Em busca de mim
2 Seja bem vinda Tris
Meus pais estão me levando ao aeroporto. Eu sei que aparentemente tudo está como em qualquer outro dia, mas uma palavra a menos aqui e ali é um sinal de tensão. Estão tão nervosos quanto eu, mas como somos os Prior, não aparentamos nada que não caiba no nosso mundo perfeito onde educação, altruísmo, firmeza e equilíbrio compõem nossas ações.
Vejo mamãe me observar discretamente pelo espelho e quando a encarei, ela sorriu. Nunca vi aquele sorriso antes, inclusive ele a deixou mais jovem. Ela estava rindo de alguma coisa que não sei, como um segredinho particular. Eu podia não entender agora, mas os seus olhos me contaram que eu iria descobrir. Ela gesticulou que me ama. Respondi da mesma forma, que eu também.
Mamãe é uma mulher muito bonita, mas não destaca sua beleza. Suas roupas e acessórios sóbrios, mais a maquiagem discreta são sinônimo de elegância e simplicidade. Fazer o mais com menos, esse é o lema dos Prior.
Tenho que admitir que apesar de tão ocupado, com todas as suas obrigações com os outros deputados e com o povo, papai sempre se fez presente ao lado da família, como hoje. Cancelou uma reunião importante apenas para me levar ao aeroporto.
A ansiedade não me deixou pensar na falta que eles me farão, mas no momento me deu um aperto no peito. Apesar de tudo, sentirei muita saudade deles.
“Então, aqui estamos”. Eu disse meio sem jeito. Papai me abraçou.
“Cuide-se Beatrice. Fico mais aliviado sabendo que seu irmão Caleb estará lá. Não se preocupe, já está tudo organizado. Enviarei uma doação a escola em nome da irmandade que frequentará. Ela não será hostil como as outras podem ser, lá estará segura e é a que mais se adequa aquilo que queremos para você. Amo você filha”. Eu bufo mentalmente e nesse momento esqueço que o amo, é impressionante como ele pode me irritar em questão de segundos. Mamãe estranhamente parece concordar comigo.
“Andrew querido, deixe que ela ao menos conheça o que a espera. Ela deve escolher”. Que olhar duro foi esse da mamãe? Eu sinto que essa não é a primeira conversa que eles tiveram sobre isso. O que está havendo aqui? Eles resolveram se mostrar interessantes justamente quando estou indo embora? O universo não gosta de mim, é um fato.
Mamãe me abraça forte, emotiva.
“Amo você querida. Eu sei que ficará bem”. Oh droga, mamãe está me quebrando hoje com essa surpreendente demonstração de apoio. Escuto a última chamada para embarque, é hora de ir. Respiro fundo e me despeço deles, e também de todo o resto. Não estou apenas me despedindo dos meus pais, na verdade eu posso vê-los quando quiser. Estou me despedindo de uma vida e isso me deixa nervosa.
Enquanto o avião se prepara para decolar, penso que essa foi a despedida mais estranha que eu poderia esperar. Meu pai com traços de nervosismo, mamãe desautorizando descaradamente papai na minha frente e ele ficando calado. O que eu perdi? Definitivamente estranho. Começo a pensar no que me espera. Imaginei tantas coisas, me sinto boba com alguma delas. Talvez com todas elas. Melhor não pensar em nada, não esperar nada. Apenas me jogar.
...
Depois de sair do meu antigo lar em Washington enfim cheguei em Nova Iorque. O verão quase acabou, então não está tão quente em Manhattan. Olho adiante e vejo um rosto familiar me esperando. As meninas que passam por ele não só notam sua existência, como também parecem babar. Ele não tem um fio de cabelo fora do lugar. Este é Caleb, uma versão loira, jovem e melhorada do meu pai. Meu irmão é bonito, tem charme e a velada elegância dos Prior. Não sei como ele consegue. Sorrio com ironia. O que parece tão simples para ele, para mim é um desastre. Por tantas vezes pedi para ter pelo menos um terço dessa segurança despreocupada que ele esbanja. Me sinto tão desajeitada perto dele.
