EmMusas - The Lost Canvas
26 Aroma perfeito
Notas iniciais

Albafica’s P.O.V
– O que significa isso? – perguntou ela, extasiada.
Mal pude conter minha satisfação ao ver a expressão emocionada de seu rosto belo e delicado, era exatamente isso que eu queria causar com a mesa de jantar. Por escolha, não fiz um convite formal, pensei em deixar apenas a surpresa sutil de um momento que nunca tivemos e que me veio na mente na mesma noite em que nos tocamos pela primeira vez. Claro que ela merecia muito mais do que eu poderia dar, eu apenas procurava as opções viáveis para deixá-la feliz depois de tê-la decepcionado tanto ao nos achar impossível. Talvez eu não encontre algo fascinante o bastante para mostrar como me senti após seu ato corajoso de me desafiar.
– Isso significa exatamente o que vê: quero jantar com você, Melpomene. – esclareci, enquanto puxava uma cadeira para que sentasse. Com um charme tímido, ela o fez, sem tirar os olhos de tudo que compunha a mesa.
Obviamente, por ser mais limitado no âmbito social – e, atrevo-me a dizer, humano -, passo tempo demais em minha Casa e usufruo dele com atividades que não se voltam apenas para o treinamento de um santo de Athena. Sem deixar minhas obrigações, aprendi a desenvolver certos dotes culinários, portanto me dei o prazer de ter esse momento com ela e preparei a maioria do que estava na mesa – mesmo tendo ajuda de servas, que tomaram conta da cozinha depois de minha permissão. Prefiro que elas não saibam de meus momentos pessoais, mas, dessa vez, foi inevitável; essa exceção valia a pena.
– Não sei o que dizer. – começou ela, admirada. – Tudo parece muito saboroso. Devo acrescentar essa sua habilidade em minha lista?
Lista?
– Tem uma lista de habilidades minhas? – perguntei, controlando um sorriso que queria crescer. Se ela tinha algo assim, era porque dava importância às minhas qualidades, certo? Tal pensamento fez meu coração acelerar instantaneamente, ainda mais depois da risada adorável que ela iniciou.
– Mais ou menos. Até agora, só coloquei a capacidade de criar lindas rosas.
Lindas, porém venenosas. As rosas que dei para Melpomene foram umas das poucas que não tinham veneno; o processo de tirar essa maldição delas me custava energia e sangue, portanto não era comum distribuí-las, porém, tratando-se dessa linda musa, desconsiderar escrúpulos era condição. Qualquer coisa que fizesse a musa da tragédia sorrir passou a me incentivar.
– Entendi. – suspirei, procurando tempo de recuperar as palavras. Essa musa tinha mais do que poder para me deixar desconcentrado. — De qualquer forma, só saberá se deve ou não após provar. Por favor, posso lhe servir?
Assim que ela assentiu, pus-me a servi-la de tudo o que tinha na mesa e depois me servi – ato que nem foi necessário, pois a atenção que dei à comida foi totalmente nula. Melpomene, ao contrário, degustava cada garfada com delicadeza, dando sempre a entender sua apreciação, mas não foi isso que me fez segurar a respiração inconscientemente. O brilho que emanava dela possuía um magnetismo incomum para mim; seus gestos eram tão sinuosos e naturais que evidenciavam o charme descuidado e desencadeavam, em mim, um turbilhão de sentimentos a cada segundo – sim, observá-la passou a ser uma das minhas atividades favoritas; os sorrisos que fugiam momentânea e discretamente de seu rosto alimentavam a minha vontade de beijá-la, principalmente quando pequenas covinhas apareciam no canto de sua boca.
– Devo. – sua voz me despertou, mas não compreendi. Ela me encarou e eu sustentei seu doce olhar.
– Perdão?
– Devo acrescentar, mas não só por estar muito gostoso.
– Pelo que mais? – fiz um esforço para controlar minha respiração ansiosa.
– Por ter sido feito por você, já é especial. – percebi que sua fala saiu tímida e um rubor feroz tomou conta de suas bochechas cristalinas. Ela suspirou e me lançou um olhar terno; meu coração se apertou. Como sempre, ela tinha a capacidade de tornar tudo que é singelo algo grandiosamente belo. Melpomene deve ter percebido minha atenção silenciosa, pois corou mais ainda e desviou o olhar enquanto colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha.
