Em busca de mim
4 Blackjack
...
A noite passou tranquila, mas quando abri a porta havia cinco cestos de roupa suja com um bilhete.
“Querida ex-careta Tris, favor lavar e passar essas roupas. Cuide delas como se fosse sua vida, porque se por algum pequeno acidente tiverem manchadas, rasgadas ou amassadas, pagarei a você na mesma moeda e não falo de estragar suas roupas. Lembre-se. Elas são sua vida. Ah, e quero pra HOJE. Se elas não ficarem prontas a tempo você terá uma noite agitada e não de um jeito divertido. Zeta Mu Molly”.
“Ah não. É muita roupa suja, como vou dar conta disso?”.
As roupas não estavam sujas apenas com suor, ou uma sujeirinha a mais. Muitas estavam sujas de lama e outras coisas nojentas que não consegui identificar. Por onde essas meninas andaram?
“O que foi Tris?”.
“Cortesia de Molly”. Mostro a ela todos os cestos.
“Filha da mãe. É muita coisa. Não se preocupe Tris, vou te ajudar”. O celular de Christina vibra, ela lê em voz alta.
“Caloura compareça a sede das Zetas. Trabalhos domésticos”. Christina faz uma careta.
“Acho que não vai dar Tris, desculpa...”. Ela desejou boa sorte e saiu.
O dia vai ser tão cansativo quanto ontem. Quando Christina saiu, olhei para todas aquelas roupas, eu não ia conseguir. No meio do meu desespero, tive uma ideia. Se me descobrirem eu estou ferrada, mas se eu não tentar também não iria conseguir e o resultado seria o mesmo. Então essa era a única maneira. Coloquei um boné de Christina, óculos escuros e chamei um taxi. Olhando sempre ao redor, para que nenhuma Zeta me pegasse saí em direção a lavanderia. Não deu para levar tudo de uma vez, foram preciso várias viagens, muito tempo e uma boa grana, mas finalmente eu tinha conseguido.
Mesmo sem fazer o esforço de lavar e passar eu estava muito cansada. Depois do mata-toma, tequila, pintura filantrópica e a surra do outro dia, mais as coisas de hoje, estava exausta. Deitei para me esticar e adormeci feito pedra. Achei que tinha conseguido fazer escondido. Mal sabia que estava sendo observada, e fiz exatamente o que uma Zeta faria. As Zetas não são tontas, são espertas. Sempre acham uma saída inusitada para as situações. Sem saber, eu acertei em cheio, enquanto Christina, Myra e Marlene se mataram de limpar banheiros, quartos, salas e a cozinha da casa Zeta Mu.
...
Dessa vez não foi buzina, foi água gelada. Pensei que estava me afogando. Quando olhei, identifiquei Lauren ao lado da minha cama. Ela derramou água com força em mim e parecia ter se divertido muito com isso.
“Vamos lá calouras, hora do treinamento. Vamos endurecer essas bundinhas murchas”. Tori estava berrando. Outro dia no inferno.
Nos vestimos e descemos. Myra estava resmungando baixinho. Tori ouviu.
“Caloura, paga vinte”.
“O que?”. Tori sorri diabolicamente. Vontade de dar um soco. Estou muito violenta esses dias, deve ser TPM.
“Vinte flexões, vamos. Talvez isso deixe você menos reclamona. Aliás, todas pro chão. Vocês não querem que sua irmãzinha se sinta solitária não é? Agora”. E aperta aquela maldita buzina no meio da paz e tranquilidade do campo de futebol deserto. Logo as outras Zetas se juntam. Todas elas. Isso me deixa ridiculamente feliz.
Começamos a correr. Tori corria ao lado como um sargento. Não tinha nem clareado direito ainda. Essas meninas são máquinas. Depois de mais uma buzinada. Veio o grito...
“Somos Zeta Mu, e nada nos afeta. Somos Zeta Mu fique longe sem conversa. Nosso corpo é quente, nosso braço é forte. Cuidado garotos nós seremos sua morte...”.
