Em busca do coração perdido dos reis
2 Capítulo 2
Acordo porém mantenho os olhos fechados,depois de não ter sonho algum em muito tempo, hoje é domingo, é dia de ir ao parque.Viro levemente na cama e sinto que há algo de estranho com ela. Mesmo com os olhos fechados noto que está tudo escuro, muito mais escuro do que estou acostumada, afinal eu sempre durmo com a janela aberta.Assustada eu abro os olhos e olho ao redor, essa não é minha cama e o lugar em questão não é o meu quarto. Apesar de estar escuro eu consigo distinguir os móveis. O quarto é grande, com uma mesa, uma cadeira, uma escrivaninha e um enorme guarda roupa. A cama onde estou também é grande, de madeira escura com intermináveis detalhes. O dossel acima de mim era de tecido e todo bordado como uma tapeçaria.Não prestei muita atenção nas imagens pois alguém abriu a porta com pressa e veio em minha direção passos bastante barulhentos.
Fechei os olhos e me cobri com a manta de lã grossa que estava na cama. Uma voz dócil, feminina e jovem cantarolou:—Hora de acordar!Abri os olhos devagar com medo de ser outro daqueles malditos monstros mas a minha frente encontro uma menina normal com mais ou menos uns quinze anos, cabelos castanhos cacheados, olhos cinzentos e tempestuosos que contrastavam com sua voz e sua postura alegre. Ela usava um vestido preto e comprido de saia rodada e um avental branco.Sentei na cama e senti um frio estranho quando a manta escorregou dos meus ombros eu olhei para baixo e só aí eu notei que eu não vestia nada.Subi a manta imediatamente e corei. Parecia um pesadelo daqueles clichês estilo: estou sem calças na escola.A menina não pareceu sequer se importar com meu constrangimento, e eu só notei isso quando ela cantarolou:—O banho está pronto senhorita!Ela saiu de um cômodo cujo a porta ficava ao lado do armário, com seus sapatos barulhentos e só aí notou meu rubor. Ela perguntou:—Quer que eu saia para a senhorita poder se preparar por si só?Ela perguntou um pouco hesitante como se eu fosse incapaz de realizar esta tarefa.Eu sorri, ainda tímida, e concordei com a cabeça para a garota, que saiu do cômodo ainda sorridente.Levantei e corri para o banheiro, afinal estava frio mesmo dentro da casa.Tomei um banho muito merecido, e fiquei muito feliz com a sensação de limpeza que sentia falta. Levantei da banheira e me sequei. Quando voltei, enrolada na toalha, a moça se encontrava lá de novo.Tinha uma roupa em cima da cama: Uma saia marrom que ia até os tornozelos, uma camisa branca franzida de manga comprida,um avental claro e botas bem engraxadas.Eu pus da melhor maneira possível me escondendo atrás da toalha felpuda. Depois de me vestir me olhei no espelho, é estava bom e do meu tamanho. Me sentia bem estando limpa e vestindo roupas quentes e cheirosas.Fiz uma trança no meu cabelo que ainda estava molhado, mas não consegui prender sem um elástico.A garota olhava para o mim com um certo pesar, eu limpei a garganta:—Senhorita- ela disse- sabe se ...Ela hesitou com a boca aberta mas terminou a frase de uma maneira que não parecia se encaixar no resto:—Está pronta?Assenti com a cabeça, e, apesar de estar curiosa decidi deixar o assunto pra lá.Eu queria saber da minha jovem amiga da floresta no momento mas acima de tudo queria saber do café da manhã. Eu estava faminta.—Hum... Sem querer te incomodar mas quando vou tomar café da manhã?- pergunto ainda meio acanhada—Em breve senhorita, porém siga-me que já estamos atrasadas!Assenti com a cabeça, mas ela não deve ter visto pois já estava saindo em passos apressados do quarto, eu a segui por um enorme corredor com janelas altas, detalhes dourados e vigas de madeiras por toda a parte daquele iluminado corredor.Ela ia tão rápido que eu mal a acompanhava, o corredor ia ficando mais cheio de gente, que mal me olhava, conforme chegamos perto de uma grande escadaria forrada de um carpete vermelho que parecia macio.Descíamos com pressa a escadaria desviando de outras garotas como a que me guiava, exceto que elas não estavam por aí carregando meninas magrelas e claramente com uma expressão perdida. Chegamos ao que parecia ser o hall de entrada da casa e viramos a direita e depois a esquerda e mais um monte de vezes que meu senso limitado e bem ruim de direção não conseguiria acompanhar, por corredores intermináveis.Paramos em frente de lindas portas francesas brancas e a menina bateu devagar como se temesse que atendessem.Talvez ela temesse mesmo, e entendi esse temor quando uma mulher abriu a porta:Era pálida com um coque preso no alto da cabeça, firme em seus cabelos louros. Tinha uma aparência severa mas ainda assim era bonita.—Senhora, aqui está a visitante que tinha pedido para ver.—Obrigada Melanie, está dispensada.- sua voz era suave- Entre por favor querida- ela disse já fechando as portas.Ela sentou atrás o que parecia ser uma mesa de escritório, estantes de livros cobriam as paredes e atrás dela tinha uma grande janela que ocupava quase a parede inteira. O escritório parecia claro se comparado com o resto da casa.—Sente-se, espero que Melanie não tenha-lhe importunado muito, ela pode ser meio inconveniente mas é como uma filha para mim.– ela ria enquanto eu negava devagar com a cabeça- Então querida, nesta pensão recebemos pessoas de todo o país com muito prazer em troca que elas trabalhem para pagar sua estadia.Mas antes ainda preciso saber de algo- seu sorriso vacilou um pouco, sua voz se tornou mais séria mas ainda assim eu via em seus olhos que não queria meu mal — O que você é?
