Anny andava pelo palácio irritada, mais uma vez sua mãe lhe tirara do serio, só porque não gostava de ser o maldito fantoche dela, que ela poderia arrumar e desarrumar como queria. A moça adentrou em uma sala oval, em que duas poltronas se localizavam solitárias no final e somente uma estava ocupada.

-Diga a ela, diga aquela mulher que não importa o quanto tente eu não serei a boneca dela!

Um senhor, jovem, alto, cabelos castanhos, olhos verdes e uma feição cansada, observava a moça a sua frente.

-Filha, sua mãe só quer te ensinar a como ser uma mulher!

-Eu sou uma mulher, nasci assim, não preciso que me ensinem a ser uma!

-Ela te quer como uma princesa, querida, e não uma guerreira, ela quer te ver casada com um príncipe e não com um reles camponês!

-Eu posso ser a primogênita, mas não herdarei o trono por opção, não quero ser uma princesa que não pode cuidar de seus próprios negócios, quero cuidar eu mesma da minha vida, então peça para aquela pessoa parar e me deixe em paz, para que eu faça as coisas que eu gosto!

-Querida…

-Me perdoe majestade, mas não nasci para ser uma boneca em exposição, então de um jeito em sua esposa, antes que eu resolva ir embora do castelo e me tornar uma renegada!

-Você não faria isso Anny Rosalina Del’Voi!

-Se eu fosse o senhor não apostaria nisso, pois se não conter aquela mulher eu não respondo por mim!

A garota deu as costas para o rei e foi embora.

-Brigando novamente com o papai?

-Não é da sua conta Susana!

-Você não vai conseguir entrar para a guarda real, An, então pare de ser tao turrona e aceite logo esse maldito baile e escolha o seu noivo!

-Já disse que não Suse, não vou, não posso e não quero!

-Aquele camponês não vai voltar!

Anny se virou furiosa para a irma, que trajava um vestido rosa claro com um corpete branco.

-Eu já disse, ele não era um camponês, e não estou esperando por ele, só não sirvo para a porcaria do matrimonio!

-Não fale assim An você vai ser feliz no seu casamento e aprendera a amar seu marido, então pare de birra, pois você já não é mais uma criancinha, já é uma mulher e deve se casar!

Anny sorriu de canto e encarou a irmã.

-Não aposte que irei me casar, irmã, pois ainda tenho muitas cartas para jogar!

Anny se afastava da irmã, quando a escutou.

-Eu não apostaria nas suas cartas, minha irmã, nossa mãe é muito astuta!

-Sua mãe, irmã, sua mãe, aquela mulher não é minha mãe, não nasci dela!

Anny virou um corredor e deu de cara com a mulher, cuja qual falava.

-O que esta dizendo Anny?

Anny se aproximou da mulher com um sorriso cruel nos lábios.

-Exatamente o que você ouviu, não sou sua filha, você não é minha mãe, não nasci de você e por tanto não irei lhe obedecer, sua falsa rainha!

-O que esta dizendo sua criança ingrata?

-Estou dizendo que você não é minha mãe e nunca foi!

-Sua mãe era umãzinha qualquer que o rei encontrou em uma viagem e se envolveu com ela, viveram pouco tempo juntos pois engravidou de você e morreu no parto, porem eu, desde o inicio era a noiva do rei, sua mãe nunca passou de uma reles camponesa cheia de caprichos e sonhos, mas ao contrario dela eu sou uma nobre e é como tal que devo ser tratada!

-Me perdoe majestade, porem eu jamais irei me referir a senhora como minha mãe, pois não merece esse titulo, agora se minha mãe era umãzinha, creio que era uma melhor que você, pois tenho certeza que ela nunca trairá meu pai como você faz em todos os banquetes que ele da!

-Ora, sua...

Anny sorriu e passou pelo lado da rainha.

-Não baixe seu nível milady, afinal você faz parte da realeza, não deveria utilizar de meios bárbaros!

Sem esperar resposta ela partiu em direção ao campo de treinamento, que surpreendente estava vazio.

-Onde esses infelizes se meteram hoje?

-Perdoe a interrupção alteza, mas os soldados hoje foram fazer uma vigília perto da costa, aparentemente muitos navios estão sendo vistos por la!

-Piratas?

-Sim!

-Prepare a Luna, nós vamos dar um passeio!

-Mas alteza...

-Já lhe avisei Baltazar, nunca me contra diga, só faça o que mando!

-Sim senhorita!

