EmMusas - The Lost Canvas
65 Abalos da alma
Notas iniciais
Capítulo 65 – Abalos da alma
Apoiada com o corpo suavemente inclinado para frente, na alta janela de uma sala, Urânia respirou fundo e devagar, agregando também os variados aromas do jardim abaixo, cujas flores, em seus mais belos tons, traziam um pouco de ânimo para os passantes do Templo de Athena. Deixava o cabelo solto e fino serpentear pelas costas descobertas — favorecidas pelo decote do vestido turquesa — e aguardava mais relatos da irmã recém-chegada.
— Então é verdade.
— Sim – Clio se juntou à irmã na janela. Seus grandiosos olhos de mel encararam o horizonte – Embora eu pouco saiba sobre isso, acabei descobrindo que sim.
— Eu não imaginava...
— Nem eu, mas depois das loucuras que ela cometeu, isso não me deixou tão aturdida.
— Mas algo dessa magnitude acontecer logo agora... Sinceramente, não sei dizer se acho bom ou ruim. – Urânia franziu a testa, intrigada.
— Não temos que achar nada, é o que aprendi.
— Que surpresa ouvir isso de você, Clio. Isso significa que deixará de implicar com Terpsícore?
— Uma coisa não tem a ver com a outra. – Clio suspirou. – Mas confesso que acho que nunca consegui impedi-la de algo. Terpsícore sempre teimou diante das minhas palavras. Sempre me pareceu que ela só esperava o tempo certo para me desafiar.
— Oh, Clio, agora está implicando consigo mesma?
— Acalme-se, vou chegar lá. – ajeitou a trança suavemente para o ombro esquerdo, mesmo sem dar devida atenção – É importante pensar com base nos fatos, sempre defendi isso. Entretanto, acho que finalmente compreendo que, além dos fatos, os fatores que os movem importam tanto quanto.
— Hmmm.
— Exemplo: Melpomene. – Clio se virou de frente para a irmã e a olhou convincentemente. Era um olhar que a outra conhecia; um olhar que insinuava que Clio estava pronta para convencê-la de algo. — Melpomene quase morreu para que sua relação fosse possível. No que tendemos a prestar a atenção?
— Tendemos ou apenas você? – Urânia perguntou, referindo-se ao olhar puramente analítico da irmã.
Clio revirou os olhos.
— Responda.
— Tendemos a pensar no fato de que Mel quase morreu.
— Sim, mas não paramos para pensar no que a moveu a isso, já que ela possui devida consciência para entender os riscos de suas ações. Certo? – esperou a irmã assentir – Pois bem, quando estive com ela no Templo da Tragédia, parei para pensar nisso após ouvi-la se lamentar tão dolorosamente. Foi impossível não questionar a enorme dor quando, aparentemente, ela sabia que terminaria algum dia.
Clio, de repente, silenciou-se. Urânia a tocou nos ombros e a encarou seriamente:
— Clio, continue. Sério, continue.
— Foi notavelmente estranho esse reconhecimento que tive, mas... Houve reconhecimento.
— Que reconhecimento? – Urânia entendeu o rumo que a irmã estava seguindo.
— Que é algo que, infelizmente, não é exato. Algo que não se pode definir com palavras tão nítidas e claras. É mais do que isso, é um sentimento efêmero e com uma enorme quantidade de possibilidades e riscos. É assustador!
— E é isso que nós sentimos ultimamente. Todas nós.
As duas se encararam profundamente, procurando no olhar da outra as referências para as próprias colocações. Tinham em mente que se entendiam muito bem, embora Clio se sentisse um tanto tola por apenas compreender após tanto tempo.
— E sobre Terpsícore – Urânia incentivou -, o que pensou?
— O mesmo. Terpsícore provavelmente sente algo forte por aquele traste e por isso não se importa com minhas advertências. Melpomene foi esperta e escondeu até onde pôde, mas Terpsícore não foi nada astuta na execução de suas ações e mentiras.
— Quem não possui nada, dá muito para poder desfrutar, pelo menos por um instante, de algo que lhe trouxer algum sentido. – Urânia mirou o céu, sorridente.
— Poética como sempre.
— Procuras objeção num sentimento abstrato, Clio. Logo, logo, entenderá que é algo difícil demais até para você. Sugiro que peça auxílio ao cavaleiro de capricórnio. – Urânia piscou e Clio corou no exato instante.
— Eu só espero que Terpsícore não tenha o mesmo destino de Melpomene nesse jogo arriscado que parece ser o amor. – Clio mordeu o lábio devido a um pequeno nervosismo que aflorou em sua mente ao pensar em mais uma irmã cedendo à tristeza.
De repente, Clio sentiu as mãos serem afagadas pelas de Urânia e subiu o rosto para ver a irmã lhe encarar com gentileza e consideração. Os olhos dela, mais cristalinos, passavam a tranquilidade que os olhos de mel de Clio nunca causariam.
— Espero que nenhuma de nós tenha o mesmo destino e que Mel se recupere o mais rápido. Estaremos lá para ela, assim como estaremos aqui para todas nós.
— Minha vontade era de permanecer lá e continuar supervisionando-a, já que, pior do que a minha ignorância, a dela pode gerar péssimas escolhas. Mais do que já ocorreu.
Urânia percebeu que as palavras de Clio saíram com pesar. Por um momento, achou um tanto dramático, ainda que entendesse a preocupação.
— Quem mais sabe disso?
— Apenas você.
— Tem conhecimento do paradeiro de Calíope?
Clio negou com a cabeça cabisbaixa e olhar vazio, enquanto Urânia assentiu, já esperando a resposta. Voltou-se para o jardim, frustrada, com esperança de se animar pelo menos com uma vista mais agradável, já que os pensamentos apenas traziam memórias ruins.
— Euterpe – continuou Urânia, em baixo tom – mencionou as grutas.
— Bom, certamente, mas existem muitas na Grécia! – Clio gesticulou rapidamente com as mãos.
— Não vou mentir que não senti vontade de procurá-la. A pior ideia até agora nasceu dessa escolha de se afastar abruptamente.
Clio, silenciosa, virou-se para a irmã e depois novamente para o horizonte. Em sua mente, muitas possibilidades brincavam ao redor da situação das irmãs que longe estavam.
— Urânia, você sabe melhor que eu que Calíope está experimentando um sentimento que nunca teve, assim como muitas de nós. Contudo, nós ainda temos aqueles por quem sentimos afeto ao lado. – Clio se virou para encostar as costas no parapeito da janela e observou despretensiosamente a simples sala do Templo. – Calíope está sofrendo, assim como Mel e você, que, por sorte, sofreu apenas no passado.
Urânia se virou surpresa com a menção de seu passado, obviamente referenciado à Kagaho, e viu um mísero sorriso de lado da irmã. Não o compreendeu, mas também não se importou. Era um tópico finalizado, ambas compreenderam.
