Em Cada Ponta Do Infinito
29 O dia em que minha mãe morreu.
Notas iniciais
Passaram-se três meses desde que começaram as aulas. E desde o dia em que a Lú resolveu dar uns puxões no cabelo da Rayane, não falei mais com o Lucas. Ele tem me evitado a cada segundo que eu passo dentro da sorveteria. E tem me evitado também na escola e quando por um “acaso” eu resolvo pegar o mesmo ônibus que ele.
Contudo, não parei de pensar nele. Imagino-o quando vou dormir e dou boa noite nos meus pensamentos. Mas ai me lembro de que ele está com a Rayane, e tudo vem a tona. Às vezes o vejo caminhando com ela pela escola, de mãos dadas, e isso dói muito. Arrependo-me profundamente de ter acabado com o que nem tinha começado. Mas eu tenho medo. Medo de tudo se repetir.
Minha popularidade está no auge da fama. Apesar de saber que a maioria das pessoas que vem falar comigo são falsas, nem ligo, por que não vou voltar a cair na ladainha delas. Sim, estou realmente lançando moda na escola.
Ah, é claro, a maior novidade de todas: Duca e Elisa estão namorando. Isso mesmo! E claro, tá a pura melação. Não contem pra ninguém, mas a Elisa é a primeira namorada do Duca, e o Duca é o primeiro namorado dela. Hahahaha, cômico não?
Acabando com as gracinhas por que agora é momento de tristeza. Passaram-se três meses desde que começaram as aulas não é mesmo? E sabe o que isso significa?
O dia da morte da minha mãe.
Meu pai e Lívia se comprometeram a ir comigo ao cemitério hoje. Eles vieram, mas resolvi ficar um pouco mais. E agora aqui estou eu, olhando pro tumulo da minha mãe e sentindo a falta dela.
Já falei o nome da minha mãe?
Diana.
Lindo não é mesmo? É exatamente como ela. Linda.
Na época dos meus dez anos, a ouvia cantarolar enquanto fazia meu prato preferido pro almoço. Ela sorria quando se sentava à mesa, e meu pai vinha só de sentir o aroma da carne. Tacos...
– Viemos ficar com você – Ouvi Pri dizer, enquanto se sentava ao meu lado. Pela primeira vez na vida, vejo ela não se incomodar por sujar a calça na terra.
Elisa, Duca, Gui e até a Lú vieram. Esses sim são meus amigos de verdade.
– Você nunca me contou a história da sua mãe Tayse – Elisa disse.
– Err – Balbuciei – Não gosto de falar sobre isso. Foi horrível.
– Não falo do acidente – Respondeu – Falo da história mesmo.
Pensei um pouco.
– O nome dela foi Diana – Comecei – Nasceu aqui mesmo, e desde pequena, trabalhava com minha avó cultivando flores pra floricultura da cidade. E foi na época dos seus quinze anos que aprendeu a fazer perfumes. Eram tão bons... – Continuei, e senti o cheiro do perfume dela vagando na minha imaginação – Não fez faculdade, e conheceu meu pai aos dezenove. Aos vinte anos, engravidou de mim. Foi uma guerra pra escolher meu nome – Dei um sorriso ao lembrar minha mãe contando essa história – Meu pai queria Tamires, e minha mãe queria Dayse. E olha no que deu... Tayse.
Eles sorriram achando graça.
– Foi na época dos meus 13 anos que ela morreu. Mas prefiro não falar sobre isso.
Eles pareceram compreender e eu olhei uma ultima vez pro tumulo da minha mãe. Dei um adeus, e me levantei. Meus amigos me abraçaram e saímos do cemitério.
– — -
Uma semana depois.
– Que lindo Tayse – Uma garota que eu não sabia o nome falou – Onde comprou?
Dei um sorriso sem graça. Estávamos eu e um bando de amigos sentados no refeitório, e do nada a menina chegou. Tem um sorrisinho simpático, mas só está interessada na minha saia de pregas. Falei o nome da loja pra ela e dei um sorriso simpático. Depois ficou falando uns comentários que eu mal prestei atenção e seguiu o seu caminho.
Sabe por que eu mal prestava atenção? Por que ficava olhando pra eles. Lucas e Rayane.
Ele parecia feliz com ela, e mal olhava na minha cara.
“Me esqueceu” – Conclui.
– Ei Tayse – Uma garota baixinha falou, enquanto passava por mim.
Falei um oi pra ela. Rayane sussurrava alguma coisa no ouvido do Lucas e ele sorria.
