Em Manhattan.
2 Rua 33.
O despertador tocou pontualmente as 7hrs da manhã, mas confesso que eu adiei umas duas, talvez três vezes. Só sei que acordei com o meu pai dizendo que eram 7h30 e que se eu não levantasse naquele minuto eu chegaria atrasada logo no meu primeiríssimo dia de aula.
Saí da cama e fui me arrastando até as minhas malas que estavam jogadas no chão e que eu ainda não tinha desarrumado por pura preguiça, confesso. Fazia um calor descomunal em Manhattan e o sol parecia brilhar mais que nunca. Em Londres, para mim, dias escolares eram sinônimo de céu nublado e uma temperatura plausível de se usar uma calça jeans.
Meu pai entrou no meu quarto gritando que era 7h40 e se eu não saísse em 5 minutos eu não chegaria. Peguei a primeira roupa que eu vi na mala e me enfiei nela. Uma saia preta, uma camisa branca escrita “Tudo bem, eu tenho o poder de veto” que ninguém provavelmente entenderia e um All Star vermelho que estava jogado aos pés da cama.
Peguei um copo térmico com chá preto que meu pai tinha preparado e saí em direção ao metrô. Eu estava literalmente correndo pelas ruas do Upper East Side. Entrei na linha quatro e segui para a Rua 33.
Eram cinco para as 8h, horário que começava a minha aula, quando eu saí do buraco do metrô. A escola era a vinte passos de onde eu estava parada. Eu conseguia ver as portas vermelhas da M.L. Murray School, mas eu não conseguia me mover um milímetro. Eu fiquei lá, uns dois minutos parada processando que não seria mais a International School of London onde eu estudaria, seria ali: onde eu não conhecia ninguém, e não sabia se quer onde ficava o banheiro mais próximo para me esconder.
Num ato de coragem entrei na escola, as pessoas pareciam não me notar parada ali no hall de entrada, elas estavam mais preocupadas em se reencontrar, ou então os mais prudentes em ir pras suas salas antes que o sinal tocasse. O corredor foi se esvaziando, esvaziando, e ás 8h03 eu era a única parada ali. Sem saber o que fazer.
Uma menina que usava jeans rasgados, uma camisa xadrez amarrada na cintura e uma camiseta escrito “Desculpa, eu estou atrasada.” entrou correndo pela porta. Ela parou na minha frente. Entrei em pânico ao perceber que ela tinha me notado.
—Ei!- Ela falou- Está tudo bem?
—Não, quer dizer sim, quer dizer não sei. – Disse um pouco nervosa enquanto lia sua camiseta.
—É uma camiseta legal, não?- Disse ela olhando para a própria blusa que eu encarava vergonhosamente.
—Sim, acho que você já fez jus a ter colocado ela hoje- Disse apontando para o relógio digital que marcava 8h07.
—Eu sempre faço jus a ela. — Disse orgulhosa – Mas você também está atrasada não? Qual a sua primeira aula?
—Na verdade eu não sei. É meio que por isso que eu estou atrasada. Você por acaso sabe onde é a secretaria ou algo do tipo? É meu primeiro dia.
—Seu primeiro dia? Caramba, que falta de delicadeza minha. Sou a Holly, prazer em te conhecer. – Disse ela esticando a mão para mim.
— Elleonor, mas pode me chamar de Elle. – Disse enquanto apertava sua mão.
—Elle, bom nome. Não preciso nem perguntar se você é britânica, né?
Eu ri sem graça, meu sotaque era forte por mais que eu tentasse evitar.
—Vem, eu te levo na secretaria, eu já perdi a primeira aula mesmo.
Holly foi me dando indicações sobre a escola, as aulas, o almoço da cantina. Até que chegamos a uma porta de madeira pintada de vermelho assim com as portas da entrada. Empurrei-a e Holly entrou atrás de mim. A secretária estava de costas. Holly praticamente pulou no balcão e falou:
—Rita! Que saudades da minha babá de atrasos preferida.