“Vamos lá, todas cantando... “Somos Zeta Mu, e nada nos afeta. Somos Zeta Mu fique longe sem conversa. Nosso corpo é quente, nosso braço é forte. Cuidado garotos nós seremos sua morte...”. Repeti isso tantas vezes que não saiu mais da minha cabeça.
Nós não corremos apenas. Fizemos um circuito aeróbico pesado. Não sei quantas vezes subi e desci aquela arquibancada, nem quantas abdominais e flexões eu fiz. Eu queria chorar de dor.
Mas daí me lembro de várias coisas humilhantes que vi durante essa semana. Prefiro mil vezes esse tipo de dor do que aquela que ia afetar muito mais a minha autoestima. Poderia ser muito pior. Vi gente amarrada nas árvores lambuzados de alguma coisa gosmenta usando apenas roupa íntima, garotos carregando uma cruz nas costas como Jesus Cristo. Meninas andando com roupas rasgadas e pichadas no avesso. Calouros carregando veteranos no colo como se fossem taxi. Gente imitando elefante, galinha ou se rastejando no chão feito cobra. Outros usavam coleiras e andavam de quatro. Tenho que admitir, as Zetas não são fáceis, mas elas não nos expõem ao ridículo. Nossa humilhação é interna mesmo. Quanto a humilhar publicamente as calouras de outras irmandades ou até mesmo as veteranas elas não veem problema nenhum. E isso é muito mais lógico para mim do que expor os seus calouros a todas aquelas coisas degradantes, qual o objetivo disso? É burrice. Apesar de todas as coisas difíceis que tenho que suportar não me acho resto de coco como esses outros calouros devem sentir. Elas nos testam com coisas que fazem diariamente, e se não podemos suportar isso não podemos ser uma Zeta. Elas impõem desafios e cada um que ultrapasso só me deixa com mais vontade de lutar. Elas ensinam a ter garra, e essa é uma lição para a vida.
Quando estávamos saindo, o time de futebol entrava na quadra. Foi aí que o vi. Christina me mostrou quem era Four outro dia. Meu coração acelerou. Meio que me escondi. Claro que isso é ridículo porque ele não viu meu rosto no mata-toma. Aquela venda cobria quase tudo. E mesmo que tivesse visto, duvido que lembrasse. Não faz nem ideia de quem eu sou. Outra coisa me vem à cabeça, eu precisava me livrar daquela jaqueta. Qualquer hora Christina ia me pegar cheirando ela e eu teria que responder perguntas sem fim. Estou meio viciada naquele cheiro. Não só o perfume, mas o ‘cheiro’ dele.
Four e os outros jogadores se preparam para o aquecimento. Todos estão tirando as camisas. Meus olhos estão nele. Ele tira a camisa puxando pela cabeça. Não poderia ser mais sexy. Eu não sei o que está acontecendo comigo, nunca senti essas coisas por ninguém. Mesmo de longe percebo algo em suas costas. É uma tatuagem enorme, mas não consigo definir o que é. Percebo o que estou fazendo e disfarço olhando para o lado. Mas logo chego à conclusão que não sou a única olhando para os caras. Tori dá uma buzina.
“Acabou o treino, não dá pra se concentrar assim”. Todas riem.
Quando estamos saindo do campo, Tori aponta para vários baldes e nos manda pegar um. Olho dentro e vejo bolas de encher cheias de água. Vamos começar uma guerra? Melhor do que ter que limpar o estádio, por um momento isso passou pela minha cabeça.
“Meninas esse campus está muito tranquilo. Acho que as Delta Pi merecem um bom dia melado e vocês?...”. As meninas gritam animadas.
“... Só ataquem quando todas tiverem saído. Vamos pegar os docinhos bem na hora que saem pra a aula. Mirem na cabeça, é mais difícil de sair do cabelo”. Fomos em direção a Delta Pi e nos escondemos entre os arbustos. Eu adoro a ideia de atacar essas garotas, é tão aventureiro e elas merecem. Logo as Delta Pi começaram a sair, Tori foi a primeira a levantar. No minuto seguinte tinha Delta Pi fugindo para tudo que é lado. Só errei em uma coisa, não era água na bexiga, era óleo de cozinha.
