EmMusas - The Lost Canvas
32 Evoé!
Notas iniciais

Capítulo 32
– E, então, senhorita, aceita dançar comigo? – ele estendeu a mão para ela.
Tália se virou para Dohko, que estava sentado ao seu lado, como se pedisse uma resposta para o pedido de Lacaille de Popa. Antes do cavaleiro de prata chegar, ela e o libriano entraram numa profunda conversa sobre as energias astrais e convergentes para determinados acontecimentos. Dohko ficou alegre demais ao perceber que se deparou com uma amante de histórias e mitos, então desdobraram a conversa e chegaram nesse tipo de assunto. Mas o que mais o alegrou foi ver que seu plano deu certo e Tália conseguiu se animar novamente. Como ele havia pedido de manhã, ela estava conversando com ele.
– Se eu aceitar, quem vai tocar essa caixa clara* que tem em mãos, cavaleiro? – Tália perguntou, num tom de brincadeira. Dohko riu, ela não era fácil.
– Sinceramente, senhorita, eu não poderia me importar menos com essa caixa neste momento. – educadamente, Lacaille retribuiu a brincadeira. A musa se virou para o libriano, trocando um olhar de admiração; a resposta a animou demasiadamente. Logo, ela se levantou.
– Dohko, você me dá licença para dançar com este cavaleiro?
– Não precisa dessa formalidade, você sabe. – Dohko piscou para ela e incentivou a ida.
De um lado da fogueira, Manigold viu Tália acompanhar Lacaille numa dança. Não que importasse muito, mas se importou muito. Aí é que esteve o problema. Ficou tão incomodado que não escutou metade do que Sarah lhe contou enquanto beberam o vinho como pausa da dança. A amazona provavelmente percebeu, pois o cutucou rudemente, como se pedisse atenção. Manigold atendeu ao pedido, porém sua mente não abandonou os pensamentos insatisfeitos acerca da musinha. Depois ele a faria saber disso.
~
– Viu Terpsícore por aí? – Clio perguntou para Urânia. As duas estavam sentadas num banco de madeira da terceira barraca, de frente para a fogueira. Urânia viu quando Terps saiu para atrás da arena, assim como quando o cavaleiro de gêmeos a seguiu, mas, se contasse para Clio, provavelmente arranjaria um problema. Portanto, limitou-se a negar com a cabeça. Clio bufou e bebericou seu vinho. – Olhe só para nós! Não somos assim...
– Está insinuando a falta de dois cavaleiros e nossa óbvia insatisfação por isso? – Urânia brincou, no intuito de descontrair Clio, que não era acostumada a esse tipo de envolvimento com alguém.
– Sim. Sinto que as coisas estão fugindo do meu controle. Não aprecio essa sensação. – franziu a testa, fitou o chão e girou a taça.
– Deixe assim. Às vezes, é bom experimentar o caos. Não que sua situação chegue a isso, mas-
– Sério, Urânia, sem conselhos agora. – Clio pediu, interrompendo.
Ultimamente, Urânia observou a impaciência de Clio crescer diante dos fatos, como se não soubesse reagir a absolutamente nada de novo. Só que a irmã não era assim, por isso algo estava errado, e a amargura no rosto da musa da história denunciava isso. Obviamente, a musa da astronomia percebeu o indício de sentimento da irmã para com o cavaleiro de capricórnio. Mas Clio continuaria rejeitando isso tão facilmente? Essa era a questão.
– Senti uma energia estranha outro dia. – Urânia comentou, no intuito de iniciar um novo assunto.
– Senti também. Sabemos quem é, o que me intriga é esse costume idiota de se manter à espreita. – Clio desabafou, enraivecida.
– O que me intriga é o motivo disso. – Urânia virou o conteúdo de sua taça. A insinuação do assunto fez Clio levantar a cabeça e fitar a irmã com atenção.
– Esqueça isso, Urânia. Não deve ter algo a ver com o que está pensando. É normal. – disse com pressa. A outra musa apenas assentiu.
– Pode ser, mas não negue que os ares estão mudando. Sei que você tem sentido isso, nada mais explica sua aflição diária, Clio. Conheço-lhe muito bem para analisar esse fato melhor do que você. Até porque você não pode analisar a si mesma.
– De fato, quem vê de fora geralmente enxerga melhor, mas admito que minha sabedoria, nesse caso, anda limitada. Sinto sim os ares mudando. No entanto, não quero lhe ver desfocada por causa disso.
