EmMusas - The Lost Canvas
13 A primeira vez do nome
Notas iniciais

Capítulo 13
Abriu os olhos lentamente, recuperando a nitidez da visão aos poucos. Podia deduzir onde estava, mas sentia uma pequena dor de cabeça que a impedia de procurar por mais informações a respeito de seu estado. O que havia feito para acordar assim? Num mísera tentativa, Mel se reergueu, mas perdeu forças em segundos, sendo amparada por Redka.
– Graças aos deuses, você sobreviveu mesmo! – exclamou ela, arrancando uma reclamação de Mel devido ao volume da voz. – Desculpe-me!
Ajudando a colocar a amiga sentada, a florista franzia os lábios na tentativa de impedir o turbilhão de perguntas que tinha a fazer; vendo o estado da musa, conformou-se de que deveria esperar.
Mel passou a mão pelo rosto e sentiu umidade. Suor. Ela estava suando. Recuperada da visão, olhou o espaço à sua volta até parar no rosto da amiga ruiva.
– Eu sobrevivi. – disse baixinho, quase inaudível. – Eu sobrevivi! EU SOBREVIVI!!! – gritou. Impulsivamente, levantou-se do banco onde estava deitada e sentiu tontura de imediato, caindo para trás e sendo novamente amparada por Redka.
– Cuidado, Mel, você está debilitada.
– Porém viva! – Mel não continha a alegria. Conseguiu tomar um elixir inteiro (por menor que fosse o vidro) de Hortência e sobreviveu sem flagelas. – Quanto tempo passei desacordada?
– Mais ou menos uma hora.
– Céus! Será que Clio já saiu da reunião?
– Sério? É com isso que está preocupada? – perguntou a ruiva com cara de incredulidade, o que Mel achou engraçado. – Quero saber como se sente, o que sentiu ao longo dessa uma hora. Apagou de vez? Sonhou? Teve formigamentos dolorosos? Deixe-me ver uma coisa. – tocou na testa da amiga. – Ai! – retirou a mão bruscamente.
– O que foi?! – perguntou a musa preocupada, observando a amiga balançar rapidamente a mão.
– Senti um choque quando lhe toquei... Cheque sua temperatura para mim.
– Hmmm – Mel levou as costas da mão direita na testa. – Normal.
– Como é possível? – Redka mantinha os olhos curiosos em cima da amiga.
– Não me interessa. Quero só descobrir o que mais é possível com essa ideia!
Mel não comentaria com Redka as mudanças que sentia no corpo por medo de fazer a amiga voltar atrás no plano, mas poderia ponderar cada parte de seu corpo que sentia diferente. Para começar, havia sim um formigamento, cuja localização se limitava nos braços e pescoço; sentia a respiração mais amena e uma leve pressão nos ouvidos, mas nada muito relevante aos olhos dela. Obviamente, sentia um gosto diferente na boca, como se estivesse bebendo continuamente o conteúdo venenoso. Além disso, uma tontura acompanhava seus movimentos, por mais singelos que se mostrassem.
~
O sol já dava espaço para a lua no entardecer do dia, deixando a vista do céu em um belo degradê. Tália viu alguns cavaleiros de bronze finalizarem seus treinos em locais alternativos – às vezes, a arena e o coliseu estavam lotados, assim como as ruínas. Saltitante, seguiu até o início das doze casas, mas perdeu o foco assim que foi levantada pela cintura e girada no ar.
– Ah! O que foi isso, cavaleiro? – perguntou confusa, assim que foi posta no chão por Manigold.
– É como vou te abordar se continuar fugindo de perguntas curiosas!
– Não tenho a mínima obrigação de falar sobre o que me compõe, e nem pense em procurar respostas nas minhas irmãs, pois todo conteúdo que envolve uma musa deve ser revelado por ela! – com um dedo apontando para cima, ela informou a situação sem saída.
– Certo, certo, não tem obrigação. – ele bufou, revirando os olhos. – Mas eu queria saber...
– E eu queria deixar de ouvir perguntas curiosas. Beijos! – virou-se pelos calcanhares e se pôs a saltitar novamente, mas, para sua surpresa, foi levantada e girada novamente.
– Eu disse que faria isso se fugisse das perguntas. – Manigold, dessa vez, manteve a musa girando no alto.
– Não ouvi perguntas, Manigold! Me desça, já! – pediu ela em alto tom, estava ficando tonta. Sem rodeios, ele a colocou no chão.
