...

Durante a semana as Zetas nos prepararam para Las Vegas. Eu recebi uma preparação especial, porque vou jogar nas mesas. Cada vez que imagino o que estamos prestes a fazer, me dá um frio enorme na barriga. Primeiro os documentos falsos, depois todo o resto, tudo parecia tão ilícito.

Elas organizaram um esquema. Tinha o grupo de ataque formado por duplas, como Molly e Tori, e, Lauren e eu. Uma das parceiras da dupla ficava nas mesas apostando baixo e memorizando a sequência de cartas que aparecia até chegar a hora da outra Zeta entrar em ação e dar o bote. E tinha o grupo de apoio, que ficava fora do cassino para guardar o dinheiro e dar alguma assistência, com exceção de Shauna que ficou como observadora dentro do cassino, a qualquer sinal de perigo ela nos alertaria.

O plano era relativamente simples, chegar lá, nos misturar e atacar. Ele era tão simples que só me deixava mais nervosa. Eu precisava me acalmar. Entramos no cassino separadas, era hora do show.

Escolhi uma mesa, sentei e me concentrei. Isso era sério, estávamos aqui com um objetivo. A primeira aposta foi a mais difícil, não porque era difícil em si, mas porque eu estava muito nervosa. Tinha que ficar segurando as mãos porque estava tremendo. Milhares de coisas ruins passavam pela minha cabeça, e se eu fosse pega? Shauna discretamente deixou uma bebida ao meu lado. Bebi e tentei relaxar, já estava aqui, agora tinha que ir até o fim.

Permaneci fazendo apostas baixas e continuei esperando a mesa engordar. Depois de um tempo a tensão foi embora e passei a me divertir. Eu estava curtindo jogar. Quando o momento ficou propício para ‘a aposta’, com um dos pés tirei o sapato do outro pé em baixo da cadeira. Esse era o meu sinal para Lauren entrar em ação. Sua função era apostar alto na mesa que eu estava, para ganhar o máximo em cima do cassino. E ela conseguiu 40 mil dólares. Quase não consegui segurar o sorriso de vitória. A garota podia ser atriz, porque ela fingiu muito bem ser uma tonta com sorte. Olhando furtivamente saí do cassino e entrei no bar da esquina onde as outras Zetas estavam esperando. Lauren já estava lá com o dinheiro. Tori e Molly também, elas conseguiram 30 mil dólares na outra mesa.

Mesmo no bar fingíamos não nos conhecer, podíamos estar sendo seguidas, então o banheiro feminino era o nosso lugar de trocar informações e desovar o dinheiro. O dinheiro ficava com cinco Zetas que fingiam estar apenas bebendo no bar. Em seguida fomos em direção a outro cassino. Repetimos o mesmo esquema mais quatro vezes em lugares diferentes. A madrugada clareava quando chegamos no aeroporto para voltar a Nova Iorque, estava quase terminado. Eu não conseguia me livrar da sensação de estar em um filme da máfia. Nós somos praticamente uma quadrilha. Meu Deus, que loucura, quando na vida me imaginei fazendo algo assim? Nem nos meus sonhos mais delirantes.

Entramos na casa das Zetas ainda desconfiadas. Fechamos a porta e ficamos em silêncio esperando alguém vir atrás de nós. Um segundo depois começamos a gritar e pular feito loucas. Tínhamos conseguido.

“Conseguimos...”.

“Não acredito que conseguimos...”.

“Estamos ricasssss”. Tori abriu a bolsa e jogou o dinheiro para cima.

As Zetas que ficaram em casa desceram correndo para nos encontrar.

Mesmo cansadas, ainda contamos o dinheiro com o restante das meninas. Conseguimos surpreendes duzentos e setenta mil dólares. Não podíamos acreditar.

Tori começou a fazer a destinação do dinheiro e pensei sobre isso.

“Tori, porque não aplica parte do dinheiro. A parte que não tem uso imediato poderia render mais dinheiro”. Carinhas surpresas olhavam para mim.

“Você sabe fazer isso Tris?”.

