Em busca do coração perdido dos reis
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Essa é a primeira história que eu posto em muito tempo então não esculachem kkkkkk
Sinto cheiro de terra úmida e ouço o som da chuva, tenho a terrível sensação de que acabaram de tentar me enforcar, sempre odiei esta sensação. Por que não vejo nada? Tenho quase certeza de que não sou cega, tento abrir os olhos e encaro um pedaço de tecido marrom sujo, como um saco de batatas, cobrindo o que parece ser um céu nublado. Sinto frio e o ar úmido grita que vai chover. Vozes roucas falam algo ininteligível, espero estas diminuírem e se extinguirem antes de sequer me mexer. Quando elas somem respiro fundo e me sento.
Quando tiro o saco de tecido da cabeça fico um segundo ofuscada pela luz do dia, logo depois vejo o que me cerco, eu estou numa clareira, está frio e a chuva está começando a cair, e a vegetação que me cerca é de pinheiros e salgueiros baixos e outras árvores que eu não reconheci; pela luz do sol que está bastante encoberto posso dizer que ainda é cedo.
Eu ainda estou sentada na lama quando pulo de susto com um relâmpago e olho ao redor e para o seu ainda tentando me lembrar de algo sobre tempestades: não é bom ficar em terrenos abertos ou embaixo de arvores.
Ótimo! –penso com raiva- O que eu faço agora?
Depois de uma adorável batalha interna, na qual eu me xinguei de idiota nada menos que cinco vezes, me levanto.
Decido sair andando pela floresta (o que é sempre um ótimo plano, afinal porque não?) e penso a respeito de como fui parar ali, sinto uma fisgada na cabeça ao notar que eu não me lembro, paro e sento numa raiz de árvore que se encontra perto de mim para que eu possa pensar. Os últimos meses foram apagados da minha memória. Eu me lembro do meu nome (Hout Canice), lembro minha idade (catorze anos), me lembro de quase tudo menos de como fui parar ali. Sinto-me como Jason em “O Herói Perdido”.
Penso em que lugar do mundo eu estaria e porque (aparentemente) queriam me matar. Será que eu estava na Ásia? Penso que lugar do mundo poderia ser tão isolado quanto aquela fantástica floresta que me cerca. Eu me levanto e continuo andando após ouvir algo a distância que me pareceu bastante ameaçador.
Estou tão perdida em pensamentos que não noto quando uma raiz prende no meu pé e me faz cair de cara no chão, me deixando com a cara suja de lama e folhas secas, estou com raiva e frio e minha máscara de lama não parece estar ajudando na acne:
—Dá pra ficar pior?!- grito- Acho que para melhorar o nosso dia nós poderemos colocar um pouco de lixo tóxico no caminho.
Ouço um riso e automaticamente fico nervosa, me lembro de uma aula sobre instintos que tive sabe-se Deus quando: no momento em que ficamos nervosos recebemos uma carga de adrenalina e ficamos alertas. Eu me viro devagar na direção do som e vejo uma criança que aparenta ter oito anos: cabelos negros até os ombros, olhos castanhos calorosos pele pálida como um fantasma. Só havia um detalhe que me intrigou a ponto de me escapar em palavras:
—Por que você está vestida como uma camponesa medieval? — eu sei que era uma pergunta estúpida e uma saudação pior ainda, mas eu não pude evitar dizê-la, afinal a menina vestia um vestido marrom que parecia quentinho e botas do mesmo material.
—Não seja ignorante! — a garota zombou com sua voz aguda- Estamos na era moderna na parte Norte do país- Ela revirou os olhos e falou-A propósito o que significa a palavra tóxico? -Eu olhei para ela e virei um pouco a cabeça como um filhote isso a fez rir. Então ela notou que eu estava molhada, suja e vestida com trapos num frio que beirava graus negativos então ela pareceu apiedar-se- Você deveria realmente me seguir à pensão para se vestir de maneira adequada e se secar.
