Em busca da verdade
3 Capítulo 2 Parte 2-2
Notas iniciais
Minha primeira palavra fez com que a turma já tirasse suas próprias conclusões, bando de tolos. Sentei-me e fiz careta para ele, sua expressão foi ''isso será interessante'' e ainda levantou a sobrancelha para enfatizar o momento e seu pensamento, seja lá o que ele pensou.
Em sua cabeça deve fazer mais sentido que na minha. Senti-me tão confusa.
Quando cai na real que aquilo era serio e não ficção, entrei-me em desespero, e a cada passo que o garoto dava eu ficava com meu coração disparado. Mesmo eu brava com o rapaz percebi que senti alguma coisa por ele, alguma coisa diferente.
Como de se esperado, NOJO e DESPREZO foram meus únicos pensamentos. Minha expressão foi tão... Tão... Nem sabia que dizer, finalmente meus pensamentos voltaram a orbita
Lucy olhou para David e depois para mim percebendo que algo estranho estava rolando ali.
Ele caminhou em câmera lenta, desfilando, se exibindo, que por sua vez sentou-se no fundo da sala onde ficava perto dos livros e claro, de mim, sentou-se na cadeira, olhou para mim discretamente dando um sorriso de canto de boca, depois para Lucy e finalmente para frente.
Sem necessidade.
Mais uma vez tentei não, tentei ficar com a cabeça baixa, mesmo com musica alta eu não consegui focar na letra, comecei a encarar o que estava a minha frente, nada em especifico, só fiquei com os olhos fixos.
Lembrei-me de algo, não aguentei, soltei um pequeno sorriso.
Não consegui dormir sabendo que havia um pervertido na sala.
Peguei uma folha de caderno, escrevi com letras bem grandes ''ALIEN PERVERTIDO'' amassei e joguei nele enquanto ninguém estava olhando, pegou bem em sua cabeça, fazendo um pequeno estalo parecer um tiro de metralhadora – o que foi muito engraçado. O garoto se assustou, fingi que não fui eu, quase não consegui segurar a risada, tentei ficar de cabeça baixar para disfarçar.
Dei uma pequena espiada. Não deu muito certo minha disfarçada, qualquer um esperto o suficiente sabia que eu estava aprontando. Mas acho que ele nem percebeu que jogaram – que eu joguei — algo nele.
Eu estava errada, ele pegou a folha e leu, fez careta e deu risada olhando para os lados procurando saber quem fez isso.
Não me impressiona sua lerdeza. Cansei de disfarçar e joguei em sua cara o meu deboche, comecei a rir em silencio quase me batendo igual a uma foca. Ele pareceu entrar na brincadeira, pegou outra folha e escreveu nela com letras ainda maiores, pelo movimento de seu braço, amassou e jogou de volta.
Quando eu li ''BEM QUE VOCÊ GOSTARIA DE UM ALIEN'' fiquei estranha, a brincadeira parecia perder a graça, eu não sabia mais o que escrever então amassei a folha novamente.
Ele estava olhando para frente como se nem estivesse participando daquela guerra. Quando eu me levantei para lançar bem no rosto dele — pra ficar marcado. O professor me viu e pegou a bolinha de papel da minha mão, me fez ir até a mesa dele e ler o que estava escrito em voz alta.
Aquilo foi muito vergonhoso, nunca mais voltaria para essa escola. Depois de hoje pedirei transferência.
A expressão que os outros faziam me deixava com mais vergonha ainda, o que me fez odiar ainda mais o garoto novo.
Os olhos dele, a expressão que ele fazia, ficaram na minha cabeça por horas, tudo o que eu pude imaginar foi ''como ele conseguiu fazer tudo parecer que a culpa fosse somente minha, onde ninguém mais teria participação?'' Tem coisas que eu definitivamente não entendia.
Todos começaram a rir e puderam concluir que eu era definitivamente estranha — o que já era de se esperar. Voltei para o meu lugar na expectativa de tudo voltar ao normal, mas não voltou, esperei dar o sinal de cabeça baixa. Eu estava envergonhada de todas as maneiras possíveis, da cabeça aos pés. E claro que a culpa era minha, afinal, eu havia começado aquilo.
Só pude pensar em tudo que eu disse, tudo o que eu queria era mudar, ficar quieta, ficar parada e passar despercebida, mas... Nem tudo é como nós queremos. Fiquei muito constrangida, poxa aquele professor não deveria ter feito aquilo, que maldade.