“Bem, posso ajudar. Mas o gerente da conta das Zetas pode sugerir melhor o que fazer”. As Zetas me olhavam com respeito. E não posso negar o quanto isso me afeta. Estou feliz.

...

Christina estava tão empolgada como se tivesse ido para Vegas também. Passou a noite acordada junto com as outras Zetas esperando a gente voltar. Depois de contar a ela toda a nossa aventura, ela adormeceu. Eu não estava pronta para dormir, a adrenalina ainda corria pelo meu corpo. Resolvi arrumar o guarda-roupa. A semana foi tão agitada que não consegui organizar tudo que comprei. É quando a vejo. Pego a jaqueta e me encosto na parede. Dessa vez sei que não estou sendo filmada. Não consigo resistir e sinto o cheiro dele, ainda estava do mesmo jeito. Penso em Four. Eu o vi na aula de sociologia sexta. Conversava com um garoto da Capa Alpha, Edward. Edward e Myra estão ficando. Christina e Will também. Pela primeira vez sinto solidão. Solidão de um ‘cara’. Eu nunca namorei alguém, apenas beijei duas pessoas na vida e não aconteceu nada de especial. Nada como quando Four me tocou e ele sequer tinha me beijado.

Nunca fiz perguntas a respeito dele, mas se alguém fala sobre, faço tudo para ouvir. Ele ainda é um completo mistério, não só para mim mas como também para os outros. O que sabem dele é apenas o que veem, o que ele quer que vejam. Um cara bad boy, ameaçador, que não é de muito papo. Gosta de perigo e aventura e anda em uma linha tênue que divide o bem e o mal. Ele também não tem namorada, mas muitas meninas dizem que já ficaram com ele. Se todas falam a verdade, foram realmente muitas. Olho para a jaqueta novamente. Eu preciso devolver. E vai ser agora.

...

Entro na lavanderia. Um rapaz alto vem me atender.

“Bom dia, posso ajudar?”.

“Oi, você pode lavar essa jaqueta de couro para mim e mandar entregar nesse endereço?”. Mostro a ele o endereço da Capa Alpha escrito em um papel.

“Claro. A quem o produto deve ser entregue?”.

“Ah... para... Four”.

“Four? Como o número?”.

“É”.

“E qual é o seu nome?”.

“Meu nome? Ah, não é importante”. Escrevo em um cartão apenas ‘Four, obrigada’.

“Você pode entregar junto com isso?”.

“Claro”.

“Quanto tempo para ficar pronto?”.

“Daqui duas horas a entrega já estará feita”.

“Ótimo”. Depois de pagar, voltei para residência. Precisava dormir.

...

“Four, tem alguém aqui querendo falar com você”. Ele desce as escadas da Capa Alpha com tanta destreza que parece desfilar. Tem muito domínio sobre o seu corpo e suas ações. Controle é tudo para ele, não permite que se machuque.

Four vê a entrega e acha que é de alguma daquelas meninas que vivem atrás dele. Pensa em devolver ao entregador, mas lê um bilhete simples que está grudado na embalagem. Nele está apenas escrito... ‘Four, obrigada’. A letra é bonita e feminina, mas não está assinado. Ele resolve ficar com a entrega.

Quando abre, se surpreende ao encontrar a jaqueta. Ele procurou por ela, não sabia onde tinha enfiado até que lembrou do mata-toma. A garota estava com tanto frio que emprestou pra ela. Ele realmente não gosta de fazer esse tipo de coisa porque as meninas interpretam do jeito errado. Mas aquela garota não estava tentando chamar a atenção dele, na verdade ela não estava tentando fazer nada. Simplesmente parecia aproveitar.

