Em busca de mim
9 Festa da garota molhada
Notas iniciais
...
"Eu não sei o que é, mas você está diferente. Não vai me contar o que aconteceu mesmo?". Tobias sorriu para elegante mulher em sua frente, mas não disse nada.
"Na verdade acho que você conheceu alguém que o fez pensar... nela, com relativa constância". Ele sorriu mais. Sua avó era incrível e mesmo que ele se escondesse atrás de várias camadas, ela facilmente enxergava através delas.
"...Apesar de estar evidente certa preocupação, você parece mais leve. Digo isso porque vi um ou outro sorriso desnecessário". Ela caiu na gargalhada.
"Ok vovó, você ganha. Realmente eu conheci alguém".
"E esse alguém tem alguma importância para você".
"Não sei vovó".
"Tobias querido... Sempre tão maduro, mas não neste momento. Não percebeu ainda que decidir sobre isso não cabe a você? Apenas não seja teimoso".
"Não sou teimoso. Inclusive já a procurei, mas ela viajou no feriado. Quero que termine tudo bem, ela é uma garota legal".
"Termine?".
"Sim... Acho que teria sido até bom, mas nos desentendemos. As coisas esfriaram e não estou mais... interessado em continuar".
"Não está?...".
"Não vovó". Ela sorriu e acariciou o rosto dele.
"...Ou acha que é mais confortável não está?...".
"...Você já a viu depois desse 'desentendimento'?".
"Sim". Tris estava dormindo mas ele a viu.
"E o que sentiu? É mais fácil deixar para lá se não a vir mais... As pessoas pensam que é ausência que perturba. E que se puder lidar com isso, também pode seguir em frente, mas é a presença que nos faz sentir saudade, inclusive daquilo que nunca tivemos". Ele ficou calado. De alguma forma tinha se convencido de que a questão com Tris já tinha uma resolução e o fato de procurá-la seria apenas por consideração. Querendo ou não, como ela mesma disse, o que aconteceu no barco foi muito válido para ele também. Acontece que, apesar de não pensar sobre, quando a encontrou adormecida em sua cama ficou completamente confuso. Estava tão pensativo que não viu quando sua avó se afastou. Talvez fosse melhor deixar passar mais uns dias sem falar com Tris, só pra garantir.
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"Quando duas pessoas fogem um da outra, apenas o destino pode intervir".
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Eu já estava conformada em relação a história com Four até que o Senador Marcus apareceu e me fez reviver cada coisinha que passamos juntos. Falando assim parece que foi muito, pelo contrário. Foi apenas um momento, principalmente para ele. De certo a noite foi ótima e tals, mas não significa que teriam outras. Se tivesse ocorrido tudo bem já seria incerto, imagina com tudo isso? E mesmo assim insisto em pensar. A acusação que Caleb fez a ele não me sai da cabeça. Foi muito séria, qual será a história toda? Eu estava curiosa, mas principalmente gostaria de entender do que se tratava tudo aquilo.
Era hora de visitar o google.
"Tobias Eaton, Marcus Eaton". Digitei. Várias coisas apareceram sobre o Senador individualmente, mas nas poucas coisas que apareceram relacionando os dois o assunto era apenas um, um assassinato. Depois de tentar em vários sites com a matéria indisponível, consegui entrar em alguns. As manchetes eram bem sensacionalistas.
"...Filho do Senador Marcus Eaton acusado de assassinato. Tobias Eaton, Filho do Senador Marcus Eaton, acusado de matar estudante da Universidade Columbia. Filho do Senador Marcus Eaton envolvido em trote universitário fatal. Filho do Senador Marcus Eaton é inocentado de crime. Senador Marcus Eaton abafa o caso envolvendo seu filho...".
