EmMusas - The Lost Canvas
44 A incerteza e o desabafo
Notas iniciais
Capítulo 44
– Você não vai sair daqui até me falar o que foi isso que acabei de presenciar, Urânia.
Aquelas palavras simplesmente não se encaixaram. Não foi como se tivessem sido elaboradas para ela, porém Urânia sentiu o peso por trás da composição, e, bom... Sísifo tinha razão em usá-las naquele momento. Os olhos dele, fixos nos dela, demonstravam toda a aflição que ele sentia. Entretanto, no fundo, ela não compreendeu o motivo específico daquele olhar magoado que recebeu, e pensar em algo para dizer tampouco pareceu simples.
– Sísifo...
Dizer o nome dele era fácil, sempre fora, mas dessa vez ela sentiu uma tremenda necessidade de cautela. Parecia que qualquer palavra mal pensada poderia machucá-lo, pois o olhar que ele lançava denunciava perfeitamente a espera das palavras certas e confortantes – provavelmente para desmentir tudo que viu ao enfrentar Kagaho. Só que Urânia não poderia desmentir; a situação era crítica, de fato.
O problema não era apenas encarar o sagitariano ali, na sala da Casa de Sagitário, após o terrível reencontro com seu antigo amor. Não. O problema era identificar a explosão de sentimentos que surgiu após esse momento tão angustiante, após ver Kagaho depois de tanto tempo... Após ouvi-lo desprezá-la como nunca. Estranhamente, isso doeu.
– Eu não... – Urânia desviou o olhar; tudo se tornaria mais complicado se tivesse de falar olhando para ele. Reconheceu a fraqueza do ato, porém. – Eu estou meio... Chocada, sinceramente. Odeio admitir, mas preciso da sua ajuda para falar o que deseja ouvir.
Sísifo suspirou pesadamente, como se expurgasse todo o descontentamento adquirido, juntamente a uma negação de cabeça. Assim como ela, desviou o olhar, optando pela paisagem – já sem graça – da janela. Nada prendia seu olhar, o único sentido realmente aguçado naquele momento era o da audição.
– Urânia – começou, trocando o peso de uma perna para a outra. -, se você está chocada, acho que não preciso nem falar o que estou. – suspirou novamente – Serei bem direto: quero entender o que aconteceu lá na vila. Na verdade, estou procurando algum sentido nas palavras daquele espectro repugnante e mais ainda no seu ato de se meter naquela luta.
A musa instantaneamente estremeceu e o cavaleiro endureceu o maxilar, enquanto cruzou os braços, mas seu olhar não se voltou para ela.
– Você tem alguma noção do perigo que correu? Ou pelo menos pensou no problema que poderia ter causado por ser uma distração e um atrapalho de luta naquele momento? – dessa vez, teve de se virar para ela e aumentar a voz. – Me diga o que você foi fazer lá! Por acaso sabia que era aquele espectro que estava invadindo a vila? Sabia que ele faria isso? Urânia, o que você sabia? O que esconde de nós?
– Não escondo nada, só que há partes do meu passado que não são de interesse público. – ela respondeu, inseguramente. A postura imponente de Sísifo não deu brecha para firmeza alguma em seu corpo.
– Concordo, e acredito que ninguém tem interesse em dissecar seu passado.
Se ele disse isso para machucá-la, conseguiu. Urânia acabou se encolhendo perante tais palavras, o que não passou despercebido pelo cavaleiro.
– Desculpe-me – com muito esforço e sem olhar para ela, Sísifo pediu. Passou a respirar pausadamente para controlar qualquer indício de raiva contida. -, não tenho o direito de brigar com você ou julgar seus atos, mas é minha obrigação chamar atenção para qualquer ponto que coloque o Santuário e a vila em perigo e, naquele momento, seu... Ato... Foi extremamente arriscado e... – cada vez mais difícil de realmente falar. – Imprudente.
Urânia franziu o cenho. Era perfeitamente óbvio o esforço que ele fazia para não falar o que realmente queria, as falas saíam com tanto cálculo que chegavam a ser superficiais, como se não fossem sérias. Como se ele não a levasse à sério. Como se ela fosse uma pessoa qualquer naquele lugar. Onde estavam os questionamentos sobre Kagaho? Onde estava aquela ira que ele demonstrou minutos antes de subirem? Sísifo estava tratando-a como uma aspirante que cometeu um erro, não como a musa com quem se relacionava. E isso doeu mais do que qualquer raiva que poderia ter descontado.
