EmMusas - The Lost Canvas
58 Cortejo de Flores
Notas iniciais
Capítulo 58
Eu falhei com você...
– Melpomene! – Clio chamou assim que viu a musa da tragédia virar o corpo e correr direção contrária.
Clio chegou a se inclinar para seguir a irmã, porém foi detida por um capricorniano visivelmente preocupado.
– El Cid, por favor, solte-me, preciso buscar a minha irmã.
– Não haverá êxito nisso, Clio. Não posso deixar que vá, posso pedir para que Degél a traga de volta, mas agora precisamos voltar para as Doze Casas. – impassível, El Cid a puxou levemente.
– Degél já deve ter subido! Precisamos pegar Melpomene! – Clio puxou o braço novamente, mas El Cid não deixou que se soltasse.
– Clio – arrumou-a para frente de si -, é mais arriscado se for procurá-la por aqui. Perder-se na vila é fácil quando não há total conhecimento das ruas. – o capricorniano disse, com evidente seriedade. – Preciso voltar para minha casa e tenho ordens de levá-las sempre que houver algum risco, portanto me siga.
– Oh, sim... – Clio logo entendeu. Ficou um pouco constrangida por não ter compreendido de primeira. Era óbvio que os cavaleiros de ouro deveriam voltar e defender suas casas em momentos como esses.
– Mas se vocês têm ordem de nos proteger, então Melpomene está incluída nisso, não é? – Erato questionou.
– Há cavaleiros de prata vindo para cá. – foi a única frase dita antes que voltassem a caminhar em direção às Doze Casas.
Apesar de seguro, El Cid não conseguia deixar de pensar nos cosmos sumidos de certos cavaleiros de prata que já estavam nos arredores da Vila. Se estivessem mortos, seria um grande problema. Se estivessem mortos, significaria que o nível de combate dos espectros era igual ou superior aos da patente prateada. Mas ainda assim uma esmagadora parte dos espectros morreria apenas por respirar a fragrância do Jardim de Rosas Venenosas que Albafica criou na entrada do Santuário.
Era com isso que estava contando...
~
Um gosto de cinzas se apossou de sua garganta a tal ponto que a vontade de vomitar cresceu. Estranhamente, sua respiração não estava tão acelerada, mas completamente difícil de ser processada. Mel estava tendo dificuldades em respirar, e nenhum motivo parecia concreto. Apenas algumas pontadas no peito informavam de sua preocupação. Tinha disso sempre. Costumava sentir dores em lugares diferentes do corpo quando se preocupava demais. E, somado a esse sentimento, uma agonia colossal perturbava seu espírito.
E ela aumentou a velocidade, até chegar novamente na praça.
Antes de seguir, observou aquele espaço conhecido, à procura de algum caminho. Como não conhecia a vila direito, teria de seguir a intuição divina, porém nada estava fácil, considerando a ansiedade.
Uma lágrima se formou em seu olho esquerdo, causando um grande incômodo. Não podia chorar. Se chorasse, significaria algo sério. Sempre que chorava, algo ruim acontecia. E controlar esse choro inesperado era tão impossível quanto pegar ar com as mãos. Impossível. Mel odiava as impossibilidades.
O choro da Musa da Tragédia — era assim que denominavam o fenômeno quando iam louvá-la no templo e caíam direto para algo ruim. Não que fosse culpada por todas as tragédias do mundo. Não, não era isso. Mas ela atraía esse tipo de coisa – e gostava, embora fosse praticamente a única. Por isso, sempre foi sozinha. Por isso, nunca fez questão de se aproximar das pessoas. Por isso, apaixonou-se pelo Cavaleiro de Ouro de Peixes.
Não, por isso e muito mais.
Mel deu de ombros. A espera já lhe sufocava a alma, por isso não tardou em sortear um caminho impulsivamente, adentrando uma rua estreita e passando por um arco de pedras. Ainda havia gente nas ruas; provavelmente, as pessoas esperavam algo mais alarmente acontecer, para então levarem o conselho de Degél à sério. Mas Mel não fez questão de confirmar.
Seu coração parou assim que avistou, de longe, uma rosa vermelha. Instantaneamente, sorriu. Já tinha constatado que nunca mais veria uma rosa da mesma forma após ter conhecido Albafica. Mas o efeito parecia se potencializar quando se deparava com uma, ainda mais quando reconhecia o dono.
E aquela rosa que ela mirava, com certeza, tinha sido criada por Albafica.
Só que não estava com ela, e sim com a menina que encontrou mais cedo na praça. Agathia?