– Qual é o problema em falar sobre sua cicatriz? Você anda com ela na cara todo o dia e espera que as pessoas não se interessem? Esconda! – brincou, a intenção da fala foi lúdica, mas pessimamente passada. Tália cruzou os braços e abriu a boca em “O”. Com isso, Manigold mordeu o lábio, reconhecendo o leve vacilo que havia dado.
– Bom, eu poderia dizer que adoraria que ela sumisse do meu rosto, mas isso seria mentira. – e se virou em direção à Casa de Áries novamente, deixando o canceriano mais intrigado impossível.
– Hey, volte aqui! Como tem coragem de falar algo assim e reclamar do interesse alheio? Você só alimentava o maldito mistério acerca dessa cicatriz! Você é estranha, Tália. – disse ele, cruzando os braços e fechando a cara.
Tália estancou, e o canceriano fez o mesmo. De repente, viu a musa se virando para ele.
– Do que me chamou?
– Oi? – fez-se de desentendido, mas sacara a pergunta. Não era bom sinal.
– Você me chamou de Tália? – perguntou, fingindo incredulidade.
– E não é esse o seu nome, musinha?
– Não! Nem adianta mudar para “musinha”. Você disse meu nome! – Tália, sem perceber, abriu um grande sorriso, para a surpresa de Manigold.
O cavaleiro não sabia se já havia visto a musa sorrir daquela forma; tinha se deparado com sorrisos atrevidos e brincalhões, mas, animados daquele jeito, provavelmente não. Parara por breves segundos para analisar tal ato, o sorriso da musa da comédia era extremamente agradável e passava uma docilidade sem igual; parecia conter a energia certa para lhe fazer sorrir também. E, inevitavelmente, ele sorriu.
– Só por hoje, vou deixar você se safar com essa. Já ganhei quando você disse que sou a primeira coisa que aparece na sua mente quando acorda mesmo... – enchendo o peito, ele se juntou ao lado dela.
– E você acreditou? Mas como é convencido! – ela riu, estava feliz, animada. Havia sido chamada pelo nome pelo único cavaleiro que não a chamara pelo nome.
Manigold viu a musa corar levemente e riu consigo mesmo. A musa da comédia estava totalmente sem graça diante de si, era fato.
– Vou lhe acompanhar até a sua casa por pura gentileza, portanto, continue me chamando pelo nome. – ela disse, tentando mostrar o mesmo semblante convencido.
– Ah é? Então lhe acompanharei até o Templo do Grande Mestre, porque, além de gentil, costumo atender pedidos alheios.
– Espero que não esteja insinuando que sua companhia é um pedido meu, senão arrumarei um apelido para você tão ruim quanto “musinha”. – alertou ela, fazendo os dois sorrirem levemente. Pareciam se entender muito bem dentro da relação que criavam aos poucos...
~
– El Cid, está tudo bem? – perguntou Clio percebendo as expressões duras do cavaleiro. Ele não falara uma palavra desde o episódio com a garota de nome Cléo. El Cid mal olhara para Clio tamanho era sua vergonha pelo descabimento da ex... Ex o quê? Ainda se perguntava o motivo do ciúme evidente da garota.
– Estou bem. – respondeu seco. – E você? Espero que não esteja cansada.
– Estou bem também. – sorriu, tentando amenizar o clima. Por mais que tivesse observado o comportamento recatado do cavaleiro de capricórnio, não era agradável passear tendo-o assim. – Cavaleiro, gostaria de fazer alguma pergunta a mim?
A pergunta o pegara de surpresa, ainda mais quando sua intenção lhe era estranha. Após alguns segundos em silêncio, ele perguntou:
– Esses colares que usam... Significam o quê? – era uma pergunta que já havia ouvido pela boca de muitos no Santuário e, de repente, lembrara-se dela.
– Posso falar do meu apenas. Como pode ver, é um simples vidrinho com um conteúdo azul – disse ela, pegando o pingente para colocá-lo em foco. -, mas possui um valor simbólico muito especial, pois gosto de dizer que tudo o que aprendo com as experiências empíricas fica guardado aqui dentro. Pertinho de mim. – fechou as mãos envolvendo o pingente e puxando-o para si. Clio realmente gostava de seu colar.
– Interessante. – e era mesmo, por mais que não parecesse pelo tom de voz de El Cid.
– Eu acredito piamente que esse conteúdo azul é a junção de todo o conhecimento que adquiri no decorrer do tempo, só não tenho coragem de quebrá-lo para ver como ele se pronunciaria. – Clio riu da própria viagem, mas era gostoso, afinal, permitia-se nessas horas.