Anny olhava o horizonte com um sorriso traiçoeiro. Logo o criado chega com uma linda égua negra.

-Finalmente, minha querida, poderemos passear!

A mulher montou em sua égua e saiu em disparada, sem dizer uma única palavra a seu servo.

O caminho que a garota seguia era totalmente de terra e cercado por vegetação, até que se encontrou em frente a uma bifurcação, e ela tomou o caminho da esquerda, que era o mais úmido e assustador, rapidamente ela aumentava o ritmo da cavalgada, até que seu destino lhe parecia mais perto, ela podia ouvir o som das ondas, sentir o gosto dos sal no ar, e por fim a vegetação se tornava escassa e a terra lentamente se transformava em areia. Em um salto majestoso ela caiu no chão delicadamente, se virou para a égua e deu um tapa em seu lombo.

-Vá se divertir garota, irei fazer o mesmo!

Com um relincho a égua deu meia volta e saiu em disparada para o meio da floresta. Anny se virou e sorriu, sua época de servidão a coroa havia chego ao fim. Sem se preocupar ela caminhou até onde um navio estava atracado e vários homens riam e cantavam, embalados pelo rum e vinho. Com rapidez a garota rasgara a saia do vestido azul marinho que usava e as tiras amarrara ao pulso direito onde se encontrava a marca da família real, com uma coragem tirada do fundo do seu ser ela se aproximou com a cabeça erguida.

-Ei doçura, não sabe que é perigoso andar sozinha durante a noite por essas bandas!

A menina riu calmamente.

-Desculpe me senhor, devo estar atrapalhando a diversão dos senhores, mas estou perdida, minha carroça fora saqueada a alguns quilômetros e não faço a minima ideia de onde me encontro!

Ela fingia abertamente estar confusa e ser uma pequena e frágil donzela.

-Você esta na cidade costeira de Lenteonweer, Winter Snow!

-Estou muito longe do meu destino então!

A garota olhou para as ondas enquanto fingia pensar em voz alta.

-E para onde, tao bela dama esta indo?

-Aarde donker!

-Para que quer ir naquele local? Não há nada la, somente a escuridão!

Anny continuou a fitar as ondas.

-É da escuridão que preciso, uma fugitiva não pode se esconder onde todos possam ver!

-Entao sua carruagem não sofreu nenhum acidente?

A garota riu levemente.

-Não, nem ao menos possuo uma carruagem!

-E como chegou aqui?

-Segredo!

-E o que quer aqui?

A garota podia ver todos os piratas começarem a pegar suas armas.

-Que feio, desconfiarem de uma pobre garota desarmada!

-Você não nos parece ser inofensiva e é uma boa mentirosa!

-Oras, mas não estou mentindo, apenas criando uma verdade!

-Diga logo o que quer senhorita, piratas não são conhecidos por sua bondade e paciencia!

Anny se virou e encarou o capitão, alto, forte, cabelos negos, olhos verdes, e uma cicatriz que lhe cortava por cima do olho esquerdo.

-Quero me juntar ao bando!

Todos os homens presentes se calaram por um segundo e cairam na risada, menos o capitão.

-Sinto muito senhorita, mas em meu navio nenhuma dama sobe abordo!

-Desculpe me capitão, mas em que momento eu disse ser uma dama?

-Você não disse, mas eu digo, basta olhar para a roupa que veste e seu modo de falar que ja podemos crer que nao passa de uma criança criada na base dos mimos pelos nobres!

Anny sorriu de canto, abandonando totalmente sua pose de boa garota.

-Sim, fui criada a base dos mimos, do luxo e riqueza, e pelos nobres, mas você nunca poderia me considerar uma dama, estou muito longe disso!

O homem se desencostou da pedra em que estava e se aproximou da garota.

-Certo, então por qual razão quer se juntar a pirataria?

Anny levantou o queixo com altives, sua madrasta ficaria orgulho se as circunstancias fossem outras.

-Porque eu quero aventura, quero encontrar uma pessoa e descobri algumas coisas sobre eu mesma!

O homem sorriu malicioso enquanto dava as costas a garota.

-Te darei uma chance criança, mas você tera que passar por um desafio!

Anny cruzou os braços irritada e ignorou o fato do homem ter lhe chamado de criança.

-Que desafio?

-Você tera que passar pela Floresta do fim, entrar na Gruta dos sem nome e me trazer o Ook Draak!

-Como você quer que eu traga algo que nao existe?