Uriah estava seguindo os Alpha Delta para ver onde seria a iniciação deles e não ia dar tempo chegar na corrida, então pediu para Four iniciar a caloura da Zeta no lugar dele. O líder da casa nunca inicia um calouro. Ele particularmente nunca dá carona a garotas, isso poderia trazer muitos problemas que ele não está disposto a lidar. Ele até poderia ter conseguido outro veterano para fazer isso, mas não quis. O dia estava difícil. Tinha tido antes de chegar no mata-toma uma briga com seu pai por telefone e seu sangue ainda fervia. Então ele topou. E a corrida foi realmente boa. Trocou poucas palavras, mas a companhia da garota era confortável. Ela não gritou sequer uma vez e isso o surpreendeu muito. Também não ficou falando sem parar. Se fosse alguém mais intencionada, já teria feito uso disso e aparecido com essa jaqueta falando do mata-toma. Isso também o surpreendeu e poucas coisas o surpreendem. As garotas não entendem a sua linguagem corporal, ele detesta as atiradas. Quando quer uma mulher, ele vai atrás. É simples.

Pena que não viu seu rosto, nem lembra o seu nome. Só sabe que ela era uma das calouras da Zeta naquela noite, e pelo que ele ouviu algumas desistiram. Então ele não tinha como saber. Four olhou o bilhete novamente. Sem assinatura, nem nada que pudesse identificá-la. Ela não queria encontrá-lo mesmo e não ser encontrada. Talvez tivesse namorado ou só não estava interessada, apesar do que possam pensar dele, não é um presunçoso. Ele não liga para o que acham, ele sabe quem é. E ele é exatamente o que escolheu ser.

...

A casa da Zeta Pi passou por pequenos reparos. Ela também foi totalmente pintada e ganhou alguns móveis novos. Tori foi ao banco e aplicou parte do dinheiro como Tris sugeriu. O restante foi destinado a eventos para gerar dinheiro imediato, e claro, outra parte foi para o que as Zetas mais gostam de fazer. Divertir-se, divertir-se e divertir-se.

Acordo com Christina me chamando.

“Tris vista essa roupa, as Zetas estão esperando”.

“Que horas são?”.

“Duas da manhã”. Levanto, escovo os dentes enquanto me visto e saio. A roupa era um macacão preto colado de mangas compridas. Tinha também um cinturão tipo paraquedista, uma máscara de esquiar que cobria todo o rosto, luvas, botas e lanterna. Deus, vamos fazer o que? Assaltar um banco?

...

Não sei onde estou, não conheço Nova Iorque direito, mas parece uma região comercial, com muitos aranha céus. A van parou atrás de outras duas em uma rua deserta. Não entendi nada quando Tori se dirigiu a um prédio em construção e entrou numa espécie de elevador externo que operários devem usar. Seguimos e ligamos as lanternas. É super alto, deve ter uns 50 metros. Um segurança nos observa, mas não faz nada.

Meu estomago se manifesta de nervoso. Christina me olha em pânico. Tori por outro lado está curtindo. Não tenho certeza, mas acho que essa coisa que vamos fazer hoje tem a ver com pular.

“Não olhem para baixo calouras, estão sem proteção e também não quero minhas botas cheias de vômito”.

“Pensei que elas tinham desistido dessa ideia de nos matar”. Cristina fala baixinho.

O elevador improvisado balança com o vento. Isso é mau. Depois de 5 minutos pisamos no chão da cobertura a céu aberto. Olho para um monte de encapuzados. Meus Deus, se tivesse uma batida policial ia ser difícil de convencer alguém que não somos ladrões ou algo assim.

Alguém começa a falar quando chegamos. É Zeke. Já o vi andando com Four pelo campus.

“Calouros, sou Zeke da Capa Alpha. Prestem atenção na explicação, aqui fica a uns cento e setenta metros do chão. Prestar atenção é importante”. Só vejo os olhos dele, a máscara cobre todo o rosto. Nos minutos seguintes, descobri que meus instintos estavam certos. O cara estava dando uma mini aula de como proceder durante o salto.

“Cara eu não vou fazer isso, eu não vou... isso é suicídio e sou muito jovem pra morrer”. Christina sussurra desesperada. Tento manter a calma, quanto mais ouço menos me assusta. Will e All se aproximam de nós e ouvem Christina.

“Não se preocupe, pularei com você”. Will fala baixinho para Christina.

