Notas iniciais
Olá, queridxs leitorxs o/ SIM, ESTOU VIVA! Omg, que emoção. Antes de tudo, queria pedir desculpas, óbvio. Gente, me desculpem pelo atraso, juro que não foi por desleixo, eu realmente não tive força mental pra escrever absolutamente nada! E, como postei o anterior sem um garantido, acabei demorando tudo isso. Mas assim, o que aconteceu, infelizmente, acontecerá de novo. Minha faculdade voltou e agora também tô fazendo outras coisas. Só pra terem ideia: quatro, dos setes dias da semana, tenho atividade corporal intensiva - seja no teatro ou no kung fu. Portanto, como corpo & mente trabalham juntos, minha mente fica exausta demais pra escrever. Então, assim, me desculpem, queridxs, mas tentarei compensar nos capítulos, ok? E ah, estamos caminhando para problemas e encerramentos, então precisarei do apoio de vocês! Bom, vou parar de falar. Boa leitura!

Capítulo 59

Como o habitual, sua mente estava expandida para além das questões triviais que seu cotidiano abordava – embora este fosse voltado especialmente para o que estava fazendo. Mais do que nunca, sua missão girava em torno do cuidado extremo para com qualquer energia que se deslocasse das harmônicas; mais do que nunca, tinha de limpar a mente e se concentrar no eixo interior; mais do que nunca, tinha de respirar tranquilamente para detectar qualquer aroma, onda ou som suspeito nos limites do Santuário.

Só que Asmita não conseguia, pois Calíope estava sofrendo.

Mais do que nunca, estava conectado com a Musa da Poesia Épica. Não bastava o fato de ter convidando-a a morar consigo, mas também o de ter admitido a reciprocidade dos sentimentos. Mais do que isso, chegava a admitir que era inegavelmente humano, acima de tudo.

Acima de tudo porque estava cada vez mais difícil controlar os impulsos naturais de um homem apaixonado para com a mulher por quem se apaixonou.

E ela estava sofrendo.

Já tinha se tornado parte da rotina meditar naquele horário, que ficava entre o entardecer e o anoitecer, assim como compartilhar energias vitais que contribuíssem para a compreensão dos cosmos em volta. Não havia apenas a necessidade de proteger, mas de analisar os companheiros de batalha – algo que, em maioria, era de responsabilidade do virginiano, pois Calíope não possuía os critérios para tal.

No entanto, tudo se tornou mais difícil desde a morte de Albafica, pois agora Calíope também tinha uma responsabilidade cujos critérios Asmita não poderia compreender: novamente, ela estava mantendo a harmonia entre as Musas, pois Melpomene caíra em tristezas.

E, infelizmente, não de forma inspiradora.

Novamente, Asmita sentia Calíope em problemas internos, lutando para suportar uma tarefa árdua, cuja ignorância seria impossível. Era seu pagamento por ter um dia usufruído do dom que as Musas naturalmente possuía, e que era de uso proibido. Ela havia contado tudo.

E, agora, ele não poderia continuar meditando assim. Calíope estava exausta e deixando isso insuportavelmente claro naquele ambiente.

Instintivamente, Asmita retornou aos pensamentos preocupantes que andavam lhe cercando a mente desde a morte do cavaleiro de peixes. Nem tudo havia mudado, porém o efeito negativo que o fato causou nos demais cavaleiros de Athena era gritante e perigoso.

Até quando os homens se deixariam desconcentrar por tragédias alheias? Isso era absurdo, demonstrava fraqueza e, acima de tudo, atrapalhava a disciplina.

Sentimentos. O perigo morava aí. Não era ideal que um cavaleiro de Athena os tivesse. Só que seria hipócrita julgá-los, quando o virginiano já reconhecia os próprios sentimentos.

Entretanto, havia diferença. Óbvio. Nunca seria tolo a ponto de deixar sentimentos o impulsionarem num nível crítico, como o cavaleiro de Pégaso havia feito. E essa era mais uma de suas preocupações. Tenma estava no Submundo, num estado de quase morte, envolto pelo aspecto mais degradante, causa de sua irresponsabilidade, e acabou atraindo mais dois guerreiros para lá. Dois guerreiros tão tolos quanto.

Asmita sabia que não era bem assim... E foi inevitável se questionar se o cavaleiro de Pégaso era realmente apto para realizar tal missão.

Não confiava no julgamento de qualquer um, muito menos dos que haviam ido atrás do garoto – seus emocionais fracos distorceriam a realidade com certeza. Só poderia confiar em uma pessoa para testar o garoto até a esfera mais profunda de sua alma: em si mesmo.

Estava decidido.

– ... – Asmita de repente se sentiu novamente no espaço de seu altar. Havia parado de meditar instantaneamente assim que sentiu Calíope vacilar em sua meditação. A exaustão havia chegado ao limite. Uma frequência negativa havia vibrado sua bolha.

Sem esperar, o virginiano se levantou, pegou-a no colo cuidadosamente e a levou até o quarto onde dormiam. Não que dormissem juntos, pois muitas vezes passava a noite toda meditando, enquanto ela descansava. De vez em quando, permitia-se zelar-lhe o sono, cuidando para não acordá-la.

E, às vezes, deixava o impulso de tocar na pele dela acontecer.

Ao depositá-la na espaçosa cama, levou a mão até o rosto dela, acariciando lentamente na trajetória, até sentir as pálpebras abrirem, revelando seu despertar. Teve de sorrir ao senti-la mais calma.

– Não deveria se esforçar tanto.

– Não tenho escolha. – Calíope respondeu, num arfado.

Ao sentir a mão dela na sua, Asmita afagou com mais ternura, juntamente a um sentimento de compaixão. Já havia se sentido inútil anteriormente, logo no dia em que soube do fardo de Calíope, mas essa sensação só aumentava quando se deparava com momentos assim, em que não podia fazê-la se sentir melhor.

Desde quando passou a almejar tanto o sossego da musa mais arrogante? Asmita não sabia dizer.

Talvez não fosse algo para ser respondido com palavras, afinal.

– Você tem algumas. – sinuosamente, moveu-se para o lado dela e depositou o rosto em seu colo. Asmita havia provado o efeito disso e gostado. Algumas vezes, discretamente colocou a cabeça no colo de Calíope e recebeu afago nos cabelos. Inevitavelmente, constatou como era agradável. – Dessa vez não precisou se isolar para meditar, bastou dar chance para um lugar onde se sentiu melhor. Acredito que tenha facilitado um pouco.

– Um pouco...

– Entendo. – Asmita se perguntou por que os afagos não estavam acontecendo ainda.