— Diga-me... Sobre Mel... – Urânia coçou a lateral do pescoço – Ela está feliz?
— Isso é relativo. Ela enxerga o fato como algo bom, mas sofre pela ausência do cavaleiro de peixes noite e dia, sem parar. Enterrou-se num profundo abismo espiritual, onde procura fugir da realidade que ela acha que se estenderá com a falta dele e a nova presença. Admito que é angustiante vê-la assim, completamente perdida.
Embora em tom seco, Clio foi sincera. Em seguida, perguntou:
— E Polímnia? Considerando a proximidade que passou a ter com o cavaleiro de touro, ela deve estar abalada. Não a vi ainda.
— Se a vir, mal perceberá que está triste. Ela está se polindo ao máximo em consideração aos pupilos do cavaleiro de touro. Queria conversar com ela, mas sinto que uma camada protetora se formou em volta dela para evitar que soframos com ela.
— Típico.
— Sim.
— Precisamos acabar com isso. Esse costume de se isolar diante do sofrimento não está se mostrando vantajoso entre nós – Clio balançou a cabeça negativamente, olhando para o nada.
— Concordo, mas acho que isso pode esperar um pouco – Urânia caminhou lentamente até outra janela alta, cuja vista apresentava a estátua de Athena e a própria deusa, lutando arduamente para manter a barreira. – Isso têm me machucado bastante.
Clio a acompanhou.
— Urânia, você sabe que Athena não aguentará por muito mais tempo, não sabe?
— Eu sei, mas os cavaleiros de ouro talvez não.
— Nós precisamos ajudar de alguma maneira.
— É – Urânia disse, visivelmente incomodada -, mas de que maneira? Até agora estamos sem resposta alguma sobre o motivo de termos vindo. Simplesmente viemos! O que precisamos fazer aqui? Como podemos ajudar? Por que nos metemos nesse conflito divino? Céus, Clio, são perguntas que nunca me abandonaram, mas que andam martelando com mais força ultimamente.
— Urânia, eu tenho uma teoria, mas não sei se é a hora certa de falar. Sei que parece loucura, mas não vou dizer. Preciso especular melhor alguns fatos.
— Vou lhe dar um pouco mais de tempo, apenas. Não quero que esconda o que enxergar. Ando me sentindo mais cega do que se o céu estivesse imerso em plena escuridão!
— Só lhe peço uma coisa, Urânia – Clio sentiu um arrepio assim que pensou nas seguintes palavras -: não pare de ler as estrelas.
~
Euterpe limpou o suor da testa com um pano já bastante úmido e cheirou-o imediatamente. Erato teve poucos segundos para desviar do pedaço de tecido, que acabou batendo no rosto maduro do servo responsável pelo terceiro celeiro.
— Que nojo! Se eu vir esse pano passar novamente pra mim quando eu precisar, vou abandonar essa vaca imediatamente! – Euterpe gritou, indignada.
— Foi sem querer, Pepe! – Erato miou, olhando-a com falsa inocência e descarado divertimento. O servo riu baixo, temendo a ira da musa mais velha.
— Eu lhe conheço, criança. Eu que lhe criei nessa vida e você tenta me fazer de tola? Ora “Pepe”! – a morena ajeitou os cabelos pontualmente molhados de suor num coque desajeitado e se voltou para a enorme vaca que a encarava com aflição. – Acalme-se, minha doce amiga, vamos tirar esse bebê de dentro de você da forma certa. – disse, acariciando o rosto do animal.
— Nunca que Euterpe abandonaria essa vaca, não se preocupe, senhor. – Erato sorriu para o servo, que corou fervorosamente com o tratamento gentil.
Euterpe estava de pé, inquieta, observando cada pequena reação da vaca. Compreendia que o animal sofria com a dificuldade de parir, portanto o pedido de ajuda era inegável. Sentia dor ao ver, nos olhos da criatura, o desespero. Não parava de alisá-la, precisava do animal relaxado e tranquilo para que o filhote saísse, mas estava difícil. Já não se importava com o vestido amarelo sujo e cheio de feno nas bordas. A única coisa que se passava em sua mente era a importância de parir o bezerro junto com a vaca.
— Muito bem, ninguém se mexe! Todo mundo quieto! – no exato momento, a vaca mugiu de dor. – Menos você, Nice, você pode mugir à vontade. – a musa virou-se para o servo – Você, pegue aquela corda ali. Erato, acaricie a cabeça de Nice.
Com a corda em mãos, Euterpe amarrou na única perna que já saía do canal de parto da vaca e enfiou o braço para, com a outra mão, sentir a posição do bezerro. Assim feito, puxou cuidadosamente a outra perna, após empurrar o corpo do pequeno para frente, e amarrou-a da mesma forma. Ao longo do processo, procurava respirar compassadamente – precisava passar os sinais de confiança para a mãe-vaca, sabia disso, pois, apesar dos carinhos de Erato, ela estava atenta a quem estava mexendo em seu canal vaginal. Ao puxar o bezerro um pouco para fora, Euterpe sentiu o rabo de Nice chicotear em sua face, devido ao nervosismo.
— Erato, precisamos trabalhar melhor isso! Acalme a Nice! – exclamou, de olhos estreitos, devido ao rabo inquieto. Não poderia tirar as mãos dali para coçar o rosto ou parar o nervosismo da vaca.
— Hmm – Erato se virou para o servo, que assistia a tudo ansiosamente, de olhos arregalados. – Senhor, acredito que sua relação com Nice é muito mais afetiva do que a minha com ela. Por que não vem aqui dizer a ela que tudo ficará bem? – por fim, deu seu mais formidável sorriso para encorajar o homem, que de olhos marejados seguiu até a frente do animal e tomou a posição.
— Ótimo, minha florzinha – Euterpe disse -, agora me ajude aqui com o rabo!
— Ui, isso tem um aspecto duvidoso... – Erato inevitavelmente comentou ao ver onde Euterpe metia as mãos.
— Oh, o que estava esperando? Estou com as mãos na vagina de uma vaca!
Durante doze minutos, Euterpe se manteve na tentativa de tirar cuidadosamente o bezerro da vaca. No entanto, toda vez que puxava um pouco mais, a mãe-vaca resmungava dolorosamente de dor. Nunca havia imaginado a dificuldade em ajudar num parto como aquele. Sentia-se tremendamente responsável por qualquer sentimento que o animal estivesse sentindo. Mesmo com toda a dedicação, não conseguia encontrar a melhor forma.
— Euterpe, ela não está relaxando... – Erato informou, preocupada.
— Eu sei, eu sei. – Euterpe respondeu, frustrada. O suor em sua testa descia sem parar, fruto de seu constante esforço.
— Acho que sei por que ela não está relaxando...
— Me diga então!
— Ela ainda não olhou pra você de verdade.
