deusa, claro, mas também possuía essência humana dentro de si. Emoções fortíssimas que a impulsionavam e inspiravam os demais que andavam ao seu lado. Dentre esses, Sísifo, que se sentia maravilhado com as palavras da deusa.

Sísifo respirou fundo e seguiu até uma das poltronas em volta de uma pequena mesa de centro. Aguardou Athena se sentar no divã, perto da outra janela. Os dois, em lados opostos, encaravam-se.

– Eu estou sim triste, porém.

– Hm?

– Esse período já me levou pessoas queridas demais. Isso dói. – Sasha disse, quase num sussurro. Falava mais para si do que para ele. Fazia tempo que não desabafava sobre suas dores e as sentia todos os dias. Eram dores estranhas e incômodas, que pareciam comunicá-la sobre os males que ainda viriam. Sasha tinha aprendido a dar atenção a elas, já que antes das piores ocasiões havia tido intuições tremendamente negativas. Eram certeiras e novamente se formavam.

Rapidamente, Sísifo se colocou em pé, diante dela. A expressão preocupada era gritante em seu rosto.

– Há algo que eu possa fazer, minha deusa? – torceu por uma resposta positiva, assim poderia se sentir mais útil em meio a tudo aquilo.

– Não. Só fique aqui mais um pouco, tudo bem? – sorriu graciosamente ao ver o cavaleiro assentir e se sentar. Após um tempo curto de silêncio reflexivo, procurou algo que pudesse folhear, ao lado das mesas do divã. E encontrou o que queria. Pegou os papéis e olhou-os intensamente. – Talvez haja sim algo que possa fazer.

Sísifo franziu o cenho. Havia permanecido o tempo inteiro observando a deusa para compreender suas repentinas palavras, mas imediatamente se posicionou diante dela, aguardando a ordem.

– É uma missão que lhe darei.

Ele estranhou. Não era a deusa quem costumava dar missões, e sim o patriarca, Sage. Nunca havia sabido de alguma missão exigida por Athena. Tremeu só de pensar em desapontá-la, porém não se deixou abalar, nem poderia. Num semblante sério, assentiu para que ela continuasse.

Athena não comentou, mas achou a mudança do cavaleiro bastante engraçada. Em poucas palavras, revelou a tarefa que tinha em mente para ele, deixando claro o absoluto segredo que esta deveria ser. A não ser pelo patriarca, que saberia imediatamente.

Sísifo não soube o que dizer.

– Considerarei seu silêncio como um processamento de o que lhe falei. – Sasha disse, em meio a pequenos risos. – E ah, há mais uma coisa – esperou Sísifo assentir -: quero que leve Urânia com você.

– Mas esse não é lugar para ela ir! – exclamou. E arrependeu-se em seguida ao ver a expressão intacta de Sasha.

– Eu sei, Sísifo, mas... Está questionando a primeira missão que dou? – a deusa, embora tenha falado num tom mais firme, não deixou de brincar com a autoridade. De forma alguma faria essa pergunta seriamente, mas pareceu divertido ao ver o sagitariano tão nervoso.

– Não, minha deusa. – Sísifo se abaixou, numa reverência. Ao ter os ombros tocados pelas mãos delicadas, voltou à postura inicial. Sabia que Sasha o fazia quando não queria que ele reverenciasse.

– Desculpe-me, eu me empolguei, Sísifo. Mas tenho certeza de que Urânia não correrá perigo ao seu lado. E tenho certeza de que um céu diferente a deixará mais animada. Talvez você não tenha percebido, mas as Musas estão sofrendo.

– Sim...

Assim que a porta foi fechada e a sala se tornou apenas dela, Sasha suspirou. Deitada no divã como não esteve antes, deixou os ombros relaxarem e a mão esquerda repousar na altura da testa, enquanto os olhos buscavam o pássaro que cantava ali por perto. Pôde ver uma das árvores mais altas do jardim, mas não o encontrou.

Menos um achado.

Embora tivesse força o suficiente para encarar as fatalidades da Guerra Santa, sentia como se lhe fosse tirado um pedaço a cada perda. Podia, inclusive, sentir a dor dos que também perdiam aqueles por quem tinham afeto. Tinha sua dor própria, mas parecia sentir também, à distância, a enorme do de Melpomene, assim como a de Calíope, que não deixara pistas de seu paradeiro. Sentia a dor das demais Musas que se encontravam no Santuário, sem notícias da irmã mais velha, ou com notícias ruins da irmã do meio. Sentia dor por não poder trazer novamente à vida os cavaleiros que haviam partido. Sentia, sobretudo, dor por eles não poderem desfrutar daquilo pelo qual morriam defendendo – o amor.

Olhou novamente para os registros celestiais que havia pegado para folhear e os encarou, como se fossem meramente culpados das tragédias recorrentes. Odiava tê-los ali na sala, em seu espaço habitual, pois eles faziam questão de lembrá-la que mais perigos viriam. Ao mesmo tempo, lembravam-na de que precisavam ser fortes.

– Tenma, volte logo...

~

Hasgard simplesmente admirava aquela mulher. Ainda inconformado com a aparição repentina e mágica da musa, observou-a desde o início em que passou a causar felicidade entre seus pupilos. Polímnia era diferente de toda mulher que o cavaleiro havia conhecido até então. Não bastava o instinto puramente maternal – um pouco inesperado de uma divindade -, havia também a vontade convidativa com a qual ela expressava as boas ações.

Ele percebeu o quanto a musa se tornou apegada aos seus pupilos. Após repensar sobre as palavras dela, decidiu, por fim, abrir um pequeno espaço na rotina dos jovens para que tivessem, pelo menos, oportunidade de aprender algo com ela – ou até desopilar um pouco da tensão que predominava o Santuário, mediante a Guerra Santa. Reconhecia que a presença de Polímnia já aquecia o coração.

Não sentia algo diferente de uma grande e forte amizade, porém. Tinha muito respeito pela musa e não quebraria de jeito nenhum, principalmente tendo que dedicar a maior parte de seu tempo aos futuros cavaleiros de Athena. Essa era sua prioridade, acima de tudo. Mas observá-la meditando com os pequenos certamente o fez se esquecer um pouco desse fato.

– Heh. – Hasgard riu para si. De braços cruzados, observava do alto da arena a musa guiando os pupilos inquietos naquela experiência nova. Até achou engraçado no início. Por um momento, não achou que eles fossem capazes de dar atenção a isso.

Polímnia havia adquirido uma tática para abordar os pupilos desinteressados, que, embora animados com sua presença, logo baixaram os ombros quando foram chamados para meditar. A musa sabia que não seria fácil, por isso, antes de qualquer coisa, reuniu os pequenos para uma narração de histórias. Era uma de suas mais magníficas habilidades, possuía um doce canto na voz que embalava as palavras de uma forma inigualável, convidativa aos ouvidos dos que prestavam atenção. Já havia conquistado todos aqueles jovens, mas reconhecia o espírito de luta que ia de encontro com a proposta que trazia.

Por fim, após três histórias, eles se abriram para ela com empolgação. E agora se encontravam nesse momento de meditação.

