EmMusas - The Lost Canvas
43 Fique comigo
Notas iniciais
Capítulo 43
Calíope abriu os olhos, arregalou-os tão fortemente que lacrimejaram; ou talvez tenham lacrimejado após constatar a presença que explodiu segundos antes. Então ela esteve certa o tempo todo, assim como Urânia. Não foi o bastante alertar a irmã sobre suas leituras celestiais equivocadas, pois Urânia não se preocupou, por fim.
Talvez Calíope tenha falhado mais do que o normal por ter deixado que Urânia simplesmente se envolvesse novamente com alguém, considerando seu eterno machucado coração. Sempre achou que a cura de um amor não estava em outro, e sim na própria força de vontade de viver algo melhor. Sempre foi assim que a ruiva encarou a vida, porém o fato que a diferenciava de Urânia, nessa questão, era totalmente considerável. Afinal, Calíope nunca amou alguém como Urânia amou Kagaho de Benu.
O problema, no entanto, não era esse.
Agitadamente, e sem esperar mais, ela se levantou do jardim onde esteve meditando e deixou o sentimento de preocupação tomar seu corpo por completo. A tensão foi tão grande que sua meditação pareceu inútil; quase inexistente. Claramente, suas lembranças vieram à tona e o inevitável foi deduzido: sua responsabilidade maior retornou, seu fardo por ter um dia usado o dom proibido foi novamente colocado em seu ombro. Esse era o problema da ligação entre as musas: a tragédia de uma desencadeava na das outras. Principalmente com Calíope.
Entretanto, ela não poderia dizer que se arrependia do cargo que aceitou tomar ao usar o dom proibido, afinal, foi com ele que conseguiu salvar Tália do povo revoltado.
“Calíope”.
Foi rápido demais, mal conseguiu dar o primeiro passo e tomou o susto com aquela voz suave. Porém, dessa vez, tal voz não aparentava apenas isso. Uma tensão, semelhante à sua, era evidente.
“Fique onde está”.
Sem realmente acreditar naquela intervenção, ela chacoalhou a cabeça, negando a veracidade dos fatos. Depois de tantos dias, Asmita finalmente decidiu se comunicar com ela? A musa bufou. Não era hora pra isso. Sem responder, empinou o nariz, como se ele pudesse vê-la, e seguiu apressadamente para a saída do Templo.
“Calíope, ordenei que fique onde está”. – ah, mas era muita audácia do virginiano.
A musa tentou ignorar novamente, mas um arrepiou tomou conta de seu corpo tão intensamente que seu equilíbrio se perdeu por meros segundos, causando-lhe uma leve tontura. Se fosse assim, não poderia realizar sua função.
“Se tentar descer pelas doze casas, será impedida na sexta.”
“Não vou discutir com você por cosmo, muito menos aceitar seu impedimento, cavaleiro”. – ela não queria, mas sentiu necessidade de responder. Lembrou-se da insistência de Asmita em outros momentos, e, caso não conseguisse convencê-lo a deixá-la descer, o problema aumentaria.
“Não há utilidade para você nesse momento, fique segura no templo em que se encontra, Calíope.”
Ah, Calíope rosnou. Ser chamada de inútil com certeza não passaria em branco. Num impulso, ela iniciou a descida até a Casa de Peixes.
“Calíope. Estou falando sério.” – dessa vez, ela não respondeu, apenas manteve o ritmo e o nariz empinado. Seus cabelos balançaram sinuosamente, incentivados pelo ar estranho que ela recebeu. – “Como responsável por sua segurança, não deixarei que passe. Você sabe o que significa isso?”.
“Sei, um cavaleiro mimado e insolente que acha que tem poder sobre tudo e todos.” – cortantemente, Calíope liberou sua voz. – “E responsável pela minha segurança? Faz-me rir, cavaleiro”.
Ao longo da descida, a musa sentiu seu coração apertar cada vez mais. Não queria ter que compartilhar energias hostis com o cavaleiro de virgem, porém ficar calada diante dessa ousadia não era opção. Suas pernas tremeram minimamente, mas o bastante para alertar a insegurança que Calíope tanto rejeitou desde o início. Ela não foi boba de não perceber o que tudo aquilo significou desde o primeiro toque que recebeu do virginiano, só que, por opção conjunta, preferiu oprimir as possibilidades. Entretanto, estava a um passo de botar à prova o caminho que escolheu seguir.