Incrível como nenhum detalhe seu passava despercebido por mim desde sua primeira aparição em minha Casa. Bom, talvez o momento não fosse interessante para observações mais profundas e talvez estivesse incomodando minha querida convidada.
– Infelizmente, não fiz sozinho... – tentei falar de forma que soasse divertida, mas saiu sério demais. De qualquer forma, ela me olhou com a mesma ternura. Ah, Melpomene...
– Oh... Tudo bem, tudo está bom, então o que você fez também. Além disso... Hãn... Deixe.
Pronto, meu coração doeu. Vê-la sem jeito era ainda mais encantador do que vê-la segura em palavras. Não vou mentir que não senti curiosidade pela frase incompleta, mas achei melhor não insistir se ela não queria falar, até porque, se fosse mais um comentário especial, não seria saudável, pois eu já estava quase tirando-a daquela mesa e trazendo-a para os meus braços, a fim de dar o carinho reprimido.
Assim como eu, Melpomene tinha essa áurea solitária de quem esperava um deslize justo e agradável do destino. Não sabia como ela nos interpretava, mas eu via esse deslize — e muito melhor do que o esperado. O sentimento que criei por ela ia além da proteção natural de um homem para com uma mulher, envolvia uma necessidade incomum de carinho por minha parte, um carinho que, mesmo possível, exigia cuidado. Talvez, por ter praticamente crescido com veneno nas veias, minha obcessão por proteger quem me importava tivesse crescido também; e depois da aparição dela em minha vida, podia dizer que a possibilidade de ela se machucar por minha causa me enlouquecia.
Entretanto, cada dia mais, ela me mostrava o contrário, como se fosse mágica, e eu retribuía apenas com o sentimento puro que se instalou em mim. E ela era tão digna de sentimentos puros que essa mísera retribuição minha a deixava irradiantemente feliz.
– Certo. Posso lhe servir mais? – perguntei, ainda com o meu prato intocado.
– Salada. – ela sorriu um sorriso diferente, como se existisse uma piada interna nesse pedido. Certo, ela me despertava curiosidade apenas pelo fato de existir, mas esse sorriso me torturou mais do que o normal.
– Lhe agrada tanto assim? – joguei, pescando respostas satisfatórias. Ela riu, novamente, de forma pessoal.
– Até demais. – foi a resposta que obtive. Se essa musa soubesse o quanto seu conteúdo me atraía, não brincaria dessa forma com minha mente curiosa. Acreditava até que ela sabia, pois admiti, uma vez, que havia pesquisado sobre sua classe (mesmo tendo pesquisado apenas sobre ela).
– Que bom, a salada admito que foi trabalho meu. – disse, fingindo despretensão. Mas claro que ela não acreditou, pois sorriu levemente, esperta, e depois corou.
Não havia palavra que definisse meu estado quando ela corava; talvez meu próprio estado definisse, pois eu corava logo em seguida.
Ficava, por vezes, constrangido por não conseguir verbalizar algum defeito dela; para mim, tal ponto não existia. Era uma musa e, de fato, sua perfeição era esperada, mas Melpomene não era perfeita; não irradiava luz como as outras, nem tinha a mesma graciosidade animada e inspiradora, mas suas particularidades nesse âmbito comportamental fragmentavam seu charme único. Ela inspirava de outra forma; era como uma Rosa Alba: rara, de beleza singela, porém potente, e com espinhos delicados, que só se mostravam quando alguém ameaçava seu conforto — apenas quem a apreciasse de verdade poderia vê-los. E, do contrário do que muitos pensavam, era uma honra ter essa oportunidade.
– Não vai comer, Albafica? – perguntou, olhando-me com um brilho diferente nos olhos, mas com os ombros baixos. Ela pareceu encabulada e eu corei totalmente. Percebeu meu estado de admiração, provavelmente.
– Sim, claro. – e realmente o fiz, apesar de minha comida fria. Vez ou outra, voltei meus olhos para ela, que sorria com frequência, sem abandonar o rubor do rosto. Tão bela.
– Devo colocar sua habilidade sim, mas com uma observação sobre a especialidade na salada. – disse ela, assim que finalizei meu prato. Notei que ela me observou algumas vezes, por mais silenciosa que tenha sido.
– Poderia me dizer a necessidade desse detalhe?