– Para de olhar Tayse – Pri falou, me cutucando. Desviei o olhar rapidamente e fixei meu olhar no sanduiche natural que não havia recebido nenhuma mordida ainda.
– Não estou encarando nada – Falei.
– Uhum Tá – Respondeu – E eu sou o Batman.
– Argh – Murmurei – Vou ao banheiro.
Não esperei e levantei-me. Comecei a caminhar até lá e agradeci mentalmente por estar vazio. Fiquei me olhando no espelho pelo que pareceram horas, e logo depois Rayane entrou. Revirei os olhos, e comecei a me direcionar pra saída, mas ela me pegou pelo braço.
– Que foi fofa? – Falei com ironia – Veio relembrar os momentos em que você passou indefesa ao lado da minha amiguinha de treze anos Lú?
– Desculpa queridinha – Ela respondeu fazendo bico – Vim aqui te contar as novidades! A-di-vi-nha quem é meu novo NAMORADO! Isso mesmo! O Lucas! – Continuou, e deu uma risada sarcástica. Ou seria diabólica? – Totoso não?
– Se enxerga Rayane – Murmurei – Acha que eu me importo com o que tu pensa? Ou fala?
– É claro que se importa – Falou – Acha que eu não vejo você encarando o meu namorado? Já falei o quanto ele beija bem?
Argh. Que Deus me segure, por que eu tô fervendo. Aproveitei o momento em que estávamos próximas e falei, com cara de nojo.
– Eca Rayane – Falei, torcendo o nariz – Você escovou os dentes hoje? Que carniça. Coitado do Lucas.
Soltei-me e sai do banheiro. Não consegui evitar um sorriso ao me dar por vencida. O sinal tocou e subi pra sala. Meus amigos logo chegaram e se sentaram ao meu redor.
Fiquei rabiscando alguma coisa idiota no caderno, enquanto o sinal não tocava.
Quando finalmente tocou o sinal da saída, fui correndo pra casa, e depois pra sorveteria. Por incrível que pareça, Lucas chegou alguns minutos depois, pois provavelmente estaria com a Rayane.
Estúpida.
Auxiliei uma garotinha a fazer seu sorvete, cobrei alguns clientes, dei troco, limpei mesas e até varri o chão. Mas a imagem DELE não saia da minha mente.
Por algum motivo não explicado, lembrei-me das crianças, e senti uma saudade imensa delas. Provavelmente a compra que eu havia feito a eles já acabou, e agora devem estar passando fome.
Droga. Meu maior medo é chegar lá e encontrar o Lucas. Também não posso mandar um caminhão entregar, pois se chegarem lá e verem a situação, vai dar problema. Fiquei vagando nesses pensamentos, tentando tirar uma conclusão. Minha conclusão foi:
“Vou na casa das crianças depois que sair da sorveteria com algumas compras, mas não sem antes me certificar que o Lucas está em casa.”
Terminei meu horário de serviço e fui ao mercado. Contudo, me certifiquei que depois que o Lucas chegou da escola, não saiu mais. Comprei coisas básicas, e peguei o ônibus que me levaria até lá. Decorei bem o caminho, e quando cheguei, tive que chama-las.
– Pessoal – Gritei, mas ninguém apareceu. Ouvi alguns sussurros, porém ninguém se moveu – Ei! Sou eu, você podem aparecer – Mais sussurros, mais sem resposta – O que houve?
Finalmente, a nossa ADOLESCENTE ruiva apareceu, me olhando com desdém.
– O que está fazendo aqui? – Falou – A policia tá ai fora por acaso?
– Não – Falei surpresa – Qual é, vocês sabem que eu nunca faria isso.
– O que você tá fazendo aqui? Não foi você que disse que nós fedemos? Ou você acha que o Lucas não nos falaria? Você também ri de mim pelas costas por eu ter treze anos e não saber ler?
– Não! – Falei surpresa – Confiem em mim. Eu nunca faria mal a vocês. É uma história longa. Eu precisava falar aquilo pro Lucas! Estavam acontecendo coisas e... Não posso dizer – Abaixei a cabeça – confiem em mim, por favor.
– Pode sair gente – Ela disse e todos saíram de seus esconderijos – Como podemos confiar em você Tayse? Eu só te vi duas vezes.
– Vou contar – Me sentei ao chão, e eles me acompanharam – Mas vocês não podem contar pra ele, tudo bem?
Eles assentiram e tentei acreditar em míseros acenos com a cabeça. Contei toda a história e fui pra casa me sentindo mais leve.
Só quero acreditar que amanhã tudo vai estar bem.
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