EmMusas - The Lost Canvas
25 Esclarecendo, escurecendo
Notas iniciais

Capítulo 25
– Boa noite, Cid. – Cléo cumprimentou de volta, secando Clio com o pior dos olhares. – Engraçado te ver por aqui, faz tempo que não aparece. Muito menos acompanhado. – deu mais uma secada na musa, que se mostrou incomodada. – Você é aquela garota daquele dia, certo?
– Sim, e você lembra quem eu sou. – Clio respondeu, séria. Cléo revirou os olhos e sorriu debochadamente.
– Lembro dessa tua cara de palha seca.
– Cléo! – El Cid não suportaria dessa vez. – Por favor, retire-se, está atrapalhando.
– Atrapalhando o quê? Ela é tão difícil assim de fisgar que você teve que jantar com ela? Vão acabar a noite em que cama? – perguntou com o mesmo deboche de antes e de braços cruzados.
– Acha que todo mundo é que nem você? – a musa se impôs.
– Não fale comigo que o assunto não chegou aí embaixo. – Cléo revidou, visivelmente brava, mas Clio não se intimidou.
– Mais baixa que você, impossível. – Clio comentou baixinho.
Cléo riu e virou de costas para a musa e de frente para o cavaleiro, apoiando-se na mesa e inclinando o decote para frente. A moça gostava de usar roupas que valorizavam suas curvas – as quais extraíam suspiros da esmagadora maioria dos homens – e, quando se tratava de El Cid, usava todos os dotes que tinha para chamar atenção. Conhecia-o muito bem para saber seu gosto. Obviamente, ele não deixou de passar um olhar rápido pelas partes expostas daqueles seios enormes.
– Pelo visto, ainda se lembra deles, hein, Cid. – a moça provocou. El Cid mordeu o lábio por constrangimento.
– O que quer aqui, Cléo? – perguntou, profundamente irritado.
– Sinceramente? Quer dizer... Quer que eu fale alto ou baixinho no seu ouvido do jeito que você gosta? – ela se aproximou, mas ele se afastou e levantou da mesa.
El Cid bufou. Soube, na hora, que ela não deixaria o local contanto que conversasse com ele a sós. Ao mesmo tempo, pensou na situação de Clio. Por que Cléo tinha que aparecer logo nesse momento? Como se soubesse que estariam ali... Essa aparição fedia a veneno de escorpião. Ele inspirou fundo e soltou o ar com lentidão, depois se virou para Clio.
– Você me dá licença para resolver essa inconveniência? – pediu para a musa, que assentiu com desgosto enquanto era fuzilada pelo olhar de Cléo.
– Ela não tem que dar nada, Cid, você é meu. – a moça puxou o braço dele, colando seus seios, mas ele se afastou bruscamente.
– Quer parar? – o tom grave de El Cid a assustou por meros segundos.
– Está novamente se constrangendo perante as pessoas. – Clio disse, normalmente.
Dessa vez, quem puxou ar foi Cléo, que se aproximou da musa lentamente, com um olhar mortal. Clio se levantou.
– Olha aqui, eu lembro perfeitamente de cada palavra que disse aquele dia, sua palha seca. – o tom ameaçador da moça não intimidou.
– Que bom, espero que tenha compreendido sua situação. – Clio se manteve parada, com os dedos tocando na mesa...
– Você se acha tanto assim só porque é musa? – Cléo estava fervendo de ódio e demonstrou isso se aproximando até quase colar seu nariz no de Clio. – Eu cheguei aqui primeiro, eu o encontrei primeiro, eu o fisguei primeiro, ele é inteiramente meu e, se alguém ousar tirá-lo de mim, conhecerá o quinto dos infernos. – algumas gotículas de saliva voaram no rosto da musa, mas ela continuou parada. – Então, é melhor você sair daqui e voltar para o seu mundinho escroto e deixar o caminho livre pra quem não é fresca e fraca que nem você. – e então, Cléo aproximou o indicador do rosto de Clio, que movimentou os próprios dedos na mesa... – Você não me assusta, musa de merda. E se eu te vir-
Cléo não terminou a frase, foi tudo muito rápido; quando se viu, estava cheia de vinho no rosto, nos cabelos, no colo e no decote do vestido, manchando-o instantaneamente.
