Ella - A Verdade Por Trás Da História
44 Capítulo 43
Notas iniciais
Havia poucas pessoas no grande salão. Tudo estava muito quieto e parecia mais sombrio. Eles não sabiam, mas Zurik havia dado ordens para que a maioria dos habitantes não saísse de seus “aposentos”. No salão, apenas os mais velhos e mais controlados.
– Ella, minha querida, venha até aqui! – disse ele, pedindo que ela se dirigisse até a extremidade da grande mesa retangular, retomando a palavra assim que ela se aproximou receosa. – Ella, bela Ella! Nós sabemos o que você quer, e esta será a noite perfeita para realizar seu desejo!
Ella não conseguia dizer nada e Haig observava inquieto. Não dava para dizer que ele confiava totalmente em Zurik, mas ele parecia ser o único capaz de realizar o desejo de sua vida.
Zurik conduziu Ella por um corredor mais largo que os demais ,e Haig tratou de aproximar-se a fim de segui-los de perto. Esse corredor começava plano, e mais adiante ia se elevando até conduzi-los a uma saída no alto de uma colina, onde Aleh e uma mulher os esperavam.
– Ella, essa é Ajmaani! – Ella cumprimentou-a com um aceno de cabeça, ao qual a mulher retribuiu. – Claro que você não deve ter ouvido falar dela, e você, Haig, esse nome lhe diz alguma coisa?
– Deveria?
– Talvez não! Você ainda não havia nascido! Nem tão pouco sua mãe ainda havia se casado com seu pai! Ajmaani era amiga de sua mãe, Haig. Uma das três mulheres daquela antiga aldeia, que foram acusadas de bruxaria e desapareceram!
Haig conhecia a história. Rudolph havia lhe contado durante o tempo em que permaneceram escondidos nas florestas da Kalunga, quando lhe contou também a história de sua mãe.
– Ajmaani soube de nós e, depois de muito tempo fugindo, nos encontrou e aqui tem vivido desde então. Ela é também uma I, mas, devido a seus dons extraordinários, foi mantida intocada e protegida por todo esse tempo e, enquanto for assim, ela será tão imortal quanto nós.
– Se ela é imortal, significa que nunca teve filhos. Se nunca teve filhos, como ela pode ter descoberto uma forma de nos tornar imortais? Isso não faz sentido nenhum para mim! – decidiu questionar Ella, sentindo que aquilo tudo poderia ser uma grande mentira.
Zurik não fez menção de responder rapidamente, nem tão pouco manifestou qualquer expressão facial que pudesse ser traduzida. Lentamente, ele se virou na direção de Ajimaani e por trás dela surgiu uma mulher lindíssima!
– Porque ela me tornou imortal!
Ninguém disse nada e então a mulher continuou:
– Em tempos remotos, a vida não era fácil para nenhum ser que andasse sobre a terra, mas ela conseguia ser especialmente perversa com as Is! Nós tínhamos todo tipo de gente atrás de nós, mulheres enciumadas achando que roubaríamos seus maridos, homens insanos e pervertidos, loucos de toda a espécie, sem contar a igreja! Ah, a igreja! Essa sim comandou um verdadeiro levante contra as “bruxas”, como éramos chamadas. Mesmo quando meu marido e eu conseguimos nos refugiar ao leste da Rússia, eles estavam por toda a parte e ninguém estava seguro.
– Espera aí... — disse Haig. – Caça às bruxas, leste da Rússia, eu já ouvi essa história antes...
– Eu fui pega uma vez e, quando já sentia o calor do fogo que iria me consumir enquanto eu estava amarrada no topo de uma imponente fogueira, fui salva, mas isso teve um preço, tivemos que deixar nossas terras – continuou a mulher, sem dar a chance de que perguntas interrompessem seus relatos. – Depois disso, meu marido decidiu que o melhor seria vivermos junto ao Clã da Lua.
– Seu marido não seria... – George praticamente sussurou.