– Estou lhe atrapalhando, não é? – ela piou, baixo, como se falasse sozinha. Parecia se encontrar num estado aéreo, pelo o que ele pôde ouvir.

– Está.

– Então fiz uma péssima escolha. – ela riu pelo nariz. Sem achar graça alguma, porém.

– De forma alguma. – Asmita se ajeitou, colocando o peso do rosto numa das mãos e o cotovelo apoiado no travesseiro. Virado para ela, sem realmente vê-la, inspirou silenciosamente o aroma. – Está me atrapalhando num aspecto menos óbvio. Sou bastante capaz de lhe ignorar enquanto medito, mas escolhi não fazê-lo, porque você me preocupa. – uma ruga se formou entre suas sobrancelhas. – Meditar com uma mente recheada de tensão não é saudável, muito menos útil. Forçar-se a fazer algo por mera necessidade é algo que agita sua paz interior. Acumular problemas sem tentar expandir verdadeiramente sua mente é tão supérfluo que torna sua meditação inexistente. Ou seja, você está gastando energia para nada, Calíope.

– Repito: não tenho escolha.

Asmita não teria se ingidnado tanto se ela não tivesse proferidos as palavras com um tom de derrota.

Você tem escolha. – engrossou a voz, mas logo parou ao senti-la estremecer. — Pode escolher não meditar. Pode escolher encontrar sua paz antes disso.

– Minha paz? Em que aspecto espera que eu encontre paz num período de guerra, onde qualquer um pode morrer amanhã?

– Nem continue, Calíope. Esse não é o seu discurso. – Asmita se afastou, sentando um pouco mais longe que ela na cama. – São argumentos válidos, reconheço, mas para seres mais fracos que você. Está procurando desculpas para aceitar os fatos, quando pode muito bem questioná-los, como sempre fez quando lhe provoquei.

– Não fale assim. – dessa vez, ela engrossou a voz. – São ocasiões diferentes.

– De que modo?

– Antes, minha irmã não estava querendo morrer também! – foi inevitável, Calíope se exaltou. Uma lágrima traiçoeira escorreu por sua bochecha esquerda enquanto se endireitou na cama para sentar, mas ela logo a limpou.

– Acredito que a senhorita Melpomene é mais sensata que isso.

– Você não a conhece... – Calíope riu, com leve deboche. – Aquela idiota só me provou que é mais louca do que eu poderia imaginar. – e de fato, era isso que achava. Não tinha engolido ainda que Mel havia consumido veneno esse tempo todo. Sabia que tinha algo estranho, mas nunca esperou por isso.

Asmita respirou fundo. Não pôde deixar de se sentir mal por ela. Já tinha conhecimento do jeito excêntrico de Calíope para com suas irmãs, porém não passava de preocupação.

E bastante orgulho.

Calmamente, ele se moveu para perto dela e a envolveu com o braço esquerdo, até senti-la aconchegada em seu peito. A quentura da respiração úmida dela se espalhou por seu peito e o virginiano não deixou de sentir os efeitos na área mais íntima do corpo... Engoliu seco, constrangido.

– Sei que sua preocupação com suas irmãs está num nível incalculavelmente alto. – Asmita a beijou delicadamente na bochecha, aproveitando para inalar o aroma cítrico que emanava dali. – Mas não vai ajudá-las dessa maneira equivocada, muito menos se deixar a mente vagar para onde Melpomene está. Não há nada que possa fazer agora, por ela, que não seja realizar sua tarefa com responsabilidade. – com dois dedos, puxou o queixo dela para si, até sentir a maciez dos lábios encostando os seus. – E por responsabilidade eu digo que deve se acalmar.

Calíope já estava completamente seduzida ali, não havia como negar. Fechar os olhos já era uma decisão automática de seu corpo quando se envolvia nos braços do loiro. Era quase engraçado pensar em se acalmar quando ele a beijava, pois, geralmente, o efeito era o contrário, seu coração se agitava escandalosamente. E ela tinha certeza de que Asmita podia ouvir.

Para ela, tudo bem. Se ele queria provocá-la ainda mais, ela aceitaria de bom grado e ainda o motivaria a ir mais longe. Já estava cansada de tantas interrupções. Era mais do que claro que ele liberava, aos poucos, os impulsos humanos.

Num rápido movimento, a musa envolveu o pescoço do cavaleiro com as mãos e o puxou para um beijo mais faminto do que o normal. E, para sua surpresa, ele respondeu à altura. Ambos, cansados dos diálogos, deixaram os corpos penderem na cama, tendo o dela embaixo do dele, que aproveitou para deslizar a mão sinuosamente pela cintura que tocava.

Calíope encerrou o beijo e acariciou com ternura o rosto fino dele.

– Me ensine...

– Isso lhe acalmará? – inclinou-se para beijá-la, mas foi impedido.

– Me deixará feliz.

A resposta foi satisfatória...

~

Tália se levantou com agressividade e encarou Euterpe com certa ira – o que deixou Polímnia em estado de alerta imediatamente.

– Não interessa se é apenas uma possibilidade, estou quase certa de que Urânia já sabia que isso iria acontecer!

– Tália, deixe de ser idiota. Acha mesmo que Urânia deixaria isso em segredo pra Mel? Ela sabe, tanto quanto nós, que Melpomene cairia em tristezas caso alguém sumisse ou se machucasse. Não faz sentido o que você tá falando. – Euterpe defendeu, entediada. Mão estava gostando do assunto, mas não podia simplesmente ignorá-lo.

Tália inalou fundo antes de se mover grosseiramente até uma das janelas da sala, enquanto Euterpe permaneceu com suas pernas cruzadas no sofá, observando as cutículas perfeitas.

– Olha só, pense comigo: Urânia tá apaixonada, certo? – Tália perguntou retoricamente, mas aguardou o aceno da irmã morena. – Certo. Você tem visto ela ler as estrelas ultimamente? Não. Não tem, não adianta dizer que sim, Euterpe, porque ela não tá lendo, e faz um bom tempo!

Aham, Tália, e o que há de errado nisso? – Euterpe revirou os olhos.

Tália não segurou a expressão de incredulidade – e fez questão de levar o corpo até a frente da irmã debochada.

– Euterpe, essa é uma das responsabilidades dela!

– E daí? Não vejo você cumprindo com as suas também. Pare de falar dela, todas estão aqui sem saber o que fazer. Menos Calíope, que só medita também... – bufou.

– Não tenho muito que cumprir aqui e o nível da questão é bem diferente.

– Tália, qual é a sua dúvida? – Euterpe questionou, com evidente deboche.

Tália não respondeu direto, precisou procurar a paciência que havia esquecido após passar um tempo longe da irmã mais velha com a qual contra argumentava no exato momento.

