Notas iniciais
Acompanha o capítulo a canção da banda Ella Baila Sola "Por Ti" Podem ouvir nesse link ~> https://www.youtube.com/watch?v=VTQlJPXVSwo

***

Maria olhou para Esteban com os olhos carregados. Não eram só as lágrimas que enchiam-nos e embaçavam seu brilho, eles estavam fatigados. O peso daquela história aparecia todo em seus belos olhos. Sentia raiva, medo, mas, sobretudo sentia-se cansada. Cansada de lutar, de atacar a Esteban e ser atacada por ele. De ver como um amor tão lindo e devotado, principalmente de sua parte para com ele, vinha se transformando em dor e em mágoa. O mais certo seria se afastar.

Sim! Afastar-se de Esteban de uma vez e que algo de bom pudesse restar ainda daquele amor. E aquele algo era Isabel. Mas o que fazer naquele momento? Dizer-lhe a verdade? E como faria isso? Como faria isso sem ser impedida pela raiva e o ódio que tomavam conta de seu coração todas as vezes em que ele duvidava dela? Esteban não a merecia, não merecia Isabel, não merecia a nenhuma das duas!

Além disso, jamais havia podido voltar a confiar novamente em Esteban depois do que ele lhe fez, depois de haver sido trocada por Ana Rosa e por seu dinheiro. E essa mulher, essa mesma mulher agora voltava a aproximar-se deles naquele momento. O amor dos dois estava condenado. Sempre estivera desde que Esteban fez uma escolha e não havia mais remédio, nada a fazer.

_ Até quando você pretende manter-se calada? Eu te fiz uma pergunta, Maria! Eu mereço uma explicação, esta explicação eu mereço! – Esteban reclamou-lhe.

Maria seguiu sem responder. Tantos sentimentos giravam dentro dela, ela estava tão confusa e mal podia sustentar-se tamanho o peso.

_ O que você está tentando fazer? Tentando encontrar uma resposta convincente para mentir para mim de novo? Diga a verdade, Maria! Chega de mentiras, diga a verdade!

_ Eu nunca menti para você, Esteban! Eu não sei mentir e esse é o problema. Dizer-te a verdade é difícil para mim. Se formos falar de mentiras digamos que você tem muito mais o que dizer, não é mesmo? – Devolveu-lhe a afronta.

_ Você é muito cínica! – Esteban estava cego de ciúmes. – Eu estou diante de você e acabo de descobrir que você tem uma filha! O que são minhas mentiras perto disso?

_ Agora você vai se fazer de inocente? – Maria disse com um sorriso amargo.

_ Eu não sou inocente, Maria. Sempre achei que estivesse em dívida permanente com você, que lhe devia muito e que deveria devotar toda minha vida a conseguir seu perdão. Mas nada... – interrompeu-se com a garganta seca, tomado pelo ódio. – Nada do que eu fiz se compara a essa casa, – ele disse apontando as coisas em volta – essa criança e tudo mais que a acompanha.

_ Algum dia, Esteban... Algum dia você vai tragar todas essas ofensas que está me dedicando agora. Cada uma das ofensas que me dedicou. – Maria sentenciou ofendida.

_ O que devo esperar? Outra vingança? Vai voltar a comprar minha honra? Esqueceu-se que eu já não a tenho, que ela já lhe pertence? – O sarcasmo era a arma que Esteban mais utilizava contra Maria.

_ E eu já lhe disse a solução para isso, não? Estou abrindo mão dela! Vá em frente com os trâmites do desquite, não há mais nenhum futuro para nós dois, está claro! – Maria foi implacável.

_ É isso que eu vou fazer! É disso que eu vou tratar saindo dessa casa. Mas antes você vai me dizer toda a maldita verdade que está por trás disso! Com quem você tem se dedicado a rir de mim, Maria? Conte-me a verdade, não é tão difícil! Você não me disse ainda agora que é uma mulher cheia de qualidades e honras? Então diga-me a verdade!

_ Para você tudo se trata de atitudes egoístas e infantis, Esteban, mas não é assim, você sabe que não é assim. Isabel é meu mundo e você deve imaginar que quando se trata de um filho não é simples... Isabel é meu maior tesouro.

_ Não parece! – Esteban não deixava de insultar. – Ela vive numa casa simples enquanto você vive em uma suntuosa mansão.

_ É claro! Para você o importante é o dinheiro, não é? Sempre foi mais importante que tudo. Isabel, para mim, vale mais do que toda a fortuna que herdei de meu avô. E eu daria toda ela, tudo o que eu tenho, para que Isabel tivesse uma família. Essa foi uma das razões pelas quais eu cometi grandes erros em minha vida.

