Elo Perdido
3 Cap 3
Notas iniciais
Me senti completamente deslocada naquele lugar. Todos riam e estavam tão bem vestidos, e eu desejando estar em casa lendo um bom livrou ou vendo um bom filme.
Uma garota de vestido todo rosa passou pela gente, nos olhou dos pés à cabeça. Minha vontade foi de arrancar aquele cabelo quimicamente tratado e fazê-la engolir. Mas apenas ignorei e continuei andando junto de Henrique.
Um garoto bem arrumado nos parou. Ele tinha olhos incrivelmente escuros como o céu em noite de lua minguante. Seu cabelo era escuro também, jogado para o lado. Ele tinha um charme natural.
- Você deve ser Victoria. – ele me olhou dos pés a cabeça – Sou Pedro, amigo de Henrique – ele deu um soquinho no ombro de Henrique, que não hesitou em sorrir
- E ai, cara? – Henrique o olhava com admiração, como se ele fosse um ator de cinema ou algo do tipo
- Diana! – Pedro gritou sem tirar os olhos de mim
Uma garota de vestido rosa se aproximou. Ela era idêntica ao Pedro, só que de cabelo comprido e traços femininos.
- Hãn... – ela olhou indiferente para mim – Posso falar com você, Henrique?
Antes que ele pudesse responder, ela o agarrou pela camisa e o levou para o outro lado do salão, onde eu não podia ouvi-los ou vê-los. Henrique me deixou sozinha com seu “amigo” Pedro.
- Simpática – murmurei
- Então – Pedro mudou o peso de uma perna para a outra – onde você estuda?
Com o tempo aprendi a ler a feição e os olhos das pessoas, mais como uma forma de defesa do que por necessidade. E a feição de Pedro não demonstrava só curiosidade, demonstrava interesse.
- Academia de Manhatan para menores inflatores
- Tá me zoando né? — ele perguntou sem graça
- É claro que estou – me virei e andei em qualquer outra direção que não era pra perto dele
Passei pela mesa de frios e roubei alguns queijos. Uma porta na lateral do salão dava direto em uma varanda. Fui até a varanda, ela não era tão espaçosa. Tinha uma escada de incêndio para emergência enferrujada à direita. Mas qualquer coisa era mais interessante que aquela festa.
De frente ao segura-corpos havia um outdoor enorme cuja a imagem era uma propaganda de acampamento de verão. O nome não estava claro, mas pelo que pude ler dizia “Logo ali”. A foto era colorida e foi muito bem tirada. Campos verdes projetavam-se na parte de trás da imagem, um grande galpão de madeira – como uma casa de rancho – ficava no pé de um morro.
Fiquei imaginando como seria legal passar um verão em um lugar como aquele. Sem preocupações, sem precisar se esconder. É, esconder. Meu tio era paranóico, ele dizia que não podíamos sair muito do apartamento. Estranhei-o ter nos deixado ir à festa. Assim como eu, ele deve ter percebido que era importante para Henrique. Embora eu não conseguisse o porquê.
- O que está olhando? – Pedro encostou a porta
Ele se aproximou e se apoio no guarda-corpos do meu lado. Ele olhava para o céu com admiração.
O céu estava escuro — tirando as inúmeras estrelas -, a lua apontava fraca ao leste.
- Nada, só estou pensando – respondi
- Pensando – ele repetiu – Estive pensando também – ele disse aquilo como se não fosse frequente.
- Pensando sobre o que? – perguntei educadamente
Ele ficava mais bonito a luz da lua. Seu cabelo escuro caia sobre a testa, seus olhos eram fundos, mas tinham um brilho especial – como o reflexo da lua em um rio negro -. Seus lábios eram rosados e seu queixo era reto, fazendo do seu rosto um pouco rústico.
- Já sentiu que você está no lugar certo fazendo a coisa errada? – ele fugiu do assunto
Não sabia o que responder. Eu já me sentira assim antes, mas como se eu estivesse no lugar errado fazendo a coisa errada. Ele esperava apreensivo minha resposta e por impulso respondi o que sentia.
- A minha vida toda parece que foi uma brincadeira – disse – Mas tanto a morta do meu pai e o sumiço da minha mãe são tão reais e... – me dei conta que desabafava com um estranho, e como se não bastasse aquilo ter sido suficientemente vergonhoso, eu estava chorando.
- Está tudo bem – ele segurou minhas mãos – Eu te entendo
Parecia que eu o conhecia a anos, que vivemos a vida toda juntos. Afastei-me dele. Voltei para o outdoor. Pedro olhava para o céu como se esperasse que algo descesse até nós.
Estremeci. A noite acabara ficando fria e nem havia pegado um casado. Pedro olhou para meu braço e percebeu que eu estava tremendo.
- Tome – ele tirou a jaqueta e colocou sobre meu ombro
- Obrigada – agradeci
Não conseguia imaginar aquele garoto gentil implicando com Henrique.
- Henrique disse algo sobre mim? – pareceu que ele leu meus pensamentos
- Talvez
-Talvez – ele repetiu rindo
Seu riso era o som agradável. Seus dentes brilhavam como as estrelas. Ele voltou a olhar o céu, como se tivesse reunindo coragem ou pedindo ajuda.
- Você está destinada a grandes coisas – ele sorria friamente para o céu negro
- Grandes coisas? Que tipo de grandes coisas? – perguntei
- Coisas que você jamais acharia que pudesse fazer.
- Dá para ser mais claro?
- Não posso dizer muitas coisas – ele olhava para os lados como se estivéssemos sendo vigiados – Só não saia do acampamento.
- Acampamento? Mas que acampamento.
- Você saberá em breve. – ele segurou meu braços com suas mãos geladas – Aconteça o que acontecer, não saia do acampamento! Não se renda a ela!
- Ela quem? – perguntei assustada
- A Gaia – ele sussurrou, como se aquele nome fosse proibido
- Gaia? – pensei um pouco – Espera, Gaia? Está falando da Gaia da mitologia?
- É! – ele sorriu satisfeito
- Mas, isso não existe. E se existir, ela não está morta? E deuses gregos não existem mais
- Sim, mas ela está se reerguendo. É claro que existe!
- Isso é impossível, eles viveram séculos atrás.
- Deuses são imortais.
- Mas... O que eu tenho a ver com isso?
Pedro deu um passo para trás, confuso.
- Você deve encontrar o acampamento. Lá vão te explicar tudo.
Uma explosão atrás de nós interrompeu nossa conversa. Henrique e Diana abriram a porta com tanta força que caíram de joelhos no chão. Henrique se levantou assustado e agarrou meu braço.
- Temos que ir, — ele gritou – agora!
Olhei para Pedro, ele ajudava Diana a se levantar. Ele fez um sinal de positivo com a cabeça me encorajando.
- Vá, nos veremos em breve.
Corri para a escada de incêndio atrás de Henrique. Dei uma ultima olhada em Pedro. Não queria me esquecer de seu rosto.
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