“Beatrice...”. Nos abraçamos.
“Caleb, como está? Não nos vemos desde o natal”.
“Bem”. Rimos.
“E você? Ansiosa?”.
“É, mas acho que aguento”. Caleb nos coloca em um taxi.
“Você não tem com o que se preocupar. Hoje começa o recrutamento das irmandades, e sei que isso é a causa da sua ansiedade, afinal todo mundo quer pertencer a algum lugar, mas você já tem o seu lugar garantido. Como já sabe, vai participar da Delta Pi, não precisa se assustar, basta chegar lá e se apresentar. Elas são boas garotas. As filhas das melhores famílias do mundo estão lá. Apenas cumpra as atividades que te pedirem e pronto, você logo será uma irmã para elas”.
“Mas existem outras certo?”.
“Bem, sim, mas não servem para você”. Caleb percebe que isso não vai me satisfazer, então mesmo não querendo continua.
“Não vou falar sobre as menores...”
“... Tem a Ômega Pi. Ela está cheia de meninas nerds. Elas não são muito populares, não tem vida social, elas são meio... sabe? Idiotas. Não é interessante acredite...”. Não estou afim de começar uma discussão com Caleb neste momento, então finjo que não ouvi o comentário ridículo sobre os nerds.
“... E claro, também tem a Zeta Mu, que está completamente fora de cogitação”.
“Porque?”.
“Porque, é a Zeta Mu Beatrice. Elas são selvagens e não gostam de obedecer regras. São o tipo de garotas que os caras se divertem na faculdade e depois são esquecidas, entende? Não é o que se espera da futura esposa de um político bem sucedido. Você é uma Delta Pi...”. Ele me segura pelos ombros com carinho para chamar minha atenção justamente como papai faz.
“... E além do mais, as garotas são... bem...”. Ele olha como se buscasse uma explicação que não está em mim.
“...elas são gostosas...”. Eu ouvi mesmo isso? Ok, me ofendeu. Eu sei que não sou hot, nem queria ouvir esse tipo de elogio do meu irmão, mas ter autocrítica e ouvir a crítica de outra pessoa são duas coisas completamente diferentes.
“...Olho para você, minha irmãzinha tão doce e frágil. Não sobreviveria nem um dia com elas. Iam te engolir e humilhar. Porque escolher sofrer quando pode ser a estrela em outro lugar? Esqueça isso para o seu bem. E além do mais temos obrigações. Papai e mamãe esperam coisas de nós, temos um nome e reputação a zelar. Você será aceita em um lugar Beatrice simplesmente pelo nome de prestígio que carrega, por favor, faça um esforço. Você tem 18 anos, precisa assumir algumas responsabilidades”. A essa altura o taxi que pegamos já estava na porta da universidade. Caleb me ajuda com a mala.
“Tome”. Ele me entrega um papel que tem o timbre da universidade com meu nome escrito e um número.
“Peguei para você antes de sair, este será o seu quarto antes de ir morar na casa das Delta Pi. Dividirá com uma menina que também quer ir para lá. Agora tenho que ir. Boa sorte. Qualquer coisa, me procure”. Eu sei que ele me beijou na cabeça, mas não senti. Caleb se foi, me deixando deprimida e humilhada. Respiro fundo e sigo a procura do quarto porque as pessoas começaram a esbarrar em mim. Não podia ficar plantada feito um poste no meio da passagem sentindo pena de mim mesma para sempre. Eu bufo mentalmente. Meu Deus, eu tenho o valor do meu sobrenome. Porque diabos eu pensei que aqui seria diferente mesmo?
...
É aqui, quarto 201. Respiro fundo e bato na porta.
“Tem alguém aqui?”. Pergunto meio incerta.
“Pode entrar”. Alguém respondeu. Puxo a minha única mala enquanto percebo uma garota indiscretamente me olhando dos pés à cabeça.
“Você ficará aqui também?”. Ela pergunta, mas não percebo nenhum julgamento na sua voz.