Novamente, seu coração se apertou.
– Oh, olá! – a menina disse, timidamente, acenando com a mão e oferecendo um sorriso corado.
– O-oi. – Mel respondeu, sem ânimo. Não entendia o motivo de ficar tão desconfortável na presença da menina.
– Você estava com a senhorita Clio. Por acaso é uma musa também?
– Sim. Eu sou – Mel quase disse sua representação, mas parou. Pela primeira vez, teve total vergonha de informar sobre isso. — Melpomene.
Mel também reconheceu outro medo nesse momento: o de ser julgada como inspiradora desse momento indesejável. Teve medo de que, se informasse sua representação, os moradores da vila a acusassem de atrair os espectros. Poderia muito bem acontecer, de fato; afinal, havia passado por algo parecido no passado, com Tália.
– Posso perguntar de qu... Oh! – Agathia exclamou, arregalando os olhos em evidente terror. Mel imediatamente virou o rosto para acompanhá-la.
Uma nuvem roxa crescia perto da Vila, na direção Sul.
– Albafica. – as duas sussurraram, ao mesmo tempo.
Em confusão, viraram-se uma para a outra.
Antes que pudesse perguntar à menina, Mel sentiu o peito doer ainda mais, como se uma faca estivesse adentrando-o lenta e profundamente. Um grito interior também subiu até sua garganta, porém não foi liberado. A visão turva impediu que prestasse atenção em todas as mudanças do corpo. O arrepio que sentiu na espinha também procurou espaço nessa preocupação, mas Mel não conseguiu organizar todos os sinais do corpo, pois logo caiu de joelhos, procurando força.
– Senhorita Melpomene? – Agathia se ajoelhou em seguida. Sentiu-se péssima por ter de dividir atenção entre duas preocupações; a nuvem roxa e a musa.
– Agathia, saia daqui... Volte para sua casa e fique segura... – Mel disse, pausadamente, cabisbaixa. – Me obedeça, por favor...
Mel viu a menina hesitar intensamente. Imaginou que não conseguiria ser levada à sério, afinal nem se conheciam, mas tinha de tirar a menina dali de qualquer jeito. Se tivesse de usar a parangelía... Não, não poderia. O caso ainda não era extremo.
Mas ela sentia presenças obscuras por perto.
– Agathia, vá para casa agora!
– Venha comigo, Melpomene. – a menina pediu, bondosamente. Mel sentiu agonia ao ver que a menina não estava entendendo a situação. – O senhor Albafica irá nos proteger, não se preocupe. E venha comigo, pode ficar lá em casa conosco. Só não fique aqui, você não parece muito bem.
Mel sentiu vontade de chorar ao ver tamanha fé que a pequena menina tinha para com seu amado cavaleiro. Era bonito de ver, era inspirador e, sobretudo, raro. Um amor infantil. Agathia nutria sentimentos por Albafica, agora podia ver. Reconheceu o brilho nos olhos da menina, pois era um brilho que sempre esteve presente nos seus.
– É... Você está certa... Ele irá nos proteger sim... – Mel disse, alimentando um pequeno sorriso.
~
– Marionete Cósmica! – Minos exclamou, completamente satisfeito.
Embora estivesse preso no golpe do juiz, Albafica não desanimou. Se deixasse a tensão tomar conte de si, nunca conseguiria se concentrar o bastante para sair dessa, ainda mais após constatar que teria de encontrar alguma estratégia para ferir o inimigo. Minos parecia astuto em todos os movimentos.
Entretanto, uma enorme angústia pedia para ser liberada no interior do pisciano, que de forma alguma esperava que o juiz fosse devastar seu caminho de rosas venenosas tão facilmente, apenas com o bater de asas. E a parte difícil estava justamente nesse detalhe crucial: como defender o restante do caminho e não deixar que os espectros atravessassem?
Derrotar o espectro Niobe foi perspectivamente fácil, porém o Juiz do Inferno era altamente superior.
– Agora que está sob meu controle, você não consegue mover um único dedo por vontade própria. Todos aqueles que são controlados por meus fios invisíveis tornam-se minhas leais marionetes. Nem mesmo um cavaleiro de ouro como você é exceção – Minos disse, sorrindo com sagacidade.
Albafica observou, com raiva, os espectros rirem e comemorarem a superioridade do juiz. Quase riu ao constatar a merda que eram. Não teriam coragem de lhe enfrentar. Espectros.
– O que estão esperando? Avancem! – Minos ordenou, impacientemente.