Polímnia, no entanto, sentia-se um tanto incerta quanto à ausência do mestre ali no meio. Então, assim que percebeu os pupilos envolvidos nas próprias energias vitais, levantou-se e seguiu até onde o grande taurino se posicionava.

– Você deveria se juntar a nós. – ela, graciosamente, colocou-se ao lado dele, que negou com a cabeça.

– Não é pra mim, senhorita. Mas admiro sua insistência com esses aspirantes.

– É uma questão de convite, cavaleiro. Saber convidar é uma arte.

– Que você domina com perfeição, posso ver. – olhou-a de canto e viu um leve sorriso brotar na face dela.

– Perfeição? Não acredito nisso. – Polímnia penteou os cabelos para trás, com os dedos, na intenção de se refrescar com a leve brisa. Não deixou de olhar o horizonte logo à frente, do alto da arena. – Mas seria importante se você participasse. A meditação ajuda no autoconhecimento e na busca interior. Como mestre, tudo que faz influencia no olhar de seus pupilos. Se mostrar importância, é porque é importante.

– Você tem um ponto. Mas o que quis dizer é que não tenho essa habilidade. Não nasci com ela como outros cavaleiros.

Polímnia se virou para olhá-lo, calmamente.

– Ninguém nasce com ela, Hasgard. – corou um pouco. Poucas vezes o chamara pelo nome. – É uma habilidade que se adquire com a prática, assim como as demais.

– Heh – Hasgard sorriu e ajeitou a postura, descontraindo os ombros. – Dizem que é preciso se desvincular com o mundo para isso, e digamos que é algo que eu não consigo fazer.

– Talvez porque, no fundo, você não queira. É mais simples do que parece.

– É, talvez eu não queira mesmo.

– Há um desafio então.

Ambos se encararam e sorriram.

– Estou sentindo que você quer me convencer a isso.

– Não vejo necessidade, considerando que você é um cavaleiro experiente e já possui convicções próprias. Tenho certeza de que sabe o que faz, ainda que esteja submetido a erros.

– Sim. – Hasgard voltou-se para frente, reflexivo. — Por isso, hesito em aceitar suas propostas. Errar na frente de uma divindade pode ser imperdoável.

– Não quando divindades também erram. – dessa vez, quem se virou foi Polímnia, no momento em que Hasgard a olhou novamente. Percebeu que o deixara surpreso com a fala.

– Mas penso que a maioria defende como decisão de sábia escolha.

– De fato. Porém também existe ladainha ao redor do poderoso Zeus... Acredito que só há três seres no Universo que conseguem camuflar seus erros nas vidas que aqui se cultivam. Isso se esses três seres realmente errarem...

Hasgard não deixou de sentir que havia alguma referência na mente de Polímnia para aquelas palavras terem saído com certa amargura.

– Hmm. Então os deuses erram. – preferiu contornar o assunto, ainda que estivessem no mesmo tópico. Não queria deixá-la desconfortável, embora a curiosidade acerca desses três seres tivesse pulsado dentro da mente.

– Ah, os deuses erram. E erram muito.

Novamente, Hasgard sentiu a pontada de curiosidade sobre a amargura de Polímnia. Era estranho e incomum ver um tom dessa categoria sobrepor a doçura de sua voz. Era como um ruído numa melodia singela. Uma quebra. Não combinava com ela.

– Polímnia!

Cavaleiro e musa se viraram para a fonte da voz. E Polímnia logo pediu licença para se encontrar com a irmã, que a aguardava no primeiro degrau da arquibancada.

– Preciso lhe comunicar algo. – Euterpe a puxou pelo braço, com mais força do que calculara.

– Acalme-se, Euterpe, estou indo já.

A mais nova a soltou, deixando uma expressão de desculpa se espalhar pelo rosto, e guiou a mais velha até um pequeno gazebo¹ de mármore branco que havia no caminho de pedra, fora da arena. Estavam a sós, o que era bom.

– Desculpe-me por ter aparecido assim de repente, mas fiquei responsável por lhe informar que Urânia saiu do Santuário. – Euterpe se aconchegou num dos bancos de mármore.

– E para onde ela foi? – Polímnia arregalou as sobrancelhas.

– Não sei, só sei que saiu em missão com o cavaleiro dela.

– Euterpe! Isso não é elegante.

– O quê? – Euterpe observou o teto. Já havia compreendido a reprovação, mas foi inevitável questionar. Polímnia podia ser insuportavelmente elegante às vezes.

– Sabe do que falo. – só que a mais velha já a conhecia demais para repetir. Levou um dos indicadores à boca, enquanto parou para pensar na informação. – Estranho ela não ter me dito nada.

– Ela acabou de sair.

– Não me agrada nada isso.

– Nem a mim. Passamos tempo demais separadas e, quando finalmente conseguimos nos juntar, estamos nos separando novamente e aos poucos. – Euterpe disse, seriamente. Encarava a irmã pensativa.

– Mais do que isso, me preocupa que Calíope e Urânia estejam longe, principalmente separadas. – Polímnia devolveu o olhar de preocupação.

– Sabe o que é pior? Não sabemos onde Calíope está.

– Tenho uma ideia.

– Ah, eu também, mas as opções são muitas! Provavelmente ela está enfiada numa gruta em algum lugar do mundo, descontando a frustração e se afogando em sua obcessão primordial. – a morena automaticamente fez bico.

Para qualquer um que não a conhecesse, poderia parecer simplesmente uma birra, intriga de irmã, insatisfação momentânea e até ego ferido. Mas Polímnia sabia que não era por um motivo superficial que Euterpe estava tão incomodada com a ausência da mais velha. Podia sentir a enorme agonia da mais nova por não poder fazer nada, pois Euterpe era assim – mostrava-se forte e inabalável, mas quando se deparava com a impotência diante do problema das irmãs, procurava conforto na ira.

Euterpe era uma musa segura de si, mas não estava se sentindo assim.

– Quero que Clio volte logo com notícias de Mel. Aliás, estou irritada por não saber que confirmação urgente ela tinha de fazer! Odeio quando Clio esconde as coisas. Quem ela acha que é para guardar informação importante para si? Argh. – naturalmente, a musa da música fechou os punhos e os bateu no banco. Só percebeu o ato quando sentiu as mãos de Polímnia nas suas e a viu ajoelhada diante de si, com o habitual e maternal olhar. Revirou os olhos para aquela gentileza toda.

– Não vire os olhos para mim, Pepe.

– Eca, Polímnia. – livrou-se rapidamente das mãos da mais velha, com raiva. – Não me chame assim!

– Ora, você exigia isso quando pequena! – Polímnia riu.

– Sim, eu era uma idiota que não conhecia nada do mundo. Hoje tenho perfeita noção de como fui ridícula ao exigir isso. E de como vocês foram absurdas por concordarem. – revirou os olhos novamente e bufou.

– Você era pequena, mas conhecia sim muito do mundo. Vivia questionando e exigindo independência. Só nos procurava quando se deparava com um problema que não conseguia resolver sozinha. – Polímnia afagou os cabelos negros da irmã, com carinho e ternura emanando dos olhos. Como amava as irmãs. – Você sempre foi assim.