“Bem, é o que diz o papel”. Mostro a ela. Ela se aproxima com os braços cruzados, mas não de uma forma hostil.
“Me chamo Christina e cheguei ontem. Sou do Texas. E você?”.
“Beatrice. Sou de Chicago, mas morava em Washington”.
“Uhum... Filha de um político pelo jeito”. Respiro fundo e sento na cama derrotada.
“É tão óbvio assim?” Ela sorri enquanto senta perto de mim.
“Relaxa Tris, foi só um palpite. Posso te chamar de Tris não é? Digo, esse deve ser o seu apelido mesmo e Beatrice só te deixa mais... besta”. Comecei a rir. Nunca conheci alguém tão franca dessa forma. Mamãe diria que ela é mal educada, mas eu gostei. Depois de todo aquele papo motivador de Caleb, isso foi bom. Quanto ao apelido, nunca tive um. Apelidos não são elegantes segundo minha mãe. Mas adorei ser Tris. Tris é alguém sem sobrenome. Alguém livre. Eu gosto.
“Claro”.
“Então, você vai querer ser uma Delta Pi?”.
“Porque? Como você já sabia disso?”. Acho que pareci um pouco paranoica. Ela riu.
“Cara você precisa relaxar. Esse é o andar das possíveis Delta Pi, mas tirando isso, olhe para você. Loira, alta, magra e de olhos verdes?...”.
“...Você usa blazer, tubinho, scarpin e mora em Washington...”. Ela fala como se esse fosse um raciocínio óbvio.
“...Praticamente tem uma faixa pendurada de futura Sra. sobrenome esnobe, mãe e esposa perfeita. Você é Delta Pi desde que nasceu. Não me entenda mal, você é a filha que minha mãe sempre quis ter”.
“Ah, bem. Eu não sei nada sobre as Delta Pi, nem como elas se vestem”.
“Sua mãe não foi uma?”. Ela pergunta surpresa.
“Não. Quer dizer acho que não, ela nunca me disse”.
“Você trouxe alguma carta de recomendação?”. Ela me pergunta.
“Bem, não... meu pai disse que estava tudo certo...”.
“Uau, então seu pai deve ser mesmo importante”. Ela me puxa pelo braço e abre a porta. Algumas meninas passam. Loiras em sua maioria, vestidas como eu. Christina aponta para elas.
“Vê? Aquelas são suas futuras sisters”. Realmente, eu pareço uma Delta Pi, e lá no fundo não me agrada muito.
“Minhas? Não seria nossas? Você está nesse andar afinal”.
“Não sei se vou conseguir entrar. Minha mãe comprou algumas cartas de recomendações, mas não é garantia, veremos...”.
“...e isso é mais coisa dela do que minha. Sabe? Ela tem origem humilde e é meio... fútil, mas é uma boa mulher apesar de deslumbrada, acho que quero conhecer as outras irmandades antes de decidir”. A simplicidade com que Christina fala de sua vida me deixa encantada. Eu a invejo um pouco por ter essa liberdade. Tudo bem, agora posso fazer o que quiser e tals, mas não sou idiota. Sei que adquiri hábitos e que vai demorar um pouco para mudá-los.
“Eu também quero visitar todas elas antes de decidir”.
“Melhor a gente começar a se arrumar. Ah e você quer ficar com essa cama do lado da janela? Pra mim tanto faz, se quiser trocar? Ali fica o banheiro e você pode colocar suas roupas daquele lado do armário, já arrumei as minhas”. Fui dar uma olhadinha no banheiro. Era limpo e com armários.
“Por mim tudo bem, fico com essa cama mesmo”.
“Tomara que role uma festinha hoje. Vou tomar banho tá?”. Ela disse indo para o banheiro.
“Ok”.
Quando ela falou em festinha, na minha cabeça veio talheres, cristal, champanhe circulando, música ambiente. Eu não queria festinha hoje, não estou muito disposta a sorrir a noite inteira.
“Ah, e Tris? Gostei de você”. Sorrio enquanto escuto a porta do banheiro fechar.