– Nunca mais aponte esse dedo miserável para mim. – Clio disse, após colocar a taça na mesa. Um pouco do vinho respingou em seu vestido, mas ela não se importou; estava saturada daquela situação desagradável.
– SUA DESGRAÇADA!!! – Cléo berrou. Antes que pudesse estapear a musa, foi agarrada pela cintura por El Cid e logo Dora apareceu.
– QUE BAIXARIA É ESSA NO MEU RECINTO?! – gritou a mulher, tão alto quanto Cléo. – Ah, você, né, senhorita Cléo, tinha de ser! Sempre arrumando confusão em prol de seus egoísmos. – Dora colocou suas mãos na cintura larga e reprovou a moça com o olhar.
– Essa musa de merda atirou vinho em mim! – berrou novamente, indignada e tentando se desvencilhar dos braços de El Cid, que continuava pasmo com a situação.
– E ela deve ter tido um motivo muito forte para ter feito isso, não? – perguntou Dora, irritada. – E não chame a senhorita Clio disso novamente, ou te expulso com a vassoura!
– Dora. – Cléo engoliu seco, controlando a voz em respeito à mulher. – Me desculpe, mas essa garota-
– Essa garota está aqui com minha autorização, se alguém tem que sair é você, querida. – Dora acalmou a voz, sentindo-se mal pela situação da moça por quem tinha tanto carinho. – Deixe os dois em paz e vá se divertir, Cléo.
– Nunca! – um resquício de lágrima refletiu a luz da lua no olhar dela. – Eu preciso... – virou-se para El Cid e o abraçou. – Preciso de você.
Antes que El Cid pudesse falar qualquer coisa, Dora se impôs.
– Cid, converse com ela. Tá mais do que na hora.
– É, converse com ela. – Clio se colocou, compreensível. Assim como Dora, sentiu pena da moça desesperada pela atenção do capricorniano.
– Cale a boca! Você não manda nele! – Cléo gritou para a musa.
– Mas eu quero conversar com você sim, Cléo. Aliás, não quero, mas preciso. – El Cid finalmente se pronunciou. Ah, como odiava conflito feminino.
Cléo o abraçou, esperançosa.
– Sério, Cid? – e sorriu. Ele apenas assentiu e a pegou pela mão, levando-a para o outro lado do restaurante, onde teria privacidade e ela poderia descontar o que quisesse sem envolver Clio.
Cléo lançou um olhar triunfante sobre Clio, que apenas ignorou e bufou.
– Vou te trazer outro vinho, Clio. Ou melhor, vou te acompanhar nesse próximo. – Dora piscou para a musa, que retribuiu com um sorriso triste. – Não fique assim, querida. Esses dois já não têm mais nada, o problema é que ela não percebe. Ô moça difícil, hein!
Dora voltou rapidinho com duas taças de vinho e sentou-se onde El Cid estava.
– E então, sobre o que vamos fofocar? – a mulher baixinha perguntou, com um sorriso divertido no rosto. Clio não resistiu e sorriu também.
~
El Cid acompanhou Cléo até a parte de trás do pequeno restaurante, num local onde não havia mesas e pessoas. Como Sísifo dissera, ele precisava se resolver logo com ela, mesmo que não tivesse o apego de antes. Pelo visto, o caso de Cléo era crítico, num âmbito obsessivo e se quisesse ter paz com Clio, tinha de esclarecer tudo. Não sabia exatamente como começar, sentia-se um pouco infeliz por ter de dar um basta dessa forma com Cléo, que, com certeza, não encararia isso de forma saudável.
O cavaleiro a levou pela mão até um ponto alto do local e logo a soltou. A expressão feliz de Cléo o torturava por dentro; ninguém gostaria de encarar uma expressão como essa num momento desses.
– Cléo...
– Sem cerimônias, Cid. Me dê logo um beijo. – ela enroscou os braços no pescoço dele e se aproximou, com um sorriso no rosto, mas foi impedida pelas mãos dele.