Realmente, o pingente era bonito, mas nada roubava mais atenção naquela musa do que os olhos profundos cor-de-mel; fisgavam qualquer ser que os visse despretensiosamente, como se quisessem hipnotizar. Olhos profundos numa musa que parecia tão transparente. Além dos olhos, o aroma da musa também era atraente, quase inebriante para certos cavaleiros... A áurea etérea, digna de uma Musa, não era tão intensa quanto a de Urânia, mas tão envolvente quanto.
El Cid, após todas as observações, sacudiu a cabeça reprovando a enorme atenção que havia dado àqueles detalhes. Não se deixaria envolver pelos comentários de seus companheiros.
– Diga-me, El Cid, algo que lhe agrada. – pediu ela enquanto admirava a estética medieval da vila de Rodório. O cavaleiro engoliu seco, não tinha o que responder.
– No momento, não sei responder. Mas sei que me agradaria chegar ao meu objetivo quanto ao nível de meu golpe máximo. – comentou sorrateiramente. Estranhou-se por falar tranquilamente sobre isso, mas não estenderia o assunto, afinal, teimava em achar que já devia ter atingido o poder máximo de sua Excalibur. Não era algo do que se orgulhava...
– Entendo.
– Receio que falta... – virou-se para ela naturalmente. – Inspiração.
Clio devolveu a virada e o fitou com os olhos tão falados. El Cid tinha traços rígidos no rosto e uma expressão quase infeliz, mas sua beleza era indiscutível. A musa, por um segundo, sentiu-se engraçada por não ter reparado nisso antes. Aliás, mal observara os cavaleiros de ouro, preferia permanecer pela vila, mesmo tendo atenção e gentileza de todos. Talvez devesse repensar seu gasto de tempo e conhecer melhor o local onde era convidada.
Chegando à loja de flores, os dois entram anunciando sua chegada e Redka os recebe rapidamente.
– Clio! – abraça a musa, que retribuiu com a mesma intensidade. – Que bom que está aqui, queria vê-la!
– Pois sim, peço desculpas por não ter vindo mais cedo.
– Ah, tudo bem! – Redka respondeu. Realmente, estava tudo bem, só não estaria se Clio tivesse aparecido mais cedo e visto as duas darem uma de alquimistas e beberem veneno, mesmo tendo sido só Mel, Redka era cúmplice.
– Onde está Mel?
– Estou aqui! – disse saindo dos fundos da loja, cuidando muito para não cambalear. Envolveu o ombro da irmã com um braço, mas foi afastada rapidamente. – O que foi?!
– Senti um choque! – reclamou Clio, assustada, mas encarando a irmã profundamente. Mel arregalou os olhos em resposta, mas, antes de falar algo, foi interrompida.
– Ah, erro meu. – Redka interveio, colocando as luvas de trabalho nas mãos. – Quando mostrei à Mel minhas especiarias, ela acabou se distraindo e esbarrando o braço numa venenosa, então, consequentemente, a ardência que ela está sentindo – olhou para Mel que entendeu que deveria agir como tal e passou a coçar o braço. – é sentida por quem ela toca. Mas não há com que se preocupar, passa rápido. – deu seu melhor sorriso, sentindo-se mal por mentir para uma de suas novas amigas. Descontaria em Mel depois!
– Exato! – Mel assoprou o braço, fingindo alívio. – Vocês vieram me buscar? Estava me esperando até agora? – estreitando os olhos para Clio.
Clio não era boba, percebeu que Melpomene estava prestes a insinuar algum envolvimento seu com o cavaleiro de capricórnio, e também percebeu a preocupação repentina de Mel com o braço. Algo parecia incerto ali.
– Pois bem, viemos e estávamos. El Cid justificou a necessidade de uma proteção maior enquanto estivermos por aqui, então venha conosco que já está tarde. – disse Clio sem rodeios.
Após a despedida, antes de sair, Mel se curvou para o ouvido de Redka.
– Estou impressionada, vou usar essa justificativa. – a fala saiu quase um sussurro para a ruiva, que já estava aflita.
– Ainda bem porque foi essa a intenção.
– Amanhã apareço de novo! Se puder, prepare outro. Começarei a pagar pelos serviços, amiga! – dando a piscada final e saindo sem deixar Redka responder.
~
– Tá, já cheguei, estou abrindo a gaiola, pode voar de volta para a sua casa! – disse Tália, assim que pisou no último degrau da 13ª Casa. Virou-se para Manigold e balançou a mão perto do rosto dele. – Xô!
