Em busca de mim
1 Prólogo
Notas iniciais
Eu sonhava constantemente com o dia em que sairia de casa. Apesar de não ter grades nas janelas, sabia que estavam lá. Foram construídas ao longo dos anos por meus pais, sempre me inibindo, “Beatrice não faça isso, não fale aquilo, não reaja assim... não pode bláh, não queira bláh blá blá”. Isso me anulou um pouco de cada vez, na verdade acho que não cheguei a desenvolver uma identidade própria porque nem sequer me conheço, só conheço o lado que meus pais fizeram de mim.
Pensar assim me deixa cheia de culpa, parece que eu os odeio ou que eles são maus, mas eu amo os meus pais. Muito. Eles não são pais ruins, pelo contrário. Vejo amor e carinho cada vez que me olham. No entanto, isso não é tudo que preciso. Não há uma imposição aberta, mas enxergo implicitamente o que esperam, acham que tenho que tomar para mim a maneira como vivem e veem as coisas, tudo tão preto e branco, tão chato. Eu quero cores, todas. Quero vida, mais de uma. Antes eu tinha medo de magoá-los, mas apesar da culpa tenho obrigações comigo.
Não teve um dia que deixei de me perguntar para que acordar, se eu sabia exatamente o que iria acontecer no dia seguinte, e no outro e no outro. Era tudo sempre tão igual, equilibrado e... seguro. Eu queria outras coisas, viver algumas histórias que fizessem me sentir viva. Ter direito ao livre arbítrio de cometer erros quando estiver afim ou apenas deixar que eles me surpreendam e aprender com isso.
Sei que grande parte é minha culpa, por me calar a primeira resistência. Por dizer sempre sim ao que me era pedido, mesmo querendo dizer não. Estava vivendo a vida que escolheram para mim, e não a que eu queria construir.
Então, agora finalmente está acontecendo, eu posso enfim começar a viver e fazer o que eu quero. Estou na universidade. Na Universidade de Columbia para ser exata. Última cortesia dos meus pais. Eles escolheram a universidade que eu deveria seguir, agora chega. Essa foi a última coisa que decidiram por mim.
Estou por conta, e tenho que reconhecer um frio na barriga. Apesar do que parece, ele não é de medo, é de necessidade. Necessidade de viver, de me conhecer. E a primeira coisa que quero descobrir, é exatamente descobrir o que eu quero, porque o que eu não quero, tive 18 anos para aprender. Estou em busca de mim.
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