Em busca de uma nova vida - 2ª Temporada
27 Confiança é tudo!
Notas iniciais
Sempre fui do tipo de pessoa que aproveita o momento. É melhor do que se preocupar com o que passou, ou com o que ainda está por vir...
Durante a minha infância, eu gostava de brincar o máximo que eu podia, por que eu sabia que em um determinado momento, mamãe chamaria a mim e ao Caleb. E a brincadeira terminaria. Tínhamos horário para tudo. Mamãe era rigorosa quanto a isso. Então, eu aproveitava tudo que podia.
Durante a minha adolescência, isso continuou por um tempo. Até que mamãe ficou doente e eu comecei a controlar os horários e as obrigações domésticas. Tudo virou uma bagunça, pois eu não era boa como ela. E quando ela morreu, tudo desandou de vez. Cada um tinha seu canto, seu horário e nunca fazíamos nada juntos.
Minha vida veio a baixo de uma hora pra outra e eu só caia, não tinha chão.
Até que um dia, eu me recuperei.
E agora, quando eu achava que estava tudo bem, que tinha minha família feliz e tudo ia bem, de repente, tudo está desmoronando de novo. E eu estou questionando tudo o que fiz nos últimos anos...
Sinto mágoa, raiva, medo, solidão... E o pior dos sentimentos. O desespero! Não sei o que fazer para mudar essa situação...
~~
Tobias está no meio do quarto, me encarando, querendo conversar. Enquanto que eu, só quero que ele vá embora. Só quero apagar o último mês da minha cabeça, e puff! Acordar e nada disso ter sido real.
–Não quer se vestir? – Pergunta ele, me tirando do túnel do tempo. Eu o olho, minha raiva está transbordando de novo. Eu o amei tanto, como posso sentir tanta raiva dele agora? Antes, se eu o visse assim tão perto, eu ficaria doida para agarrá-lo, mas agora eu quero machucar ele. Do mesmo jeito que ele fez comigo.
–Não até você sair – cruzo os braços sobre o peito e uso minha voz mais fria. – Já disse que não quero conversar. Não sei o que você veio fazer aqui.
–Eu moro aqui, esqueceu? – Ráá. Ele quer ser irônico?
–Esqueci! – Exalo – Você ficou semanas entre dormir fora e chegar tarde da noite. Achei que nem morasse mais aqui. – Ele suspira e coça a nuca, está nervoso. Dá um passo à frente e agora estamos a um metro um do outro.
–Olha Tris, eu não quero brigar – diz, com uma voz calma e baixa. – Eu vim aqui por que passei todos esses dias preocupado com você; por que não aguentava mais ficar sem te ver e principalmente, por que eu quero te explicar as coisas.
Eu ofego. Explicar? Como no inferno ele acha que vou entender e que tudo vai ficar bem só por ele explicar?
–Eu não quero explicação nenhuma, Tobias. Eu já quis, não quero mais – aponto a porta. – Vá embora. Nada do que você tem a dizer vai mudar o que eu sinto.
–Tris...
–Não!! Você é surdo? Vá embora!!! – berro. E quando ele tenta se aproximar, eu não me controlo mais, me atiro nele e começo a socar seu peito. Ele deixa no começo, mas depois segura meu pulso e me impede de continuar. Eu continuo me debatendo, tentando me soltar e gritando. Até que ele me empurra até a parede e prensa meu corpo com o seu. Sinto nojo. Nojo de pensar no corpo dele encostado no meu depois de estar com outra.
–Saia daqui, me solta! Eu te odeio!!! Você ouviu?! Te odeio!! – cuspo na cara dele e ele aperta mais seu domínio sobre mim. E então grita com o rosto bem próximo ao meu:
–Não!! Não vou embora. E você pode me odiar, mas eu vou ficar bem aqui, você querendo ou não, ta ouvindo?
