Quanto mais Four corria, menos eu sentia medo. Eu não sabia que me adaptava tão rápido a mudanças, mas como eu poderia saber se na minha vida nunca teve mudanças?

Apesar de não poder enxergar, pelo som dos carros, motos e muitos gritos dá para sentir que estão próximos. Por algum tempo ele ziguezagueou, depois pilotou em linha reta. Até que o vento batendo no meu corpo parou, parece que entramos em um lugar fechado. O eco também está diferente. A moto começou a dar voltas, subindo para algum lugar. É como um... estacionamento. O barulho de pneu derrapando me assusta, agarro Four ainda mais forte. Então o vento volta a bater, estamos na rua de novo.

“Assustada Caloura? Quer desistir?”. Balanço a cabeça negativamente.

“Você é o único cinto de segurança que tenho, então”. Isso não saiu tão ruim, pelo menos não gaguejei ou fiz coisa pior dado o meu histórico de ser atrapalhada. Sinto que ele acena concordando. Eu devia ter ficado quieta, porque a coisa seguinte quase me matou do coração. Ele simplesmente começou a empinar a moto. Oh não, ele se sentiu desafiado? Ouço gritos, principalmente masculinos e buzinadas, o motivo deve ser esse showzinho. A coisa está meio sem controle, Four está indo muito rápido, logo os outros sons ficam para trás. A sensação é de que estamos sozinhos no mundo.

Estabilizo minha respiração, se não pode lutar... é, junte-se a ele. Basta fingir que não é nada demais. Tipo, estou em uma posição muito íntima com um cara que tem uma voz sexy, em cima de uma moto que tem vida própria, desafiando as leis da física. Muito normal, faço isso todo dia. Não consegui segurar a louca vontade de rir. Isso chamou a atenção dele.

“Ok Tris, eu desisto. Alguma coisa assusta você?”. Tento não pensar nas coisas que acontecem comigo quando ele me chama de Tris.

“Não é tão ruim”. Eu não posso ver, mas sei que ele virou a cabeça para me olhar.

“Abra os braços sobre os meus Tris”. O que? Ele está doido? Vou cair. Ele percebe a minha indecisão.

“Vamos, não deixarei você se machucar”. Talvez eu esteja louca, mas acredito nele. Passei os braços que estavam abaixo dos dele por cima e os abri em forma de cruz. Ele sustentou meu tronco com os braços enquanto segurava o guidom. Fechei os olhos e o resto sumiu. Eu estava voando. Depois de um tempo ele me pergunta.

“Então? Como é poder voar?”.

“Maravilhoso... obrigada”.

...

“Mas o que é aquilo? É um pássaro?...”.

“Não”. Todo mundo grita em coro.

“É um avião?”.

“Não”.

“E quem é?”.

“Four, Four, Four, Four...”. Estamos chegando ao local de partida, ele diminui a velocidade. Me sinto estranha. Não de um jeito ruim, pelo contrário. Tudo em mim se esvaiu, sou como uma página em branco. Talvez a escolha da corrida seja realmente muito eficaz para uma iniciação. Estou pronta para começar. Não sei por quanto tempo andamos, mas não foi curto. Pela primeira vez o vento frio que bateu nas minhas costas por todo o caminho começa a incomodar. Quando estava em velocidade não senti frio, também estava abraçada a uma parede quente. Meus braços estavam cobertos a maior parte do tempo por sua jaqueta e a adrenalina também deve ter ajudado, mas o vento nas minhas costas agora está congelando.

“... Finalmente ele voltou. Se perdeu pelo caminho irmão? A gente tava preocupado...”. O garoto debocha no microfone. Sinto um meio riso de Four. É mais como um grunhido.

Four me pega pela cintura, e me ajuda a descer da moto. Suas mãos tocam minha pele descoberta, a blusa deve ter subido. Ok, isso me arrepia. Ai que vergonha. Luto por equilíbrio. Minhas pernas tem câimbras, e no momento desconheço meu peso, parece papel de tão leve. Que eu não caia, que eu não caia, é só o que peço. Ele me vira devagar, acho que vai desamarrar a venda dos meus olhos mas para. Uma coisa quente cobre minhas costas. Será que ele percebeu que me arrepiei e pensou que era pelo frio? Melhor. Menos humilhante. O cara do microfone continua...