– Não adianta ficar brava comigo...

– Argh. Feche essa matraca um pouco.

– É você quem não para de falar.

– Eu sei! — Tália fechou fortemente os olhos. Concentrava-se internamente para se acalmar e pensar com clareza, afinal não havia dito o que queria ainda. – Ok. – novamente, respirou fundo. – Sinceramente, estou muito inclinada a acreditar que Urânia viu algum problema grandioso na constelação de peixes há algum tempo. Todas sabiam que havia algo errado com Mel, todas viram que ela se fechou por completo. – suspirou. – Mel deixou de me contar as coisas... – sentiu uma leve dor no coração ao pensar na distância que passou a ter com a irmã gêmea. – Urânia simplesmente devia ter dito ou feito algo!

– TÁLIA. – dessa vez, Euterpe se levantou, enraivecida. – Não faz sentido esse seu pensamento! Mesmo que isso tenha acontecido, mesmo que Urânia tenha escondido esse destino de Melpomene, ela provavelmente o fez para que Mel aproveitasse o mínimo de tempo com o cavaleiro dela! – falou, abrindo os braços. – Sua raiva não faz sentido assim como Urânia não faria sentido se tivesse falado para Mel que Albafica ia morrer! Só a faria sofrer antecipadamente e se preocupar com algo inevitável. E esse destino não podia ser mudado, infelizmente. E duvido que Urânia não tenha especulado algo na mente de Mel para que ela percebesse isso... – Euterpe respirou calmamente ao perceber silêncio por parte de Tália, e então se sentou novamente. – É possível que Mel tenha se atraído por esse outro perigo...

– Como...? Como se Mel achasse legal se apaixonar por um cavaleiro que vai morrer? – Tália deixou clara a incredulidade na face. Que hipótese ridícula.

– Não, Tália. Ela pode ter se atraído – Euterpe se ajeitou no sofá e orou internamente para que a irmã não se exaltasse. – pela possibilidade disso acontecer... Seria uma grande tragédia, afinal. Aliás, foi. – voltou a fitar intensamente os olhos de Tália, que, pela primeira vez, não demonstrava nada na expressão. Euterpe não deixou de se sentir mal por vê-la assim. – Eu não estive aqui desde o início, mas vou lhe fazer uma pergunta.

– Faça. – Tália se sentou ao lado de Polímnia, que pareceu entender a intenção, pois, imediatamente, iniciou afagos em seus cabelos.

– Desde que Melpomene conheceu o cavaleiro de peixes, quantas vezes você a viu sorrir?

– Incontáveis vezes. – respondeu, meio tímida.

– Que eu me lembre, você vivia dizendo para Mel sorrir mais. Se Urânia tivesse dito alguma coisa sobre isso, Mel sequer teria a oportunidade de sorrir da forma que sorriu, porque, provavelmente, ela se desesperaria e nunca provaria a naturalidade do amor que aflorou nela. – Euterpe explanou, suavemente. – Não culpe Urânia por causa dessa tragédia, agradeça a ela por ter tido a sensibilidade de não falar para Mel e por ter proporcionado um momento de prazer que ela nunca teve na vida. Do jeito que Mel é, duvido que encontre um amor tão intenso. Nada foi perdido, Tália. Mel tá sofrendo, mas faz parte... Eu sei como você se sente...

Tália parou por um momento. Com certeza Euterpe sabia como ela estava se sentindo, havia passado por algo muito parecido com Urânia. Quando Kagaho foi embora, Euterpe tentou juntar os cacos do coração quebrado da irmã mais velha, mas infelizmente não cabia a ela.

Assim como não cabia à Tália o papel de julgar culpados e coordenar Melpomene.

– Entendi seu ponto... – a musa da comédia finalmente disse, cabisbaixa. – Faz sentido...

Euterpe nada disse, apenas a olhou com carinho. Não existia forma de guardar rancor ou se irritar com Tália, a humildade com que enxergava as coisas era tão formidável que comovia até as almas mais ariscas. Uma pena que demoraria a vê-la sorrir novamente...

– Vou... – Tália se levantou e seguiu até a porta. – A algum lugar, sei lá. – em seguida, saiu.

– E você – Euterpe observou novamente as cutículas – ficou muito quieta hoje... – virou-se sinuosamente para Polímnia, que a encarava com um olhar questionável.

– Estou cumprindo meu papel de observadora e apaziguadora. – respondeu normalmente, juntando as mãos abaixo do queixo.

– Não estou vendo isso.

– Tália teria explodido mais se eu não estivesse aqui. — Polímnia esclareceu, extraindo um sorriso fraco da irmã.

– Acredito. – Euterpe enrolou uma mexa do cabelo nos dedos finos. – E o que observou?

– Que você está mais madura...

– Sempre fui.

– E sensível. – Polímnia sorriu ao término e desviou o olhar travesso assim que foi mirada furiosamente por Euterpe.

– O que está insinuando?

– Acalme-se, sei que não está amando ainda.

– Que assunto é esse agora?! – levantou-se, agitada. – Ah, vai começar. Acho que sua observação está decaindo, irmã. Melhor começar a procurar funções mais interessantes, ou então algum cavaleiro por aí. Tem tantos... – sorriu falsamente e se retirou rapidamente da sala. Não ficaria ouvindo aquele tipo de coisa, não mesmo.

Para Polímnia, restou um riso solitário. Desde quando as atitudes de suas irmãs estavam fluindo tão naturalmente? Sentia falta disso. Sentia saudades. E sentia também que estavam deixando os laços cada vez mais fortes...

E provavelmente havia começado na decisão de Urânia em não contar à Mel o que havia visto na constelação de peixes.

~

Talvez Urânia estivesse ignorando as leituras celestiais – o que era bem possível já que, provavelmente, havia decifrado a morte de Albafica. E talvez estivesse ignorando para não ter que ver a morte dos demais.

Tália estremeceu só de pensar nessa possibilidade. Mais mortes, de quem?

Tudo parecia cada vez mais cinza aos seus olhos coloridos. O Santuário parecia, de certa forma, numa linha constante, tracejada pelo inesperado e contornada pelo acaso. Todos viviam na tensão de ter que estar preparado para o que aparecesse. Sendo morte ou não.

E Tália, pela primeira vez, questionou-se se estava preparada para esse tipo de incerteza.

Quais eram as opções? Ela não sabia – e odiava não saber. Agora, mais do que nunca, tinha necessidade de saber, porque não só suas irmãs estavam envolvidas nas possíveis tragédias, mas também...

– Tália!

A musa sentiu o braço ser puxado com certa gentileza e agilidade, para, em seguida, ser inclinada a correr com quem quer que fosse.