–Desgraçado, me solte! – Tento chutá-lo, mas eu sou idiota por sequer tentar isso. Tobias é muito mais forte do que eu.
Ele fica imóvel e impenetrável por vários minutos, até eu perder todas as forças e parar de me debater. Sua respiração está como a minha, irregular, ofegante. E seus olhos estão vermelhos.
Quando ele percebe que desisti de tentar me soltar, ele diz:
–Eu vou te soltar e você vai ouvir o que eu tenho para dizer, ok? — Não respondo. Continuo bufando na cara dele. Até que lentamente, ele solta meu pulso e dá um passo para trás. Quando estou livre, viro minha mão com toda força e dou um tapa em cheio na cara dele. Na mesma hora sinto meus dedos arderem, mas ignoro a dor.
–Nunca mais bote essas mãos imundas em mim – digo. Meu sangue ferve, minha adrenalina está a mil.
Tobias endireita o rosto e não diz nada. Se afasta um pouco mais e respira fundo várias vezes, com as mãos na cintura.
Eu endireito a toalha no meu corpo e olho para ele, esperando que fale o que tem para falar e vá embora. Ele espera, coça a nuca, vira de costas. Até que ele fala:
–Você se lembra de quando meu pai organizou aquela reunião, onde houve a disputa para escolher a campanha comemorativa da Essence? – Não respondo. Ele sabe que eu me lembro, então continua: — Naquela semana, quando ficou claro que o trabalho da sua agência era o melhor, meu pai ficou mais insuportável do que costumava ser. Ele sempre odiou ser contrariado. E ele nunca quis dar o trabalho a vocês. A intenção era te humilhar, mas eu não sabia o porquê, até então. Quando ele foi obrigado a admitir que vocês eram as melhores, ele as contratou. Por que acima de tudo, ele queria o sucesso da campanha. Só que era óbvio para mim que isso não ia dar muito certo, e não deu. Vocês dois começaram a se desentender cada vez mais...
–Então, sem poder fazer nada contra você, ele a acusou de estar agindo pelas minhas costas. Disse que você estava se encontrando com a minha mãe, tentando facilitar as coisas para ela – ele faz uma pausa. – Eu não acreditei, é claro. Achei que ele estava fazendo isso por birra... Mas ele continuou insistindo, disse que contratou um detetive e me mostrou algumas fotos suas conversando com a minha mãe em um restaurante. Ele me disse que isso estava acontecendo há semanas. E como você não tinha me dito nada, eu fiquei muito irritado. Depois você quis levar a Sophia para conhecer ela... E eu comecei a pensar que ele pudesse estar certo e tudo foi saindo do controle... – Tobias se vira e olha para mim. Vários segundos se passam e eu continuo em pé, segurando a toalha, ouvindo, mas sem dizer nada. Ele quer falar? Pois que fale, pra mim não faz diferença. Eu já sabia de tudo isso.
–Eu estava com raiva. Minha mãe e o fato de ela ter ido embora... Isso sempre foi minha maior fraqueza, tenho muita mágoa dela. Eu não a queria perto. E queria que você pensasse como eu, queria que você a esquecesse e deixasse tudo como estava antes – suspirou.
–E daí, você resolveu me punir por não pensar como você? – Pergunto friamente.
–Não – ele diz. – Eu fiquei muito irritado com você, mas não foi isso que me fez mudar com você – suspira mais uma vez e anda até a cama, se senta e apoia os braços nos joelhos. Encarando as mãos a sua frente, ele continua: — Na mesma época, eu comecei a desconfiar do meu pai. Eu vi vários documentos, relatórios de gastos que não estavam batendo. Então eu o questionei, e ele, com a ajuda do novo contador, me deram explicações confusas. Em seguida, meu pai começou a me convidar cada vez mais para os seus encontros de negócios. Sempre à noite. Ele ia à boates e se encontrava com pessoas estranhas, segundo ele, contatos importantes — outra pausa.
