Em busca de mim

8 Dia de Ação de Graças


Notas iniciais
Boa noite gente, desculpem a demora. Tive alguns problemas mas continuarei a história. Até mais ;)

...

"Este telefone encontra-se temporariamente desligado, após o sinal deixe sua mensagem...".

"Four... é Tris. Por favor, precisamos conversar...". Dez vezes, liguei para ele dez vezes e nada. Eu preciso resolver isso agora, porque quanto mais tempo passar, pior fica. Desci correndo e passei voando por Christina e Will.

"Tris? Onde você vai?". Eu já estava fora.

Não sei onde Four está ao certo, mas ao menos tenho que tentar. Tenho que mostrar para ele que me importo, que o procurei. Que valorizo o momento que tivemos, as coisas que ele compartilhou comigo. Independente de estar certo ou errado eu jamais teria me posicionado sem ouvi-lo sobre as acusações de Caleb.

...

Four chegou em seu apartamento cheio de adrenalina. A raiva ainda fervia. Foi direto para o saco de pancada. Ele mirou no saco e imaginou a cara de Caleb Prior. Já tinha passado dois anos desde que aconteceu aquele terrível problema, e a culpa ainda o consumia. Ele poderia ter feito mais, ter feito diferente. Embora não seja realmente culpado, o fato de não poder impedir o que aconteceu ainda o perturbava. Já é difícil suficiente lidar com isso sem ninguém o lembrando, com alguém tocando no assunto então é insuportável. Aquilo quase acabou com sua vida.

Tris vem a cabeça. A noite toda vem a cabeça. Ele tenta afastar as lembranças.

No lugar pensa nela com raiva e decepção. O celular ainda tocava na sua cabeça. Ele não tinha porque ouvi-la. Ela visivelmente acreditou naquilo que Caleb disse sem ao menos dar a ele a oportunidade de se explicar. Tris não o acusou verbalmente, não precisou. Ele viu em seus olhos. Four estava furioso por ter se aberto tanto com ela, por ter pensado que com ela poderia ser diferente. Que ela era diferente e Tris acabou por ser a maior de todas as decepções.

Se ele tivesse se mantido como sempre. Se apenas tivesse aproveitado o momento com ela sem revelar tantas coisas, não teria sentido nada. O que passou na cabeça dele? Acontece que Tris o desestabilizou e ele odeia isso. Odeia não estar no controle. Porque é isso que acontece quando ele não está no controle. Esmurrou o saco com mais força e calou seus pensamentos. Na cabeça dele a história com Tris já tinha um ponto final.

...

"Hei Tris...". Zeke estava quase entrando na casa dos Capa quando me viu. A cara dele era de fim de farra.

"Onde está To... Four? Você o viu?".

"Ah... não... eu não sei, você já entrou?". Não esperei ele me convidar.

"...O quarto dele é o do final do corredor". Ele gritou das escadas com um sorrisinho. Fechei os olhos e respirei fundo, queria tanto que ele estivesse lá.

Não tinha ninguém no quarto. Eu já sabia que ele não estava na casa, afinal o carro dele não estava na porta. Comecei a mexer nas coisas a procura de sei lá o que, talvez encontrasse algo que me indicasse onde encontrá-lo. Nada. No quarto tinha livros, roupas e uma foto dele com um casal muito simpático. Devem ser os avós. Depois de um tempo desabei derrotada na cama com a foto nas mãos. Encostei a cabeça no travesseiro e reconheci o cheiro dele. O sentimento de que eu quebrei de forma permanente alguma coisa só crescia. Me dei conta que adormeci ali, onde não era bem vinda, apenas quando acordei. Estava de noite.

Espiei fora no corredor e estava limpo, mas quando desci o primeiro degrau da escada vários pares de olhos me observaram, inclusive os de Lauren, que não conseguiu esconder sua insatisfação. Eles pareciam de saída. Merda. Se eu tivesse esperado um pouco mais...

Um coro de "hummmmmmmmm", risinhos e outras gracinhas me atingiu. É claro que eles iam tirar onda com isso, só que não faziam ideia de que não poderiam estar mais errados. Degluti. Além de estar morta de vergonha, Four não ia gostar nada nada quando descobrisse sobre isso. Só ia piorar ainda mais a minha situação. Não falei nada, na verdade, me fingi de morta.