_ Você está falando de nosso casamento? – Esteban surpreendeu-se do teor de suas palavras.

_ Não... Não só disso. – Maria colocou-se nostálgica. – Desde que eu soube que Isabel crescia dentro de mim, venho tomando decisões em seu favor. Decidi que ela nasceria, decidi que enfrentaria a sociedade e depois, por conselhos de meu avô, decidi que, pelo menos por um tempo, manteria sigilo sobre sua existência. Pode não parecer, Esteban, mas minha vida gira em torno dessa criança. E eu não admito que ninguém a insulte. Faço tudo para protege-la de qualquer um! Qualquer um! – As lágrimas que já banhavam todo seu rosto o deixavam marcado, marcado pelo sofrimento.

_ Então por isso você não me diz quem é seu pai? Por isso você não me conta quem é o desgraçado com quem você me engana? – Esteban gritava tão forte que assustou a Maria.

_ O pai de Isabel é o único homem para quem eu me entreguei nessa vida... – Maria começou a sincerar-se para Esteban

Os olhos de Esteban arregalaram-se ao constatar o que dizia Maria. Ele havia imaginado tudo, a mais terrível das traições, mas não aquilo. Não poderia ser. Seu coração disparou e ele sentiu uma emoção diferente, diferente de tudo o que havia experimentado em sua vida. Seria algo parecido com o que lhe disse Maria ao reconhecer a sensação de ter um filho? Não! Aquilo não podia ser verdade, não poderia ter deixado Maria grávida, não podia haver sido tão canalha com ela, recusava-se a acreditar. Ao mesmo tempo sentia uma intensa raiva dela. Maria teria sido capaz, poderia ter sido capaz de esconder uma verdade como aquela? Seria isso possível? Eram tantas, tantas perguntas.

_ Ora, por favor, Maria! Você vai me dizer que sou eu? Que teve uma filha minha? Você é louca, só pode ser louca para dizer tamanho desvario. – Esteban estava desconcertado. – Só pode ser outra coisa. Não é minha filha, não é!

_ Ela se parece com você, sabe? Se você olhá-la com atenção vai perceber. Talvez até se orgulhe. – Disse Maria sem resistir à emoção. – Quando eu estava grávida... enquanto ela crescia dentro de mim... eu imaginava como ela seria. É natural, todas as mães o fazem. ´E uma emoção indescritível carregar uma vida dentro de si, Esteban, só uma mulher pode saber. Apesar de tudo eu queria, sabe? Eu queria que ela se parecesse com você. Talvez eu já soubesse. Uma mãe sente. Sente completamente e na plenitude um filho, sobretudo enquanto o carregamos aqui dentro, como nosso mundo. Quando ela nasceu e foi crescendo logo foram ficando claras tantas características suas em seu físico, Esteban. Ela tem a tez clara, rosada como a sua...

Yo te quiero regalar palabras

Ser tu red para cuando caigas

Cogerte de la mano al andar

Y decirte cosas al oído

Ser tu manta cuando tengas frío

Y ser tu hombro para llorar

_ Pare, Maria, pare com isso! – Esteban não resistia ao ver que seria tomado pela emoção e a interrompeu. Tudo aquilo era demasiado. Era algo muito maior do que sentir seus brios destroçados por Maria.

_ Assim como você ela parece ter todo o mundo em seus olhos. – Maria se levantou e caminhou até a janela tentando conciliar a emoção com tantas palavras que brotavam de sua boca sem que ela pudesse evitar. No fundo ela queria que Esteban conhecesse a verdade, já era tempo. – Você reparou nos olhos dela? – Virou-se desafiando ao recordar o rosto da criança na qual ele apenas tinha acabado de colocar os olhos.

_ São verdes, como os seus. – Ele fez um grande esforço para responder e lidar com aquele nó que crescia em sua garganta.

_ Mas se parecem mais com os seus. Eu passo muito tempo olhando nos olhos dela. Eles têm um verde acinzentado, quase azul, como seus olhos tão lindos. – Não se deu conta de que deixava claro como admirava seus olhos – Seus cabelos são castanhos escuros, como os seus. Tão lisos, tão sedosos. É tão bom acariciá-los, sinto tanto amor dentro de mim quando lhe dedico carinho, sabe? Ela só tem 1 ano e 4 meses, mas esse sentimento, Esteban, esse sentimento é tão grande. Você vai ver quando ele tomar conta de você... Somos capazes de fazer tudo por um filho, tudo! Tudo para que ela possa ser feliz...

Por ti mi vida empeño

Por un momento de verte sonreír

Por ti mi alma vendo

A cambio del tiempo que necesites

Para ser feliz

_ Você está louca! – Ele apenas repetia essas palavras, totalmente perdido com tanta informação.

