Em busca de uma nova vida - 2ª Temporada
32 Mudança de rumo
Notas iniciais
Ouvi vozes, bem próximo a mim, mas o som estava abafado.
Aos poucos meus sentidos foram se organizando e eu percebi que eu estava encostada em algo macio e quente. Abri os olhos e pisquei algumas vezes, enquanto meus pensamentos se organizavam. Eu ainda estava na sala de espera do hospital, com o rosto no peito do Tobias. Quando levantei a cabeça me deparei com o sorriso dele. Os olhos cansados de sono. Quanto tempo eu dormi?
—Oi – ele disse.
—Oi – respondi com a voz rouca de sono. – Que horas são? Por quanto tempo eu cochilei? – Cocei os olhos e ele riu.
—São quase 07:00 Tris. Nós dormimos por umas quatro horas – ele disse. Parecia surpreso.
—Nossa! – eu disse, também surpresa, enquanto me endireitava e esticava os músculos. Estranhamente, eu me senti bem descansada para quem dormiu tão pouco e em uma posição estranha, sem conforto. – Desculpe por isso. Você deve estar com dor nas costas por ter me segurado por tanto tempo.
—Há muito tempo não dormia tão bem – disse ele, sorrindo de novo. Não pude evitar sorrir de volta.
Levantando, arrumei meu vestido amassado e olhei em volta. Estava tudo calmo ainda.
—A enfermeira veio agora pouco e disse que a... Evelyn, já está acordada. – Olhei para ele e seu olhar desviou para as suas mãos em seu colo.
—Eu vou ver como ela está – eu disse. Tobias assentiu e permaneceu sentado onde estava enquanto eu saí da sala e comecei a procurar uma enfermeira para me mostrar o quarto.
Assim que cheguei ao quarto de Evelyn, a vi na cama com a parte superior elevada.
Dei alguns passos para dentro do quarto e ela se virou para mim.
—Como você está? – Perguntei.
—Quebrada – respondeu. Sua voz estava enfraquecida, ela parecia bem frágil.
—O médico já veio te ver?
—Já. Ele me explicou o que aconteceu comigo e fez alguns testes – ela suspirou. – Parece que não foi dessa vez. Acho que vaso ruim demora a quebrar. – Olhei para ela sem entender muito bem. Ela estava olhando fixamente para fora da janela, e seu tom pareceu distante.
—Evelyn, você vai ficar aqui por pelo menos dois dias em observação... – Fiz uma pausa. – E Thomas? Eu poderia ficar com o ele até você se recuperar. Se você concordar. – Assim que eu disse essas palavras ela virou a cabeça e me olhou surpresa.
—Você faria isso?
—Claro! – Respondi imediatamente. – Eu estive preocupada com ele. Você me disse que ele estava na casa de um amiguinho, mas eu tive medo de você demorar para acordar. Eu não tinha como localizá-lo. – Ela assentiu e baixou o olhar.
—Meu pequeno vai ficar assustado – ela parecia dizer mais a si mesma do que a mim. Seus olhos se encheram d'água.
Depois de alguns segundos, ela falou:
—Olha Beatrice, eu agradeço muito a você, mas talvez seja melhor eu conversar com a Lucy, mãe desse amiguinho do Thomas e pedir para ela recebê-lo por mais alguns dias. Eu conheço essa família e eles são boas pessoas – franzi a testa e ela viu quando olhou para mim. – Não me entenda mal, por favor. Não estou dizendo que você não é boa pessoa, eu sei que é. Mas é que... – Ela hesitou. – Eu não quero forçar nada com o Tobias. Já se passou muito tempo desde que eu cheguei aqui e ele se recusa a me ver. Thomas está cada dia mais ansioso para conhecer o irmão. Tanto que eu nem sei mais que desculpa dar a ele sobre o porquê ele não pode vê-lo – ela suspirou. – Eu só não quero magoá-lo. Se o Tobias rejeitá-lo, eu não poderia consertar isso.
Engoli em seco.
—Eu entendo Evelyn.
—Thomas sonhou com um irmão durante muito tempo. Ele imagina e pinta o Tobias como o herói dele. E ele nem o conheceu ainda. Você imagina o quanto uma rejeição poderia machuca-lo?
—Eu só posso imaginar – respondi.
—É por isso. Eu vou esperar o médico me dar alta e vou voltar para a Espanha. Decidi isso pouco antes de você entrar. Lá será mais fácil com o Thomas e eu tenho alguns amigos. Aos poucos eu vou explicar as coisas para ele.