– Esperem! – Albafica gritou, inutilmente. Dessa vez, não se importou pelo grito ter saído com todo o desespero acumulado. Não podia deixar que passassem e seguissem por ali, senão...
– Acabo de me lembrar de uma coisa. – o juiz retomou a fala, ignorando Albafica falsamente. — Agora a pouco, você absorveu toda a Fragrância Profunda de Niobe para evitar que o veneno se espalhasse para além daqui, não é? E sei que há uma pequena vila nos arredores do Santuário. Isso é interessante. – disse, num tom provocador, adorando ver o terror expressado nos olhos do cavaleiro de peixes. — Antes de atacarmos o Santuário, vamos nos divertir um pouco. Matem todos os habitantes do vilarejo!
– Esperem!!! — novamente gritou, deixando todo o desespero exalar da garganta. Instintivamente, tentou seguir os espectros, mas só se percebeu no chão segundos depois. Agora se lembrava de que estava sendo manipulado...
...Eu falhei com você...
~
Mel e Agathia não demoraram muito em chegar à casa da segunda, que fez questão de apresentar a musa a seu pai. E, embora fosse mais seguro permanecer ali, Mel, sorrateiramente, pôs-se para fora da casa e seguiu, com pressa, a direção que havia feito. Foi um enorme atraso ter encontrado Agathia, mas agradeceu por ter feito a menina voltar para casa.
Não estava preocupada com a exaustão que se apossava do corpo, bem como não conseguia pensar em nada além de sua necessidade em encontrar urgentemente Albafica e conferir que estava bem, inteiro. A cada pensamento sobre ele, a aflição aumentava em seu peito, dificultando em demasia a correria até o próximo arco.
– Ouch! – exclamou ao se chocar com algo. Não teve tempo de cair no chão, pois foi pega delicadamente por uma mão firme. Ao abrir os olhos, viu a proteção dourada na mão que a pegou. Seu coração imediatamente acelerou com a possibilidade de ser Albafica, porém isso se quebrou assim que se deparou com o rosto do ariano.
– Finalmente te achei. – Shion disse, normalmente.
Mel puxou a mão agressivamente. Já imaginava o motivo de ter sido procurada e, com certeza, não deixaria que a levasse.
– Não vou subir. Preciso encontrar Albafica. Preciso saber se ele está bem. – logo informou, com a voz mais firme que conseguiu. Estava trêmula, insegura e desconfiada, tudo convergindo para que seu humor mudasse.
Shion a observou silenciosamente, procurando abertura para lê-la, porém já imaginava a dificuldade. Ela era um ser divino, possuía uma barreira, diferentemente dos humanos.
Mas não era necessário que ela se abrisse para ser lida, pois as intenções de seu coração estavam estampadas em sua cara.
– Eu entendo. – Shion respirou fundo. – Mas compreenda que é inútil correr atrás de Albafica.
– O quê? – Mel não deixou de se sentir um pouco ofendida.
– Não estou dizendo que não é capaz de ajudar. Sei que é, mas seria inútil, pois Albafica não aceitaria sua ajuda. Nunca permitiria que você corresse riscos, Melpomene. Se encontrá-lo, só fará com que as coisas se tornem mais difíceis para ele.
– Claro que não, vou encontrá-lo para ajudá-lo. Não me importo com o risco! – Mel disse, visivelmente agitada.
– A questão não é você, senhorita. E sim ele. – Shion rapidamente respondeu. — Albafica não lutará direito se você estiver lá. Como cavaleiro, sei que quando queremos proteger alguém, conseguimos encontrar mais forças em nosso cosmo, porém temos de dividir a atenção no momento da luta porque nunca sabemos o nível de estratégia do inimigo. E você – fitou-a intensamente – pode ser usada contra Albafica, no meio de uma luta.
Mel estremeceu com as palavras. Nunca se deixaria ser usada contra seu amado. Isso era indiscutivelmente impossível. Inaceitável.
– Lembre-se, cavaleiro, de que não sou humana. – revidou, igualmente séria. Por alguns minutos, ambos se encararam.
– Melpomene. – Shion engrossou a voz. Estava ficando impaciente com a falta de compreensão da musa. Se ela ao menos tivesse a boa vontade de entender aquele lado, seria mais fácil, mas era óbvio que ela estava presa a uma vontade só e nada inclinada a ouvi-lo. – Serei franco: Albafica está ferido e provavelmente sangrando. – pausou a fala assim que a viu se encolher com a última palavra, e respirou fundo. – Acredito que saiba que o sangue dele é venenoso e altamente mortal – a musa assentiu -, portanto você não resistiria ao veneno se tivesse contato com ele. Será que agora consegue compreender?
