Notas iniciais
Olá, queridxs leitorxs! Uau, hein, que chororô no cap. anterior, não? Sinceramente, até eu fiquei meio assim depois que li todo ele de novo. Mas ó: não desanimem, por favor! Ok? Confiem em mim! Queria dizer que vou manter esse rolé de: postar um capítulo grande de 8 em 8 dias, ou então um pouco mais de dias no intervalo. OK? Ou vocês não curtem isso? Enfim, eu preciso da aprovação de vocês porque senão vai demorar muito para as coisas acontecerem, entendem? Hoje tem um momento MUITO esperado por vocês e pelo Manigold, por isso vão ler e deixem aquele comentário, por favor! Beijos, boa leitura

Capítulo 54

Calíope deixou os pés balançarem mais alto enquanto seu corpo se refrescava cada vez mais com a altura proporcionada pelo balanço de madeira. Por sorte, durante uma caminhada solitária, a musa encontrou a árvore cujo galho mais grosso mostrou-se útil para aquele suporte. O balanço era simples, porém sua aparência melhorava com os ramos de trepadeiras que nas cordas se misturavam. Alguém tinha os colocado ali, só podia. Mas isso não importou no instante em que se sentou e deu início a um momento relaxante.

Fazia dois dias que não saía do Templo do Grande Mestre desde que chegara, assim como suas irmãs. Aproveitou o período para se fortalecer, ainda que não totalmente. Infelizmente, o dia da volta de Urânia e Tália foi também o dia em que Melpomene se encurralou na própria tragédia. Calíope já imaginava o final de tal caminho, até tentou alertar mais cedo, porém nenhuma das irmãs pareceu realmente compreendê-la naquela vez. Exceto por Terpsícore, claro, que admitiu sua preferência masoquista. Calíope riu ao pensar nisso.

Apesar de Melpomene estar sofrendo, Urânia parecia a mais abalada de todas, só que Calíope não achava que fosse por conta da visita indesejável do espectro de Benu, e sim porque, no fundo, a musa da astronomia soube também como se daria o final do caminho e nada fez para evitar a frustração de Mel. Entretanto, ninguém tinha culpa, nem mesmo a musa da tragédia – era o que Calíope achava.

Desde que começou a compreender melhor as entrelinhas dos próprios pensamentos, a musa percebeu por onde estava traçando o próprio caminho em meio à explosão de sentimentos desencadeada pelos atos do Cavaleiro de Virgem. O tempo todo em que esteve nas montanhas, sentiu-se observada e soube, imediatamente, que pelo menos algo era recíproco ali. Não era possível Asmita dedicar boa parte de sua atenção a ela, em meio ao período de tensão, se não tivesse envolvimento o suficiente.

No entanto, questioná-lo não parecia tão atraente para ela, pois, se fosse para ser humilhada novamente, que deixasse de lado tal curiosidade.

Calíope suspirou pesadamente, para então parar o balanço e descer. Espreguiçou-se com vontade antes de sair daquele canto do jardim. Precisava sair da área daquele templo, na verdade. Olhar espaços diferentes era a melhor opção para refrescar a mente, principalmente quando não sentia vontade de meditar.

Não era nem falta de vontade, era receio. Receio de se deparar mentalmente com imagem e voz do cavaleiro de ouro de virgem e receber suas ordens como se não tivessem importância. De fato, o desgosto que ela sentia nesses momentos era fruto da falta de atenção maior do virginiano, como se ele não se importasse com o que ela representava no mundo. Por vezes, Calíope sentiu que Asmita a considerou inferior.

A ruiva chacoalhou a cabeça, no intuito de expulsar aquela linha de pensamento. Talvez fosse um equívoco seu, diante de certas inseguranças, pois não faria sentindo se considerasse que ele pediu para que voltasse. “Vá, mas volte” foram as palavras, antes de seu isolamento.

E decidiu que o faria naquele momento.

Parou a pouca distância da entrada do Salão Principal da Casa de Virgem, respirou fundo e varreu aquele espaço com seus olhos analíticos e levemente estreitos. O mais impressionante não foi a ausência de Asmita no altar, mas a diminuição considerável de sua energia vital naquela casa. Calíope sentia que ele estava ali, mas não fortemente o bastante para ser encontrado.

A musa bufou, fechando os punhos na altura do quadril e mordendo o lábio inferior como manifestação de sua frustração. Se não conhecesse Asmita o bastante, pensaria que era apenas uma brincadeira, com objetivo de testá-la em variados aspectos. Nunca se sabia exatamente onde a atenção de Asmita focava definitivamente, ele tinha a habilidade excepcional de confundir os sentidos alheios — e por isso a musa se irritava.

Asmita era irritante.

Calíope, impulsionada pelo pensamento de não desperdiçar disposição, não se importou com formalidades e escolheu um dos corredores para adentrar. Se o virginiano reclamasse, ela teria a resposta na ponta da língua, julgando-o por não ter recebido-a devidamente em sua casa. Além disso, não seria a primeira vez...

Com um pouco mais de paciência, moderou os passos e diminuiu o som incômodo que seu corpo desencadeava por estar ansioso. Ela não fazia ideia de onde procurar o guardião da casa, por isso, sorrateiramente, sua impaciência se apossou de forma expressiva ali mesmo, num dos corredores desconhecidos. Alguns passos adiante, Calíope parou.

Não se sentiu como em qualquer passagem anterior que fizera por ali, nem mesmo como em qualquer outro momento de sua vida, muito embora tivesse experimentado algo parecido em seu templo, quando descobriu uma passagem secreta repentinamente. A sensação se assemelhava à de alguém a observando por trás, de forma oculta; porém atrás dela só havia uma enorme parede de pedra lapidada, cuja textura convidada os dedos a deslizarem. Nada mais.

Nada mais, mas o bastante para fazer a musa se virar, encarar desafiadoramente a tal parede e aceitar o convide do toque. Calmamente, Calíope aproximou a mão direita, até que as pontas de seus dedos encostassem-se à textura. O simples ato fez com que seu corpo inteiro arrepiasse e sentisse uma pequena explosão de cosmo partindo de além daquele obstáculo, para então proporcionar uma sensação maravilhosa de leveza e acolhimento. Calíope se permitiu até sorrir, de olhos fechados, como se a ligação entre seus dedos e a parede fosse o único canal de suporte para sua energia vital.