Quando passou por Peixes, Albafica não a parou, sequer comentou algo ou apareceu para recebê-la; em Aquário, a ausência de Degél foi sentida, assim como na de Capricórnio. Antes de sair da vazia casa de Sagitário, fez questão de emanar um pouco mais o cosmo para que deixasse uma energia acolhedora. Seus motivos particulares foram óbvios: ela sabia de que o cosmo que explodiu era de Kagaho de Benu — um grande formador de problemas dentro de sua família. Foi por causa dele que, anos atrás, a Musa da Astronomia perdeu o controle do equilíbrio e fez com que surgisse a maior desarmonia que já existiu entre as nove Musas – foi nesse período que Calíope iniciou seu pagamento por ter usufruído da parangelía.
“Por que insiste em se expor ao perigo imaturamente?” – Asmita novamente se pronunciou.
“Não julgue o que desconhece, Asmita. O fato de você não saber minha maior função, não significa que ela não exista.”
“Devo entender que tem a ver com sua necessidade de proteger as outras musas? Necessidade essa que você oprime em si mesma.”
Calíope se silenciou. Se falasse muito, poderia se prejudicar.
“Desprenda-se desse orgulho e eu lhe deixo passar. Caso contrário, fique comigo.”
A musa parou bruscamente o próximo passo que ia dar, ao ouvir a última frase. Seus olhos arregalaram ainda mais para a paisagem à frente, como se estivesse admirando o dono de tais palavras, mas não, apenas viu a saída da Casa de Libra. De qualquer forma, logo mais estaria na de Virgem. Só que...
“Fique comigo, Calíope”.
Alguns degraus foram descidos. Fique comigo, ele disse. As palavras pareceram surtir um efeito surreal em sua mente, como se estivessem implorando para que fossem lidas nas entrelinhas, mas ainda assim hesitantemente. Seu corpo pareceu se mover sozinho – o que deixou tudo mais estranho -, como se estivesse indo rumo a uma entrega espiritual. Pôde sentir as forças vitais de Asmita influenciarem seus sentidos, suavemente, como quem seduz da forma que pode. Seus olhos já não enxergaram tão bem quanto antes, mas delinearam o espaço que deveria seguir para adentrar a sexta casa.
Assim feito, ela saiu do transe e o viu em sua posição de lótus, de olhos fechados e lábios convidativos. O charme esnobe e imponente estava ali, amaciando o ar e deixando a essência mais agradável. Os cabelos loiros e extremamente lisos movimentariam se ele se movesse algum centímetro, porém, como uma pedra lapidada, ele se manteve. Era tentador admirá-lo dessa forma.
– Asmita. – Calíope chamou, baixo. Nem se preocupou em passar sem permissão, suas pernas a levaram até ele calmamente.
– Calíope, fique comigo.
~
Na arena de treinamento das amazonas, um tumulto se iniciou agitadamente. A maioria não sabia muito bem como lidar com a situação porque ninguém havia informado de fato de quem era o cosmo que explodira. Entretanto, as que ali estavam logo se endireitaram ao verem Régulus e Defteros adentrarem o espaço com um semblante preocupado.
– O que vocês ainda estão fazendo aqui?! – Defteros basicamente gritou para o grupo de sete amazonas que o olhou com espanto.
– Não sabemos o que está acontecendo, apenas sentimos o cosmo agressivo explodir e-
– Você não entendeu a pergunta, não é mesmo? – o tom amaciado e tremendamente repentino do geminiano só intensificou o arrepio das amazonas. Régulus já viu onde aquilo ia dar se deixasse o colega tomar as rédeas ali.
– Calma. – o leonino rapidamente se pôs na frente do geminiano, que não reclamou. – Dividam-se em dois grupos, um para rodar o leste do Santuário e o outro para auxiliar na vila. Estão precisando de ajuda lá, digam que estão seguindo ordens.
– Mas o que está acontecendo? – uma amazona loira perguntou, afobada.
– Quando você chegar lá, vai saber. Agora suma daqui. – Defteros cuspiu. Seu humor sombrio deixou bastante claro o que poderia acontecer caso sua ordem fosse protestada.
Quatros das sete amazonas se dirigiram rapidamente para a vila, enquanto as outras três seguiram para o leste, porém uma morena se virou rapidamente para os dois cavaleiros.
– Ei, a Amazona de Grou não foi avisada!
– Ela sabe lidar com isso melhor do que vocês. Aconselho se preocupar com sua carne, amazona. – o geminiano novamente disse, com desprezo.