– E quem eu chamo agora para lidar com o problema da ausência de Calíope? Ou então do egoísmo nítido de Clio? Pior, da eterna tristeza de Mel?

Euterpe não diria, mas queria gritar aquelas perguntas, para ver se alguém a ouvia e dava uma resposta. Queria algo rápido e fácil, prático, mas sabia o grau de improbabilidade disso. Não, impossibilidade. Era impossível. O tempo era cruel e corria diferente para cada uma delas, mesmo que compartilhassem da mesma natureza. Sentia-se tão desesperada pelas irmãs que acabou se deixando levar pelo primeiro momento calmo que encontrou no Santuário. Só não imaginou que lhe fosse custar piadinhas entre ela e o causador de sua calma.

Euterpe balançou a cabeça, querendo se livrar do rumo daquele pensamento. Pensaria no escorpiano depois.

Inesperada e repentinamente, as duas musas se entreolharam com gritante preocupação.

– Você sentiu isso? – Euterpe logo perguntou, agitada.

– Sim! Sim, senti!

– O que houve? Onde será que Terps está? – levantou-se e olhou em volta, apenas por olhar. Ainda organizava as informações na mente.

Assim como Polímnia, Euterpe sentiu o forte cosmo de Terpsícore se alterar gravemente. Por ser um cosmo repleto de energias positivas e alimentado por uma sensação semelhante à felicidade, era facilmente perceptível quando se abalava, mesmo que estivessem apenas com uma linha tênue ligando todas as musas no Santuário – era mais seguro assim, pois apenas elas sentiam a intensidade verdadeira de sentimentos mais íntimos.

– Vou atrás dela. – Polímnia anunciou, calmamente.

– Vou com voc-

– Senhoritas, uma boa tarde! – a voz de Kárdia teria ecoado naquele espaço se não fosse aberto.

Para o mau humor de Euterpe, o cavaleiro fez questão de se colocar diante dela.

– Vaza.

– Huh? – Kárdia levantou uma sobrancelha, encarando-a com dúvida. – Que antipática. Mesmo depois de termos feito- hmmmm...

– Polímnia, vá na frente. – Euterpe ordenou, enquanto apertava a palma da mão contra a maldita boca do escorpiano. Sentia a raiva borbulhar no interior, mas esperou a irmã sair para continuar: — Imbecil!!! – soltou-o com agressividade e se virou de costas.

– O que foi, Euterpe? Não me lembro de ter feito alguma merda pra você me tratar assim! – rebateu, irritado. Não esperava essa recepção, tinha fantasiado uma bem mais calorosa.

– Você – a musa se virou para encará-lo com fúria – já ia dar com a língua nos dentes! Essa maldita língua!

– Que você parece gostar muito, devo ressaltar. – foi inevitável comentar, principalmente quando as lembranças permaneciam vivas em sua mente.

Euterpe escondeu o rosto avermelhado com as mãos. Queria sair correndo e se enfiar em algum buraco para nunca mais sair. Não tinha o costume de se arrepender das escolhas que fazia, mas dar abertura para o escorpiano havia quebrado com essa convicção.

Antes de falar, respirou fundo, procurando se acalmar. Manteve em mente a figura de Polímnia. Polímnia era o segredo do sucesso: nunca se exaltava, permanecia elegante até diante da cena mais grotesca.

– Certo. Vamos lá. – virou-se para ele, determinada, mas assim que o viu, perdeu as estruturas. Kárdia a olhava com uma mistura de tesão e carinho. E o carinho a preocupava. – Não quero que você espalhe ou fale na frente de alguém o que fizemos. Quero que me respeite e mantenha isso apenas entre nós, escorpião.

– Ou o quê? – Kárdia apoiou os cotovelos na pequena mesa redonda e de mármore do centro do gazebo. Em sua face, fingia uma expressão de curiosidade, embora estivesse apenas a provocando.

– Ou paramos por aqui. – Euterpe fez o mesmo, apoiou os cotovelos, ficando frente a frente.

Quando ele tentou avançar na tentativa de um beijo, foi empurrado com força.

– Euterpe!

– Nem tente me tocar em público. Já sei qual é sua laia e não quero me envolver com você. – ajeitou o vestido e se ergueu, elegantemente.

– HAH – Kárdia riu pausada e forçadamente, quis debochar. – Não quer se envolver comigo? Moça, vou te contar uma coisa: você já se envolveu. E pelas suas caras, que eu lembro muito bem, gostou e quer mais.

– Talvez. – por essa resposta, ele não esperava. O escorpiano chegou a levantar com a feliz esperança de ouvir que ela o desejava tanto quanto ele. – É sempre bom ter com quem brincar de vez em quando. – e piscou, virando-se lentamente de costas.

Se fosse possível, Kárdia teria deixado o queixo cair ali mesmo de surpresa e tentação. Sentiu o ego doer pela resposta e o membro se animar pelo corpo escultural e pela bunda deliciosa de Euterpe.

– Não me venha com essa, Euterpe. – Kárdia não deixaria assim. Seguiu até onde ela estava, em passos calmos, parando atrás. – Não é todo dia que nós encontramos alguém que combine tão bem conosco, você sabe... – subiu uma das mãos pelas costas da musa, até alcançar o cabelo, que envolveu a puxou para trás, fazendo-a deitar a cabeça em seu peitoral. Em seguida, encostou os lábios na orelha dela. Sabia que a seduziria assim, já podia senti-la respirando pausadamente. – Nunca conheci alguém tão fascinante quanto você, Euterpe... Não preciso dizer isso para que saiba que é verdade, certo? Acho que já te provei que existe algo maior do que podemos enxergar, aqui, entre nós, entre nossos corpos, entre os sons que fazemos... – com a ponta da língua, provocou-a na cartilagem, arrancando um arrepio. – Por que tão quieta? Por que não me leva a sério? Seja minha, garota... ARGH!

Kárdia se encolheu imediatamente, sentindo o desconforto no abdome, enquanto Euterpe se recompôs em seu ritmo natural, ajeitando os cabelos e tapando a orelha vítima. Havia dado uma bela cotovelada no escorpiano, estava satisfeita.

– Por que...?

– Por quê? – a musa repetiu com ironia, levantando uma sobrancelha, fingindo incredulidade. -Porque você tem essa mania ridícula de me tornar sua posse. Já lhe disse que não quero ser sua ou de alguém. Não sou objeto para que me rotule dessa forma. “Meu”. Ora, seu! – aproximou-se rapidamente dele. Os rostos quase colados, cujos olhos emitiam raios hostis de ambos. Kárdia estava furioso, ela podia ver. – Entenda uma coisa, escorpião: você poder ser do tipo que coleciona noites e se gaba delas por aí, como se fossem especiarias valiosas, mesmo que não lembre sequer o nome da infeliz com quem passou a noite. – pegou-o pelo queixo, querendo total atenção, e o mirou: — Mas acho que você já deve ter percebido que comigo é diferente e eu faço questão que seja. Não se esqueça de mim, mas nem tente me prender!