A musa teria deixado a mão ali se não fosse pelo barulho estranho, semelhante ao de formação de rachaduras, que surgiu após o contato. Afastou-se o bastante para poder observar as rachaduras se encontrarem entre suas bifurcações e formarem, aos poucos, o que parecia uma enorme moldura antiga, ornamentada com arabescos lapidados por madeiras em alto relevo. Calíope arregalou os olhos para a novidade. Viu com os próprios olhos uma porta enorme se formar gradualmente naquela parede. Alimentada pela surpresa, voltou a mão direita para a porta que se formou e a empurrou com cuidado, adentrando o espaço.

– Esperei por esse dia em que você descobriria sobre este local, Calíope. – Asmita disse, sorrindo. Encontrava-se na posição de lótus, perfeitamente compenetrado, entre duas árvores completamente iguais. – Não tenha medo. Aproxime-se.

Calíope observou o belo jardim, de um gramado macio, cuja maior parte parecia coberta por um tapete de pétalas claras, as quais se encontravam também voando pelo espaço. Por serem claras, contrastavam com o céu escuro, inteiramente estrelado, que cobria aquele espaço. Calíope não podia ficar mais admirada diante daquela dança de pétalas, principalmente por ver, ao fundo, no centro do jardim, o elemento mais bonito daquele novo cenário: o cavaleiro de ouro de virgem.

Lentamente, moveu-se até uns metros antes dele, parando até sentir necessidade de observar melhor as duas formosas árvores que tomavam as laterais do cavaleiro.

– Sabe onde se encontra? – Asmita perguntou, sem se mover. Não viu Calíope negar, mas, propositalmente, a pergunta foi feita no intuito de introduzir. – No Jardim das Árvores Gêmeas, anexo oculto da Casa de Virgem. Ninguém pode entrar aqui, Calíope.

Ela não compreendeu o que havia por trás do sorriso singelo que enriquecia a beleza do virginiano, mas permaneceu quieta, ainda processando o que tinha visto.

– Este é um espaço sagrado, onde só Buda, ou sua reencarnação, pode se acomodar. É isso que nos é ensinado, em primeira questão. – Asmita fez uma breve pausa. — Muitos cavaleiros acreditam que este espaço não existe.

– Se é assim, por que estou aqui? – Calíope manteve-se em pé, encarando o cavaleiro. Sua curiosidade fervia nos olhos, enquanto os braços cruzados e o semblante seguro tentavam encobrir toda a passividade que sentia por ter entrado ali.

– É uma pergunta pertinente. – ele sorriu. – Acredito que minha teoria é mais certa ainda, Calíope. Por um tempo, passei a acreditar que era o único que podia realmente usufruir deste espaço, porém tive a oportunidade de ver esse portão se formar no momento em que Athena passou por aqui. Tenho minhas dúvidas quanto a se ela chegou a reparar nesse detalhe, mas deixei que passasse em vão. Desde esse dia, alimentei o pensamento de que divindades também eram bem-vindas a esse jardim, mas isso se quebrou quando suas irmãs passaram por aqui, despretensiosamente. Esse portão não se apresentou. Porém, ter estado sempre ao seu lado quando você esteve presente aqui, não tive a oportunidade de prestigiar uma mudança dessas até então. Ainda assim, mantive uma esperança infundada. E olhe, agora. – Asmita abriu os olhos lentamente, causando um arrepio no corpo da musa. – Você está aqui.

– Isso não explica muito. Ou então estou perdendo o ponto.

– Acredito que só divindades e seres que atingem o estado de iluminação plena podem pisar neste terreno, mas que, ainda assim, dentre eles, só poderão realmente pisar aqueles que forem bem recebidos pelas Árvores Gêmeas. Como algo seletivo, cujo critério me é incerto. Talvez aqueles que possam contribuir para minha função aqui... – Asmita soltou um riso fraco. – Ainda assim, apenas suposições...

– Então... – Calíope se aproximou lentamente, em direção reta, de Asmita. Foi inevitável tremer o corpo na trajetória. O virginiano parecia mais imponente, atraente, perigoso. Os loiros cabelos ricocheteavam amenamente o ar em volta, às vezes acertando nas pétalas que dançavam. Os olhos abertos dele não viam nada, mas pareciam ler seu interior completamente, tanto que a musa corou.

– Então? Diga-me o que há em sua mente.

– Se as Árvores Gêmeas me receberam com prazer, querendo que eu colabore com sua função, significa que fui observada agindo dessa forma anteriormente? – Calíope esperou uma resposta, que não veio. E, para piorar, Asmita tornou a fechar os olhos. – Seu silêncio será lido como uma afirmação. Esteja ciente.

– Seja mais clara na pergunta, Calíope.

– De alguma forma, eu contribuo para sua função. Diga-me qual sua suposição sobre isso. – o tom insinuante dela arrancou uma leve ruga entre as sobrancelhas loiras.

– Preciso de mais fundamentação em sua fala. – cortou, secamente. Calíope odiava quando ele partia para esse subterfúgio, desviava do assunto como se não tivesse importância. Ele fingia que não compreendia o assunto abordado, mas ela sabia que a realidade era oposta a isso.

– Por que parece que falar a verdade é algo tremendamente complexo para você? – perguntou ela, num tom acima do amável.

Em seu interior, Calíope travava uma batalha para evitar que um incômodo crescesse e tomasse proporções de raiva. Incrível e inacreditável era o fato de Asmita conseguir desencadear tudo isso nela sem sequer se esforçar. Era também humilhante e digno de crítica, na opinião dela.

– É preciso ocultar certas verdades para que outras possam desabrochar. – foi essa a resposta de Asmita, apenas.

Calíope travou, sem saber por quê. Caminhou até centímetros do cavaleiro e se ajoelhou, encostando sua testa na dele — ato bastante ousado diante daquele espaço tão sagrado, mas ela não perdeu tempo pensando nisso, assim como ele não perdeu informando sobre as regras do jardim. Asmita sequer se mexeu, mas ela sentiu os ombros nus dele relaxarem um pouco mais – como se fosse possível, mediante estado de meditação; e foi.

– Não sei com que olhos analiso essa sua frase. – ela admitiu, com sofreguidão. De certa forma, estava sofrendo mesmo por não conseguir enxergar clareza naquela fala tão ambígua.

Ocultar verdades para desabrochar outras.