–Eu sabia que havia algo muito errado acontecendo e, com a ajuda do Zeke, eu consegui levar os relatórios a um contador, amigo do Zeke. O cara analisou tudo e apontou diversas falhas. Haviam algumas notas frias, notas sanfonadas — quando a nota é verdadeira é usada para dar cobertura fiscal mais de uma vez à mesma mercadoria. Indícios de desvio de dinheiro... E tudo isso nos levou a crer que meu pai está envolvido em algum negócio ilegal e usando a empresa nisso. No começo eu não conseguia entender. Por que ele roubaria a própria empresa? E então o amigo de Zeke nos explicou que provavelmente, meu pai está preparando seu pé de meia. Ele sabe que o que esta fazendo é ilegal, então está guardando um dinheiro para fugir e viver numa boa, caso tudo venha abaixo. Quando ele disse isso, eu fiquei muito nervoso. Ele foi claro. Se tudo vier abaixo, todos os envolvidos com a empresa serão presos, inclusive eu.
Estou confusa. Muito confusa.
Meu sangue já esfriou um pouco, minhas pernas começam a doer, mas ignoro e continuo em pé. Troco os pés para diminuir o desconforto e Tobias vê.
–Você pode se sentar, por favor? – Abre a boca para dizer mais alguma coisa, mas então desiste e fica esperando eu me mexer.
Relutante, eu dou a volta na cama e me sento no canto, encostada na cabeceira. Minhas pernas sentem o alivio e eu fico observando as costas do Tobias. A camiseta preta que marca perfeitamente os músculos, que estão tensos no momento. Ele prossegue quando percebe que eu me sentei.
–Eu tive medo Tris, por mim, pela nossa família... Por você.
Por mim? O que eu tenho a ver com isso?
Ele parece ler meus pensamentos, por que esclarece.
–Você poderia ser prejudicada com isso. Como minha esposa, poderia ser investigada, acusada de alguma participação. Sem nem saber de nada – ele se vira para me olhar. — Foi aí que eu cheguei à conclusão que, já que eu estava até o pescoço nisso tudo, eu deveria entrar de cabeça e tentar descobrir mais informações, descobrir o que meu pai esta fazendo. Durante um desses “encontros de negócios”, eu estava muito bravo, por que eu e você estávamos brigados, então meu pai começou a falar que eu deveria arrumar outra mulher. Uma menos “geniosa ou problemática”; como ele se refere a você – ele ri, eu não. – Eu aproveitei que ele estava disposto a me tornar seu sucessor e comecei a entrar no jogo dele. Ouvi ele te criticar, passei a frequentar mais a casa dele... – Faz uma pausa e desvia o olhar. – Queria que ele confiasse em mim. Então disse a ele que ia me divorciar de você quando o bebê nascesse.
Estou sem ar. Ofegante, fecho os olhos e me lembro do dia que encontrei sua aliança. Meus olhos ardem, não consigo evitar. Quando os abro, as lágrimas embaçam minha visão e escorrem.
Ele ia esperar o nosso filho nascer e ir embora?
–Eu não queria te magoar Tris, nunca quis, mas achei que esse era o único jeito de te deixar livre de tudo isso. Eu ia fazer isso pra te proteger. Por isso eu nunca te disse nada.
Estou cansada, não quero mais ouvir. Então me levanto e ele me acompanha com o olhar.
–Acho que você não precisa mais esperar – digo com a voz rouca. Ele se levanta também. Tiro a aliança e jogo em cima da cama. – Vá embora Tobias, eu não quero ouvir mais nada.
–Não Tris, eu preciso que você entenda. Eu não queria isso, eu... Eu só não sabia o que fazer. Achava que ia dar um jeito em tudo sem precisar me sair de casa. Era só um teatro pro meu pai acreditar que eu estava do lado dele.