– Sim, ela sabe, mas quem está com ela não. Aquelas musas só atrapalham e tem uma que não sai do pé de Yuzuriha, assim vai sobrar pra ela, acho melhor alguém-
Régulus soltou um longo suspiro ao ver a mão de Defteros fechada no pescoço da amazona que falou. Ah, a dificuldade do treino não era nada comparada à de realizar tarefas ao lado do cavaleiro de gêmeos. No entanto, Defteros parecia mais animalesco do que o normal.
– É melhor você calar essa boca e fazer logo o que lhe foi dito, porque quem está atrapalhando aqui é você falando essas besteiras. – a fala dele saiu quase um rosnado. Seus olhos penetraram intensamente nos da morena, que arranhava o braço da reluzente armadura de ouro. – Agora – soltou-a bruscamente. -, antes de ir, mostre-se útil e me diga onde a musa está!
Caída no chão, a amazona ofegou com sofreguidão enquanto apalpava o próprio pescoço, com visível dor. Quando conseguiu informar o local, em meio a tossidas e engasgadas, deixou o corpo relaxar ali mesmo, ajoelhada no chão. Régulus se aproximou com calma, já Defteros nem se preocupou com o resto da cena, apenas se virou e foi em direção aos pilares de um antigo templo, perto da praia.
Não demorou muito em encontrar Terpsícore e Yuzuriha inquietas. A amazona, assim que viu Defteros, colocou-se em frente à musa, no intuito de protegê-la, porém recebeu um riso de escárnio do geminiano.
– Assim faz parecer que o inimigo sou eu, amazona. Libere a musa para que eu a acompanhe ate o templo e vá ser útil na vila. – Defteros mandou, inescrupulosamente. Yuzuriha franziu o cenho.
– O que te faz achar que vou deixá-la abertamente com você?
– Desobedecer a uma ordem de um cavaleiro de ouro pode conceder punições. Está ciente disso, não?
– Perfeitamente, e não me importo. – Yuzuriha sentiu uma mão leve no ombro esquerdo e, quando se virou, viu Terps extremamente corada e negando com a cabeça.
– Eu vou com ele, vá ajudar a vila. Não se preocupe.
Antes de qualquer ato de derrota, a amazona bufou desgostosamente e sussurrou:
– Se você diz... Não posso te proteger para sempre, afinal.
As duas trocaram leves sorrisos cheios de cumplicidade. Com certeza, os laços fortalecidos entre elas só cresceram no âmbito da amizade – e isso não era surpresa, na verdade.
Quando Yuzuriha, num rápido movimento, partiu, Terpsícore se virou para Defteros, que a encarava com seriedade e distância, e aproximou a mão para tocá-lo no braço, porém ele se afastou, para sua surpresa. O gesto foi tão inesperado que ela não soube como reagir, mas seu impulso apareceu quando ele deu as costas e se virou para trás, como se ordenasse, apenas com o olhar, para que o seguisse em silêncio.
Ao subir a elevação de terra, Terps sentiu o pé torcer e teve que buscar apoio num pedaço de pilastra em ruína; seu pequeno grito de susto denunciou a situação e fez o geminiano olhá-la com alarde. Num ato rápido, Defteros se moveu para ajudá-la, porém não contou com o vento que fez questão de expor o corpo delicado e sedoso da musa ao levantar seu vestido azulado.
Uma sensação de vazio tomou conta de seu ser quando viu o corpo de cor tão convidativa, carne tão pura e desejável, se exibir para ele, chamando-o para provar do sabor. A pele clara de Terpsícore implorava por marcas avermelhadas, as quais ele poderia desenhar lindamente em meio a carícias agressivas, com certeza. Tudo muito tentador. Os orbes azulados entraram em estado de pura admiração e hipnose ao enquadrar aquela expressão de terror da musa no campo de visão, juntamente com o desespero por estar quase caindo.
Como um animal, ele rosnou para si mesmo.
– AHHHH! – Terps gritou. Ela teve de gritar, afinal, nunca vira um soco tão potente ser desferido numa pilastra aparentemente dura. Sim, Defteros socou aquela ruína como se ela fosse a causadora de todo o mal do mundo. A raiva vívida em seus olhos denunciou toda a sensação dele no ato, e isso foi o que mais a assustou.
Terps sentiu o límpido vento da queda que se seguiria, porém foi amparada rapidamente e jogada para o lado, sem muita força. Caiu de quatro no chão, sem entender os segundos que passaram, observou a terra nas mãos e o vestido sujo, mas não focou em mais nada a não ser na figura robusta que socou novamente a pilastra.
– Defteros? – chamou baixinho, não conseguiu ousar mais que isso no volume. Seu coração acelerado deu a impressão de que faria o corpo todo tremer devido à força com que batia.