“Pularão em dupla. Um veterano com um calouro. Não se preocupem, a intenção não é matar vocês, e sim que se divirtam. Se esse não é o tipo de diversão que procuram, estão no lugar errado”. Zeke continuou. Isso calou grande parte da insegurança que eu tinha. Christina parece se tranquilizar mais sabendo que vai pular com Will. Me afastei deles e encostei no para peito para observar os primeiros pularem. Alguns gritam desesperados. Outros gritam por curtição. Estou desligada, apenas olhando enquanto os outros pulam um atrás do outro. Depois de um tempo Tori me chama.

“Tris, sua vez. Você é a última”. Quando procuro quem pulará comigo, ele está olhando diretamente para mim. Meu sistema nervoso entra em colapso. Eu travo. Não tinha visto ele no meio daquelas pessoas. Assim como os outros, apenas os olhos estão a amostra. Mas o jeito que se move, o físico e mesmo os olhos não poderiam ser de outra pessoa, é ele. Four. Ele estava me olhando, mas é impossível ter me reconhecido. A não ser que tenha lembrado meu nome quando Tori chamou, mas não acredito. Deve ser impressão minha. Ele me chama com a mão enquanto prende o paraquedas ao cinto. Me aproximo sem jeito e ele me vira, ficando de costas para ele. Four afasta meu cabelo que está preso para o lado e prende nossos cintos um no outro. Mordo meu lábio, estou muito nervosa. Subimos no parapeito, ele me puxa mais para perto pela cintura. Estamos colados. Fico feliz em estar toda coberta, caso contrário ele teria me visto completamente arrepiada. Não sei o que acontece que sempre paro encaixada nele. Isso me faz coisas. Coisas que tenho vergonha de pensar porque nunca senti.

Ele fala junto ao meu ouvido. Mesmo coberto pela máscara de esqui, sinto seu hálito quente e fico meio bêbada.

“Pensei que você devolveria minha jaqueta”. Ah meu Deus. Ele lembra de mim. Procuro manter a calma.

“Mas eu fiz”. Minha voz rouca sai abafada.

“Não como eu esperava”. Ok. Lembre-se Tris. Mantenha a calma.

“Me desculpe se não correspondi as expectativas”. Ele sorri. Mal sabe Tris que a única coisa que ela fez foi superar as expectativas, que eram nulas.

Uma rajada de vento me atinge e desequilibro um pouco. Rapidamente ele me segura, um braço me cruza na altura do peito, a outra mão está no centro do meu abdômen. Ficamos uns minutos em silêncio encostado um no outro, levamos um pequeno susto. Ele quebra o silêncio.

“Lembra do que Zeke explicou?”.

“Sim”.

“Está com medo?”.

“Não”. Ele balança a cabeça como se me desaprovasse de brincadeira, mas na verdade admira. Não estou com medo. Acho que a presença dele tão perto minou qualquer medo que eu tinha, ou, ele me deixa tão agitada que isso é maior que qualquer medo. Apenas estou nervosa, mas culpar apenas o abismo não seria justo.

“Pronta?”.

“Pronta”.

“No três?”. Ele pergunta.

“Porque não vamos no quatro?”. Falo. A ideia era atrasar um segundo, mas foi inevitável fazer a ligação com o nome dele. E pela primeira vez ouço o som da sua risada.

“Ok. No quatro”.

“...um...”.

“...dois...”.

“...três...”.

“...quatro...”. Pulamos.

Durante a queda livre minha cabeça esvaziou e não senti mais nada, apenas a incrível sensação de liberdade. O momento foi mágico. Four puxou as alças e o para quedas abriu nos suspendendo. Planamos por uns vinte minutos, até pisarmos no chão. Caímos rindo, mas logo ouvimos as sirenes da polícia. Rapidamente Four nos livrou do paraquedas.

“Vamos Tris, corra”. Corremos para longe do local que descemos.

“E os outros?”