Numa perspectiva, parecia uma admissão de conhecimento oprimido, como se ele entendesse, de fato, tudo o que ela sempre insinuou e deixasse claro que, apesar de ser verdade, faria de tudo para que a tirasse do caminho e seguisse com sua função maior para com o mundo. Foi a primeira interpretação de Calíope. Aos olhos dela, foi como se ele tivesse dito que sentia o que ela sentia, mas que precisava reprimir para que pudesse ser útil de outras formas.

Em outra perspectiva, foi como ampliar todo o mistério que o envolvia desde sempre, desde que ela o viu pela primeira vez. Mistério esse que fez com que a vontade de conhecê-lo se concretizasse e oferecesse momentos intensamente memoráveis entre ambos. Porém essa perspectiva era ruim, assim como a outra, só que no âmbito do desconhecido. Era como permanecer sem resposta alguma para perguntas antigas, já desgastadas. Era como ouvir um “não insista, não vou falar, porque nada disso é útil, só vai atrapalhar nos avanços futuros”.

Se fosse pensar com mais aprofundamento, nas duas perspectivas ela poderia ser retratada como um notável empecilho.

– Analise com olhos sinceros. – Asmita disse, serenamente.

– Então me ofereça palavras sinceras. – Calíope o encarou, como se pudesse transpassá-lo com uma linha imaginária expelida de seus olhos.

– Calíope, lembra-se do meu desabafo, minutos antes de você se isolar nas montanhas? – uma leve chateação foi sentida na voz do virginiano. Calíope aguardou, em silêncio, ignorando a pequena dor nos joelhos por estar sentada por cima. — Não me faça lamentar mais do que já lamento por não poder tocar em você da forma que gostaria. Nunca menti sobre o que falei, nunca deixei de mostrar a verdade quando me manifestei com palavras. No entanto, não significa que tenha admitido por completo. Mas não menti, não fui desonesto.

– Eu sei. Procuro suas falhas e nunca as encontro. – Calíope disse, raivosamente, recebendo, em resposta, um riso doce dele.

– Seu orgulho, uma vez, foi grotesco. Hoje em dia, me entretém.

– Olha quem fala. – Calíope rosnou. Asmita podia ser tão esnobe quanto ela.

– Calíope... Você parece não entender. Ou então entende, mas é mimada demais para aceitar que meu conforto é diferente do seu. Sei que procura uma resposta definida, mas nem quando você me ofendeu conseguiu.

– Porque sua determinação é meu maior obstáculo. – bradou, incomodada. Por que ele tinha de trazer lembranças desagradáveis?

– Não lute contra ela.

– O que é isso? – olhou-o da cabeça aos pés, assustada. — Está realmente me afastando?

Ela nem percebeu que a dança das pétalas aumentou consideravelmente a velocidade no ar.

– Não. Só estou dando uma resposta. – Asmita disse, neutro.

– Seja mais claro, por favor. – engoliu seco, sentindo o coração acelerar nervosamente. Precisou morder o lábio para evitar um som de frustração que implorou para sair de sua boca. Ela não daria esse luxo a Asmita.

Dessa vez, Calíope percebeu a dança rápida das pétalas, como se estivessem em ritmo sincrônico com seu coração acelerado e sua respiração confusa.

– Não vou admitir o que você quer, mas não porque não sinto o mesmo, e sim porque não é saudável.

Cortantemente, Calíope prendeu a respiração, bem como as pétalas estancaram no trajeto, voltando a um ritmo mais lento.

Ela corou, corou muito. Suas palavras pareceram lhe abandonar, assim como sua força básica espiritual. Se sua leitura de entrelinhas estivesse correta, Asmita estava admitindo sim o que ela queria ouvir.

– Você teme as palavras. – falou, por fim.

– Não, eu temo o grande sentimento que alimento por você a cada dia em que sua energia se mistura com a minha, independentemente do espaço em que estamos. É esse sentimento que me torna ainda mais cego para determinadas funções que exerço. Entenda, Calíope, que antes de você, tenho um compromisso com Athena e com o Universo que me mantém.

Calíope entendeu, sinceramente. Entendeu, com um sorriso que queria crescer. Não quis admitir a ele, mas só aquilo bastou naquele momento. Com muito esforço, controlou uma enorme vontade de abraçá-lo e acariciá-lo naquela cabeça loira e macia, que adorava repousar em seu colo em momentos de tranquilidade. Reprimiu tanto a falta que sentiu dele que, de repente, teve impressão de que explodiria se não se expressasse de alguma forma. Mas seu orgulho não tornou o fato mais fácil, obviamente.

Os dois mergulharam num breve silêncio, que foi quebrado pelo som da respiração recuperada da musa.

– Posso ficar aqui por mais tempo? – Calíope piou e corou ferozmente. Não pretendia fazer tal pergunta, mas foi inevitável.

Teria ficado ainda mais constrangida se não tivesse sido puxada delicadamente por mãos finas e firmes, que a acomodaram de forma acolhedora no colo de seu dono.

~

Tália desceu toda a água morna na boca em apenas um gole, para então depositar o copo de vidro na mesa da penteadeira do quarto. Seus olhos inquietos observaram cada canto daquele cômodo que dividia com Melpomene, no Templo do Grande Mestre, até pararem, pela décima vez, na irmã gêmea, que repousava tristemente numa das camas, sendo acariciada por Polímnia.

Eram apenas as três ali, naquele momento, consolando Mel após sua melancólica conversa com o cavaleiro de peixes. Já passava do segundo dia desse estado de Melpomene. Tália odiava ver a irmã dessa forma, triste e perdida na própria mágoa, sem vontade de viver. Claro que muito da personalidade de Mel vinha acompanhado de um drama quase que invasivo, porém Tália reconhecia quando era apenas exagero e quando era mais do que verdadeiro. E, nesse caso, Mel estava realmente sofrendo.

Por mais que quisesse tirar satisfações com o guardião de peixes, a musa da comédia reconhecia o enorme erro de sua irmã ao se envolver com venenos, e, consequentemente, compreendia a dor de Albafica, que se considerava o responsável maior. Tinha até pena dos dois – algo que odiava sentir também. Tália estava cheia de tristeza, infelizmente.

Sua tristeza iniciou quando soube que Mel estava se envenenando há tempos e que escondia de si descaradamente, enquanto deixava com que outras pessoas soubessem – como Urânia e Redka. A tristeza cresceu quando se questionou sobre desde quando passou a ficar distante assim de Mel, a ponto de não ser envolvida nos erros dela; a ponto de não ser cúmplice de seus atos impensados; a ponto de virar alguém para quem Mel escondia suas decisões. Talvez também tivesse culpa nesse rolo.