E assim soltou-o ferozmente e saiu às pressas, louca para descontar a raiva em algo. Não o faria, porém. Estava uma fera, não apenas com Kárdia, mas consigo mesma. Ele estava certo em um ponto que ela não queria admitir: ela já estava envolvida. Mas querer prendê-la era demais. Não era apenas uma Musa, era mulher independente e não aceitaria submissão. Estava à frente daquele tempo e lutaria contra esse papel social – na perspectiva dos homens — da forma que conseguisse.

~

– Sua vez!

– Mas eu já joguei!

– Jogou nada, que eu estou prestando mais atenção que você.

– Não mesmo, estou mais atenta que o habitual, Tália. Mas é difícil, não sou tão estratégica.

– Joga logo!

– Isso é confuso. Me tire uma dúvida... Se eu fizer assim é um “L”?

– Não, andou demais, volte uma casa.

– Hmm... Pois me pareceu possível antes.

– Mas não é!

– Tália, você está roubando!

– Claro que não! Não faço isso.

– Oh, sim, porque não estamos no seu templo.

– Hahahahah... – Tália coçou a nuca. – Pode ser, mas eu sempre ganho. É talento natural.

– Sei...

– Jogue logo, Erato!

Erato moveu a peça do cavalo sem pensar muito. Não tinha o costume de jogar xadrez, como suas irmãs. Geralmente, Tália e Melpomene desafiavam as demais em confraternizações particulares, exibindo suas habilidades e, consequentemente, irritando Clio, que se sentia ofendida com a derrota. Porém, por mais que não soubesse jogar, Erato aceitara o convite de Tália após vê-la tão desanimada. Sabia que a irmã mais velha sentia falta de sua gêmea, compartilhava do sentimento, inclusive. Não havia melhor opção de confortar Tália do que distraí-la com algo que fosse de seu agrado.

– Me ajude a pensar. – Erato pediu, enquanto olhava o tabuleiro, confusa.

– Adoro quando me pedem isso. – Tália brincou, arrancando uma revirada de olhos da mais nova.

– Não abuse da minha gentileza, Tália!

– Minha florzinha, eu jamais procuraria uma via para lhe deixar desconfortável! Sei o que isso pode causar e sinto muito amor pelo mundo para colocá-lo em perigo.² – falou meigamente, com o mesmo ar lúdico de antes. Dessa vez, extraiu uma risada doce de Erato.

Tália pegou a peça da torre, já pensando no próximo movimento. No entanto, largou-o imediatamente e, assim como Erato, levantou-se num rompante, direcionando-se para a porta da sala da ala onde os dormitórios das musas ficavam. Ambas haviam se assustado com a extrema alteração do cosmo de Terpsícore, que passou correndo pelo espaço, evitando a chance de mostrar-lhes a face triste.

Em pouco silêncio, Tália e Erato se entreolharam. Na primeira, uma ruga se formou entre as sobrancelhas; na segunda, uma expressão de espanto predominou o rosto.

– Eu vou.

– É, vá, porque eu vou em outro lugar. – Tália disse, raivosa. Erato logo estranhou.

– E para onde vai?

– Vou atrás do motivo que deixou nossa irmã desse jeito. – bufou, dirigindo-se ao corredor.

– Espere, Tália! O que quer dizer com isso? – Erato se agitou.

Tália amaldiçoou o próprio impulso. Arrependeu-se de ter deixado escapar o pensamento. Se a menor soubesse do comportamento habitual de Defteros, com certeza se enervaria. E a musa da comédia realmente não queria a responsabilidade de por o mundo em risco.

Assim que decidiram por caminhos opostos, Tália apressou o passo para chegar até a Casa de Gêmeos. Não sabia se Manigold estaria na de Câncer, mas achava que provavelmente não, já que tinha o trabalho de treinar aspirantes. Ainda assim, não sabia se queria que o canceriano estivesse ou não. Se sim, poderia arrancar um carinho rápido; senão, seria melhor e não desviaria o caminho, nem o foco.

Ao chegar em Câncer, sentiu o ar frio das altas paredes de pedra, algo que achou bastante agradável – o dia estava quente -, e, olhando em volta, chamou pelo protetor algumas vezes, mas não recebeu resposta. Não deixou de sentir uma ponta de frustração. Seguiu em frente até avistar a saída, e parou.

Não porque quis, porém. Foi inesperadamente abraçada por trás e teve a lateral do pescoço fungada por ele. Embora tenha se assustado, optou por permanecer parada, sorrindo.

– Não achou que eu te deixaria passar assim tão fácil, né, musinha? – Manigold, que estava com os braços prendendo-a, apertou ainda mais o abraço. – Para onde vai? Dependendo da resposta, deixarei que passe.

– Você não tem que deixar nada. – Tália disse, pausadamente, virando-se para encará-lo, ainda sorrindo. – Vou bater um papo com o cavaleiro de gêmeos.

– E eu achando que estava interessada em mim! – Manigold fingiu decepção, numa dramática expressão facial que fez a musa rir.

– Deixe disso, arbusto. – pegou-o delicadamente pelo rosto e o mirou. Manigold adorou ver os orbes azul e verde brilhando. Podia perceber o brilho de Tália através deles, era algo mágico. Em seguida, ela se desvencilhou, frustrando-o.

– Ei, ei. – ele a puxou para si no exato momento, encostando-a em seu peito. – Não vá. Defteros não está na Casa de Gêmeos.

Tália decidiu enroscar a cintura do canceriano com os braços. Estava tão bom naquele corpo quente que ela seria capaz de esquecer facilmente sua primeira missão. Se não fosse pelo cosmo abalado de Terpsícore.

A musa se afastou.

– E onde ele está?

– Como vou saber? Deve estar treinando, ora! Aliás – Manigold mirou o teto, pensativo- , eu deveria fazer o mesmo. – E duvido que ele leve uma conversa natural com você, Tália. Ele é recatado demais pra dar explicações pra qualquer um. Talvez fosse melhor deixar sua irmã tomar uma atitude por si mesma.

– Como sabe que quero falar com ele sobre ela? – Tália o encarou mais de perto, com as mãos na cintura.

– Ehh, não me olhe assim. – cruzou os braços, incomodado com a mudança da musa. Queria ficar de chamegos com ela, não discutir os problemas de outro casal. – Eu vi sua irmã passar aqui correndo. Aliás, fale pra ela que isso é perigoso. Entendo que você têm livre passagem pelas doze casas, mas é importante que se pronunciem de uma forma mais clara, até haver confirmação. Eu poderia ter atacado a garota!

– E daí teria uma briga feia comigo.

– E daí teria uma briga feia contigo, sem ter culpa. – Manigold empinou o nariz, satisfeito ao ver sua querida musa cruzar os braços.

– Está certo, mas todas nós temos impulsos. Não nos culpe. – ela disse, como se fosse nada. Em passos lentos e provocantes, Tália caminhou até uma das pilastras do hall.

– Oh, é mesmo? – Manigold fez o mesmo. Lentamente, posicionou-se ao lado de Tália e deixou a mão deslizar pelo seu braço fino e delicado. Pousou os olhos na cicatriz dela, para depois mirar os lábios fechados num sorriso. – E se eu tiver impulsos também? Vai me julgar, eh?

Pega de surpresa, a musa decidiu se virar também e suportou o olhar malicioso do canceriano. Entretanto, corou mais do que aceitaria, pois não era acostumada a tons assim, insinuantes – principalmente vindo de Manigold, que possuía a voz mais arranhada que ouvira.