E assim graças a Deus o sinal tocou e eu pude sair daquela jaula, já estava ficando com fobia, sai correndo como se fosse a algum lugar, e na correria acabei derrubando alguma coisa, mas eu não ia voltar para busca-la, eu já estava quase livre daquilo, então por que me importar com coisas tão pequenas?
Peguei meu celular na bolsa e percebi que minha folha não estava lá dentro, não era tão importante, mas eu quis voltar e pegar. Sim eu me importo com coisas pequenas, me processem.
Já era tarde demais, quando eu vi o destino da folha e com quem ela estava fiquei parada perto da porta, não deu para ver eles direito então só escutei o que disseram.
– Pegue, a Cássie deve ter derrubado. – Falou a chata da Lucy. Notei na hora que era a voz dela.
– Como você sabe que é dela? — Questionou David com um tom de ironia. Como ele era rude com todo mundo, deve ser por isso que ele não tem muitos amigos ou tenha, sei lá. Como eu poderia saber, acabamos de nos conhecer.
– Ah, como não saber, só ela tem esse tipo de folha aqui na sala, e... Eu a vi derrubando quando saiu correndo por algum motivo besta, como sempre. – Consegui ver eles, Lucy sorriu como se estivesse me ofendido. Como essa menina podia ser tão sádica?
Não me ofendeu sua bobona!
– Ah claro, pode deixar que eu entregarei para ela! — David deu um sorriso meio sarcástico.
Quando o vi caminhando em direção à porta sai correndo para perto do bebedouro. Acho que ele não me viu, pois olhou para os lados e depois jogou a folha no lixo. Quase fui até ele dar uns tapas, mas me segurei e pela primeira vez só fiquei o observando.
Ele saiu andando, eu ia até lá pegar minha folha, mas percebi que ele voltou, pegou a folha da lata de lixo, olhou o que tinha de tão especial nela e depois a dobrou e colocou em sua mochila.
Droga! Agora mesmo que eu não teria meu desenho de volta. Eu mandaria algumas indiretas para ver se ele se tocava e me devolveria.
Droga, droga, droga, ele me viu olhando para ele.
Creio que para me irritar, ele foi até o bebedouro, se agachou para beber um pouco d'agua, olhei para ele erguendo a sobrancelha enquanto saia andando, David não deixou barato, foi ate mim e esbarrou de proposito fazendo com que tudo que eu estava segurando caísse. Quase tive um surto de raiva. Cada coisa foi para um caminho diferente.
No mesmo instante um cara alto com cabelos escuros e olhos castanhos, que estava conversando com uma garota e um rapaz, deveriam ser seus amigos, percebeu que um caderno bateu em seu pé, ele abaixou-se e pegou o caderno, foi então que ele viu que eu estava discutindo com David, e parecia que ninguém percebeu que estava rolando uma briguinha ali.
Acho que ele não sabia o que dizer sua voz saiu rouca demais.
– Oi! – O garoto de olhos castanhos e musculoso disse com uma voz rouca e meio sem graça para uma primeira impressão.
– Oi... – Respondi meio confusa, tentando lembrar o nome dele, por mais que a gente nunca se falou, ele era popular então em alguma parte do meu cérebro estaria o nome dele...
– Bryan. — Respondeu ele.
– Bryan isso. — Eu sorri.
– Acho que é seu. — Bryan sorriu.
– Ah... Obrigada, eu devo ter deixado cair... — Olhei para o David com raiva e vontade de voar em seu pescoço, porém o ignorei como se ele não estivesse ali. — Mas obrigada de verdade.
– Cássie né?
– Isso Cássie... — Outro sorriso bobo. Parece que eu fiquei besta. Falta de comida, só pode.
– Então... Você está a fim de tomar um sorvete? Eu estava indo e não tem graça ir sozinho...
– Hãm... Claro, porque não. Depois das aulas não terei nada para fazer e vou pra casa mesmo. – Peguei em seu braço e saímos andando, e nesse meio tempo olhei para trás e mostrei a língua para David, debochando dele. Haha e ainda quando dizem que sou criança eu reclamo, mas foi muito bom aquele momento.
David ficou confuso e disse para si mesmo – que a quilômetros de distância daria para escutar.
– Como alguém arranja um encontro devolvendo um caderno de uma pessoa que saiu do além? Como vou torturá-la agora? – Quase voltei para bater nele, pelo menos tentar.
Depois de mais algumas aulas chatas eu estava indo tomar o sorvete com Bryan, eu queria ir, mas ao mesmo tempo eu não queria, tentei arranjar alguma desculpa. Pra que eu marquei de sair com ele se eu não estava com vontade? Ah sim, claro, culpa do David.