Diferentemente de Urânia, a tristeza de Mel não era destoante com as energias de todas. Apesar de profunda e dolorosa, tal tristeza já era implicitamente direcionada à musa da tragédia por causa de sua representação. Não que Mel tivesse que viver sempre nas ramificações desse fardo, mas seu olhar já era preparado para isso. E tudo só se tornou mais doloroso, aos olhos de Tália, por ter sido enfatizado após o belo encontro de sua irmã com o cavaleiro de peixes. Inacreditavelmente, foi a primeira vez que viu Mel verdadeiramente feliz e inspirada.

– Acho que ela pegou no sono. – Polímnia disse, em seu tom maternal habitual. Tália se endireitou no banco da penteadeira.

– Finalmente.

Polímnia sentiu o tom ressentido da musa da comédia, que desviou seu olhar amável. Normal.

– Tália, não fique assim. Pelo que lhe conheço, está imersa em pensamentos, à procura de algo que possa lhe fazer sentir culpa também. – a musa mais velha disse, sem tirar a expressão gentil do rosto. – Nem sempre será saudável para Mel se você interferir nas responsabilidades. Sei que, assim como todas, você quer protegê-la, mas essa fase é de Melpomene, e apenas dela. O que podemos fazer é ficar por aqui, caso ela queira se abrir.

Ao contrário do que Polímnia esperou, Tália nada disse. Sua falta de ânimo sequer permitiu um pensamento mais cômico de se formar. Apesar de já ter passado por momentos ruins com Melpomene, o que se estendia naquele momento não era para ler levado de forma tragicômica.

– Vá dar uma volta. Eu ficarei aqui mais um pouco. – Polímnia informou, incentivando a irmã com um sorriso de boca fechada. Tália devolveu a graça da mesma forma. Seus olhos, em seguida, pararam nas mãos bem delineadas da irmã mais velha, que faziam carinhos nos cabelos escuros de uma adormecida Melpomene. Olhando-a daquela forma, nem parecia triste.

Tália, calmamente, andou até a cama e depositou um beijo na bochecha da irmã gêmea, para então seguir até o jardim do Templo. No caminho, não pensou em nada, só seguiu espontaneamente, procurando expulsar qualquer pensamento negativo – já cansada de notícias ruins. Seguiu até o guarda-corpo mais alto dos níveis do jardim, com fome de observar do alto a agradável paisagem do Santuário, como se isso fosse limpar sua mente.

– Finalmente. Acho melhor você ficar parada, porque não sairei daqui enquanto não conversarmos! – a voz arranhada; anteriormente clássica de seus dias no Santuário, tiraram-na dos quase pensamentos que se afloraram. Tália se virou lentamente, evitando, com muito esforço, sorrir do jeito que queria.

– Olá, Manigold.

Manigold empacou com o tom de voz sério e maduro emanado de Tália. Não se intimidou, porém, pois o desejo de vê-la e tocá-la era grande demais. Ainda lhe custava acreditar que ela realmente estava de volta. Aproximou-se, meio sem jeito, para iniciar a conversa e, em resposta, recebeu um sorriso de incentivo. Apenas.

Não foi assim que imaginou o reencontro, muito menos a musinha. Tália estava diferente, mais recatada, séria, menos animada, menos... Feliz. O pensamento o fez se assustar internamente. Logo o que tanto queria fazer, talvez demorasse mais do que pretendia. Queria deixá-la alegre de novo, mas o semblante que via não parecia disposto a isso.

– Tália, eu... – Manigold começou, sem realmente começar. Suas mãos se abriram como se fosse abraçá-la, mas se conteve. Enquanto isso, ela o ouvia, virada para a vista que o local proporcionava. – Queria dizer que. Naquele dia do. Quando você foi. – nenhuma frase foi finalizada.

O canceriano não só estranhou a dificuldade em falar, como também o suor frio que sentiu escorrer em sua face, denunciando descaradamente seu nervosismo. Nada encorajador. Engoliu seco e inflou o peito, à procura de suporte para proferir as palavras, mas só expirou todo o ar, deixando sair junto sua coragem. Pelo menos Tália não o viu nesse ato constrangedor.

– Você continua o mesmo. – ela disse, num tom divertido. Mas sua intenção foi sabida pelo canceriano.

Manigold não deixaria isso acontecer. Tália sempre procurava escapar de conversar tensas através de gracinhas e comentários aleatórios. Ele já reconhecia tal ato como forma de defesa da musinha, mas não dialogaria com isso no momento. Observava-a com toda uma importância, um cuidado e uma escolha de palavras que, ainda assim, não queria sair.

– Tália. Me desculpe. – ele disse, por fim, num semblante sério.

– Pelo quê? – Tália perguntou, sem olhá-lo. Sua expressão era indecifrável para ele.

– Por ter te chateado e... Enchido o saco das suas irmãs pra saber do seu passado. Ehh... Também por ter te ofendido. – Manigold coçou a nuca, à procura de apoio para continuar. A falta da atenção de Tália não estava ajudando.

– Tudo bem, desculpo sim. É só isso? – disse, normalmente, mas com um pouco mais de doçura. Tudo bastante forçado, na opinião do cavaleiro, que bufou em desgosto.

– Dá pra ser mais sincera?

– Não sei. É seguro? – finalmente, ela se virou para encará-lo nos olhos. Um sorriso esperto, fruto da defesa dela, apareceu ao lado da evidente cicatriz.

– É claro que é! – cruzou os braços, oferecendo uma expressão carrancuda, embora se sentisse melhor após a reação da musa. – Eu to falando sério aqui! Poderia responder da mesma forma?

– Muito bem. Pergunte, então. Já disse que desculpo. Falei sério. – Tália virou o corpo todo para ele, dessa vez. Sentiu que o canceriano estava sinceramente abalado consigo.

Manigold ergueu o rosto até chegar num nível ideal para vê-la meramente ruborizada. Finalmente uma reação de incentivo para ele, que se sentia mais angustiado que uma barata de barriga pra cima.

– Tá aí algo que não combina com você, musinha: essa cara séria. Parece que to falando com outra pessoa.