“... Espere, a garota ainda não vomitou. Ela pode até andar... Acho que encontramos uma nova Zeta hein? Ou será que o líder da Capa Alpha não é mais o mesmo? O que vocês acham?”. Muitas gargalhadas.

“...E essa foi a nossa corrida mata-toma. A temporada dos ‘bixos’ está oficialmente aberta. Boa sorte calouros, vocês vão precisar. Aproveitem a festa da tequila”.

Alguém chega falando. É um cara.

“Four, preciso falar com você. Descobri onde vai ser a iniciação da Alpha Delta. Onde se meteu? Os outros chegaram a uns quarenta minutos...”. Não ouço a resposta. É uma gritaria enorme. Pessoas dizendo que alguém amarrado no capô de um carro está todo vomitado. Outros dizendo que uma menina está chorando desesperada. Uma pessoa me puxa para o lado e do outro sei que Four não está mais por perto. Isso me murcha um pouco.

Pelo menos não vomitei nele ou gritei a ponto de deixa-lo surdo. Na verdade não falei nada, a não ser quando ele falou comigo. O silêncio não foi ruim, era confortável. O negócio foi sobre sentir. Sentir o vento, a velocidade, a sensação de liberdade, sentir o corpo daquele desconhecido, sua respiração, seu cheiro... meu corpo responde. Alguém me gira três vezes, depois me senta e tira a venda do meu rosto. Balanço a cabeça tentando sumir com o embaçado da visão e dou de cara com uma Tori me observando divertido. Não só ela, um grupo de meninas me rodeia. Estou bem no centro delas. São as Zetas.

“O passeio foi bom careta?”. Tori pergunta.

‘Careta’? De onde veio esse apelido? Ela não espera pela resposta. Simplesmente pega o meu braço e joga um pouco de sal nele. Aquilo não poderia parecer mais estranho.

“Lamba”. O que? Acho que não entendi, penso. Ela vê a dúvida e me intimida com o olhar. Degluto. Ela não estava brincando. Isso é uma prova para entrar nas Zetas? Se quero entrar não tenho escolha, então faço. Vejo que Tori tem uma garrafa na mão.

“Olhe para as estrelas e abra a boca caloura”. Seu olhar não espera questionamento. É uma ordem. Faço a contra gosto. Então ela derrama um líquido forte na minha boca. Ele queima. Tenho vontade de cuspir.

“Engula”. Ela me força. Meu Deus que coisa horrível. Sinto tudo rasgando. Faço uma careta e dou pequenos grunhidos. Prendo a respiração tentando tornar suportável aquela queimação. Mas ainda não tinha acabado. Tori me dá uma fatia de limão. As garotas ao redor me assistem como se eu fosse uma atração.

“Chupe”. Deus, aquele garota é louca? Talvez a louca seja eu de ainda ter dúvidas quanto a isso. Não tenho como me livrar, ela enfia o limão na minha boca. Primeiro o gosto salgado, depois aquilo queimando e agora o azedo do limão. Sinto minha língua áspera, tudo queima mais depois do limão. Luto por ar. Tori segurou minha cabeça e começou a girar como se estivesse misturando. Então a cadeira começou a girar. Elas gritavam...

“vai tequila, vai tequila, vai tequila...”. Quando a cadeira parou, elas me olhavam com a expectativa, mas nada além de estar com uma agonia insuportável aconteceu comigo.

Novamente Tori me fez passar por aquilo, mais sal, mais tequila, mais limão e mais giros. Apenas ouvia elas gritando ‘vai tequila’ como se torcessem para ela. Meus pensamentos fugiram eu estava ficando meio enlouquecida. Mas dessa vez o sabor não foi tão ruim porque não acrescentou coisa nenhuma. O resultado foi o mesmo, nada. Mais uma vez Tori me fez repetir tudo. Eu estava muito tonta, mas ainda tinha consciência.

Quando acabou, o mundo ainda girava para mim. Minha garganta queimava por dentro, então fiz algo completamente fora do meu comportamento habitual, arrotei. Tori levantou o meu braço junto com o dela.

“E temos uma vencedora”. Ela parecia feliz.

“Não acredito. Tori, você roubou, olhe pra ela. Não dá pra acreditar”. As meninas resmungavam em descontentamento. Vejo Tori recebendo dinheiro das Zetas com um sorriso de orelha a orelha. Me concentro para entender, espere, pisco os olhos várias vezes. Parece uma aposta.