– Hãm... Bryan, eu preciso ir à diretoria, desculpa, mas eu preciso ir. — Será que foi a decisão certa a se tomar?
– Hei Cássie...
– Cáss. — Disse com um sorriso.
– Como?
– Por favor, me chame de Cáss. — Eu preferia que me chamasse pelo meu apelido.
– Ah sim, então Cáss... — Disse olhando pra mim dando uma piscadinha. — Posso ir com você? É que estou meio sem fazer nada e gostaria de estar ocupado por que... — Disse ele pensando.
– Ah, não sei... – Ele me olhou com aqueles olhinhos de gato do Shrek – Okay, Okay... Por que não? – Sorri tentando parecer simpática, mas por dentro eu queria que ele sumisse. Como eu estava bipolar naquele momento.
– Bryan...
– Sim.
– Acho melhor você não entrar na sala comigo, sabe, acho que o diretor está ai e ele não vai muito com a minha cara. — Disse em voz baixa para que ninguém percebesse.
– Ah, eu te espero do lado de fora... Claro se não for incômodo. — Seu sorriso era radiante.
– Por favor, só não chame a policia. — Demos risada juntos e depois de uma troca de olhares fomos até a diretoria tentar resolver aquilo.
Acho que acabo de ter um amor platônico.
Nãooooooo!!!
– Claro. – Ele ficou esperando sentado do lado de fora.
Torci pelo diretor ter ido embora, mas foi em vão, porque no fim das contas ele estava lá e parecia que estava me esperando.
Depois que Bryan me esperou do lado de fora e de alguns gritos e discussões com o diretor resolvemos o meu caso. O diretor não queria me dar um armário e nem nada, porque eu faltava muito na escola e não merecia, mas como sempre eu pude provar minha inocência e dar para ele cartas, bilhetes, atestados e etc.
Depois de ele pensar, me expulsar da sala e me chamar de novo, eu consegui um armário novo, meu armário novo ficava num corredor vazio e sem companhia e nem nada, um verdadeiro deserto.
Havia cerca de trinta armários, para os alunos novos e transferidos. E ninguém estava usando aquele corredor no momento, e existiam cerca de três corredores iguais a ele só que todos foram ocupados, e só este estava vazio. Como não queria arranjar mais confusão, nem brigas e nem ter que chamar minha mãe eu preferi deixar tudo como estava. Eu estaria sozinha como eu sempre quis e estaria feliz sem brigas e pessoas desagradáveis. Só havia um problema, para mim, aquele era o corredor mais longe das salas e eu já não gostava de atrasos...
O diretor também havia dito que o corredor não estaria tão vazio como eu havia imaginado, pois mais alguém também iria para lá, e que eu o iria conhecer mais tarde.
Por um momento eu tive um daqueles flashbacks de filmes de terror onde uma garota estaria sozinha e coisas estranhas aconteciam. Loucura minha, pois eu estudava de manhã... Então não havia o que temer, mas foi legal pensar na possibilidade.
Pronto, eu estava satisfeita com tudo e nada poderia piorar a situação novamente.
E depois o diretor me disse que havia dado meu armário para outra pessoa, uma pessoa mais ''importante'' e foi escolha dele o lugar. No momento eu sabia quem era um rapaz, agora teria que descobrir quem era. E meus pertences haviam sido guardados numa caixa na sala do diretor para que quando voltasse eu os teria de volta.
Peguei minhas coisas com o chato do diretor, que logo iria embora, e depois de uma caminhada comecei a guardar minhas coisas no meu armário novo. Bryan ainda estava comigo, acho que ele realmente gostaria de ser meu amigo, porque se fosse isso sim, seria novidade. Conversamos por alguns poucos minutos e fomos cada um para sua sala.
Depois deu o sinal terminando o horário letivo, pela minha má sorte acabei vendo o David umas mil vezes só hoje. Caraca esse cara não me largava, onde eu estava ele estava lá para me fazer companhia.
Fiquei esperando pelo rapaz do lado de fora onde combinamos, mas ele não apareceu, fiquei triste, desapontada e estava quase indo embora. E depois de quase todos terem ido para a casa, eu estava quase entrando no embalo de ir também, e finalmente ele chegou. Não disse nada e nem me deu satisfação, só fiquei parada olhando para ele. Não sabia o que significava sua expressão, era neutra, sem sentimentos, sem nada, um simples vazio em seu rosto.
– Oi. — Disse ele com aquela cara de sínico.