"E o que se iniciou como uma brincadeira de adolescentes perigosa, terminou em uma morte. Os trotes universitários estão cada vez mais violentos, nesse fim de semana estudantes da Universidade Columbia ultrapassaram todos os limites. Uma fonte contou que tudo começou com um racha de motos entre os calouros. As disputas eram feitas em duplas e o participante que perdesse seria alvo de uma roleta russa. O processo corre em sigilo, mas ao que tudo indica o filho do Senador Marcus Eaton, Tobias Eaton, está envolvido. Entramos em contato com a assessoria do Senador, mas ela não quis dar informações. Aguardemos o desfecho da história e que a justiça seja feita". Abri outra notícia.
"... Filho do Senador Marcus Eaton é preso em flagrante acusado de assassinato...".
"... Filho do Senador Marcus Eaton aguarda julgamento em liberdade...".
"Filho do Senador Marcus Eaton foi inocentado das acusações de assassinato em razão de trote universitário violento. Após uma minuciosa investigação a polícia não achou provas suficientes para uma condenação. Considerando que as únicas testemunhas do crime foram a vítima e o acusado, que chamou socorro imediatamente ao ocorrido, a polícia concluiu que tratou-se de um estranho suicídio ficando o acusado apenas condenado a prestação de serviços a comunidade por estar em uma corrida ilegal. Nos resta apenas ficar em dúvida se a verdade foi realmente esclarecida".
Passei o dia inteiro mergulhada nessas matérias e em nenhuma delas haviam muitos detalhes sobre o que realmente aconteceu. Todas comentavam o assunto de forma mais genérica, além de muita especulação claro. Sem contar que muitas notícias estavam indisponíveis, e os vídeos que estavam relacionados com Four, a prisão e o julgamento não existiam mais.
O mais importante tive a confirmação, ele foi inocentado. Independente das teorias, realmente acredito nisso. Mas gostaria de saber mais, não deve ter sido nada fácil passar por tudo isso. Não me admiro que Four seja tão denso. Tão jovem e já passou por tantas coisas...
Christina entra inesperadamente no quarto e me assusta. Fecho o notebook rapidamente. Ela está tão envolvida com o leilão de jóias que não percebe o que eu fiz.
"Meu Deus, não acredito que é depois de amanhã. Onde você se meteu, passamos o dia organizando as coisas e você sumiu".
"Desculpe Christina, tive que fazer outras coisas, mas como está tudo? O lugar está bonito?".
"Sim. Está tudo praticamente pronto. Os vestidos das 'modelos' chegaram, aqui está o seu". Faço uma careta ao ser chamada de modelo. Todas as Zetas terão que desfilar, menos Christina que aparece apenas no final.
...
Estamos iguaizinhas. Vestimos um longo preto e os cabelos têm com o mesmo penteado. Está chique. As joias estão lindas. O ambiente também e Christina está nervosa. É natural, mas estou tão orgulhosa dela. O leiloeiro abre o leilão.
"Bem vindos ao primeiro leilão Zeta de joias. É com satisfação que os recebemos e agradecemos a presença de todos que não apenas vieram prestigiar um lindo trabalho artístico, como também consumi-lo. Além do mais importante, é claro, ajudar as crianças do orfanato Sain´t Louis, visto que metade do que arrecadarmos será destinado a ele. Eu sou o leiloeiro. A cada desejo de oferta a plaquinha deve ser levantada. Estas serão registradas em ata e o pagamento deve ser feito ao final em cheque ou dinheiro. Declaro aberto o leilão".
Espiei pelas cortinas, o local está lotado, muitos nomes importantes, a imprensa está em peso. O reitor da universidade olha orgulhoso, tudo parece muito bem. De longe vejo meus pais e o ... Senador Marcus... ah não. Não sei porque, isso mexeu com meu estômago.
"Shauna exibe um conjunto de colar e brinco de elos em prata. Prata 925. O colar possui 40 cm de comprimento, 1,5 cm de largura e 0,2 cm de espessura. Os brincos possuem 63 mm de altura e 10 mm de altura. Trata-se da primeira joia do catálogo. Oferta inicial mil e quinhentos dólares... Temos a primeira oferta, alguém mais?... Vejo mil e seiscentos dólares... mil e setecentos dólares... dois mil dólares, alguém mais? Fechado por dois mil dólares para a Senhora de amarelo".