Não demorou em ver os cabelos castanhos escuros e os trajes brancos tipicamente chineses.

– Dohko! – cumprimentou, controlando um riso.

– Oi! – ele sorriu largo, continuando a guiá-la por escadas abaixo, no Templo do Grande Mestre.

Tália não fazia ideia de para onde estavam indo, mas não foi essa a pergunta que fez:

– Por que estamos correndo?!

– Não sei! – a resposta fez Tália rir graciosamente, e então Dohko parou. – Ah, agora sim podemos parar.

– Oi? – levantou uma sobrancelha.

– A senhorita finalmente sorriu! Estava cansado de vê-la séria, não combina com você. Já disseram isso? – Dohko a afagou cuidadosamente no ombro.

– Com certeza e eu concordo! – Tália respondeu normalmente. – Mas é bastante óbvio que sorrir se tornou algo difícil.

– Mas não impossível. – piscou, arrancando mais um pequeno sorriso da musa. – Vamos, na verdade eu quero te levar a um lugar, pode ser?

– Claro, era exatamente onde eu estava indo! – dessa vez, quem riu foi Dohko. Simplesmente adorava as respostas de Tália.

Basicamente, a ideia era passar despercebido, porém foi inevitável e por isso Dohko assumiu a postura que tanto criticava naquele ambiente. Com o peito inflado e um sorriso ensaiado, adentrou o espaço da cozinha, onde as servas demonstraram seus mais maliciosos olhares e entusiasmados suspiros, cujos foram educadamente respondidos por ele, num nível seguro e saudável.

Tália não deixou de achar graça no enorme esforço do libriano para não devolver de forma suspeita as insinuações duvidosas das servas, mas sua observação durou pouco, pois logo chegaram no espaço ao ar livre, para além das limitações da cozinha. E para a surpresa da musa da comédia, uma grandiosa e colorida horta se encontrava.

– Então... Lá – Dohko apontou para o fundo – estão as alfaces, como pode bem ver. Coma à vontade, mas, Tália, deixe isso entre nós, certo? Não posso simplesmente oferecer comida de uma casa que não seja a minha.

– Uau! Obrigada, mas... Por que tudo isso? – os olhos dela brilharam.

– Porque é estranho te ver triste. – respondeu, sinceramente, e recebeu, em resposta, um sorriso humilde da musa. – E, ah, eu sei que você adora alface.

– Nunca esquece nada, hãn?

– Não de alguém tão peculiar.

– Então... Atacar!!! – Tália levantou o pé para dar o primeiro passo, porém Dohko a tocou levemente no braço, pedindo que parasse. Ela estranhou.

– Sim, desculpe, mas, além disso, queria pedir algo em troca...

– Hunf, sabia! E o que seria?

– Uma conversa. – viu Tália levantar a sobrancelha e esclareceu: — Uma conversa sobre Manigold.

~

Embora estivesse se esforçando ao máximo para manter os olhos nos aspirantes que erravam sem parar, ele não conseguia. Dois motivos circulavam sua mente, convergindo para a distração. Era quase insuportável, ainda mais sabendo que ela mantinha os olhos em si. Olhos cristalinos, sem julgamento algum, porém com força o suficiente par atrair.

Foco, Sísifo. Foco.

O sagitariano sacudiu a cabeça, reprovando-se por novamente se distanciar do treino. Os aspirantes precisariam melhorar muita técnica ainda. E ele não havia chamado Urânia parar observar o nada. Aliás, ela agora fazia parte de sua rotina, como uma mulher que luta ao lado do homem – como ela bem enfatizou. Porém a realidade era outra, Sísifo sabia. Não poderia envolvê-la tanto quanto ela estava disposta, pois havia problemas nos quais ela não poderia interferir, sequer ajudar.

Como o fato de Tenma ter se deparado com Hades, numa missão de reconhecimento. E agora o garoto se encontrava no Inferno. Não totalmente morto, mas perigosamente perdido.

Foco, Sísifo. Foco.

– Sísifo, Foco... – um baixo som chegou ao seu ouvido, como um suspiro. Sísifo moveu os olhos para a direção de Urânia, que se encontrava a alguns metros, sentada num branco de madeira, numa sombra aconchegante em meio ao enorme campo onde treinavam. Ofereceu-lhe um sorriso ao ouvir a voz melodiosa. Sabia que ela havia feito aquilo.

– Muito bem! – ele disse, alto o bastante, captando a atenção dos cinco aspirantes. – Quero que façam tudo de novo.

– Ahh, mestre, mas por quê? Não devíamos mudar pelo menos a postura? – um dos aspirantes, o mais manhoso, miou. Os outros assentiram discretamente. Todos suados e cansados, mas eles ainda não entendiam...

Sísifo suspirou.

– Eu sei que estão cansados, mas o inimigo nunca esperará vocês recuperarem forças. E vocês já sabem disso. – vociferou, olhando para cada um. – Não mudaremos de postura, nem de técnica, porque vocês não compreenderam ainda que não se trata apenas de atacar, mas de conhecer o próprio ataque.

– Eu entendi sim, mestre. Deixe-me mostrar.

O aspirante caminhou até um dos pontos marcados com pedras e se posicionou, pomposamente. Ergueu com elegância o arco e pousou a flecha no devido lugar, inspirando pesadamente em seguida e buscando concentração. Após a respirada completa, o ar foi preso na garganta e a flecha liberada no espaço.

Sísifo observou cada detalhe daquela postura e, de fato, o garoto realizou tudo muito bem. Entretanto, foi o final que o preocupou.

O aspirante se virou com um vitorioso sorriso no rosto, deixando claro que esperava a aprovação.

E Sísifo sorriu.

– Não estou impressionado. – o sagitariano admitiu, normalmente, causando uma mudança de expressão no aspirante. – Não vi muitos erros, mas não é algo de que se deva vangloriar, até porque, a essa altura, não seria nada perdoável se errasse tanto.

Urânia sorriu humildemente, compadecida com a expressão desgostosa do aspirante, mas entendeu o que o cavaleiro quis iniciar. E uma ideia passou a brotar em sua mente...

– Mestre, por favor, diga-me meu maior erro então.

– Enquanto se preocupou em realizar o golpe de forma bonita, deixou a postura final desproteger todos os seus pontos vitais. Numa luta, poderia ter sido derrotado facilmente. – até quis dizer que o aspirante teria morrido, pois obviamente foi uma enorme falha, mas achou melhor explicar. – Esse não é um erro só seu. Todos vocês – fez questão de girar o indicador para os cinco – conseguem se esquecer de proteger o corpo quando estão com o arco em mãos. Precisam aprender a usar as ferramentas que tiverem usando a seu favor. E, por isso, precisam conhecer inteiramente o que estão fazendo, principalmente para poderem se defender dele. Um golpe pode não só atacar, mas também, se for dado de forma errada, dar abertura para um contra ataque de sucesso do inimigo.