– Não é questão de falta de foco. Preciso testar minhas hipóteses, mas sinto que as estrelas estão hesitantes quanto a me ajudar.
– Talvez, só talvez, não caiba a elas dessa vez.
Urânia, num rápido movimento, pegou a taça de Clio e enfiou na boca dela, fazendo a irmã quase engasgar.
– Cale a boca, Clio. Você só sabe proferir frases intrigantes. – completou o ato rindo ainda mais ao ver a irmã totalmente indignada. Mas Clio acabou rindo também, pois era verdade. As duas sempre ficaram baixo astral no mesmo período e nunca conseguiram se ajudar de verdade porque suas conversas e conselhos só as deixavam mais intrigadas. Como uma ajuda que não ajudava, apesar de ter tal intenção. Uma relação irônica, porém muito valorizada pelas duas musas.
– Certo, agora vá encher essas duas taças logo! – Clio mandou, fingindo-se de séria, mas sentindo uma gostosa sensação.
~
Depois de uma rápida conversa, Shion foi deixado por Yuzuriha, que foi atrás de Terpsícore após vê-la emocionalmente desestabilizada. O ariano compreendeu a situação, mas não deixou de lamentar a ausência da amazona. Poucas vezes, conseguiu um tempo para conversar com ela, então todo momento foi valorizado, mas não impediu que ele desejasse mais. Sem muita opção, seguiu para a mesa e encheu sua taça e, ao se virar, deu de cara com a musa da poesia épica, tão linda quanto a noite que se mostrava. Calíope sorriu e se aproximou.
Shion e a musa iniciaram uma conversa normal. Contudo, ele sentiu que havia outra intenção por trás das palavras de Calíope, a qual não demorou em aparecer.
– Shion, a pergunta que farei agora nem deveria existir em nossa conversa. No entanto, para não comprometer minha... Convivência com o cavaleiro de virgem, gostaria de saber se esse estado de alerta envolve normalmente um humor questionável por parte dele. – ela falou firme, mas um lapso de insegurança foi visto por Shion.
– Bom, não sei se sou a melhor pessoa para lhe responder, Calíope, mas acredito que a tensão e a preocupação são sensações que convergem para esse... Humor questionável. – ele se manteve sério, mas quis sorrir por um momento. Achou engraçada a situação. Já tinha percebido o envolvimento da musa com Asmita, mas não imaginou que ela fosse recorrer nesse tipo de situação. – Asmita é muito recluso em suas atividades, portanto não o vejo atuar muito em outras funções, as quais eu participo, geralmente. Mas digo-lhe para não se preocupar, apenas se mantenha distante por um tempo. Realmente precisamos da total concentração dele no momento.
– Entendo... – Calíope acariciou o pescoço enquanto refletiu sobre as palavras do ariano. — Shion, desculpe a pergunta, mas por acaso está acompanhado? – a pergunta o pegou de surpresa, mas ele não hesitou em responder quando viu a musa de testa franzida e focando o olhar atrás de si.
– Não exatamente. Por quê?
– Uma amazona acabou de lhe lançar um olhar hostil. Sei disso porque sou perita em tais olhares. – ela sorriu, sem graça. Ultimamente, deixou o lado esnobe de lado para observar melhor seu meio, e, ironicamente, não sentiu falta dele.
Shion se virou, desesperado, e viu Yuzuriha se afastar de onde se encontrava. Ela parecia bufar e suas mãos estavam fechadas em punhos. Levemente constrangido, pediu licença para Calíope e correu atrás da amazona. A musa sorriu e seguiu para onde Urânia e Clio estavam.
Ao chegar na barraca, deparou-se com as duas irmãs rindo e... Soluçando?
– Por favor, digam-me que não estão bêbadas. – Calíope disse seriamente após cruzar os braços e fitá-las com um olhar reprovador. As duas musas alegres riram ainda mais com a visão da irmã mais velha.
– Claro que não! – Clio disse, abraçando a musa da astronomia. – Estamos tranquilas, não é Urânia? – não obteve resposta. – URÂNIA, DESCE PRA TERRA!
Com essa frase, as duas explodiram em gargalhadas, atraindo a atenção de outros que se encontravam ali. Calíope automaticamente corou e estapeou o próprio rosto em sinal de desgosto. Seria engraçado se não sobrasse para ela depois.
– Um minuto de concentração, por favor. Quero fazer uma pergunta. – Calíope pediu.
– E quem está impedindo?! – Urânia respondeu, meio errada no jeito de falar.