Assim, de acordo com as peças os valores arrecadados foram aumentando gradativamente. Uma a uma, as Zetas desfilaram colares, brincos, pulseiras, anéis, conjuntos, até chegar a minha vez. Respirei fundo. Não sei porque Christina me fez ficar por último, tudo bem que a joia que eu ia expor era diferente, e que também doei as pedras que foram de minha avó, mas poderia ter colocado outra menina para desfilar. Me olhei no espelho, as joias eram deslumbrantes. Destacam meus olhos e combina com meu tom de pele. Elas realmente ficaram bem em mim, mas logo pertenceriam a alguém que não eu. Era hora de entrar.
"E por último temos a joia mais especial do nosso leilão. Beatrice exibe esse magnífico conjunto de brincos e anel em ouro branco e esmeraldas colombianas. Essa joia é diferenciada, visto que é a única em ouro do leilão, mas o que o torna tão especial são as esmeraldas colombianas. É sabido do grande valor dessas gemas espetaculares... Oferta inicial setenta mil dólares... Já temos a primeira oferta...".
Vejo papai levantar a placa. Alguém fala...
"Cem mil". Meu Deus, foi o Senador Marcus.
"Cento e cinquenta". Papai de novo".
"Duzentos". Senador Marcus.
"Duzentos e cinquenta mil". Um homem estranho deu a oferta. Pela cara de papai, ele desistiu. O Senador estava prestes a fazer uma nova oferta mas quando olhou para o homem parou.
"Duzentos e cinquenta mil? Mais alguém? Fechado por duzentos e cinquenta mil dólares". Foi um valor realmente considerável. Estava um zum zum zum na sala. A Zetas estavam eufóricas. Eu saí e tirei a joia para ser entregue a dono.
"Agora, por favor, conheçam a jovem artista de mãos tão talentosas que confeccionou cada uma das peças". Christina entrou na frente e nós em fila atrás, fizemos um semicírculo e todos a aplaudimos. O leiloeiro entregou a ela um buque de rosas. Ela olhava visivelmente emocionada. O leilão foi encerrado e arrecadamos perto de quinhentos e cinquenta mil dólares. A imprensa conversava com Christina, com o reitor, com as personalidades públicas. Eu estava conversando com meus pais quando o Senador se aproximou de mim.
"E então Beatrice como está?".
"Bem. Obrigada por ter vindo". Digo meio sem graça. Me veio a cabeça o que aconteceu durante o leilão da joia que estava comigo e fico curiosa.
"Senador, por acaso o senhor conhece o homem que arrematou a joia que eu usava? Tive a impressão...". Um jornalista nos interrompeu, ele me dá um sorriso de desculpa.
Me despeço dos meus pais e vou até Christina. Em um lugar discreto alguém observava aquela minha conversa com o Senador e não gostou nada daquilo.
...
"Essa é uma visita realmente inesperada". Marcus disse ao abrir a porta do quarto em que estava hospedado.
"Porque não evitamos essa conversa fiada. Não sou um dos seus eleitores".
"Não, você é meu filho".
"Isso é realmente pior. Quero saber o que você faz aqui?".
"Se você está perguntando porque estava no leilão, talvez deva lembrar que Andrew e eu somos da mesma base aliada além de amigos. No dia de ação de graças estive com ele e me convidou para o leilão. A filha dele estava desfilando, linda por sinal. Você a conhece, suponho?...".
"... Quero dizer, estranhei o mordomo da sua avó dando lances no leilão exclusivamente na joia de Beatrice". Tobias sorriu debochado e ignora o que ele falou.
"Porque não conta logo tudo de uma vez, assim posso ir embora o mais rápido possível". Marcus respirou derrotado.