– Sísifo... – Urânia chamou, antes que qualquer um pudesse questionar. Ela entendeu totalmente o que o sagitariano disse, mas não ficou tão certa quanto aos aspirantes. Provavelmente, os cinco só aprenderiam, de fato, fazendo. – Permita-me proporcionar algo útil para que sua explicação faça sentido. – ao ver a expressão confusa dele, sorriu. – Por favor.

E ele teve de admitir que não poderia ignorar um sorriso tão divino.

– Antes, diga-me o que fará.

– Antes, diga-me o que quer que eu faça. O que eles precisam melhorar além desse detalhe citado? – respondeu, graciosamente, aproximando-se do lugar onde ele estava.

Sísifo não deixou de reparar no corpo da musa, envolto por um vestido um pouco mais justo que os habituais.

– Sísifo... – ela o chamou, tirando-o dos pensamentos distantes.

– Ah, sim. – Sísifo coçou o queixo, constrangido. – Base no fim do ataque. Defesa dos pontos vitais e, hm... Pontaria alta. Eles ainda possuem pouca noção disso, mas esse é o melhor espaço para treinarem e não há muitas árvores altas.

– Não treine nas árvores! Elas podem abrigar alguma criatura, ou então ser uma própria criatura. – Urânia o reprovou com o olhar, mas logo sorriu.

– Não temos muitas opções, acho que você sabe disso. – argumentou, num tom morno. Seus olhos pousaram nos dela e ele aproveitou para expressar seu carinho. Queria muito beijá-la ali, porém...

– Olhe e aprenda. Aprenda a me chamar quando estiver com algum problema. Talvez eu lhe salve, cavaleiro... – Urânia disse e saiu, rebolando suavemente até onde os aspirantes aqueciam e ajeitavam as flechas.

Sísifo mordeu o lábio. Urânia era diferente de toda mulher que conhecera. Era desafiadora, embora sensível. Era segura e inteiramente doce. E era apaixonada por ele, como ele era por ela. Com certeza não deixaria de acreditar em sua bravura, só que ela mal sabia que já o havia salvado...

De longe, ele a viu liberar três bolas de energia brancas e manipulá-las com os braços. Ficou encantado e surpreso, exatamente da forma que os aspirantes, que observavam a criação com olhos arregalados. Urânia liberou mais trezes bolas, e então posicionou as dezesseis em linha verticalmente reta, a aproximadamente seis metros do chão.

– Vocês possuem conhecimentos gerais de Astronomia, acredito. – esperou a resposta afirmativa dos aspirantes. – Muito bem, vou testar esse conhecimento. Mas antes... – virou-se para o sagitariano boquiaberto. – Sísifo, venha dar os comandos.

Sísifo foi, controlando um sorriso que quis crescer imediatamente. Tortuoso mesmo foi observar a pose de Urânia, cujos braços pareciam arqueados para cima levemente e as mãos pareciam dedilhar o ar, como se o manipulassem para que as bolas obedecessem – e ele não duvidada que fosse realmente o caso. Mas mais do que isso, os olhos dela brilhavam tanto quanto as bolas. Os cabelos negros contrastavam com a pele branca e o vestido verde claro.

Se não fosse o enorme autocontrole, teria serpenteado todas as curvas dela com as mãos.

– Uau!!! Mestre, olhe!!! – um dos aspirantes gritou, acompanhado por suspiros admirados dos demais.

No céu, Urânia havia construído uma magnífica réplica da constelação de escorpião com as bolas de energias.

– Quem pode me dizer o nome dessa constelação? – ela perguntou, suavemente. Todos responderam de imediato. – Exatamente. Agora, por favor, mirem na estrela Antares. Vamos ver quem consegue acertá-la. Eu saberei, portanto não se preocupem. – por fim, sorriu docemente para eles.

Por um bom tempo, os aspirantes se entretiveram com a constelação de escorpião, até que passaram a pedir por outras aleatoriamente. Urânia adorou ver que sua ideia dera certo, principalmente por Sísifo ter se divertido também. Além de técnicas, ele aproveitou para testar o conhecimento astrológico dos aspirantes, como sugerido pela musa.

Quando antes ele pedia para que o tempo logo passasse para poder se envolver nos braços dela, encontrou-se desfrutando do treinamento junto com os aspirantes.

– Senhorita... – um aspirante chamou, timidamente. – Poderia fazer a constelação do meu signo agora?

– Qual é o seu signo? – Urânia sorriu suavemente. Sísifo parou para observá-los.

– ... – o garoto engoliu seco e desviou o olhar, algo que intrigou meramente a musa.

– Está tudo bem, pode me dizer.

– Peixes. – por fim, ele o fez.

O sorriso de Urânia permaneceu, porém duramente obrigado. Agora entendeu a aflição do aspirante. Virou-se para Sísifo, à procura de alguma resposta, porém o encontrou igualmente incerto, coçando o queixo com mais ansiedade.

– Faremos o seguinte – o cavaleiro de sagitário começou -, como estamos quase encerrando por hoje, proponho que eu escolha a próxima constelação, já que vocês escolheram todas até agora! – falou num tom lúdico, mas internamente se sentiu que nem a musa.

Urânia sorriu tristemente para o aspirante que havia pedido pela constelação e aproveitou para tocar-lhe no ombro, causando influência em sua áurea, com a celestial que tinha.

– Quem sabe amanhã...

O garoto sorriu, tão tristemente quanto ela, e assentiu.

– E então, mestre Sísifo, qual constelação será? – ela perguntou, procurando levantar o ânimo entre os demais. Sísifo riu.

– Ora, quero a minha! – disse, divertido, arrancando alguns murmúrios dos aspirantes.

– Era tão óbvio... – um deles disse, os outros concordaram. Por fim, acabaram rindo da expressão “carrancuda” do mestre.

– Vamos, lá. Em posições! – Sísifo pediu alto. Ao se virar para Urânia, que sorria, simulou uma fala muda para ela: — Linda, obrigada.

Em seguida, riu ao ver um tom escarlate tomar suas bochechas.