– Ugh. – a ruiva bufou. – Ela está aqui, não está?
– Sim! – Clio respondeu. – Ela está, apesar de ser quase impossível por causa da falta de cosmo.
– Há uma maneira, mas espero que ela não esteja fazendo o que penso que está! – Calíope rosnou para si.
– Também espero. Mas deixe-a pra lá, ela não vai aparecer. Hic!
– HAHAHAHAHAHAHAHAH! — Urânia estourou um riso após o soluço de Clio, e a segunda fez o mesmo.
– Decadente. – Calíope comentou, revirando os olhos.
– Ah, Calíope, cale essa boca e beba conosco. – Urânia estendeu uma taça vazia. – Ops, não tem!
– Vá encher! – Clio ordenou, dando um tapa nas costas da irmã, que resmungou.
– Eu de novo? Já fui dez vezes!
– Que nada, foi cinco. – Clio disse e se virou para Calíope. – Urânia está vendo estrelas! HAHAHA
– Urânia, ajeite sua tiara, está torta. – Calíope disse, ignorando Clio.
– Não... Você está torta, irmã. – a musa da astronomia respondeu, completamente distorcida e inclinando o rosto.
– SentaaquiCalíope. – Clio pediu, meio enrolada. – Não, não! Antes, poderia pegar mais vinho para nós?
– É, faz séculos que não pegamos. Aliás, que eu não pego. – Urânia completou. – Hic!
– HAHAHAHAHAHAHAHAH – Clio apertou a barriga e escancarou a boca para rir. – Ai, ai, o que é isso? Cadê sua dignidade, Urânia?
– Fugiu com a sua! – as duas desabaram de rir novamente. Calíope fitou a cena e acabou rindo sem perceber, mas quando o fez, tapou a boca em seguida.
– Ahhh, pare com isso, Calíope. Você também tá sem o cavaleiro. Sente logo aqui! – Clio praticamente gritou e Calíope procurou um buraco para se enterrar.
– Olha só a cara de Calíope, parece uma explosão de supernova! HAHAHAHAAH – Urânia riu alto.
– Para de falar de astronomia, Urânia. Meta algo melhor nessa boca! – Clio disse. – Hic!
– HAHAHAHAHAHA Se você soubesse, irmã... Hic! – Urânia comentou.
Calíope entrou em choque.
– Céus, o que há nesse vinho? – perguntou a musa da poesia épica, totalmente descrente naquela situação. Nunca vira as irmãs daquele jeito absurdo, que, no fundo, parecia divertidíssimo. Entretanto, sua dignidade, questão muito bem colocada por Clio, a impedia de cogitar a possibilidade.
– Entregue-se, Calíope. EVOÉ! – Urânia ergueu a taça e olhou para Clio com malícia.
– EVOÉ! – a musa da história gritou.
– EVOÉ! – os presentes na barraca gritaram também.
– Calíope, só falta você! – Clio disse.
De repente, uma silhueta apareceu atrás da musa ruiva, com uma garrafa de vinho em uma mão e duas taças na outra.
– Por favor, musa da poesia épica, junte-se a nós e brinde! – Kárdia encheu uma taça e entregou à Calíope. – Evoé. – disse baixinho no ouvido dela, que estremeceu, e depois se afastou, incomodada.
– EVOÉ! – Urânia repetiu, mas logo murchou. – Droga, ainda estou com a taça vazia. Hic!
– Argh! Dane-se. EVOÉ! – Calíope gritou e foi seguida por uma salva de palmas e gritos de incentivo. Em seguida, virou o conteúdo da taça.
~
Enquanto a maioria dos moradores do Santuário se divertia na fogueira elaborada pelo cavaleiro de escorpião, um clima diferente se apossava na Casa de Peixes. Após jantarem novamente juntos, Albafica e Mel abriram um vinho e se puseram a observar as estrelas na sala do pisciano, onde uma enorme janela de vidro ocupava quase todo o canto da parede. Ela repousava a cabeça no peitoral dele, e os dois se encontravam no chão, encostados no sofá – apesar dos protestos de Albafica em relação a não sujar o belo vestido de Melpomene.
– Hmmm – ela murmurou quando sentiu o pisciano acariciando sua barriga por baixo do vestido, que foi levantado até sua cintura.
