Em busca de uma nova vida - 2ª Temporada
28 Voltando a normalidade
Notas iniciais
Tobias
Me sinto como merda.
Os últimos dez dias foram um borrão pra mim. Desde que a Tris perdeu o bebê, sinto como se eu estivesse em dívida com o universo, como se eu tivesse que pagar pela merda que eu fiz, e certamente isso já começou.
Eu pensei que se eu desse um tempo a ela, as coisas ficariam mais calmas. Nunca me enganei tanto. Eu a machuquei muito fundo. Ela não quer mais me ver. Está pálida e magra, seus olhos que antes eram cheio de vida, agora estão vazios. Cada fibra do meu ser queria abraçá-la e dizer que tudo ia ficar bem, mas eu sei que não é verdade. Ela está ferida e isso acabou comigo.
Eu finalmente percebi a extensão do que eu fiz com ela.
Tris me odeia.
Ouvir isso foi o pior. Trouxe uma enxurrada de lembranças à minha mente. De todas as vezes que a vi sorrir e a ouvi dizer que me amava.
Nem mesmo quando a Clarice disse que estava grávida, eu não tinha enfrentado tanta raiva da Tris. Ela nunca foi tão fria comigo. Dessa vez eu sei que a perdi.
E como se não bastasse tudo o que ela passou com o aborto, eu ainda vejo aquela maldita foto que a Nita enviou para ela do meu celular. Eu sou um idiota! Um filho da puta e idiota! Como eu fui dar carona àquela garota? Eu ferrei com tudo.
Mas, por mais que eu tenha empurrado meu casamento ladeira a baixo, eu ainda tenho um fio de esperança. E decidi que, por mais que a Tris me odeie, eu vou ficar perto dela, enquanto eu puder, até que eu seja indiciado. Não vou sair de perto dela e não vou deixar a minha filha. Não posso. Acho que eu nunca poderia.
–Como foi lá em cima? – Pergunta Christina assim que eu chego à sala. Eu a olho, sem ter o que dizer. Apenas esfrego as mãos no rosto e ela aperta meu ombro antes de se virar para Anna. –Nós já estamos indo, se você precisar de qualquer coisa, me ligue, está bem?
–Esta bem – responde Anna. – Podem ir tranquilos, eu cuido dela e ligo para dar notícias. – Christina assente e se vira para mim e Will que está esperando próximo à porta.
–Vamos?
–Eu não vou – respondo. Ela me olha confusa. – Eu vou ficar aqui Christina. A Tris está com muita raiva de mim e não quer mais me ver, mas eu não vou abandoná-la dessa vez. Eu sei que eu sou um idiota por dizer isso agora, quando eu fiz a maior merda da minha vida, mas eu vou ficar aqui com elas.
–Tobias... – Christina começa e depois suspira. – Sei que você está certo em querer ficar ao lado dela, mas talvez isso não seja uma boa ideia. Ela ainda esta se recuperando e isso pode estressá-la ainda mais.
–Eu sei – digo -, mas eu vou dar espaço a ela, não vou pressionar. Só quero ficar perto e deixa-la ver que eu não vou a lugar nenhum. Que eu quero corrigir tudo... – ergo as mãos, em sinal de frustração. – Mesmo que esteja tudo fodido a essa altura.
–Ok. Eu vou vir aqui amanhã, para ver como ela está e tentar conversar de novo – ela suspira. – Só tenho medo que dessa vez a minha amiga não consiga sair dessa.
~~
Depois que Christina e Will foram embora, Anna preparou o quarto de hóspedes pra mim. Esse tem sido meu novo quarto nos últimos três dias. Pelo menos até a Essence explodir e a polícia vier atrás de mim. Até agora, nada aconteceu.
Me pergunto se a Tris já fez a denúncia. Ela não tem nenhuma prova, mas ela pode fazer a denúncia e uma vez que for feita uma investigação, isso seria descoberto facilmente. Uma auditoria fiscal pode fazer isso.
Christina tentou conversar com a Tris novamente, mas ela se recusa a falar sobre mim. E quase sempre as duas brigam. Eu agora sou responsável por estragar a amizade das duas.