– Mais cedo, você revelou que tem o conhecimento de tudo, se não me engano... – ah, ledo engano meu, não a conhecia o suficiente para confirmar tal frase. O tom de brincadeira dela foi adorável, não mais do que o leve bico que fez, como se fosse sabida. Ah, Melpomene era a personificação do charme. O comentário dela me fez lembrar da cena a qual se referia e não pude deixar de recordar da sensação que me tomou naquele momento.
(Flashback On)
– Eu sei de tudo. – brinquei, sem demonstrar.
Desci as mãos que tapavam seus olhos até seu pescoço e afaguei a região, depois até os ombros, onde massageei com cuidado. Ela deixou uma arfada escapar e se arrepiou no exato momento; tive de me conter para não intensificar a carícia de forma invasiva, mas era minha maior vontade naquele momento. Faria qualquer coisa para ouvi-la arfar novamente daquele jeito.
– Não conhecia esse seu lado convencido. – ela subiu uma das mãos até as madeixas azuis do meu cabelo e acariciou.
– Ter você assim me convence de que devo ter feito algo muito bom na vida. – era verdade, perguntava-me todo o dia qual proeza havia feito para receber a dádiva de tocá-la daquela maneira.
– Você faz todo o dia. – disse com carinho, dificultando meu autocontrole.
Entretanto, meu esforço foi em vão, pois ela se virou rapidamente para me beijar, mas fui mais rápido e desviei, mesmo sem vontade. Acabei transformando o gesto num abraço e só o fiz porque minha situação estava crítica. Logo a senti se afastando com a testa franzida e expressão confusa; algo dentro de mim se preocupou, mas decidi usar o momento para pôr um experimento em prática.
– Calma. – pedi. – Antes que vá, quero que feche os olhos.
Ela não compreendeu de primeira, mas obedeceu e um deslize de sorriso apareceu em sua boca – provavelmente porque percebeu meu desespero ao vê-la se afastar. Percebi seu corpo um pouco impaciente; suas mãos estavam inquietas, a franzida de testa ainda estava ali e uma tremida de lábio confirmava sua ansiedade. O silêncio que nos tomava me possibilitou de ouvir a respiração levemente descompassada dela, tive que sorrir com isso.
Rapidamente, dei origem a uma rosa sem veneno e encostei suas pétalas nos lábios finos (e extremamente convidativos) de Melpomene. Provavelmente, a textura aveludada e macia das pétalas causou cócegas em seus lábios, pois esses tremeram novamente e se entreabriram. Em seguida, afastei a rosa para ver sua reação.
– De novo. – pediu ela, com certa dificuldade e de olhos ainda fechados. Não resisti e sorri. – Eu gostei.
Perguntei-me se ela sabia que havia beijado uma rosa.
– Obrigado por me falar. – agradeci em baixo tom e troquei a rosa pelos meus lábios, iniciando um beijo intenso e ansioso.
Como todos os nossos beijos, esse expressou nossa vontade com lealdade e muita volúpia. E meu estado extasiado chegou num nível totalmente novo, pois, naquele momento, percebi o tamanho da vontade que tinha de Melpomene.
(Flashback OFF)
Levantei-me da mesa, recolhi os pratos e voltei com duas taças de vinho. Não sabia se Melpomene gostava, mas imaginei que sim por combinar com sua melancolia. De fato, minha teoria tinha um fundamento superficial, mas só propondo para saber se tinha algum pingo de acerto. Assim que me viu, ela se levantou, visivelmente encabulada, e pegou uma das taças.
– Sei que há a possibilidade de não gostar do vinho, mas gostaria de me acompanhar e bebê-lo no jardim?
Com certeza, acertei na pergunta, pois o semblante dela mudou para um totalmente desperto e animado, o brilho dos olhos se enfatizaram e um sorriso fechado ressaltou suas covinhas. Encantadora, ela assentiu e bebericou o vinho, prendendo minha atenção.
– Mais uma coisa oferecida por você que me agradou, Albafica. – disse ela. Tive de respirar fundo para não beijá-la naquele instante.