“Não se preocupe, eles sabem o que fazer. Apenas me siga”. Ele segurou minha mão e corremos pelas sombras. A viatura se aproximava. Meu coração estava desestabilizado. Muita coisa acontecendo, primeiro ele, depois pular com ele e agora fugir com ele. Da polícia. Meu Deus. Meu pai me mataria se eu virasse manchete das páginas policiais.

“Acho que nos viram planando no paraquedas”. Four fala.

Entramos em um beco, ele puxa a escada externa de um prédio residencial velho e me manda subir primeiro. Tentando fazer menos barulho possível depois de subir, puxa a escada de volta com cuidado e continuamos em direção ao o telhado. Nos abaixamos e ficamos à espreita. Nossa respiração é pesada. Os policiais chegam e procuram por nós. Corremos para a lateral e descemos por outra escada que dava em uma rua diferente. Ele parecia saber onde estava indo. O dia quase amanhecia. A noite não poderia nos ajudar por muito tempo.

Four tira algo do pescoço, um controle. Corremos em direção a uma garagem. Ele abre e entramos. No espaço tem um carro coberto e ao lado vejo uma moto.

“Temos que nos livrar dessa roupa”. Graças a Deus fui esperta o suficiente para por uma legging e um top por baixo do macacão. Antes da universidade eu jamais consideraria ficar assim na frente de ninguém. Além de ser tímida, não era segura em relação ao meu corpo. Hoje me sinto bem melhor com ele, e quanto a timidez as Zetas estão me forçando a deixar. Elas não andam muito vestidas por aí, especialmente quando estamos treinando. No entanto, eu não estou na frente de qualquer um, é de Four que estou falando. E isso me deixa nervosa.

Não faço ideia, mas ele olha discretamente meu corpo e para no meu rosto exatamente quando tiro a máscara de esqui, é quando encontro seu olhar. Então percebo que é a primeira vez que nos vemos de verdade, de perto e sem máscaras. Ele tem os cabelos castanhos, assim como os olhos. O nariz é proporcional ao rosto estreito, porém com maxilar extremamente masculino e seus lábios são cheios. O rosto era imponente, forte e lindo. Four disfarça e continua se despindo.

Ele usava uma blusa regata branca, mas na parte de baixo tinha apenas uma cueca boxer preta. E eu estava olhando. Quando me dou conta fico mais constrangida do que estava. Não sei se ele percebeu o que eu estava fazendo. Era meio hipnotizante, ele é incrivelmente lindo. Disfarço e olho para o lado. Ele levanta um compartimento da moto, tira uma calça jeans e veste. Depois joga uma coisa para mim, a jaqueta. Então sorri.

“Ela gosta de você”. Reviro os olhos. Mas estou meio boba. Visto a jaqueta. Ele me dá o capacete, mas fica sem nenhum. Eu poderia perguntar o porquê, mas não acho que faria alguma diferença então fico calada. Ele checa o celular e me diz.

“Eles estão bem, vamos”. Enquanto monta na moto coloca óculos escuros estilo aviador, e termina de me matar do coração. Não era possível um ser humano ter tanto poder de beleza. Será que ele é consciente sobre o efeito que causa nas mulheres apenas por existir?

“Vamos”. Respondo. Ele abre a garagem e sai devagar enquanto observa se o caminho está limpo. Segundos depois já estamos voando pelas ruas, e pela segunda vez estou na moto dele.

Ele para na Zeta Mu e entramos. Estão todos lá. Christina corre para mim, mas freia quando vê Four. Sorrio. Não posso culpá-la.

Zeke está andando de um lado para outro.

“Zeke pare de gastar o piso, acabamos de polir”. Tori está preocupada, mas disfarça da única maneira que sabe. Implicando. Ele percebe que Four chegou.

“O que deu em você porra? Como você fica demorando a aterrissar sabendo que a qualquer momento ia amanhecer? Quando descemos do prédio você ainda tava planando alto e indo cada vez mais pra longe. Foi quando ouvimos os tiras vindo da sua direção, e não dava mais pra ir atrás de vocês”. Four não fala nada. Zeke continua.