– As transformações são resultados das experiências empíricas e espirituais, Manigold. – a fala formal pegou o cavaleiro de surpresa, ainda mais no tom aveludado no qual foi proferida.

– Ehh? Pare com isso, Tália. Já entendi aonde você quer chegar. – falou, mal humorado. Tália riu, sem perceber. – Deixe desse teatro, por favor!

– É horrível quando não nos levam à sério, não? – ela perguntou, como se fosse nada, observando as próprias cutículas.

– É, é sim. – respondeu, desconfiado. Tália reergueu a cabeça para olhá-lo novamente, com uma expressão neutra.

– Foi assim que eu me senti na maior parte da minha vida até então. – espontaneamente, voltou a se virar para o horizonte. – Sempre ouvi palavras hostis e ofensivas em relação a o que sou. Acredito que não seja duvidoso, já que você ouviu minha história. – suspirou. – Não me importo com isso, sério mesmo. Só que eu... Gostaria de ter narrado por mim mesma...

Manigold se aproximou apressadamente até acariciá-la no braço esquerdo.

– Você pode me contar. Eu escuto tudo de novo. Eu até queria que você tivesse me contado, mas você fugiu. – disse, afobado, desencadeando mais um sorriso na musinha.

– Eu não fugi, mas você não entenderia. – de fato, ela não fugiu. Em sua intenção, a vontade de abrir as portas para Manigold, para que ele encontrasse o verdadeiro significado de suas palavras, foi o que a moveu a sair daquele lugar, como dissera à Clio. Mas se isso fosse revelado a ele, talvez perdesse a essência.

– Então me explique! Tália, me explique tudo! – Manigold mal percebeu o leve tom de imploração que deixou sair.

– Por que você quer saber agora? – Tália o encarou sorrateiramente, pelo canto do olho. Viu-o coçar a nuca, desajeitadamente. Até achou engraçado. Adorava a espontaneidade dele e a sinceridade de seus gestos, mas não demonstraria ainda.

– Ehh... Por-Porque... Argh... Tália, porque sim! – chacoalhou o corpo, procurando algum conforto em meio àquela situação. O problema não estava em falar o que sentia, mas como falar. Foi tão mais fácil admitir à Mel que sentia falta da musinha.

– Resposta errada! – ela disse, animadamente. Mesmo que ele desviasse, o sentido por trás da tentativa era bom, pois demonstrava a confusão que Tália tanto queria que ele sentisse.

Manigold se encostou ao guarda-corpo, muito próximo a ela, e a encarou invasivamente.

– Pode perguntar. – ele disse, em tom de desafio, que atraiu o olhar malicioso dela. A atmosfera, felizmente, estava mudando para ele.

– Pelo o que sei, você é quem quer fazer as perguntas aqui. – ela rebateu, mas o viu negar, com uma falsa expressão de confusão. Acabou deixando um riso ameno sair. – Certo. Você esteve em meu vale. – afirmou. Não precisou dizer mais nada para que o canceriano se pronunciasse.

– Estive. – pigarreou, ajeitando a gola da camisa de treino e desviando o olhar. Como explicaria o que foi fazer? No fundo, foi fazer o que estava tentando fazer agora. Porém sequer pensou em como conduziria a conversa; como esperado, agiu por impulso. – Fui lá pra lhe buscar, musinha. Você sabe disso.

– Verdade, mas pelo o que observei, você ficou um pouco mais, não foi? – Tália não disse, mas adorou vê-lo constrangido perante suas palavras. De repente, o semblante de Manigold mudou para um mais animado.

– Pelo o que você observou? – levantou uma das sobrancelhas azuis.

– É claro. – ela fez o mesmo.

– Então, me viu lá? – viu-a assentir. – Por que não foi falar comigo?! Me fez ficar que nem uma barata tonta te procurando lá, enquanto aquele maldito bode, que nem isso é, me fez de tolo! – apesar das palavras, a felicidade de Manigold não permitiu que a fala saísse com rancor.

– Não fale mal de Makarios! Ele é um doce de sátiro.

– Ah, claro, defendendo seu aliado. – Manigold cruzou os braços teatralmente, destacando seu falso incômodo.

– Eu sei que você gostou de ir lá. Não há um ser que se sinta mal no meu templo! – Tália levou as mãos à cintura, orgulhosamente, e inflou o peito. – Se bem que você é uma criatura duvidosa, começando por esse aspecto de quem sempre come e não gosta, terminando nesse arbusto azul que chama de cabelo.

– Ahh, olha a magnífica soltando suas piadinhas novamente! – a expressão maliciosa de Manigold foi recebida com deboche por Tália, que, rapidamente, virou-se para o horizonte de novo.

– Por favor, não brinque com esse apelido. Foi o único carinhoso que recebi até hoje. – pediu, normalmente. – São poucos os lugares seguros para alguém como eu, portanto não os despreze.

Tália odiava falar como uma vítima, mas a realidade, por vezes, exigia que ela o fizesse para abrir os olhos de quem precisava. A última coisa que suportaria seria uma série de comentários maldosos acerca de seus portos seguros, ainda mais por alguém que mal os conhecia. Embora soubesse da intenção lúdica do canceriano, tomou a iniciativa de evitar que o caminho errado fosse tomado.

– Foi- Foi mal... – Manigold coçou o queixo, envergonhado. Esperou alguns instantes para falar novamente: — Não ache que... Eu te chamo de “musinha”... De forma maldosa. – ah, como era mais fácil enfrentar um espectro do que uma Tália ferida. Sim, ele sabia que ela estava se esforçando para manter uma pose firme, porém, por trás dos olhos verde e azul, ele conseguia enxergar a angústia que ela guardava em meio a lembranças não ditas. Amaldiçoou-se por, novamente, chateá-la. – Se eu te chamo assim é porque você é, de alguma forma, única pra mim. Eu não chamaria mais ninguém assim, Tália.

– Eu sei. – respondeu, oferecendo um sorriso simples, nada perto dos radiantes que costumava dar. – Mas não me culpe por lê-lo dessa forma. Meu olhar quase foi treinado pra isso. Então certas coisas não me vêm com carinho. Enfim...

– Enfim, eu fui ao vale para te buscar, mas não te encontrei. – ele pôde sentir a quentura do próprio rosto ao proferir as palavras. – Argh! Por que não falou comigo?

– Porque eu quis me isolar, ora! É um direito meu. Saia daí! – Tália girou o corpo e, num impulso proporcionado pelos braços, ergueu-se a até sentar no guarda-corpo.