Partimos para o jardim em silêncio e, modéstia à parte, meus cuidados foram perfeitamente expressados nas belíssimas rosas que o compunham, ainda mais numa noite tão terna e mística. Melpomene, igualmente expressiva, deixou claro seu estado admirado e maravilhado ao ver aquele espaço da Casa de Peixes. Meu jardim era simples, tinha um caminho de areia entre os montes de rosas vermelhas e brancas e uma fonte circular mediana, coberta por uma árvore pouco alta, porém cheia. O espaço era completamente agradável em cada canto, tive de admitir, mas nunca pareceu melhor do que naquele momento, na presença da minha musa.
Sim, Melpomene era a minha musa, a única que me inspirava mais do que o próprio aroma perigoso das rosas. Isso era inegável.
– Não acredito que estou aqui... – comentou, emocionada, e segurou minha mão singelamente. Foi o suficiente para eu sentir meu rosto aquecer e meu coração acelerar.
Todo o tipo de toque que ela disparava me fazia delirar por dois fatos: primeiro porque eu não tinha essa liberdade com ninguém, exceto com ela, e fazia anos que não sentia; segundo porque, obviamente, o toque partia dela. A nostalgia do ato deixava meu corpo em chamas porque, apesar de ter tido contato com pessoas quando mais jovem, eu sentia que descobria um mundo novo de sensações. O arrepio dos pelos, a tremida das mãos, o suor da ansiedade, o suspiro da hesitação, a contração dos músculos, a mordida do lábio, a corada do rosto, o sorriso da entrega – tudo sinais que eu havia perdido e que agora me definiam com Melpomene.
Identifiquei apenas um problema nisso tudo: eu não saberia mais viver sem tocar na minha musa.
– Não vai me convidar para explorar esse jardim? – perguntou, tirando-me novamente de meus devaneios. Infelizmente, não percebi meus momentos de silêncio rápido o bastante para evitar a expressão confusa dela. Nossas mãos ainda estavam entrelaçadas e, antes de ela tirar, puxei-a para mim e a beijei apaixonadamente.
Não havia dúvidas, eu estava apaixonado pela musa da tragédia. Logo a musa que representava a definição da minha vida amaldiçoada. Logo a musa que veio mudar essa maldição. Sim, tinha de ser ela para me despertar.
– Perdoe-me, estava distraído. – eu disse; em seguida, iniciei o pequeno passeio pelo jardim, em direção à fonte.
– Como um belo pisciano. – ela comentou, eu ri pelo nariz e afaguei a mão que segurava. Certo, teria de observar outras coisas além de Melpomene para não cair em devaneios novamente. Terminamos o vinho a ponto de chegar numa mesa que havia ali e deixamos as taças de lado.
A brisa refrescante que preenchia o jardim, juntamente com o aroma das rosas, envolveu-nos por completo. Diferentemente dos outros dias, não vesti a armadura de ouro, e sim uma roupa simples e confortável, porém elegante e propícia para o momento – tive cuidado ao escolher a peça, pois oportunidades como essa eram raras. Melpomene conseguiu ficar ainda mais bela com o vestido lilás de um ombro só, curto na medida certa para que suas belas pernas ficassem expostas – o que só dificultou meu autocontrole. Ela era magnífica em toda sua composição.
O silêncio nos acompanhou até chegarmos à fonte e, pelo contrário do que costuma ser, não foi desagradável. Nós funcionávamos dessa forma, com poucas palavras e muita intensidade em gestos. Não via necessidade nas palavras quando podia beijar sua fonte.
Melpomene se sentou no muro baixo e largo de mármore que limitava a fonte e mergulhou a mão direita na água. A fonte não era grande, mas também não era pequena; tinha diâmetro o suficiente para agregar quatro pessoas dentro. E lá estava ela, colocando os pés descalços para dentro da água e sorrindo.
– Que lugar relaxante. Não me impressiona seu jeito calmo. – ela disse, balançando os pés. A visão daquela linda musa, sentada daquele jeito na fonte, sob a luz da lua, era quase divina. Admito que já me peguei olhando para o jardim e imaginando-a do jeito que estava.
Sem mais hesitar, aproximei-me dela, sentei ao seu lado e juntei meus pés aos dela na água.
– Não se engane com meu jeito, Melpomene. – comentei um pouco sério demais, mas sem querer. Ela me lançou um olhar indagador, o qual não compreendi.
– Por que insiste em dizer meu nome completo? – perguntou, sem tirar os olhos de mim. Quase me perdi em seu olhar novamente, mas recuperei a noção rápido o bastante para evitar o devaneio.