E então Mel compreendeu. Compreendeu tudo.
– Oh, sim! – exclamou. – Perdoe-me, cavaleiro. Você está certo. Voltarei para o Templo do Grande Mestre imediatamente. Não precisa me acompanhar.
Shion não teve tempo de responder a aceitação da musa, mas se sentiu satisfeito parcialmente. Ela finalmente estava voltando para as doze casas. Entretanto, não deixou de notar que algo na fala de Mel cheirava a enganação...
Antes que pudesse pensar mais a fundo, ouviu uma enorme explosão, próximo dali. Já era possível sentir os cosmos negros dos espectros, mas um em especial era ainda mais ameaçador e imponente; altamente poderoso e intenso. As trevas que emanavam de tal cosmo eram quase tangíveis, Shion pensou. Eram ondas que se propagavam para aterrorizar e chamar aqueles ousados que as desafiassem. E Shion era um deles.
Dirigiu-se o mais rápido possível até a estreita rua de onde a concentração maior de cosmo maligno vinha e o encontrou. Ali estava o juiz, pronto para dar o golpe numa pequena menina aterrorizada. Alguns escombros se encontravam mais atrás dela, porém não pareciam tê-la atingido, pois ela mostrava-se intacta – exceto pelo pavor estampado na face.
Shion, num rápido movimento, colocou-se entre ela e o juiz. Felizmente, conseguiu protegê-la e não danificar a armadura de ouro. Provavelmente, o juiz investiu pouca força no golpe, já que se tratava de uma pequena menina. Ainda assim, Shion não deixou de reparar na intensidade da força.
– Eu darei um jeito nele. – o ariano disse, sem olhar para Agathia atrás de si. – Fuja logo daqui.
~
A cada passo, Mel sentia o corpo fraquejar, como se estivesse alertando-a que em breve vacilaria definitivamente. Por ter subido as doze casas com uma pressa incomum, já esperava esse tipo de resposta do próprio corpo, mas não daria atenção – era o menor de seus problemas naquele instante. A verdade era que, contanto que conseguisse o que queria, não se importava com lesões e machucados. Contanto que conseguisse chegar no quarto...
E chegou, sem se deparar com ninguém no caminho. Agradeceu ao Universo por ter passado facilmente por todas as casas zodiacais – cuja esmagadora maioria continha protetor presente. Agradeceu mais ainda por não ter sido questionada quanto à pressa; caso contrário, poderia levantar suspeitas.
E ainda teria de arranjar uma desculpa para descer depois.
Mel bufou, descontente. Provavelmente não a deixariam passar pelas casas facilmente. Todos os cavaleiros estavam firmemente postos e completamente atentos a todas as movimentações que se apresentavam em suas casas – exceto por Áries e Peixes.
Passar pela décima segunda casa foi doloroso. Vê-la vazia e fria, sem o protetor, foi estranho. Albafica devia estar ali, seguro e protegido, assegurando e protegendo. Não lá fora, correndo mais riscos que os demais. Era assim que Mel pensava.
Assim que fechou a porta do quarto que dividia com Tália, dirigiu-se imediatamente até a última gaveta de seu canto do armário e a abriu até removê-la. Nela, guardava suas peças íntimas, alguns lenços de seda e a caixinha que havia ganhado de Redka. Retirou o último item e o abriu apreensivamente. Como o esperado, só havia um frasco de elixir cheio e intocado.
(Flashback On)
– Oh, melhor do que esperava! – Mel exclamou.
– E lembre-se: cada elixir contém uma quantidade certa de álcool, então cuidado no consumo.
– Certo, certo. – abriu a caixinha e viu uma porção de vidrinhos coloridos, acabou sorrindo. – De que tanto você fez?
– Antúrio, Hortênsia... – Redka se aproximou para ver os vidrinhos. – Hmmm, Narciso e esse aqui – ela apontou para um vidrinho maior de conteúdo claro, quase transparente. – é de Acácia.
– Só um? – Mel estranhou.
– Sim, só um. Essa flor é tremendamente perigosa. Uma assassina profissional. Tive um problema maior com ela devido à liberação do gás venenoso. Foi... Assustador. – Redka estremeceu só de lembrar. – Mel, só tome se for muito necessário. Uma dose desse elixir, especificamente, equivale a umas seis de Antúrio. Além disso, seus efeitos devem ser muito mais intensos e agravantes, então tome muito cuidado.