– Não vim aqui para isso. – disse ele, sem emoção.
– Hmm, você quer fazer em outro lugar? Sei um bem gostoso. – a malícia dela era uma traço tão clássico que não causava mais efeito nele.
– Também não. – El Cid se afastou e respirou fundo. – Quero esclarecer o que temos, ou melhor, o que não temos mais. Na verdade, não achei que fosse desenvolver um rótulo para nós, pois, em momento algum, dei a entender que o queria.
– Deu a entender muita coisa quando gemeu pra mim na cama. – ela engoliu seco, não gostando do rumo da conversa.
– Certo. – ele fez o mesmo, mas em constrangimento. – Mas nunca dei a entender que desenvolvi sentimentos por você. Se considera uma relação sexual como um passo direto para uma relação maior, então peço que me fale logo para que seja mais fácil dizer onde erramos.
– Erramos? Você nos vê como um erro?
– Nãos no vejo e nem nos vi como tal, mas estou quase me convencendo de que errei com você.
– Claro que não, Cid. Você me faz tão feliz! – ela sorriu e se aproximou para abraçá-lo, porém foi afastada novamente. – Cid!
– Entenda que quero que pare. – ele a encarou seriamente. – Não quero que se intrometa em minha vida, ainda mais quando não temos nenhum vínculo afetivo que te dê o direito disso. Peço desculpas por ter confundido sua mente ao me relacionar de outra forma com você, mas quero que entenda, acima de tudo, que foi apenas isso.
– Então você só queria sexo comigo? Por favor, El Cid, não sou burra. – zangou-se. Ele bufou, seria mais difícil do que pensou.
– Cléo, nós não temos nada e eu nem quero ter.
Cléo parou. Não foi assim que imaginou a conversa com ele, não esperou o fora e muito menos a manifestação de sentimentos desgostosos para com o que tiveram. Nada na fala de El Cid fazia sentido para ela, que sempre viu uma chama maior no que os envolvia; pelo visto, ele não. Perceber isso doeu e ela não conseguiu não demonstrar. Ao mesmo tempo em que não queria acreditar naquelas palavras, elas faziam todo o sentido. Ele estava jantando com outra; nunca fizera isso com ela...
– Mas... – começou ela, sem jeito. As palavras repetiam como se limpassem toda a ilusão que criara, dando espaço para uma bela queda. – Eu gostei tanto do que tivemos... Gosto tanto de você, Cid. Ninguém conhece seu interior como eu.
– Não é bem assim, você não foi a única pessoa que me conheceu mais intimamente, e não falo de sexo. – ele se mantinha sério.
Para ela, doeu também o fato de ele ter ignorado a confissão.
– Aquela musa foi uma dessas pessoas? – perguntou com desdém.
– Não. Ainda não.
– Pretende se abrir para ela? – nos olhos, as lágrimas se formaram, mas ela não teve coragem de encará-lo.
– Sim. Se eu puder, pretendo deixá-la entrar...
De repente, falar isso foi como tirar um peso dos ombros para ele. Sabia que, no momento em que admitisse sua intenção com Clio, muita coisa ficaria clara em sua mente, mas falando assim tudo pareceu tão óbvio que pareceu apenas mais uma frase. Ele já trabalhava o próprio interior para se abrir para a musa; ele queria que ela o visse e analisasse – por mais que esse hábito não fosse dos mais convidativos -, ela parecia funcionar com ele.
Cléo riu pelo nariz, tristemente.
– Você nunca me deixou entrar. Se abriu um pouco, mas nunca me deixou entrar. – ela disse, sem se importar com a lágrima traíra que desceu sem autorização.
El Cid suspirou diante de sua fraqueza; odiava ver mulheres chorando, ainda mais por sua causa. Era por situações como essas que ele preferia não alimentar os sentimentos delas. Sem resistir, ele a abraçou, um pouco duro; Cléo não retribuiu.
– Espero que me perdoe por não ter sido claro o suficiente e por ter ignorado esse problema. – pediu, enquanto massageava a nuca dela com carinho.