“Eu também”. Respondo alto para que ela escute. Nunca tive alguém tão próximo assim, tipo uma amiga. Tive apenas colegas, filhas de boas alianças políticas. Aprendi a não confiar em ninguém, não compartilhar a intimidade de casa com estranhos. Não sei o que é ser amiga ou ter uma amiga. Christina seria uma ótima amiga, penso. Eu quero ser amiga dela, e espero que ela queira também.
...
“Bem vinda a Delta Pi garotas...”. Do alto da escada uma menina que entendi ser a relações públicas iniciava um discurso. Não tem dez minutos que passei pela porta e já estou com tédio.
“Cara, isso é muito chato. Diga que você também acha por favor?”. Christina estava sussurrando quando alguém aparece em nossa frente.
“Olá, Sou Lynn Mason, a líder da Delta Pi. Prazer em conhecê-la Beatrice Prior”. A loira me estende a mão. Eu aperto um pouco hesitante. Ela deliberadamente ignorou Christina e isso não me agradou. Christina me olhava surpresa e acho que isso tem a ver com meu sobrenome.
“Oh, prazer. Essa é minha amiga Christina”. Eu apresento. Visivelmente a contragosto Lynn cumprimentou ela.
“Bem Beatrice, estamos muito felizes com sua presença em nossa casa. Gostou?”.
“Ah, sim, é muito bonita”. E muito rosa. Quase falei isso.
“Que ótimo. Beatrice, posso falar a sós com você um minuto?”. Eu sorri falsamente, eu sei fazer isso bem.
“Não...”. Meu primeiro não e me sinto ótima.
“... pode falar aqui mesmo, Christina e eu somos amigas”. Eu não perdi o largo sorriso de Christina, o que me fez sorri naturalmente agora. Coisa que não aconteceu com Lynn.
“Certo. Bem Beatrice, adoraríamos que você fosse uma de nossas irmãzinhas. Você...”.
“ E porque eu deveria escolher a Delta Pi? E Christina também seria aceita?”. Ela piscou preocupada.
“Você está considerando escolher outra irmandade? Impossível...”.
“Porque?”.
“Meu Deus. Porque? Nós somos as melhores...”.
“Você não me respondeu, Christina também seria aceita?”. Lynn revirou os olhos.
“Bem, é uma condição sua?”.
“Sim, é uma das coisas que eu levaria em consideração”.
“Certo...”. Ela sorri falsamente para Christina.
“...Seria ótimo ter as duas”.
“É? E o que mais, digo, porque vocês são as melhores?”. Christina perguntou irônica. Lynn virou para mim e começou a falar.
“Bem, nós somos as garotas das melhores famílias não apenas de Nova Iorque, mas como também do mundo. Estar entre nós é estabelecer uma rede de contatos. Acredito que isso seja imprescindível para quem deseja estar no meio político de alguma maneira. Daqui saem as mulheres mais importantes e elegantes do mundo. Temos forte ligação com a Alpha Delta, a fraternidade mais notável desta universidade, a qual o seu irmão Caleb Prior faz parte. Lá surgem os grandes políticos, advogados, empresários, os homens mais influentes e poderosos da nossa sociedade. As nossas festas de gala são memoráveis e estamos sempre sobre os holofotes de uma maneira positiva, claro. Temos uma forte política de filantropia, o que também será muito útil no futuro. Por isso somos as melhores...”. O olhar que a garota deu podia ter desintegrado Christina.
“... E caso aceite, seremos sua família agora. Temos o costume de colocar à disposição de nossas irmãs tudo o que temos, quero dizer nossas casas de campo, jatinhos, dentre outras coisa. E claro, ficaríamos felizes da mesma forma em fazer parte do seu mundo”. Me sinto um pouco enojada agora. Meu Deus, nunca pensei que conheceria pessoas assim. Minha família é do meio político, vivemos de maneira confortável, mas o dinheiro é frutos do trabalho dos meus pais. Eles são nobres no sentido mais singelo da palavra. O que fazem para viver é humano e bonito. Lutam pelos direitos dos cidadãos deste país. Tudo bem que eles convivem com isso e precisam se dobrar mais de uma vez ao sistema, mas eu sei que eles não são o supra sumo da arrogância. Quero sair deste lugar.