– Cuidado...

– Ah, agora é cuidado, é? – Manigold se aproximou calmamente, sem deixar de mirar os lábios dela sequer um segundo. Quando encostou os narizes, levantou os olhos para os dela. Ficou empolgado ao vê-los mirando sua boca, e não resistiu, precisou beijá-la.

Para ela, o beijo nunca havia sido assim. Estava, aos poucos, tomando consciência da relação que passou a ter com o cavaleiro de câncer, portanto tudo se tornou mais perceptível – e constrangedor, a certo ponto. Podia sentir os toques dele mais ardentes em sua pele. As mãos afagavam-lhe a cintura, os braços, as costas, as mãos, os dedos. Tudo singelamente acariciado pelas mãos dele, que, por mais ásperas, proporcionavam-lhe uma sensação diferente. Um tanto prazerosa. Tália desconhecia por completo.

Os lábios de Manigold já não estavam mais em sua boca, e sim no pescoço, arrancando-lhe suspiros inconscientes. Ela não ligava, porém. Estava curtindo, e muito, queria mais. Só então percebeu que o puxava para si, com as unhas fincadas na camisa branca de treino. Quis tocar os braços dele, as costas, as omoplatas, os ombros, mas hesitou e, por fim, não o fez.

Foi embalada demais pela língua fascinante de Manigold em sua clavícula. Tão sensual... Já podia sentir a respiração acelerar e uma sensação estranha, porém boa, na região entre as pernas. Teve vontade de rir devido ao demasiado constrangimento. Ela não sabia o que fazer, estava perdida nas ações e achava o fato cômico.

E Manigold continuava traçando caminhos com a língua e apalpando-a na cintura.

– No que está pensando? – ele perguntou, numa voz pouco rouca. Estava tão envolvido quanto ela, mas percebia a tentativa da musa de se manter controlada.

– Estou inventando uma história na cabeça.

Manigold estranhou e quis olhá-la no olho, mas passou a distribuir beijos no colo que antes lambia.

– Por quê?

– Porque estou perdendo meu fio do pensamento. – Tália disse, com certeza dificuldade devido à deliciosa sensação. Se estivesse de olhos abertos, teria sido possível vê-los revirando em deleite.

– Esqueça isso, Tália. Se permita. – grunhiu. Porém também precisava se controlar, pelo menos ali, num espaço tão exposto.

– Não posso... Não sei como. É inevitável... – as frases se tornaram cada vez mais difíceis de serem ditas.

Tália, inconscientemente, apertou a cintura de Manigold, que reagiu imediatamente na região íntima. Sentiu o membro se pronunciar. Droga, estava perdendo o controle e não queria assustá-la. Tinha de se distrair também.

– Me conte sua história, Tália. – pediu, quase num rosnado. A vontade de tê-la cada vez mais junto de seu corpo o consumia lentamente naquele tortuoso jogo de provocá-la. Ao mesmo tempo em que fazia isso, estava se provocando também.

– Hmm... – ela riu, já deduzindo o motivo. – Eu sou uma donzela que acabou de ser deixada pelo amor de sua vida...

De repente, Manigold parou.

– Não mesmo, você não pode ser de alguém! – encarou-a. Sentiu o coração acelerar ao ver a expressão extremamente sexy de uma Tália excitada. Julgou-se um pouco por imaginar como ela deveria estar molhada lá embaixo.

– Mas no fim acabo sendo sua mesmo. Ou quer que eu modifique? – perguntou, divertida, num tom falsamente ameaçador. Já previa diversão nessa brincadeira.

– Não.

– Ótimo, reizinho fajuto. Me convença a ficar com você agora. – sorriu abertamente.

Manigold devolveu o sorriso e se afastou. De repente, a brincadeira pareceu bastante convidativa. Adorava isso, pois, com Tália, tudo era imprevisível, portanto interessante.

Bom, como pode ver, minha bela dama, esse reino todo – abriu os braços e se referiu ao templo, num semblante orgulhoso e convencido. – é propriedade minha. Absoluta, por assim dizer. O único problema é que não tenho seu corpo ainda!

– Oh, é mesmo? E nem terá se continuar com esse galanteio forçado e sem graça. Pode melhorar! – ela exclamou, controlando um riso.

– Droga, musinha, me dê um tempo, então! – Manigold coçou a nuca.

– Hunf. Estou esfriando... – cantarolou, amando ver a provocação dar certo.

– Não! – num segundo, ele a agarrou e tomou num beijo lascivo, finalizando-o rapidamente. – Então... – aproveitou a proximidade dos rostos para falar no ouvido dela, em baixo tom: — Você nem imagina o tamanho da minha cama, bela dama. Digna do rei que sou, heh.

Tália não aguentou, teve de rir e negar com a cabeça, reprovando-o.

– Não vou me deitar com você.

Manigold rosnou, frustrado, e se afastou, suportando o olhar vitorioso da musa.

– Certo, certo. Então nem imagina o tamanho da torta de morango que eu tenho em meu quarto, bela dama!

Tália arregalou os olhos, interessada, porém logo o estreitou.

– Que danado. Tentando me seduzir com doces! Eu deveria lhe punir, rei.

– Eh, sim, mas você ainda não é rainha para ter esse controle, musin... Digo, bela dama. – pigarreou.

– Oh, ainda? – Tália forçou espanto.

– Sim, porque depois que eu te capturar, garota, vou te fazer a rainha deste castelo! – como um gatuno, voltou a se aproximar dela. As mãos tremiam para tocá-la, ela estava adorável demais nessa brincadeira. Adorava ver as reações, bocas e caras que a musa fazia.

– Hmmm – fingiu-se de pensativa, enquanto tinha a cintura envolvida pelos braços atraentes do canceriano. Mas não o olhou nos olhos. Deixou-o se aproximar de seus lábios para finalmente dizer: — Estou em dúvida ainda.

– Caramba, Tália! – jogou a cabeça para trás.

– Ei, você não sabe meu nome ainda! – protestou, cruzando os braços no pequeno espaço que havia entre os corpos.

– Ah, sim, permita-me saber seu nome, bela dama. – voltou a olhá-la com carinho, aumentando a atuação com várias piscadas.

– Só depois que me disser o seu.

– Rei Manigold de-

– Ai, arbusto, muito sem graça!

Manigold respirou fundo.

– Tália, eu vou encerrar essa brincadeira e te levar comigo se continuar assim! – estava pronto para dizer mais, mas ao vê-la sorrir, amoleceu.

– Tá, e se eu disser que tenho um monte de ovelhas que me esperam em minha vila? Preciso cuidar delas, não posso ficar aqui com você.

– Mandarei meus vassalos capturarem todas. – disse, num tom de genialidade. — Mas não garanto que as deixarei vivas quando trouxerem para cá...

– Manigold! — ela reprovou. — Quero dizer, rei!

– Ahhh, não há coisa melhor do que uma ovelha assada! Isso não é brincadeira!

– Oh, não, não deixarei que mate minhas ovelhas. – Tália se afastou, dramaticamente.