"Tobias... Beatrice deixou escapar que conhecia você...". Tobias sorriu como se esperasse isso.
"Bem, ela não me contou até onde sabia sobre nossa... relação, na realidade ela não me disse nada além de que eu não fui um bom pai, tentei criar um elo com ela como deve suspeitar. E você não pode me recriminar por tentar. Mas ela disse que isso não lhe dizia respeito e que se fosse para magoar você que eu o deixasse em paz porque você merece ser feliz... A garota não gosta de mim...". O Senador sorriu como um bufo enquanto tomava um gole de whisky.
"...Ela foi leal a você se é o que quer saber. Hoje não falamos nada além de cortesia".
"Cortesia você faria se desaparecesse para sempre. Seria um enorme favor". Tobias não esperou resposta, sua visita tinha terminado.
Ver Beatrice e seu pai conversando realmente o perturbou. Mais uma vez sentiu raiva dela. Pelo menos ela não lhe deu confiança. Isso claro, se Marcus falou a verdade. Mas e se for mentira? Marcus é mestre em descobrir maneiras de atingi-lo.
"Se ele está tentando usar Tris para me atingir, já tenho uma resposta". E nesse momento Four endureceu um pouco mais.
Ele não ia ao leilão, mas se decidiu por aparecer do jeito dele e ajudar as Zetas e ao orfanato. Ao menos essa era a sua justificativa oficial, a verdade é que quando viu o catálogo e mais especificamente Tris ostentando a joia nele, chamou a sua atenção. Como não queria se destacar teve a ideia de levar o mordomo da sua avó para dar os lances. As joias foram bem pagas, então não sentiu necessidade de fazer uma oferta até o momento que ela entrou... e ele nunca viu nada mais bonito. Tris estava lindíssima e as joias pareciam ser feitas para ela. Ele não pensou em presentear Tris com as joias, mas certamente seria uma lembrança dela que naquele momento ele gostaria de guardar. Era injustificável, mas podia se dar esse luxo.
...
Four e eu não nos vimos mais, quer dizer, apenas de longe. Uma ou duas vezes tive a impressão de que ele estava me olhando, mas deve ter sido só impressão mesmo. Tentei evitá-lo. Rio sem graça. Como se fosse mesmo preciso. Ele também não quer papo comigo, não me procurou ou nada parecido. E o destino não quis agir diferente...
Christina estava me maquiando no vestiário para festa da garota molhada de inverno das Zetas. Não via nexo nisso em pleno inverno, mas Tori garantiu que não íamos sentir frio. Quando entramos na área da piscina subterrânea do hotel comecei a pensar que ela tinha razão, o clima é bem agradável. Mas ainda assim, me sinto desconfortável...
"Trissss, tô falando com você!". Aterrissei. Ando muito aérea ultimamente.
"O que disse Christina?". Ela me olhou e balançou a cabeça.
"Esqueça, já me decidi por você. Se fosse esperar, a gente só ia terminar amanhã. Está pronta". Me olhei no espelho piscando os olhos para focar na imagem. Eu estou bonita, mas não estou muito afim disso não.
"Ei... Tris. Vamos se animar né? Quem sabe ele não tá lá?".
"Ele quem?". Christina revira os olhos.
"Olha Tris, você precisa parar de fugir dele. O que adianta se distanciar fisicamente se ele continua presente aí, nessa sua cabeça loira?".
"Oi? Não estou fugindo de nada".
"Tris, para. Sou eu Christina, aquela que convive com você quase 24 horas por dia. Eu sei quando você tá assada ou mal passada". Não dá para lutar contra Christina quando ela resolve ser uma pedra.
"Ele não quer Christina e acredite, ele não veio atrás por insegurança ou qualquer outra justificativa otimista, Four simplesmente não quer. Mas claro que isso, só desenhando. E além do mais todo mundo sabe que ele não repete garotas... E agora eu também não queria nada do que você está pensando, apenas queria que ficasse tudo... bem, sabe? Mas já deu dessa história. Não quer, não quer. Paciência. Daqui a pouco passa. É só, sei lá... Não gosto das coisas em suspenso, quero dizer, suspenso para mim, porque para ele já entendi que está tudo resolvido".