“Eu ouvi Lynn. E agradeço o apreço que tem pelo meu sobrenome, mas preciso pensar um pouco, com licença”. Não consigo esconder o meu desprezo.
“Ótimo, um pouco mais e eu ia enfiar a mão na cara dela, juro”. Christina estava falando quando me puxou com força para baixo. Não tinha entendido, só percebi quando olhei para cara de Lynn e ela estava coberta de ovo.
“Socorro, Zeta Mu está atacando. Fechem as janelas”. Escapamos por uma porta lateral e ficamos escondidas nos arbustos.
A casa rosa estava sendo atacada por um grupo de meninas. Elas tinham uma faixa vermelha amarrada na cabeça e dois traços pretos nos olhos no melhor estilo rambo, mas ainda assim estavam lindas. Isso porque elas eram lindas. Não demorou muito para que passassem por nós correndo e gritando Zeta Mu, Zeta Mu, Zeta Mu. Caleb tinha razão. Elas são hot.
“Elas são as Zeta Mu Tris. Um máximo né?...”. Eu devia estar louca, mas também achei, se pudesse estava no meio delas, Lynn realmente me tirou do sério com todo aquele papo fútil.
“... Vamos, vamos conhecê-las”. Christina me puxou mas não fui.
“O que? Você não quer?”.
“Olhe para mim. Foi exatamente isso que você me disse quando nos conhecemos. Essas meninas nunca vão me deixar entrar”.
“Ah Tris, para com isso, todos podem tentar. E se não conseguir sozinha, você ainda é a filha do Deputado Andrew Prior. Cara, você é uma Prior, porque não me disse isso? Não me surpreenda desse jeito na frente de estranhos, tive que fazer um esforço inédito para segurar a boca”. Ela ainda consegue me fazer rir.
“Christina seja realista, acho que isso não fará a menor diferença...”.
“Claro que fará, Jesus em que mundo você vive? Elas podem não dar valor as barbies mas não são burras, elas também precisam de dinheiro, doações e prestigio. Os olhinhos daquela sanguessuga loira estavam iguais a uma máquina registradora para cima de você. Dinheiro é importante pra todo mundo. Tenho certeza que seu pai iria fazer uma generosa doação para a universidade em nome das Delta Pi. Então ele faria para qualquer uma”. Meu pai não iria gostar de qualquer uma, mas não quero me preocupar com isso agora. Uma loucura por vez. Também evito pensar que estou considerando comprar uma entrada em uma irmandade. Estaria indo totalmente contra os princípios que desejo construir.
“Vamos logo”.
“De blazer, saia no joelho, e scarpin?”. Ela foi tão rápida que não consegui pará-la. Christina arrancou meu blazer, puxou a regata para baixo deixando bem decotada, subiu a minha saia para que ficasse curta e soltou meu cabelo que estava preso em um coque.
“Pronto, isso vai ajudar, agora vamos Tris”. Eu engoli em seco. Isso é tão louco.
“Ok”. Eu disse. Agora é só não pensar nisso e não hiperventilar. Fingindo tranquilidade, começo a conversar com Christina. Os corajosos farejam o medo a quilômetros de distância. Preciso ao menos minimizar a quantidade de humilhações que posso passar.
“Me fala uma coisa, como você sabe tanto sobre as irmandades e eu não sei de nada?”. Ela riu.
“Não conta pra ninguém, mas minha mãe me fez ler o manual das fraternidades e irmandades cinco vezes. Ela é louca”. Caí na gargalhada. Isso me aliviou um pouco, mas não o suficiente. Cada passo que dou meu estômago dá uma dobra, e no lugar de sair correndo para longe, só ando mais rápido em direção ao precipício. Lembro bem as palavras de Caleb, “... Olho para você, minha irmãzinha tão doce e frágil. Não sobreviveria nem um dia com elas. Iam te engolir e humilhar...”. Ok, estou totalmente ferrada agora, mas eu quero. Minha primeira decisão e talvez o meu suicídio social neste lugar será que de livre e espontânea vontade, eu quero me ferrar.