“Zetas atacando”. Lynn berrava atrás de uma árvore. Eu ouvia gritos agudos e muitas reclamações. Algumas meninas podiam explodir de ódio a qualquer momento. Quando os ataques pararam Lynn se dirigiu a Tori furiosa. Ela poderia estar toda melecada de óleo, mas a pose continuava a mesma. Sua voz saiu calma e equilibrada, mas carregada de hostilidade. Meninas como ela sempre mostravam ter o controle da situação.
“Zeta, você já teve ideias mais originais...”.
“...Aqui vai uma dica de como usar melhor o seu tempo, já que você parece vagabundar o dia todo, assim como essas outras marginais. Acho que no lugar de ficar planejando ataques contra nós, devia estar focada em manter de pé a sua casa, queridinha. Se bem me lembro, ano passado vocês quase não conseguiram pontos suficientes. Aproveite enquanto pode, porque no que depender de mim ano que vem teremos uma irmandade a menos”.
“Não se preocupe pink, vamos garantir seus pesadelos por muito tempo”.
“Eu não tenho pesadelos. Não ligo para sonhos. Meu mundo é bem real. A maneira como removo os meus obstáculos do caminho também. Mas já que isso conforta você, melhor pensar que está sonhando quando eu passar com um trator em cima da sua casinha. Adeusinho”.
Lynn dá um giro de 180 graus, mas não antes de me encarar. Acho que consegui chocá-la porque a boca dela abriu um pouco em surpresa. Isso não era bom. Eu ainda estava escondendo o fato de não estar na Delta Pi para mamãe, papai e Caleb. Se essa surucucu loira der com a língua nos dentes, estou ferrada. Não sei se aguento mais um ferrão no momento. É duro sobreviver.
O que ela disse sobre a Zeta Mu também me preocupou um pouco. Que história é essa de que elas podem fechar? Isso não pode acontecer.
Antes de entrar na residência Tori me alcança e entrega um papel.
“Tris, você precisa se inscrever nessa aula hoje”. Quando olho, aula de dança?
“O que?”.
“Você não vai sair com a gente dançando desse jeito”. Bufo.
“Você nunca me viu dançando”. Ela sorri.
“Vi sim”. Onde diabos ela me viu dançando? Eu só danço quando estou sozinha no quarto. Oh cacete. Corro para o quarto. Cristina vem atrás de mim. Procuro no alto, olho para todos os cantos. Quando vejo uma sombra na luminária, sinto que achei. Quando pego, Christina tem um acesso de raiva e joga a câmera no chão pisando em cima.
“Eu não acredito que aquelas filhas da puta fizeram isso”. Eu só consigo imaginar o monte de coisas que fiz pensando que ninguém estava vendo, como cheirar a jaqueta de Four. Fecho os olhos de vergonha. Repasso mentalmente todas as vezes que fiz isso e acho que não foi tão escancarado. E elas não sabiam de quem era a jaqueta, eu acho. Mas mesmo que soubessem, penso que não teria como identificar bem pela câmera, podem pensar que é meu terno preto e que tenho um tique nervoso de ficar cheirando aquilo.
A próxima vez que vi Tori, ela me fez entender o porquê das câmeras do jeito mais prático que podia.
“Sabe Tris, você passa roupa muito bem. Acho que você poderia dar algumas aulas pro resto das meninas, o que acha?”. Ela me dá um tapinha nos ombros e pisca para mim. Fecho os olhos. Droga, elas sabem que não passei aquelas roupas. Pensando bem, ela não pareceu muito preocupada com isso, respiro aliviada. Mas de uma coisa não vou poder fugir. Aulas de dança. Felizmente ela não comentou nada em relação ao vício de cheirar certa jaqueta.
...