– Zirgov era um guerreiro destemido e seu nome era poderoso entre os vampiros – continou ela. — Depois que ele me tirou daquela fogueira, a igreja teve um trabalho danado para conseguir transformar a história de vampiros em lendas, controlar as pessoas presentes e convencê-las de que não haviam visto o que viram, não deve ter sido fácil, pelo menos não para as que sobreviveram...
– Impossível! Você não pode ser a... não! Ela morreu! Meu pai me disse isso! George me disse isso! – e olhou para George, uma olhar quase de acusação. — Todo mundo sempre disse que você havia morrido!
– Eu sei, e posso te garantir que não foi nada fácil convencê-los de que eu havia morrido! Isso quase causou uma guerra entre o Clã da Lua, seu pai, George... Mas, tendo em conta que eu era praticamente uma “humana”, porque você já havia nascido... aliás, foi aqui que você nasceu!
Ella observava incrédula a cena que se desenrolava e acabou dizendo, talvez mais para si mesma, sem ter realmente a intenção de que alguém respondesse:
– Ela é ....
– Iandra ... – completou George que estava ao seu lado, tão incrédulo quanto.
A essa altura os presentes sequer piscavam e foi, talvez, o único momento em que até mesmo o imponente Zurik tenha deixado sua altivez um pouco de lado. Não se ouvia um único ruído a não ser a voz firme e direta de Iandra.
– Bom, quando você tinha três ou quatro anos, seu pai decidiu que deveria sair em busca da tal bruxa que teria o segredo da imortalidade. Não foi difícil convencê-lo de que eu estava um pouco abatida e adoentada em virtude ao frio extremo dessa região, e que ele deveria levá-lo para que eu pudesse descansar um pouco, cuidada pelas demais Is que viviam aqui na época. E, claro, quando ele voltou, eu havia “morrido” e meu corpo havia sido cremado, já que o Clã da Lua não queria restos de humanos por aqui, mas eu, com a ajuda de Zurik, havia me refugiado numa rede de cavernas a leste daqui.
– Como você pôde fazer isso a meu pai? Não foi essa a imagem que o velho Rud passou de você, aliás, na verdade, ele nunca me disse como você morreu... Agora eu me lembro. Naquele dia quando ele me contava coisas sobre meu passado e minhas origens, eu me lembro de ter perguntado como você havia morrido e ele... ele disse que... que eu só poderia saber das coisas conforme minha “maturidade”. Mas é claro que ele não sobreviveu para me contar. Ele sabia que você estava viva! Claro!
– Eu queria que seu pai parasse de se arriscar, que parasse de tentar encontrar uma coisa que eu não acreditava que existisse. Queria que ele passasse mais tempo com você, porque estava te abandonando por essa busca que eu considerava insana.
Em busca de abrigo e proteção, Ajmaani apareceu em meio ao caos e a tensão causados pelas discussões entre Zirgov e Zurik e, quando soube o motivo de toda aquela confusão, lamentou ter chegado tarde demais, já que acreditava ter encontrado uma forma. Em segredo, Zurik lhe contou toda a história e revelou que Iandra estava viva, vivendo não muito longe dali.
Procurada por eles, Iandra aceitou que o ritual fosse realizado, pois tinha a esperança de que sabendo que sua esposa estava viva e tinha enfim uma chance de conseguir a imortalidade, a rivalidade cessasse e, no final das contas, Zirgov entenderia os motivos que a levaram a mentir e a perdoaria. Porém, decidiu que era mais prudente contar-lhe tudo depois do ritual.
Infelizmente, enquanto o ritual era realizado, um vampiro que não sentia a menor simpatia por Zirgov o provocou a ponto de causar uma briga onde outro vampiro acabou morto, e a culpa recaiu sobre Zirgov.
Estando apenas os três presentes no momento dos fatos e devido ao comportamento apresentado por Zirgov, não foi difícil para o vampiro inimigo convencer os anciãos de que seu desafeto era o culpado.