– Me diga, Melpomene. – Albafica mordiscou o lóbulo da orelha de sua musa. – O que espera ao vir aqui, com um vestido transparente da cintura para baixo? – nesse momento, desceu as mãos até as coxas macias dela e adentrou o meio das pernas. Mel arqueou as costas e enterrou a nuca no ombro dele ao sentir o polegar do pisciano deslizando pela sua peça íntima. Como estava encaixada nele, foi mais fácil atingi-lo em protesto às carícias. Sentiu-se sensível após todo o vinho tomado, então qualquer estímulo a deixou ardendo em vontades.
– Não me force a falar, por favor. – ela pediu, completamente encabulada. Albafica riu, sua musa não poderia ser mais adorável.
– Não a forçarei a nada, Melpomene. – disse calmamente. – Mas, se desejar, vou submetê-la ao prazer que tanto gosta. – Albafica pegou uma mecha do cabelo escuro da musa e inspirou seu aroma. Era sempre gratificante tê-la tão perto.
As palavras dele potencializaram a explosão que ela sentiu no ventre — local que ardeu praticamente implorando para ser atendido – e desencadearam uma respiração ofegante, denunciando o desejo reprimido nela. Para ele, a reação foi certeira, e não resistiu em deitá-la no chão e afastar aquelas pernas sedosas e convidativas. Albafica não conseguiu esperar mais, tirou a calcinha de Melpomene e a encarou com intensidade. A musa abriu o maior sorriso ao pensar no que viria, mas, para sua surpresa, o pisciano não a penetrou. Em vez disso, ela sentiu algo diferente em sua entrada molhada.
– Albafica! – Mel exclamou ao perceber que ele a estimulava com a língua. – Ahh...
Albafica quase pulou de felicidade ao ouvir o gemido dela. Ele não era perito em tal assunto, muito menos praticara anteriormente em alguém; tudo que estava experimentando partira do desejo de vivenciar esse tipo experiência com Melpomene após terem feito amor.
Confiante no próprio instinto, ele desviou a língua para o ponto mais sensível daquela região, demorando-se até sentir o corpo de Mel estremecer. Imaginando o que viria, interrompeu e migrou a boca para os lábios íntimos dela, mordiscando com cuidado apenas para provocar. Ouviu a musa resmungar de prazer e insatisfação por ele ter parado.
Maldito pisciano e seu poder natural de sedução. – Mel pensou, com muita dificuldade devido ao estado de êxtase.
Albafica abafou um risinho. Mais uma constatação: torturar Melpomene dessa forma era prazeroso. Seu membro pulsava dentro da calça.
– Eu quero... Ah... ah... – ela tentou falar. Por hábito de se preocupar, ele parou o que estava fazendo para prestar atenção no que ela queria dizer. Afinal, talvez estivesse fazendo algo errado. – Eu quero – Mel continuou, ofegante. – fazer algo por você também...
– Acredite, minha musa, você já está fazendo. – dito isso, ele voltou rapidamente a língua para o clitóris de Mel e intensificou os movimentos, fazendo-a gemer ainda mais alto de satisfação. Suas mãos prenderam as coxas dela enquanto ela prendeu seus cabelos com uma das mãos, o que, para ele, foi mais ainda mais excitante.
Mel enlouquecia a cada instante que sentia a respiração quente dele na sua intimidade juntamente com a língua agitada que a lambia lá dentro. Sim, agora ele penetrava com a língua, para piorar sua sanidade.
– Ah, não suporto mais. – ele falou, com sofreguidão, e se livrou das calças. Antes de penetrá-la, observou o corpo parcialmente coberto com o lindo vestido de cor vinho que ressaltava a pele branca dela. Melpomene exalava sensualidade sem sequer tentar, e foi essa constatação que fez o pisciano penetrá-la com força.
Ficaram naquela posição — onde ele a cobria com seu corpo — por pouco tempo, pois logo a musa o virou e ficou por cima, apoiando as mãos nas coxas dele e inclinando o quadril para frente. Enquanto Mel quicava em seu membro, Albafica a admirava do ângulo de baixo. Os seios medianos dela se movimentavam na mesma sintonia que ela e o convidavam para provar dos mamilos rosados. Se ele não estivesse em total estado de êxtase, teria o feito, apenas para estimulá-la cada vez mais. Entretanto, com uma imensa necessidade de tocá-la, ele apertou as mãos no quadril da musa e o mexeu mais rápido, às vezes puxando-a para cima e depois a voltando-a para baixo.