"Ual Tris, você tá demais. De todas, o vestido branco ficou melhor em você. Vamos, já tá cheio de gente". Shauna falou enquanto colava um número nas minhas costas. Christina balançou a cabeça concordando com ela. Para mim era demasiado provocante e sei que molhado vai ficar pior.
"Não sei se vai ficar tudo claro quando ele vir você vestida com isso". Saí andando porque Christina estava impossível.
E então o destino resolveu se manifestar, visto que Four olhando para mim foi a primeira coisa que vi quando coloquei os pés para fora. Respira Tris. Me chateia como ele me causa impacto. Ok. Continuei andando normalmente em direção as Zetas com Christina rindo atrás de mim. Difícil reconhecer que imediatamente fiquei mais animadinha, apesar de que aquela sensação de incômodo não amenizava.
A lógica era a seguinte. Uma Zeta subia em uma espécie de tiro ao alvo improvisado. Para derrubar a garota na água, o participante teria que acertar a alavanca com um jato forte tendo um minuto para fazer isso. Além de ver a garota com a roupa colada e transparente com biquíni por baixo depois de molhada, o premio seria bebidas de graça e pelo menos cinco minutos com a menina, claro que fazendo o que ela permitisse. Tori falava as características da Zeta da vez em um microfone, enquanto os que se interessavam pagavam para participar.
"Haha, Tris, ele não para de olhar para você". Procurei por Four discretamente através de um espelho na parede e Christina tinha razão. Ele estava bebendo e realmente me olhava. Ok. Eu sei que regularmente meu sangue circula pelas veias despercebido, mas nesse momento sinto ele correndo. Meu coração também acelera. O nome dele deveria ser adrenalina e não Four, porque é isso que ele me causa. Me veio uma sensação estranha, como se soubesse que algo vai acontecer. Ainda não sei se é coisa boa ou ruim.
Tori deixou as novas Zetas para o final, disse que valíamos mais. Me senti como um pedaço de carne, mas ela disse que estávamos mais para frango em uma máquina de assar e os meninos eram os cachorros vira-latas, podiam olhar mas não 'comer', ou melhor, tocar, a não ser se quiséssemos. Ainda não me acostumei com essa coisa de explorar muito a sensualidade, tento não pensar no quanto isso me incomoda. Até agora fugi bem, mas dessa vez não tem como escapar, a não ser que ninguém queira me derrubar. Não é timidez nem nada, quer dizer, é um pouco também, mas é mais como 'não me sinto a vontade para fazer isso. Tudo tem um limite e isso aqui está gritando que é fora do meu'. Eu sei que isso é comum, que não são só as Zetas que se comportam assim, muitos grupos na universidade fazem isso, mas... Balanço a cabeça tentando esquecer...
Olho novamente para Four, ele continua a me olhar, mas parece... chateado.
Uma por uma subiram, eu era a próxima...
"E lá vem. A próxima Zeta é a Tris. E para quem não conhece, cuidado! Ela pode te enganar...". Tori começou a rir, assim como as meninas. Se eu tinha esperanças que ninguém ia me escolher, como estava enganada. A fila era enorme e os garotos estavam animadinhos. Não gostei de muitos olhares. A sensação de que me virei em picanha veio novamente, fiquei meio nauseada.
A próxima coisa que senti foi alguém me pegando pelas pernas e jogando por cima ombros como um saco de batata. Não tenho certeza, mas o vulto parecia com Four, foi tudo tão rápido.
"Mas o que você pensa que está fazendo? Four, devolva minha Zeta... Four que diabos...". E minhas dúvidas foram esclarecidas, era ele mesmo. Tori estava brava, mas tentava manter a calma.