—Evelyn, você esta com a perna quebrada, como você pensa entrar em um avião assim? – Perguntei. – Espere até você se recuperar. Eu vou conversar com o Tobias de novo e...
—Não! – Ela disse desesperada. Depois tentou se controlar – Não, por favor. Deixe como está. É melhor assim.
—Evelyn... O Tobias está lá fora, na sala de espera. Ele veio e passou a noite lá comigo. – Seus olhos encheram de lágrimas de novo e ela deu um sorriso misturado com um soluço.
—Ele está aí?
—Está – respondi. – Eu o avisei sobre o acidente e ele veio ontem. Ele parecia nervoso. Acho que ficou preocupado com o que pudesse acontecer a você. – Evelyn assentiu e limpou o nariz com as costas da mão. Depois suspirou, dando meio sorriso, igual o que o Tobias dá às vezes. Foi impossível não sorrir de volta.
—Te agradeço muito por tudo Tris, mas eu não deveria ter voltado. Eu só causei problemas para vocês desde que eu cheguei aqui.
Pensei em dizer para ela que não era verdade, que Tobias e eu sempre brigamos e as coisas não iriam mudar. Somos diferentes. E nosso casamento sempre foi forte e superou tudo. Se estamos separados, é por causa da traição dele. E por causa da influência que Marcus tem sobre ele.
Mas que bem faria dizer tudo isso a ela? Ela foi casada com o Marcus, certamente conhece o ex-marido.
Ao invés de argumentar mais com ela, eu optei por respeitar sua decisão. Eu teria feito o mesmo para proteger minha filha de qualquer decepção.
—Tudo bem, eu entendo... Mas, eu posso te pedir uma coisa? – Ela assentiu e eu continuei: – Eu gostaria de ver o Thomas, dizer a ele sobre o acidente. Explicar que você vai ficar bem.
Ela ficou pensativa, mas depois concordou balançando a cabeça.
—Esta bem – ela disse. Em seguida se inclinou para alcançar seus pertences na mesa ao lado de sua cama. – Vou ligar para Lucy e avisar que você está indo para lá. Você tem onde anotar o endereço? – Olhei em volta, mas não vi nenhum papel ou caneta. Então procurei na minha bolsa e peguei meu celular, olhei para ela e sorri. – Vai servir – ela riu. Depois me passou o endereço e eu apertei sua mão antes de andar até a porta.
—Ei, Tris? – Me virei para ela e ela sorriu de novo. – Obrigada.
Sorri de volta e saí do quarto. Quando cheguei à sala de espera, mas a encontrei vazia. Tobias não estava ali.
Imaginando que ele tivesse ido embora, saí do hospital. O sol do início da manhã já estava ficando quente. Eu nunca serei capaz de me acostumar com o calor que faz na Califórnia.
Suspirei aliviada quando entrei no meu carro e liguei o ar condicionado.
Tobias
Eu não sabia bem o porquê.
Eu só estava ali, com meu carro parado há alguns metros de distância, enquanto Tris estava andando em direção a uma porta de madeira branca, de uma casa enorme, em um bairro rico da cidade.
Essa casa se assemelhava muito a casa do meu pai. Eu até pensei que ela estaria indo até a casa dele quando eu a vi dirigir para esse lado da cidade.
A princípio eu só quis evitar enfrenta-la quando ela saísse do quarto da minha mãe. Tive medo do que ela diria. De quão ruim teria sido o acidente. Então, como o covarde que eu sou, voltei para o meu carro e fiquei lá, esperando Tris sair do hospital, para segui-la até a nossa casa.
Mas depois, Tris estava dirigindo para cá. Eu não queria pensar que ali poderia ser a casa de algum cara que ela estivesse vendo. Ela não faria isso não é?
Observei quando Tris tocou a campainha e logo uma mulher loira, aparentando ter quarenta anos, abriu a porta e ouviu Tris falar. Depois a mulher fez uma gesto e Tris entrou na casa.
Que merda!
Fiquei esperando, impaciente.
Quarenta minutos depois, Tris saiu da casa, se despedindo da mulher loira. Eu estava confuso, de quem era aquela casa?
E foi aí que a porta abriu de novo e um garoto saiu correndo ao encontro de Tris. Ela parou de andar e se inclinou na altura dele quando ele a alcançou. O garoto disse alguma coisa e entregou algo para ela. Tris sorriu e pegou o que parecia ser um papel.