Finalmente comecei a frequentar as aulas. Tori estava certa, não perdi nada na primeira semana, no entanto os professores tiraram o atraso nas últimas. Estou entupida de conteúdo e atividades. Já faz um mês, mas só agora estou me acostumando a equilibrar as aulas e os deveres, com o estilo de viver das Zetas, mais as aulas de dança. Quanto as aulas de dança, tenho que admitir, após superar a minha timidez inicial estou adorando. Minha postura mudou, a maneira de andar também. Me sinto mais coordenada e confiante. Christina entra no quarto e desaba com os livros na cama.
“Ei, não dá pra adiar mais, precisamos fazer compras de verdade. Cansei de me virar comprando uma coisa aqui e outra ali. Já estamos mais folgadas de tempo, vamos agora por favor?”. Ela fez uma carinha tão pidona que me fez rir.
“Ok”. Concordo. Ela grita e me abraça. Fico pensativa. Christina se veste tão bem. Os caras olham quando ela passa, mesmo estando com uma quantidade de roupas muito limitada depois do caridoso bazar das Zetas. Eu nunca tive o desejo de ter muitas roupas. Como tudo era clássico e sem variação de cores, não via motivo para comprar mais do mesmo. Sem contar que meu pai acha um desperdício gastar muito dinheiro com roupas. Ouvi isso muitas vezes. Recebo uma gorda mesada, mas ele me ensinou a aplicar o dinheiro no lugar de gastá-lo.
“Christina, você acha que me visto muito mal?”. Ela faz uma careta. Depois seus olhinhos brilham feito criança comprando doce.
“Não é que você se vista mal Tris, eu acho que você se veste muito formal sabe? Careta. Se você deixar eu vou ficar muito feliz em te ajudar. Você é linda...”. Eu rolo os olhos.
“Ah para Tris, você sabe que é. Agora parece que no lugar de se valorizar você se esconde...”.
“Ah Christina eu sou muito magra e...”. Ela balança a cabeça negando.
“É verdade que quando te conheci você era bem magra, mas ando te observando. Você já tá bem diferente, não percebe? Tá ficando hot, também depois de todo esse treinamento nazista das Zetas. Sem contar que as aulas de dança tá deixando seu corpo cheio de curvas”. Tive que rir. Ela continua.
“...Precisamos mudar esse seu cabelo tão inteiro, achar um estilo que se encaixe em você e pronto. O que acha? Vamos?”. Ela está tão empolgada que é impossível não se empolgar também.
“vamos”.
Saímos em direção ao shopping. Estou ansiosa para as comprar. Lógico que eu vou adorar fazer compras, mas principalmente, vou adorar fazer compras com Christina. Nunca fiz compras com uma amiga, porque nunca tive uma.
Quando entramos na loja, não demorou muito para Christina encher os braços com peças de roupa. Ela me dá tudo para segurar.
“Que comece o desfile”. Ela realmente entende de moda. Peça por peça Christina foi me explicando o porquê de usar, com o que usar, onde usar. A gente provava e desfilava uma para outra. Observei os brincos que ela usava. Eram lindos.
“Christina, que brincos lindos”. Ela sorriu orgulhosa.
“Você gostou?”.
“Muito”.
“Fui... eu que fiz”. E pela primeira vez vejo Christina envergonhada. Fico completamente surpresa com o que ela falou.
“Você fez? Como?”. Ela sorri.
“Bem, eu tenho um pequeno estúdio em casa. Esse é o meu passatempo favorito. Na verdade é mais que um passatempo, quero um dia me tornar uma design profissional de joias. Meu pai me incentiva muito e aos pouco ele foi comprando todos os equipamentos que eu precisava. Se sinto falta de alguma coisa além da minha família, é do meu estúdio”.
“Christina, porque nunca me disse isso? Você tem muito talento. Tenho certeza que um dia será muito famosa”. Ela retira os brincos e põe na minha mão meio emotiva, mas logo disfarça com seu lado brincalhão.
“Então quando eu for muito famosa e minhas peças custarem uma fortuna, estes aí vão ter valorizado bastante”.
“São para mim?”. Pergunto boquiaberta. Nunca ganhei um presente tão significativo assim de alguém de fora da família.