– Você me ilude, dá o fora, admite que quer outra e me chama de problema de uma só vez? – Cléo riu tristemente, afastou-se e limpou as lágrimas. El Cid franziu o cenho, confuso. – Droga, estou chorando e toda suja de vinho.
El Cid esperou até ela se lembrar de que ainda tinha que responder. Sem vontade alguma, Cléo resmungou para si, respirou fundo e o encarou.
– Eu não te perdoo, vou te deixar em paz, mas não perdoo. – respondeu, cansada, e fungou. – Vou tentar odiar você, isso sim, da mesma forma que odeio aquela musa de merda.
– Insulte o quanto quiser para mim, mas fale na frente dela, ou sequer ameace como fez, e sou eu quem vai odiar você num parâmetro nada saudável, Cléo. Pense bem no que vai fazer de agora em diante. – o olhar furioso do capricorniano deixou a moça evidentemente arrepiada. Ótimo, essa era a intenção. Ele não suportaria mais a grosseria dela com Clio. – Já que finalmente compreendeu, me dê licença para voltar.
Após a fala, El Cid deu as costas – o que enfureceu Cléo, que puxou o ar mais profundo e gritou:
– Espero que vocês passem mal!!!
– Boa noite, Cléo. – respondeu ele, educadamente, sem se virar.
Sorrindo, ele se dirigiu para a mesa, completamente satisfeito com o peso tirado dos ombros. Sísifo tinha razão em tudo, não só em sua culpa, mas também em sua solução; o sagitariano safado não poderia ter dito melhores palavras. O coração do capricorniano iniciou batidas mais aceleradas, indicando a ansiedade por ver Clio — esperava que ela não estivesse brava com seu afastamento. De qualquer forma, ele estava bravo com isso; se não fosse Cléo, estaria aproveitando cada segundo do tempo com a musa.
~
Todo mundo que decidiu sair nessa bela noite teve razão. Para ele, não havia uma noite que devia ser desperdiçada em casa, até porque todas lhe eram convidativas. Mulheres e música definiam muitos pontos estratégicos da vila de Rodório; e com tanta opção interessante, não enxergava motivo para mofar em seu sofá carmin – a não ser que tivesse uma companhia tão bela quanto a noite. Sim, era nisso que Kárdia pensava enquanto seguia para a taverna de sempre.
Apesar de gostar de variar, o escorpiano tinha uma intuição para dias que devia escolher a taverna preferida: Toca do Desafinado. Nome peculiar, porém ideal para o que se fazia lá dentro: os beberrões entediados costumavam arranhar os instrumentos (de percussão, de cordas e de sopro) oferecidos pelos donos do local e desafinar na hora do canto, enquanto belas moças fingiam que os admiravam e batiam palmas em troca de vinho. Kárdia não tinha problemas em investir nisso, não quando tinha uma vida tão limitada no sentido social. Se tivesse de pagar para ter companhia, pagaria sem hesitar, mas esta teria de ser aprovada pelo seu gosto, claro.
O espaço de dentro possuía longas mesas de madeira que acomodariam facilmente dez pessoas – ideal para os grupos que lá passavam a noite; um largo balcão de entrega de bebidas e pratos – os quais eram variações de petiscos; um pequeno palco improvisado (localizado no canto oposto ao do balcão), onde alguns instrumentos eram disponibilizados; pouquíssimas janelas se espalhavam pelas paredes, as quais eram cobertas por cortinas escuras que convergiam com a pouca luz do local – claro, era o que dava o charme maior. Pouca iluminação era ideal para certas insinuações.