-Você é muito ingenua criança, a Ook Draak existe, é uma pedra rara, que só nasce na Gruta dos sem nome e só uma pessoa pode pegar, a pessoa que a gruta escolher, e se essa pessoa for você, você podera abandonar seu nome de nascença e se tornar uma pirata, mas se caso você nao for, volte para sua casa para a barra da saia da sua mãe!

-Quanto tempo eu tenho?

-Uma semana!

Anny riu.

-Estarei de volta em três dias!

Assim a garota deu as costas aos homens e voltou pelo caminho em que viera.

-Capitão a Floresta do fim? Ninguem nunca voltou vivo de la!

-É verdade senhor, dizem que fantasmas habitam aquele lugar!

-Assim como as ratazanas de fogo!

-E aquele lugar e recheado de armadilhas como os espinhos envenenados!

-Ela passara!

-Mas senhor ainda tem a Gruta dos sem nome, o ar intoxicante faz qualquer um ter alucinações!

-Ela conseguira entrar e sair deste lugar sem problemas!

-Porque o senhor possui tanta confiança nesta garota?

O homem riu e voltou seu olhar para o oceano que se acalmava.

-Por ela ser filha de quem é!

Anny voltou para a trilha e assobiou, um longo e fino assobiu, logo uma egua negra apareceu, com maestria digna de uma amazona a garota subiu na égua e voltaram rapidamente ao palacio.

Com delicadeza ela pulou da cela da égua e andou rapidamente para dentro do castelo. Tentou ao maximo evitar guardas, empregadas e os nobres que ali estavam, mas conforme avançava para sua habitaçoes estava mais dificil.

-Onde você estava Anny?

A moça parou no lugar e respirou fundo para enfim se virar e encarar a mulher de seu pai, a rainha, que tentava a todo custo lhe roubar as poucas memorias que lhe sobravam de sua mãe.

-Não é da sua conta majestade!

A mulher abanou a mao em frente ao rosto ignorando por completo a mal criação da princesa.

-Eu quero você pronta em trinta minutos, a festa da sua irma esta pronta e eu nao quero que você estrague tudo!

Anny sorriu.

-Não irei estragar nada majestade, nao se preocupe!

Dando as costas a rainha a moça entrou em seu quarto e fora direto para seu guarda roupa, jogou todos os vestido em cima da cama e no fundo da peça de madeira ela viu um velho bau, abrindo-o ela reitou um par de calças, uma velha e desgastada camisa branca, um corselet vinho, ela desfez o coque que lhe prendia as madeixas e o refez, colocou a roupa separada, pegou no compartimento secreto do bau uma espada prateada com antigas escritas desconhecidas em negro e a colocou na cintura, pegou duas adagas e as escondeu dentro de suas botas e por fim pegou uma capa negra com capuz. Sem mais delongas ela saiu do quarto e se misturava as sombras do castelo, até que ao virar um corredor pode ver seu pai e madrasta conversando.

-Ricardo eu não aguento mais sua filha, ela nao me obedece!

-Judite tenha paciencia a Anny esta em uma fase dificil e...

-Não Ricardo, você sempre me diz que ela esta em uma fase dificil o que você não entende é que ela é mais parecida com a mãe do que deveria, ela não aguenta esse lugar, essas ordens, ela nao aguenta a nobreza, ela é identica a vadia da Julieta!

-Julieta não era uma vadia Judite!

-Ela dormiu com o meu noivo, é claro que era uma vadia e a sua filha esta seguindo o mesmo caminho!

-Anny não ira seguir este caminho, nao ira sair do palacio, ira se casar e herdar o reino!

A mulher mais velha gritou de ódio.

-A MINHA filha deveria herdar o trono, e nao a filha de uma qualquer com quem você teve um rapido envolvimento enquanto era sequestrado. Ricardo você não vê o quao absurdo é querer que a Anny assuma o trono? Ela não serve para isso a Susana sim, é um exemplo de princesa!

Não aguentando mais aquela conversa Anny saiu das sombras, assustando os mais velhos.

-Ela é um exemplo de marionete e nao de princesa, mas nao se preocupe Judite, estou cheia deste lugar e sua filha pode assumir o trono, nao me importo, só espero que aquela garota nao leve o reino a ruina!

Anny passou pelo meio dos dois e subiu no parapeito da janela mais proxima.

-Onde pensa que vai mocinha!

Anny olhou por sobre o ombro e sorriu travessa.

-Para o meu destino!

E por fim pulou e sumiu pela noite