"Ela tava com quem?". Ouvi alguém perguntar enquanto chegava na porta.

"Four". Zeke respondeu.

"Four? Nem sabia que ele estava aqui...".

"Ele chegou perto do almoço, falei com ele no corredor". Uriah completou. Tris não ouviu, já estava longe.

Quando cheguei nas Zetas soltei o ar que estava prendendo por todo o caminho.

Tinha um papel sobre a minha cama. Abri na pequena esperança de que tivesse algo a ver com Four.

"Tris, pelo amor de Deus, onde se meteu? E ainda por cima não levou celular. Tô preocupada com você. Fomos pro Madson Square Garden, assistir o jogo de hockey dos Rangers. Vem também. Os Capas também vão. Me liga LOGO". Era da Christina. Eu realmente não estava afim de sair, queria me enfiar na cama e não sair de lá, mas ela falou que os capas vão, então talvez Four apareça. Me vesti completamente desanimada e saí.

Christina estava agitada procurando alguém com o olhar quando entrei. Ela me espera e estava realmente preocupada.

"Onde você tava?". Ela perguntou baixinho, mas firme.

"Fui procurar por ele".

"E?".

"E nada. Ele não me atende, nem foi pra Capa. Não tenho mais onde procurar".

"Tris, você precisa dar um tempo...".

"Tempo? Não! Quanto mais tempo passar, pior vai ser...".

"Tris, eu não sei o que aconteceu, mas ele tava completamente errado batendo no seu irmão. Talvez a reação dele até se explique, mas com raiva ele não vai te ouvir, nem reconhecer nada. E se depois ele não quiser te ouvir, problema dele...". Balanço a cabeça negando.

"Não é assim Christina, você não entende...".

"Então me explica, porque juro que não pensei que você tava tão apaixonadinha assim pra tá correndo desse jeito cego atrás do cara...". Apaixonada? NÃÃÃO. Eu não estou apaixonada. De onde Christina tirou isso?

"Não se trata de estar apaixonada Christina, porque não estou...". Ela levantou a sobrancelha me questionando.

"... mas aqui não é lugar para explicar, quando chegar nas Zetas, conversamos".

"Quer ir agora?".

"Não. Ele pode chegar". Ela revirou os olhos.

...

"Então? Comece". Christina me pediu sentada na cama. Evitei a todo custo pensar sobre ontem, foi tão bom, não acredito que acabou assim.

Durante o caminho ele foi divertido e me levou para comer o sanduiche de lagosta, então chegamos na praia. As imagens passam na minha cabeça como um filme. Ouvi o nome dele pela primeira vez e penso como isso fez me sentir exclusiva. Lembro do barco que leva o nome da mãe dele, o farol na curva no meio das sombras, um lugar secreto e especial para ele. No barco ele me abraçou tão íntimo, fecho os olhos sentindo. Me arrepio como se tivesse sido agora. E então veio a tatuagem, e as cicatrizes. A história da infância difícil. Depois o beijo. Não o beijo, mas 'o beijo'. Tão carinhoso e ao mesmo tempo excitante. A sensação de cada vez que ele me tocou, ainda queima a minha pele. Era eletrizante. No final o café da manhã. Four não passou apenas um tempo comigo, sinto como se ele tivesse divido muito da sua vida. E tenho a impressão que ele não faz isso com frequência. Eu posso até estar enganada ou iludida como alguns pensariam, mas eu dava um braço como aquilo foi único e de verdade. E eu estraguei tudo.

Foi sem querer, sem pensar, mas quebrei a confiança dele. Fechei o olho e não consegui conter a vontade de chorar. Eu o decepcionei. Olhei para Christina e balancei a cabeça, eu não podia dividir essas coisas com ela. Seria mais uma traição a Tobias. Dói quando me lembro que ele me repreendeu por chamá-lo assim. Perdi esse direito.

"Ah Christina... ele me levou a praia...". Ela me olhou abismada.

"Ele te levou pra praia? Com esse vento todo? Ele queria te matar?". Eu ri, sai como um desabafo, mas ainda sim um riso.

"Não senti frio". Ela fez uma cara completamente safada. Rolei os olhos.

"Sei. E o que mais? Meu Deus, você não sabe contar as coisas, tenho que torcer pra sair uma gota".

"Se você parar de me interromper, talvez eu consiga".