– Urânia, quem é Kagaho de Benu na sua vida?
– Quem foi Kagaho na minha vida? – se pensar na resposta já foi doloroso, ela nem se atreveu a falar mais. Mas quando viu Sísifo assentir desgostosamente, soube que isso não o satisfaria. – Ele...
– Não, acho que não quero saber.
– Sísifo, por favor, me fale o que você quer realmente saber.
– Quero saber se você me entendeu. Se sim, está liberada para subir e encerramos isso aqui. – disse firmemente; até seus punhos se cerraram.
– Encerrarmos o quê? Sísifo... – ela não aguentou mais ficar sentada. Sendo por impulso ou não, precisou se aproximar, afinal ele parecia cada vez mais distante. – Pergunte-me o que quiser, mas não reprima nada.
– Há coisas que devem ser mantidas em silêncio para-
– Não! – ela não o deixaria terminar aquela frase de forma alguma. – Não me trate assim. Me pergunte o que quiser, eu respondo! Não tire conclusões precipitadas. – suas mãos encontraram os ombros dele num ato de desespero, e foram acariciadas pelas dele, até serem removidas dali com delicadeza. O contato de olhares não se perdeu dessa vez; nos dois, uma aflição se desdobrou.
– Quem está tirando conclusões é você. – disse, seco.
A visão dela embaçou devido à tontura do coração tremendamente acelerado. O sentimento de ter que resolver pulsava na musa da astronomia, mas lhe faltavam forças mentais e espirituais para tal. O caos interno era enorme e começava a corroer os fiapos de esperança que ela tinha.
– Por favor, me pergunte...
– Por que você se meteu no meio da luta?
Urânia esperava qualquer pergunta, menos essa.
– Por que você literalmente se colocou entre eu e o inimigo? – a severidade na voz do sagitariano deixaria qualquer ser comum completamente intimidado, mas ela não poderia se dar esse luxo.
– Eu...
Sísifo esperou, Urânia esperou, mas as palavras não vieram. Morder o lábio em descontentamento foi inevitável para ele, assim como o aumento das batidas do coração dela ao verem os olhos dele se apagarem ainda mais. Tudo menos isso. Tudo menos machucar Sísifo.
– Você não sabe? Não há nenhuma explicação para aquele ato estúpido?
– Eu... – na mente dela, mil possibilidades sambavam, mas nenhuma certa o bastante para ser dita.
– Deixe-me adivinhar: você ama aquele espectro. – Sísifo disse calmamente, fitando-a.
– NÃO!
– Urânia, não minta. Eu nunca lhe dei motivos para agir assim. A única coisa que eu espero de alguém que eu gosto é a verdade. – o olhar penoso dele não poderia ter sido mais cortante nela, mas ainda assim Urânia negou a cabeça.
– Eu não amo o Kagaho. Já o amei, mas eu o odeio atualmente!
Sísifo não aguentou, teve de usufruir do traço que mais odiava: o sarcasmo – e o expressou através de uma risada.
– Urânia, vou mudar minha colocação: eu até aceito que minta pra mim, mas lhe ver mentindo para si mesma é deplorável. Perdoe a sinceridade, mas tenho costume de ser assim.
Reconhecer o cavaleiro de sagitário após palavras tão afiadas foi quase inconcebível.
– Pare com isso... – Urânia mal percebeu que seu rosto baixou para fitar o chão. Faltou-lhe força e coragem para encarar aquele incrível homem à sua frente. Tão seguro, porém tão machucado... – Eu não gosto de falar sobre essa parte do meu passado. Assim como Tália, tenho um período que gostaria de esquecer, mas que, infelizmente, continua marcado em alguma esfera da minha alma, porque foi simplesmente intenso e trágico. Não estou pedindo que me compreenda, mas acredite quando eu falo que não há sentimento bom que me move em relação à Kagaho. Só que também não sei dizer o que me moveu a ficar entre vocês dois. No entanto – com certa dificuldade, conseguiu encará-lo novamente -, estou certa de que não foi amor.
– E você diria que foi ódio? – sério, ele perguntou.