A moça virou para onde estávamos e logo respondeu com um sorriso no rosto:
—Holly, no primeiro dia já atrasada? Você não tem jeito mesmo! Senta aí no seu banco e espere o segundo tempo.
Holly saiu pela porta em que entramos. Foi então que Rita virou-se para mim:
— E você querida, em que posso ajudar?
—Hm, olá, eu sou a Elleonor, sou nova aqui.
—Ah sim! Elleonor, estávamos te esperando! – Disse enquanto mexia em uns papéis.
Dei um sorriso tímido.
—Elleonor Howeds Batchlor, não é isso?
—Sim, isso mesmo! – Respondi meio sem graça.
—Bem querida, você escolheu suas matérias pelo site da escola correto?
—Correto. – Disse tentando soar firme, apesar de ter escolhido essas matérias pelo telefone com o meu pai ditando elas para mim.
—Bem então você terá aulas de Ciências Políticas, História Americana, História Mundial, Geopolítica, como suas de Humanas. Inglês avançado e Alemão como de Linguagens. Princípios de Economia mundial como aula de Matemática e Biologia I como aula de Ciências.
—Biologia? Eu não escolhi biologia! – Disse desesperada, eu ODEIO biologia.
—Ah sim, mas é obrigatório que você faça uma das aulas de ciências. Mas fica tranquila, é a aula mais básica de todas.
Dei um sorriso amarelo. Achei que tinha me livrado de biologia. Achei errado.
Rita me entregou meus horários e me deu as instruções para chegar à minha próxima aula, a maldita biologia. Passei por Holly no corredor, dei um breve aceno e ela me respondeu dizendo que nos veríamos no almoço, assenti com a cabeça. Caminhei em direção à sala, a porta estava fechada, pois já tinha dado o horário (de novo). Bati na porta de leve e abri uma fresta. Um homem que aparentava ter uns 60 anos, tinha cabelos e barba branca sorriu e com uma voz grave falou para eu entrar.
—Você deve ser Elleonor, correto?
—Correto. – Falei sem graça.
Ele me indicou o único lugar vazio para sentar, uma bancada perto da janela, lá estava sentado já um menino com traços orientais. Ele sorriu para mim, eu acenei de volta e andei em sua direção. Percebi que as pessoas me analisavam, mas eu não me importava tanto assim, de certa forma, lá no fundo, eu até gostava de ser o centro das atenções. Cheguei à bancada e me instalei. Assim que terminei de arrumar minhas coisas o menino olhou para mim e disse esticando a mão:
—Kevin, prazer.
—Elle, o prazer é meu. Ah e premeditadamente, desculpa por ser sua dupla de biologia.
Ele riu. Sr. Bennet começou a explicar algo sobre mitose que eu confesso que não prestei atenção. A pracinha ao lado da escola onde algumas crianças brincavam era uma visão muito mais interessante. Estava lá completamente compenetrada no fato que duas crianças corriam em círculos sem qualquer motivo quando Kevin me cutucou e entregou um papelzinho dobrado.
Comecei a abrir o papel meio desconfiada, eu não conhecia ninguém ali, deveria ter sido um engano e eu estava abrindo o bilhete de outra pessoa. Ninguém pareceu tentar me impedir então olhei para o que estava escrito.
“Camiseta legal. — A”.
Olhei para o resto da sala, ninguém parecia observar a minha reação ao abrir o papel ou se quer uma resposta. Kevin parecia interessado demais na telófase para interrompê-lo para perguntar quem havia mandado aquilo.
Passei o resto da aula encarando aquele bilhete. Alguém entendeu minha camisa, quer dizer, ao menos é o que parece. Não que a minha camisa fosse uma piada supersecreta, mas faz alusão aos Modelos das Nações Unidas. A curiosidade tomou conta de mim e os 30 minutos restantes da aula do Sr. Bennet eu passei tentando imaginar quem poderia ter mandado aquilo.
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