"Tá boomm, tá certooo". Ela me olhou com expectativa.

"Como eu disse, ele me levou a praia, e ficamos lá conversando, pronto". Ela jogou o travesseiro na minha cara.

"Sua chata. Vai me dizer que ele não te beijou, nem te agarrou, nem apalpou suas partes ou ....".

"Christina pare, não aconteceu nada . Nada do que você está pensando... Mas ele... me beijou sim". Falo meio tímida, nunca tive esse tipo de conversa. Ela arqueou a orelha. Christina deve ter sido uma inquisidora em outra vida, porque ela intimida a pessoa. Pareceu aceitar isso.

"E como como foi o beijo?".

"Como alguém que já beijou muitas bocas". Eu poderia ter feito melhor do que isso, mas estava me divertindo irritando Christina. E depois de tanta tensão eu queria um pouco de leveza. Levantei as mãos em rendição, respirei fundo e soltei o ar.

"Eu não sou boa em contar essas coisas, até porque nunca tenho esse tipo de conversa. Mas foi muito bom Christina. A coisa toda, desde a partida de sinuca, até a volta, tudo. Ele com certeza fez ser inesquecível. E o beijo, o beijo foi indescritível, eu só sei que nunca senti nada parecido. Não que eu tenha uma larga experiência, mas foi delicioso".

"E porque ele tava quase matando Caleb quando chegamos? Ele não quer vocês juntos? E porque ele ficou tão bravinho com você?". Demorei para responder, não quero as pessoas revirando a vida de Four, principalmente com algo que mexe muito com ele.

"Não sei bem... Caleb o acusou de alguma coisa, deve ser coisa entre os Capa e os Alpha Delta. Four entendeu errado, pensou que fiquei do lado de Caleb, e ele não gostou". Christina está pensativa. Ela balança a cabeça.

"Do jeito que você fala, não parece que foi tão sério. Nem justifica o ataque louco que ele teve. Ou... você não está me contando tudo. Principalmente porque correu atrás do cara o dia todo, e você docinho não faz o tipo correr atrás". Degluto. Ela me encara. Abaixo o olhar. Christina não gosta.

"Que ótimo, eu aqui morta de preocupada com você e nem sequer pra me explicar direito...". Christina estava magoada, mas sei que muito disso é curiosidade também.

"Christina, Four me contou coisas hoje, coisas que para mim ou você não acrescentam uma vírgula, mas para ele significam muito. Por favor, não leve para esse lado. Não estou traindo você, naquilo que nos atinge sou completamente leal a você. Mas as coisas que ele me disse, sinto que não devo partilhar com ninguém. Por favor, entenda. Só sei que Ele não estava correto em espancar Caleb. Mas as coisas que Caleb falou, mexeram com Four. Tiraram o seu controle. E não precisa conhecê-lo muito para saber que o melhor adjetivo que o define é controlador de si. Você entende? Por favor, não me deixe sozinha agora, preciso de você". Ela torce a boca e me abraça. Eu precisava disso. Não sei quanto tempo ela me abraçou, mas foi meio curativo. De repente Christina me solta.

"EI, EU OUVI, eu ouvi quando você chamou ele de TOBIAS". Sorrio e balanço a cabeça. Ela está meio boquiaberta.

"Realmente descobrir o nome do senhor mistério foi um feito. Começo a acreditar que esse negócio foi realmente... especial". Christina me olha considerando algo e sai do quarto. Quando volta carrega uma garrafa de vodca embaixo do braço e dois copos.

"Você precisa chorar as pitangas baby".

...

Four tentou com todas as suas forças se concentrar no treino de futebol. Apesar de tanto esforço seus pensamentos sempre derivavam para a imagem de Tris deitada em sua cama na casa dos Capa. Ontem ele não apareceu na universidade nem na fraternidade para fugir dela, mas Tris estava mais perto do que nunca, latejando em sua cabeça. Quando abriu a porta e se deparou com aquilo, ficou completamente sem reação. Ela segurava a foto dele com seus avós nas mãos. Era ridículo como Tris conseguia surpreendê-lo.

Ele chegou perto da cama e ficou olhando para ela por muito tempo. Ainda estava com a mesma roupa do outro dia e dormia profundamente.