— Oh, Erato, não é hora para ser romântica!
— Mas é verdade, você bem sabe que os animais possuem sentimentos tão intensos quanto os humanos. – Erato falou manhosamente.
— Certo. – Euterpe disse, ofegante. – Tudo bem – afastou-se com cuidado, tirando as mãos lentamente, sem desamarrar a corda do bezerro -, vamos tentar então.
Erato e o servo se afastaram. Ambos perceberam o imediato, embora não total, relaxamento de Nice. A fim de dar maior privacidade à mãe-vaca e à Euterpe, os dois se retiraram para o celeiro ao lado.
— Muito bem, mamãe – Euterpe pegou delicadamente o rosto de Nice e encostou a testa acima das narinas dela -, eu sei que está com medo. Eu estaria também, porque, minha nossa, quão estranho é ter uma criatura saindo da sua vagina, certo? Mas enfim, esqueça isso. Falei besteira. Só... Confie em mim, Nice. – afastou-se apenas o suficiente para mirar os olhos do animal – Confie em mim. Vou trazer seu bebê e nem vai doer. Se doer, finja que não doeu, não me dê um coice, por favor.
Euterpe acabou rindo com a própria fala e com o sentimento satisfatório por estar conversando com um animal tão sensível. A empatia foi inevitável naquele instante. Queria, mais que qualquer coisa, trazer o filhote de Nice são e salvo e acabar com o sofrimento de ambos.
— Nice, vamos lá garota! Só eu e você agora. Estou te ouvindo, então fale comigo se precisar! – Euterpe, inegavelmente, animou-se. Sentiu que o relaxamento se estendeu a sua própria esfera e conseguiu compreender como isso poderia afetar o animal, que, sem muitas opções, estava depositando toda confiança em si. Não decepcionaria dessa vez.
...
— Euterpe?
— Oi?
— Estava dormindo?
— Claro que não.
— Então abra os olhos.
— Hmmm. – Euterpe obedeceu à irmã mais nova e se viu em meio ao feno, com o bezerro no colo de cabeça estendida, mamando em Nice, que se mantinha em pé ao lado deles. – Oh, Nice, assim eu morro de amores pelo seu bebê.
Erato riu do estado encantado de Euterpe. Era raro vê-la tão emotiva, especialmente após um esforço incômodo – embora Erato achasse que o incômodo foi apenas de início.
— Agora o deixe com a mãe para que eles criem um laço.
— Ou seja, é para eu deixar de me intrometer? – Euterpe riu naturalmente. Estava feliz com a notória realização. Ver o bezerro saudável e respirando normalmente a deixou aliviada. Quase podia sentir o olhar agradecido de Nice.
— Agradeço de coração, senhoritas. Não sei me expressar direito, mas não me caibo em palavras! – o servo, que com certeza passava da metade de um século de idade, curvou-se em respeito às duas divindades, tão espontaneamente presentes em seu celeiro.
— Senhor, foi um prazer. – Euterpe posicionou o pequeno bezerro no feno e se levantou – No início nem tanto, mas foi um prazer – sorriu, sincera.
~
Euterpe, apesar da aparência suja e desleixada, não conseguiu parar de sorrir. Percebia um sentimento diferente naquele ato. Nunca havia trazido uma criatura à vida e não imaginava que pudesse ser tão emocionante. Seres tão frágeis, embora não aparentassem, dependiam mais dos princípios da natureza do que poderia adivinhar. Dependiam, também, de certos cuidados humanos – e ela entendia perfeitamente o quão perigoso isso poderia ser.
— Erato, quer vir comigo ou vai permanecer encarando Terpsícore de longe? – perguntou ao ver a irmã parada a longos passados atrás de si. Só então percebeu que olhava para onde a irmã loira (entre algumas aspas) treinava.
— Eu vou falar com ela – e rapidamente se foi, sem sequer ver Euterpe assentir.
A musa da música, entretanto, manteve o caminho até chegar à arena dos aspirantes, onde, mais à frente, algumas ruínas serviam de base para treinamentos físicos mais árduos. E onde, também, Kárdia auxiliava alguns dos pupilos desconsolados do ex-cavaleiro de touro. No entanto, não era o escorpiano quem ansiava por encontrar.
Assim que chegou, pôde ver a irmã mais velha no alto da arquibancada, em seu momento de intervalo, observando maternalmente os pequenos e corajosos pupilos de seu falecido amigo. Polímnia apoiava o queixo nas mãos, cujos dedos se cruzavam; os braços finos e bronzeados estavam apoiados, pelo cotovelo, nos joelhos; o corpo inclinado para frente aparentava exaustão, juntamente com sua expressão que denunciava o quão longe dali seus pensamentos estavam.
Era inegável, para Euterpe, que Polímnia se esforçava para manter uma imagem confortável e acolhedora diante dos jovens guerreiros. Euterpe já havia observado que, quando diante deles, Polímnia mantinha uma postura firme e segura – e, claro, cândida -, mas ao se afastar, relaxava os ombros e deixava uma triste expressão tomar conta de sua face.
— Tola – resmungou a morena, consigo mesma, antes de dar o primeiro passo até a irmã mais velha.
— Oh, eu ia dizer que era uma surpresa lhe ver por aqui, mas – Polímnia olhou para Kárdia, a vários degraus abaixo – seria pura falta de atenção. Há muito motivo para vir aqui – sorriu gentilmente.
— Nem comece, Polímnia. Há um motivo muito maior e mais importante para eu estar aqui e estou olhando para ele neste momento. – Euterpe focou as íris azuis na irmã.
Polímnia desviou o olhar, sorrindo de forma serena.
— Estou perdendo o costume.
— De quê? De se esconder? – Euterpe se arrependeu do tom agressivo assim que falou.
— Não, de manter a medida da firmeza ideal nesses casos.
— Polímnia, não tem que manter absolutamente nada. Você está triste! É natural ceder ao desânimo!
Polímnia se sentiu refrescada com o jeito vivo e expressivo de Euterpe. Sabia que a falta de cuidado nas palavras era um traço característico da irmã mais nova e, portanto, não se sentia atingida. Gostava de ver Euterpe agindo naturalmente – e, embora desgostasse do sentimento, invejava um pouco a irmã.
— Você está certa. Eu deveria estar bem para vocês. – o tom doce de Polímnia desarmou Euterpe, que já acumulava as próximas frases prontas de efeito.
— Não, Polímnia, você deve estar bem para si mesma.
Devido ao tom de seriedade, Polímnia sentiu necessidade de sustentar o olhar de Euterpe. Quando se virou, ficou surpresa por ver um espírito mais calmo, em vez do agitado e feroz espírito costumeiro da morena.
Um saudável silêncio se instalou entre elas por alguns minutos, até que o tempo se estendeu o bastante para deixar Euterpe inquieta:
— Sabe, eu pari um bezerro hoje.