Em seguida, ele fez um movimento para ir embora, mas hesitou. Depois deu um abraço tímido em Tris.
A mulher loira o chamou e ele virou para ela. Então eu vi seu rosto.
Apertei os olhos com força.
Eu sabia quem era aquele garoto. E nem sei como fui estúpido de não ter pensando nisso antes. É claro que era ele. Tris falou dele várias vezes na noite anterior.
Depois que ele correu de volta para a casa, Tris esperou alguns segundos antes de voltar a se distanciar da casa.
Mas antes de entrar em seu carro, ela me viu.
Merda dupla.
Mesmo longe, pude ver suas sobrancelhas se juntarem.
Ela ficou parada, olhando na minha direção e mesmo que ela não pudesse me ver dentro do carro, eu sabia o momento que ela me reconheceu, por que ela fechou a sua porta e cruzou os braços em desafio.
Aí está, a velha Tris. Aquela que sempre me tira da zona de conforto.
Ela mexeu em sua bolsa e meu celular tocou, anunciando uma nova mensagem.
Uma mensagem dela.
“Você poderia descer e conhece-lo, você sabe né?”
Apertei o celular na palma da mão.
Ela estava me empurrando. Ela queria algo que eu não podia fazer.
Suspirei e pensei no garoto. Ele parecia tranquilo e feliz, mas mesmo olhando de longe, pude ver que ele estava deslocado. Assim como eu fui durante toda a minha vida.
Tris se moveu, chamando minha atenção de volta pra ela. Balançando a cabeça, como forma de reprimenda, ela entrou no carro e eu agi por impulso. Abri minha porta e saí.
Andei até ela e parei ao seu lado. Ela olhou para fora da janela, com sua expressão condescendente. Eu quis beijá-la ali mesmo. Ela estava reagindo a mim. Eu deveria ficar feliz. Ela se importava.
—Vejo que você decidiu mostrar a cara – ela disse. Em seguida desviou o olhar para o para-brisa do carro. – Dá próxima vez que você tentar me seguir e não quiser ser reconhecido, troque de carro.
—Eu não estava me escondendo – respondi. – Eu não sabia que você estava vindo para cá. Achei que você estivesse indo para casa.
Ela bufou.
—Ah ta – ela disse em seu tom sarcástico.
Respirei fundo. Ela me encarou séria.
—Foi difícil, sabe? – Ela começou. – Ele ficou bem nervoso quando eu contei sobre o acidente. Aparentemente, o pai dele não estará vindo para os Estados Unidos, como era previsto. E agora ele tem a mãe no hospital. – Tris suspirou, erguendo as mãos. – Ele é um menino forte, no entanto.
—Ele parece ser – eu disse.
—Assim como você precisou, certo? – Tris perguntou, de forma retórica. – Mas você não tinha mais ninguém. Seu pai não é apoio de nada – ela revirou os olhos. – Thomas poderia ter alguém além da mãe, poderia ter você – apontando para a casa, ela me encarou com um olhar duro. – Você o está culpando, Tobias. Negando a ele a chance de ter um irmão! Quando você vai parar de pensar só em si mesmo e dar uma chance a ele?
Virei as costas para ela. Não queria mais discutir esse assunto e não queria brigar com ela.
—Continue aí, fugindo – ela continuou. Sua voz tinha voltado a ficar suave. – Enquanto isso, ele vai continuar sozinho. Evelyn ficará mais alguns dias no hospital. E seu irmão vai permanecer na casa de estranhos, por que você não pode agir como um adulto. – Ouvi o motor do carro, mas não me virei para ver ela ir embora.
De repente, senti o peso dos últimos dias me atingir em cheio.
Meu corpo se dobrou involuntariamente até que eu estava sentado no meio da rua, com os braços descansando nos joelhos.
A rua estava tranquila. Ninguém passou por ali enquanto eu estava tentando organizar a bagunça na minha cabeça.
Os problemas com a Tris, o bebê que perdemos, minha mãe, meu irmão, a empresa, meu pai, ... Tudo veio de uma vez.
"Continue aí, fugindo..."
"Ele vai permanecer na casa de estranhos, por que você não pode agir como um adulto!"
Ela sempre soube como me derrubar com palavras.
Eu não sabia se era o certo, mas de repente não importava.
Eu estava andando em direção a casa.
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