Agora estou na minha sala, na empresa. Por mais que eu quisesse explodir com tudo, eu não posso, ainda não. E ficar em casa só iria me deixar maluco, sem poder chegar perto da Tris e suportando seu desprezo.
Também quero estar de olho no meu pai. Ele ficou no meu pé durante todo o tempo que eu fiquei na casa do Will. Ele acha que era a minha chance de ‘cair fora’ de uma vez. Quis que eu fosse para a casa dele por um tempo, até pedir o divórcio. Mas tudo o que ele conseguiu com a falação dele, foi me deixar mais irritado. Ainda mais por que eu procurei Nita depois que soube da foto e ela coincidentemente esta viajando. Ele também não quis me dizer onde ela está, nem quando volta. Isso esta me frustrando. Eu quero que ela conte a verdade a Tris. E ao mesmo tempo, gostaria que a minha palavra fosse suficiente para ela.
Duas batidas na porta me tiram dos meus pensamentos.
–Tobias? – Olho e vejo Claire entrar. – Esta tudo bem? – ela pergunta parando na metade do caminho.
–Estou bem Claire, o que você precisa?
–Eu trouxe uns documentos para você assinar. Seu pai pediu urgência. – Pego os papéis e minha caneta, pronto para assinar. Como eu sempre assino papéis de distribuidoras e autorizações para pagamentos, eu nem penso a respeito, não hoje que eu estou com a cabeça a mil.
–Pronto – Entrego os papéis a Claire e ela me olha de volta, hesitando, como se quisesse dizer algo mais.
–Obrigada – ela diz. E quando esta quase saindo, se vira e sorri antes de dizer: — Sinto muito pelo bebê, Tobias. Espero que não se importe por eu estar sabendo, mas foi eu quem fez a ligação para a sua casa na semana seguinte ao evento, quando você não veio trabalhar. Anna me contou – seu sorriso é sem graça, como se pedisse desculpas.
–Está tudo bem Claire. E obrigado – digo suspirando e ela assente.
–Se precisar de algo é só me chamar.
Depois que Claire sai da minha sala eu volto aos meus pensamentos. Em como eu gostaria de voltar no tempo.
Tris
Ele não foi embora.
Uma parte de mim se sente melhor com ele aqui.
Quero pensar que sinto isso por que estou acostumada com a presença dele, que durante muito tempo me trouxe paz, segurança... Amor. Mas sei que não é isso. Eu o amo. E isso é o que mais me deixa com raiva. Por que isso não muda as coisas. Ele está aqui agora, mas por que não esteve antes? Agora não adianta mais.
Minha conversa com a Christina não foi melhor que a primeira. Ela tentou amenizar os danos e ainda quis me convencer a procurar um psiquiatra, já que ela não pode me ajudar como profissional, por questão de ética. Isso resultou em outra briga. Ela não entende que eu não estou desequilibrada, estou magoada, estou ferida por causa da traição do Tobias e estou com raiva por não poder acabar com todo esse sentimento de impotência.
E o fato de a Christina estar tentando me convencer a ouvir o Tobias e dar uma chance, só me deixa com mais raiva.
Eu não disse a ela sobre a traição, não consegui. Falar sobre isso dói muito ainda e relembrar os fatos para Christina –que com certeza me faria um monte de perguntas- não iria ajudar a esquecer. Sem falar que relembrar da traição, desperta o meu lado vingativo. Eu sei que meu aborto foi por causa da má formação do meu bebê, mas o meu lado ressentido culpa aquela maldita foto. Culpa a Nita, e culpa o Tobias.
Eu queria dormir e quando acordasse, eu percebesse que passou um ano. Acho que seria bom o bastante.
Eu ainda não estou liberada para trabalhar, então eu estou aproveitando meu tempo com a Sophia. Ela tem sido meu remédio, ela me ajuda a não pensar nas coisas que eu perdi. Sei que eu não preciso de mais nada, nenhum tratamento será melhor que esse.
–Mamãe, olha! – Sophia grita, apontando a televisão. – Viu? Eu quero aquela boneca mamãe, ela é linda, e tem uma cauda de sereia, será que eu posso ter uma cauda de sereia mamãe? Eu quero poder nadar como ela. – Eu aliso seu cabelo e beijo o alto da sua cabeça.