“Claro...”. Não deixo ela terminar de falar, abraço Christina forte. Ela retribui e rimos.
“Obrigada Christina”. Eu não agradeci apenas o presente, mas também a amizade dela e acho que Christina entendeu.
Quando terminamos as compras, eu não podia acreditar. Meu pai me mataria se soubesse que gastei todo esse dinheiro de uma só vez com coisas tão fúteis. Mas se parar para pensar, comprei um pedaço de mim. Christina resgatou uma parte da minha auto estima que estava esquecida sob o estigma de que eu nasci para ser uma coisa, então não poderia sair dessa linha.
Ela também tinha razão quanto ao meu corpo, estava realmente diferente. Como não me dei conta? Em frente a tantos espelhos enormes eu vi os músculos se definindo. Mas sem dúvida minha maior surpresa foi que o meu eterno 34 não passou na coxa. Acho que não me lembro a última vez que fiquei tão feliz. Eu até lembro, mas não vem ao caso agora. Sem contar que virei um monstrinho comedor. Não me reconheço mais em relação a comida. Não me reconheço mais em relação a nada.
Uma variação de jaquetas e casaquinhos com cores, tecidos e modelos diferentes. Calças jeans, de couro, rasgadas, tops, saias curtas, vestidos justos, roupas de ginástica, biquínis, shorts, lingerie, camisetas, macacões, coletes, regatas, blusas, maquiagem, perfume, roupas para balada, boinas. Acessórios. Sapatos, sandálias e muitas botas. Tinha muito couro, muito preto, muito brilho e muito salto. Ah meu Deus. Foram mais de vinte lojas, quase não temos mãos para tantas sacolas.
Christina me olha com orgulho. Tirando a sensação de que virei um experimento científico, sinto orgulho de mim também.
Resolvemos lanchar alguma coisa, todas essas compras nos deixaram com fome.
Quando nos sentamos o celular de Christina toca. Ela sorri e me mostra. É Will. Will é um veterano da Capa Alpha. Ele iniciou Christina no mata-toma e desde então andam conversando muito.
...
“Will, tudo bem?...”.
“Ah... claro...”.
“Depois das 8h?...”. Parece que eles vão sair.
“Fechado...”.
“Claro que ela vai...”. Christina fala olhando para mim. Vou para onde? Não entendo nada.
“Até”.
...
“O que?”.
“Vamos jantar com os meninos”.
“Que meninos?”.
“Will e All”.
“Christina tenho um monte para estudar e...”.
“E nada. Você vai também”. Bufo derrotada.
“Acho que terminamos”. Digo, enquanto lambo meu sorvete.
“Acho que não, ainda falta um lugar. Salão de beleza”. Ok. Tinha me esquecido disso.
Enquanto uma manicure fazia minhas unhas, um hairstyle mexia no meu cabelo. Quando ele terminou. Eu ouvi um...
“Uau. Você está top. Linda mesmo”. Christina concordou. Ela estava admirada de verdade. Se não tivesse gostado eu saberia, Christina não mente.
Me olho no espelho e estou tão diferente. O cabelo antes longo e reto, agora tem leves camadas formando pequenas ondas. Um franjão que está jogado para o lado finaliza. Pela primeira vez me sinto bonita de verdade.
Recebo uma mensagem de Tori, Christina também. Fomos convocadas para uma reunião.
...
“Ok meninas. Estamos com um probleminha. Semana passada solicitei novamente a universidade mais recursos para nossa irmandade, e hoje recebi a resposta. Ela não foi a que eu esperava. Além de um não em negrito, tinha também um aviso. O reitor não está satisfeito conosco. Ele apontou nosso baixo desempenho acadêmico e os constantes problemas em que nos metemos como as principais razões de não sermos as queridinhas da Columbia. Ele ainda disse que não nos ajudamos, não sabemos arrecadar recursos e usamos o dinheiro da universidade de forma irresponsável. Em resumo ele não vai liberar um centavo além do que recebemos para nossas necessidades básicas. E quando digo básicas falo de comida. Ou seja, estamos fodidas e quebras. Não podemos arcar sozinhas com isso. A casa necessita de reparos, nós precisamos de dinheiro pra nossas coisinhas radicais e ainda temos que gerar prestígio pra a universidade. Se não tivermos o dinheiro rápido, não vamos conseguir sobreviver. Nós somos gastadeiras”. Ela respira.
