Notas iniciais
Oier... Olar... hehehe Ah, olá, queridxs leitorxs! Como vão? Muita saudade? Bom, farei o seguinte: quem quiser ler minhas desculpas, fique à vontade, senão pode pular e ler logo o capítulo - hoje não tenho pontos muito importantes nas Notas Iniciais, ok? Antes de tudo, ME DESCULPEM! Eu falei que provavelmente aconteceria de novo, mas, putz, 20 dias foram um atraso enorme, realmente. Mas juro que foi inevitável! Como eu já disse, faço muitas atividades na semana, sobretudo físicas, portanto vivo cansada. E se estou assim, minha mente não trabalha tão bem quanto quero. Não sei vocês, mas eu odeio postar coisa fajuta! Portanto, prefiro esperar e descansar bem pra poder mergulhar na imaginação e fazer um cap caprichado pra vocês, até porque tudo tá cada vez mais complexo aqui na fic! Enfim, espero que me perdoem! ps.: E não reclamem muito, porque escrever fanfic não é fácil, ainda mais capítulos colossais! =D

Capítulo 60

Correu até chegar na Casa de Áries, onde sabia que encontraria a irmã. No caminho, tropeçou algumas vezes, mas não chegou a perder o ritmo, manteve-se firme até o destino. A mente adquiriu uma imensidão vazia, onde apenas a preocupação para com ela teve espaço. Afinal, precisava confirmar as suspeitas.

Segundos depois, cansada e arfando, apoiou-se curvada nos joelhos e tomou um instante para recuperar a respiração. Era só inclinar a cabeça e encontraria a gêmea. Já conseguia ouvir seu choro desesperado, choro esse que ninguém mais ouvia, pois não possuía sons, apenas uma forte onda dolorosa, saindo do peito e emanando ali, naquele salão agora tão frio e triste.

Em seu campo de visão, viu um caminho feito por sangue, de longe, e sentiu-se obrigada a inclinar a cabeça, ainda que temesse. E viu Melpomene agarrada ao corpo do cavaleiro de peixes. Ambos sujos de sangue e suor, com veneno no corpo e palidez no rosto.

Só que tinha um detalhe que os diferenciava: Mel estava viva, enquanto...

Tália permaneceu sem reação. Não que estivesse sem compreender, mas simplesmente não sabia o que fazer. Observou Mel chorar sem derrubar lágrimas, ouviu-a gritar o nome de Albafica apenas uma vez, mas foi uma vez recheada de angústia e incalculável dor.

Foi o bastante.

Mirou Shion, que encarava a cena com evidente preocupação, talvez pensando que Mel se machucaria com o veneno do cavaleiro de peixes. Talvez ele não soubesse do que Tália já havia descoberto... Pareceu errado se preocupar com isso diante daquela cena, pois nem Mel se mostrou hesitante.

Claro, seu amor havia partido.

De repente, Tália sentiu a dor. Melpomene estava pior do que nunca e isso era um risco.

Correu até a irmã e a abraçou, sem se importar com o sangue venenoso que respingou em si. Não tinha como se preocupar, afinal sentiu todos os pensamentos de saudade que permearam a mente de Melpomene. Não duvidou que a gêmea pudesse correr atrás do pisciano, onde quer que este estivesse...

E Tália não poderia perder Mel... Doía, ela sabia, mas não deixaria que Mel partisse também. Curá-la-ia de alguma forma, nem que tivesse de buscar o cavaleiro no Mundo dos Mortos, mas não deixaria Mel acabar com a fonte do sofrimento de forma semelhante.

Antes que pudesse agir, sentiu o corpo perder os sentidos... Por fim, seus olhos se fecharam.

...

Tália abriu os olhos.

Sentiu a trajetória úmida da gota que desceu na lateral de seu rosto. Suor — estava suando. Novamente sonhara com aquele momento infeliz e marcante. Encontrava-se no jardim do Templo do Grande Mestre, sozinha, estatelada na grama macia, encarando o céu azul e limpo.

Nenhuma nuvem.

Com a mente em branco, sentou-se ali mesmo, procurando observar os detalhes daquele gramado, pois parecia uma boa forma de se distrair daquele passado. Sentia as gotas de suor descendo. Pegou uma pedrinha comum que achou e a encarou, sem expressão. Mais gotas, gotas salgadas que tocaram em seus lábios. Observou a pedrinha, tão pequena e deslocada ali na grama, e inspirou pesadamente. Gotas ferozes desceram.

Não era apenas suor.

Tália então percebeu que estava chorando descontroladamente, a tal ponto que soluçava alto demais. Mas não se preocupou com o som, estava sozinha no jardim. Sozinha no quarto que dividia com Melpomene. Sozinha naquela preocupação incomum que tinha para com a gêmea. Não sabia dizer até que ponto era forte o bastante para se erguer sozinha. Geralmente, conseguia suportar as injustiças porque suas irmãs lhe ajudavam, eram como pilares.

E, mais do que isso, Tália não queria enfrentar tudo isso sozinha...

– Vocês acham melhor se distanciarem pra entender o que sentem, mas é gritante o quanto isso já confirmou muita coisa, Tália. – Dohko sorriu e aproveitou para abocanhar mais um pedaço de cenoura. – Eu entendo que – mastigou um pouco e engoliu – sua insegurança ainda exista, mas-

– Ora insegurança! – a musa rebateu, fingindo-se de ofendida, enquanto admirava a alface em mãos.

– Me deixe falar. – ele reprovou-a, rindo. – Enfim, eu entendi o seu princípio, e o achei sábio, se quer saber. Mas Manigold se tornou carrancudo demais e acho que você poderia se sensibilizar e nos ajudar a resolver isso. Ninguém mais tá aguentando esse cara! – novamente, acabou-se em risada, ainda que tivesse uma pontada de seriedade na fala.