Manigold quase enfartou ao vê-la se inclinar para trás, quase caindo dali. Sem pensar, abraçou-a na cintura fortemente, sem se importar se o processo de respiração dela tinha travado por conta de sua força. Enterrou a cabeça no colo de sua musinha e ali ficou. Sentiu tanta falta daquele aroma doce, e ao mesmo tempo salgado, de Tália, bem como da maciez de sua pele e das afagadas que ela, por vezes, fez nele. Apertou ainda mais o corpo da musa. Foi como se seu corpo não quisesse apenas se apegar àquele corpo, mas sua mente às memórias que passaram a preenchê-la. O aroma de Tália foi inebriante a ponto de desencadear sua saudade num nível doloroso.

– Ma-Manigold. – o canceriano sentiu seus ombros empurrados inutilmente para trás, mas não se moveu. – Manigold, o que está fazendo?

– Não quero que você caia. – sua voz saiu abafada. E, de repente, seus ombros foram soltos, para, após alguns instantes, serem envolvidos num abraço singelo.

– Não vou cair. – Tália respondeu baixinho em seu ouvido esquerdo.

– Promete?

– Prometo.

– Tá bom. – ainda assim, ele não a soltou.

– Aonde você quer chegar com essa promessa?

Manigold se retraiu minimamente e depois se afastou para poder encará-la, mas sem soltá-la de fato. Observar de perto o olhar místico dela fez com que seu coração acelerasse imediatamente, bem como seu corpo se arrepiasse por completo. De início, não compreendeu o que ela quis dizer com isso, mas depois repensou. Suas palavras também não foram totalmente voltadas à questão da queda dela. Ele não pensou apenas nisso ao pedir para que ela não caísse. No fundo, indiretamente, quis que ela prometesse que não ficaria distante de si.

Só não imaginou que ela fosse compreender.

– Musinha... – Manigold se afastou um pouco mais, levando as mãos até as dela e sinalizando para que o olhasse com atenção, embora estivesse desesperadamente corado e querendo que o mundo apagasse todas as luzes existentes. – Ehh... Eu senti sua falta.

– Ah, isso eu sei. Se não, por que outro motivo teria ido até o Monte Parnaso? – Tália riu, apertando as mãos que a tomavam.

Apesar de ela ter rido de sua façanha por ter tido coragem de assumir, Manigold não desanimou. Novamente, procurou a coragem para falar mais, pois assim esperava o olhar dela também.

– E eu quero que você fique aqui comigo, agora que voltou. É isso. Você sacou, né? – a afobação complementou seu nervosismo, o que não passou despercebido por Tália.

Ela o observou por inteiro, controlando uma imensa vontade de rir. Desde o início, compreendeu aonde ele queria chegar, mesmo sabendo que ele mesmo não compreendia. Manigold era tão assim. Se não fosse assim, não seria sincero. Ela o admirou secretamente, enquanto fingiu um pensamento profundo através de uma expressão de questionamento. Segurou outro riso quando Manigold revirou os olhos.

Entretanto, ela não estava disposta a ceder ainda. A lição não estava completa.

– Somos muito jovens para o amor. – por fim, disse, como se estivesse comentando sobre uma coisa pouco importante. As palavras simplesmente saíram e rodearam pelo ar, para logo irem embora. Simples assim.

Manigold, boquiaberto, esforçou-se ao máximo para que sua má língua não tomasse liberdade. Em seguida, suspirou pesadamente e encarou a musa:

– O que a idade tem a ver com isso?

– Tudo. – Tália observou uma nuvem, enquanto balançava os pés no guarda-corpo. – Provavelmente, não temos maturidade para encarar dessa forma.

– E isso não se adquire com experiência, musinha? Você mesma disse que as transformações são resultados disso!

Tália adorou que Manigold não percebeu seu jogo. Teve de aprender como conduzi-lo à própria verdade ao longo do relacionamento que desenvolveram. Se quisesse entrar na mente do canceriano, teria que provocá-lo diante de seus desejos e vontades. Mas antes, ela riu:

– Assim parece que você está realmente falando sério! – fingiu brincar.

– E eu... Eu... Estou! Cacete! – uma vermelhidão intensa tomou conta de toda a face do cavaleiro de câncer, de forma que ele próprio sentiu necessidade de cobrir. – Grrrrr... Tália! – em meio a rosnados, continuou: — Você... Não imagina o quê. Meio que eu. Foi quase um...

Tália suspirou teatralmente.

– Quer experimentar o amor, mas sequer sabe como se expressar corretamente. – cantarolou. – Ai, ai, arbusto...

– Está me cobrando palavras que você também nunca disse! – defendeu-se, meramente ofendido.

– Posso não ter dito, mas não diga que não me expressei. Se você não sabe interpretar, a culpa não é minha! – Tália, involuntariamente, deixou o volume de sua voz subir. — Nós dois sabemos que você prefere falar antes de pensar.

Os dois, mesmo sem saberem, compartilharam das mesmas lembranças do dia da fogueira, no momento em que ele a chateou e ofendeu com palavras hostis — dignas de serem apagadas da mente — por puro impulso.

– Grrrr, Tália, eu até mereço essas alfinetadas, mas você tá complicando aqui pra mim. Cacete! – rosnou, competindo no volume. De repente, viu Tália saltar do guarda-corpo rapidamente e se ajeitar em sua frente. Por um minuto, pensou que seu coração fosse sair pela boca devido à possibilidade de queda da musinha. Lembrou-se, sem querer, do dia em que a conheceu melhor após pegá-la de uma queda da árvore. Queda nada, ela se jogara!

– Ótimo! – a musa arrebitou o nariz. – Quanto mais difícil, maior o esforço. Até logo!

Tália impulsionou o corpo para frente, no intuito de acompanhar o primeiro passo, mas foi barrada pelo corpo lindamente esculpido do cavaleiro de câncer, que a abraçou sem pestanejar. Sentiu-o deitar a testa em seu ombro e um suspiro longo e quente aquecer a mesma região. Porém, em resposta, manteve-se imóvel.

– Posso pelo menos ficar com você? – perguntou, com evidente manha na voz. Dessa vez, o rubor quente predominou a face da musa ao invés da dele.

– Não. – Tália respondeu, com muito esforço. – Preciso ver Melpomene.

Manigold se afastou até poder ver o rosto da musa.