Assim que entrou, dirigiu-se até o balcão, pediu uma taça de vinho e varreu o local com os olhos caçadores. Algumas belas moças já se encontravam desinibidas, algumas nos colos dos rapazes, outras fofocando e fitando o espaço com as amigas, mas uma, em especial, observava os rapazes que tocavam os instrumentos com olhos analíticos. Kárdia semicerrou os olhos, à procura de focá-los melhor no alvo, e não acreditou no que viu: a moça especial, que se encontrava sozinha numa mesa menor de madeira, era dona de uma beleza estonteante; em primeiro porque seus cabelos negros caíam em ondas até metade das costas e lutavam com a cor vinho do vestido em busca de ofuscação; em segundo porque o corpo dela era tão sinuoso quanto o cabelo, as curvas quase imploravam por mãos exploradoras; em terceiro porque o olhar dela era formado por dois olhos azuis tremendamente claros. Ela bebericava um copo de água enquanto encarava firmemente os rapazes que tocavam. Depois de um tempo observando-a, o escorpiano percebeu que ela rebolava levemente na cadeira, no ritmo da música. Ah, era tentador demais... Deixá-la sozinha já era absurdo, mas mais absurdo era ficar parado apenas observando.
Rapidamente, ele seguiu até a mesa da moça.
– Olá, atrapalho? – Kárdia aveludou a voz ao fazer a pergunta e, pelo visto, funcionou, pois a moça se virou e sustentou seu olhar lascivo.
– De certa forma, atrapalha muito. – respondeu graciosamente e virou de volta para o palco.
– Deixe-me adivinhar: estou tirando sua concentração. – lentamente e sem se importar, ele sentou na frente dela, impedindo-a de ver o palco. Kárdia sorriu maliciosamente após vê-la bufar superficialmente.
– Está me provocando?
– Hmm, melhor que “atrapalhando”. – ele riu. A moça manteve o olhar de quem não se importa e bebeu a água, sem tirar os olhos do escorpiano. Kárdia sentiu o coração acelerar com o olhar profundo dela. – Por que está aqui sozinha?
– Por vontade própria e para assistir aos músicos. Pelo visto, não adiantou. – bateu o copo após beber toda a água, mas Kárdia não percebeu insatisfação na fala.
– Perdoe-me, não pude deixar de vir depois que te vi sozinha com tanta presença particular. – lançou o olhar faminto. – Não sei o que aconteceu comigo nesse impulso, compreende? – ironizou.
A moça riu após a fala, porém não uma risada qualquer; parecia esconder alguma coisa, o que acabou intrigando o escorpiano.
– Está em algum desses grupos? – perguntou ela, curvando-se para mais perto dele.
– Não, ajo sozinho. – ele fez o mesmo, ficando a centímetros do rosto belíssimo à sua frente.
– Que coincidência. – ela voltou para trás. – Mas, pelo visto, encaramos esse termo de forma diferente. Seu “sozinho” lhe fez se aproximar de mim.
– Seu “sozinha” está tentando me afastar, mas não sabe o quanto sou insistente. – ele voltou e sorriu.
– Insistência não é a melhor das características,... – a pausa deu a entender a ausência do nome.
– Kárdia. – o escorpiano estendeu a mão e ela a deu.
Um simples beijo nas costas daquela mão despertou a libido dele muito mais do que antes. Não soube dizer se foi o aroma cítrico que exalou da pele dela ou a maciez que sugeriu certa virgindade. A moça parecia nunca ter sido tocada. Instantaneamente, Kárdia se excitou e suas pupilas se dilataram.
– Prazer. – ela respondeu, retirando delicadamente sua mão.
– Não vai me dizer seu nome?
– Não é nisso que está interessado, cavaleiro.
Que mulher intrigante.
– Como sabe que sou um cavaleiro? – Kárdia ficou confuso, nunca tinha visto a moça e ela parecia conhecê-lo muito bem. Certo, sabia da fama que tinha, mas não saía contando de sua vida por aí. E, com certeza, não conheceu essa moça, não se esqueceria dela facilmente.
– Bom, sua postura é imponente, seu olhar é de quem exala superioridade e a sagacidade na sua fala deixa claro o cuidado que tem com as palavras. São características muito sofisticadas para pessoas mais humildes. Além disso, eu não sabia, apenas arrisquei para ver se estava certa. – dessa vez, quem sorriu com malícia foi ela. E que sorriso.