Tudo isso aliado ao fato de que os anciãos não toleravam mais suas ofensas, já que ele, por não se conformar com a morte da mulher, insistia em dizer que a culpa era dos membros do clã e vivia arrumando confusão com todos, fez com que Zurik acabasse condenando-o ao exílio.
Quando Iandra acordou, três dias depois, Zirgov havia ido embora e levado o filho deles. Ela tentou ir atrás dele, mas foi impedida por Zurik, que a ameaçou dizendo que os perseguiria até acabar com eles, pois Zirgov havia cometido uma falta gravíssima dentro do clã e seu castigo seria viver sozinho.
– Eu iria atrás de quem amo, ainda que isso implicasse em perder minha vida! – disse Haig, a raiva que ele sentia era evidente e nada do que ela dizia, nenhuma das suas explicações faziam sentido para ele, não o convenciam.
– Não era só minha vida e a vida de seu pai, era a sua também, você deveria saber o que se é capaz de fazer por um filho! Renunciei ao único homem que amei e a meu próprio filho para que vocês pudessem viver em paz e tranquilos!
– Você realmente acredita que meu pai teve paz depois da sua “morte”?
– Pelo menos ele só teve que sobreviver a um perseguidor, não a um clã inteiro...
– Você está esquecendo, mamãe, que ele não sobreviveu!
– E você está se esquecendo do seu real propósito aqui... Podemos discutir esse assunto mais tarde, não perca a chance, uma lua negra como essa não dura muito tempo e provavelmente só volta a ocorrer a uns 150 anos, se tiver sorte!
Haig queria muitas respostas e Iandra não estava nenhum pouco disposta a dá-las, já que isso implicava em reviver um passado que ainda era capaz de torturá-la. Seu único desejo era que ele tivesse sua amada imortal e fosse embora logo daquele lugar, que pudesse ter um destino diferente do que ela tivera.
Como estavam todos hesitantes, Zurik retomou sua postura de liderança e, num tom autoritário, determinou:
– Vamos começar o ritual, agora!
Haig abraçou Ella enquanto sussurrava em seu ouvido que a amava e que depois que tudo aquilo acabasse, eles iriam embora daquele lugar.
Nesse momento, Ajmaani entoou uma cantiga numa língua que eles não conheciam. Aleh estava deitado sobre uma pedra grande em volta da qual havia algumas tochas acesas. Ele parecia estar numa espécie de transe, os olhos estavam abertos e seu olhar fixo no céu, mas ele não se mexia.
– O que ele tem? O que vocês fizeram com ele? – perguntou Ella aflita.
– Não se preocupe! Ajmaani lhe deu uma mistura de ervas amassadas para que ele bebesse, para que ficasse confortável durante o ritual. Esse transe é necessário, Ella, para que tudo corra bem! Confie em Ajmaani!
Iandra caminhou até Ella, tomou-lhe a mão e a conduziu para mais próximo da pedra, do lado oposto de onde Ajmaani recitava aquele mantra estranho. Ela própria, Ajmaani, parecia estar em transe e segurava um punhal de ouro numa das mãos. Ella estava assustada e mais uma vez foi a voz de Iandra que surgiu para acalmá-la:
– Não se preocupe, Ajmaani está agora entre o mundo dos mortos e o dos vivos, ela irá impedir a passagem de Aleh para o outro lado, então você precisa ser forte e fazer rapidamente o que deve ser feito, sem hesitação. Zurik está aqui para garantir que nada de mal aconteça a ele, então não pense!
De repente, as tochas se apagaram e Ajmaani gritou, fazendo um corte no pescoço de Aleh e atingindo a veia carótida, de onde o sangue fluía sem nenhuma dificuldade.
Haig ameaçou correr até ele, mas foi rapidamente contido por três dos vampiros mais fortes e maiores que havia naquela “comunidade”, enquanto gritava o nome do filho.
Ella ficou paralisada, não era nem uma questão de pensar ou não, por mais que quisesse fazer alguma coisa, seu corpo não obedecia as suas ordens. Jamais em sua vida imaginou que veria seu filho daquele jeito.
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