– O que há com ela? – preocupou-se, sinceramente. Mel foi a única que sempre o apoiou em relação à Tália.

– Não posso dizer. – revirou os olhos.

– Então vou com você.

– O senhor é atrevido demais, sabia? – Tália esboçou um sorriso desconfiado.

– Estou procurando chegar no seu nível, pra ver se, desse jeito, você me aceita. – revidou, com orgulho. Estava melhor nas respostas firmes.

– Quem não aceitou quem aqui foi você. – um soco teria sido mais agradável, Manigold pensou. Prova de seu constrangimento foi a mordida de lábio que deu em resposta.

– Eu fui e ainda estou indo atrás de consertar isso, só preciso que você me dê abertura, musinha. Comece isso agora! – Manigold se afastou para poder posar de sério. E realmente falou sério, só bastava uma resposta dela para que tomasse o primeiro passo na reconquista da musinha.

– Eu te aviso, então. Mas, por enquanto, preciso de espaço pra respirar, por favor. – Tália se manteve impassível, para a infelicidade do canceriano, que apenas assentiu.

– Não pense que se livrará de mim fácil, ouviu bem? – Manigold disse, antes de se voltar para o caminho que levava para fora do jardim.

E nem quero me livrar” Tália pensou, enquanto o via sumir por entre as cores vivas da vegetação.

~

Ela varreu os olhos pelo espaço que transpirava testosterona a cada metro quadrado. Era absurda a quantidade de macho com corpo bem trabalhado, suado e, por vezes, marcado com cicatrizes de (talvez) guerra treinando arduamente com outros machos tão irresistíveis quanto eles. Euterpe precisou abanar agitadamente o colo com a mão para poder se concentrar em seu alvo, que se encontrava ainda mais irresistível que qualquer outro, a alguns metros de onde observava. Claro que ela não se mostrou de primeira. Optou por checar o terreno e as probabilidades nele existentes, independentemente do aspecto. Por ser uma musa imprevisível – e por gostar muito disso – costumava fazer isso, pois só dessa forma saberia como se movimenta por ali. Como inspirar...

– Nós vamos voltar para a segunda arena, Euterpe. – Terpsícore informou, após se cansar de ficar parada observando os cavaleiros daquela arena. Erato assentiu com a cabeça, como quem apoiava a fala da irmã loira. Euterpe, em contrapartida, sequer moveu o rosto para responder.

– Estamos em qual mesmo?

– Terceira arena. – Terps respondeu.

– Tá, tá. Podem ir. – abanou com a mão esquerda, ainda sem olhá-las. No entanto, virou rapidamente o rosto ao se lembrar de um detalhe. – Terps, espere! Aonde chegarei se seguir para além dessa arena?

– Hãn... Não sei bem, mas há ruínas que acabam no mar. Só isso que sei.

Euterpe assentiu e dispensou as irmãs, sob o aviso de que se cuidassem em meio a tanto cavaleiro. As duas menores reviraram os olhos. O aviso era até pertinente, só que para a irmã que o fez, não para elas. Quem se animava com certas atenções e provocações era Euterpe. Ainda assim, saíram se dizer nada.

Por dentro, a satisfação em adquirir uma desculpa para passar por ali deixou a musa da música radiante o bastante para atrair olhares desde já. Com certa neutralidade, ajeitou os cabelos e o vestido amarelo, um pouco acima do joelho, e endireitou os ombros, passando um semblante confiante e sensual – como de costume. A sinuosidade de seus movimentos influenciou de certeira no olhar que queria atrair, ainda mais no momento em que o dono dele se encontrava com amazonas em volta.

Kárdia, que antes conversava com duas amazonas interessantes, nem fez cerimônias ao descaradamente virar o rosto por completo para ver a musa da música passar por ali. Em primeiro pensamento, ficou maravilhado e admirado com tanta elegância e charme. Inacreditavelmente, qualquer cor combinava com Euterpe, assim como qualquer modelo de vestido. Na verdade, qualquer coisa que fosse fruto de algo bom combinava com a maldita musa! Era tão verdade que Kárdia ficou logo furioso ao ver que não era o único que a admirava. A arena inteira parecia enfeitiçada, incluindo El Cid e Degél. E ela parecia adorar cada atenção que recebia. Cretina.

Do outro lado, Euterpe mandou um singelo e provocante sorriso para o escorpiano, que, em resposta, fechou a cara, completamente emburrado. Felizmente, era exatamente essa a reação que a musa esperava, portanto continuou a trajetória como se nada pudesse atingi-la. E realmente não podia. Ou foi o que pareceu; pelo menos, até virar o rosto e ver o maldito escorpiano direcionar o corpo para as amazonas e voltar à conversa animada. Por pura insatisfação ao ver a cena, foi inevitável morder o lábio. Mas Euterpe não perdia em jogos assim, por isso seguiu como se nem tivesse visto.Cretino.

Na segunda arena, Erato e Terpsícore conversavam animadamente com Dohko, que havia parado um momento para descansar do treino, nas arquibancadas. Shion estava igualmente interessado no intervalo com as duas jovens musas, portanto se abriu à conversa, com menos afobação do que o amigo libriano.

De longe, os quatro eram observados por um leonino insatisfeito. Régulus chegou a inclinar o corpo para frente, no intuito de iniciar a caminhada até as arquibancadas, mas, repentinamente, uma energia estranha explodiu minimamente – tão minimamente que sumiu como se não tivesse existido. Seu rosto logo subiu para onde os quatro estavam e pôde perceber o incomodo dos dois cavaleiros de ouro, provavelmente por terem sentido o mesmo.

~

Urânia se espreguiçou, enquanto observava o corpo no espelho da penteadeira. Sozinha no quarto, teve tempo para fazer o que queria em seu ritmo lento, preocupando-se apenas em relaxar os ombros e acalmar a alma. Estar de volta começou de forma cansativa por se deparar com o problema de Mel, mas ainda assim foi melhor do que manter o isolamento em Star Hill – muito embora sua força estivesse vacilante.

Caminhou até o parapeito de uma das janelas e observou a paisagem colorida daquele canto da Grécia. O cenário era altamente inspirador para qualquer visitante. Não hesitou sorrir ao sentir a brisa fresca que a envolveu por uns instantes, mas seu sorriso logo se desfez ao sentir o que pareceu uma mínima explosão.

