Notas iniciais
(Angústia)
Rafael e Kali esperavam pela professora do lado de fora da escola. Kali agradeceu mentalmente por Felipe ter sumido, magicamente pelo visto, quando a aula terminou. Tally parou o carro ao lado deles que entraram sentando no banco de trás. Kali deitou a cabeça no ombro de Rafael e fechou os olhos enquanto Tally dava a partida.
Começava a chover fraco do lado de fora, deixando o dia frio e cinzento.
Chegaram à loja do sr. Luiz. Tally estacionou o carro e todos desceram e entraram na loja.
— Boa tarde! – sr. Luiz os cumprimentou sorrindo. Mas logo deixou de sorrir quando viu o rosto cansado das crianças. Olhou para Tally, que fez um sinal de positivo com a cabeça respondendo sua pergunta silenciosa – Eu estava esperando vocês! Podem ir lá para dentro que eu vou fechar a loja.
Rafael e Kali foram para os fundos da loja onde havia um cômodo com uma mesa, fogão, geladeira e pia. Kali sentou-se em um sofá pequeno que tinha no canto do cômodo, encostando sua cabeça nas costas do sofá e fechando os olhos. Rafael colocou sua mochila em um canto e foi até o fogão para esquentar a comida que já estava nas panelas ali em cima enquanto Sr. Luiz fechava a loja com ajuda de Tally.
— Isabella – Sr. Luiz falou – Como a Kali está?
— Não acho que ela esteja bem. Pelo jeito que aqueles dois agiram nas aulas, as coisas estão piorando. Eu estou preocupada. Kali está com uma expressão de dor e cansaço muito grande. Eu perguntei ao Rafael o que exatamente aconteceu, mas ele só ficou calado. Nenhum dos dois vai aguentar isso por muito tempo e eu não sei como ajudar. Eles não me deixaram denunciar quando falei que era o que tinha que ser feito. Eu não tenho outra forma de ajudá-los. – Isabela secou os olhos, que começavam a querer transbordar, com as costas das mãos.
— Eu gostaria de tirá-los de lá. Os considero como meus netos e me dói vê-los assim. Mas não posso fazer nada também. Eu moro numa casinha minúscula que só tem dois cômodos. Se eu soubesse que os conheceria não teria vendido minha casa, quando fiquei viúvo, para investir nessa loja.
— Mas se o senhor tivesse feito de forma diferente talvez não teria os conhecido.
— Tavez você tenha razão.
— O Rafael me disse que tem economizado algum dinheiro, mas não é o suficiente para sustentá-los se fugirem. Ele é sensato o suficiente para não se desesperar e correr o risco de morrer de fome. Mas tenho medo que ele perca a cabeça a qualquer hora. Eu sei que ele está tentando ser forte pela irmã, mas a qualquer momento ele poderá perder a razão.
—Você tá preocupada com ele, né? – sr. Luiz levantou as sobrancelhas.
— Me preocupo com os dois, sr. Luiz. Kali também tá no limite. Eu sinto isso.
— Não é disso que estou falando.
— Como assim?
— Não é nada. – Sr. Luiz sorriu – Vamos almoçar?
— Tudo bem. – Isabella falou um pouco confusa e os dois foram para o cômodo dos fundos.
Rafael estava terminando de colocar a mesa. Logo todos se sentaram à mesa e almoçaram. Quando terminou, Kali tomou mais um comprimido para dor.
— Eu preciso ir embora. – Kali avisou, despedindo-se do sr. Luiz e de Rafael.
— Eu vou com você, Kali – avisou Isabella, também se despedindo.
Elas saíram da loja e entraram no carro. Rafael, que tinha as acompanhando, ficou observando até o carro virar a esquina.
— Ela vai ficar bem, Rafael. – disse sr. Luiz quando o garoto voltou para dentro da loja – Ela é forte.
— Talvez nem tanto, sr. Luiz. Ela está no limite. – Rafael sentou derrotado no banco do caixa, apoiou os cotovelos no balcão e colocou a cabeça entre as mãos – Eu não sei o que fazer. Eu não tenho mais forças para aguentar vê-la assim. Eu não posso fazer nada para ajudá-la e se tentar fazer alguma coisa eu posso piorar tudo. Ela desmaiou ontem, sr. Luiz, e a única coisa que eu pude fazer foi ficar no quarto escutando... cada golpe... cada número da contagem... e o silêncio dela. Eu... não pude fazer nada e quando cheguei ela já estava desmaiada... Eu... ela não vai aguentar muito mais tempo e eu... não posso ajudá-la.
— Você está enganado, Rafael. Se não fosse por você, ela... Você dá forças a ela, mesmo que seja apenas por estar ao seu lado.
— E se isso não for o suficiente? – Rafael o olhou, tentando conter as lágrimas.
— Será suficiente. – sr. Luiz o abraçou – Até que a situação mude será o suficiente. O que você pode fazer agora é parar de segurar essas lágrimas. Chorar vai tirar um pouco da angústia e do medo que está sentindo. Vai aliviar um pouco do peso que está em seus ombros agora. – Rafael começou a soluçar – Isso, meu filho, chore. Chore para que possa ser forte pela sua irmã. Para que possa abraça-la para que ela também chore.
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