Ah, então ela gostava de mostrar sua esperteza? Kárdia não pôde deixar de admirá-la ainda mais. Claro que observou a beleza, a firmeza, o charme e a sensualidade dela em cada mexida de corpo, mas ouvi-la falar foi igualmente maravilhoso. Geralmente, em noites como essa, ele preferia mulheres mais submissas, mais fáceis, mas a moça com quem trocava alfinetadas era absurdamente atraente, num âmbito quase impensado.
– E como nunca te vi por aqui? – perguntou ele, com um brilho diferente nos olhos. A moça sorriu.
– Andei viajando...
– Por quanto tempo? – não era possível que tivesse deixado escapar uma mulher tão deliciosa.
– Vai me interrogar ou beber comigo? – ela levantou uma sobrancelha.
– Deixe-me pagar o vinho. – ah, que feitiço maldito ela tinha? Não que não fosse pagar o que ela queria, mas a frase saiu tão rápida que pareceu desespero. Quase diria que faria tudo pela mulher!
– Hmm, não, cavaleiro. Eu pago minha própria bebida. – ela piscou e se levantou, seguido por ele.
~
Após a volta de Cid, Clio voltou a ficar calma; não que não tivesse ficado com Dora contando tudo que contou. Ainda assim, sentiu agitação após jogar o vinho em Cléo; não era esse tipo de pessoa, mas a onda de indignação veio tão forte que a impulsionou sem pensar. Outra coisa que não era: uma pessoa sem pensar. Cada vez que refletia mais, sentia a confirmação da mudança, cujo motivo, porém, mantinha-se indecifrável.
De repente, uma energia diferente tirou Clio dos pensamentos.
– Clio? – a voz de El Cid a chamou; ele reparou na franzida de testa dela. – O que houve?
– Senti algo que é meio... Improvável.
– Como o quê? – perguntou ele, preocupado. Tudo que a envolvia o preocupava, basicamente. Clio teve de rir com a franzida de testa dele.
– Você precisa deixar de se preocupar junto comigo, El Cid. – ela riu, ele corou. – De qualquer forma, foi apenas uma energia... Incomum. Deixe pra lá.
– Como quiser, mas não garanto a falta de preocupação. É um... Dever. Precisamos nos preocupar com vocês. – ele pigarreou. Não conseguiu expressar da forma certa, mas Clio pareceu não se importar, pois riu novamente.
– Sei... Bom, vamos?
El Cid pagou a conta e se despediu de Dora junto com Clio. Ele não podia estar mais feliz pela amizade que nasceu entre a musa e a mulher, ainda mais depois que Dora se mostrou completamente a favor de Clio em todos os âmbitos. Não sabia o que tinham conversado enquanto esclarecia com Cléo, mas sentiu a diferença da musa quando voltou; ela estava menos tensa e mais tranquila, assim como ele. Seguiram o jantar falando sobre o Santuário e o vale de Clio, sobre alguns possíveis gostos em comum e também sobre vinhos. Com certeza, o tempo não foi desperdiçado, mesmo com a aparição indesejada de Cléo. O jantar foi melhor do que ele sequer imaginou.
Para ela, foi igualmente agradável, mas Clio analisou muito mais. Temeu, desde o início, a inibição de El Cid, mas irradiou-se ao ver o esforço dele em ser o contrário – e não foi um esforço negativo, ele deixou claro o quanto queria correspondê-la. El Cid escondia um mar de sensibilidades por trás da pedra dura que era sua expressão, e mergulhar nele por pouco tempo já ampliou o olhar da musa. Com certeza, havia uma confiança a ser lapidada e um valor a ser despertado; nas duas ações, ela adoraria estar ao lado do protagonista.
Assim que iniciaram a subida da Casa de Peixes até o Templo do Grande Mestre, ele começou a se preocupar. Não tinha pensado em como se despediria dela... Tinha vontades definidas, obviamente, mas não soube interpretar os sinais de Clio – se é que existiram. Não poderia interpretar a simpatia e graciosidade da musa como um sinal, pois ela já era assim naturalmente; conversar sobre isso não seria romântico, então não era opção. As mãos do capricorniano começaram a suar instantaneamente, isso sim era um sinal – daqueles que ele se desesperou por esconder.