“Geralmente as calouras não participam desse tipo de reunião, mas preciso de toda ajuda possível. Necessito de ideias para gerar dinheiro. Todas as outras irmandades e fraternidades fazem isso. Sejam com prêmios acadêmicos, ou eventos beneficentes. O problema é que não somos nerds e para promover eventos é preciso grana e grana não temos. Ideias por favor?”.
“Ah Tori, você viu o que aconteceu quando fizemos filantropia”. Shauna olhou para mim, mas todas rimos.
“Sei, mas essa é uma das coisas que teremos que fazer e sem reclamar. Também precisamos estudar mais esse ano e levantar nossas notas. Participar de alguns concursos educacionais, as nerds podem nos ajudar”. As meninas reviram os olhos e resmungam.
“Podemos apelar para aquelas coisas básica, como rifas, fazer festas e cobrar a entrada...”. Molly dá sua opinião.
“Sim, mas as rifas não rendem muito e a ideia das festas é legal mas precisa de investimento e não temos dinheiro. O único dinheiro que tem em caixa são quinze mil dólares, e isso não dá pra nada...”.
“...Não podemos fazer nada sem dinheiro. Precisamos ganhar dinheiro rápido, fácil e com pouco investimento. Tem que ser uma coisa bem agressiva”. O silêncio pesou na sala, até que ouvimos uma voz no fundo.
“Só consigo pensar em uma coisa. Las vegas baby”. Todas olhamos para Lauren. Tori cruza os braços e responde.
“Só eu e você temos 21 Lauren. Não dá certo, precisa de pelo menos mais duas”.
“Molly sabe jogar também Tori...”.
“Mas ela só tem 19, e não seria suficiente, falta uma...”.
“Acho que com três conseguimos...”. Lauren insiste.
“...Não dá e não temos tempo para treinar uma garota. E Molly não precisaria apenas de identidade falsa, mas também carteira de motorista e cartão do seguro social, sem contar que queremos uma soma maior em dinheiro, é muito arriscado...”.
“Os documentos não seriam problema”. Tori desaba no sofá irritada. Eu estou absolutamente em choque com essa conversa e mal acredito que estou prestes a fazer isso...
“Eu sei jogar blackjack”. Todas olham para mim. Lauren me questiona com o olhar e fala.
“Não temos dinheiro para arriscar caloura, você não ouviu? E estamos falando de...”.
“Contar cartas. Eu sei”. Falo simplesmente. Lauren é a única que ainda não me chama pelo nome.
“Você sabe mesmo jogar Tris?”. Tori me pergunta interessada.
“Sim”. Respondo com segurança. Lauren revira os olhos. Tori está balançando a perna freneticamente. Está tomando uma decisão. Rapidamente levanta e bate palmas.
“Ok. Acho que vamos para Vegas garotas...”. Gritos eufóricos explodem na casa. Todas dizendo que querem ir.
“... mas infelizmente dessa vez não dá pra todo mundo ir”. Elas fazem um ‘ahh’ coletivo, eu estou eufórica demais porque apesar de ainda não confirmado, sei que vou.
“Pelo menos temos milhas suficientes para algumas passagens”. Shauna disse. Rimos empolgadas. Eu mal posso esperar. Isso parece tão perigoso e excitante.
...
Christina e eu voltamos para a residência e nos arrumamos para sair com os meninos. Quando descemos vi os garotos encostados em um taxi. All me olhou admirado. Mas foi Will que falou.
“Uau Tris. Você tá...”. Daí ele olhou para Christina e deglutiu em seco.
“...diferente”. Christina bateu no braço dele.