Ouvi muitas vaias masculinas. Reclamações. Alguns assovios também, devia ser os Capas. Muita gente falando, mas a música não me deixava ouvir bem. Ele andava rápido e me segurava firme, eu sequer conseguia espernear. Pelo caminho minha cabeça ia batendo nas pessoas, comecei a ficar enjoada pela posição e chateada.
Mas eu ainda podia gritar. No meio do monte de gente ninguém me ouvia direito, mas quando ele se afastou mais e as pessoas foram diminuindo eu poderia ser ouvida.
"Me coloca no chão Four!!!". E nada...
"O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?".
"ME COLOCA NO CHÃÃÃOOO AGORA!!!". Estou ficando muito brava e ele não fala uma palavra.
"SEU IDIOTA ME COLOQUE NO CHÃO...".
Finalmente ele me desceu, mas foi de forma brusca. Four estava todo contraído, como se precisasse fazer muita força para se controlar. Sua voz quando saiu foi baixa, mas perigosa.
"O que eu estou fazendo? O que você está fazendo se comportando desse jeito?".
"O que disse? Você enlouqueceu ou o que? O que diabos eu estou fazendo de errado?".
"E ainda pergunta? Se vendendo como um pedaço de carne. Você viu como os caras olhavam pra você? Você ouviu o que eles estavam falando?..".
"Oh, não exagere... E me pergunto de onde surgiu essa hipocrisia toda, porque pelo que eu saiba, ninguém melhor do que você para tratar uma garota como um pedaço de carne...".
"...Sem contar que estou tentando entender porque você está tão nervosinho. Desde quando o que eu faço ou deixo de fazer é da sua conta".
"Você não sabe do que tá falando, mas se você quer ser tratada assim, não tem problema...".
Four me encostou na parede com violência e me beijou. E o caos se instalou em mim. Minha cabeça mandava afastá-lo, algumas partes do meu corpo que prefiro não pensar muito criaram vida e agarraram Four onde podiam. Meu coração dizia que era a boca certa para beijar, a pessoa certa para acariciar, mas não era o momento certo para fazer. Muitas dúvidas. Eu não tive tempo sequer de responder ao beijo porque ele não me deixava, o beijo dele tinha raiva e necessidade, ele tinha tantos problemas quanto eu.
Não era apenas a boca dele que estava se manifestando. Four estava excitado e aquilo me incomodou. Não pareceu certo para mim. Ele estava movido pelos motivos errados. Então entendi, estava me tratando como uma garota qualquer, muito diferente daquilo que tinha acontecido no barco. Se eu tinha problemas em interromper aquilo, a próxima coisa que ele falou me ajudou a decidir.
"Está bom assim? é assim que você gosta? Não se preocupe, depois pago as Zetas...". Eu não deixei ele concluir. Nunca bati em um garoto na cara, mas aquilo saiu como se eu tivesse tido muito treino. Não pensei muito, apenas o afastei e bati em seu rosto. Eu não ia chorar na frente dele, também não ia falar nada. O olhei nos olhos com todo o desprezo que pude reunir, me ajeitei discretamente e voltei para a festa andando calmamente. Se eu queria uma resolução, pronto, agora tinha uma. E bem dada.
Eu precisava beber alguma coisa, minha garganta estava seca, mas fui antes ao banheiro. Christina veio atrás de mim.
"TRIS PRIOR, o que foi aquilo?". Christina perguntou animada. Respirei fundo.
"Christina por favor, agora não". Não sei o que ela viu em mim, mas falou com muito cuidado.
"Não saiu bem?". Balancei a cabeça dizendo que não.
"Vem, vamos beber alguma coisa".
"Não quero nada alcóolico, e tenho que voltar para o negócio da garota molhada".
"Quer mesmo fazer isso?".
"Quero". Eu estava decidida a mostrar que Four estava errado. E que eu mesma estava errada. No fundo sabia que era idiotice e que nunca provaria meu ponto, mas nesse momento eu precisava disso.