Mel delirou tanto com a iniciativa dele que permitiu a saída de todos os gemidos que vieram. Fez questão de gritar o nome de Albafica em alguns momentos e, em resposta, recebeu investidas mais fortes e rápidas. Ele a subia e descia, subia e descia, subia e descia, e assim se seguiu até gozarem – ela o fez primeiro, o que deixou Albafica deslumbrado por poder vê-la tendo o orgasmo.
Ficaram ali mesmo, no chão – que nunca pareceu tão confortável -, abraçados e enroscados em cima do tapete claro dele. Sem controlar as mãos, o pisciano iniciou um carinho nos cabelos macios dela, enquanto os dois recuperaram a velocidade das respirações e deixaram os corpos se refrescarem – mesmo trocando calor corporal. Para ele, a temperatura não importava, apenas queria se manter com o corpo diminuto dela no seu. Não admitiria a quebra desse contato nem por um segundo.
Após tantos gemidos e expressões de prazer, eles deixaram o silêncio se apoderar do momento — não poderiam ter feito melhor. E, depois de um tempo, Mel o quebrou.
– Teve alguém antes de mim?
Albafica franziu a testa, pensando se entendeu direito a pergunta.
– Por que essa pergunta? – devolveu, por fim. Sentiu a musa estremecer.
– Bom... – suas bochechas esquentaram. – Nunca tive alguém antes de você, mas você... Faz tudo tão bem que... Parece que já fez antes. – Mel quis se enterrar em algum buraco assim que proferiu as palavras. Ainda mais depois de ouvir Albafica rir de leve pelo nariz.
– Melpomene, nem se eu quisesse teria feito algo com alguém, meu veneno me impediu de qualquer contato desde cedo. Ninguém nunca pôde fazer comigo o que você faz. – e, sinceramente, ele não quis dizer apenas no âmbito carnal.
– Se pudesse, teria feito? – perguntou, insatisfeita.
– Minha musa sente ciúmes. Que novidade! – ele brincou amenamente, mas ela não cedeu. Ele a chacoalhou em seus braços, porém ela manteve o bico. – Melpomene, sinceramente, teria feito com alguém que tivesse despertado o que você despertou em mim, mas ninguém nunca conseguiu essa façanha até você aparecer.
Ela pensou um pouco.
– Então, quer dizer que você nunca passou por uma vontade para com alguém e teve de manter distância apenas por causa do veneno? – ela perguntou, fingindo despretensão. Mas a frase foi bem elaborada demais para que Albafica caísse nisso.
– Não exatamente. – a resposta fez Mel endurecer e Albafica se alarmou. – Acalme-se, Melpomene. Não há razão para ficar assim. Olhe pra mim. – como indicador e o polegar, ele a puxou pelo queixo, fazendo-a fitá-lo com os olhos marejados. – Essas lágrimas são desnecessárias. Sabe disso, não é? – ela fez que não e ele riu graciosamente. – Minha musa, deixe-me esclarecer: nunca gostei de ninguém da forma que entendeu, apenas tive vontade de me aproximar das pessoas. Isso é natural querer muito algo que não se pode ter. Consegue compreender?
– Sim, mas não foi esse tipo de vontade que eu quis dizer...
– Eu sei, mas do mesmo jeito isso se encaixa em minha fala, Melpomene. E o fato de eu ter sentido vontade de alguma coisa no passado não implica nos fatos atuais. Portanto, deixe esse ciúme de lado. – a última frase saiu séria.
Albafica endureceu a voz propositalmente para que Mel levasse a sério. Qualquer deslize de moral que ela sentia devia ser ponto de preocupação, pois a falta de atenção, nessas horas, poderia causar a tristeza da musa. Ele reconhecia, às vezes, que sua preocupação para com ela era neurótica demais, mas não conseguia evitar.
– Desculpe-me, ando sensível demais e nem sei por quê. – ela alegou. – Eu sei que-
Albafica não permitiu a fala e calou-a com um beijo.
~
Chega. – Manigold pensou.
O canceriano não aguentava mais ver Tália e Lacaille dançarem juntos, animadamente, como se apenas existissem eles ali na fogueira. Sarah já não apresentava assuntos interessantes – ou pelo menos poderia dizer isso se prestasse atenção neles. Manigold estava tão irritado com o fato de não ter passado um segundo sequer com Tália que decidiu encerrar essa distância naquele momento e seguiu até onde os dois estavam.
– Tá, com licença que é minha vez de encher o saco dela. – Manigold falou com sua voz arranhada para Lacaille, que o olhou confuso. Tália nem conseguiu expressar reação.