– Gosto do seu nome, tem uma sonoridade agradável.
Não apenas por isso, mas porque aquele nome se referia a mais bela imagem que se projetava em minha mente quando pensado ou dito, e também por ser um nome incomum.
– Também gosto do seu nome. Quem o escolheu, fez muito bem.
– Não há algo que essa pessoa que escolheu me fez que não tenha sido bom. – falei, nostálgico.
– Me fale sobre isso... – pediu timidamente. Não resisti àquele rosto corado. E até me senti feliz pelo interesse dela sobre meu passado. Cobraria o mesmo depois.
– Meu mestre, Rugonis de Peixe, me encontrou num jardim de rosas demoníacas, ao lado de onde vivia e decidiu me tornar seu pupilo. Posso não saber se há diferença entre pais de sangue e adotivos, mas, para mim, a figura de um pai se relaciona completamente com o que ele foi para mim. – mirei a lua, buscando um ponto menos atraente que Melpomene para poder me focar. – No início, foi difícil optar por treinar com ele ou ter a chance de viver entre as pessoas naturalmente, mas, por não querer deixá-lo sozinho, não tive dúvidas. E não me arrependo.
E era verdade. Não conseguia me arrepender de ter passado pelo o que passei com meu mestre, pois não sei se teria conhecido uma pessoa tão fantástica como ele. Por não conseguir criar novas memórias importantes como as que criei com ele, acostumei-me a repassar as lembranças de forma que ficassem muito bem conservadas em minha mente. Era uma forma de consolo pela falta de sua companhia, ou de qualquer outra companhia.
– Ele também vivia sob a mesma condição que você? – Melpomene quis saber. Mal percebi quando ela se aproximou de mim a ponto de colar seu braço no meu; um arrepio tomou conta do meu corpo. A lua não era o suficiente para manter meu foco quando havia tanta vontade de ter minha musa assim.
– Sim, por isso tive que ser rigoroso quanto à aproximação das pessoas. – engoli seco ao lembrar como isso foi difícil no início. — Para que eu criasse imunidade ao veneno, tivemos de realizar o elo carmesin, um ritual que exigia a troca de nossos sangues. Eu poderia ter morrido facilmente, inclusive contávamos com esse risco. – ao mencionar esse fato, senti o arrepio dela. – Se eu sobrevivesse, significava que estava apto a me tornar o Cavaleiro de Peixes depois dele.
– C-Como isso ficou claro? – o gaguejo dela me fez virar automaticamente meu rosto para vê-la. Melpomene chorava.
Vê-la chorar pareceu doer muito mais do que qualquer troca de sangue que eu havia feito com Rugonis. Peguei o rosto delicado e úmido dela e puxei para o meu peito.
– Não chore. – limpei algumas lágrimas de seu rosto, aproveitando para afagá-lo. – Sei que não é uma história feliz, mas minha felicidade, nisso tudo, está na possibilidade de proteger e lutar para que outros tenham o que não tive. Como eu disse, não me arrependo de ter seguido esse caminho. Foi uma escolha minha, Melpomene.
– Desculpe-me. – ela se afastou. Eu ia dizer que não tinha por que se desculpar, mas ela foi mais rápida e me nocauteou com uma carícia no rosto. – É quase possível sentir sua dor.
– Desculpe-me por permitir esse assunto desagradável. – senti-me mal por ter contado da forma que contei, devia ter pensado em sua profunda melancolia para com a vida. Ainda mais se tratando de histórias trágicas. Bufei, descontente comigo mesmo.
– Não... – ela disse e puxou meu rosto para perto do seu. – Eu quero saber de você, quero saber tudo.
Uma onda de felicidade quebrou em meu interior, tomando conta de quase todos os meus sentidos, de forma que perdi a noção do que falava antes disso. Perdido novamente naquele olhar singelo que me encantava, senti meu sangue correr mais rápido e minha respiração acelerar. O autocontrole já não me cabia e expus isso enlaçando a cintura da minha musa e puxando-a para um beijo faminto e envolvente. Sim, minha vontade tê-la e senti-la aumentou consideravelmente após essa demonstração de carinho por parte dela. Melpomene sempre me surpreendia, por isso eu me apaixonava cada vez mais.