Urânia logo se retesou. Foi assim que Kagaho se manifestou primeiramente. Era possível que outro inimigo, se não ele mesmo, estivesse rondando o Santuário. Entretanto, a incerteza a impossibilitou de pensar mais a fundo. O nervosismo, por outro lado, a fez perceber o próprio estado preocupante. Não era interessante permanecer sozinha, com pensamentos tão oscilantes, num momento de recuperação. Devia aproveitar que todas as nove musas estavam juntas e procurar ajuda para ficar relativamente bem, isso era crescer. Crescer, para Urânia, fazia parte do reconhecimento das próprias fraquezas; da queda do muro que só possibilitava proteção, e não a encarada do problema. Fazia parte, principalmente, do processo de admissão de erros para com os outros. Por isso, ela saiu daquele quarto.

Athena. Precisava falar com Athena e oferecer novamente sua ajuda na leitura dos registros celestiais. Com esse objetivo, Urânia seguiu até o Salão Principal do Grande Mestre, no intuito de atravessá-lo e chegar na outra ala, onde a Sala de Athena ficava. Porém não pôde completar o objetivo com agilidade, pois nunca contou com a presença do Cavaleiro de Sagitário ali, no meio do Salão, aguardando a chegada do Grande Mestre.

Urânia engoliu seco quando seu olhar encontrou o do cavaleiro, assim que ele se virou com pressa. Tanto quanto ela, Sísifo demonstrou surpresa numa expressão bastante demarcada, mas não esqueceu os bons modos, tornando seu próximo ato uma breve reverência para ela, que assentiu em resposta.

Sísifo, porém, não aguentou ficar apenas nisso. Não era de agir por impulso na maioria das vezes, mas foi inevitável vê-la tão frágil e desolada, diante de si. Por isso, correu. Correu até ela e a abraçou fortemente, sem falar absolutamente nada. Como o esperado, foi abraçado de volta, com intensidade proporcional.

– Sísifo, eu... – Urânia começou, emocionada e chorosa. Mas ele não queria ouvi-la dessa forma, até porque precisava se concentrar para a futura conversa com o patriarca atrasado. E vê-la já o deixava desconcentrado o bastante.

Com cuidado, o sagitariano a afastou de seu corpo para encará-la com olhos gentis.

– Agora não. Aqui não. Eu lhe dou a chance de falar, mas não aqui e agora. Se quiser, te esperarei em Sagitário, à noite. Não seremos interrompidos lá. – cautelosamente, e com certa ansiedade, proferiu as frases. Para Urânia, restou concordar silenciosamente.

Apesar da enorme vontade de abraçá-lo, ela se afastou mais, até dar a abertura que ele precisava para sair de sua frente. Não se olharam mais – o que a ajudou a voltar a mente para seu objetivo primário. Com o coração acelerado, corpo arrepiado e olhar marejado, ela correu até a Sala de Athena, sem se importar com a má educação de sua atitude. Mas não entrou diretamente, antes se ajeitou emocionalmente para que a deusa não se distraísse com suas questões, para então adentrar.

– Sasha! – o cumprimento saiu alto demais, a ponto de causar um leve susto na deusa, que fazia anotações em um caderno.

– Olá, Urânia. – sorriu, docemente, e largou o que tinha em mãos, abrindo-as num convite a um abraço. – O que aconteceu? Parece agitada.

Urânia encaixou o corpo no da deusa, oficializando o abraço amigável. Foi quase possível sentir um peso sendo tirado de seus ombros, mesmo que tal não existisse. A áurea divina, amável e humilde, da deusa convidava a sua áurea celestial a reviver como antes. E nessa energia, a musa da astronomia sentia que poderia se apoiar. Não era à toa que os comentários acerca da luz de esperança que Athena oferecia eram legítimos. Sasha realmente possibilitava belas sensações a partir dos mais singelos gestos.

– Nada aconteceu, mas... Acho que há uma chance de mudar um acontecimento ruim. – Urânia disse, com evidente brilho nos olhos cristalinos.

– Claro que há. É questão de tempo. – Sasha sorriu, acariciando os braços da musa.

– É, eu sei, mas é sempre mais difícil tomar os próprios conselhos. – completou, rindo graciosamente, sendo acompanhada pela deusa. – Bom, vim aqui para continuar a leitura dos documentos.

– Ah, sim! Decidi colocá-los num lugar mais seguro. Desde o aparecimento do espectro, fiquei um pouco insegura quanto a certas coisas. – Sasha falou, franzindo a testa. – Então, só um momento.

Dito isso, Sasha seguiu até um pequeno espaço no canto direito da porta, onde cinco dois sinos se encontravam, e puxou a corda do primeiro, com delicadeza. Não demorou muito para que uma serva chegasse até o aposento, trazendo consigo uma bandeja de chá.

– Ah, Iara, obrigada. Não era isso, mas obrigada! – a deusa agradeceu, amavelmente. Ainda assim não foi o suficiente para impedir o constrangimento da serva. – Por que Pío não veio?

Sasha logo estranhou o aparecimento da serva ruiva que apareceu. Geralmente, Pío era a encarregada de seus pedidos, principalmente quando se encontrava em sua sala particular. Quase nenhuma serva tinha direito a andar por ali, apenas as que fossem escolhidas a dedo pelo Grande Mestre. Assim como Pío foi.

– Perdoe-me, minha deusa. Pío não foi encontrada. Ninguém a vê desde ontem à noite, para ser sincera. – a serva disse, enquanto se encurvava diante de Athena.

– Tudo bem, Iara. – Sasha disse, calmamente. Apesar de seu estado ser o oposto. Quando Pío se ausentava para realizar outras tarefas, tendia a informar com muita antecedência. – Então, por favor, vá até este lugar aqui – desenhou rapidamente um trajeto simples de ser compreendido que levava até onde deixou os documentos e, em seguida, estendeu para a serva. – e me traga o que estiver na gaveta vermelha do móvel central.

– Sim, minha deusa. – Iara fez a reverência novamente e saiu.

Sasha manteve a expressão de estranhamento, demarcada por uma testa franzida e um lábio mordido. Urânia não deixou de perceber.

– Algo errado?

– Talvez... – e nada mais disse, assim como Urânia nada mais perguntou. Esperaram, em silêncio, o retorno da serva, que não tardou.

De mãos vazias, a serva abriu a boca:

– A gaveta está vazia!

Notas finais
COMENTÁRIOS? HU3HU3HU3 Beijos, amores