“Ah e Tris, obrigada por me incluir e defender lá na casa rosa. Significou muito para mim”.
“A verdade Christina, é que gosto de você. Não queria que a gente se separasse”.
“Eu também, vamos fazer assim, só entraremos na irmandade que aceitar as duas. Feito?”.
“Feito”.
Sorrimos cúmplices. Agora eu sei que gosto de Christina e ela gosta de mim, não porque sou Beatrice Prior e sim porque sou Tris, só Tris.
Enquanto caminham em direção a casa da Zeta Mu, alguém que as ouvia saiu do arbusto. A garota magra e morena, com aparência asiática estava começando a achar aquela conversa muito útil.
“Talvez dê certo. Não custa tentar. Situações desesperadas exigem medidas desesperadas. E se não der, pelo menos vamos nos divertir”. Ela ligou o rádio transmissor, enquanto pegava um atalho.
“Molly, é Tori falando”.
“Ouvindo. Deu tudo certo na operação taque ovo na galinha?”.
“Certo como as Zetas. Escute, você está vendo uma loira de saia azul e uma morena de vestido tomara que caia preto indo para a Zeta Mu?”.
“Sim”.
“Se elas não ficarem depois da nossa recepçãozinha em casa, precisamos arranjar um jeito de leva-las pra iniciação. Certo?”.
“Certo”.
“Já tô entrando pelos fundos”.
“Ok. Desligo”.
...
Algumas meninas se aglomeravam na frente da Zeta Mu. Uma garota super alta, de cabelo curto preto e muito forte abriu a porta. Se a relações públicas delas era assim, imagina o resto. A menina não tinha uma cara muito receptiva.
Nós entramos. O ambiente tinha apenas meia luz. Uma Zeta mais velha com cabelos longos e pretos, estava parada no andar de cima descascando uma laranja com uma faca afiada, olhando diretamente para nós. Ela era perigosa, isso ficou muito claro. Não precisou muito para me imaginar no lugar daquela laranja.
“Aqui é a casa Zeta Mu, mas isso vocês já sabem. Eu sou Tori, a líder da irmandade. Nesse lugar admiramos a lealdade, força e principalmente a coragem. Se alguma de vocês não tem essas três qualidades juntas melhor saírem agora mesmo enquanto estou disposta a ser gentil, porque se descobrir depois que fui enganada não será apenas doloroso, será insuportável”. Mal acabou de falar, vimos uma faca cortando o ar vindo a toda velocidade em nossa direção. A faca cravou na porta enquanto não se ouvia ninguém respirar. A doce garota que nos abriu a porta para entrar, agora abre para que algumas meninas gritando desesperadas corram para fora. Olhei rapidamente e contei que ficaram apenas oito das muitas que vieram. Eu deveria ter fugido como as outras se tivesse um pouquinho de juízo, e Christina também, mas ela estava sorrindo. Eu não sei se era inteligente fazer isso.
Tori sorria também, mas eu não confiava nela.
“Ok girls, vamos para um pequeno ritual de iniciação. Cortesia das Zeta Mu e dos Capa Alpha”. De vários lugares surgiram meninas que estavam escondidas e juntas esmurraram o ar gritando.
“Zeta Mu, Zeta Mu, Zeta Mu...”.
“Preparem-se calouras”. A Zeta que estava na porta nos arrastou até uma van, ela está indo... eu não sei para onde ela está indo. Principalmente porque fomos vendadas.
...
Eu ouvi muita gente gritando, rindo, cantando, conversando, acelerada de motos, motores de carros rugindo, música alta e tantas outros sons que não consegui identificar. De repente a música parou e todos começaram a gritar Four.
“Four, Four, Four, Four...”.
“Four? Como quatro em inglês?”. Reconheci a voz de Christina, ela falou do meu lado. Fiquei aliviada que ela estava perto.
“Christina?”