Já no bar Tris conversava com Christina e não percebeu quando trocaram sua bebida. Ela ia falar com Tori e dizer que estava pronta, mas viu Four vindo em sua direção muito rápido.
Eu saí para o outro lado, mas comecei a se sentir tonta, rapidamente muito tonta. Meus passos estavam trocados. Four me alcançou. Ele falava comigo com uma cara preocupada. Eu não estava entendendo até que não vi mais nada.
"Tris? Tris? Tris o que aconteceu?". Tris desmaiou nos braços de Four e estava gelada. Christina veio atrás correndo. Se ajoelhou perto.
"O que aconteceu? Ela estava bem a segundos atrás, ia falar com Tori...". Four cheirou a boca de Tris e não sentiu nada, então lambeu o lábio dela. Christina estava completamente sem entender aquilo. Ele sentiu um gosto salgado.
"Ela foi drogada. O que bebeu?". Four falou bravo e obviamente preocupado.
"Um refrigerante agorinha". Cristina também esta preocupada.
"Vou levá-la ao hospital, ela apagou muito rápido". Four levantou Tris no colo. Saíram pela lateral onde quase não tinha ninguém por perto. Christina veio junto. Bem próximo Lauren olhava a cena furiosa. Nada tinha saído como planejado. Quando ouviu a conversa de Tris com Christina no banheiro teve a ideia de drogá-la com o boa noite cinderela que ia usar nos garotos caso eles tentassem passar dos limites. Mas não para fazer efeito tão rápido assim, e sim quando Tris já estivesse com o garoto. Só que aconteceu justamente de Four encontrá-la. Talvez ela tivesse exagerado na dose ou a garota fosse fraca demais.
...
"Ela ficará bem. Está sendo monitorada, só vai demorar um pouco a acordar". O médico falou para Four e Christina no quarto onde Tris estava. Nesse momento chega Caleb no hospital. Ao ver que Four está lá, imediatamente se irrita.
"O que você está fazendo aqui?...". Four apenas o olha. Ele continua a falar.
"Viu o que aconteceu? Você só poderia estar envolvido..."
"Senhor por favor, aqui não é ambiente para brigas". O médico interrompe a iminente discussão e sai.
Will também chega e chama Four para conversar fora do quarto. Ele aproveita o momento para evitar brigar com Caleb, já fez burradas o suficiente hoje. Four olha para Tris com carinho e acaricia o seu rosto. Ele está chateado, preocupado, se sentindo cupado e um monte de outras coisas. Caleb ia puxar a mão de Four do rosto de Tris, mas Four a segura antes com a mão livre bem firme. Ambos se encaram.
"Gente, por favor? Aqui não!!". Christina pede. Four solta a mão de Caleb e sai para conversar com Will.
"Four, uma das vans foi roubada. Zeke percebeu quando foi na garagem. Ele ligou pra Uriah porque não conseguia falar com você. Uriah não entendeu nada porque quando olhou pela janela, a van estava estacionada do lado de fora. A quilometragem estava diferente e o combustível baixo, alguém a usou. Mas não foi nenhum de nós. Resta saber o que fizeram com ela. Zeke acha que devemos nos reunir agora e ver o que fazer, tá todo mundo na Capa". Four ficou preocupado com isso, não cheirava nada bem. Ele não queria deixar Tris, precisava falar com ela, se desculpar... se entender. Mas tinha que fazer isso agora. A van poderia colocá-los em problemas. Voltou ao quarto.
"Christina, eu preciso resolver uns problemas agora... mas por favor me informe sobre Tris. Diga que quero conversar quando ela acordar e ... por favor ligue". Four olhou para Tris de longe querendo evitar mais atrito com Caleb, não sabia se conseguiria se segurar. Tudo isso foi muito estressante, não estava no humor. Esperou Will se despedir de Christina e saiu com ele. Essa coisa com a van estava muito estranha.
...
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