(Flashback OFF)
Mel pegou o vidro e o fitou, como se o desafiasse, como se implorasse para que o efeito funcionasse. Finalmente tinha encontrado um motivo para bebê-lo e assim o faria. Não sentia medo dos efeitos colaterais, não sentia pavor da sensação ruim que poderia ter, não sentia tensão por estar prestes a tomar algo totalmente desconhecido. Para qualquer coisa que possibilitasse sua ajuda, tomaria a coragem necessária. Afinal, era tudo em prol de seu homem. Não podia desistir.
Albafica não desistiria.
– Não vou falhar com você. – Mel, com cuidado, removeu a tampa do frasco e encostou a abertura na boca. Sem medo, virou todo o conteúdo, até sentir a garganta arder insuportavelmente. Só pôde ouvir o barulho do vidro quebrando antes de desmaiar.
~
– Ora, ora, achei que fosse dar um jeito nisso, cavaleiro de Áries. – Minos debochou, enquanto controlava sadicamente o corpo de Shion, com o golpe de Marionete Cósmica.
Agathia não tinha fugido, mantinha-se como observadora daquele show de horrores, sem encontrar forças para se mover dali. Esqueceu-se completamente de que tinha de sobreviver àquele ataque na vila. Em sua mente, questionamentos preenchiam os espaços sãos, fazendo-a sentir uma dor absurda por ver os santos protetores sofrendo. Não viu Albafica, mas quase pôde sentir sua dor. Na verdade, sentia desde sempre; desde que descobrira o motivo por trás daquela solidão.
Era uma vida injusta demais para os guerreiros que defendiam o amor e a paz na Terra.
Para piorar o desespero da menina, uma névoa branca subiu atrás dela e um aroma de rosas se espalhou pelo ambiente. Esperançosamente, Agathia se virou.
Lá estava ele, belo e temível como sempre, com uma rosa vermelha na boca e olhar furioso no inimigo.
E muito sangue escorrendo pelas aberturas da armadura...
~
Poucos minutos se passaram desde que Mel desmaiara, porém foi o bastante para que seu coração se desesperasse. Todo desperdício de tempo era imperdoável.
Mel tentou se levantar, mas vacilou devido ao peso que seu corpo, repentinamente, adquiriu. Pôde sentir o cosmo ofuscando, repleto de veneno, mas não desistiu. Se tivesse de lutar com esse cosmo, que assim fosse. E nele procuraria forças para levantar. Tiraria vontade de todos os fiapos de esperança que encontrasse. Queria lutar ao lado de seu amado cavaleiro custasse o que custasse. Queria protegê-lo, queria vê-lo e dizer a ele, mais uma vez, o quanto o amava.
Em questão de segundos, sentiu um alívio maior por conta da força cósmica que encontrou. Não deixou de sorrir, emocionada. A esperança havia aumentado por conta disso, bem como a expectativa de salvar Albafica, cujo cosmo vacilava a cada instante – ela sentia. Procurava não se desesperar por esse detalhe, senão não conseguiria realizar façanha alguma.
Assim que se recuperou um pouco do cansaço, pôs-se a correr novamente pelo Templo, em direção à saída. Ouviu o nome ser chamado por uma das irmãs, mas não se virou para responder, ignorou por completo e sem culpa. Elas não entenderiam...
Achar a saída foi fácil, difícil foi passar novamente pela Casa de Peixes sem liberar as lágrimas. O espaço trazia memórias demais, boas e ruins, e todas alimentavam o sentimento de dor em Mel, que acabou apertando o passo para seguir logo.
Ao chegar em Aquário, deparou-se com o cavaleiro visivelmente espantado por vê-la novamente.
– Degél, nem ouse me impedir. – Mel logo o cortou.
– Não posso deixar que passe.
– Pode sim, pode e deve. Já me desgraçou o bastante. Agora saia. – ameaçou, aumentando gradualmente o cosmo. Não se importaria se tivesse que lutar com ele para passar.
– Hunf. Guarda rancor. Não compreende que é para o seu próprio bem, senhorita? – Degél não mudou a postura, embora sentisse a ameaça.
– Está me obrigando a ficar aqui? A outra forma que tenho para passar é lutando com você, não? – Mel jogou, e ficou feliz ao ver uma ruga sutil aparecer entre as excêntricas sobrancelhas do aquariano. – Pois bem, lutarei então. E não pegarei leve, porque estou com pressa. Muito embora eu ache que Athena não vá gostar de saber disso. Lembro que ela nos deu passagem livre.
– E também pediu que acompanhássemos vocês nas saídas. Como pode ver, o Santuário está sob ameaça, principalmente Athena, portanto não podemos sair das Casas Zodiacais.