“Idiota, ela tá linda né?”. Rimos
Depois de falar com All e Will, entramos no taxi e saímos. Tento me livrar da sensação de que não me sinto à vontade aqui com All. Sem contar que isso parece um encontro de casais, mas All e eu não temos a menor possibilidade de sermos um. Ele é um calouro da Capa Alpha e também irmão de Will. Christina nos apresentou outro dia, e de vez em quando nos encontramos nas festas e na universidade. Ele é um garoto legal, mas é só isso. Quando percebo, o taxi já parou.
“Nathans? Não acredito”. Meus olhos brilharam. Aqui está o melhor cachorro quente do mundo.
“Parece que você gosta hein Tris?”. All perguntou.
“Haha, você não faz ideia”. Entramos e conseguimos uma mesa. Estava lotado.
“Então meninas, está muito difícil a vida de caloura? Tori tem tirado o couro de vocês?”. Will perguntou.
“Não só Tori né? Molly também veio do inferno”. Christina respondeu logo. Rimos.
“Você tem sorte, eu ainda tenho Lauren que me detesta”. Falo.
“Lauren? Sério? Ela é uma das mais legais”. Disse Will.
“Bem, então talvez eu que seja chata”.
“Não. Tris tem razão, Lauren não gosta dela mesmo”. Christina me defende.
“Eu nunca fiz nada para ela, não gosta de mim de graça”.
“Quando tem um assim, que pega no pé porque não vai com a sua cara é um saco”. All comentou.
“Ah você tá numa molezinha né? Seu irmão é veterano”. Christina fala para All.
“Nada disso. Four só falta matar os calouros. Os treinos dele são foda. Ele não é humano. Aquele cara não dorme. Sem contar que tive que lavar a roupa dele, fazer as atividades da faculdade, levar o carro dele pra oficina”. Eu quase me engasguei quando ouvi o nome de Four.
“Qual é All? Pare de reclamar, não é tão ruim assim. Four só parece assustar...”. Will debocha. All joga bata frita nele. Christina precisou interferir nessa brincadeira tão cinco anos.
“...Espere, você falou que ele tem um carro? Não sabia disso. Qual o carro mesmo que você disse? Ninguém sabe muito sobre Four”. Will continuou.
“Eu não disse qual o carro e você vai continuar sem saber. Não duvido que o cara me mate. Ele não gosta que fiquem falando sobre ele por aí”.
“Sim, e quem é o bocão”.
“Você seu babaca”.
“Tempo pro terceiro round”. Christina grita. Rimos. Mas eu estou muito interessada em descobrir mais sobre Four.
“Então ele tem grana?”. Christina pergunta.
“Ele não ostenta, mas é nítido que sim. Os caras comentam que ele tem um super AP aqui em Manhattan, tem aquela moto top também e agora All falou do carro. Sem contar que as brincadeirinhas que a gente gosta são bem caras”.
“Ele só tem 21 e parece que tem o mundo nas mãos”. All comentou meio invejoso, meio admirado.
“21? Então esse é o último ano dele aqui?”. Christina continua.
“Se não tiver devendo nenhuma matéria e quiser terminar os estudos sim. Se terminar, ele ainda pode tentar entrar um curso mais específico aqui, tipo direito, e ficar se for aceito...”. Will respondeu.
“E porque chamam ele de Four? Alguém sabe o nome real dele?”. Christina pergunta mexendo no cabelo de Will. Ela está muito curiosa sobre Four ou é impressão minha? É estranho. Ela nunca se mostrou interessada nele. Se eu não soubesse que ela está mesmo afim do Will, pensaria outra coisa.
“Não. O cara é um mistério”. Aprendi mais sobre Four hoje do que nesse mês inteiro, e ainda não sei de nada muito concreto. Essa conversa só me deixou com mais fome, já estava no terceiro cachorro quente.
“Nossa Tris. Nunca pensei que você comesse assim”. All comentou.
“É, ninguém acha que a educadinha é uma devoradora. Só eu sei o que passo com ela”. Dessa vez sou eu que jogo batata em Christina.