Manigold não conteve o riso. Era visível que o jeito lúdico dela aflorava mais em sua presença — e ele adorava. Não sabia dizer o que ela parecia, a via de uma forma diferente, não identificável, que intrigava seu estado espiritual. Talvez o jeito espontâneo dela...
– Limpe essa baba. – riu ela, observando o canceriano viajar fora de órbita. Nem imaginava o que ele estava pensando, mas tiraria sarro do mesmo jeito.
– Ora “baba”. – passou a mão na boca. – Tem baba nenhuma, você ainda não chegou lá, musinha.
Levemente, as palavras dele a chatearam, mas nada muito crucial.
– Certo, então o que faz aqui ainda? Boa noite, cavaleiro. – quando iniciou a virada de costas para ele, foi impedida pela mão pesada em seu antebraço. Manigold a puxou com delicadeza, até ficarem com os rostos próximos. O cavaleiro, pela primeira vez, sentiu o aroma suave da musa da comédia, sendo mais um fator que o agradou.
– Eu fiz a gentileza, gostaria de ser retribuído. – Manigold sabia que ela entenderia sua intenção. Entretanto, apesar de estar satisfeito com suas observações acerca dela, não se sentia tão seguro quanto às observações sobre si mesmo.
Tudo era meio novo. A presença das musas era diferente, elas continham um tipo de encanto que se diferenciava de outras mulheres; impunham respeito sem se esforçar. Bom, claro, eram filhas de Zeus, então, com certeza, eram especiais. Mas ele não se referia a esse fato, e sim a algo mais íntimo, algo que insistisse numa aproximação maior.
Manigold percebeu que ainda segurava a musa no braço, o estranho era que ela não estava reclamando e nem se movendo. Tália quieta era novidade. Ela parecia observá-lo de volta, então, o canceriano aproveitou que o alvo estava perfeitamente posicionado, quase esperando pela sua atitude, e encerrou a distância que havia entre os lábios dos dois. Nenhum dos dois aprofundou o beijo novamente.
– Você! – exclamou ela, assim que se afastou. O coração acelerado pedia por uma trégua. Tália pôde ver Manigold se afastando.
– Sim, eu.
Não entendera o motivo de ele intensificar o tom na segunda palavra, mas não tinha muita disposição para pensar naquele momento, pois, novamente, encontrava-se com uma sensação leve e deliciosa por dentro. Sentia como se borboletas revirassem seu estômago à procura do motivo. Aproveitou que estava do lado de fora e mirou a lua; realmente estava linda e amanhã estaria mais ainda. O luau seria muito bem recebido pelo céu que cobria o Santuário.
Sem mais demora, seguiu até o corredor onde os quartos das musas ficavam e parou assim que viu Urânia na porta do quarto de Terpsícore e Clio. Curiosa, parou ao lado. Ao perceber do que se tratava aquela incredulidade vista no rosto da irmã, Tália contorceu o seu numa expressão igual, com uma pitada de divertimento.
– Como isso é possível? – perguntou a musa da comédia, baixinho.
– Não tenho a mínima ideia. – respondeu ela.
Em segundos, as duas sentiram mais duas presenças atrás de si. Melpomene e Clio observavam a cena, juntando os rostos às expressões das irmãs. As quatro, intrigadas, questionavam o motivo de tal cena; a origem de tal enquadramento; o milagre de tal aproximação e, acima de tudo, a necessidade do enorme drama que faziam paradas na porta.
– Só eu não sei o que fazer? Sinto que descobri um mundo novo. – brincou Tália, controlando um riso.
– Deixe de drama, Tália. Não vamos mexer nelas, dormirei no seu quarto, Urânia. – disse Clio, séria. Mas, assim como as irmãs, olhava a cena estranhando bastante. – Vamos logo, deixem-nas.
As quatro seguiram para os outros quartos, deixando Terpsícore e Calíope dormindo do mesmo jeito que pararam quando se encontraram anteriormente: Terpsícore deitada, com as costas apoiada em dois travesseiros e a mão repousando no cabelo da irmã; e Calíope com a cabeça relaxada no colo e um braço descansando na barriga da loira.
A surpresa? Calíope não faria algo assim, as musas sabiam de seu pensamento egoísta e esnobe, mal gostava de trocar palavras com as irmãs. Era quase impossível que estivesse abraçada com Terpsícore.
A intriga? Por que Calíope estava assim e com uma expressão tão dura?
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