– Como é? – o cavaleiro de prata franziu o cenho.
– Vá lá tocar sua caixa clara. Aliás, vá aprender a tocar porque, cacete, você toca mal, garoto!
– Manigold! – Tália o reprovou. – Pelo menos, ele toca alguma coisa.
– Eu poderia responder algo bem indecente, musinha, mas não o farei porque ainda não parei pra falar com você. – ele grunhiu.
– E nem vai! Estou acompanhada, não vê? – ela retrucou, abraçando um dos braços do cavaleiro de Popa, que abriu um sorriso ao ver que era preferência diante de um cavaleiro de ouro.
– Aceito sua crítica, Manigold. Posso até tocar mal, mas há outras coisas que sei fazer muito bem. – Lacaille rebateu, sorrindo maliciosamente para Tália, que não corou porque não compreendeu a intenção. Manigold bufou.
– Ugh, como você é inocente, musinha. Nem pra perceber a companhia indecente que tem ao lado. – ele riu sarcasticamente, mas Tália agiu melhor.
– Na verdade, agora que parei pra pensar – ela se virou para Lacaille -, será que poderia me dar algumas demonstrações dessas coisas que você sabe fazer melhor? – e abriu um sorriso esperto. O queixo dos dois cavaleiros caiu.
Manigold, completamente irritado, enlaçou a cintura de Tália com os braços e a puxou para si, mas ela o afastou com um empurrão, sem dar chance alguma de reviravolta.
– Está louco, Manigold? Que inconveniente! – ela bradou, com as mãos na cintura, visivelmente irritada. Lacaille não resistiu e riu da cena, para piorar a situação do canceriano. – Não deveria ter deixado sua acompanhante. Não vai conseguir nada aqui!
– Por que está tão grossa, Tália? – teve de apelar para o nome dela para ver se conseguia trazer sua seriedade. – Está com ciúme de Sarah? – ele sorriu com a ideia.
– HAHAHAHA – Tália gargalhou forçadamente. – Ciúme é a palavra que define você neste exato momento, cavaleiro.
– E eu ia ter ciúme de você com esse cavaleiro de Popa? Fala sério, Tália. Vocês não são tudo isso! – ele disse, sem considerar mais o ato de pensar antes de falar.
As palavras esfaquearam um pouquinho o coração de Tália, mas ela não deixou isso transparecer. Simplesmente, manteve a pose e voltou a falar.
– Não é o que parece, está sempre me rondando e demonstrando insatisfação ao me ver com outro alguém! – ela berrou, sem se importar pelo fato de estar colocando-o “na parede”.
Lacaille movimentava a cabeça de um lado para o outro, em sincronia com quem tomava a palavra. Já entendia o que estava se desenvolvendo em sua frente, por isso não se submeteu mais à cena patética e saiu sorrateiramente. Eles que se resolvessem.
– Olha só! Não conseguiu nem manter essa criatura. Se bem que, pare lhe dar crédito, acredito que a culpa não foi sua. – Manigold provocou cruelmente.
– Claro que não, foi sua! Você e essa cara azeda assustaram meu acompanhante! – ela revidou. Se pudesse, permaneceria com o humor na discussão, mas os ares insinuaram uma pequena nuvem negra como rumo da conversa; e uma angústia cresceu dentro dela.
– Tem vários por aí, mas não sei se você faz o tipo deles.
Novamente esfaqueada. Pelo visto, Manigold estava revelando o que achava dela aos poucos...
– Diferentemente de você, cavaleiro, eu prefiro pessoas sinceras. Não sou movida à aparência.
– Acho que é meio óbvio, né? Olhe só pra você! Você não inspira ninguém.
Num mísero segundo, tudo emudeceu para Tália. A música não foi mais ouvida, assim como as risadas das pessoas e os comentários cruéis do cavaleiro de câncer. O aroma de madeira queimada se desfez diante de suas narinas, tirando-lhe a noção do espaço nesse sentido. Sentiu o corpo tremer, mas cogitou a possibilidade de ser uma brisa; se bem que nem isso ela conseguiu mais sentir... Quase foi capaz de ouvir o sangue correr em suas veias e o coração desacelerar; sua mente pareceu vibrar em lembranças, como se quisessem arrastá-la para o passado horrível que vivenciou. Tália não quis, mas foi inevitável.
Palavras. As palavras são perigosas demais...
– Tália?
Essa voz de novo não. – Tália pensou. Segundos depois, correu.
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