Four queria poder expulsá-la, mas não teve coragem. Se fosse qualquer outra, certamente não estaria mais ali. Mas ela? Apesar de estar muito decepcionado, não podia fazer isso. Seus sentimentos estavam confusos, e isso só o deixava mais contrariado. Ele relutava em admitir algumas coisas ou ter outra visão do que aconteceu.

Pegou o que veio buscar e saiu sem fazer barulho. Pela centésima vez afastou aquilo da cabeça. O treino foi uma merda. Quando levantou a cabeça sabia que o dia só ia piorar. Jeanine Mattews esperava por ele.

"Alguém está precisando relaxar?". Jeanine perguntou.

"O que faz aqui Jeanine?".

"Esperei você ligar, esperei e cansei de esperar, então estou aqui".

"Eu disse que quando tivesse uma resposta ligaria".

"Pensei que você talvez... tivesse esquecido".

"Não esqueci, apenas não quis ligar".

"Meu Deus, você está de mau humor".

"E sem tempo. Quando tiver uma respostas procuro você, tenho certeza que um daqueles cinquenta números que você me deu irá funcionar". Ela sorriu.

"Acontece que se tiver que fechar um bom contrato para você, terei de fazê-lo esta semana".

"Mentira, isso pode ser feito até o fim do próximo semestre e se estiverem interessados em mim irão esperar". Janine torceu o lábio.

"E como você sabe disso?".

"Você acha que foi a única a me procurar?". Jeanine ficou preocupada.

"Quem procurou você?".

"Isso é irrelevante, mas não se preocupe, sei que você é competente. Quando me decidir ligo".

"E o que falta para se decidir? Posso conseguir um excelente contrato financeiro para você...".

"Não preciso de dinheiro Jeanine...".

"Então faça pelo poder, fama...".

"Já tenho o poder que preciso. Apenas o poder sobre a minha vida interessa e a fama dispenso...". Four tirou a camisa. Janine o olhou com cobiça.

"Pense na infinidade de mulheres que se jogarão em você, se eu fosse mais jovem...". Jeanine acariciou o rosto de Four e ficou bem próxima.

Four se afastou de Jeanine, e sorriu debochado.

"Me impressiona o você é capaz de fazer para conseguir o que quer. Se eu aceitar será exclusivamente pelo jogo, porque gosto dele". Ele entrou no vestiário e deixou Jeanine sozinha. A mulher é uma agente marqueteira gananciosa e colocou os olhos em Four. Bastou apenas assistir uma vez para saber que ele era muito promissor no futebol americano profissional. E o que Jeanine quer, Jeanine consegue.

...

Tris sabia que não ia conseguir fazer nada se não resolvesse o problema com Four. Ontem ele foi absorvido pela terra, ninguém o viu nem ouviu falar dele, mas hoje ela sabia que ele tinha treino e decidiu procurá-lo, ele precisava ouvi-la, pelo menos uma vez. Munida de coragem, se dirigiu ao estádio. Os jogadores se afastavam, o treino tinha acabado. De longe ela viu Four indo em direção a uma loira, parecia mais velha, mas era muito bonita. Eles trocaram algumas palavras até que a mulher o acariciou no rosto muito íntima. Ela se aproximou como se fosse beijá-lo. Tris fechou os olhos e virou na direção contrária. Não conseguia ver aquilo. Sua respiração era ofegante e tinha um nó na garganta. Da mesma maneira que ela decidiu procurá-lo, agora decidiu por não fazê-lo mais.

"Merda, a carta. Só preciso pegar a carta". Assim que acordou decidiu escrever uma carta para Four. Talvez ele não quisesse ouvi-la mesmo então a carta poderia servir. Pensou em mandar um email, o que seria mais lógico, mas a carta era mais pessoal. E no fundo, ela era uma menina de cartas e não de emails. Correu do campus a casa dos Capa, quando entrou silenciosamente na casa e no quarto de Four a cama estava vazia. Ele já havia pego a carta.

"Grande porcaria, tomara que tenha rasgado sem ler, senão minha humilhação será muito maior". Graças a Deus que amanhã vou visitar meus pais em Washington por causa do dia de ação de graças, assim me afasto disso tudo.

...

Four chegou no seu apartamento cansado. Sentou no sofá e tirou aquela carta que guardou na jaqueta. Estava complicado fingir que ela não existia, principalmente quando Tris dava um jeito de se fazer tão presente. E inexplicavelmente ele não conseguia apenas deixar pra lá, como essa carta. Pensou milhares de vezes em rasgar, mas não conseguia então abriu.