Depois do Nathans fomos dar uma volta e paramos em um parque. Apesar de ser noite, havia alguns casais passeando e turistas também. Will e Christina começaram a andar na frente. A próxima vez que os vi, estavam se beijando. Sorri para isso. Mas quando olhei para o lado, lá estava All e me senti incomodada. Ele me olhava... com expectativa.
“Então Tris, como estão suas aulas?”. Ele pergunta puxando assunto.
“Ah, bem. Agora que estou conseguindo equilibrar as aulas com as coisas das Zetas e as baladas... penei um pouquinho, fiquei algumas noites sem dormir para dar conta, mas depois que pequei o ritmo, está tudo mais fácil. Já não me sinto tão fracassada”.
“E você? Os Capa não são fáceis né? Depois da iniciação o que fizeram com você?”.
“Bem, você sabe, primeiro veio a corrida e me amarraram no teto do carro vendado e aquilo foi insano...”. Rimos.
“... No local do mata-toma, do outro lado, tinha uma piscina com uma espécie de ponte de balões. Eles eram pesados e estavam presos dentro de uma rede. Me fizeram cheirar sal, espremer limão nos olhos e encheram minha boca com tequila. Eu não podia engolir...”. Ele imita o que fez com gestos.
“... Tinha que mergulhar na piscina, passar por baixo dos balões com a tequila na boca, com os olhos e nariz ardendo e derramar a bebida em um copo que ficava do outro lado da borda. Se eu não conseguisse encher o copo tinha que tomar uma dose de tequila. Não sei quantas vezes repeti isso, tive que sair de lá carregado”. Rimos muito.
Ainda estávamos rindo quando o vento bateu nos meus cabelos e All carinhosamente os colocou atrás da minha orelha. O toque dele me queimou, mas não de um jeito bom. Me senti invadida, não tínhamos essa intimidade. Disfarçadamente me afastei, mas não queria magoá-lo. Ele percebeu e tentou disfarçar também. Ouvi a voz de Christina e Will e dei graças a Deus.
“E então, vamos? Está ficando muito tarde”. Christina disse com um sorriso bobo no rosto. Ela e Will estavam de mãos dadas. Todos concordamos.
Quando paramos na residência, All me olhou tímido e esticou a mão.
“Eh, Tris? Amigos?”. Respirei aliviada. O clima estava estranho. Ele não parece magoado, só envergonhado.
“Amigos”. Não apertei a mão dele, o abracei, para mostrar que estava tudo bem mesmo. Sorrimos. Ele também parecia aliviado. Christina e Will deram um beijo de despedida e entramos.
“Meu Deus, pensei que você não ia parar de comer”. Christina disse.
“Ah, para de me controlar”. Rimos. Ela me cutucou com o ombro.
“E aí? Você e All?”.
“O que tem?”.
“Ah, você sabe... se entenderam de outro jeito?”.
“Nós nunca nos desentendemos para ter que... sabe?”.
“Engraçadinha”.
“Christina, All e eu podemos ser apenas amigos. Não tem... química entende?”. Entramos no quarto e Christina senta rendida na cama.
“Eu sei”. Ela me olha e parece se preparar para falar alguma coisa, mas demora muito. Então Falo primeiro.
“Mas e você e o Will? Estão namorando?”.
“Ah, a gente tá se conhecendo, ainda não sei o nome disso. Essa foi a primeira vez que ficamos, você sabe”. Balanço a cabeça concordando.
“Will é um cara legal”. Digo.
“Sim, ele é”.
“Bem, vou tomar um banho”. Christina me olha pensativa. Parece que quer falar comigo, mas não sabe como. Nunca a vi pensar ates de falar, muito estranho. Espero que ela não insista nessa história com All. Volto a pensar nas coisas que ouvi sobre Four. Me surpreendeu saber que ele tem dinheiro, mas o fato dele esconder me surpreendeu mais ainda. Balanço a cabeça me sentindo idiota, eu preciso parar de pensar nele, isso não vai me levar a lugar nenhum além de uma enorme decepção.
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