Polímnia virou imediatamente a cabeça, em completa surpresa. Euterpe riu diante dos olhos arregalados da outra.
— Deixa-me ver uma coisa – ajeitou o corpo de frente para Polímnia e trouxe seu rosto para frente, procurando um ângulo ideal para encostar testa com testa. Passou a fazer carinhos nas laterais do rosto da irmã.
— Euterpe?
— Shh... Mais um pouco só.
Alguns segundos depois, Euterpe se afastou e sorriu estranhamente.
— Foi estranho, eu sei, mas eu quis testar algo. Releve.
— Fale-me sobre isso. – Polímnia ajeitou o vestido e sentou-se melhor, pronta para prestar atenção.
— Como eu disse, pari um bezerro hoje. A mãe desse bezerro estava extremamente nervosa e sofrida, sentia uma dor enorme toda vez que mexiam nela. Estávamos todos assustados naquele celeiro e o sentimento de impotência diante disso foi devastador – Euterpe soltou os cabelos para prendê-los novamente. – Contudo, isso só nos estimulou a fazer um bom trabalho, claro. Eu não poderia desistir daquela vaca!
Polímnia soltou uma risadinha ao ouvir a última frase.
— Enfim – Euterpe ajeitou o corpo curvilíneo -, aquela vaca estava sofrendo, e muito. E todos nós víamos isso. Ela não falava, claro, mas era óbvio. Ela estava sofrendo e eu queria que parasse de se enervar para tornar possível aquele parto, mas Nice, a vaca, não queria relaxar com ninguém. Foi cansativo, sinceramente, e eu estava me desanimando cada vez mais. Cheguei a achar que não conseguiria.
— Claro que conseguiria – Polímnia comentou, carinhosamente.
— Claro que conseguiria – repetiu a morena, convencida -, mas eu não estava prestando atenção no problema. Talvez, se Erato não tivesse me dito, eu não teria captado e Nice não teria se aberto para mim.
— Qual foi o problema?
— Eu não estava realmente ouvindo-a. Não parei para ver do que ela precisava e se poderia confiar em mim – Euterpe disse. – E quando decidi vê-la de frente e me abrir com sinceridade, pude ver que a questão não era identificar seu sofrimento, mas procurar entendê-lo. Só assim eu conseguiria fazê-la relaxar.
— Sei.
— E por que estou falando isso? Bom, eu acredito que, numa metáfora um tanto estranha, neste caso, você é a minha vaca, que está sofrendo, e eu não estou ouvindo direito, embora saiba que está sofrendo – Euterpe, ao fim de sua fala, calou-se imediatamente.
Polímnia não aguentou e gargalhou alto, como há muito não fazia.
— Euterpe, não acredito no que acabei de ouvir! – exclamou, ainda rindo.
— O que foi?! Por que não? – Euterpe, levemente irritada, posou as mãos na cintura e reprovou a irmã com o olhar – Eu sei que é um tanto insano isso, mas há um sentido bem nítido por trás! Estou dizendo que quero te ouvir direito e te ajudar!
— Eu sei, mas é só que... – não conseguiu terminar a fala, pois mais uma onda de risadas fez seu corpo tremer.
Euterpe revirou os olhos e pegou as duas mãos da irmã, apertando-as firmemente até retomar a atenção para si.
— Sério, Polímnia, pare de esconder que está triste. Nós sabemos que está e apreciamos seu esforço, mas é doloroso que se isole nisso sozinha. Lembre-se de que somos mais fortes unidas. Deixe-nos olhar em seus olhos e captar o que está sentindo. Compartilhe as alegrias, mas não só elas. – o olhar cortante e, ao mesmo tempo, sentido de Euterpe só poderia exigir uma resposta.
— É claro que deixo, Euterpe. Obrigada.
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Erato sentiu uma grandiosa ira interna tomar proporção ao ver a irmã ser oprimida por algumas amazonas. Estava relativamente perto de onde Terpsícore dava socos numa pilastra devastada. Na ausência de Yuzuriha, a loira treinava sozinha e, às vezes, a ruiva se aproximava para assistir. No retorno ao Templo do Grande Mestre, Terpsícore subia com as mãos enfaixadas por plantas específicas que Erato buscava para curar as feridas adquiridas.
Naquele momento, Erato lutava contra a vontade de explodir a amazona que discursava contra a irmã:
— Espero que tenha compreendido que a tua realidade não chega nem perto da nossa. Tu não morre, não luta, não sofre, não faz nada a não ser exibir imortalidade e aparência por essas terras. Isso aqui é coisa séria, garota! – a amazona de cabelos castanhos apontou um dedo na direção de Terps e continuou: — Tu com certeza acha que está treinando alguma coisa dando soquinhos numa pedra, mas, como eu já disse, a realidade aqui é mais dura do que essa ilusão que tu nutre sobre fazer parte de uma luta. Aqui não é o teu lugar, é perigoso. Claro que não vou com a tua cara. Nenhuma de nós vai, na verdade. Talvez os cavaleiros te tratem bem, mas sabe, é uma mulher e está protegida. Não rala como nós e não perdeu metade da identidade para servir uma função. Então o que, afinal, tu faz aqui? O que acha que é tudo isso? O que acha que está fazendo?
— Eu gostaria que não me julgasse – Terpsícore disse, minimamente firme.
— Inevitável, musa. Você tá na área errada. Por que não vai nadar pelada com a tuas irmãs musas por aí? – a amazona riu ao ver a cara de surpresa da musa. – Oh, sim, as notícias se espalham. Assim como algumas outras... O santuário tem muitos olhos e bocas. Não sei se te importa ficar falada por aqui, mas tenha em mente que é quase certo.
— Achei que guerreiros e guerreiras de Athena tivessem de ser um pouco mais humildes. – Terps disse, inexpressiva. Não estava se importando tanto com aquelas palavras, já havia ouvido algo parecido de outras amazonas, principalmente em formas de cochichos ao andar por ali, mas o que prendia sua atenção era Defteros, num plano mais afastado, comendo uma amazona com o olhar feroz que Terps tanto gostava. Seu coração se abalou.
— É difícil ser humilde quando sua realidade não é nada gentil.
— Então por que não procura mudá-la? – Terps voltou a atenção à amazona.
— Meus princípios são mais nobres do que minha autossatisfação. Se a tua preocupação é viver por aí sem se importar com o mundo, musa, então saia daqui. É o melhor que faz, sinceramente.
— Não ponha palavras em minha boca, por favor.
A amazona bufou.
— Vou te explicar uma coisa -
Mas Terps a interrompeu com um falso bocejo:
— Por favor, não. Já sei que o consolo dos desamparados é a constante falação. Com licença.