“Como conseguiu escapar? Quase voltamos pra te buscar”.

“Você tinha suas ordens, eu sei me virar”. Four disse simplesmente.

“Aquilo não foi azar cara, alguém informou onde a gente tava. E só pode ter sido a Alpha Delta. Isso não pode ficar assim, o que vamos fazer Four?”. Uriah intervém na conversa.

“Nada”.

“O que?”. Zeke está meio louco de raiva.

“Isso é exatamente o que eles querem, uma reação. Esperam por isso preparados e é aí que a gente se ferra. Então não vamos fazer nada. Eles são podres, mas é difícil provar. Não temos boa fama na universidade e até a polícia já ouviu falar de nós. Fazer alguma coisa agora é arriscado. Vamos observar e jogar com as mesmas armas”. Four explicou. Discretamente tiro a jaqueta e deixo sobre o sofá enquanto ele está olhando. Abaixo a minha cabeça levemente em sinal de agradecimento. Não usamos palavras, mas ainda assim nos falamos. As outras pessoas estão alheias a nós. Me sento no sofá, calada. Eu não entendia muito bem ainda essa rivalidade entre os Alpha Delta e os Capa Alpha. Ela parecia ser um pouco mais séria do que a das Zetas com as Delta Pi.

“Puta que pariu, Caleb Prior tá vindo pra cá com a polícia”. Edward avisa. Dou um pulo do sofá, alguns me olham inclusive Four.

“Caleb?”. Muitas coisas passam pela minha cabeça. Será que ele me descobriu? Mas Edward falou que ele está vindo com a polícia e Caleb é um dos principais veteranos da Alpha Delta. Algo me diz que Caleb veio pelo que aconteceu agora. Penso rápido. Talvez se ele me vir mude o foco dessa visita.

“O que vamos fazer?”. Uriah pergunta.

“Eu falo com ele”. Digo. Olho para Tori, ela está raciocinando.

“Certo”. Ela simplesmente responde. Ninguém entende porque EU disse que falaria. Ninguém entende porque Tori concordou, nem eu. Talvez Christina seja a única que entenda, porque ela sabe que Caleb é meu irmão.

“O que? Porque VOCÊ vai falar com ele? Por acaso conhece Caleb?”. Four está... chateado.

“Four deixe que ela resolva, acredite, é nossa melhor opção”. Tori falou. Ok. Agora Four parece realmente chateado. A campainha toca, Tori manda todos se esconderem. Four sai com relutância. Espero mais um tempo. Respiro. Então abro. Isso vai ser difícil.

Caleb está falando alguma coisa com o policial quando dá de cara comigo. Ele realmente pareceu chocado. Ele me olha de cima a baixo e sei porque. Além de não esperar me encontrar ali, fisicamente estou diferente. Tenho fugido de Caleb, graças a Deus pagamos disciplinas diferentes, então nos falamos por telefone apenas. Ele parecia muito ocupado, usei isso a meu favor.

“Be... Beatrice? O que diabos faz aqui?”. Finjo desorientação, enquanto deixo que eles entrem.

“O que?”. Caleb me segura pelo braço com força e me afasta um pouco do policial.

“Beatrice, eu acho bom você ter uma ótima explicação para estar na casa das Zeta Pi”. Me solto de Caleb.

“Caleb, sou caloura das Zeta”.

“Você o que? Você enlouqueceu?”. Ele grita comigo. O policial interfere.

“Senhorita, estou aqui porque recebi uma denúncia essa madruga sobre jovens que invadiram uma propriedade privada”.

“Oh... O senhor já os encontrou?”. Finjo completa surpresa.

“Não. E é justamente sobre isso que quero falar”. Caleb está enfurecido. Convido o policial a sentar.

“Claro Sr. Policial, ficarei feliz em ajudá-lo”.