Nossas línguas se entendiam muito bem quando dançavam juntas, nossas mãos aproveitavam para explorar os corpos – as minhas eram mais ansiosas que as dela – e nossos corações batiam em harmonia. E novamente escutei o arfar da minha musa, que, pelo visto, descobriu uma nova parte de mim que a agradava: minhas costas. Senti minha camisa subir um pouco quando ela passou suas mãos por baixo e cravou suas unhas ali com certo cuidado. Em resposta, subi minha mão pelas suas costas, até chegar na nuca, e enlacei seu cabelo para aprofundar ainda mais o beijo. Minha vontade era de fundir com ela.
Eu não tinha muito controle das minhas mãos, só fui perceber como se tornaram atrevidas quando baixei a única alça de seu vestido, e com esse gesto eu fiz com que Melpomene ficasse seminua. Afastei-me para vê-la e ela pareceu não gostar de eu ter parado o beijo, porém não demonstrou o mesmo em relação ao meu atrevimento; aproveitei, então, para admirar os seios medianos dela, tão puros e intocados, de um branco quase cristalino, cujos mamilos rosados já mostravam excitação. Envergonhada, ela me puxou para si e beijou meu pescoço timidamente. Dessa vez, eu arfei.
Em seguida, desamarrei o laço que prendia o vestido em sua cintura e o joguei em algum canto do jardim. Assim que ela se levantou um pouco mais, o vestido deslizou, deixando-a completamente nua – e eu estupidamente maravilhado. Não resisti, puxei-a para o meu colo, de forma que pendêssemos uma perna para cada lado do muro da fonte, e a deitei ali. Ela fechou os olhos; o vermelho de suas bochechas se intensificou e eu entendi que, dessa maneira, ela ficaria mais confortável. De repente, meu experimento veio à mente.
Aproximei-me dela, ficando com o corpo colado em seus seios, e cochichei em seu ouvido:
– Fiquei assim, de olhos fechados até eu mandar o contrário. – depois beijei seu colo e ela assentiu.
Quando fui me erguer, senti as mãos dela prenderem minha blusa e a levantarem. Ajudei-a a me deixar da mesa forma que ela, porém não completamente. Ela ainda mantinha a peça íntima de baixo.
Antes de qualquer ato, observei aquele belo corpo deitado de frente para mim, refletindo o brilho da lua e me convidando para tocá-lo. Tentador demais para quem tinha um plano antecedente. Aceitei o autocontrole apenas para realizar minha ideia e logo peguei uma das rosas do jardim, tirei seu veneno e encostei as pétalas no colo de Melpomene.
O sorriso que ela me ofereceu não poderia ter sido mais magnífico. Excitei-me só de vê-la arquear-se, incentivando minha ideia. Fiz o que ela pediu e deslizei a rosa pelo vale entre seus seios, depois passei por um dos mamilos... E ela gemeu. Fiquei paralisado após ouvir esse som e mal acreditei que saiu por minha causa. Continuei naquela região, sempre a provocando ao passar a rosa em seus mamilos, arrancando mais gemidos da minha musa e sentindo a consequência apertando minha calça. Com a mão que estava livre, apertei uma de suas coxas e arfei junto com ela.
– Mais. – ela pediu com sofreguidão, sem abrir os olhos. Curvei-me para ficar mais próximo dela e desci a rosa por sua barriga lisa e macia, sem deixar de apertar sua coxa igualmente atraente.
O movimento a fez arquear as costas e aproximar seus seios do meu rosto. E, novamente, não resisti, abocanhei um deles e iniciei intensos movimentos com a língua. Senti meu cabelo ser puxado e um gemido ser solto com vontade. Minha musa estava sentindo prazer – não pude conter a felicidade ao perceber isso.
Senti minha ereção roçar em sua intimidade ainda protegida pela peça íntima – a qual já não me agradava tanto, naquela altura – e subi minha mão até sua cintura, onde depositei um aperto em resposta aos gemidos que ouvia. Às vezes, permitia-me gemer, mas preferia não fazê-lo para não abafar o som dos dela.
Então esse era o sentido de dar prazer a alguém? Sentia-me mais excitado ao vê-la cheia de insinuações de que estava se sentindo assim. Percebi que ela aproximava nossos sexos de propósito e que suas arfadas tomavam uma frequência maior – isso estava me enlouquecendo, mas mantive o autocontrole e deslizei a rosa pela sua perna esquerda, enquanto migrava minha boca para o outro seio. Aproveitei o estado de deleite para mordiscar de leve o mamilo; arranquei muito mais do que um gemido e ela quase arrancou alguns fios inocentes do meu cabelo.