Embora tenha dito com certa firmeza, por dentro sentia o coração ainda mais acelerado e o corpo vacilar aos poucos numa tremedeira instável. Antes de dar um passo, sentiu o pulso ser preso pela mão da amazona furiosa, mas não se importou, algo pior passou por sua mente após sentir uma explosão bem próxima de si e o chão tremer.
E Terps correu em direção à Erato, que estava no alvo perfeito de uma grande ruína que se desfalecia.
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Sísifo suspirou.
— Posso saber o motivo desse seu vigésimo suspiro, Sísifo de Sagitário? – Dohko perguntou, em tom de divertimento. Ambos observavam o Santuário da entrada do Templo do Grande Mestre.
— Athena está demonstrando muita força, mas não deve resistir por muito tempo – respondeu, com a preocupação em evidência na testa franzida. – A barreira criada por ela faz com que os espectros imortais não voltem à vida. Não é fácil, no entanto, ficar dias e noites com o cosmo elevado para manter esta barreira. Atena já está chegando no limite do cansaço de seu corpo e alma. É isso que está me preocupando. Temos que libertá-la dessa pressão o mais rápido possível.
Dessa vez, Dohko foi quem suspirou, ouvindo atentamente as palavras do sagitariano.
— Albafica morreu, Asmita não retornou, Aldebaran se feriu gravemente e também partiu.
— Ora, ora, Sísifo – Dohko alongou os braços para cima -, não me diga que está preocupado com o restante de nós. Subestima nossas capacidades, meu caro?
— De forma alguma – Sísifo, mais uma vez, suspirou -, porém não arriscarei subestimar as forças de Hades. Mesmo estando em uma Guerra Santa, Athena sofre com a morte dos cavaleiros.
— Você principalmente deve pensar assim, já que vem zelando por ela desde sempre.
Sísifo se afastou para mirar o céu. Aflito, observou o tom acinzentado que indicava a noite nublada próxima. Seus olhos podiam focar em algo, mas sua mente partiu para longe dali, para o dia em que buscou Sasha, impiedosamente, do orfanato em que morava, na Itália. Lembrou-se perfeitamente da expressão assustada da pequena moça e de como parecia protegida entre o irmão, Alone, e o amigo, Tenma. Viu, no instante em que ela aceitou partir com ele, que Sasha procurou amadurecer mais do que seu coração permitiria. Sentiu uma pontada no coração pela culpa de afastá-la de uma infância com queridos amigos para submetê-la a uma vida de responsabilidades e prováveis dores. Mas ela era a reencarnação da deusa, era inevitável.
— Quando Athena reencarnou na Terra, fui eu que a encontrei na Itália e a trouxe ao Santuário. Mas, agora que seu irmão se tornou Hades, fico me perguntando se tomei a decisão certa. – Sísifo coçou o espaço entre os olhos, claramente aflito. – Meu coração dói toda vez que vejo Athena lutar ocultando seus sentimentos. Ainda mais que – ergueu o rosto -, quando ela fala do Imperador do Inferno, é da mesma forma como fala de Tenma de Pégaso. É como se ele fosse apenas um garoto inocente.
Dohko podia ver a enorme dúvida que, provavelmente, havia acompanhado e crescido em Sísifo todos aqueles anos após a ida de Sasha ao Santuário. Não teve como não simpatizar com o estado do colega de luta. As intenções de Sísifo para com Sasha eram genuínas, porém Sísifo não conseguia vê-las dessa forma. E poderia ser o único, pois, para Dohko, era mais do que claro. Admirava-o pela lealdade e dedicação.
Antes que Dohko pudesse expor os pensamentos, um enorme estrondo foi ouvido longe dali, e depois outro, e mais outro...
Perto dali, duas musas corriam em direção à Athena.
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— Você não vai sair daqui, Tália! – Manigold estreitou os braços ao redor do corpo de Tália. Ela, a todo custo, tentou se soltar.
— Manigold, preciso checar minhas irmãs!
— Existem cavaleiros e amazonas pra isso. Não vou te deixar sair daqui, você só iria atrapalhar! Fique quieta!
— Manigold, de verdade, estou desesperada! Cadê minhas irmãs?
— Tália! – Manigold a virou de frente para si e a prendeu pelos ombros, fazendo-a encará-lo. – Vou te dizer o que está havendo: a barreira de Athena foi quebrada. Quem está correndo perigo realmente é Athena e, por isso, precisamos ficar aqui. Há cavaleiros pelo Santuário para ajudar os habitantes e quem quer que esteja passeando por aí. Portanto, acalme-se. Tente se conectar com suas irmãs através do cosmo ou sei lá. Mas, em hipótese alguma, saia daqui para procurá-las, porque isso só será prejudicial.
Tália passou a assentir freneticamente, assimilando tudo o que havia ouvido. Calmamente, como se experimentando, Manigold a soltou.
— Respire comigo, Tália.
— Não há tempo pra isso.
— Há sim, olhe lá. – Manigold a virou novamente para a janela de sua casa e apontou para o Relógio de Fogo. – Respire, Tália. Nada de ruim vai acontecer. E, se isso for ameaçado, nós vamos dar um jeito. Confie nos cavaleiros de Athena, musinha.
Tália novamente assentiu, enquanto aos poucos se acalmava. Parte da calma devia-se aos afagos sutis do canceriano. Entretanto, embora a insistência em mantê-la calma, a musa não deixou de ouvir o cavaleiro praguejar em direção ao relógio.
— Aquela figura no Relógio de Fogo parece ser...
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Euterpe abriu os olhos. Chocou-se ao perceber o que havia acontecido: uma explosão pegou a todos de surpresa. Olhou para o pequeno corpo que agarrava com máxima proteção e reconheceu o pequeno pupilo do ex-cavaleiro de touro, Saulo. Ambos estavam encolhidos em meio à poeira que pairava no ar, protegidos por uma sombra que se destacava da negritude do ambiente – alguém erguia-se perto deles. Kárdia. Kárdia mantinha um pedaço de pilastra distante do ponto onde Euterpe protegia Saulo.
— Euterpe, pode sair já – disse Kárdia, com certo esforço.
Euterpe, calada, levantou-se com Saulo e o puxou para fora dali, enquanto procurava por Polímnia e os demais ansiosamente. Soltou um enorme suspiro de alívio ao ver todos reunidos debaixo de uma grandiosa árvore de espesso tronco. Bendita árvore que nunca notara antes!
— Preciso que se cuidem agora, porque tenho de voltar imediatamente para a oitava casa! – Kárdia informou, com pesar e pressa. As musas assentiram na mesma frequência.
— Há algum abrigo por aqui? – Polímnia perguntou, mas ele negou rapidamente.
— Não vá para os abrigos, mantenham-se longe deles, porque, provavelmente, serão alvos de Hades. Fiquem aqui ou sigam para o leste da floresta, perto da cachoeira que conhecem. Creio que, se houver espectros, eles focarão apenas nos pontos em movimento ou onde nós, cavaleiros, estivermos – Kárdia falou tudo muito rápido, porém as duas compreenderam e assentiram com precisão.