Assim que chegaram na entrada, um pequeno silêncio passou, até Clio pigarrear.
– Hmm. – ela percebeu uma mera confusão no rosto dele, por isso decidiu falar. – Quero agradecer pelo jantar e pela companhia. Eu... Nunca tinha ido a um encontro com alguém.
El Cid travou. Como? Ela nunca tinha ido a um encontro? Então, provavelmente, assim como ele, não sabia agir direito quanto aos fragmentos que compunham esse ato. Com certeza, saber disso foi um alívio.
– Faço das suas palavras as minhas, Clio. Mas acrescento um pedido de desculpas pela inconveniência...
– Não precisa, apenas esqueça isso. – ela sorriu e o mirou com o olhar cheio de ternura. – Obrigada, também, por me apresentar a incrível Dora.
– Pena que perdi a parte da conversa de vocês. – ele disse, com graça, porém timidamente.
– E eu digo que ainda bem. Algumas coisas vocês, homens, não devem saber... – Clio lançou um sorriso esperto cheio de charme e se aproximou para tocar no rosto do capricorniano, que já estava totalmente corado.
El Cid fechou brevemente os olhos com o carinho, aproveitando para sentir o toque aveludado da pele dela. E Clio percebeu um sorriso de canto brotar nele; não resistiu e deu um selinho ali. Se não fosse a noção de sua volta, ele teria pulado alto demais com o susto provocado pela atitude de Clio; entretanto, seu corpo não se moveu, não achou a força necessária para isso, pois aquele breve selinho sugou toda a noção que precisava ter. Se pudesse se mexer, agarraria a musa e deixaria as marcas que queria, mas, além de não ser um Kárdia, tinha a noção que precisava para manter o respeito. Na batalha do corpo e da mente, a segunda parecia ter o controle.
Clio se afastou e sorriu o sorriso que El Cid tanto gostava, um levemente ousado, com uma pitada de esperteza. Ela sustentou o olhar maravilhado do capricorniano e desejou:
– Boa noite, El Cid.
– Boa noite, Clio. – desejou de volta, com muito esforço para encontrar a voz.
Ela deixou o cavaleiro para trás e adentrou o templo, calmamente; ele se manteve observando-a se afastar, tão charmosa e bela naquele vestido azul royal – que cobria demais, mas tudo bem. Para Clio, foi quase possível sentir o olhar feroz dele em suas costas e ela não deixou de sorrir, satisfeita.
Seguindo em frente, deparou-se com a última cena que esperava: Melpomene saindo de fininho do quarto dela e de Tália, vestida com uma roupa simples, porém arrumada.
– Posso saber para onde vai? – perguntou Clio, com as mãos na cintura.
– De todas, tinha que encontrar logo você. – Mel respondeu, sem ânimo.
– Mude essa cara, sei que vai encontrar alguém, só quero que me conte para eu não pirar depois atrás de você. – Clio mudou logo o discurso que ia fazer ao se lembrar do caso de Terps. Acumulou antipatia de algumas irmãs depois de sua atitude, então o melhor seria não se intromete tanto.
– Vou à Casa de Peixes conversar com o protetor. – falou sem importância.
– Você encena muito bem, sei que está querendo correr até lá. – a musa da história riu de leve.
– Então me deixe correr! – Mel pediu, rindo junto, mas com mais timidez. Clio assentiu.
– Mas antes, saiba que Urânia quer falar urgentemente com você. Procure-a amanhã cedo.
Mel fez que sim e seguiu direto para a décima segunda casa, deixando a irmã se divertindo sozinha. A vontade de chegar na casa de peixes era tão grande que Mel conseguiu atingir uma velocidade anormal. Mas, claro, depois do que Albafica disse, ela se sentiu obrigada a correr para o banho, colocar uma roupa e voltar para lá.
“Quer saber o porquê de aquela rosa ter lhe beijado? Vá e volte logo.” Foram as palavras exatas dele. E claro que ela obedeceu.
Assim que chegou, adentrou a ala privada da casa e parou assim que viu Albafica e o que estava ao seu lado.
– O que significa isso? – perguntou ela, extasiada.
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