– Hmmmmm, você prefere mantê-las vivas? — ele perguntou, vitorioso, encontrando a abertura perfeito. Fez questão de investir no tom de ameaça, mesclado com malícia.

Tália compreendeu de imediato e devolveu o sorriso malicioso. Era esperta e ele sabia disso.

– Oh, sim, com certeza. – ela disse, suportando o olhar que recebia.

– Então, vou propor uma troca. Que tal?

– Depende, seu rei... O que quer em troca para manter minhas preciosíssimas ovelhinhas em paz? – voltou a se aproximar do canceriano, já adivinhando a resposta.

– Você.

Sem pressa, levou os braços em torno do pescoço dele e colou a ponta dos narizes. Tomar a atitude a deixou ainda mais vermelha, mas isso não importou. Seguiu a vontade que teve.

– Parece que encontrou uma maneira de me ter!

– Com certeza. – Manigold umedeceu os lábios. — Apesar de que preferia que ficasse porque quer.

– Hunf, deixe isso subentendido.

Em seguida, o canceriano a pegou no colo e levou para o quarto. Ela falaria com quem fosse depois.

~

Polímnia podia sentir o nervosismo de Erato naquele quarto, que recebia a tonalidade do pôr do sol. Estava bonito. As paredes claras se tornaram levemente alaranjadas, contrastando com a colcha escura que compunha a cama da parede. Cama em que Terpsícore estava deitada, parede que Terpsícore encarava no momento.

Tinha chegado havia muito no quarto e continuava do mesmo jeito que encontrara: Erato aguardado respostas da irmã. Polímnia compreendia a preocupação da mais nova, mas também a de Terps, que deixava em evidência o quanto queria ficar sozinha.

Erato bufou e se levantou da outra cama, na qual aguardava sentada, e olhou para Polímnia.

– Ela não quer me contar o que houve. É toda sua.

– Erato, minha florzinha – Polímnia abraçou a mais nova antes que pudesse sair e com ternura na voz, disse: – Terpsícore está conversando consigo mesma, portanto não é pertinente que interfira. Consegue entender?

A mais nova assentiu, apenas isso, e deixou o quarto em seguida, com uma enorme insatisfação.

– Vou lhe dar espaço, Terpsícore. Mas gostaria de deixar uma reflexão: Qualquer decisão sempre caberá só e somente a você. E, se há alguma dúvida dificultando esta decisão, ela deve ser tirada o mais breve possível. Para isso, basta dar um passo. – com essas palavras, a musa da poesia sacra se retirou.

Foi como mágica. Terps se levantou, observou cada canto daquele quarto vazio, até parar os olhos no espelho da penteadeira. Olhou a própria imagem um tanto devastada, havia chorado e nem reparou. Um choro pequeno, porém. Choro cheio de dúvidas. Choro que não conseguia se expressar totalmente por causa da incerteza dos fatos. E Polímnia estava mais do que certa, só cabia a ela.

Ao mesmo tempo, Terps não sentia vontade de descer para tirar a dúvida. Queria que Defteros aparecesse por vontade própria, preocupado assim como ela, dizendo que havia se expressado mal, que a queria perto de si. Pela primeira vez, Terps sentiu o orgulho borbulhar.

Mesmo assim, ela optou por descer as doze casas.

~

– Não, você não vai sair daqui!

Tália até tentou se debater em meio aos braços de Manigold, mas se sentiu ridícula demais na ação. Portanto respirou fundo e se acalmou até sentir os braços dele se afrouxarem em seu corpo.

– Deu?

– Eu que pergunto. – ela o encarou, inexpressiva. — Deu?

– Tália, você não vai descer.

– Está tentando mandar em mim? – sua boca virou um “O”.

– Estou! Não porque quero, mas porque você não deve se meter mais nos problemas dos outros.

– Que audácia sua! – embora estivesse discutindo, não estava brava, mas preocupada com Terpsícore, que havia acabado de passar correndo pela Casa de Câncer. Pôde sentir a presença da irmã de longe. – Me solte!

– Não mesmo, vai ficar aqui. Pensei que fosse mais esperta que isso, Tália. – Manigold, que segurava os braços dela contra a cama, parou de se movimentar, apenas para olhá-la.

– Como assim? O que quer dizer?

– Mesmo que eu não tenha intimidade com sua irmã, posso dizer algo bem óbvio: ela mudou pra cacete desde o dia em que a senhorita Clio brigou com ela. Aliás, se não me engano, tu fez o mesmo e se deu mal!

– Ora, não fale sobre isso, você nem sabe o que aconteceu direito. – Tália, ao ser solta, sentou-se na cama, sem desviar o olhar.

– Claro que sei. Não tudo, mas eu sei alguma coisa. De qualquer forma, isso não importa. Acho que você é espera o bastante pra saber que é um saco quando ficam tentando te impedir de fazer coisas que você quer fazer, mesmo quando não estão tão certas assim! Em vez de tentar parar Terpsícore, você deveria deixá-la ir e depois consolar a garota se for preciso. – pigarreou. — Ah, cáspita! Isso é muito chato. Odeio quando você tenta fugir.

– ...

Manigold aguardou até o silêncio se tornar incômodo.

– Eh, fale alguma coisa, musinha!

– É estranho, mas você está certo. – prendeu o olhar num ponto fixo do quarto e mergulhou em pensamentos por um instante. — Na verdade, é algo que eu falaria. Argh, eu sei que devo deixar Terps se virar sozinha e aprender com os próprios erros, mas... Ao mesmo tempo... Eu não sei se confio naquele cavaleiro.

– Pois confie. Se Athena confia nele, você deveria também. Ele é estranho, mas você também é. Não é a senhora que odeia que julguem os outros pela aparência? – sorriu com ironia para ela, que ignorou.

– Ora, “senhora”. Odeio mesmo, mas não estou julgando pela aparência dele, mas a de Terps que, por vezes, chegou roxa de encontros com ele.

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– Ah, musinha, uma hora você entenderá isso... – Manigold comentou mais para si do que para ela. Não deixou de pensar em como poderia fazê-la entender. Deitou ao lado de Tália, com as mãos atrás da cabeça.

– Onde me meti? Oh, céus.

– Enfim, Tália – virou-se para ela -, fique comigo.

Com o indicador nos lábios, Tália pensou por alguns segundos.

– Tudo bem. Ficarei com você – viu-o sorrir, e acrescentou: — pensando em Terpsícore.

GRGRGR Tália! Por quê? — a mudança de semblante divertiu a musa. Adorava mexer com as expectativas do canceriano, embora achasse meramente cruel.

– Porque não consigo me distrair, ora. – ainda que existisse certa manha, ela foi sincera.

– ...

– O que foi? – encarou-o, suspeitosamente.

– Permita-me ajudá-la, bela dama.

A musa da comédia não esperou pelo ataque de beijos que se seguiu. Se não estivesse sentindo os lábios e a língua de Manigold pelo colo, apostaria que era imaginação. Sentiu-o sobre si, com o enorme corpo envolvendo-a em sua quentura. Ele já não estava com a camisa de treino, por isso era um tanto complicado encará-lo por completo. Por mais inexperiente que fosse, ela era capaz de reconhecer os desejos que sentia por ele, por isso ficava nervosa de imediato.