Um teatro!!! Com a minha vida, meus sentimentos?? Eu quero gritar, mandar ele calar a boca, mas ele continua:
–Meu pior erro foi não te contar nada, mas eu tive medo que isso te comprometesse ainda mais. Só de você saber de tudo isso, já te torna uma cúmplice.
–Uma cúmplice? – Eu bufo. – Isso eu seria se eu não denunciasse seu pai, o que é claro, é óbvio, que eu vou fazer, nesse momento.
Pego o meu celular e penso em ligar para a polícia, mas então, me lembro da maldita foto e o encaro de novo. Ele me olha de volta. Não diz nada para me impedir.
–Vá em frente – diz. Vendo que estou hesitando. – Você verá que tudo o que eu disse é verdade. Eu sei que fiz tudo errado e eu assumo, mas eu nunca menti para você, nunca quis que nosso casamento acabasse.
Eu rio. Solto uma gargalhada. Isso ta ridículo já.
–Você é um mentiroso, um desgraçado Tobias! – Aponto o dedo para ele. – Você não só fez das últimas semanas um inferno, como também me traiu esse tempo todo. E agora vem aqui e me diz que fez tudo isso para me proteger? Que nunca quis que nosso casamento acabasse? Vá à merda!!! — Grito.
–Eu nunca te traí caramba! Quando você vai parar de dizer isso? – grita de volta. E eu, cansada da negação dele, abro a foto e jogo meu celular na cama, perto dele.
–Então, eu estou vendo coisas? – Ele olha para o aparelho e o pega. Quando vê a foto, fecha os olhos e pragueja.
É, agora não tem mais como negar.
–Tris... – diz, ainda com os olhos fechados.
–O quê? – o corto. – Não é o que eu estou pensando? Sério?
–Não. Não é – ele abre os olhos e joga o celular de volta na cama. – Não aconteceu nada entre mim e Nita.
–Não insulte minha inteligência, Tobias. Essa vagabunda está nua, dentro do seu carro e a foto veio do seu celular! A menos que você estivesse morto, o que não é o caso, por que eu estou te vendo agora, então onde você estava? Tinha ido dar uma mijada pós-sexo? Estava se vestindo? O quê??!! – grito.
–Não foi nada disso, escuta, porra!
–Não, chega! Você veio aqui e falou um monte de coisas. Disse tudo que queria e sabe de uma coisa? Nada mudou! Eu te disse que nada mudaria, que nada do que você dissesse mudaria alguma coisa. Eu perdi meu bebê, eu o perdi. Nada muda isso – começo a chorar, de novo. Levo as mãos ao rosto e me desespero ao lembrar que não tenho mais meu bebê.
Escuto os passos dele e quando penso que vai sair do quarto, ele chega perto e me abraça, antes que eu possa impedir.
–Eu sinto muito, sinto muito... – Ele diz. Eu me debato de novo.
–Me solta!! – Dessa vez ele não me prende e eu o empurro. – Nada mudou, eu te odeio e quero você longe da minha vida. Vá embora, por que agora sou eu que quero o divórcio! E se eu fosse você, eu me preparava, por que eu vou denunciar seu pai.
Ele me olha com angústia e se vira de costas. Funga algumas vezes e quando se volta para mim, sua expressão está séria:
–Tudo bem, você pode denunciar meu pai, eu acho ótimo. Eu serei preso e aí sim vou sair daqui, mas antes disso, não. Eu não vou embora. Não vou ficar longe da minha filha. Se você não acredita em mim, que seja, mas eu vou ficar aqui.
O quê?
–Você não ouviu? Eu não quero mais você perto da gente. Não foi você que disse que queria nos proteger? Então fique bem longe!
–Eu disse sim, e vou manter o que eu disse. Se me prenderem, vou dizer que você não sabia de nada, o que é verdade. Não vou deixar nada disso chegar a você, mas até lá, vou ficar aqui.
Depois de dizer isso, ele se vira e sai do quarto. Me deixa ali, com mais raiva do que antes.
Fale com o autor