Ele permaneceu de costas, sofrendo no processo de respirar e de se acalmar. Era evidente seu desconforto, mas não apenas isso... Defteros estava sofrendo. O som de sua respiração era alto o bastante para expressar toda a angústia acumulada naquele instante. E Terps sentiu o coração doer.
– Terpsícore. – ele expirou o nome com sofreguidão e em seguida rosnou. – Vá na frente. Estarei logo atrás de você.
Em pensamentos, mesmo desejando o contrário, Defteros pediu a ela: “não fique comigo”.
Apesar da enorme vontade de rejeitar a proposta, Terps assentiu. De algum modo, quis evitar mais incômodo a ele, ainda que seu desejo de ampará-lo ali, tão frágil e transtornado com o que quer que fosse, estivesse a consumindo.
Defteros, por outro lado, apesar de lutar contra si mesmo, permitiu-se sorrir. Finalmente conseguiu se controlar, mesmo que por um instante. E, na mais funda esfera de sua alma, uma possibilidade, uma esperança brotou. Então talvez... Talvez não fosse de todo um animal.
~
Embora estivesse com um vestido que dificultava um pouco sua corrida, ela correu como nunca. Seus pés nem pareciam obedecer a algum comando exato, apenas corriam automaticamente enquanto seus braços entravam em sintonia para lhe dar equilíbrio. Estava um pouco cansada, porém apertou o passo quando viu a porta do Templo do Grande Mestre entreaberta, e atravessou-a com mais velocidade ainda.
Para não te problemas, decidiu que passaria a décima segunda casa sem falar com o protetor, e correu mais ainda. Doce ilusão, porém. Albafica a agarrou rápida e fortemente na cintura e a prendeu com os braços enroscados.
– Onde você pensa que vai, Melpomene? – perguntou, encostando os lábios na testa levemente suada dela.
Mel tentou se soltar, mas ele a prensou com mais força.
– Albafica, me solte, por favor! – o pedido saiu com sofreguidão e ele já imaginou por quê.
– Não posso. Não ouse passar por aqui. Não há nada para você fazer lá embaixo a não ser correr perigo.
– Preciso encontrar Urânia! – novamente, tentou se desprender.
– Urânia já está vindo. Acalme-se. – ele a ajeitou em seus braços, com cuidado para não machucar, e alisou carinhosamente as costas desnudas da musa da tragédia. – Fique comigo aqui, se desejar, mas não desça, Melpomene.
~
Urânia suspirou. O toque macio da mão de Sísifo não era acolhedor. A pressão que ele fazia em sua mão despejava toda a frustração contida enquanto subiam as doze casas apressadamente. Ele sequer virou o rosto alguma vez nesse trajeto, manteve-se como condutor da musa e, pela primeira vez, tomou controle sem consultá-la. Não a deixou falar com Calíope quando passaram por Virgem, fez questão de anunciar o cosmo agitado para Asmita, que impediu a musa da poesia épica de se mover enquanto atravessava a sexta casa.
Urânia permaneceu em silêncio não apenas por falta do que falar, mas porque sua reação ainda era incerta, portanto as palavras não sairiam correta ou seguramente. Ela apenas se deixou ser guiada.
Ao adentrarem a Casa de Sagitário, ele manteve a mão dela presa na sua, como se qualquer deslize fosse a oportunidade para ela correr dali – e provavelmente era. Sísifo não arriscaria dessa forma, não antes de ter suas perguntas respondidas, as quais consumiam seu interior lentamente.
Urânia só teve sua mão solta quando entraram numa sala particular da nona casa zodiacal, onde provavelmente Sísifo organizava seus estudos à parte. Ele não fez questão de convidá-la a se sentar; em vez disso, seguiu, ainda de costas, até uma das altas janelas do cômodo e fitou o cenário de fora. Ela percebeu a inquietação dele, mas optou por permanecer em silêncio. Afinal, nada mais justo que deixá-lo tomar a palavra inicial. Porém esta não veio.
– Sísifo... – Urânia sentou numa poltrona distante da janela e manteve os olhos atentos a cada movimento dele.
Em silêncio, ele se virou; suas feições nada expressavam além de incompreensão. Ao passar as mãos no cabelo, desalinhando-o, suspirou pesadamente. Apesar do silêncio, em seu olhar era visível a quantidade de dúvidas.
– Sísifo, me permita subir, por fav-
– Não. – palavra que saiu baixa, sem voz, mas o volume foi logo retomado, juntamente a uma severidade: — Você não vai sair daqui até me falar o que foi isso que acabei de presenciar, Urânia.
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