– Claro! Aquele arbusto é um pé no saco. Por isso ando longe. – Tália cruzou os braços, atuando mais uma vez.

Dohko se aproximou rapidamente, deixando de lado o que segurava, e tomou as mãos da musa com cuidado, sem desviar o olhar. Tália não estranhou, até gostou, e seus olhos coloridos aguardaram.

– Seus dias andam um tédio, não andam? – o libriano perguntou.

– Talvez...

– Deixe esse orgulho de lado ao menos uma vez.

Tália revirou os olhos, mas não deixou de pensar sobre. Sentiu a quentura das mãos grandes dele e se deixou aconchegar, despreocupada.

– Bom, deixe duas vezes, porque o que vou sugerir vai requerer algo assim... – assim que disse, viu-a se voltar para ele com dúvida nos olhos. – Tália, já está na hora de dar uma resposta à Manigold.

Tália sorriu, finalmente achou o céu bonito dali de onde olhava, mas não permaneceria deitada no jardim. Levantou-se e seguiu, rumo à descida das Doze Casas.

~

O divã parecia desconfortável — completo contrário de sempre. A sala em que se encontrava tampouco parecia aconchegante – fato que não se devia apenas pela ausência do dono da casa. Na verdade, tudo aos olhos dela parecia distante de sentimentos positivos e já imaginava a origem disso. Era uma musa movida à felicidade e não sabia agir direito diante de um fator tão oposto. Só se lembrava de sentir dor na vez em que Tália sofreu seu marcante episódio da cicatriz e na época em que Urânia se afogou em mágoas por causa do espectro de Hades.

Fora isso, sempre fora radiante.

E agora sentia algo desconhecido, que rondava o medo de passar pelo o que Mel estava passando.

Para Terps, era difícil reconhecer o turbilhão de sensações que a rondavam, assim como encontrar sua fonte. Havia uma grande possibilidade de resolver o caso se encontrasse esse detalhe, tudo seria mais fácil e sua mente ficaria novamente clara. Poderia até ajudar as irmãs, embora muitas vezes fosse ignorada nesse aspecto por ser mais nova e menos experiente.

Aos poucos, aprendia que experiência era relativa, no entanto.

Um afago nos ombros tirou a musa da dança dos devaneios, fazendo-a virar o rosto para vê-lo.

Ali estava a fonte.

Com certeza, ele era a fonte do turbilhão. Fato inegável. Terps reconheceu de imediato. Não havia outro fator no mundo que a deixava da forma que ficava quando se deparava com os olhos profundos dele, mares particulares que a convidavam para um mergulho perigoso. Não havia outras mãos, no mundo, que a aqueciam daquela forma única e agressiva, que ela passou a necessitar.

– O que foi? – Defteros perguntou. Só assim Terps percebeu que o encarava seriamente.

Engoliu seco antes de responder.

– Nada... – pousou a mão na dele, mas foi puxada para se levantar e abraçada em seguida.

– Não gosto disso.

– Do quê? – estremeceu um pouco.

– Você escondendo coisas de mim. É fácil te ler, Terpsícore. – apertou-a com mais força entre os braços.

– Não estou escondendo. Só... Não quero falar sobre isso. – pontuou imediatamente, estranhando a própria coragem. Porém não evitou receber um olhar firme do geminiano, cujas mãos a prenderam pelos ombros, mantendo-a na linha de visão.

– Fale sobre isso.

Terps só então percebeu a expressão diferenciada dele. Não parecia ser um divertimento em vê-la aflita por imposição, mas sim uma preocupação. Entretanto, não deixava de ser estranho vê-lo desse jeito – preocupado e atento.

– Peguei-me pensando que – Terps afagou as mãos que lhe seguravam os ombros e o viu relaxar. – estamos correndo muito perigo.

– Fale mais. – sem tirar os olhos dela.

– Acho que estou com muito medo.

Vou proteger você. – a fala saiu de imediato e inesperadamente até para ele, que engoliu seco ao perceber as palavras. Porém ver a musa corar valeu a falha.

– Eu... Sei que sim. – Terps se aproximou sinuosamente, encarando cada pequeno pedaço da linda face de Defteros. Com as mãos, tocou suavemente. – Defteros, por mais que seja tolice, eu confio em você. – viu um mísero sinal de sorriso no rosto dele, ou talvez tenha sido impressão.

– Não sei como. – rosnou, desviando o olhar.

– Sempre esteve por perto. – quando o viu estreitar os olhos, puxou-o para perto até virar novamente o foco de seus olhos. — Você me salvou daquele vendedor de chá.

– Salvei. – respondeu normalmente. – E depois te comi.

– Não adianta mais ser rude, Defteros...

– Sim, você é uma idiota.

Terps o observou por um momento. Embora ele estivesse falando daquela forma, Defteros não se afastou de seus carinhos. As palavras pareciam vir com intenção de mascarar o que ele realmente pensava. De um lado, Terps se sentia bem com isso, pois havia ainda o que cavar naquele interior tão recatado e sombrio, porém tudo sempre dependeria da disposição de Defteros – o que, provavelmente, precisaria de iniciativas dela para desencadear.

– Sim, sou uma idiota. – Terps sorriu, contornando, com os dois dedos indicadores, o maxilar do geminiano. – Sou tão idiota que entristeço só de pensar em lhe perder para essa guerra. Essa é a verdade, cavaleiro. Sou idiota porque, se sofro por causa de Mel e Albafica, imagino como sofreria se fosse você. Dá... vontade de chorar só por cogitar essa possibilidade. – engoliu em seco. – Não sei o que somos ou o que temos, se é que somos e temos algo, mas... Eu sei que lhe vejo de outra forma. E dói. Por vezes, dói. Preciso saber que está seguro, vivo e, de alguma forma, feliz. Sinto que só conseguirei ficar bem se sentir que você ficará bem sempre.