Recuperei a capacidade única da fala e bombardeei a menina com perguntas:
— Como assim na parte Norte do país? Que lugar é esse? Diga-me apenas um motivo para segui-la! — penso que ela poderia me atrair facilmente a uma armadilha, ainda mais levando em conta que queriam me matar.
—Você tem alguma escolha senhorita?
—Não- admito
—Pronto! Já basta de razões para seguir-me!
Olho nos olhos da garota e encontro um brilho de divertimento ali, eu me pergunto, apenas por um instante o porquê disto, mas aí me lembro que estou com folhas e lama na minha cara. Ainda me sinto desconfiada da garota, mas falo:
—Que país tinha citado?
—Como assim que país? Não sabe onde estamos?
—Não, eu não sei
—Pois bem eu te apresento- ela empertigou-se de maneira engraçada fazendo-a parecer um passarinho e falou- Seja bem vinda ao grande Império das Eras, aqui é a região norte, a província da era moderna. -ela sorria e gesticulava como se tivesse ensaiado. Perguntei-me mentalmente se deveria bater palmas então eu noto que começo a gostar daquela estranha garotinha risonha.
A garota passa as mãos pelos braços com frio e diz:
—O que acha de me seguir até a pensão logo de uma vez e parar de besteiras?
—Eu me rendo, parece que vou seguir você até a tal pensão afinal. Digo sorrindo.
A garota solta um riso e me pede para segui-la tento não parecer nervosa, mas não sei se consigo evitar, afinal eu estou seguindo uma garota estranhamente pálida e risonha por uma floresta escura logo após terem tentado me matar, então faz um pouco de sentido eu me sentir a garota loura e burra do filme do terror.
A floresta fica mais amistosa à medida que o dia clareia e parar de chover limpando a névoa sinistra que pairava sobre o local a minutos atrás, ainda assim está tão frio que vejo minha respiração condensando no ar. Perguntas giram ao meu redor e eu me sinto confusa com tudo que eu considerava uma realidade até então. Ainda assim a maior pergunta que possuo é: que diabos de lugar é este?
Seguimos durante um tempo na floresta, poderiam ter sido horas ou minutos, eu não teria certeza se me perguntassem. Para me distrair olho o jeito que a luz do sol se infiltra delicadamente nas folhas das copas das árvores. Era tão bonito que me lembrava as ninfas da mitologia grega. Eram criaturas ligadas a natureza: risonhas, bonitas e amantes da natureza. Como modelos hippies mágicas.
Começa a chover de novo e eu começo a me sentir mais irritada afinal estou encharcada e cansada. Olho para a paisagem ao meu redor e começo a divagar me lembro da última vez que os vi, a última vez que vi os meus “amigos” juntos.
Estava de um calor agradável e garoava delicadamente durante todo o dia o clima não havia mudado, eu me sentia feliz, o que era raro porque estava não apenas com Beatrice, Mary e Ivo, estava com os meninos. A minha relação como os meninos (tirando o Louis) era deplorável, pois na realidade estes apenas me aturavam por eu ser a parte ruim do pacote Beatrice-Ivo-Hout, mas já tinha aceitado. Ou ao menos era isso que eu queria.
Depois que a chuva começara a cair mais forte entramos no apartamento do Alan íamos assistir a um filme, mas eu não me lembro agora qual era, mas eu me lembro que era bastante entediante, aqueles filmes que só garotos burros gostam. Estava “assistindo” quando Isaac me interrompeu com um sussurro ( eu tinha uma queda por ele, ele sabia e agia como se me odiasse profundamente. ):
—Você não deveria usar seu cabelo desse jeito-Olho pra os meus ombros e encaro as marias-chiquinhas de um louro quase branco- É ridículo, faz você parecer uma criança de cinco anos.
Estava cansada dele e nesse momento meu único desejo era enfiar minha mão na cara ridiculamente bonita daquele menino mimado, ainda assim só ergo a sobrancelha digo tentando soar indiferente:
—Quem decide o que é ridículo ou não?
Seu olhar se abrandou e ele sorriu e disse:
—Talvez você seja melhor do que aparenta afinal.