“Bem, o Sr. Caleb Prior foi o autor da denúncia. Ele alega que estava voltando de uma festa essa madrugada quando viu várias pessoas mascaradas entrando em um edifício em construção agindo de maneira suspeita. Tanto que se viu na obrigação de ligar para a polícia. Acontece que quando fazia a ligação percebeu três vans estacionadas mais adiante. Foi quando reconheceu o número de uma das placas. Assim como ele disse, verificamos que ela pertence a uma fraternidade da Universidade Columbia, chamada Alpha Delta. O Sr. Caleb nos disse que o responsável pela fraternidade é um aluno que atende pelo nome de Four, mas que era provável que todos integrantes da fraternidade estivessem envolvidos. Quando chegamos ao local, não havia ninguém lá em cima, mas identificamos duas pessoas planando de paraquedas. Os perseguimos mas eles conseguiram fugir...”.

“...Depois da perseguição fomos até a Alpha Delta, mas não havia ninguém. O Sr. Caleb disse que talvez vocês os estivessem escondendo”. Faço uma cara de choque absoluto.

“Beatrice, não há como mentir. A moto de Four está estacionada na frente da Zeta. Já tive o suficiente. Apareçam logo, o jogo acabou...”. Caleb fala caminhando para escada, eu o seguro.

“Caleb, o que você tá fazendo? Pare de gritar, as Zetas estão dormindo”. Ele sorri sarcasticamente e faz menção em subir. Eu o seguro novamente.

“Caleb, você não foi convidado a subir...”.

“Não seja idiota, vou subir agora mesmo”.

“Não, você não vai. Isso aqui é uma propriedade privada e você não está autorizado a entrar”. Ele bufa. Eu continuo.

“O Sr. Policial é muito bem vindo a entrar, caso tenha um mandado”. Eu o questiono com o olhar. Ele nega com a cabeça.

“E quanto a moto ali fora, ela pertence a quem?”.

“A Four”.

“Viu, eu disse que ele está aqui”.

“Sim, ele está. Em algum momento disse que ele não estava?”.

“De que horas ele chegou”. Finjo pensar.

“Umas nove da noite”.

“Ah, então ele passou a noite aqui?”.

“Sim”.

“E como você pode ter tanta certeza?”. Respiro fundo e olho para Caleb fingindo constrangimento.

“Porque eu... eu estava com ele até o momento que vocês chegaram”. Caleb me sacode pelos ombros.

“Você está me dizendo que está com esse delinquente Beatrice? É isso? Você não sabe no que está se metendo. Esse cara é um marginal” Isso me chateou, eu não gostei de ver Caleb atacando Four. Talvez eu me arrependesse do que estava prestes a falar, mas já que comecei, não tem como voltar atrás. E bem lá no fundo eu ia adorar ver a cara de Caleb ao ouvir isso.

“Não estamos juntos Caleb, apenas transamos”. Ok, talvez a reação tenha sido pior do que imaginei, Caleb está horrorizado.

Nesse momento Four desce as escadas sem camisa. Caleb parte para cima dele, mas o policial consegue segurá-lo.

“Acalme Sr. Caleb, senão terei que prendê-lo”. Relutando Caleb se acalma um pouco. Four se apresenta ao policial, apesar da sua aparente tranquilidade, sei que ele não está nada feliz. Ele ouve a história e repete tudo o que eu disse.

“Estão mentindo”. Caleb protesta. Eu ignoro. Volto a conversar com o policial.

“Senhor, acho que tudo não passou de um equívoco. Por acaso tem uma foto da placa da van? Caleb certamente se confundiu”. Seria impossível Caleb ter tirado uma foto da placa, pois elas estavam todas cobertas.

“Não, não temos”. O policial começa a olhar Caleb com certo descrédito.

“Ah, e os meninos da Capa Alpha dedetizaram a casa ontem e tiveram que dormir em outro lugar, por isso o Sr. Não os encontrou lá”. Caleb está vermelho de raiva. Talvez eu possa piorar um pouco mais.

“Você estava em que festa Caleb?”. Pergunto. Vejo ele titubear levemente.

“Era uma festa privada, mas não é relevante aqui, o que é relevante...”. Eu o corto.