Mais corada do que nunca, Terps o encarou. Por mais que estivesse envergonhada, não se sentiu mal por ter deixado as frases saírem. Foi natural e espontâneo, portanto verdadeiro.

Defteros respirou pesadamente antes de puxá-la para um beijo faminto – ao qual Terps se entregou totalmente.

– Não deveria depender tanto de mim. – rosnou baixo, deixando os lábios se tocando apenas.

– Tarde demais.

Eu posso morrer amanhã. – uma das mãos puxou o laço traseiro do vestido amarelo.

– Eu sei. – ela sentiu tecido deslizar por suas costas e abraçou-o mais.

– Eu posso fazer isso sem avisar. – mordiscou de leve o lábio dela enquanto puxou o vestido mais para baixo, desnudando-a. – E você não terá chance de se despedir...

– Por que está argumentando? – Terps arfou ao sentir um aperto no seio esquerdo.

– Porque quero que se convença de que é um erro se preocupar comigo. – dos lábios até a curva do pescoço, traçou um caminho com os lábios inferiores.

– Nunca... – a palavra se perdeu no ar. Já não sabia o que pensar direito. Era facilmente seduzida pelo toque do geminiano, que, por mais bruto que fosse, oferecia uma bela sensação aveludada.

De repente, parou.

Antes que pudesse questionar, Terps foi afastada e inteiramente desnuda. Observou o cavaleiro de gêmeos admirando seu corpo com olhos estranhos. O desejo estava ali, evidentemente, mas ele parecia decorar cada detalhe, pois procurava olhar de ângulos diferentes. A musa preferiu permanecer parada.

– Eu sei que você quer, mas não pretendo te comer hoje. – Defteros esclareceu, ainda analisando as convidativas curvas.

Terps, embora estivesse acostumada com o palavreado, não deixou de corar e sentir um formigamento no ventre. Estranhamente, achava o comportamento dele excitante em diversos aspectos não convencionais.

Defteros deu a volta e parou numa relativa distância atrás da musa, onde aproveitou para devorar a bunda redonda e levemente empinada. Controlou com dificuldade o desejo de estapeá-la ali mesmo, tanto que seus punhos se fecharam por um momento. Mas nada foi tão difícil quanto ver Terpsícore levantar os cabelos num coque e manter as mãos ali, fazendo os ossos das costas se destacarem sensualmente e a cintura adquirir um formato mais sinuoso que antes.

Maldita. – rosnou para si e respirou fundo.

Terps virou o rosto até conseguir vê-lo um pouco atrás de si, dando a chance de admiração de seu perfil.

Parecia que fazia de propósito, Defteros pensou.

– Ehm... Então? – ela já tinha sido alvo de seus olhos intimidadores enquanto estava nua, várias vezes até, mas nunca deixava de se sentir constrangida. Ainda mais se demorasse.

Quieta.

Se Defteros não tivesse ordenado ali, no ouvido dela, bem próximo de si, Terps não teria arfado da forma intensa que fez.

Obviamente, o geminiano sorriu, vitorioso.

– Já está excitada?

Terps sentiu a intimidade ser tocada provocantemente com um dedo.

– Mas...

– Não pretendo te comer, mas não significa que te deixarei em paz. – de fato, Defteros sentia prazer em ver os efeitos que causava naquela musa. – E também me agrada te ver com a cara vermelha, exatamente como está agora. – riu baixo.

Defteros se afastou calmamente, serviu-se do vinho que ficava num dos móveis bem polidos daquela sala e observou a musa ainda parada. Sorriu quando viu que ela estava controlando a própria respiração no intuito de se acalmar. E nada foi mais adorável que vê-la com uma ruga entre as sobrancelhas, inesperadamente brava com ele.

Terps preparou-se para falar, abrindo a boca.

Linda. – Defteros disse. Viu a boca dela se fechar imediatamente e o rosto adquirir novamente o tom vermelho de antes. Como era fácil desestruturá-la. Fácil até demais.

Teria de dar um jeito nisso, afinal não estaria ali para sempre.

– Vamos subir, hoje vou te desenhar e você vai fazer exatamente o que eu disser. – virou o vinho na boca e estendeu uma das mãos para ela.

~

Terminou de dobrar o último vestido e o colocou na mala, para então preenchê-la por completo com a caixa de madeira lapidada, que um dia trouxe uma terrível notícia. Esperava que, dessa vez, caso fosse necessária, seria de boa ajuda. Não estava preocupada com a viagem em si, mas com a possibilidade de chegar tarde demais. Não desistiria, porém. Havia reunido diversas opções proporcionadas pela florista e estudado um pouco mais a fundo cada uma, para que não errasse na aplicação.

Permaneceu alguns minutos encarando a caixa e só fechou a mala quando ouviu alguém bater na porta do quarto.

– Senhorita Clio, com licença. – a serva fez uma breve reverência e foi puxada para dentro do quarto com certa pressa. – Oh...

– Perdão, Zara, mas preciso organizar tudo o mais rápido possível, pretendo partir ainda hoje. – Clio informou, afobada, e parou para observar o papel na mão da serva. – Isso é o que estou pensando?

– Sim, exatamente o que pediu para saber, mas já aviso que tudo depende do tempo, senhorita. Já o sabe? – a serva a encarou com os olhos pretos.