“Tris é você?”. Agarramos a mão uma da outra ao mesmo tempo. Então o ‘Four’ começou a falar. A voz do microfone estava um pouco distante, mas dava para ouvir bem. Ela era forte e tinha charme.
“Ok pessoal. Hoje é o dia da iniciação...”. Tambores. Por um momento me imaginei em um caldeirão enorme de barro e que iam me cozinhar. Gritos e assovios.
“... Como vocês sabem, nós Capa Alpha sempre fazemos a iniciação com nossas sisters mais próximas da Zeta Mu...”. Mais gritos.
“Declaro aberta a corrida mata-toma deste ano. Recebam os nossos calouros... Por favor, caras da Capa Alpha e garotas da Zeta Mu tragam os calouros para a pista. E claro, bem vindos a Universidade Columbia”. A esse ponto todo mundo uivava.
A próxima coisa que me lembro foi soltar a mão de Christina e ser arrastada. Estava de pé, sem ver nada e só ouvia gritos. Depois de um tempo alguém me puxou pelo braço. Me sentei em alguma coisa, ah meu Deus, parecia uma moto. Eu nunca andei de moto. Uma voz forte e perigosa sussurrou próximo ao meu ouvido.
“Segure em mim caloura, sua vida depende disso. Você está sem capacete”. Ok. Eu fiquei completamente arrepiada agora. Não era pelo medo, eu inesperadamente queria aquilo apesar do nervosismo, meu corpo pedia aquilo. Me arrepiei pela voz, era a voz do cara do microfone, Four. Degluti em seco. Meu coração encontrou um ritmo completamente desconhecido para bater. Aquela voz fez loucuras comigo, e foram apenas algumas palavras.
Sinto ele sentar na minha frente. Eu esperava abraçar as suas costas, mas não foi assim. Quando ele sentou, fui puxada por um braço forte e rodada para cima do que parecia ser um... banco duro... dividido em dois, mas não era da moto. Tinha uma espécie de parede encostada na minha frente. Então a parede... estava respirando na minha testa? Comecei a tatear para entender o que estava acontecendo.
“ah meu Deus...”. Deixei escapar. Estou sentada no colo dele, virada pra ele. Ah meu Deus. Ele estava rindo.
“Tá gostando do que tá sentindo. Tá bom o suficiente pra você?”. Parei automaticamente. Mas o que fiz depois foi pior. Minha cabeça encaixou entre o pescoço e o ombro de Four e eu o cheirei. O que foi isso? Você não pode simplesmente sair cheirando um desconhecido. Ele riu mais.
Rezei para que ele não pudesse me ver porque tenho certeza, eu estava vermelha da cabeça aos pés. Sei disso porque meu corpo queimava.
“Qual o seu nome?”.
“Nome?”.
“É. Sabe aquela coisa que falam quando te chamam?”. Que maravilha ele está rindo as minhas custas, e eu só consigo sentir a mão dele estacionada sobre as minhas costas. Busco o ar, me foco e respondo.
“Be... Tris, me chamo Tris”.
“Ok Tris, assim não vai dar certo. Você precisa me abraçar com as pernas também”.
“O que?”. Era tarde para fazer perguntas ou tentar entender alguma coisa. Senti ele ligar o motor e acelerar. Não só ele. Todos. Eram vários barulhos. Havia carros também, gente gritando. Imediatamente respondi aos meus instintos e fiz o que ele disse. Nunca na minha vida fiz algo assim. Never. Nunca estive tão íntima de uma cara. Um cara completamente desconhecido.
Alguém deu a largada. Foi quando percebi. Deus... Isso. Era. Um. Racha.
Ele começou a correr, não. A voar. Meu corpo estava em chamas, meu coração parecia louco. A velocidade e a adrenalina anularam meu raciocínio e eu não pensei em mais nada. Não tinha o que fazer, então me entreguei a esse momento e uma sensação maravilhosa começou a surgir em mim. Em algum momento ouvi ele gritar.
“Seja bem vinda Tris”. Não respondi, apenas sorri. E ele parecia sorrir também.
Fale com o autor