– O cavaleiro de Áries saiu. – a musa contra-argumentou, seriamente.
– Porque foi necessário. – Degél engoliu seco. Quase deixou escapar a situação de Albafica. Já havia sido informado por Shion, através da telepatia. Com certeza, a musa se desesperaria.
No entanto, Mel compreendeu a gravidade por trás da simples frase.
– Degél, me deixe passar. Me deixe passar agora. – pediu, enfatizando as palavras com sua raiva.
Degél analisou profundamente o semblante triste de Melpomene. No fim, teria de deixá-la passar, senão poderia viver o resto dos dias com culpa.
Para a surpresa de Mel, o cavaleiro nada disse, limitando-se apenas a dar espaço para que ela passasse – algo que foi mais como um gesto. Ela não agradeceu, porém; se tivesse sido necessário, teria empurrado o aquariano sem culpa alguma. Era cosmicamente forte o suficiente para isso.
~
... Eu falhei com você...
– Eu ainda posso lutar. – Albafica disse, em baixo tom, para Shion.
Minos ficou perplexo ao vê-lo vivo diante de seus olhos. Não era possível! Tinha certeza de que tinha estraçalhado todos os ossos do cavaleiro de peixes.
– Mas aproveitando, gostaria de lhe pedir um favor. – o pisciano disse, ainda para o ariano. – Não deixe ninguém, além do nosso inimigo, se aproximar de mim. – em seguida, colocou a rosa novamente entre os dentes e mirou o juiz.
Em pensamentos, Minos não deixou de se perguntar o que alimentava tanta força de vontade no cavaleiro de peixes. Mas vacilou na provocação:
– Estou espantado em ver que ainda está vivo. Teria sido um fim muito mais digno se tivesse morrido naquele momento. Pode me enfrentar quantas vezes quiser. Quem não tem poder acaba tendo de se submeter aos mais poderosos, mas me corta o coração ver uma figura tão bela como a sua ficar coberta de sangue e lama. – fez uma breve pausa, para então sorrir e dizer: — Pode ir embora. Eu permito.
– Escute-me, Minos. – Albafica o mirou seriamente. — Até hoje, vivi odiando meu sangue e me distanciado dos outros por causa dele. – inevitavelmente, pensou em Melpomene, mas logo distanciou. Se seguisse esse rumo, poderia se distrair com a dor de tê-la longe. — Tanto faz se sou belo ou feio. Certamente eu me comportaria do mesmo jeito, independente de meu rosto. — uma luz rosada brilhou em sua mão direita, indicando a concentração de seu seguinte poder. — Toda vez que alguém fala em minha beleza da forma como você o faz, só acaba ferindo meu orgulho. — levantou o braço direito lentamente. Podia sentir o poder fluindo cada vez mais, em harmonia com sua força interior. — O que você sabe a meu respeito para se sentir no direito de me classificar e julgar? — abriu os olhos com toda a vontade de fuzilar o inimigo. — Você ainda não conhece todo meu poder, meu cosmo ou minha vida! Ainda não mostrei tudo de que sou capaz!
Os olhos do juiz brilharam.
– Então me mostre! Quero ver tudo! — Minos sorriu louca e completamente empolgado com o desafio. Agora acabaria de vez com o cavaleiro de peixes.
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Passar pelas casas de Capricórnio e Sagitário foi inesperadamente difícil, pois os dois protetores a acharam demasiadamente insana por querer ir até onde Albafica estava. Mel levou um bom tempo com os dois e, no fim, não precisou convencê-los com argumentos, pois, repentinamente, mudaram de opinião, como se tivessem compreendido algo que ela não compreendeu.
Mel não os questionou, porém. Não tinha tempo para isso.
Na de Escorpião, Kárdia não foi contra, mas tentou convencê-la a não ir, assim como Dohko, em Libra. Os dois a deixaram passar, mas tentaram argumentar até perceberem que Mel estava inteiramente fechada para os que se opunham.
Em Virgem, não foi com Asmita que Mel argumentou, e sim com uma furiosa Calíope que jogou em sua cara o quão irresponsável e louca era.
Pelo visto, a musa ruiva só se posicionou porque não quis atrapalhar Asmita em meio à patrulha. Já que se mudou para lá, passou a compartilhar certas funções em prol da concentração máxima do virginiano. No entanto, não conseguiu impedir Mel, pois, no momento em que a tocou no braço, sentiu a mão queimar com o veneno que dali emanava. Calíope já tinha percebido o cosmo desconexo de Mel, porém não imaginou que pudesse se ferir com ele. Infelizmente, chegou a cair no chão ao se afastar, dando espaço para que a irmã mais nova escapasse. De qualquer forma, não poderia impedir que Mel fosse...