...

"Four,

Não sei bem o que dizer...

Considerando que você não está muito disposto a me ouvir, ou no caso ler, vou começar pelo final. Me desculpe!

Você não pode ver meus olhos e encontrar a sinceridade neles, mas espero poder demonstrar isso em palavras.

As coisas estavam bem e em questão de segundos tudo muda. Me pergunto se para todo mundo uma coisa ruim posterior apaga todas as boas anteriores. Para mim não funciona assim. Deixe explicar do que estou me desculpando. Estou me desculpando pelo que pareceu a você. Não acreditei nas coisas que Caleb falou, no momento para mim aquilo ficou em segundo plano quando você estava violentamente batendo nele. E poderia ser qualquer pessoa no lugar de Caleb. Independente das suas razões aquela não é maneira certa de se resolver as coisas. Você me assustou e em relação a isso eu tentei evitar sim que você continuasse. Mas entendo que pareceu que tomei um partido quanto as acusações feitas a você e isso não é verdade. Não foi o quis dizer com minhas atitudes. Espero sinceramente que acredite em mim.

Eu sei que o conheço a pouco tempo, mas dada a maneira que se comportou comigo, indiscutivelmente protetor, acho impossível aquilo ser verdade, mas se aconteceu, se isso chegasse a ser da minha conta, tenho certeza que procuraria entender e ouvir você. Não sou juiz ou polícia de ninguém. Sou um ser humano que absolutamente nunca errou nesses termos mas que é passível de erro a qualquer momento.

Eu gostaria apenas que soubesse que me importo com o que aconteceu. Eu não sei o que eu poderia ter feito diferente. O que você gostaria que eu tivesse feito? Não sei mais o que dizer, apenas sinto muito e que para mim o que aconteceu naquele dia no barco foi muito válido.

Até mais.

Beatrice".

Four leu a carta e tornou a ler novamente. Se ele não conhecesse Tris, jamais acreditaria que uma garota de dezoito anos teria escrito aquilo. Ela não estava ali pessoalmente, mas quase poderia ouvi-la. E não conseguiu segurar o sorriso.

Releu mais uma vez o trecho final "Não sei mais o que dizer, apenas sinto muito e que para mim o que aconteceu naquele dia no barco foi muito válido".

Metade da raiva que estava sentindo se esvaiu. Ele realmente gostou de receber a carta. Four sentiu carinho e preocupação por parte dela ao ler aquilo, talvez amanhã ainda a procurasse. Não sabe bem para que, mas iria procurá-la.

...

Dim dom

"JÁ VAI". Lauren gritou. Ela sorriu ao abrir a porta. Vestia apenas calcinha e uma blusa regata.

"Four, bom dia". O beijou no canto da boca. Four ficou desconfortável com aquilo.

"Tris está?". Lauren virou para esconder sua cara de inveja.

"Não, a careta viajou para visitar papai mamãe no dia de ação de graças". Four sorriu para o despeito de Lauren.

"Inveja hein?".

"Não seja idiota. E considerando que ela viajou sem falar para você esse lancinho subiu no telhado...". Lauren se aproximou oferecida.

"...Estou praticamente só em casa, apenas Moly e ela está dormindo. Não quer aproveitar?".

"Pare de se oferecer assim Lauren, é feio".

"Quanta hipocrisia, lembro bem que você não reclamou um tempo atrás".

"Conheci você diferente, ou realmente não conheci, de qualquer forma foi apenas uma dica, se quiser ignorar não é problema meu. Ah e feliz dia de ação de graças". Lauren bateu a porta furiosa. Four não saiu com um sentimento muito bom dali. Essa conversa o fez pensar na maneira como levou a vida até agora, na maneira superficial e solitária com a qual tem vivido. Pensou em ligar para Tris, mas decidiu esperar passar o feriado. Ele queria falar pessoalmente com ela e esse tempo seria bom para pensar melhor. Pegou o carro e dirigiu até seus avós, ia passar o feriado com eles.

...

Meu quarto. Olho para as paredes cobertas com papel florido. Isso não faz mais parte de mim. Alguém bate na porta.

"Beatrice, posso entrar querida?".

"Claro mamãe". Ela sentou na borda da cama.