— Certo! – Polímnia seguiu para a árvore.
Quando o escorpiano se virou para partir, Euterpe o chamou. Ele se virou de imediato para vê-la lhe oferecer um olhar duvidoso; um misto de preocupação, cumplicidade e fé. Comovido, ele apenas piscou e sorriu torto, para então se perder na escuridão.
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Terpsícore, imersa na inconsciência, sentiu o corpo queimar, como se estivesse afundando num mar absolutamente gelado, incapacitada de nadar e se mover. Aos poucos, retomando a consciência, ainda de olhos fechados, moveu as mínimas partes do corpo, começando pelos dedos. Os das mãos moveram-se suavemente, mas algo ardia em seu braço, enquanto algo queimava em suas pernas, cujos dedos dos pés não se mexiam. Ela tentou mover o quadril, mas pouco conseguiu. Uma angústia enorme a fez acordar.
Finalmente abriu os olhos e viu a escuridão. Alguns gritos de horror ecoaram ali por perto, baixos, porém fortes. Com a mente estimulada pelos fatores, Terps procurou por Erato e se deu conta de que estava perto de uma depressão alta de terra e grama, que levava a um nível mais baixo daquela ruína novamente destruída. Tentou gritar por Erato, mas percebeu o próprio estado de paralisia. Estava horrorizada assim como as pessoas que gritavam.
Sentiu cheiro de algo queimando e viu uma nuvem de fumaça subir aos céus. Não uma, várias.
Desesperada, tentou levantar, e finalmente gritou. O grito de dor ecoou para além do que podia imaginar. Terps virou o rosto para trás e viu o que a impedia de levantar: um amontoado de pequenas pedras havia caído próximo às suas pernas e, dentre elas, algumas certeiramente nelas. Sentiu um aroma de ferro. Sangue. Suas pernas possuíam cortes e seus braços, ralados, ardiam em harmonia com a queimação. Terps nunca sentira tanta dor.
A necessidade de encontrar Erato falou mais alto em sua mente e, num impulso, ela tentou empurrar algumas pedras que estavam em suas pernas, porém suas mãos arderam no exato momento. Olhou-as e reparou que, assim como os braços e os joelhos, estavam raladas. Deduziu que havia caído ao empurrar Erato e que, possivelmente, ela havia rolado pela depressão de terra e grama.
Terps desejou ter a lira em mãos no momento; com ela, poderia melodiar até levantar aquelas pedras, mas precisava contar com a realidade: não havia lira.
Terpsícore, então, não fugiu do possível: concentrou-se em um mantra e, dentro de si, procurou coragem para encarar a dor que teria ao levantar as pedras por si só. Assim o fez. Uma a uma, tirou as pedras medianas e agradeceu por não ter sido algo maior e drástico. Podia sentir as pernas já não tão dormentes, mas também podia sentir a dor aumentando. Provavelmente, o pé estava quebrado ou com uma grave torção. A dor era grande, porém a mente a distraía com o foco em Erato e na respiração e Terps aproveitou para se erguer lentamente. Nas primeiras quatro vezes, caiu e chorou por não ter força o suficiente. Pensou nas fortes amazonas que, certamente, resolveriam a situação num piscar de olhos.
Percebendo que não conseguiria ficar em pé, encurtou o vestido, dobrando-o à altura dos joelhos para protegê-los, e engatinhou até a margem da depressão. Tentou fortemente ignorar a carne viva.
Outro grito de horror escapou de sua boca ao ver Erato caída a metros abaixo. Terps logo pôs-se a descer, com enorme dificuldade, sem conseguir frear os movimentos e já imaginando uma queda semelhante – o que apenas aconteceu quando estava próxima ao corpo da irmã mais nova. Para sua felicidade, Erato estava viva e respirando normalmente.
Terps chacoalhou o colo da irmã.
— Erato?
A musa da poesia romântica abriu os enormes olhos vermelhos e confusos e mirou Terpsícore. Viu os cabelos loiros emaranhados e cobertos de sujeira, assim como o vestido verde-claro que a irmã vestia; além disso, possuía uma bochecha inchada e um pequeno corte na sobrancelha do mesmo lado; não conseguiu ver a vermelhidão do corpo dela, porém identificou que sangue escorria de alguma parte. Perplexa, Erato se ergueu e exclamou de dor.
— Minhas costas doem... – resmungou baixo, contorcendo-se numa careta que fez o coração de Terps se apertar.
— Erato, eu vou nos levar para cima, mas preciso que você se apoie em meus ombros ou que suba em minhas costas, se conseguir.
— Vá sem mim...
— Não é hora para dramas, florzinha – Terps disse, ofegantemente. – Precisamos sair daqui o mais rápido possível. Não sei se tenho forças para subir e chamar um cavaleiro. E é perigoso te deixar aqui sozinha.
— Eu sei... Ai – Erato respirou fundo. – Terps, o que faremos?
— O que eu disse. Suba.
Terpsícore não tinha certeza se ia conseguir subir de volta com Erato nas costas. A subida não era íngreme, porém seu corpo doía incalculavelmente e não sabia como lidar com isso. Ainda assim, precisava tirar a irmã dali. E ela sabia que não tinham forças para se mover pelas poucas árvores que ali havia. A opção era subir até as ruínas e, de lá, solicitar ajuda de alguma forma. Ou seja, a primeiro passo, teria de absorver o máximo de força que seu cosmo poderia oferecer.
Quando Erato finalmente se encaixou em suas costas, Terps respirou fundo, segurou as mãos da irmã com uma das suas e a outra usaria como apoio, acendeu o cosmo e impulsionou o corpo para cima. De quatro, começou a subir.
. . .
— Sabia!
Terpsícore ouviu alguém gritar de longe e se aproximar correndo.
— Senhorita Terpsícore – a voz jovem chamou. – Senhorita Terpsícore, está tudo bem! Abra os olhos, está tudo bem.
Só então ela percebeu que soluçava alto e chorava de dor enquanto mantinha o cuidado para não derrubar Erato. Reconhecia a voz que falava consigo, porém ninguém vinha em mente.
— Terpsícore.
Como se não fosse o bastante, Terps endureceu e vacilou, quase derrubando Erato. Alguém foi mais rápido e segurou-a. A loira quis se revoltar, mas não possuiu forças. A segunda voz que havia lhe chamado ela conhecia muito bem. Portanto, abriu os olhos.
— Senhorita Terpsícore, deixe-me levar Erato para cima. – Régulus de Leão pediu, visivelmente transtornado com o estado da musa que tinha em mãos. A mais nova estava desacordada.
— Não... – a mão da musa levantou apenas para apalpar inutilmente o ar. Não se ergueu o bastante para alcançar a irmã. Estava a um ponto de perder a consciência devido à dor e à exaustão.