Régulus não demonstrou muito posicionamento quanto à passagem de Mel. Pensou logo que, se os demais haviam deixado a musa passar, então não havia problema em fazer o mesmo – ainda mais após ver a agonia estampada nos olhos dela, como se implorasse.
Felizmente, a próxima seria fácil de passar, pois ela tinha certeza de que Manigold entenderia. E assim que adentrou, emanou o cosmo para ser reconhecida, e continuou correndo em direção à saída. Porém viu o protetor bem à frente, de braços cruzados e cara amarrada:
– Não vou te deixar passar por aqui, Melpomene.
~
Minos abriu as asas, após perceber que a chuva de espinhos havia acabado, e observou Albafica cair de joelhos diante de si, quase que inteiramente acabado. Precisou sorrir ao constatar o óbvio: havia ganhado novamente.
– Você já não tem mais forças para continuar, Albafica. — disse, em seu melhor tom de desprezo, para logo mirar o outro cavaleiro. — Meu próximo adversário será você, Áries?
Shion, que protegia Agathia com o corpo e a capa, rapidamente se levantou, fitando o juiz normalmente.
– Não, Minos. Não vejo motivos para enfrentar alguém que já está prestes a morrer.
– O quê? — Minos não entendeu. Quase revidou sarcasticamente, como faria, mas sentiu um leve rastro úmido se estender pela lateral de sua boca, perdendo-se em seu queixo.
Sangue.
– Olhe para seu peito. — Shion disse. — Você subestimou o orgulho e a tenacidade de Albafica.
No coração do juiz, se encontrava a Rosa Branca que Albafica estrategicamente lançou, em meio à chuva de espinhos demoníacos. A Rosa Branca que rapidamente se tornou vermelha. A Rosa Branca que deu a sentença de morte de Minos de Griffon.
... Eu falhei com você...
~
Mel parou, piscou os olhos lentamente, mordeu o lábio como um tique, inspirou fundo e negou com a cabeça. Para ela, nada fez sentido quando Manigold se colocou entre ela e a saída da Casa de Câncer. Ele estava brincando?
– Espero que esteja fazendo graça, como sempre. Embora não seja o melhor momento. – Mel alertou.
– Não dessa vez. – respondeu, apertando mais os braços cruzados.
– M-Manigold... – olhou-o, incredulamente. – Você não pode fazer isso comigo...
– Posso e vou. Nem a pau que vou deixar você sair daqui pra se prejudicar lá fora. Primeiro porque eu me preocuparia demais. Segundo porque Tália ia me matar com certeza. – Manigold fez um leve bico de insatisfação só de pensar na ideia. – Você devia levar a preocupação dela à sério.
– Isso não tem nada a ver com Tália. Quero que me apoie da mesma forma que lhe apoiei antes!
– Antes ninguém estava prestes a morrer! – Manigold gritou, abrindo os braços e deixando escapar a pior das frases que poderia falar. Como punição, mordeu o lábio com força, arrependendo-se. – Melpomene, essa guerra não é brincadeira.
Mel quase riu ao ouvir isso dele, a pessoa que menos levava a Guerra Santa à sério – pelo menos, era o que parecia.
– Eu sei que não é, por isso mesmo quero ir. Você não me conhece o suficiente pra compreender meus princípios, Manigold. Se me julga pela minha representação, então está equivocado. Se acha que vou lá por me inspirar em tragédias, está redondamente enganado. – Mel explanou, cabisbaixa. – Na verdade, meu único motivo por ir até lá... Já está lá...
Manigold sentiu o peito doer com aquelas palavras, mas não vacilou no semblante, mesmo que tenha se aproximado um pouco mais de Mel. Rapidamente, sentiu a presença destacada do veneno no cosmo dela.
– Arghh... – o canceriano levou as duas mãos até o rosto e as desceu, entortando as bochechas numa careta. Mas que droga. Ela já estava física e psicologicamente convencida de que queria ir, então como poderia convencê-la sem se prejudicar?
– Manigold, você não tentaria proteger Tália?
– Claro que sim. – respondeu de imediato, até surpreso com a pergunta.
– É só isso que estou tentando fazer.
– Mas você... Mas você é uma... Argh! Cáspita! – reclamou consigo.