“Garota estou impressionada. Achei que tivesse louca quando apostei em você... ”. Levei um tapinha nas costas.

“...Vai sobreviver”. Respiro várias vezes tentando me estabilizar. Depois de uns minutos olho ao redor e vejo Christina mais morta do que viva jogada de lado. Tem mais duas garotas perto no mesmo estado que ela. Visto em um gesto automático a jaqueta que está no meu ombro e coloco para fora da gola o cabelo que ficou preso dentro. Minhas ações não acompanham os comandos da minha cabeça. É como se estivesse me assistindo fazer as coisas em câmera lenta. Tento ficar de pé uma, duas, três vezes. Mas volto a me sentar. Depois de um tempo, firmo meu pé no chão e vou até o bar. Peço água. Não sei quantos copos eu bebi, ainda não era suficiente mas me sentia melhor, menos tonta. Vou procurar Christina. Checo se ela está bem. Parece que sim. Ela balbucia alguma coisa, mas não entendo. Tori e outras duas se aproximam.

“Hora de ir calouras”. Elas e eu levamos as outras até a van. A garota que nos recebeu na Zeta mais cedo é quem dirige. Quando olho para Tori, ela está me encarando.

“E então? Pronta para desistir?”. Em nenhum momento essa noite eu pensei em desistir. Meu único desejo era continuar, então, não mesmo.

Balanço a cabeça negativamente e complemento...

“Não”. Minha voz naturalmente rouca está mais rouca ainda.

Um nome rodeia minha cabeça. Four. Meu corpo entorpecido acorda quando volto a pensar nele. Engraçado, parece que o mata-toma aconteceu há muito tempo. Four foi legal comigo. O passeio foi incrível e ainda não estou sendo justa. Me senti viva, livre, como nunca estive. E protegida também. Tori quebra meu pensamento.

“Como se chama caloura?”.

“Tris”. Respondo com segurança.

“Quantos anos tem?”.

“Dezoito”. Ela se encosta no branco, cruza os braços e fecha os olhos. Age como se eu não fosse relevante. Sua voz quando sai é baixa e relaxada.

“Olhe para nós, agora olhe para você...”. Ela diz.

“...Percebe a diferença?”. Não respondo. Não sei se consigo elaborar uma boa defesa nesse momento.

“...Se você quer ser uma das Zetas, então vai precisar seguir um padrão Zeta. Nós gostamos de esportes radicais, malhação, perigo, desafios, brigas, viagens, festas e caras. Isso é o que nós somos. É assim que vivemos. Acha que pode fazer isso? Acha que pode se tornar uma de nós? Porque sinceramente não acho que possa. Se não for levar isso a sério, melhor desistir agora. Não vai dá pra correr pro papai no primeiro probleminha...”. Ela abre os olhos, me encara e continua.

“... mas, se decidir ficar, saiba que nós Zetas cuidamos uma da outra. Sempre nos protegemos, aconteça o que acontecer. Somos uma família. Uma vez Zeta, sempre Zeta. Pense sobre isso, porque uma vez aceito, não tem volta”. Permaneço calada. Já tinha dado a minha resposta.

Olho para Christina e as outras...

“Elas estão bem?”. As Zetas riram.

“Quem sabe?...”.

“Não são todas que tem uma iniciação com Four. Os líderes das casas nunca iniciam um calouro no mata-toma, você teve sorte”. Outra Zeta responde, mas não sei o nome dela. Ela é muito bonita. A mais bonita de todas que conheci até agora. Seus cabelos são de um castanho claro, assim como seus olhos. E tem um corpo muito bonito também, é alguém que os caras perdem tempo babando. Ela parece mais velha, como Tori. Ela me olha pensativa. A que está dirigindo interfere.

“Não entendi porque ele correu com alguém. Four nunca dá carona. Poderia ter corrido só se quisesse apenas correr, como sempre fez. E também demorou a chegar, vocês pararam em algum lugar careta, para vomitar por exemplo?”. Ela debocha. Cruzo os braços incomodada, apenas balanço a cabeça negativamente e olho para o lado rezando para que elas me deixarem em paz. Percebo que Four é muito popular entre elas.