– Não, não sei nem se é o caso. Na verdade, não sei de absolutamente nada e estou com muita raiva justamente por isso. – Clio puxou levemente os cabelos, andando em passos curtos de um lado para o outro.

Zara aguardou.

– Pelo o que me contou, a senhorita Melpomene corre muitos riscos.

– Sim, muitos. Por isso, preciso que me diga tudo que sabe sobre isso. Confesso que nunca pesquisei, não cheguei a achar necessário. Mas, oh, céus, como estive errada! – deixou um rosnado sair, juntamente com um suspiro de frustração. Pela primeira vez, seu conhecimento e sabedoria não serviriam para muito.

Algumas dezenas de minutos foram usadas em uma importante conversa entre a musa e a serva. Clio não deixou de ficar apreensiva com cada informação adquirida. Precisou usar a força interna para se acalmar diante das possibilidades. Torceu para que os novos elixires funcionassem, afinal os levaria apenas para fins resolutivos.

– Senhorita Clio, antes de ir, preciso que lembre: por mais que consiga várias coisas pra ajudar na saúde da senhorita Melpomene, é importante que a alimentação dela seja boa. Ainda mais agora nesse nível crítico, né? – a serva juntou as mãos gordinhas no peito e ofereceu seu sorriso como forma de apoio.

– Crítico talvez não seja a palavra. – Clio encarou a mala junta à perna esquerda, suspirou e voltou a mirar a serva. – Obrigada, Zara, e, por favor, deixe tudo em silêncio. Athena já sabe de tudo que lhe contei, ninguém mais precisa saber.

– Saber do quê? Sei de nada! – Zara piscou um dos olhos e se retirou.

Clio deixou que alguns servos levassem sua mala na frente. Tinha a intenção de parar por um tempo um pouco maior na décima casa zodiacal, mas apenas para se despedir educadamente do protetor. Nada mais. A preocupação não permitia maiores lazeres.

– Desagradável.

– Eu sei, mas compreenda. – Clio rapidamente respondeu, com os enormes olhos implorando a El Cid.

O capricorniano assentiu.

– Queria me despedir direito. – informou secamente.

– Eu também, mas o caso é urgente. – alguns segundos de silêncio incômodo se estenderam. Silêncio que Clio sentiu necessidade de quebrar: — Há algo mais que é desagradável nisso?

– Quanto tempo ficará fora?

– Não sei. – Clio viu El Cid estreitar os olhos. – Você parece desconfiado...

Ela quis sorrir com a constatação ao vê-lo corar e murmurar um “Hmm”, mas se limitou a reprovar com a cabeça:

– É muita desconfiança para um cavaleiro tão responsável.

– O fato de eu desconfiar frequentemente me torna responsável. – El Cid se aproximou lentamente e levou uma das mãos até a bochecha da musa.

– Ou traz mais responsabilidades. – acrescentou, virando minimamente o rosto para encostar os lábios na palma dele.

– Certamente.

Impulsivamente, ela o enroscou pelo pescoço com os braços, estranhando o próprio comportamento, e acabou com a distância entre os lábios, desenvolvendo um beijo recheado de ternura — e temperado com certa dose de volúpia. Afastados, deixando apenas os narizes se acariciando, encontraram-se pelo olhar, até deslocarem os corpos lentamente. El Cid quis trazê-la de volta ao vê-la morder o lábio inferior inconscientemente, mas optou pelo autocontrole.

– Tome cuidado. – ele pediu. Teria parado aí se o peito não tivesse se apertado ao vê-la sair e, antes que sumisse, acrescentou: — Clio! – esperou-a se virar – Espero que dê certo.

~

– Vou passar de novo pela sua casa, Aldebaran de Touro. – Dohko disse, levando o elmo da armadura na mão direita. Apresentava um sorriso suave no rosto por pensar na recente conversa que tivera com Tália.

– Olá, Dohko. Está indo para a casa de Libra? – Aldebaran, ao contrário do colega, parecia, de certa forma, desconfortável. Seu semblante costumeiro, dado pelos braços cruzados à altura do peito, não daria essa impressão, mas devido ao olhar sério do cavaleiro, Dohko estranhou.

– Decidiu dar uma folga aos pequenos por agora?

– Digamos que minhas preocupações me forçaram a isso.

– E não forçam a todos? – Dohko coçou a nuca, divertido. – Mas compreendo. – olhou em volta, espontaneamente. – Por onde anda sua companheira?

– Cuidado, cavaleiro. Certos títulos podem dar a entender errado. – Aldebaran desviou o olhar, normalmente.

– Certo, certo. – abanou o ar, cedendo à falta de humor do colega. – Só que eu realmente gostaria de saber por onde anda Polímnia.

– Por incrível que pareça, ensinando o que eu particularmente não levo jeito para ensinar. – deixou uma risada curta sair.

– Termine a informação, homem! Ela tá ensinando canto aos aspirantes? – o libriano brincou.

– Botânica.

Os dois cavaleiros de ouro se olharam por breves segundos antes de compartilharem uma gargalhada.

– Faz parte. – Aldebaran parou primeiro.

– Quem vai dizer que não?

– É, é. – rapidamente, o taurino recuperou a seriedade, encarando o colega de batalha. – Você já deve saber que o enviado de Jamiel veio nos informar que os espectros são imortais. – mirou o horizonte. – Mesmo depois de Albafica ter repelido as tropas do Mundo dos Mortos não podemos nos descuidar.

Dohko, inevitavelmente, adquiriu a mesma seriedade e assentiu.

– Mas não chegaram apenas notícias ruins! – Aldebaran falou, num tom mais animado. – Soube que seu discípulo, Pégaso, ainda não morreu por completo.