“Realmente não é relevante, o que é relevante é que você deve ter bebido alguma coisa...”.

“Claro que eu bebi, mas isso...”.

“Ah, você bebeu e depois foi dirigir Caleb?”. Caleb começa a gaguejar.

“É... não. Quer dizer...”.

“Caleb, talvez seja melhor deixar isso para lá. Está meio ridículo sabe. Essa perseguição constante da Alpha Delta a Capa Alpha é tão cansativa”. O policial está bravo e se dirige a Caleb.

“Rapaz, eu sugiro que não ocupe o tempo da polícia com alegações infundadas. Temos coisas importantes para lidar. Como salvar vidas. Deixarei isso passar, mas da próxima vez não serei tão compreensivo”. Quando o policial sai, Caleb quebra uma cadeira de canto com fúria. Ele olha com ódio para Four, e me agarra pelo braço.

“Você vem comigo”. Tento me soltar.

“Ela não vai a nenhum lugar que não queira ir”. A voz de Four é cortante. Finalmente me solto. Caleb me dá um sorriso sarcástico.

“Tudo bem. Já que você quer do jeito mais difícil, lembre-se, a escolha foi. Papai vai adorar saber no que você anda se metendo Beatrice”. Disfarço meu nervosismo. Olho para o lado e sinto Four relaxar. Não entendo o motivo, mas não vejo mais a animosidade que vi direcionada a Caleb durante a conversa.

“Eu estou na universidade, sou maior de idade e independente financeiramente, assim como você. A única coisa que me liga a você, mamãe e papai é o respeito e amor que nutro por vocês. Não entendo como minhas escolhas podem afetar isso, mas se isso acontecer, não vou mudar o que sou para agradar ninguém. Escolher deixar de viver, para viver a escolha dos outros foi algo que fiz por muito tempo Caleb, mas isso acabou. Nesse momento sou uma caloura das Zetas e eu as admiro muito. E as Zetas são amigas dos Capa Alpha, então são meus amigos também. Se você ou papai não pode tratá-los com respeito, eu realmente acho que foi uma grande hipocrisia tudo o que aprendi nesses dezoito anos. E entre viver na hipocrisia e a realidade, prefiro a realidade, principalmente quando ela está mais interessante do que meus próprios sonhos”. Caleb me olha com outros olhos, parece não me reconhecer mais. Simplesmente passei a ser indiferente e isso me machucou. Four ouvia atentamente cada palavra que saía da minha boca. Eu não sei explicar o que se passa na cabeça dele, mas se eu tivesse que descrever em uma palavra, eu diria surpreso.

“Isso não vai ficar assim”. Dessa vez, Caleb estava falando com Four, mas eu sei que me servia completamente.

Quando Caleb saiu, todos desceram. Alguns me cumprimentaram e agradeceram, outros comentam o que aconteceu e questionam se sou irmã de Caleb e filha do deputado Andrew Prior. Estou incomodada, Caleb estava errado, mas ele ainda é meu irmão. Gostaria de ficar sozinha. Four me observa e tenho a sensação de que ele entende o que se passa comigo. Então lembro o que falei e sei que ele estava ouvindo lá de cima. Disse que transamos e fico completamente envergonhada. Felizmente ninguém está fazendo piadinha sobre isso. Também penso em outra coisa, mas me recuso a analisar que hoje estive a ponto de ser presa e estou pouco me importando com isso.

Tori chama atenção para si e pede que os Capa Alpha se retirem, porque temos coisas a fazer. Vejo Four pegar a jaqueta e se despedir de mim discretamente apenas com um leve aceno de cabeça. Respondo da mesma forma. Ele segue os outros para sair, mas não sem antes me olhar mais uma vez com um meio sorriso. Degluto. Pensei que era apenas uma figura de linguagem quando as pessoas falavam que estavam com borboletas no estômago. Curioso, acho que essa sensação viva dentro da minha barriga é exatamente isso. Meu Deus, estou muito ferrada.

Notas finais
Oi gente, mais um capítulo para vocês. Espero que gostem!! Até mais ;)