~

Clio depositou o objeto em cima do balcão e esperou. Observou o local, as flores, as cores... Então era por isso que Mel vivia aparecendo nesse local. E não pelo o que estava vendo, ou por quem encontraria. Inspirou fundo, sentindo a mescla de aromas da loja, e voltou os olhos para a caixa de madeira. Abriu-a pela milésima vez e fez novamente o que fizera desde que a descobrira há uma semana: passou os dedos por cada divisão e encarou cada frasco de vidro. Alguns ainda continham míseros restos de elixir... Encarou-os como sempre, como se pudesse culpá-los pelo atual estado da irmã; como se eles pudessem sentir o peso de seu julgamento; como se pudesse explodi-los só com a intenção de sua ira.

Tolice.

Seriamente, Clio encarou a caixa de madeira que Redka havia dado à Melpomene. Ela sabia que era de Redka por causa do nome da loja esculpido numa das laterais do objeto. E fez questão de devolver à dona.

– Pronto, agora podemos convers... Oh. – Redka observou a caixa com surpresa. Uma súbita envergonha invadiu seu ser, olhar para os olhos de Clio foi impossível.

– Sim, podemos, mas dessa vez quero que abra o jogo, Redka. Quero que me conte como isso começou e por que. Quero que me conte quais foram as flores que você colocou nesses elixires e, acima de tudo, o que causam no corpo. E quero que saiba que Mel não virá mais. – disse tudo muito seriamente.

– Responderei o que quiser, mas... Como assim Mel... Não virá mais? – Redka sentiu o corpo estremecer. Pensou diretamente na pior das hipóteses.

– Acalme-se, Melpomene está viva. – Clio sentiu a tensão da florista e a viu relaxar os ombros assim que informou. – Mas ela partiu para seu templo. E não voltará, é claro. Esse lugar está cheio de péssimas lembranças. E vim lhe devolver esta caixa e informar sobre isso. Melpomene foi embora e não se despediu, mas não porque não quis. – a mandíbula travou naturalmente ao sentir irritação. — Ela simplesmente não teve condições, se é que me compreende...

Claro que Redka entendeu, afinal, provavelmente, Mel havia consumido o elixir de Acácia... Já imaginava o que havia levado-a a fazer tal coisa.

– Compreendo. – respondeu, cabisbaixa.

– Por mais que eu queira lhe culpar, não posso. Você não agiu sozinha, Melpomene foi estúpida demais. E talvez eu não tenha total conhecimento da força que moveu vocês duas a fazerem isso, mas... Vou deixar que fale o que quiser, contanto que não me esconda nada. – Clio amenizou a voz dessa vez e pegou uma das mãos de Redka com as duas. – Red, pelo vínculo amigável que criamos, por favor, não me esconda nada. Há mais alguma coisa que devo saber?

– Clio...

~

– Valeu. – o leonino estendeu a mão.

– Valeu. – o canceriano a pegou e agradeceu, dando um peteleco suave na testa do outro. – Tá cada vez mais rápido, hein, pirralho.

– Cale a boca.

– E convencido também. – Manigold limpou o suor da testa com as costas das mãos e seguiu até a arquibancada, mirando o jarro de água. – Essa merda deve tá quente já. Quem foi que colocou aqui? Ninguém reparou nesse Sol do cacete, não?

Régulus riu diante do humor do canceriano.

– Eu ia dizer que acho que você deve fazer algo, mas agora tenho certeza que sim.

Manigold o mirou com estranheza enquanto virou o jarro de água no rosto e girou o rosto, respingando a água dos cabelos e, consequentemente, enojando Régulus.

– Sai daí, Manigold! – protegeu-se com as mãos, porém de nada adiantou.

– Então fala logo!

– Acho que você devia falar com Tália agora que a poeira baixou. – assim que viu Manigold mais calmo, ajeitou-se na arquibancada e tomou um gole de água. – Sabe? Podia perguntar ao Dohko onde ela está.

Manigold, que dessa vez bebia calmamente a água, travou o corpo e se virou indignado.

– Por que diabo eu perguntaria qualquer coisa sobre ela pra esse cara quando posso perguntar direto pra ela, ô bocó? – sentiu quase vontade de cuspir toda a água na cara do leonino pela infeliz sugestão.

Régulus quis rir, mas conteve.

– Porque eles andam bastante próximos, sei lá... Talvez ela desvie. Foi só uma sugestão. – revirou os olhos. – E ela não parece feliz ultimamente.

Eu sei disso. – Manigold rosnou. – Acredite, eu sei disso.

E sabia mesmo, vivia observando-a quando podia e reparando em suas expressões. Odiava vê-la séria, não combinava com ela. Mas só se aproximaria novamente se ela desse abertura, pois, pela primeira vez, sentia que não bastaria brincar com ela para deixá-la bem. Talvez tivesse de provar o que queria de forma séria também...

Ah, a saudade era uma merda.

Diferentemente de Manigold, Régulus não voltou para a Casa Zodiacal. Todo o clima do Santuário andava incerto demais. Os sorrisos pareciam cada vez mais raros; pelo menos os sinceros. Albafica com certeza levara uma boa parte da felicidade que havia na Vila de Rodório, onde tinha muitos admiradores.

O leonino sentia pelo colega falecido, e muito. Porém sabia que pensar nisso não ajudaria a melhorar técnicas – e melhorar técnicas era o principal objetivo, diante de tudo. Ainda mais após uma morte tão importante.

Era por isso que Régulus treinava arduamente todos os dias: evitar que mais mortes acontecessem. Queria proteger quem pudesse, queria provar que sua idade não influenciava na sua força de vontade.

Mas também andava exausto. E também tinha os pensamentos em uma garota.

Uma garota que não via há uma semana.

Espairecer era o que precisava, por isso não hesitou em adentrar a floresta leste para uma trilha calma. Precisava de paz e sossego. Mais do que isso, precisava dormir. Talvez na beira da praia fosse mais interessante.

Seguiu um curto caminho até uma parte da floresta que não havia mais trilha. Era ali mesmo que queria chegar; dali daria à praia com certeza — e logo na parte da praia mais deserta, seria ideal. Só precisaria passar pela pequena clareira que antecedia uma cachoeira e descer pelas rochas maiores.

E na clareira ele a viu, entristecida, mirando um canto repleto de flores brancas. Margaridas?

Erato.

Não percebeu que havia dito o nome dela, só quando a viu se virar, surpresa. Erato limpou o rosto — sinal de que havia chorado — e o mirou com os olhos vermelhos. Régulus se aproximou lentamente, sem perder o contato visual, e se sentou ao lado da encolhida musa.

– Oi.

– Oi. – ela respondeu, secamente.

Percebê-la de mau humor não foi difícil.

– Eh... Como vai? – Régulus imediatamente se arrependeu da pergunta, mais ainda após receber um olhar desgostoso como resposta. Por que diabo havia perguntado aquilo quando sabia que ela não estava bem? Mas ela parecia tão calma diante de seu nervosismo...

