Notas iniciais
(Às vezes, alguém aparece para que pelo menos a sombra de um meio sorriso sincero apareça em nossos lábios)
A aula terminou e Felipe colocou sua mesa de volta no lugar, à frente de Kali. A menina agradeceu internamente por ele, finalmente, sair do seu lado.
A professora de biologia entrou na sala, séria e silenciosamente, passando os olhos pela turma e parando por um momento em Kali. Colocou suas coisas em cima da mesa e deu um bom dia sorridente para a turma. Ela era a professora que todos gostavam e respeitavam. Prestavam atenção à aula, mesmo que não gostassem da matéria. Ela cativava os alunos sem nenhum esforço. Kali também gostava dela e, às vezes, até sorria com as piadas e o jeito divertido da mulher. Ela era alta, morena, tinha os olhos cor de mel, estava sempre vestida elegantemente, maquiada e com um sorriso no rosto. Tinha 24 anos de idade. As meninas queriam ser como ela e os meninos eram apaixonados por ela.
A professora começou a aula divertida como sempre. Kali até esquecia de seus problemas enquanto assistia à aula, mas sempre achava que o relógio resolvia andar mais rápido que o normal nessa hora.
A aula acabou e os alunos começaram a sair rapidamente da sala para o intervalo. Felipe olhou para Kali sorrindo.
— Quer lanchar comigo?
— Kali – A professora a chamou sorridente antes que ela pudesse responder – Podemos conversar um pouquinho?
— Eu vou sair primeiro. – Felipe disse, se levantando e saindo da sala.
Kali levantou-se tentando não fazer uma careta de dor e agir normalmente.
— Você não precisa agir como se estivesse tudo bem na minha frente, Kali. – A professora disse, se levantando, pegando uma cadeira de uma das mesas à frente a colocando do lado de sua mesa – Sente-se.
Kali sentou-se e esperou que a professora dissesse algo.
— Agora, você vai me contar o que aconteceu?
— Não... quero falar sobre isso, senhorita Tally (N/A: Esse é o incrível nível de criatividade da pessoa quando ela usa o próprio nome para a personagem. A vida tá difícil, pessoas, tá difícil... rsrs)
— Tudo bem, eu não vou insistir. – Tally olhou pensativa para a menina que estava olhando para as mãos de cabeça baixa – Você tomou café da manhã hoje? – A menina fez que não – Então você provavelmente tomou remédio para dor com estômago vazio, né? Pode ir lanchar, o Rafael deve estar te esperando. E hoje você vai para minha casa.
— Não... eu não posso ir... eu tenho muita coisa para fazer em casa, senhorita Tally.
— Você nem deveria ter vindo à aula hoje, Kali. Como pode pensar em fazer qualquer coisa quando chegar em casa?
— Eu não tenho escolha...
— Nesse caso, eu vou com você. E nem precisa dizer não, porque eu vou de qualquer forma.
Tally sabia o que se passava na casa de seus alunos. Num momento de desespero, Rafael a contou o que acontecia. Ela não podia ajudá-los e isso era o que mais a incomodava. Começou a notar sempre que algo estava errado com os dois e hoje parecia um dos piores dias. Rafael apareceu na sala procurando por Kali.
— Entre, Rafael. – Tally falou quando o viu.
— Com licença, senhorita Tally.
— Rafael, eu vou te falar isso para que não aconteça de novo. Não é bom a Kali tomar remédio com o estômago vazio. Eu sei que ela não vai me escutar, mas ela tende a te escutar mais vezes. Se continuar assim vai ser pior. Faça o possível para isso não se repetir, entendeu?
— Sim, senhorita. Obrigado pela preocupação.
— Se eu pudesse eu faria mais do que apenas me preocupar com vocês... Vão lanchar que vocês precisam. E mais tarde me esperem no portão de saída.
Kali se levantou devagar, agradeceu a professora e saiu da sala com Rafael. Os dois foram para o lugar de sempre no pátio da escola e se sentaram. Rafael abriu a bolsa de lanche e entregou um sanduíche para Kali. Abriu a garrafa de suco e pegou um sanduíche para si. Comiam em silêncio quando Felipe apareceu de repente.
— Bom dia, Rafael. – cumprimentou sorrindo.
— Bom dia. – respondeu sem emoção – Ele ainda não desistiu? – Rafael perguntou para Kali, que apenas balançou a cabeça.
— Eu não vou desistir de ser amigo de vocês. – disse, sorrindo – Sua irmã me deu uma grande ajuda hoje, Rafael. Ela é muito inteligente.
— Como assim? – Rafael levantou uma sobrancelha.
— É que o professor nos deixou fazer atividades enquanto corrigia uns exercícios e ela me ofereceu ajuda. Ela seria uma ótima professora!
— Você ofereceu ajuda? – Rafael olhou para a menina que afirmou com a cabeça, dando mais uma mordida no sanduíche. Foi quando percebeu o curativo na sobrancelha dela. – E esse curativo?
Kali colocou a ponta dos dedos no curativo. Tinha se esquecido dele.
— Ele me deu. – respondeu.
— É que minha mãe sempre me faz carregar esse tipo de coisa. Sabe como são as mães, né?
Foi a pior coisa que Felipe podia ter dito. Nenhum dos dois sabia o que era ter uma mãe.
— O sinal já vai bater. – Rafael mudou de assunto, afinal brigar com Felipe não seria de ajuda, já que ele não falou por mal. – Vamos voltar, Kali.
Kali colocou o último pedaço de sanduíche na boca e Rafael guardou tudo. Não demoraram a sair, deixando Felipe um pouco confuso e pensando se tinha feito algo de errado.
Fale com o autor