_ O rostinho dela é retangular como o seu. E quando ela sorri... – Maria deu um sorriso ao recordar o sorriso de Isabel. – Quando ela sorri o mundo inteiro faz sentido. Aqueles olhinhos verdes azulados ficando pequenos com o sorriso que se abre como o sol, o brilho que sai deles é tão intenso que tudo... tudo o que eu passei para tê-la comigo vale a pena.

Esteban a olhava incrédulo. “Tudo o que eu passei para tê-la comigo...”. Passou a imaginar como haveria sido aquele tempo, todo aquele tempo que estivera fora da vida de Maria, da vida das duas. Maria devia ter sido uma grávida lindíssima. Como ela pode não tê-lo deixado fazer parte desse momento? Seria verdade? Seria verdade que ele tinha uma filha, uma filha com Maria?

Ele ficou olhando-a tomado pela emoção. Os dois se perderam naquele olhar e teriam se lançado um nos braços do outro em um abraço se não tivessem sido interrompido pelo som mais maravilhoso para um pai: o choro de Isabel. Ela vinha correndo da cozinha e se agarrou à perna de Maria. Quando Esteban colocou os olhos nela outra vez sentiu que seu peito ia explodir. Dessa vez prestou atenção em suas características físicas e, a ele, pareceu a cena mais linda do mundo quando Maria pegou a criança no colo e a aninhou fazendo com que ela se acalmasse e seu choro tão sentido fosse sufocado pelo amor de mãe. Isabel repetia engolindo os soluços:

_ Mamãe... Mamãe... Mamãe...

Maria a enchia de beijos e carinhos como se o mundo todo deixasse de existir quando a filha precisava dela. E naquele momento, acalmar Isabel era sua única prioridade, tudo o que lhe importava. E aquela cena era tão maravilhosa, tão bela, tão magnifica. As características físicas da criança eram absolutamente como Maria havia descrito. Dentro dela existia uma pintura do rosto da filha que não saíam dela em momento nenhum, fariam parte dela por toda a vida.

Dejo todo por un beso tuyo

Quiero ser tu espada y tu escudo

Decirte que te quiero una vez más

Quiero ser tu alas y tu cielo

Quiero ser el mar y tu velero

El suelo y tus pies para caminhar

Maria olhou para Esteban e percebeu que ele estava tocado com a presença de Isabel. Era o momento da verdade. Ele era o pai de Isabel e isso ela não podia evitar ainda que ele não a merecesse. Ainda que ele não as merecesse.

_ E ainda tem o gênio. – Disse Maria sem deixar de tocar com seu rosto o rosto de Isabel. O contato da pele da mãe com a pele da filha lhe dava a calma que ela necessitava em qualquer momento, era algo único.

_ Hãm? – Esteban não entendeu perdido naquela visão tão cheia de emoção.

_ Tem um gênio parecido com o seu. – Maria disse sorrindo.

_ Ora, que bobagem, ela é só um bebê. – Esteban sorriu descrente.

_ Os bebês também têm seu caráter, Esteban. Isabel é caprichosa. Gosta das coisas como ela quer.

_ Mas se nota que tudo que ela quer... e sempre. É a mãe.

Esteban fez menção de se aproximar. Tinha intenção de tocar Isabel, algo que ele ainda não havia feito, seu coração gritava para que ele o fizesse, eram tantos sentimentos novos, tanta coisa que ele não entendia. Mas o medo, a confusão, as duvidas o detiveram e ele não o fez. Afastou-se, tomou o seu chapéu e rapidamente tomou o rumo da porta e se retirou. Quem não conhecesse a confusão que ele carregava dentro de si naquele momento, diria que ele o fez totalmente decidido, sem pensar em nada que deixava naquela pequena casa, mas não era verdade. Todo o seu coração ficava para trás.

Maria o observou inerte, esgotada com a ação da emoção daquela conversa tão difícil sobre si. Ali no meio da sala, com a filha nos braços permaneceu. Levou-a ao quarto e ficou com ela até que ela dormisse. Sentindo o calor do corpo da pequena junto ao seu. Uma sensação de ser mãe, como se a tivesse outra vez em seu ventre, como se outra vez carregasse seu tesouro dentro de si. Quando ela dormia, era como se todos os problemas entre seus pais desaparecessem. Como se a paz se encerrasse naquele sono angelical de um bebê. Nunca se afastaria de Isabel, jamais permitiria que toda a sordidez do mundo pudesse atingir aquela criança.