—Perdão?—Tudo bem, eu vou tentar te explicar. Isso parece meio novo pra você e não quero assustá-la. Mas primeiro eu acho indicado que vá tomar café, por Deus, você está pálida.Concordei com a cabeça e levantei da cadeira ouvindo ela arrastar no chão.Estava curiosa para saber do que se tratava mas a mulher já parecia ter se decidido. E como eu já devo ter mencionado, umas quatro vezes, estou com tanta fome que em breve vou começar a me digerir.É não deve ser muito agradável.Ela se levantou e saiu andando.—Acho que seria bom você me seguisse, não é?Sua frase sarcástica me arrancou do meu torpor, senti o sangue subindo para minhas bochechas e comecei a segui-la .Me levantei ainda envergonhada da minha cadeira que andava pelo carpete da sala enquanto ela abria as portas.Ela começou a andar pelo corredor e apertei o passo para alcançá-la .Os seus sapatos faziam um barulho abafado que era quase inaudível diante da correria das criadas no corredor.Imaginei se todos os dias estas faziam suas tarefas com tanta dedicação, á ponto de parecer pra mim que eu estava em uma colméia.A senhora descia longas escadas ,que me lembravam as de um palácio, pois eram mais grandiosas e bem arrumadas comparada com aquela que eu havia passado a não muito tempo.Virando a direita demos em uma sala de jantar com uma grade mesa e diversas cadeiras dispostas. O café da manhã sobre a toalha branca era grandioso: bolo, chá, pães e outras milhares de coisas gostosas. Sentei em uma das cadeiras e me servi de chá preto e peguei um bolinho que parecia de frutas vermelhas. -Vejo que está com fome, por favor se sirva. Como eu estava falando você não parece ser daqui por isso vou te explicar com toda a calma possível. Não costumamos receber muitos humanos na pensão, dada a região do país e outras tecnicidades destas e...Ela parou quando notou que eu a encarava como se estivesse insana. Como assim não recebiam muitos humanos?—Ah querida, não me diga que acreditava que fossemos humanos !Assenti com a cabeça devagar.—Bom, temo que a tenhamos enganado! Como falava a maioria das pessoas troca sua estadia aqui nesta pensão por serviços que uma hora ou outra irei requisitar. A maioria das mulheres acaba optando pelos serviços domésticos. Porém terei que admitir que não precisamos de serviço doméstico, pois já o possuímos em demasia. Hoje creio que vá precisar que busque para mim algo no centro da cidade, sim?Assenti com a cabeça novamente, pois aquela me parecia a única resposta possível para aquele tanto de informação que me fora jogado antes mesmo das nove da manhã, além disso aquela mulher me oferecera uma refeição e a cama era realmente confortável então me sentia em crédito com ela.—Ótimo, então termine o seu café da manhã. Melanie vai estar te esperando com as instruções no quarto.E assim saiu a dama, apressada, em meio as cadeiras da sala de jantar em direção a uma das muitas portas abertas naquela sala.Tentei digerir as palavras a pouco proferidas a mim, minha cabeça parecia rodar. Nada daquilo fazia sentido pra mim. Sentia com se estivessem sapateando na minha cabeça.Se um dia eu voltar pro mundo normal duvido que terá uma técnica de terapia sequer para tratar dos problemas mentais causados por essa aventura maluca.Mas até lá acho que terei que me contentar com minha cabeça rodando desta maneira.Terminei o chá e o bolinho em minha mão, me servi com alguns morangos que até então estavam numa vasilha no centro da mesa.Após comê-los me levantei.Sai pela porta que havia entrado, virei a direita e achei a grandiosa escadaria e assim esgotei todas as informações das quais me lembrava a respeito de como chegar no quarto.Pensei em perguntar para uma daquelas apressadas garotas que direção ficava o meu quarto mas cheguei a conclusão que para estarem tão apressadas, no mínimo tinham alguma coisa para fazer por isso, não perguntei.Subi as escadarias olhei para um lado e para outro lá em cima. Não tinha a menor idéia para onde iria, cheguei a conclusão de que viraria para a esquerda.Continuei reto por uns dois minutos até que a única opção pra mim fosse subir a escada que se encontrava na minha frente. Como eu me lembrava de ter descido uma escada pra chegar a sala de café da manhã fazia sentido subir uma pra voltar.Subi as escadas devagar duvidando da minha escolha, haviam pequenos intervalos entre as janelas estreitas da parede, em uma delas havia flores de trepadeira no canto.Decidi usar aquilo como ponto de referência.Continuei o meu caminho até ouvir um choro bem baixo que ia aumentando conforme eu andava.Até que o choro se tornou claro quando passei pela porta de um quarto. Vi cachos louros na parte de trás do cabelo de alguém pelo pedaço aberto da porta.A garota virou na minha direção e me encarou. Mal distingui seu rosto antes de correr de volta a escadaria.Deixei a teimosia de lado e perguntei a uma das apressadas moças a direção do meu quarto, ela parecia bem humorada e falante ao indicar o caminho. Sorri pra ela e segui na direção correta.Ao chegar no quarto vi Melanie arrumando a cama e me senti mal por não arrumá-la antes de sair.—Olá de novo! A propósito qual o seu nome? Havia me esquecido de perguntar!—Hout- respondi sorrindo- o seu é Melanie certo?—Sim! Bom soube que a Madame mandou que fosse ao centro da cidade buscar o pacote certo?—Exatamente—Bom eu vou lhe dar as instruções e acho melhor que ponha um casaco, está congelando lá fora!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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