O libriano se incomodou com o “ainda” presente na frase, mas deixou passar:

– Sim. – seu sorriso murchou. — Mas parece que a alma dele continua no Mundo dos Mortos. Não dá para sossegar enquanto ele não estiver de volta em segurança.

– Sim. – Aldebaran assentiu. – Mesmo sendo um cavaleiro de bronze, estamos sempre precisando de guerreiros poderosos. Além do mais, talvez nossos inimigos não sejam apenas os espectros.

Dohko juntou as sobrancelhas numa expressão endurecida.

– Do que está falando?

– Estou falando de Asmita de Virgem. – respondeu, sem receios. Dohko arregalou os olhos, deixando clara a necessidade de maiores explicações. – Dohko, nós, como cavaleiros de Athena, só devíamos ter um único caminho a seguir, mas ele não sai de sua casa de Virgem para nada, nem para missões importantes, alegando estar em meditação. – estreitou os olhos, mirando a sexta Casa. – Agora mesmo parece nem se importar com o avanço das tropas de Hades. Ele também não abandona aquela religião estrangeira mesmo estando no Santuário, ao lado de Athena. Não vou com a cara dele.

– É verdade que há muitos boatos assustadores sobre ele. – Dohko comentou, mirando a mesma direção. – Dizem que pode se mover livremente em todo tipo de espaço e que pode conversar com os Deuses e com Buda.

Aldebaran sorriu ironicamente:

– Heh. Não seria nada bom tê-lo como inimigo...

– Verdade. – o libriano só percebeu a própria tensão quando sentiu uma gota de suor descer pela lateral do rosto. – Nem gostaria de pensar nessa hipótese. De fato, há algo nele que é diferente de nós. Afinal... O que tanto ele medita na Casa de Virgem?

– Só há uma pessoa que mantém contato frequente com ele. – Aldebaran coçou o queixo. — A única musa que planta antipatia por onde passa e que nunca deixou claro o lado em que está, em meio a essa guerra. Além de ser a mais velha das Musas, parece esconder o verdadeiro motivo pelo qual vieram.

– Espere. – Dohko o encarou. – Não acho que as Musas tenham a ver com isso.

– E a que elas têm a ver nisso tudo? Por que vieram? – o taurino deu meia volta, parando em direção à entrada de sua casa. Por cima do ombro, encarou o libriano. – São muitas perguntas sendo feitas com pouca frequência. Não as ignore, Dohko.

~

Tália adentrou o corredor frio e levemente iluminado até chegar à ala privada da casa, onde varreu com o olhar, procurando o protetor. Aproveitou para observar o que antes não havia feito, como a pequena prateleira num dos cantos da sala, recheada de livros finos – alguns até caídos em volta. Sem hesitar, seguiu até o móvel, agachou-se e juntou alguns.

– Oh! – sorriu ao ver o que tinha em mãos.

– Eu não gosto muito de ler – a voz arranhada e única de Manigold a fez virar-se com espanto. – e nem tenho muito tempo pra isso também... Mas, de vez em quando, até que acontece... – disse, esfregando a nuca, totalmente sem jeito. Evitou olhar a musa, estava encabulado demais.

– Hmm, entendi. – Tália voltou a olhar os livros, sorrindo. – E olha só o que você gosta de ler! Logo comédias gregas!

– Aristófanes é um mestre. – escorou-se num pilar e, na tentativa de puxar assunto e aliviar a surpresa, perguntou: — Tem algum preferido?

As Rãs.

– Ehhh! Logo de Aristófanes! – Manigold sorriu. E Tália adorou vê-lo novamente descontraído.

– Claro, ele tem uma das frases mais engraçadas do mundo, que só quem leu poderá entender a graça! – levantou-se com o livro em mãos, olhando alegremente o canceriano.

– No três, falamos ao mesmo tempo, pode ser? Quero ver se estou certo. – Manigold propôs, entusiasmado. Tália assentiu. – Um... Dois... Três...

E perdeu sua garrafinha!¹ – ambos disseram e, em seguida, riram descontroladamente.

– Ahh, minha barriga... – Tália grunhiu, ainda rindo, enquanto se encolhia no chão. Manigold igualmente ria, mas se aproximou da musa e estendeu a mão. – O que...?

– Vamos conversar. – manteve a mão ali, aguardando. Por dentro, seu coração acelerado expressava toda a ansiedade e nervosismo que o dominavam. – Por favor.

Tália o olhou com olhos duvidosos, analisou um pouco e, por fim, aceitou a mão. Seu coração não se diferenciava do de Manigold.

Ela se deixou ser guiada pelas escadas e corredores da Casa de Câncer. Por dentro, perguntava-se aonde daria, mas uma força desconhecida a incentivava a deixar o canceriano fazer o que queria. Era o tipo de sensação que sentia quando tinha fé em alguém; quando confiava... Pegou-se sorrindo espontaneamente com o pensamento, enquanto tinha a mão firmemente – porém com cuidado – presa pela dele – foi um ato que ele provavelmente não percebeu. Ou não.

Quando finalmente pararam, Tália abriu um enorme sorriso, uma mistura de surpresa e descrença. Estavam no terraço da Casa, onde uma brisa refrescante os envolvia e o céu parecia mais próximo. Céu este que já apresentava os tons alaranjados do entardecer. Suspirou devido à vista e se virou para Manigold. Diferentemente dos dela, os olhos dele a admiravam – o que a deixou intensamente corada.

Manigold sentiu o coração acelerar ainda mais ao presenciar as bochechas vermelhas de Tália – algo extremamente raro e que deixou saudade na ausência. Engoliu seco, procurando se concentrar. Estava feliz demais, poderia acabar ferrando tudo.