Desde então ele vinha me tratando melhor, me defendendo de seus amigos, até soava mais gentil.
Até que eu notei que às vezes ele se afastava sem motivo, e que talvez ele não fosse assim tão ruim. Hoje vendo como isso tudo soou ridículo me pergunto como tive coragem de desperdiçar tempo com ele. Mas afinal ele era mesmo bonitinho.
* * *
Sou brutamente tirada de meus devaneios quando, pela segunda vez em apenas um dia, eu caio maravilhosamente de cara na lama, ou pelo menos devia ser lama algum tempo atrás. A terra gelada bate na minha cara, surpreendentemente sólida machucando o meu rosto.
Deve ter esfriado muito para congelar lama, eu não devo ter notado, pois estava distraída, que é alias a minha especialidade. Atrás de mim ouço de novo o risinho e olho para a criança ao meu lado com raiva.
Ela não faz a mínima questão de parar e quando eu levanto ela ainda enxuga lágrimas dos olhos, ela se dobra e recomeça a risada quando ouvimos um barulho. Aquele barulho perfurou meus ouvidos atravessando os meus tímpanos e me lembrando de meus piores pesadelos talvez como o esquilo Ratatosk na mitologia nórdica faria. Era um grito de puro terror seguido por outros combinados ao choro da criatura.
A menina se ergue imediatamente com o rosto igual ao de um animal encurralado: desesperado, amedrontado e completamente disposto a negociar sua nova amiga para garantir sua sobrevivência. Ok, não tenho certeza quanto à última parte.
Ela sussurra ainda aterrorizada para mim, suas mãos tremem loucamente:
—Escute-me bem: não faça nenhum barulho alto ou qualquer movimento brusco a não ser que queira virar comida de monstro entendeu?
Balanço devagar a cabeça quando bruscamente o grito começa de novo, só que dessa vez ele usa palavras desconexas como se a aberração não soubesse direito o que estas significavam, mas a fera com certeza sabia seu efeito, pois todas as palavras que usava eram tão brutais quanto seu timbre de terror:
—Eles, para sempre, perdido, criança, maldição, inferno...
Ela continuou andando em direção a clareira as minhas costas, eu estava ouvindo as palavras aumentando de volume tal como a sombra que eu via no chão. Fechei os olhos e prometi a mim mesma que não choraria agora. Sinto sua respiração em minha nuca, ela não se altera. “Ela não deve ter nos notado, pois é como os dinossauros no filme do Jurassic Park”, penso antes dos meus pensamentos virarem um caos aterrorizante, mais completo que jamais tinha visto estes serem.
Cometo um erro, abro os olhos e a criatura está na minha frente: Ela tem quase 3 metros, mas está abaixada, fazendo com que seu rosto fique a altura do meu. Seus olhos são grandes e completamente negros e parecem refletir todos os meus piores medos, mais abaixo tinha sua boca, um rasgo parecendo recém aberto, sangrando e que ia de um lado ao outro do rosto da criatura com dentes que pareciam lâminas brancas. Sua pele era completamente branca como leite e seu corpo de cobra esticado que de maneira inexplicável a mantinha de pé ainda que curvada ficava atrás do rosto, era preto com mais e mais sangue e uma substância oleosa escorrendo sobre ele.
A coisa continua me encarando pelo que pareciam milhares de séculos ainda gritando palavras desconexas e aterrorizantes, quando eu começo a achar que ela sabe que eu estou lá, que ela só quer ver com eu reajo ao sofrimento de olhar em seus olhos e ver todos os meus medos. Ela simplesmente vira seu rosto para cima de maneira tão brusca que achei que tivesse sido puxado pra cima e dá outro berro de terror então sai em disparada pela floresta.
E eu simplesmente deixei que minhas pernas cedessem ao peso do meu corpo, ao peso dos meus medos e culpas. Fiquei lá olhando para o nada sem escutar nada, e surpreendentemente sem sentir nada, a única coisa que me tirou deste estado de completo torpor foi que, no fundo da minha mente, algo e disse: Ela ainda está aqui! Cuide dela!