A van para na residência e somos dispensadas. Ajudo Christina a deitar na cama e faço o mesmo. Lembro que preciso tomar banho ou pelo menos tirar a roupa que usei, mas antes que perceba já estou dormindo.

...

“Tori, não sei porque você se interessou pela careta antes mesmo dela entrar na Zeta. A garota é tão comum”. Molly reclama.

“Qual é Molly, você tem que admitir, Tori enxergou longe. Nunca pensei que aquela garota fosse aguentar tão bem o mata-toma e a tequila...”. Shauna falou.

“Eu também não. Mas meus motivos foram outros. Eu vi quando ela saiu com a morena da Delta Pi. Estamos com alguns problemas, então pensei que talvez se a gente recrutar algumas garotas com um perfil diferente poderia ajudar, mas daí ela começou a surpreender...”.

“... Primeiro não fugiu correndo quando a faca voou pela sala...”.

“Haha, eu sempre me divirto com a cara delas”. Shauna fala enquanto se joga no sofá da sede das Zetas. Tori continua...

“... No caminho para a iniciação não fez perguntas, não gritou ou se assustou com nada. Até aí ela poderia ser idiota, mas veio o mata-toma e não vi ela gritar histérica como as outras na largada. Tive que dar o braço a torcer, aquilo ali era coragem. Por isso apostei nela no roda-roda da tequila. Essa garota não é uma Zeta comum, eu pensei em pegar leve com ela pra não assustar muito, mas agora penso diferente, acho que quanto mais dura a gente for, melhor ela vai ficar”.

“Foda. Cagona de sorte. Four nunca dá carona pra ninguém daí do nada decide iniciar uma novata no mata-toma? E ainda por cima daquele jeito? Meu queixo quase caiu quando vi”. Shauna fala surpresa.

“Ele protegeu a garota das bolas de fogo”. Lauren chegou na sala e se intrometeu na conversa enquanto comia uma maça.

“...E do frio também. Se não me engano aquela jaqueta que ela usava é dele...”. Tori fala maliciosamente. Molly ri de escárnio e pergunta.

“O que? Você acha que Four tá interessado na careta? Olhe pra ela...”.

“Acho que ela é a próxima da lista. Ele não gosta de oferecidas, e não acho que ela seja. Ela também é corajosa e não entendo porque você tá achando tão impossível. Ela é alta, loira, tem olhos claros e peitos que eu vi. É um pouco magra, mas dê a ela um tempo com nossos treinos e você vai ver no que vai se transformar. Sem contar que se parar pra pensar, a maioria das garotas que Four fica tem uma certa classe. E essa garota tem classe. Minha próxima aposta, ele fica com ela”.

“Isso se já não ficaram, eles demoram muito pra voltar. Quem sabe o que aconteceu?”. Shauna ficou pensativa com o que disse.

“Eu aposto que não”. Essa foi Molly.

“E você Lauren? O que acha?”. Lauren também achou que eles demoraram muito e depois teve a coisa da jaqueta. Ficou desconfiada, mas não quer dar mais crédito a careta do que ela já recebeu. Está invejosa. Four nunca deixou ela nem ninguém subir na moto dele, também nunca emprestou nada seu a nenhuma garota. Ele não cria vínculo com ninguém e essa novata conseguiu isso em dois segundos. Ela não conseguiu acreditar quando viu a caloura encaixada nele. A única coisa que melhora seu humor é saber que quando Four conseguir o que quer, a menina ficará tão magoada que ela sentirá pena.

“Não sei, mas isso não é grande coisa. Se acontecer ou já aconteceu ela vai ser só mais um número para Four. Ei tá na hora de acordar as calouras, faz uma hora que elas deitaram...”.

...

Pulo da cama com uma buzina no meu ouvido. A luz acesa quase me cega. E que dor de cabeça infernal. Está latejando.

“O que?”. Christina apenas vira para o outro lado resmungando. Vejo Tori.

“Vamos calouras. Levantem-se”.

“Mas acabei de deitar...”. Tori senta ao lado de Christina e buzina uma vez atrás da outra.

“Ok, ok, para, para”. Peço. Puxo Christina da cama. Quero acabar o quanto antes com aquele barulho infernal. Saio arrastando ela do jeito que estamos atrás de Tori, que já está descendo as escadas.