Silêncio. Erato nada respondeu.

Impulsivamente, Régulus soltou um suspiro e levou um dos braços até o ombro dela, puxando-a para si, para então iniciar um leve cafuné nos cabelos macios e ruivos dela. Não se importou por ter sido invasivo, simplesmente o fez. E esperou a reprovação. Reprovação que não veio.

Erato estranhou e deixou isso claro através de um murmúrio duvidoso, mas, ao sentir os dedos do leonino penteando-lhe os cabelos e descendo até a nuca, deixou-se levar... Até certo ponto.

– Está bagunçando meus cabelos! – ela se afastou quando ele subiu a mão recheada com os cabelos dela. Já a risada dele a acalmou brevemente.

– Que besteira.

– Não é besteira! Venha. – dessa vez, ela o puxou da mesma forma que ele fez, mas o levou até ele deitar a cabeça em seu colo. Assim, iniciou a brincadeira nas madeixas claras dele.

Régulus delirou. Era tudo o que queria. Aquele carinho não poderia ser melhor. Erato era inacreditavelmente doce até nos gestos mais simples, até quando seu humor não estava favorável. Simplesmente fantástico de sentir.

– Acho que prefiro fazer a receber. – Erato admitiu, sorrindo levemente e olhando para ele.

– Isso quer dizer que, se algum dia eu te encontrar com raiva, devo oferecer meu cabelo? – perguntou, mais à vontade, e a mirou ternamente.

– Se algum dia me encontrar com raiva, deve sair correndo. – ela respondeu, rindo.

~

Um aroma doce preenchia aquele espaço, mas, para ele, o aroma cítrico que vinha dela era mais gostoso.

Um tecido macio era sentido em suas pernas, mas, para ele, a maciez da pele dela era mais convidativa.

Um canto agudo de um passarinho era ouvido, mas, para ele, o som da respiração dela era mais sonoro.

Ambos ajoelhados na enorme cama, um de frente para o outro. Ela ansiosa, ele controlado. A seda do lençol estava amassada pelo peso dos dois, mas só ela via isso. Ele sentia as coisas. Ele via de outra forma, e ela descobriria como era isso naquele momento.

– Costumo pensar que enxergo pelas mãos... – ele levou o indicador até a testa dela e o desceu lentamente, contornando o nariz, levando o lábio inferior para baixo e se perdendo no queixo. – Existe uma energia em cada indivíduo... – novamente, com o indicador, tocou-a, descendo pelo colo e passeando pelos seios, até parar no vale entre esses. – Que fica muito clara quando fechamos os olhos, porque... – ela está nua, Asmita pensou, antes de continuar. – A visão pode enganar ou distrair. Às vezes não vimos o que está em nossa frente por causa disso, o que é irônico, eu sei.

Ele voltou a juntar os dedos e uniu a outra mão na carícia. Tocou sinuosamente os seios de Calíope, mas sem a malícia esperada. Tocou como quem toca um objeto raro, delicado e de textura desconhecida – embora conhecesse bem a textura da pele da musa.

– O valor está também na intenção do toque. – Asmita a sentiu se arrepiar e acabou sorrindo. – Tão bela. – apertou os seios cuidadosamente e a ouviu suspirar. Parou. Com certeza, muito da excitação que sentiu anteriormente com Calíope se deu nos sons de prazer que ela proferiu, mas não era o melhor momento para ensinar isso.

– O que você vê? – Calíope perguntou. Estava também de olhos fechados, pois não haveria sentido em aprender a ver como ele se não o fizesse.

– Vejo curvas. Curvas incertas.

– Meus seios? – ela ajeitou a postura para relaxar os ombros. Sentiu um início de embaraço.

– Vejo mais do que seus seios, Calíope. Vejo você através do toque, da audição... E, até agora, você me remeteu a isso. Curvas. – Asmita desceu as mãos pelas laterais do corpo dela, lentamente. Aproveitou para acariciar um pouco mais as cinturas e sorriu. – Todo o seu corpo tem curvas... – inclinou-se, para frente para ter mais apoio, e deslizou as mãos até o bumbum redondo, deixando o rosto, consequentemente, perto do dela. – Belas curvas. – apertou onde as mãos tocavam e a ouviu gemer minimamente. – Seus sons também possuem curvas. – antes de se ajeitar, aproveitou para beijar-lhe a face suavemente.

Calíope tomou os segundos de pausa para retomar a respiração. Asmita era intenso.

O virginiano voltou a tocá-la; dessa vez, penteou os cabelos soltos com os dedos, para então descê-los pelas clavículas e explorá-los na região do pescoço e nuca.

Cada toque era um caminho de perdição para Calíope, que já se encontrava completamente seduzida e esquecida. Tinha pedido para que ele a ensinasse, porém mal imaginava que não teria metade do condicionamento mental para isso. Como poderia se concentrar numa tarefa tão intimamente convidativa? Asmita estava a tocando como nunca antes!

Bom, havia sido tocada por ele, mas não com essa intenção de toque. Agora estava entendendo...

Asmita desceu as mãos pelas costas de Calíope sinuosamente, até voltar para a cintura e logo a barriga, onde acariciou com as costas das mãos. Em certo momento, ousou arranhá-la com muita delicadeza com o indicador da mão direta, traçando uma linha do umbigo até o baixo ventre. E foi quando Calíope deu seu mais belo suspiro. Suspiro esse que sinalizou toda a excitação retraída.

– Sabe... – Asmita a beijou suavemente no queixo e moveu os lábios para a lateral do rosto. – Sons me ajudam a ver também... Pode liberá-los se quiser, Calíope.

Calíope procurou a boca de Asmita com a sua entreaberta e acabou encontrando. Não demorou em beijá-lo, mas ele encurtou.

– Estou lhe mostrando de perto o que você poderia aprender de longe... – a mão esquerda deslizou pela coxa macia dela e contornou até passar pelo bumbum novamente e desencadear num braço enlaçado na cintura, aproximando os corpos. – Não me pergunte por que. Não sei responder... – Asmita encaixou o rosto na curva entre o pescoço e o ombro esquerdo dela, onde inalou intensamente o aroma cítrico. E Calíope gemeu. – Isso.

Embora estivesse proporcionando prazer a ela, Asmita também sentia o corpo corresponder aos estímulos. Não demorou muito para perceber que estava excitado, sentiu até um mero constrangimento ao perceber o membro duro, mas não conseguiu se afastar. Tampouco se aproximar mais do que estava fazendo. Passou a questionar a intenção do próprio toque quando iniciou o momento.

Independentemente da intenção anterior, não poderia mais controlar a nova.