Eu levantei devagar ainda completamente atordoada pelo medo, olhei ao redor devagar e encontrei a menina parada, olhando para o nada. Cheguei devagar perto dela para não assustá-la, e perguntei com sussurro quase inaudível:
—Você está bem?
A menina permanecia atordoada então eu toquei de leve seu ombro ela olhou para mim, seus olhos estavam ficando marejados ela estava tão pálida que lembrava a parte um filme que eu havia assistido, mas não lembrava o nome, onde a protagonista começava a sumir.
No fundo, eu queria fazer igual a minha nova amiga, simplesmente chorar e chorar, esperando que me consolassem, mas não sabendo sequer de onde eu teria que tirar força e altruísmo para isso, segurei a menina em meus braços olhei em seus olhos e falei:
—Que tal se eu te carregar até a tal pensão e você me indica o caminho?
Ela assentiu levemente e subiu em minhas costas, quase sem forças para sequer se mexer. Andamos muito, enquanto isso eu estava atordoada, não apenas graças ao meu encontro com o monstro mas também a respeito do quão forte eu poderia ser. Não quero dizer que fosse um poço de egoísmo, mas também não era nenhuma Madre Teresa de Calcutá. Mas lá no fundo eu sabia, que o que me dava dessa força eram as lembranças com meus irmãos. Ah eles!
Eu os amava mais do que tudo, por eles eu possuía uma força colossal para aguentar o que fosse. As lágrimas ameaçaram cair, mas eu não queria impedir minhas lembranças: minha família reunida, meu pai rindo de uma das minhas terríveis piadas, minha mãe me escutando, minhas primas e eu brincando de maneira infantil, porém tão real. Mas acima de todas essas, os meus adoráveis irmãos.
Andamos, e, enquanto a criança em minhas costas que me lembrava tanto meus irmãos dava a direção, eu assentia e seguia chorando em silêncio pela floresta, tal como o monstro que havíamos encontrado. Aos poucos o tempo melhorou e o clima esquentou ligeiramente, porém eu ainda tremia e notava que a temperatura era inferior a zero, foi aí que eu notei que o clima ruim, todo o frio e a chuva estavam emanando daquela terrível criatura. Esta era um poço de desespero que sugava tudo de bom que se encontrava ao seu redor.
Após essa incrível e praticamente inútil descoberta, a floresta que havia acabado de tornar amistosa ficava simplesmente linda sobre os raios do pôr-do-sol, se eu não estivesse apavorada cansada e com frio talvez eu até parasse para observar apenas por um minuto a paisagem linda que me cercava.
A fome começava a se tornar uma prioridade enquanto meu estômago reclamava numa altura que, tenho quase certeza, era recorde. Se ele assim continuasse eu temi que qualquer monstro a uma distância de humildes oito quilômetros nos encontrasse com facilidade. A menina, a pobre e moribunda menina que eu havia esquecido que carregava nas costas indicou com delicadeza um campo aberto de vários quilômetros quadrados a nossa esquerda.
Alguns quilômetros à frente se encontrava um enorme casarão de pedra rosada com, o que pareciam, milhares de portas e janelas deu um tamanho colossal ainda que a dois quilômetros de distância parecia uma construção simplesmente impressionante, haviam muitos jardins e labirintos ao redor. Mas depois de passar um dia inteiro na assustadora e linda floresta tudo aquilo a minha frente parecia pequeno e irreal.
Apenas seguimos reto por uma caminhada tão árdua que fazia os quilômetros anteriores quase parecerem aturáveis. E assim fomos pôr o que parecia uma eternidade, vendo nosso objetivo bem ali. Subindo e subindo enquanto ele não parecia querer se aproximar, teimando loucamente contra tudo que eu queria.
A cem metros da porta minhas pernas fraquejaram e eu caí, não tentei me levantar, mas por sorte (ao menos uma vez naquele maldito dia), três jovens moças correram na minha direção e me acudiram, e essa foi à última coisa da qual eu me lembro.
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