– Oi.
– Vamos? — Disse ele me arrastando pelo braço, sendo um pouco mais grosseiro de quando nos vimos mais cedo.
– Você está bem? – Parei de andar fazendo o parar de me arrastar como se eu fosse um saco plástico.
– Me desculpa, só estou um pouquinho cansado. — Aqueles olhos eram tão convincentes.
– Você quer ir para a casa?
– Ah Cássie...
– Cáss... — Falei em voz baixa.
– Não quero estragar nosso dia, por favor, vamos? –Uma mudança repentina e assustadora, será que eu deveria ir?
– Tudo bem, vamos então! — Disse com um sorriso.
Percebi que atrás de nós havia alguns rapazes que iam em nossa direção, seguindo o mesmo caminho que o nosso. Eu os conhecia de alguns meses atrás. Quase entramos numa briga onde seria quatro contra um, tudo isso porque não cai em seu charme de meia tigela, não sou como as outras garotas que dão bola para qualquer um sem pensar nas consequências. E aqueles garotos eu os queria bem longe. Principalmente o líder da gangue.
Chegando à barraquinha de sorvetes eu pedi um sundae de morango com calda quente e palitinhos de chocolate, meu favorito, e Bryan pediu um milk-shake de chocolate. Depois de pagar o sorvete nós caminhamos durante uns dez minutos até encontrarmos um parquinho onde havia dois balanços vazios. Olhamos um para a cara do outro e pensamos a mesma coisa. Ainda bem que o sorvete havia acabado, pois assim seria mais fácil correr.
– Vamos apostar uma corrida? — Olhei para ele com cara de criancinha com olhinhos brilhantes.
– O último a chegar paga mico. — Bryan não perdeu tempo, saiu correndo antes que eu me desse conta de que já estava valendo.
– Não valeu! – Gritei brava. — Você saiu correndo antes do tempo. — Eu disse com uma cara de emburrada para ele, sentei no balanço com os braços cruzados.
– Como não? Eu disse valendo e você ficou ai moscando. — Bryan sabia que ele estava errado, mas parecia que o deixava feliz me deixando brava.
Sem eu perceber ele levantou de fininho e começou a me empurrar no balanço, foi tão inesperado que me desequilibrei e quase caí, mas me segurei nas correntes enferrujadas que sujaram minhas mãos, limpei-as na roupa dele e começamos a rir.
– Mas você disse que quem perdesse pagaria mico... – Terminei a frase quase em um sussurro.
– Só aproveite. — E foi só isso por poucos segundos, paz e tranquilidade em um único momento. Comecei a olhar para o céu, ele estava lindo, o sol radiante com poucas nuvens.
– Sabe... – Ele começou a falar quebrando o silencio. — Eu perdi minha mãe em um acidente de carro há alguns anos... — Com o rosto triste, Bryan parou de me empurrar abaixando a cabeça. — Estávamos nós três no carro e... – Bryan não aguentou, enchendo os olhos d'água...
Quando me dei conta eu já estava abraçando Bryan bem forte, acabei dizendo a primeira coisa que me veio à cabeça parecendo ser certo.
– Hei... Esta tudo bem, não precisa continuar se não quiser. Não se preocupe você não tem obrigação de falar o que não te convém. – Olhei em seus olhos e sorri, fazendo transparecer meu coração mole.
Sim, eu tinha um coração.
– Obrigado, mas sabe, estou feliz por ter conhecido você, você foi à pessoa mais sincera que eu já conheci nesse tempo que estou aqui, e olha que já estou aqui há muito tempo. – Há muito tempo mesmo, até porque eu já o vi várias vezes, mas ele nunca falou comigo.
Bryan olhou nos meus olhos sorrindo me fazendo sorrir vergonhada por causa do elogio. Nessa troca de sorrisos e de olhares Bryan se deixou levar, dando-me outro abraço. Um abraço firme e forte fazendo-nos ficar bem perto um do outro acabei me distraindo onde Bryan se aproximou, se aproximou demais, quase me beijando, não me senti confortável e virei o rosto, sem graça acabei me afastando dele...
O que ele pensava que estava fazendo? Hoje foi o dia de me deixarem louca? Só pode.
– Eu sinto muito eu... Eu... Não... – Bryan parecia envergonhado.
– Tudo bem... – Sorri com a cabeça baixa tentando disfarçar. – Acho que já está na hora de irmos, já está ficando meio tarde e eu tenho que ir pra casa...
– Ah sim, claro, me desculpe mais uma vez... Hãm... Vamos? – Não sabia o que passava em sua cabeça, mas era melhor nós irmos.