Sentiu necessidade de experimentar o pescoço de Calíope com a língua e assim fez. Mais um gemido foi ouvido — dessa vez, acompanhado de outro gesto. Os braços de Asmita foram agarrados fortemente pelas mãos dela, em resposta à língua no pescoço e à mão em seu sexo.

Asmita havia chegado lá. E ela já estava molhada demais para fingir que não. Porém ele pareceu não ter percebido isso, ou ter chegado acidentalmente.

– Asmita... – Calíope gemeu, fazendo-o sorrir e afastar o rosto.

– Perdoe minha ousadia, Calíope. – pediu, enfatizando o movimento circular com as mãos. Não a invadiria com os dedos, mas deslizaria por ali com eles. Estava gostoso demais. – Perdoe minha ousadia. – disse, novamente, aumentando o ritmo da mão. – Perdoe minha ousadia, mas não posso mais parar.

– Asmita... – Calíope gemeu mais alto e apertou mais fortemente os braços do virginiano, para então jogar a cabeça para trás. Não sabia como lidar com o prazer diante da figura que era Asmita. Estava encabulada, porém intensamente excitada.

E ele não parava de deslizar os dedos pelo seu... Era bom... Muito bom...

Asmita também estava se controlando mais do que podia. O calor das mãos dele em seus braços, juntamente com os gemidos e a movimentação sutil do quadril o deixavam absurdamente sem noção alguma. De fato, estava perdido.

Não sabia o que pensar, mas parecia que o corpo sabia como agir.

– Asmita! – Calíope, dessa vez, desceu as mãos para os pulsos dele e o parou. – Acho que posso... Tentar ver também... – sentiu o calor das bochechas aumentarem assim que disse.

O virginiano, de início, não compreendeu, mas, ao sentir as mãos, que antes o seguravam no pulso, subirem para seu tórax, entendeu. Para facilitar, pousou as mãos na cintura dela e se manteve imóvel, entregando-se para que ela o explorasse. Estava sedento pelo toque de Calíope.

A musa, num ritmo um pouco mais acelerado, explorou o peitoral, deslizou até os ombros e desceu até a lombar, abraçando o cavaleiro consequentemente. Queria, além de tocá-lo, senti-lo perto, cheirá-lo e fazer tudo o que foi feito consigo. Queria prová-lo de todas as formas, sentir seus sabores, conhecer suas fraquezas, suas sensibilidades... Queria ouvi-lo gemer também, mas Asmita parecia irredutível.

Só parecia.

Calíope desceu as mãos até onde as deles estavam e as tirou dali, aproximando-as de sua boca, para então beijar a ponta de cada dedo dele. Rapidamente o ouviu rir pelo nariz, e então tomou coragem e abriu a boca. Contornou os próprios lábios com o indicador ousado dele e depois o lambeu lentamente.

E, finalmente, Asmita gemeu. Baixo, mas gemeu.

Foi o sinal que Calíope queria para continuar. Com mais gosto, chupou o indicador, enquanto liberou a outra mão para poder deslizar a sua pelo abdome do virginiano. Sorriu internamente ao sentir o abdome dele retraído. Desceu mais um pouco a mão...

A falta de visão só deixava tudo mais excitante.

Encontrou a barra da calça moletom e adentrou...

Calíope podia sentir tudo, inclusive o arrepio estremecer o corpo de Asmita.

Desceu mais um pouco...

Sentia o corpo dele convidar o seu através da energia individual.

Até que chegou onde queria.

Ah... Calíope... – Asmita arfou. Ela não poderia ter se sentido mais vitoriosa.

Com a mão firme, Calíope envolveu o membro duro dele. Passou por toda a extensão, sentindo a textura, o formato, a espessura, as demais elevações... Sentiu-o pulsar, como se exigisse movimento. E ela obedeceu. Iniciou os movimentos devagar, subindo e descendo a mão, até envolver apenas a glande em um momento – foi quando Asmita voltou a mão livre para a cintura dela e a apertou, enquanto a outra tinha o indicador chupado com gosto.

A respiração dele se tornou cada vez mais pesada e dificilmente controlada, ela pôde ouvir. Entretanto, de forma alguma seria piedosa. Calíope fez questão de intensificar a masturbação e, quando o fez, sentiu uma umidade na glande, que aumentou aos poucos. Asmita não havia chegado ao ápice, mas estava tão excitado a ponto de se umedecer naturalmente – assim como ela. E claro que ela não desperdiçou o fato. Passou a aumentar o ritmo e a extensão dos movimentos, passando pela glande e espalhando aquela umidade.

A frequência de gemidos aumentou naquele quarto.

Ambos gemiam. Ambos se tocavam.

Asmita precisou devolver o prazer, precisou tocá-la também e submetê-la à mesma sensação que estava tendo; por isso, voltou os dedos para o sexo dela, que estava tão úmido quanto o seu.

– Calíope... – Asmita mordeu o lábio.

Uma engolida seca foi dada, relembrando o gosto do chá tomado anteriormente, mas, para ele, o sabor do beijo dela era mais marcante.

Asmita se inclinou para frente e a beijou com vontade. A lascívia, muito bem expressada, envolveu-os desmedidamente. E então ele a empurrou para baixo, fazendo-a deitar na cama. Não compreendeu o impulso que teve, mas não teve vontade alguma de se questionar sobre isso.

Logo deitou em cima dela, possibilitando um enorme contato corporal, o qual ambos responderam com um suspiro prazeroso, para então se beijarem novamente. Pela primeira vez, Calíope sentiu Asmita nervoso... Acabou arqueando as costas e abrindo as pernas para poder senti-lo mais, embora ele notavelmente tentasse se equilibrar numa curta distância.

Mas ela abriu mais as pernas e as fechou nas laterais do corpo dele.

Asmita impulsivamente se encaixou, sem penetrar.

– Não sei o que estou fazendo. – admitiu, angustiado. Calíope pôde senti-lo turbulento pela voz trêmula.

– Está seguindo seu instinto. – respondeu, acariciando-o no rosto. Ajeitou-se melhor com o corpo embaixo do dele e o beijou no queixo. – Está sendo humano, sem deixar de ser também uma divindade.

– É isso que você quer?

Calíope não respondeu. Ou melhor, respondeu da forma mais clara possível. Em questão de segundos, encaixou o quadril e o movimentou, deixando com que o início do membro de Asmita lhe penetrasse, para então desencadear, nele, a continuação do ato.

E Asmita a penetrou.

Notas finais
Haaaaaaaaaaa, I know!!! Ah, lembrem-se que tudo que eu faço tem um motivo, ok? Até terminar um hentai assim hahaha Beijos, amores. Comentem pra mimm!