Vejo as outras meninas que descobri ser Myra e Marlene. Parecem tão destruídas quanto nós. Fora Tori, vejo mais duas Zetas. Elas nos entregam latas de tintas e um rolo. Aquilo não poderia ser menos lógico para mim.

“Calouras, cada irmandade tem obrigações nessa universidade. A filantropia é uma delas e garante pontos importantes para nós. E olha só que coincidência, Hoje é dia de filantropia para as Zetas. Uma de nossas atividades será pintar as paredes da Columbia que estão pichadas ou sujas. Lauren e Molly vão mostrar a vocês o que é pra ser feito. Divirtam-se”.

“O que? Mas nós temos aula daqui a pouco...”. Marlene começa a reclamar e é seguida pelas outras. Sou a única a permanecer calada, não porque sou inteligente, mas porque minha ficha ainda não caiu. Tori a encara muito de perto. Se ela acha que pode intimidar alguém agindo assim, parabéns, funcionou comigo.

“Você está questionando minhas ordens caloura?”.

“Nã...não, mas...”.

“As Zetas nunca vão a primeira semana de aula. Primeiro porque eles não passam lista de presença, depois porque não tem conteúdo. Podemos fazer coisa melhor com esse tempo...”.

“Mas...”.

“Escutem, nós Zetas cuidamos uma da outra, e se digo que não vão é porque não precisam ir. Além do mais, só os idiotas vão na primeira semana e fim de papo. A não ser que você não queira mais ser uma Zeta?”.

Marlene arregala os olhos e balança a cabeça freneticamente dizendo não. Tori continua.

“Mais alguma ‘outra’ reclamação?”. Todas ficam caladas.

“Foi o que pensei. Agora mexam essas bundas flácidas, aqui não é casa de repouso”.

Christina me olha meio derrotada enquanto andamos.

“Você não parece tão mal. Cara, só faltei morrer de tanto vomitar quando ... ei? que jaqueta é essa que tá usando?”. Fico confusa. Levo até um susto. Não faço a menor ideia.

“Não sei de onde veio isso. Melhor tirar, senão vou sujar de tinta”.

Se alguém entendeu que as Zetas iriam participar dessa atividade ‘recreativa’, entendeu errado. Elas apontaram os lugares que deveriam ser pintados e foram dormir, enquanto nós, calouras, começamos a trabalhar. Eu gostaria muito de ter um óculos escuro.

“Com quem você foi na iniciação?”. Pergunto a Christina.

“Uma cara chamado Will. Ele é bem legal. Tris, você viu? As Zetas que dirigiam os carros, elas são muito loucas”. Balanço a cabeça dizendo que não.

“Você não espiou?”. Ela ri.

“Tris precisamos mudar isso, você é muito certinha. As Zetas não são certinhas, pelo contrário. Acho que pegaram as criaturas mais malucas do mundo e jogaram nessa casa”. Dou um sorriso amarelo e me recuso a pensar que não tenho nada a ver com essas meninas.

“Elas amarraram os calouros da Capa Alpha no teto do carro. Você tem noção? E o chão? Tava cheio de bolas de fogo que eles tinham que desviar, queimei até meu pé...”. Ela olha para os meus e percebe que estão sem machucados. Depois olha para Marlene e Myra. As duas estão com bolhas nos pés como ela. Marlene também tem machucados no joelho.

Penso no que Christina disse. Bolas de fogo? Eu não fazia a menor ideia do que ela estava falando. Como ela conseguiu se queimar com as pernas acima da moto? Prefiro deixar para lá, minha cabeça está me matando.

“Muito louco né?” Comento.

“Muito. E com quem você foi?”. Não queria falar sobre Four com Christina, aliás não queria falar sobre ele com ninguém. Não sei porque, mas não queria dividir isso.

“Eu?... É... as Zetas disseram que fui com aquele cara que falou no microfone, Four”. Christina deixa o rolo cair.

“Você foi com ele? O líder da Capa Alpha? Não acredito. Ele tem a voz sexy. Também ouvi alguém falando que ele é o quarterback do time de futebol da universidade. O que conversaram? Imagina a sorte que você tem, ir logo de primeira na garupa do cara mais top”. Começo a rir dela depois de processar mais uma informação sobre Four. Ele joga futebol também e em uma posição de destaque. Ok. Tento focar em outra coisa. Ela disse garupa?