"Quando sinto muita, mas muita saudade de você venho até aqui sentir o seu cheirinho". A abraço, depois deito no seu colo.

"Beatrice, desde que você chegou, sinto que está tristinha, o que houve?".

"Ah mamãe...". Ela acaricia meu cabelos.

"Isso só pode ser uma coisa... garotos". Sorrio para ela.

"Bem... sim".

"E é aquele garoto problema que seu irmão...".

"É".

"E o que houve querida?".

"É complicado mamãe, mas se ia começar alguma coisa, acabou. Não precisa se preocupar". Ela não pareceu acreditar muito.

"Então vamos descer, os convidados já chegaram para o almoço".

"Ok".

Enquanto descia as escadas com mamãe, parei um pouco em choque.

"Marcus, acredito que lembre da minha filha Beatrice". Degluti. Foi inevitável a aversão que senti ao reencontrar esse homem. Ele apertou minha mão.

"Prazer reencontra-la Beatrice, soube que está em Columbia".

"Sim Senador". Respondi.

"Tenho um filho que também está em Columbia". Estranho, ele pareceu orgulhoso disso, eu esperava que ele fosse seco em relação a Four.

"Pena não conhecer seu filho Marcus". Papai disse. Marcus pareceu realmente triste.

"Tobias e eu infelizmente temos diferenças irreconciliáveis acredito". Ao ouvir o nome dele me arrepiei.

"Talvez se tivesse sido um bom pai não seria assim". Levei a mão a boca, mas já era tarde demais para segurá-la, pelo menos falei baixo. Marcus me questionou com o olhar.

"O que disse?". Papai também não entendeu, mas mamãe sim.

"Bem, o almoço está servido, vamos para a outra sala por favor". E me arrancou de lá.

"O que está pensando Beatrice?". Ela perguntou baixinho.

"Nada mamãe, desculpe". Durante todo o almoço desviei os olhares do Senador. Tenho a impressão que ele entendeu. Merda. Essa minha boca gigante.

Estava no jardim quando ele se aproximou.

"Então você conhece meu filho". Me assustei. Respirei fundo. E agora?

"Desculpe, tenho que entrar".

"Por favor, espere. Você conhece Tobias?".

"É...Bem, sim, mas...".

"E conhece bem pelo jeito. Você mencionou que não fui um bom pai...". Fiquei completamente vermelha.

"Ah... É... Me desculpe Senador. Eu não tenho que me meter em seus assuntos". Comecei a me afastar, mas ele me segurou pelo braço.

"Não Beatrice, por favor espere...".

"... porque você disse isso. Você é íntima de Tobias?".

"Senador mais uma vez me desculpe, eu não tinha nada que me meter. Sim eu conheço o seu filho. Em um momento fomos 'íntimos' por assim dizer, mas hoje não nos falamos mais. E não me sinto a vontade para falar a respeito dele, também acredito que ele não gostaria disso".

"Ah sim, ele realmente não gostaria. Mas com certeza deve admirar sua lealdade. Tem certeza que não possui nenhum grau de intimidade com ele? Porque por anos tento me aproximar de Tobias, mas ele me rejeita de todas as formas. É realmente uma pena".

"E o Senhor precisa de alguém próximo que talvez possa influenciá-lo? Francamente Senador, o senhor não aprendeu nada?". Depois que saiu que me dei conta do limite que ultrapassei, papai vai me matar. Mas o Senador pareceu não se importar.

"Não me entenda mal Beatrice, da maneira como colocou parece feio. Não é o que quero, mas não vou negar que adoraria me reconciliar com meu filho e não sei como fazê-lo. Pensei que se talvez tivesse um elo neutro haveria um caminho". Não sei se devo acreditar nesse homem, mas não há nada que eu possa fazer. Não posso e se eu pudesse também não faria, seria uma traição a Four.

"Olha Senador, infelizmente isso não me cabe. Mas tenho certeza, que se tentar com sinceridade encontrará uma maneira. Agora se for para machucá-lo, ao menos essa vez não seja egoísta. O deixe em paz. Ele merece ser feliz. Com licença". Eu não sei onde estava com a cabeça falando assim com o Senador, mas não seria eu mesma se me calasse em nome da hierarquia ou outros interesses.

...

Notas finais
Espero que gostem, apesar desse ser um capítulo morno é necessário. Por favor, continuem comentando ;)