– Quero que confie em mim agora, tudo bem? – Manigold perguntou, rouco, enquanto mordiscava o ombro esquerdo da musa. Aguardou uma resposta que não veio. – Tália.

– Hun?

– Confia em mim? – mordeu levemente o lóbulo da orelha, o que a fez arfar. Manigold adorou o som.

– Sim...

– Mesmo?

– Sim...

– Ótimo.

Lentamente, sem deixar de beijá-la pelo colo, desceu a mão até chegar na borda do vestido que ela usava e o trouxe um pouco para cima, sem expor o umbigo. Parou um pouco, aguardando alguma reação negativa, que, felizmente, não apareceu, e passou a acariciar suavemente as coxas macias. Nunca havia tocado nela dessa maneira, então também sentia certo nervosismo. Era acostumado com garotas experientes e certamente ativas, tinha um jeito com elas que não funcionaria naquele momento com a musa.

E Manigold não queria que fosse igual. Tália não era experiente, nem ativa, nem qualquer garota. Tália era especial.

– Manigold... – ela sussurrou, com certa sofreguidão, atraindo a atenção dele. No entanto, nada disse além do nome.

O canceriano serpenteou a mão pelas pernas da musa, passando, quando podia, por entre elas, mas sem alcançar a região íntima totalmente. Sabia que era um lugar mais sagrado que os demais e, portanto, merecia uma atenção diferenciada. Por enquanto, deixá-la-ia nas preliminares das preliminares, já que ela estava tão agraciada. E ele estava adorando.

Decidiu arriscar aos poucos, deixando que a mão passasse pela parte íntima – coberta pela calcinha –, evitando que parecesse proposital. Acariciou a parte interna de uma das coxas e, consequentemente, a lateral de sua mão estimulou o clitóris por cima da peça de roupa. Passou a ouvir uma frequência maior de arfados.

Ovelhinhas pastando no castelo. Ovelhinhas pastando no castelo. Ovelhinhas pastando no castelo. Ovelhinhas pastando no castelo. Ovelhinhas pastando no castelo.

Manigold repetia a frase mentalmente como um mantra, só assim conseguia manter o membro calmo, pois já doía de tão excitado que estava. Não poderia se descontrolar com Tália, não queria assustá-la, mas era quase insuportável vê-la se contorcendo de prazer com um simples toque. Mal podia esperar pelas reações da musa quando partissem para o verdadeiro ato.

– Ma... – Tália arqueou as costas ao sentir a calcinha ser afastada e a ponta dos dedos dele tocar na parte lubrificada.

Tália estava como ele já imaginava: completamente molhada. Respirou fundo antes de continuar estimulando-a com o dedo. Não penetrou, preferiu brincar com a sanidade da musa que passou a gemer timidamente em sua cama. Manigold não sabia dizer se aquilo era o paraíso ou o inferno, pois, ao mesmo tempo em que o torturava, oferecia uma linda visão da musa da comédia se deliciando com seus toques.

– Mani... – Tália novamente tentou, mas foi interrompida pelo próprio arfado.

Manigold subiu o rosto para beijá-la, mantendo os dedos dentro da calcinha, trabalhando num ritmo razoável e provocante. Beijou-a no mesmo ritmo, principalmente por ter de fazer sozinho, já que ela estava tão imersa naquelas carícias, a ponto de ignorar a sinuosidade do beijo.

– Vou deixar ainda melhor, minha musinha. – ele sussurrou, com os lábios encostados nos dela.

Tália não esperou pelo o que veio. Ele fez o mesmo que havia feito desde o início, porém dessa vez com a deliciosa língua.

– MANIGOLD!

– Heh. – o canceriano sequer levantou a cabeça para olhá-la. Lambeu suavemente os lábios vaginais, às vezes depositando pequenos beijos.

Tália quis tirar as pernas, ficou completamente envergonhada, mas ao tentar, teve as coxas presas pelas mãos grandes do canceriano. Não bastou, ele aumentou um pouco o ritmo de sua língua na movimentação toda.

– Não vai fugir, musinha. – ela pôde ouvir a voz baixa dele e sentir a respiração quente contra sua intimidade. – Minha doce Tália.

E então ele passou a investir no clitóris com mais maestria.

– MANIGOLD, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO, CÉUS? – foi inevitável gritar. Ela precisou gritar, precisou libertar o entalado. Em seguida, gemeu. As mãos agiram por conta própria ao agarrarem madeixas azuis do canceriano, que riu satisfeito com a reação.

O prazer que ela sentia era incalculável.

– Mani...gold... – Tália, embora envergonhada, não conseguia controlar os gemidos. Nem imaginava que o canceriano os queria mais e mais.

Quando os movimentos circulares com a língua começaram, Tália apertou com força os cabelos que segurava e deixou seu gemido mais libertador sair, junto com o ápice.

A sensação foi indescritível. Nenhuma palavra se encaixava em sua mente para definir o que havia sentido. Não acreditava, principalmente, que havia deixado Manigold fazer algo assim com seu corpo. Devia estar vermelha como um pimentão, mas também se sentia nas nuvens.

Estatelada na cama, de braços abertos, deixou o prazer tomar contra de seu corpo, enquanto Manigold se inclinava sobre ela e sorria. Tália quis correr dali quando viu o canceriano passar a costas da mão na boca, limpando o resultado do ato, mas preferiu ignorar a vergonha. Já não fazia sentido senti-la quando havia tanta sensação melhor para receber.

– Ahh, Tália... Tália, Tália. Um dia você me enlouquece com todas essas caras e bocas que faz, musinha.

~

Ao alcançar a arena, Terps finalmente parou para respirar melhor. Olhou em volta, ansiosamente, e não o viu. Só reconheceu Régulus naquele meio e, por não querer procurar o geminiano sem alguma pista, decidiu que questionaria o cavaleiro de leão. Arrumou a postura e adentrou o espaço, seguindo na direção do jovem.

– Boa tarde.

– Boa tarde, senhorita. Está bem? – Régulus não deixou de notar o aspecto descomposto de Terps. Na testa, a franja loira grudava devido ao suor, que também se espalhava pelo restante do rosto. A respiração acelerada era outro sinal, bem como os olhos agitados, que procuravam por algo ali na arena.

– Sim, está. Por favor, poderia me dizer onde posso encontrar Defteros? – Terps não se importou por ter dito o nome do cavaleiro, revelando sua informalidade. Apenas quis muito saber.

– Hm, posso, mas... Ficaria ofendida se eu pedisse uma informação em troca?

Terps franziu o cenho, estranhando, porém assentiu. Estava apressada e ansiedade a consumia.

– O que agrada a senhorita Erato, afinal? – optou por ser direto, ainda que sentisse certo constrangimento. Encontrou logo a irmã com quem Erato mais interagia. Provavelmente Terpsícore mencionaria a pergunta.

– Não posso lhe responder isso. Se é algo sobre ela, é ela que tem que-

– Por favor, senhorita. – Régulus engrossou um pouco mais a voz, no intuito de mostrar seriedade, porém, ao percebeu o incômodo da musa, reformulou: — Por favor, não tenho más intenções.