Tália observou o banco improvisado naquele espaço, feito por duas caixas de madeira e uma manta grossa de tom azulado. Não havia guarda-corpo, tinham de contar com a maturidade de não chegar perto da borda. Por esses detalhes e outros, Tália percebeu que não fazia parte do projeto da casa e que, provavelmente, Manigold havia considerado aquilo por si mesmo. Ficou feliz com isso, afinal ela faria o mesmo.

– Gostei daqui. – comentou, observando a vista.

Manigold limpou a garganta.

– Tália... – viu-a se virar. – Como será essa conversa? Ehh... Quero dizer... Eu quero falar, você quer falar. Quem fala primeiro? Hum... – coçou a nuca, evidentemente perdido. – Não quer sentar? – correu até o banco improvisado e a chamou com a mão.

Maldita afobação, apreensão, aflição, ansiedade, dificuldade e, acima de tudo, saudade.

– Manigold. – Tália se aproximou, mas não sentou. – Quero que fale primeiro.

Manigold a encarou por breves segundos, procurando alguma abertura que amenizasse seu nervosismo. Geralmente se acalmava com a presença dela, ainda mais sob a proteção de um olhar sereno. Aqueles olhos, um verde e o outro azul, tão belamente alinhados na face suave dela, cuja cicatriz estava ali para mostrar que com ela não se brincava; que ela era mais forte que as possíveis fatalidades. E ele não queria fazer parte delas, queria ser algo bom — e a chance havia surgido.

Antes de tudo, limpou a garganta e respirou fundo, sem mais encará-la. Procurou apoio na bela paisagem à frente.

– Na última vez que conversamos, você me disse um monte de coisa. Não vou dizer que me lembro de tudo, mas... – coçou o queixo. – Eu tentei te entender, Tália, eu tentei. Na verdade, uma coisa foi importante pra eu aceitar esse tempo longe. Tu disse que eu não sabia interpretar as coisas, e talvez eu não saiba mesmo, mas acho que eu posso escolher como interpretar também. – respirou fundo novamente, sem coragem de encará-la. Será que ela entenderia seu ponto de vista? – Tu também disse que com maior esforço era mais interessante... E por um tempo eu não saquei o sentido disso, mas acho que entendo hoje. Hãm... – limpou a garganta – Não quero que pense que eu aceitei essa distância facilmente, musinha. Mas eu preferi te esperar nessa loucura, porque depois eu descobri que era um teste.

Tália riu alto, mas forçou uma pausa ao ver o olhar de reprovação do canceriano.

– Desculpe...

– Ehh... Sou péssimo em fazer rodeios e tu não tá ajudando, Tália!

– Desculpe, sério! É que você fica adorável tentando fazer o que não sabe! – riu um pouco mais, porém, ao vê-lo incomodado, parou. Devagar, sentou ao lado dele. – Já percebeu que, quando está bravo comigo, é capaz de me chamar pelo nome?

– Já expliquei que não quero te ofender quando te chamo de musinha. – revirou os olhos, bufando.

– Não, não é isso que estou insinuando! Só que... Justamente esse fato me faz perceber que você não quer me ofender quando me chama de musinha.

Manigold virou o rosto para vê-la e sentiu o corpo estremecer ao se deparar com o doce sorriso da musa da comédia. Precisou desviar o rosto novamente para frente, completamente envergonhado. Teve sorte se Tália não o viu corado.

– Acabou, Manigold? – ela perguntou, após o período de silêncio mútuo.

– Não!

– Então continue.

– Muito bem. – Manigold se ajeitou no banco de forma que o corpo foi virado inteiramente para frente da musa, com as pernas pendendo uma para cada lado. Na face, o olhar sério foi apresentado: — Vai ficar comigo agora?

– O quê? – Tália quase pulou para trás. Encarou-o com incredulidade, procurando algum traço que denunciasse a brincadeira. Mas ele parecia falar seriamente.

– Disse que não ficaria comigo porque éramos muito jovens para o amor, mas dessa ladainha eu já abri mão e não vou aceitar mais. – aumentou um pouco a voz, olhando-a firmemente — Deixei você sozinha por um bom tempo e respeitei seu espaço como pediu. Aliás, eu escolhi interpretar dessa forma, Tália. Porque poderia ter te perseguido por esse Santuário inteiro e enchido o teu saco até tu ceder!

– Ceder o quê? – ela estreitou os olhos.

Manigold empalideceu.

– NÃO É ISSO! – negou freneticamente com as mãos. – Cacete, Tália! – juntou as duas mãos no rosto, tapando a provável vermelhidão. Sentiu-se um babaca, estava ferrando tudo. Quando recuperou a calma, inspirou e suspirou profundamente. – O que eu quero dizer é: já parei pra pensar e refletir e etc nas coisas que tu disse naquela vez, mas agora – voltou a olhá-la – quero que repense também. Não é justo que só eu faça isso!

– Você está falando e falando e não dizendo nada, Manigold.

– Eu já disse algo. Melhor, fiz uma pergunta e quem não falou a resposta foi você, musinha. Talvez tu me dê novas desculpas, mas eu preferia que não, que fosse sincera. – Manigold, sorrateiramente, encostou as mãos nas dela.

Tália percebeu a quase súplica dos olhos dele, mas...

– Tália, eu percebi uma coisa.

– Hum?

– Não faz sentido o que você disse sobre sermos muito jovens pro amor.

– Por quê?

– Porque, se fosse o caso, não sentiríamos isso tão cedo. O Universo não seria tão filho da puta de colocar um sentimento desses no mundo pra sentirmos logo cedo e não podermos usar... Sei lá, se é usar, mas enfim, tu entendeu... – revirou os olhos. Algo naquelas palavras o fazia sentir certo constrangimento, como se fossem palavras românticas demais para o contexto dos dois.