— Terpsícore – Defteros novamente a chamou.
— Não... – Terps sentiu o cosmo enfraquecer lentamente e as pálpebras lutarem contra a inconsciência. – Erato...
— Erato já foi levada – Defteros olhou severamente para Régulus e este, após o recado, partiu imediatamente. – Agora é sua vez.
Ao menor movimento dele em sua direção, Terpsícore gritou de raiva e se afastou. Sentiu mais dor ao fazê-lo, mas de forma alguma cederia à falsa gentileza do geminiano. Estava machucada por fora, mas não provocaria as feridas de dentro.
Defteros rosnou, frustrado.
— Não seja teimosa! Está sangrando, precisa ser vista agora mesmo e precisamos sair daqui! – igualmente com raiva pela intolerância da musa, Defteros tentou nova aproximação.
— Não toque em mim! – iniciou com um grito, porém foi perdendo força na voz: — Me deixe aqui, quero descansar um pouco. Preciso descansar...
— Não há tempo para descanso.
— Então vá embora, não estou querendo que fique. Estou falando sério. Vá embora.
— Está sendo burra, Terpsícore, burra! – suas mãos se fecharam em punhos diante da teimosia dela.
— Fui burra desde o princípio, disso eu já sei. Já me disse muitas vezes e nenhuma foi esquecida. Agora, vá embora, cavaleiro. – Terpsícore sentiu os dentes rangerem. O corpo parecia dar sinais a cada segundo de que precisava de repouso absoluto, porém a mente agitada dificultava qualquer tentativa. – Eu só quero ficar sentada aqui, só isso.
Ela sabia que estava sendo burra, mimada, ingênua, tola por se arriscar e mais ainda por responder a cada frase do geminiano, sentindo o coração bater feliz pela atenção. No entanto, diferentemente de antes, não cederia a ele, não o queria por perto naquele momento. Queria ficar só e encolhida em algum canto. Estava triste, apavorada, com dor e medo.
— Pois bem, fique aí. – Defteros disse, antes de sumir na escuridão.
Terpsícore suspirou aliviada, poderia chorar à vontade por tudo. Embora sentisse vergonha por chorar tão facilmente, compreendia que isso não a tornava menos forte ou firme. Sentiu-se orgulhosa por conseguir salvar Erato de alguma forma, então, pensou, estava tudo bem chorar. Ela merecia aquela limpeza da alma.
Perto dali, camuflado na escuridão das ruínas, Defteros aguardava pacientemente o momento em que Terpsícore desmaiaria de exaustão, para então levá-la com segurança.
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Minutos antes das explosões
— Não pode ser...
Sasha observou o céu, perplexa. A incredulidade de seus olhos foi rapidamente afastada por uma enorme rachadura na barreira, seguida de uma luz intensa e agressiva.
Um grito profundo se libertou em Sasha e deu espaço à sua queda. No chão, cabisbaixa, sentiu dois pares de mãos a levantarem suavemente.
— A barreira... – a deusa sussurrou, observando obsessivamente o rompimento em cacos.
Urânia e Clio se puseram firmemente ao lado dela e viram Atlas surgir a alguns metros, preocupado.
Hades, em seu semblante prepotente, observava do alto do Relógio de Fogo. Em sua face, a satisfação estava estampada. E, com uma aveludada voz, finalmente falou:
— Fazia tempo que não nos víamos, Athena.
— Você é... – Sasha mal conseguiu processar o que viu. A verdade pareceu absurda demais. – Meu irmão.
Hades sorriu perversamente. Um brilho diferente apareceu em seus olhos azuis cortantes.
Urânia e Clio se entreolharam.
— Está enganada, Athena – o imperador falou. Todo seu corpo flutuava como se nada pesasse – Sou Hades, o Imperador do Inferno.
Ele ergueu uma mão numa velocidade incomum e, segundos depois, explosões provindas de roxos e fortes raios ocorreram em diferentes pontos do Santuário.
O coração de Sasha vacilou. O Imperador dos Infernos havia invadido o Santuário pessoalmente e agora o destruía.
— Ele veio provocar os santos de Athena – Clio sussurrou, sem desviar seus furiosos olhos de Hades.
— Uhum. – Urânia respondeu, do mesmo jeito.
No alto, Hades, pela primeira vez, desviou o olhar para as doze casas. Apenas o fez ao sentir os cosmos evidentemente agressivos dos cavaleiros de Athena. Patéticos, pensou. Mas não desprezaria tamanho atrevimento:
— Míseros Cavaleiros! Como se atrevem a atrapalhar meu reencontro com Athena? – seu olhar tornou-se intenso e o sorriso desapareceu de seu rosto. – Ponham-se em seus devidos lugares.
Uma onda agressiva emanou por toda a extensão do Santuário. Embora não sentissem seu efeito, Clio e Urânia compreenderam perfeitamente o que causava.
— É extremamente negativa! – Clio logo se pôs a falar, irremediavelmente tensa.
— Sim, é sim – Urânia engoliu em seco. Ao se virar para Atlas, viu o que já esperava: o garoto lutando contra a pressão que obrigada seu corpo para baixo.
— Urânia... – a musa da história chamou. – Olhe.
Ao se virar para frente, Urânia prendeu um grito de pavor: Sísifo encontrava-se aos pés dos poucos degraus que elevavam o altar de Athena, com o corpo igualmente pressionado para baixo.
— Sísifo! – Sasha gritou.
Urânia não conseguiu reagir ao ver o cavaleiro de sagitário lutar contra a pressão, com os olhos destemidos e determinados em direção à deusa. Perdida em medo, permaneceu observando-o e segurando Sasha firmemente.
— Estamos tão próximos, mas meu corpo... – Sísifo disse, com dificuldade. Sentiu o coração parar rapidamente ao ver Hades se aproximar de Athena. Não poderia deixar o desespero tomar o lugar de sua razão, mas era desafiador quando Sasha corria perigo.
— Agora, não existe ninguém nas doze casas que possa se mexer. – Hades disse, encarando-a profundamente.
— Está nos ignorando? – Clio se meteu, indignada.
— Não, simplesmente não me importo com vocês. Musas não me ameaçam, são apenas inconvenientes – respondeu ele, calmamente, sem desviar os olhos de Sasha. – Faz mais de duzentos anos que não nos vemos, Athena.
— Meu irmão... – Sasha piou, tristemente.
Hades encarou-a com certa irritação.
— Não sou mais seu irmão.
— Isso não é verdade! – a deusa gritou.
Clio e Urânia ergueram-se, completamente alertas.
— Por acaso perdeu a memória? – Hades reduziu o tom. Sua voz remetia a alguém que desfrutava de um saboroso momento. — Entre nós dois, só existe uma antiga história de confrontos.