– Sou uma mulher? Sou, mas também sou uma Musa e, acima de tudo, uma apaixonada e inspirada pelo amor. – Mel disse, da forma mais romântica que encontrou. Falou verdades, porém a calma com que falou não era verdadeira. Estava mais do que com pressa e agoniada. – Além disso, se não me deixar passar... Eu voltarei para o templo do Grande Mestre e convencerei Tália a... Não lhe dar chance alguma...
Para a surpresa de Mel, Manigold gargalhou alto.
– Não precisa fazer isso... – ele disse, coçando atrás do pescoço. – Eu já te prometi que vou investir nela... – em seguida, encarou Mel com ternura. – Vocês, musas, são traiçoeiras demais. Eh... Parecem tão sensíveis, mas são mais fortes do que muitos caras por aí.
– Então...? – Mel o observou virar de costas e seguir para a ala privada.
– Pode passar. – antes de entrar, Manigold se virou e acenou rapidamente com a mão esquerda. – Se eu sentir que está sofrendo, vou lá te buscar.
Mel conteve a emoção por pura necessidade de continuar correndo, mas adoraria ter abraçado o canceriano. Inesperadamente, sentiu que uma cumplicidade passou a existir entre eles – o que talvez tenha o feito pará-la, bem como deixá-la passar. Tudo não passou de uma demonstração de amizade.
Na Casa de Gêmeos, Mel passou com uma velocidade reduzida, pois não sabia o que podia encontrar, mas logo viu o protetor parado na saída da casa, com um semblante indefinido. Ele nada disse, apenas a observou passar, e ela agradeceu silenciosamente.
Com Hasgard, não houve muito desafio, muito embora ela tenha sido julgada pelos olhos gentis do taurino. Ele apenas a olhou de forma pesarosa – algo que definitivamente deixou Mel preocupada.
Já estou chegando, meu amor... – Mel pensou, completamente imersa em sua força de vontade. Quase podia dizer que estava cega paga o restante das coisas existentes no mundo. A única que importava era Albafica.
Faltava apenas uma casa...
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Eu sempre vivi junto dessas rosas venenosas, mas esta é a primeira vez em minha vida que as achei belas...
Perdoe-me...
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Mel já podia sentir o ar fresco do corredor da Casa de Áries, já podia sentir o Salão Principal da casa, bem como a saída... Em breve encontraria Albafica...
E ela estava certa. Em segundos o encontrou.
Segundo que pareceram minutos, horas, dias, meses... Segundo que pararam no tempo. Pés num chão inexistente, que pareceu abandoná-la para que caísse. Não existia mais chão ali, só um mar de agonias e desesperos. Um mar que parecia vermelho, sangue. Mas era apenas uma pequena poça próxima aos pés do cavaleiro de Áries.
O que o cavaleiro de Áries estava fazendo ali? E por que carregava um corpo? – Eram perguntas que Mel procurava responder em sua mente.
Não estava entendendo aquela cena. Aliás, aquela ilusão, porque não era verdade. Mesmo que não sentisse mais o cosmo de Albafica, aquela cena não existia. Era impossível.
Shion não poderia estar segurando Albafica nos braços. Muito menos Albafica estaria desacordado, ensanguentado e morto.
Mas estava.
E a realidade bateu para ela, como se tivessem cortado o último fio de esperança, sem dó algum, deixando sua alma no escuro.
O grito que estava sufocado em sua garganta desde o início foi finalmente solto, despejando todo o desespero para fora. O desespero que ela, no fundo, sabia que teria.
– ALBAFICA
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Eu falhei com você... Nunca sentirei tanta vergonha por tê-la afastado de mim no início, quando você mostrou que nós éramos possíveis, e no final, quando você chorou. O simples fato de me amar devia me ter feito enxergar o mesmo que você... Mas fui tolo e preferi acreditar no que via em vez de no que sentia.
Melpomene, jamais me esquecerei de você, a musa que me fez renascer. Onde quer que eu esteja, guardarei o sabor do seu beijo e o calor do seu corpo.
Não lutei para morrer, minha querida. Lutei para que outros tivessem o que você me mostrou de mais bonito no mundo. Por sua causa, encontrei o sentido por trás de minha missão.
Peço que me perdoe por partir tão cedo, mas estou feliz por ter cumprido meu papel e por ter tido a oportunidade de lhe conhecer, mesmo que minha teimosia tenha encurtado nosso tempo juntos.
Nada mudará a verdade do amor que sinto por você, e me alegra saber que sentirá minha falta, só peço para que não se deixe abalar por essa fatalidade, por mais que seja sua representação, você não me trouxe tragédia alguma, pelo contrário. Melpomene...
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