“Na garupa? eu...”.

“Claro. Onde mais seria? Aquele vento todo batendo na cara me deixou enjoada”. Eu não fui na garupa, fui no colo. Estava de costas para o vento. Lembro do que ela disse das bolas de fogo, acho que não me queimei por causa da posição, minhas pernas estavam no auto, acima do banco da moto, circulando Four. Foi por isso que ele me levou...daquele jeito? Tento não pensar em como me senti sendo levada ‘daquele jeito’.

Lembro a sequência de coisas que aconteceram ontem, então tive um click. Ah meu Deus, ele colocou uma coisa em mim quando descemos da moto. Como não me dei conta disso antes? É aquela jaqueta. Vou ter que devolver. Mas como? Não quero ir atrás dele, ia parecer que estou interessada.

“Fala Tris, o que conversaram?”. Christina está fazendo disso grande coisa.

“Não conversamos muito, ele apenas disse para me segurar porquê disso dependia a minha vida”.

“Cacete, ainda não acredito que você foi com ele. Você gostou? Gritou muito? Eu gritei muito”.

“Ah... claro, muito”. Nenhuma vez. Eu não devo ser normal.

“Puts, e aquela bosta da tequila? Aguentei duas rodadas e vomitei e você?”.

“Não me lembro bem Christina, fiquei meu louca”. Rimos.

Meus braços estão podres. Acho que posso jogar fora. Caramba, pintar dá trabalho. Minha cabeça também, está cinco quilos mais pesada. É final de tarde e estamos voltando para residência quando vejo um monte de meninas e mulheres saindo com algumas roupas na mão. Em cima de uma mesa ainda tinha algumas peças de roupa e atrás estavam as Zetas. Escuto Christina...

“Ei??!! Aquela menina... aquela menina tá com a minha jaqueta”.

“O que?”. Quando olhei melhor percebi outra usando meu blazer de tweed. Marlene identificou uma peças dela, Myra outra. Corremos para lá. Molly nos cumprimenta.

“Olá calouras. Pena que chegaram tarde para nosso bazar”.

“Bazar?”. Myra estava com cara de pit bull.

“Sim, lembra-se? Hoje é dia de filantropia”. Lauren fala com um sorriso falso.

“As nossas custas? Qual é o problema de vocês?”. Christina também não estava muito amigável.

“Problema? Eu não tenho problema, mas você terá se continuar a falar assim caloura”. Molly responde.

“Ah é? Que tipo de problema hein? Porque não consigo lembrar de um que não possa resolver”. Molly olhou para ela muito intimidadora. Sua voz quando saiu era sarcástica.

“Ahhhh, ela é nervosinha? Vou cuidar de você com tanto carinho docinho que vai aprender a ficar de boca fechada”. Aquilo era uma promessa. Molly se virou para nós.

“Meninas, onde está o espírito de solidariedade de vocês? Ah e careta? As suas roupas foram as que fizeram mais sucesso. As professoras adoraram”. Todas as Zetas estavam rindo da piada de Molly, e eu sou a palhaça que ela usou para fazer graça. Elas debochavam de todas, mas de mim parecia pior. Acho que não estão tentando me dar uma chance realmente. Não acreditam que eu possa ser uma Zeta. Olhei para todas elas rindo... isso não vai me fazer desistir, pelo contrário, me sinto com mais garra para lutar. Agora quero ser uma Zeta mais do que nunca. Eu aguentaria todas as humilhações e deboches se acreditasse que elas me queriam aqui, mas não é o que parece. Não tenho o estereótipo de uma Zeta, mas quero a oportunidade de tentar sem julgamentos preestabelecidos. Eu estava suja de tinta, suada, com a roupa de ontem, com sono e uma dor de cabeça que só fazia crescer. Não pensei.

“Solidariedade? Você vai ver a minha solidariedade agora em primeira mão...”. Um segundo eu estava aqui, no outro voei no pescoço de Molly e a derrubei no chão.