Tália trancou a respiração, porém Manigold não percebeu.

– Essa era minha desculpa mais sensata. – ela piou, baixo, sorrindo para si mesma.

– Sensata o cace-... Hãm... Não era sensata. – suavemente, apertou as mãos pequenas da musa. – Bom, o que vai fazer agora sem ela? Adquirir uma nova ou falar logo o que tem pra falar?

– Você já terminou? – Tália voltou a mirá-lo.

– Só depois que tiver minha resposta. Vai ficar comigo agora?

– Isso é muito amplo!

– GRRR, Tália! – Manigold rosnou, encarando-a com indignação, porém por pouco tempo, pois a viu rir graciosamente. Era efeito direto.

Dessa vez, quem respirou pesadamente foi a musa da comédia.

– Manigold... A resposta que você quer depende da vontade da sua pergunta. Essa sou eu sendo sincera.

– Então não é o bastante? – Manigold sentiu o nervosismo tomar conta do corpo. Quase sentiu a tontura de uma provável frustração. Um sentimento de medo, um medo diferente dos demais que sentira na vida.

O medo da rejeição.

Só que já havia sido rejeitado antes. Não por Tália, porém.

E Tália não respondeu.

– Argh... Tália, que merda! – levou as mãos no rosto, tapando os olhos, e baixou a cabeça. – Não gosto de definir o que eu sinto por você, mas – a angústia em sua voz era quase palpável – acredite que eu nunca senti algo tão forte por alguém. Cáspita! Isso é difícil!

Tália sentiu o coração apertar. Não valia mais o teste, já havia terminado. Ele nunca compreenderia, mas desde o momento em que ele estendeu a mão, ela percebeu a mudança. A diferença não se encontrava apenas nos atos, mas no olhar. Percebeu que, aos olhos dele, não era mais a mesma. Foi quase possível sentir a saudade de Manigold, bem como o quanto ele corroeu-a por dentro.

As diferenças não se limitaram a isso. A tentativa de fala do canceriano contou o tempo todo. Tália o procurou esperando não conseguir nem metade das palavras que ouviu, embora esperasse a mesma sinceridade de sempre. Ele levou-a a sério e se preocupou com o entendimento, certo ou errado, que estava causando – isso era extremamente importante.

Podia acreditar nele.

E, acima de tudo, ele procurou entendê-la. Tália o observou encolhido no banco. Talvez tenha passado do bom senso ao submetê-lo a tudo isso, mas foi necessário. Não poderia deixar um sentimento crescer se fosse para ser mal cuidado e embalado em completo desleixo. Precisava encontrar o carinho que sabia que ele sentia por ela.

Num rompante, tomou as mãos ásperas do canceriano e as puxou para si, fazendo-o acordar de seu momento melancólico. Ela nem arriscou perguntar o que tanto se passava na mente dele.

Vê-lo surpreso a fez sorrir.

– Promete que um dia vai ter coragem de admitir para si mesmo, em palavras, o que sente por mim? Porque eu meio que já sei... – Tália disse, num tom suave e doce, enquanto o observou com olhos ansiosos.

Manigold iniciou uma série de assentidas rápidas e firmes, mal acreditando. Duvidou imediatamente da própria interpretação do momento.

– Isso quer dizer algo a mais? – resolveu perguntar, aflito. Entretanto, ouvir o sonoro riso de Tália o acalmou.

– Não se perca sem mim, arbusto.

Num puxão impulsivo, Tália grudou os lábios nos dele e provocou o beijo recheado de saudade que ambos haviam guardado.

Manigold não conseguiu controlar as mãos. Precisou abraçá-la, envolvê-la, prendê-la nos braços para que nunca mais escapasse. Beijou-a com vontade, deixando a língua agir livremente, inspirada pela dela. Acariciou os cabelos macios e unicamente desarrumados e, enquanto matava a saudade da textura, deliciava-se com a sensação das carícias dela, que não foram poucas.

Tália, assim como ele, deixou as mãos explorarem as costas largas e tapadas pelo fino tecido da camisa de treino. Pôde sentir a barba mal feita roçar um pouco em seu queixo, bem como o desespero por manter as bocas juntas. Quis rir ao ver como a saudade do canceriano se expressava.

Por longos segundos, minutos, horas... Não contaram... Apenas mantiveram aquele momento tão saudoso e íntimo, do qual apenas eles tinham noção de tamanha necessidade. Nem pareciam duas figuras brincalhonas. Pareciam Tália e Manigold apenas. Era um lado que só eles conheciam entre si, que os definia.

Quando Tália se afastou, Manigold a puxou de volta, colocando-a em seu peito e afagando-a na cabeça.

Ficaram assim, em silêncio, contemplando o som da respiração um do outro. Sem pressa.

– Tália... – Manigold chamou baixo, recebendo um grunhido como resposta. – Quem é Hermione?

O canceriano tomou um susto quando a musa se afastou e o encarou divertidamente.

– Oh, é mesmo!

– O que é mesmo?

– Você a conheceu! – Tália riu, fazendo o canceriano se questionar seriamente em que piada interna estava se envolvendo. – Hermione é uma árvore.

– E o que ela tem de mais? Quando fui no seu vale, ouvi alguém falar esse nome.

– Ah sim, fui eu. – disse, normalmente. Já Manigold recebeu a informação com evidente surpresa.

– Impossível! Tu não tava lá comigo e foi enquanto eu tava cochilando, se não me engano. – coçou a cabeça.

– Eu estava sim, só que você não me viu. Escondi-me, na maior parte do tempo, em Hermione. Entenda como quiser! – Tália fez menção de se levantar, mas foi impedida pelos braços dele.