Decidi não resistir mais e me afastei, pronto para remover aquela peça incômoda de sua parte íntima. Assim feito, enlacei sua cintura, fazendo-a abrir os olhos, e a beijei num misto de ternura e lascívia. A essa altura, não podia rejeitar meus desejos mais íntimos por ela, os quais percebi serem recíprocos após o aperto que recebi nos braços. Cada ação prazerosa dela me causava uma reação maravilhosa de satisfação e desejo.
– Não é justo... Eu estar nua... E você não. – disse entre arfadas e beijos. Realmente, ela estava certa.
– É só você pedir. – mas eu não facilitaria.
Melpomene agarrou ainda mais meus cabelos, enquanto eu beijava seu pescoço com volúpia. Desci a rosa por suas costas nuas e senti seu arrepio; consequentemente, arrepiei-me junto com ela. Apesar de tomar a maior parte do controle, sentia-me inseguro; todo esse contato era novo para mim e o fato de ser com ela tornava tudo mais delicado e importante.
– Albafica. – ter meu nome gemido após apertar-lhe o seio foi uma das maiores felicidades que senti. Brinquei com meus dedos naquela região, arrancando o som que mais gostava, mas senti que precisava de mais. O que eu tinha dela ainda não me era o bastante.
Infelizmente, eu fui fraco e inocente demais por achar que provocá-la não causaria o mesmo efeito em mim; não aguentei e me afastei dela, levantei-me, despi-me por completo e a puxei para dentro da fonte. A água poderia ter evaporado considerando o calor dos nossos corpos. Melpomene apenas exclamou com o susto, mas logo me abraçou e me beijou com carinho. Aproveitei para pegar um pouco de água com a mão em concha e jogar em suas costas, molhando-a gradualmente e acariciando-a lentamente. Ela arfou, puxou meu lábio inferior com os dentes e meu corpo com as mãos; mal a reconheci, porém adorei presenciar esse seu lado.
O corpo dela tremia assim como o meu, não por causa da temperatura da água, mas pelo o que sabíamos que aconteceria se continuássemos com aquelas carícias. Pensar que faria algo desconhecido por nós dois com ela me fez sentir novamente a onda interior, e acabei fazendo-a se ajoelhar comigo. Ainda não tinha sentido o corpo dela o suficiente, então deslizei minha mão até sua intimidade com cuidado e me surpreendi com sua reação: ela abriu as pernas para que eu pudesse dedilhá-la. Novamente, um toque novo para mim, o qual eu devo ter feito muito bem devido a o que recebi em resposta: um gemido intenso e uma mordida no pescoço. Ah, Melpomene...
Minha musa gemia constantemente enquanto eu massageava seu ponto mais sensível e acabei fazendo o mesmo assim que a senti completamente úmida – não pela água, mas pelo seu mel. Não resisti e deslizei um dedo para dentro dela, que mexeu levemente o quadril, acompanhando meus movimentos. Segui meus instintos com o pouco de conhecimento que adquiri ao ler sobre o que estávamos fazendo.
A visão de Melpomene gemendo e arqueando as costas me desarmou completamente. Sentei-me com as costas escoradas no muro e a puxei para o meu colo. Meu membro já doía de excitação e gritava por atenção, mas quis me certificar de que ela estava pronta, então trouxe seu rosto até mim e a olhei profundamente.
– Eu quero sentir você dessa forma. – disse a ela, que me olhava com sofreguidão e desejo. As pupilas dilatadas esclareciam perfeitamente seu estado de igualdade ao meu. – E você?
– Albafica – ela ofegou, procurando força. Seu olhar me atraía impiedosamente. -, eu quero você desde que recebi a primeira rosa. – foi tudo que eu precisei ouvir.
Segurei carinhosamente as coxas dela, trouxe-a para mais perto e a encaixei no meu colo, sem penetrá-la. Antes disso, grudei meus lábios nos dela, sem aprofundar o beijo, apenas os mantive ali e encostei a ponta do meu membro na cavidade úmida dela. Sem tirar os lábios dos meus, ela assentiu devagar e, então, desci seu corpo lentamente. Meus ombros eram vítimas de suas unhas mais fortes na medida em que a penetrava. Seu gemido forte, sem desencostar nossas bocas, me proporcionou uma maravilhosa sensação por sentir seu hálito doce. Segundos depois, rompi seu selo.