O parquinho não ficava muito longe da escola, então dava para ver quem estava do outro lado da rua, mesmo que parecessem formiguinhas, logo avistei do lado direito minhas amigas Duda e Bella e do lado esquerdo estava David, olhando para mim. Duda e Bella pareciam super animadas. Já David parecia bravo, bravo? E oh que ele nem mandava em mim. E o que aquelas filhas da mãe estavam fazendo ali?
A caminho de casa me senti mais calma. Desde manhã sentia que carregava o mundo nas costas, por isso foi tão grossa com todos e principalmente com David que não tinha culpa pelas minhas loucuras.
– Chegamos, obrigada por fazer minha tarde valer a pena e por me fazer esquecer um pouco dos problemas, percebendo que ainda vale a pena viver por algumas coisas. — Despedi-me dando-lhe um beijo em sua bochecha. Isso era mais educado, bem mais do que ele tentara mais cedo. Cada um seguiu seu rumo.
Depois de um dia cansativo, cheguei em casa e fiz as mesmas coisas de sempre. Quando cheguei em meu quarto, não passou nem um minuto sequer, mal deitei na cama e meu celular já estava tocando.
– Alô? – Atendi o celular com uma voz cansada.
– Eai Cáss, conta como foi! – Minhas amigas estavam juntas, elas disseram que iam dormir uma na casa da outra, elas me convidaram, mas eu passei.
– Eai o que? – Claro que eu sabia do que se tratava, mas era legal fazer um charminho.
– Ah deixa de ser besta, você sabe muito bem do que estamos falando. Como foi o dia no parque com o... Bryan? – Curiosidade de amiga é tudo, ainda mais quando elas dizem o nome do garoto em câmera lenta.
– Ah, você está falando de hoje? – Com um tom sarcástico continuei.
– Sim, fala logo que já estamos curiosas. – Novidade.
– Ah, foi o máximo, tomamos sorvete, conversamos, ficamos no balanço, e depois quase nos beija... — Minhas amigas deram um grito no telefone que interrompeu a frase que eu enfatizaria no final.
– Como assim quase se beijaram? Por que não se beijaram? Por que Cáss? – Ela gritava comigo pelo telefone.
– Calma, posso terminar de falar? Obrigada.- Nem sabia por onde começar. – Quando nós estávamos conversando sobre a vida dele eu o abracei e ai quase rolou... – Falei com uma voz triste quando me lembrei do assunto que me fez abraça-lo.
– Como assim quase rolou? Cáss conta isso direito pelo amor.
– Se me interromperem mais uma vez eu não contarei mais nada pelo telefone. — Dei um xeque-mate nelas.
– Desculpa. – Disseram juntas.
– Foi um assunto triste, onde ele quase começou a chorar e vocês sabem como eu acho fofo um homem chorando, mas isso me fez ficar triste, então eu dei um abraço bem forte nele, e ai... – Uma pausa, lembrando-me do quase beijo. – Nós quase nos beijamos, e eu não queria, ainda mais naquele momento... Então quando percebi, eu já tinha virado o rosto. Ficamos envergonhados, mas valeu a pena o dia, por mais que eu achasse que eu não ia conseguir terminá-lo feliz, eu consegui. E sabe por quê? Porque eu tenho vocês e tenho minha família que eu amo. — Já estava quase sem fôlego quando terminei meu discurso, comecei a olhar pela janela e vi a coisa mais linda do dia, a lua e as estrelas!
– Anw... Que fofa. – Disseram em conjunto mais uma vez.
– Não, não sou fofa e pensando bem... Acho que não, não amo mais vocês. Boa noite.
– Ah safada. Boa noite, nossa bipolarzinha preferida. – Desligaram o telefone.
Naquele momento era uma mistura de sorrisos e choros, tristezas e alegrias algo incontrolável, não sabia se estava realmente triste ou realmente feliz.
Foi um dia cheio de surpresas, por mais que não parecesse, e cada um pegou sua porção.
Passaram-se horas e horas, quando me dei conta já era noite, estava tão cansada que só comi alguns salgadinhos que eu escondia embaixo da cama. O cansaço era grande, mas não me impediu de pegar minhas cobertas e me deitar perto da janela, onde uma brisa fria passava pela fresta da janela entreaberta.
Não dormi no chão, não exatamente, mas tinha uma caminha feita de colchão e vários cobertores para me deitar, eu já deixava daquele jeito para quando eu quisesse dormir ali era só deitar.
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