Elo Perdido
4 Cap 4
Notas iniciais
Cheguei ao apartamento com os pulmões pegando fogo.
Henri era muito mais rápido. Ele corria desviando das pessoas como um foguete. Quase o perdi de vista duas ou mais vezes, mas ele aparecia por cima das cabeças pulando e acenando para que eu o localizasse. Eu não era muito alta, mas ele era então era fácil enxergá-lo.
As luzes do apartamento estavam apagadas. O ambiente estava gelado e úmido. A janela da sala estava aberta, o vento balançava as cortinas bruscamente.
- O que aconteceu? – perguntei tirando os grampos do cabelo – Por que nós saímos correndo desse jeito?
- Alguma coisa estava nos seguindo – Henrique fechou a janela e se afastou olhando para as paredes
- Mas que coisa?
Foi a partir dai que a situação ficou estranha de vez.
Tio Afonso apareceu no fim do corredor segurando uma espécie de espada toda ensanguentada. Seu hobbie tinha respingos de sangue. Parecia que ele acabara de lutar para salvar a própria vida.
- Você precisa ir – ele apontou a espada na minha direção
- O que? Ir pra onde? – coloquei a mão sofre a maçaneta. Se algo acontecesse correria mais rápido que Henri – Que droga está acontecendo com vocês?
- Não, — Henrique agarrou meu braço – ela não pode ir! — ele gritava olhando para seu pai – Você sabe o que vai acontecer se ela for.
- Ela não está mais segura conosco Henri – tio Afonso se aproximou e colocou a mão desocupada e limpa no ombro de Henrique – Ela realmente precisa ir.
- Mas e a maldição? – Henri prendeu um soluço
- Dá pra um dos dois, por favor, me explicar o que está acontecendo?
- Você corre perigo – meu tio soltou Henri – Precisa ir para um lugar seguro.
- Perigo? O que? Vai me mandar para fora do país?
- Não! É claro que não – ele colocou a espada cuidadosamente no chão – Henri, arrume as coisas da Vic. Preciso conversar com ela.
Henri foi para o meu quarto sem protestar. Tio Afonso acendeu a luz e fez um gesto com a mão indicando a sua poltrona velha. Sentei-me e fiquei olhando para ele. Ele deu um longo suspiro e se aproximou.
- Vic, você é esperta, muito esperta! Existe uma razão para você ser mais inteligente que as outras pessoas – ele fez uma pausa e continuou – Você é filha da deusa da sabedoria.
- Deusa da sabedoria – repeti – Você quer dizer Atena, da mitologia grega?
- Isso
- Você está blefando! Deuses não existem! – um raio estourou no céu
- Existem, — ele olhou para a janela – existem sim. Eles vivem no Olimpo, no topo do Empire State. Algumas vezes eles dessem até a terra e tem filhos com mortais...
- Semideuses – completei
- Isso mesmo. Só existe um lugar seguro para vocês
- Um acampamento – adivinhei
- Como sabe? Enfim, o acampamento meio-sangue é o único lugar seguro. Onde monstros não podem entrar, e mortais é claro.
- Espera ai, você disse monstros? Como o Minotauro?
- Sim, como o Minotauro, fúrias e outros monstros que não precisamos lembrar.
- E como todo esse tempo nenhum me atacou?
- Porque eu e Henri os mantivemos longe.
- Como?
- Henri é como você. E eu, bem... Sou apenas um mortal.
- Um mortal que mata monstros
- É isso mesmo. Mas já estou velho, e não consigo mais te proteger.
- Por que sou tão importante?
- Você é filha de Atena e tem a benção de Ares, o deus da guerra. Você é quase invencível!
- Tio, eu nunca peguei em uma arma ou espada sei lá.
- Imagina se tivesse pegado – ele sussurrou para si mesmo – Você tem ótimos reflexos, consegue bolar uma estratégia em meio segundo, Vic. Você é uma máquina de destruição.
Henri entrou na sala segurando uma mochila verde neon.
- Não tinha uma mochila mais chamativa? – tio Afonso fez uma careta de insatisfação
- Ah, desculpe – Henri passou a mão na mochila e de verde neon, ela foi para a cor preta.
- Como fez isso? – levantei da poltrona
- Sou filho de Íris. Tenho uns poderes bem legais e...
- Bem gays – completei
- Ei! — ele protestou – Eu gosto de mulher, ta legal?
- Não temos para brincadeiras – tio Afonso apanhou a espada e limpou em seu hobbie, depois a enfiou sem dificuldade dentro da mochila
- Como coube ai dentro? – perguntei
- Cabe tudo o que quiser aqui dentro. É magia. Benção de Hécate. – Henri piscou como se fosse o Zac Efron
- Ah, ta. Explicado. – voltei para o meu tio – Como acho o acampamento? Henri vai comigo?
- Não, só você vai.
- Sozinha? Eu vou morrer!
- Não sua boba. Nós vamos te levar até lá. – Henri deu um tapa na minha testa
Meu tio abriu a porta do apartamento de vagar e colocou apenas a cabeça para fora. Ele ergueu o polegar, o que eu imaginei ser um sinal de positivo “a barra está limpa”.
- Não posso ir assim – apontei para as minhas roupas
- Ah, claro, eu cuido disso – Henri estendeu a mão em direção ao meu tórax – Relaxa, não vou tocar nos seus seios
Queria socar a cara dele mas apenas descruzei os braços. Henri passou a mão sobre a minha barriga e minha roupa mudou. Estava vestindo uma calça jeans com rasgos nas coxas e uma camisa preta com uma coruja vermelha no meio.
- É, gostei – deu um soco no ombro dele e ele sorriu satisfeito
- Pronta? – tio Afonso estava encostado na porta sem o hobbie. A blusa azul marinho estava apertada nos braços, o que o fazia parecer mais forte que o comum. Seu jeans era escuro e usava um coturno todo sujo.
Queria correr e me esconder debaixo da minha cama. Não queria ir para um lugar onde não conhecia ninguém e deixá-los sozinhos. Ainda se Henrique fosse comigo, tio Afonso ficaria em segurança, sem semideuses para proteger e tudo mais. E ainda tinha a ideia da tal maldição. Fiz o oposto de minha vontade.
- Sim, vamos – passei pela porta confiante
Entrei no elevador ao lado do tio Afonso e Henri.
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