– Sim.
– O ódio é um sentimento muito excitante, Urânia.
A musa engoliu seco. As palavras a abandonaram sem dó e um tremor se apossou de suas pernas agressivamente, causando-lhe desequilíbrio. Tudo devido à sensação de abandono que emanava de cada palavra proferida por Sísifo.
Os olhos arregalados dela, em alguma escala, atingiram o coração do sagitariano, mas ele simplesmente não conseguiu dar a devida atenção.
A mão que repousava no ombro de Sísifo desceu lentamente, sem força e esperança de conseguir um afago de volta. Descê-la foi como limpar o rastro de seu caminho até aquela região tão adorada pela musa, foi como afirmar a distância que estava nascendo entre eles, foi como um abandono de carinho.
– Urânia... – ele chamou, mas ela não conseguiu responder. Afinal, estava acontecendo novamente. Ela devia ter imaginado que aconteceria. – Eu não estou bravo com você, não estou cobrando seu passado, não estou julgando suas escolhas, e sim procurando alguma resposta que me ajude a apagar o que me gerou de impressão. O que você pode me dizer?
Dessa vez, uma gentileza foi oferecida pelos olhos escuros e azulados dele, mas nem isso quebrou o silêncio por parte da musa.
– Por favor, diga alguma coisa. – Sísifo engoliu seco.
Os segundos de silêncio que se estenderam foram o bastante para ele.
– Entendo. Você realmente não sabe o que lhe moveu a ficar entre nós, mas acho que é bem claro. Talvez o ponto não seja esse. Talvez a melhor pergunta seja o que não te move em mim a ponto de te fazer agir assim... – cabisbaixo. — Enfim, Urânia... Pode ir.
Ela se manteve parada, observando o cavaleiro ir até a porta, abri-la e sumir nos corredores da nona casa zodiacal.
E ela não esperou mais para correr até o local que tinha em mente.
~
– NÃO! – o coração de Calíope pulou tão fortemente quanto ela, em meio à meditação. Foi tudo tão rápido que não evitou extrair um susto do virginiano.
Os dois se encontravam no altar da sexta casa zodiacal, meditando à procura de qualquer detalhe suspeito que remetesse a outras possíveis invasões de espectros. Enquanto isso, Asmita se concentrava na luta de Dohko e Kagaho, que acabou tão rápida quanto iniciou, devido ao desparecimento do espectro.
– Eu preciso ir. – ela mal se levantou e foi impedida pela mão do virginiano.
– De forma alguma. Ficará aqui, onde posso lhe observar.
– Que afronta! Me solte, você não entende. Eu preciso ir.
– Então me dê um motivo plausível para isso, pois, a mim, parece que ainda não compreendeu a gravidade do que estamos passando aqui. – sua expressão serena só arrancou mais raiva da musa ruiva.
– Eu não devo isso a você. – Calíope puxou o braço, mas Asmita o manteve, aplicando um pouco mais de força. – Ai!
– Perdoe-me, mas sou responsável pela sua seguran-
– Asmita! – ela exclamou. A nuvem negra que ela, surrealmente, visualizou em cima da própria cabeça só aumentou após ver o cavaleiro sorrir de canto. – Por que está sorrindo?
– Gosto quando diz meu nome.
– Isso não é hora para esse tipo de comentário, me solte imediatamente. Já disse que preciso ir! – seus punhos se fecharam diante da raiva, algo que ele estranhou imediatamente. – Não é como se eu quisesse ir, mas é minha obrigação.
– De que forma seria? – sua fala normal parecia zoar a musa. Calíope, entretanto, ficou em silêncio. – Oh, novamente guardará segredo. Que inconveniente.
– E você novamente me criticando. Apenas me deixe ir, Asmita...
– Qual é o grande problema por trás de uma informação? Não seria melhor você me esclarecer tudo isso e evitar conflito?
– Não, seria melhor você parar de ser orgulhoso e achar que lhe devo justificativa de tudo que faço. – afiada, ela rebateu. Ah, como queria ter dito isso antes...
Ao contrário do que ela esperava, Asmita se permitiu rir de leve.
– É tola de achar que temos uma relação normal, Calíope. Admira-me que resista tanto a isso.
– Olha quem fala! O cavaleiro que teme o amor!