–Vamos combinar assim, quando a mamãe ficar boa, nós vamos ao shopping e eu compro ta? – Sophia me olha desconfiada e se levanta.
–Annaaaa! – Ela grita. Tampo os ouvidos. Escuto uma panela cair e na mesma hora fico com dó da Anna, sei que ela levou o maior susto. E comprovo isso quando ela chega à sala com os olhos arregalados.
–O que aconteceu? Você esta bem menina? – Dou de ombros e destampo os ouvidos.
–Anna – Sophia diz, dessa vez com a voz baixa. – Cadê aquele remédio ruim da mamãe? Aquele que parece bala? – Eu dou risada.
Anna me olha confusa e depois se vira para ver as horas.
–Mas não está na hora ainda – ela diz.
–Não Ana, minha mãe tem que melhorar pra gente ir no shopping comprar minha boneca. – Anna sorri quando compreende.
–Sophia – chamo. Ela me olha com expectativa – Quando a gente for, ainda haverá muitas bonecas daquela, eu prometo. – Mas ela faz aquela expressão que corta meu coração.
–E se outra criança comprar, mamãe?
–Não vai filha – eu a puxo e abraço seu corpinho. Ela ainda esta desconfiada, mas não reclama. Queria que todos os meus problemas se resumissem a isso. No fim, a gente pede tanto pra crescer, só pra descobrir que era melhor ser criança pra sempre.
~~
À noite quando eu saio do banho, decido descer e jantar com a Ana e a Sophia. Tenho evitado sair do quarto, para não ver o Tobias, mas aproveito que ele ainda não chegou em casa para fazer isso hoje. Talvez ele tenha se dado conta que eu não vou perdoá-lo e tenha resolvido voltar a sua rotina de boêmio.
No entanto, assim que eu sento à mesa, me arrependo, pois ouço a porta da frente se abrir e em seguida vejo Tobias entrar na sala de jantar com o paletó nas mãos e uma cara péssima. Ignoro e desvio o olhar, não dando ele a falsa impressão de que eu me importo o mínimo com ele.
Sophia grita e corre para ele, como ela sempre faz.
–Tobias – Anna chama. Vejo pela minha visão periférica que ele coloca Sophia no chão e nos olha na mesa do jantar. – Está com fome? – Olho para Anna, mas ela não está olhando para mim, na verdade, ela está evitando meu olhar enquanto pega mais um prato.
–Vem papai – Sophia diz, puxando Tobias para a mesa. Ele me olha, eu sinto, mas não viro o rosto para comprovar.
–Obrigado Anna – ele diz. Meu coração afunda ao ouvir sua voz e eu me amaldiçoo por ainda reagir a ele.
–Ei, mas antes... – Anna aponta o lavabo. Ele ergue as mãos e sorri para ela, lhe dando um beijo na bochecha antes de sair. Ela fica sorrindo igual uma mãe boba enquanto ele se afasta.
–Acho que estou sem fome – digo me levantando.
–Tris... – Anna chama. Eu a olho, irritada por seu arranjo de ‘jantar em família’. Mas ela esta séria. – Você deveria ficar e jantar, você comeu pouco hoje, como vai se fortalecer? – Olho para baixo e vejo Sophia me encarando, com os olhinhos curiosos. – Além disso, você não deve mudar as coisas tão rapidamente, pode confundi-la – seu olhar desvia para Sophia e eu deixo cair os ombros. Sei que ela tem razão. Se Sophia perceber a maneira como eu estou tratando o Tobias, ela vai sofrer.
Me sento novamente e quase ao mesmo tempo, Tobias volta à mesa.
O ignoro o máximo que eu posso, enquanto ouço Sophia contar sobre as brincadeiras que fizemos durante o dia e sobre a boneca sereia que ela quer. Ela também o chama para ir ao shopping com a gente e eu me sinto cada vez pior, como eu posso afastar o Tobias da minha vida sem magoar minha filha?
Termino de comer e digo que estou cansada. Sei que agora que o pai está em casa, Sophia vai ficar com ele um tempo, até dormir. Então volto para o meu quarto. É aqui que sempre me refugio.
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