– Não, não. Explique isso direito!

– Que curioso!

Um curioso reconhece outro. – Manigold zombou, falando em falsete e revirando os olhos. Logo se arrependeu ao ver o olhar irônico e estreito da musa, que colocou as mãos na cintura.

– Você está com ciúmes?

– Claro que não, Dohko² não chega aos meus pés.

Assim que disse, quis se enfiar em algum buraco. Tália gargalhou enquanto ele mordeu a própria língua, com raiva.

– Tudo bem... – compadecida, ela o abraçou e se encostou novamente no peito. – Hermione é uma árvore que só é encontrada quando quer. Se você a encontrou, é porque é especial. Tenho uma forte ligação com ela, porque, em suas raízes, é onde escondo meu colar. Caso não saiba, meu colar é uma semente, por isso não ando com ele. Dei o nome de Hermione porque significa aquela que oculta. É basicamente isso! – com o indicador traçou um caminho aleatório na coxa do canceriano.

– Hum... Então você me viu dormindo, né? – sentiu Tália assentir. – Vou cobrar. – dessa vez, ela riu. – Hm... Dohko sabia disso?

– Só que meu colar era uma semente.

– Grrr... Por que eu não sabia disso?

– Nunca perguntou, ué. – deu de ombros.

– Se eu perguntar, vai responder?

– Se eu puder sim. Se tiver só a ver comigo e não com minhas irmãs...

Manigold a afastou apenas para encará-la de perto.

– Musinha... Vai ficar comigo agora?

Tália sorriu.

– Ótimo, porque vou cuidar de você a partir de agora.

~

Ela se espreguiçou, sentindo certa dor na região do baixo ventre. Deixou o corpo parado, procurando focar nas demais dores, mas nenhuma além daquela foi sentida. Deslizou os braços pelo sedoso lençol que envolvia o corpo, os cabelos, a cama e... Não o sentiu.

Mas ele deveria estar ali.

Calíope abriu os olhos. Abriu-os apenas para encontrar uma cama vazia e bagunçada, contemplada pela sombra que os relevos do tecido recebiam da janela aberta. Estava escuro já.

Estava escuro e Asmita não estava na cama. Aliás, ela não o sentia em lugar algum.

Levantou-se apressadamente e foi até o banheiro, onde, ironicamente, havia um espelho – por mais que o cavaleiro de virgem não tivesse motivos para tê-lo. Observou as madeixas ruivas emaranhadas, legítimas do ato que há pouco fizera, e o corpo com marcas onde fora tocada com mais força. Não que Asmita tenha sido bruto ou algo assim, mas a intensidade que os embalou Calíope nunca poderia calcular.

Pegou-se sentindo falta dele, pensou em procurá-lo, mas imaginou onde estaria, portanto se deitou novamente. Não havia sono ou cansaço, só uma mente que transitava entre os possíveis motivos para Asmita tê-la deixado ali e sumido.

Não quis admitir, mas sentiu um indício de dor no peito. E, sobretudo, sentiu-se desprotegida.

~

– Andem logo! – Tenma disse, dando um passo em direção à hostil cachoeira avermelhada que caía ferozmente. Sentia o chão tremer com a força da correnteza, a tal ponto que precisava se equilibrar duas vezes mais do que o normal. Os passos tinham se tornado mais firmes também.

– Minha nossa! – Yato verbalizou o pensamento dos três. – Então essa é a tal da cachoeira de sangue?

– Sim, a Cachoeira de Sangue se localiza entre o terceiro vale da Sexta Prisão. E o primeiro fosso da Sétima. – Yuzuriha informou.- Acredito que a grande árvore ali do alto seja uma das árvores gigantes que cresceu sugando sangue desde eras mitológicas. Mokurenji enraizada no Mundo dos Mortos.

– Certo. Já que é assim, vamos lá! – Tenma apressou. Estavam com pouco tempo e sem maiores ajudas. Contavam, principalmente, com a pouca informação acerca de o que tinham de fazer para saírem de lá. Tenma foi o primeiro a iniciar a escalada nas pedras da cachoeira, decidiu que depositaria toda força em cada passo, porém havia algo errado. – O que é isso? Essa cachoeira me faz sentir uma coisa estranha. Por que será? – continuou subindo e se esforçando arduamente, mas a falta de resposta o alarmou. – Yato! Yuzuriha! Vocês não sentem algo estranho aqui? – quando os viu, os dois estavam fenomenalmente congelados naquela subida. – O quê?!!!

Como se o tempo tivesse, repentinamente, parado, Yato e Yuzuriha se encontravam parados.

Ah. Pensei que fosse outro habitante do Mundo dos Mortos ou um espectro desgarrado.

A voz suave trocou as preocupações de Tenma, que incessantemente passou a procurar pelo dono. E este rapidamente se revelou dentro de uma espécie de bolha transparente que emergiu da cachoeira.

Eu sou Asmita de Virgem.

Notas finais
¹ Uma fala engraçadíssima que aparece várias vezes na comédia "As Rãs" do dramaturgo grego Aristófanes. Ele é ótimo, leiam tudo dele!!! ² Manigold fala sobre a vez em que ele viu Dohko falar isso para Tália e ficou com a impressão de que os dois tinham uma piada interna - ele estava certo eheheh Pois é, cap com altos e baixos! Peço perdão pelos erros cometidos, não revisei muito bem, pois finalizei o cap e postei direto, mas pretendo revisar amanhã! E ah, SE ALGUÉM TIVER UM BETA PRA INDICAR, PFVR, EU ADORARIA =D Um beijo e espero o feedback de vocês!