Sasha suavemente empurrou as duas musas para longe e se ergueu da mesma forma. Clio e Urânia não se opuseram, porém mantiveram a guarda a dois metros da deusa.
A mente de Urânia não conseguia evitar pensamentos sobre o estado de Sísifo. Ela estava indiscutivelmente presa com ele. No outro lado, a mente de Clio não parava de trabalhar em busca de uma solução. Observava atentamente cada detalhe e tentava se lembrar de tudo o que havia conhecido e lido sobre os cavaleiros de Athena e a Guerra Santa. Não aceitaria simplesmente ficar ali como figurante. Se não houvesse um sentido para sua estadia enquanto musa, criaria um.
— É burrice ficar presa às lembranças de sua vida como uma mortal. – Hades continuou: — Qual o sentido de viver carregando a dor e a tristeza da mortalidade?
A suavidade com que o Imperador do Inferno flutuava, juntamente com seu traje esvoaçante, passava uma impressão de calmaria que deixava Clio sob alerta. Sentia que a ilusão criada pelo Imperador poderia se transformar numa desagradável explosão ali mesmo, pondo em risco a vida de todos. Não duvidada de Hades, mas não duvidada porque mal havia pesquisado sobre os escrúpulos – ou a falta deles — do deus. Nunca havia imaginado que ele se apresentaria pessoalmente. Por isso, Clio se sentia na obrigação de encontrar uma solução para amenizar o que pudesse.
De repente, algo acendeu na mente da musa da história e criatividade. Se, como Urânia havia dito, tudo na Terra era feito de pó estelar, aquele que conseguisse manipular, o mínimo que fosse, as películas atômicas invisíveis nas camadas terrestres poderia causar ou até evitar algum estrago, dependendo da magnitude do ato. A negatividade da onda emanada por Hades só poderia ser amenizada por um confronto através de outra onda, composta por positividade. Afinal, aquele era o espaço terrestre, das espécies mortais, não divinas.
Clio olhou para Urânia e quase a amaldiçoou por tamanha distração. Fechou os olhos e procurou a atenção da irmã através da ligação harmônica que tinham, até perceber o rosto virado e indagador da irmã. Clio não perdeu tempo em passar, da mesma forma, a lógica que lhe havia ocorrido.
— Aqueles dias de nossa infância jamais voltarão, por mais que deseje permanecer humana. – o Imperador proferiu, dos ares.
— Por acaso eu fui o responsável por tomar esses dias...
Hades se virou ao ouvir a voz desconhecida.
Sísifo, com esforço, ergueu-se alguns centímetros e encarou o Imperador:
— ...De vocês?
Sísifo podia sentir a áurea celestial que provinha de Urânia, a alguns metros de onde estava, e por dentro sorria. A onda que a musa emanava era tão forte que, mesmo vacilando, conseguia causar enorme estímulo em seu corpo. A enorme vontade de levantar para lutar. E o que mais o incentivava era o fato de que não estava, nem nunca estaria, sozinho.
Embora não conseguisse se mexer o bastante sob a esmagadora pressão, Sísifo originou o arco no pulso esquerdo da armadura e a flecha no interno de suas costas. Com um esforço maior, colocou-se em posição para atirar. Em seu olhar, havia um misto de raiva e determinação, e, em sua mira, ninguém mais que o Imperador do Inferno.
O coração de Urânia vacilou perante a imagem do sagitariano. Buscou socorro nos olhos de Clio, porém viu que a irmã igualmente se surpreendeu com a atitude do cavaleiro. As duas sabiam o que provavelmente aconteceria, não eram tolas, poderiam fazer o mesmo diante de um suposto ataque humano.
— Como ousa apontar uma flecha contra mim? – Hades se virou lentamente. Sua voz era de um ofendido, no entanto isso rapidamente se anulou.
O imperador havia percebido a intervenção da onda de Urânia, mas não era nada com que não pudesse lidar. Preparado especialmente para o cavaleiro de sagitário, ele emanou em maior intensidade uma nova onda agressiva que certamente alterou articulações ósseas. Porém ficou surpreso ao ver que o cavaleiro se manteve em pé, e, pela primeira vez, prestou atenção em suas feições:
— Lembro-me de seu rosto. Se não me engano... Você é o homem que levou Athena do vilarejo há cinco anos.
— Era mais que minha obrigação – Sísifo começou, com a voz vacilando: — trazer a pequena Athena... ao Santuário para proteger sua vida. Contudo, agora eu penso... Athena, por qual motivo você renasceu ao lado de Alone e de Tenma? Agora, creio que você quis dedicar toda sua curta vida como humana... para proteger o jovem que se tornaria o Imperador do Inferno.
Sasha não desviou seus os olhos de Sisífo uma única vez em meio às palavras. Sentiu o coração se apertar diante da enorme angústia dele para consigo mesmo. Quis, mais do que nunca, trazê-lo para seus braços e ajudá-lo e recuperar-se do arrependimento, que agora se tornava claro.
— E o que tem isso? – Hades perguntou, sorrindo severamente. – Aquele amor todo tornou-se inútil agora que me transformei em Hades.
— Está enganado, Hades – Sísifo disse, sentindo a flecha tremer entre as mãos, porém mais determinado do que nunca. – Para nós, cavaleiros, o amor de Athena sempre será nossa esperança! – sem mais hesitar, deixou a flecha livre para seguir seu alvo.
— Não! – Urânia e Clio exclamaram.
Hades sorriu, sem se mover um centímetro.
— Tolice.
Numa velocidade incomum, absorveu a flecha por inteira e a atirou contra o atirador. E ela só parou ao perfurar armadura e peito do sagitariano.
Ao ver Sísifo tombar no chão, Urânia sentiu a voz abandoná-la.
— Hades... – Athena sussurrou e, furiosa, ergueu o báculo em direção ao Imperador: — Hades!
— Isso mesmo – ele sorriu, satisfeito. – Finalmente está se mostrando uma deusa guerreira. – à sua frente, sua espada originou-se.
Clio observou os dois deuses se encararem com ferocidade e ira. Ambos com poderosas esferas cósmicas em volta, emanando mais e mais poder, cultivado pelo o que sentiam naquele momento. Hades e a ansiedade em reencontrar a rival; Athena e a determinação de combater aquele que queria causar o maior dos sofrimentos em seu protegido mundo. A linha tênue entre a explosão de ambos era quase visível e parecia totalmente controlada, pelos dois, ao mesmo tempo. Um movimento destoante de um causaria a iniciativa de ataque do outro. Ninguém poderia interferir naquele meio conflituoso.
Entretanto, Clio estava errada.
Quando menos esperava, um brilho forte, imediatamente identificado como um teleporte, surgiu exatamente no meio daquele início de confronto, acarretando todas as atenções possíveis. Segundos depois, Tenma de Pégaso apareceu, protetoramente, diante de Athena, com um excêntrico rosário em mãos.
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