***

Esteban cavalgou todo o restante do dia até deixar exausto ao pobre Faraó a quem montava há horas. Seu coração disparava com a emoção daquela revelação, ele não sabia o que fazer. Uma parte dele lhe dizia que Maria não era de confiança e que ele tinha que deixa-la para trás de uma vez, esquecer tudo o que aconteceu entre eles e outra parte lhe gritava para que ele corresse para Maria e lhe suplicasse que ela lhe perdoasse, que os três juntos poderiam superar tudo e construir uma família.

E, como se fosse pouco ainda existia aquele dote. Aquele maldito dote entre eles que o fazia sentir-se o pior e mais miserável dos homens. Se normalmente ele já se sentiria indigno de Maria ao recordar que havia lhe arrebatado sua honra e abandonado-a, quando lembrava-se as condições daquele casamento e aquela fatídica noite de núpcias as coisas eram piores. A humilhação que Maria impingira a Esteban não era maior do que a que ele mesmo sentia. Parou em um café que costumava frequentar nos tempos que havia tentado fazer fortuna investindo na bolsa de valores. Havia vendido um pequeno sítio nos arredores das terras que lhe deixou seu pai e, durante alguns meses, apostado em títulos de valores, mas acabou desistindo daquela empreitada que era ainda uma novidade no Brasil. Sentou-se eu uma das mesas, pediu um café e ficou perdido refletindo nos acontecimentos de sua vida. De repente, Joaquim, um antigo amigo desses tempos o viu sentado ali e se aproximou.

_ Esteban? – chamou ao perceber que o amigo não havia notado sua presença.

_ Joaquim! Que surpresa! – Esteban cumprimentou simpático apesar do peso que trazia dentro de si. – Sente-se.

_ Eu andava mesmo querendo falar com você. – Joaquim surpreendeu.

_ Comigo? – Esteban não esperava ter assuntos pendentes com Joaquim.

_ Sim, andei inclusive deixando recados com seus amigos, mas, ao que parece, nenhum deles viu importância no assunto que eu tinha a tratar com você.

_ Pois veja você, o destino nos colocou frente à frente.

_ Bom, eu soube que você se casou com uma das mulheres de maior fortuna no Rio de Janeiro. – Esteban engoliu seco com aquela observação. Era melhor não falar de Maria naquele momento, não queria. – Então talvez realmente não seja algo que te chame a atenção, mas você tem um valor a resgatar em títulos.

_ Valor? Você está falando de dinheiro? – A surpresa de Esteban não podia ser maior.

_ Sim! Eu imaginei que você pudesse até haver se esquecido desse investimento, ainda mais agora que valores pequenos não fazem mais parte de sua vida. – voltou a tocar na ferida invisível aos olhos da sociedade que tanto humilhava a Esteban – Mas para um homem comum é um ganho que faria a alegria de qualquer um que tenho um espírito apostador e investidor como o seu.

_ De quanto estaríamos falando, Joaquim? – Esteban lutou para fingir desinteresse. Estaria a sorte voltando a lhe sorrir?

_ Não conheço os valores exatos, mas quando eu consultei e lhe enviei os recados, era algo em volta de 15 contos de réis.

A resposta de Joaquim mexeu com os brios de Esteban. Desde que se casou com Maria guardava cada centavo para que pudesse ter, que fossem 2 anos depois, a oportunidade de resgatar sua honra. Naqueles meses em que estiveram casados havia reunido a mísera quantia de 6 contos de réis. Se 15 contos de réis apareciam em seu caminho naquele momento, poderia ser seu resgate, poderia ser sua liberdade. Mas... e para onde caminharia aquele amor?

_ Você não diz nada? – Joaquim estranhou. – Realmente você mudou de vida mesmo. Se tiver algum interesse em resgatar é só trazer os papéis referentes ao título aqui na bolsa de valores e terá em suas mãos uma pequena fortuna, seu investimento se valorizou nos últimos anos.

_ Obrigada, Joaquim, obrigada! Nota-se que você é um verdadeiro amigo. Eu, de verdade, não tinha mais nenhuma ambição referente à esses investimentos do passado. Nos vemos! – se despediu Esteban subitamente tomado pela pressa.

Já era noite quando ele chegou na casa da mãe dizendo que tinha que encontrar alguns papéis em seu antigo quarto. Ali permaneceu algumas horas na busca daqueles documentos que poderiam significar sua liberdade, poderiam finalmente colocar um fim na situação humilhante em que ele se via. O relógio badalou pontualmente às 9 da noite no exato momento em que Esteban encontrou, no fundo de uma gaveta empoeirada um amontoado de papéis referentes ao investimento de um pequeno valor na Bolsa de Valores da cidade. Sorriu ao pensar que às 10 da manhã do dia seguinte teria em suas mãos o valor do resgate de sua honra que Maria havia comprado na data do casamento dos dois. Finalmente, em muito tempo, sentiu que tinha algo seu, sentiu-se triunfar.

***