Calíope se arrependeu milésimos de segundos depois que disse a frase. Daria tudo para voltar no tempo e nunca ter aberto a boca para proferir aquilo. A mudança na expressão de Asmita denunciou toda a insatisfação que ele sentiu ao ouvir, mas já era tarde. E, como ela queria, ele a soltou, porém deixando claro o ressentimento nas entrelinhas do ato. A musa se amaldiçoou mentalmente.
– Assim como não tenho informações o bastante para julgar suas funções, como você sabiamente colocou antes, você não tem informações o bastante sobre mim para dizer uma coisa dessas. – secamente, Asmita falou, com o maxilar travado.
Nunca tinha acontecido antes. Ela sempre calculava suas falas, mas, dessa vez, foi por puro impulso e instinto protetor que soltou as palavras:
– Anos atrás, ao salvar Tália, usei o dom proibido que temos como musas. Dom que foi consagrado como altamente perigoso para o equilíbrio do Universo, pelo Olimpo. Por isso, tive de aceitar um fardo eterno que me consome muito mais do que às minhas irmãs. – Calíope respirou fundo. – Urânia, no passado, teve uma época sombria após um período de desilusão e isso acarretou numa profunda desarmonia entre nós, musas. Diante disso, fui designada a suportar o peso dessa energia danificada, sozinha. Ou seja, enquanto uma de nós estiver desestabilizada a ponto de deixar a harmonia das Musas numa situação crítica, terei de me afastar e concentrar toda a minha cosmoenergia para que essa falha não prejudique o equilíbrio universal. E agora, Urânia se isolou novamente, exatamente como no passado, então vou ter que assumir minha responsabilidade e me isolar também.
Alguns minutos de silêncio foram tomados por Asmita, no intuito de processar calmamente tudo que foi informado.
– Entendi. Mas não é apenas isso que está lhe movendo a ir para longe. Você já estava considerando isso antes, pude sentir.
– Se você pôde sentir, então tenho certeza de que sabe o que mais me moveu. – as palavras dela saíram mais tristes do que teria permitido, mas foi inevitável. Calíope estava fraca, portanto não conseguiria ter sucesso em todas as intenções.
Ao se levantar, ela ajeitou as alças do vestido fino de seda e prendeu as ondas ruivas num coque desajeitado, deixando escapar o aroma doce que delas emanava. Seu coração, já mais calmo, doía só de pensar em ficar afastada por tempo indeterminado. Era sempre assim. Porém ela não poderia se arrepender. Quando foi dar o primeiro passo, sentiu mãos envolverem sua cintura suavemente e puxá-la para si. Asmita, em seguida, pousou o queixo no ombro delicado dela.
– Assim como entendo você, espero que me entenda. Nunca senti necessidade de usufruir dos prazeres mais... Humanos, por assim dizer. Nunca senti o corpo de alguém da forma que fosse além do que o plano material conceitua, sequer tive desejos por algo assim. Reconheço que seria natural para um homem comum, porém, como pode ver, eu não sou assim. Passei quase a vida toda me desprendendo das amarras humanas para chegar aonde cheguei. Portanto, minha forma de compreensão não pode ser cobrada normalmente. Não me faça lamentar mais do que já lamento por não poder tocar em você dá forma que gostaria. Por favor... – Asmita desabafou, com toda a sinceridade acumulada nesses dias de distância.
– Suas palavras perdem o sentido quando suas mãos chegam onde estão, Asmita. – seu rosto virou até sua boca encostar na bochecha lisa do virginiano. Lábios, como ímãs, atraíram-se aos poucos, mas pararam em milímetros de distância para sentir a respiração um do outro. Entre ofegos, os dois fluíram em silêncio.
As mãos de Asmita serpentearam lentamente a região da barriga de Calíope, e foi inevitável, para ela, deleitar-se com aquilo. Uma mordida de lábio dele chamou toda a atenção dos olhos dela, a ponto de diminuir um pouco mais a distância entre eles. As respirações quentes convidavam as pontas dos narizes a se tocarem – algo que não tardou a acontecer.
Dois corações passaram a bater em sintonia, mas não o bastante para incentivar o término da distância entre os lábios. Num movimento delicado, Asmita beijou a testa de Calíope e migrou a boca para um dos ouvidos:
– Vá, mas volte.
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