Terps quis rir da frase, mas viu o semblante frustrado do cavaleiro. Inevitavelmente, sentiu certa identificação com o leonino.

– Sabe, todas nós gostamos muito de poesia...

Régulus iluminou-se num sorriso, embora não tivesse noção de como usaria isso. Mas já era algum ponto importante.

– Defteros seguiu para a arena das amazonas, senhorita.

– Obrigada!

O leonino assentiu.

Terpsícore não contou quanto tempo passou, mas foi muito. Deu a volta na arena das amazonas com certa coragem, até ser encarada por um grupo delas. Foi evidente o fato de que não era bem vinda ali. Já sentia os pés formigando e os passos mais lentos devido ao cansaço. Estava exausta, exausta de andar, exausta de pensar, exausta de continuar com a frustração martelando as várias possibilidades para ter sido expulsa da casa de Gêmeos daquela forma.

Como já estava escurecendo, o único caminho mais iluminado pelo qual poderia voltar às Doze Casas era o que contornava as casas de banho das amazonas. E por lá seguiu, ainda que meio incerta do caminho, pois só passara por lá uma vez. Para se distrair, procurou se lembrar do lugar. A estrutura era nítida em sua mente, assim como as várias servas que por lá faziam diversas tarefas.

Um barulho de uma porta batendo tirou Terps dos devaneios e a atraiu imediatamente para a fonte do barulho. Curiosa e um tanto assustada, ela adentrou o corredor da enorme construção, até ouvir outros sons. Sonos familiares. Sons certamente constrangedores e insinuantes. Era um bater de corpos, tinha certeza. Ou pelo menos parecia, pois foi a primeira imagem que se formou em sua mente: a vez em que se viu no espelho, sendo pega por trás, por Defteros.

– N-Nossa... Cavaleiro... E-eu não esperav-OH!!

Terps não conseguiu conter a necessidade de averiguar quem estava por trás daquela porta, mas algo a impedia de abri-la por completo. Enquanto isso, ouvia os gemidos desesperados de quem quer que fosse.

Quando tomou coragem, abriu a porta.

– OH!!! Oh, céus!!! – a serva tentou empurrá-lo, mas ele a trouxe de volta e sorriu para Terps.

– Finalmente você me encontrou, esteve me procurando por um tempo, não?

Terpsícore não soube o que dizer. Não soube identificar absolutamente nada. Entendeu que Defteros estava ali, fazendo com outro alguém o que fazia com ela em sua cama. Mordeu o lábio, pois sentiu que algum som quis sair. Logo provou um gosto de ferro. Oh, havia mordido muito forte. Os olhos continuaram fitando os dele, até tomarem coragem para mirar a bela serva, mais vermelha do que Terps costumava ficar em situações como essas. Será que Defteros gostava disso? De coradas ferozes no rosto?

Engoliu seco e mirou-o novamente. Ele continuava encarando-a com divertimento e malícia nos orbes azuis e intensos. Parecia irreal e ela não sabia como reagir.

– Me desculpem! – Terps pediu, com a voz embargada, e saiu do cômodo, que nem percebeu o que era, mas viu que havia uma pia.

Não conseguiu correr, pois os pés não obedeceram, já cansados e machucados da sandália imprópria. Caminhou num ritmo lento, desacreditada. Olhou em volta, porém nada viu, nada prendeu sua atenção e ela apenas continuou.

Até sentir um puxão no braço esquerdo.

– Vamos terminar essa conversa. – ele disse, calmo. Terps encarou a mão que a segurava, como se fosse um objeto estranho. Defteros a soltou depois de arrastá-la até uma parte coberta do lado de fora. – Agora que me achou, pode dizer.

Terps o olhou, incrédula.

– Dizer?

– Sim, Terpsícore, fale logo. Tenho outras coisas pra fazer. – rebateu, impacientemente.

– Por que está falando assim? – a decepção era evidente em sua voz, que se mostrava cada vez mais fraca.

– Assim, Terpsícore? Estou falando com você como falaria com qualquer outro alguém. – Defteros sorriu diante do silêncio. – Oh, não... A senhorita achou que fosse especial? – com o polegar e o indicador, puxou o queixo de Terpsícore para olhá-la bem. – Achou que, porque tirei sua virgindade, poderia me deixar perdidamente apaixonado e dedicado a lhe fazer feliz? Não posso acreditar nisso. A senhorita não pode ser tão idiota. – seu sorriso aumentou.

Terps não conseguiu encontrar a voz. Em compensação, o ouvido gravava cada palavra e a recebia como uma apunhalada. Descobria aos poucos que era possível sentir dor no coração.

Mais do que isso, ardia.

– O que veio fazer aqui, Terpsícore? – Defteros a olhou com desprezo. — O que quer ouvir? Posso mentir mais um pouco se quiser, para você não dizer que não sou generoso quando quero. Sou capaz de fingir que te olho com carinho, mas só se isso fizer você entender, de uma vez por todas, que não há nada entre nós. Você não é uma mulher, é uma garotinha assustada e indefesa que descobriu o prazer e acha que pode confundi-lo com amor. Estou errado? Deixe-me dizer uma coisa: eu não acredito no amor, muito menos se for com alguém como você, que só serve para me dar metade do prazer que eu consigo por aí, com qualquer outra.

– Eu não acredito nisso. – mentira, acreditava e doía muito, mas precisava falar alguma coisa, precisava mentir também.

E Defteros gargalhou, da forma que a assustava.

– Acha que estou brincando? Pois muito bem, sua idiota. Vamos continuar brincando então... – violentamente, ele a agarrou pelos cabelos e a beijou, afastando-a em seguida, sem soltá-la. – É assim que você gosta? – riu mais um pouco. – Você é desprezível, Terpsícore. Permite que te humilhem livremente. Como seria eu capaz de ter algum interesse em você que não fosse o que você tem entre as pernas? Eh?

Terps não conseguia controlar a grande quantidade de lágrimas que inundou seus olhos e transbordou pelo seu rosto.

Defteros, ao reparar no fato, soltou para prendê-la novamente pelos braços e a chacoalhou.

– Você acha que seu maldito choro vai me comover? – olhou-a intensamente, demonstrando fascinação com as lágrimas que caíam. – Não me faça te comer aqui mesmo pra provar minhas palavras. Mas se quiser, podemos fazer isso. – chacoalhou-a novamente e a viu apertar os olhos com força. – Você deveria deixar de ser uma musa e se tornar uma meretriz.

Nesse momento, Defteros a soltou rapidamente. Precisou fazê-lo para limpar o cuspe que Terpsícore havia feito em seu rosto.

– Não toque em mim nunca mais.

~

Tenho uma grande arte:

Eu firo duramente

Aqueles que me ferem.

Notas finais
Bah, por essa vocês não esperavam, hein? :x ¹ - gazebo é isso aqui ó: http://www.aandmvictorian.com/imgs/gazebos/gazebos3.jpg ² - Tália se refere aos ataques insanos que Erato tem quando ativa o complexo de irmã, heheh E esse poema no final é do poeta grego Arquíloco. Então, é isso, meu povo! Comentem pra mim, me ajudem a matar a saudade =D