Acho que contei com o elemento surpresa. Isso me deu uma certa vantagem. Até ela entender o que estava acontecendo e conseguir me bater levou um tempo. Mas quando se orientou senti o impacto do seu primeiro golpe. Ela socou a lateral da minha barriga. A raiva não me deixou prestar atenção na dor, eu estava realmente concentrada naquilo. Ao redor estava em silêncio, as Zetas apenas observavam curiosas. Christina, Myra e Marlene estavam em choque, nem respiravam. Não sei quanto tempo brigamos. Eu lutei com tudo que tinha, mãos, unhas, dentes, braços, pernas, enfim, com todo o meu corpo. Ela era forte e pesada. Um golpe dela valia por dez meu, mas eu era mais rápida. Nunca em toda a minha vida me envolvi em uma briga, no entanto, agora isso faz muito sentido para mim. Eu não posso machucar com palavras alguém que não tem respeito por elas, a única coisa que Molly respeita é força. Esse era o único caminho.

E força eu não tinha mais, cai esticada de um lado. Minha respiração era pesada. Do outro lado Molly também não se mexia. Estava tão exausta quanto eu. Tori veio até nós e ficou de pé entre as duas.

“Acabaram com a brincadeirinha? Ótimo. E que isso não se repita caloura, apesar de achar muito divertido, brigar umas contra as outras não é bom para a reputação. E além do mais você não ia a lugar nenhum com aquelas roupas Tris. Não como uma Zeta”. O que? Espere. Eu ouvi ela me chamar pelo nome?

“Ok, acho que essa filantropia toda está nos deixando estressadas. Estão dispensadas calouras”. As Zetas riram, menos Molly. Apesar de não rir, não sei explicar bem, mas ela não está tão furiosa quanto pensei que ficaria.

“Viu porque as Zetas não fazem caridade? Mas vá tentar explicar isso pro reitor”. Disse Tori. Mais gargalhadas.

As outras meninas calouras estavam pasmas. Eu fiquei quieta, não fiz uma coisa muito inteligente. Sei que Molly ainda vai se vingar. No entanto, é como se eu soubesse que poderei suportar o castigo. Quando brigamos até a exaustão tive a impressão de que esse pequeno probleminha ficou resolvido. Talvez as Zetas não nos separaram por isso. Saímos, mas antes peguei a jaqueta de Four que tinha jogado no chão. Agora fico feliz de não ter notado ela antes de sair do quarto, porque a essa altura teria sido vendida no bazar. Acho que Lauren estava olhando para a jaqueta, mas não tenho certeza. Foi ela que falou ontem na van que tive sorte de ser iniciada por Four.

As Zetas ficaram me olhando enquanto me distanciava. Eu ainda não sabia, mas acabei de ganhar o respeito delas, inclusive de Molly.

“É, acho que ninguém pode chamar ela de careta mais, a menina sabe se impor...”. Tori falou com certa admiração.

“...E aguenta bem uma tequila”. Elas concordam. Além de Molly, Lauren é a única que não parece tão animada. Ela não está gostando dessa evidência que Tris está conseguindo.

Quando chegamos no quarto, Christina e eu nos olhamos, então começamos a rir feito loucas. Não sei os motivos de Christina, mas eu ria de nervoso. Me olhei no espelho, meu Deus, estava cheia de machucados, mas com certo orgulho pensei que Molly também tinha minhas marcas.

“Puts, você viu a cara dela? Viu a cara de todo mundo? Tris você foi demais...”.

“Ah e desculpa”.

“Pelo que?”.

“Por ter te chamado de certinha, mas a culpa é sua. Não fazia ideia da onça sanguinária que você guardava aí dentro. Você olhava muito psico”.

“Acho que ainda estou com Tequila no organismo. Uma coisa é fato, agora estou ferrada. Ela ainda vai se vingar”. Vasculho o guarda-roupa e acho peças básica, elas deixaram algumas coisas, graças a Deus. Christina também verifica as dela.

“Com certeza”. Christina é ótima para acalmar pessoas desesperadas. Ela continua...

“Sabe de uma coisa, depois dessa briga toda nem tô mais com raiva por causa das roupas. Na verdade foi ótimo porque é a desculpa perfeita pra gente estourar o cartão de crédito. Vamos fazer comprinhas”. Nós rimos. Gostei da ideia. Mas ainda de fazer compras com ela.

Antes de deitar, encaixei uma cadeira na porta. Se alguém entrar ouvirei o barulho. Também coloquei canetas no trilho da janela impedindo ela de abrir, caso tentem invadir por lá. Fora o spray de pimenta que escondi no travesseiro. Se Molly vier, não vou apanhar sem lutar.