Acredito que não há palavras para definir o que senti; a satisfação por compartilhar essa primeira vez tão íntima com alguém tão especial não estava nos meus planos antes de conhecê-la. Doeu em mim quando ela exclamou de dor, mas, ao mesmo tempo, senti meu coração acelerar como nunca por felicidade; expressei isso afagando com carinho seu rosto, sem deixar de sorrir. Sim, não conseguia parar de sorrir.
Deixei Melpomene se acostumar com meu membro dentro dela e iniciar os movimentos; assim que os senti, envolvi sua cintura com cuidado, colei nossos corpos, beijei seu pescoço e aumentei os movimentos. Tive de ter autocontrole nessa hora também, pois não imaginei que a sensação desse prazer fosse tão intensa e única, ainda mais tendo perto de mim o corpo sinuoso e macio da minha musa, que agora quicava em meu membro, pedindo por mais.
Senti-la deslizar dessa forma em mim com sua cavidade quente e molhada me proporcionou um prazer incalculável e acabei gemendo junto com ela. Sabendo onde poderia chegar, conduzi mais lentamente seus movimentos com minhas mãos em sua cintura – era muito cedo para chegar ao ápice, queria aproveitá-la ainda mais. Apoiei minha cabeça em seu ombro e a abracei com mais força; observei água se agitar conforme nossos movimentos, o que me excitou ainda mais, e investi fortemente nela – não consegui me controlar nesse momento. Subi e desci sua cintura num ritmo cada vez mais frenético, e ela me acompanhou enquanto arranhava minhas costas; às vezes, Melpomene rebolava para me enlouquecer ainda mais. Em resposta, apertei ainda mais sua cintura e depois fiz o mesmo em suas coxas.
– Alba... ah... ah... fica. – ela gemeu tortuosamente e agarrou meu cabelo com uma força ainda maior. Consequentemente, incentivei seu rebolado e gemi com a mesma intensidade.
Então esse era o sentido de dar prazer a alguém, confirmei. Achei que o desfrutável fosse apenas a sensação de toque íntimo, a consumação do ato em conjunto, onde os dois igualmente se satisfazem. Entretanto, meu prazer virou secundário no momento em que vi a reação dela ao ser tocada por mim. O gemido que Melpomene soltou superou a sua bela e natural voz, não apenas pelo som, mas pelo fato de ter sido por minha causa. Sim, definitivamente, o prazer dela passou a ser a consequência mais importante de todos os meus investimentos; aceitaria depender disso inescrupulosamente se fosse possível.
Deliciosa e delicada, ela se movimentou mais rápido e eu a acompanhei; assim que a ouvi gemer mais alto e rápido, envolvi os dois seios em minhas mãos e mordisquei seu pescoço, sabendo que ela estava chegando ao ápice. Não esperava, no entanto, gozar junto com ela, mas o fiz e foi a sensação mais maravilhosa que senti na vida. Minha musa completou sem volta naquele instante.
Nós fizemos amor naquela fonte, foi tão intenso que não consegui deixar de tocá-la com minha língua em seu corpo, lábios, seios, pescoço, garganta, bochecha; queria sentir cada sabor que envolvia a minha musa.
Ficamos longos minutos ali, sentindo nossas essências se misturarem dentro dela enquanto nos acariciávamos e beijávamos com carinho. Se eu pudesse, passaria o resto dos tempos ali, daquela forma, com ela, observado pela lua e abençoado pela água. Meu elemento e minha musa me preencheram irrevogavelmente.
Nada nela me fazia recuar, apesar de que tudo em mim deveria fazê-la me deixar – algo que eu não suportaria, porém. Finalmente compreendi pelo o que estávamos lutando de verdade. Aconcheguei Melpomene em meus braços e iniciei um carinho suave em suas costas, sem me mexer mais do que isso, e percebi que o aroma que emanava de seu corpo suado e cansado, corpo que foi entregue a mim, junto do das rosas que preenchiam o espaço onde nossa união foi feita, me fez, claramente, encontrar o aroma perfeito.
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