Elite da Morte
2 Lucy Di Gana - A escolha - Parte 1
Notas iniciais
Eram três da manhã. O “tic-tac” do relógio do hospital atenuava o nervosismo de uma mulher ali sentada a cada segundo que passava.
O movimento constante do lugar não deixava que a mulher se concentrasse em nada. Qualquer pensamento que tinha, logo desaparecia. Em parte por causa disso e em parte porque sua ansiedade era maior que tudo naquele momento.
Mas a presença de todas aquelas pessoas – as enfermeiras apressadas, os médicos sempre sérios e os pacientes cansados – era até boa para ela, porque isso a impedia de se desesperar totalmente e imaginar coisas piores.
O motivo de estar ali era seu marido.
A mulher acabara de se deitar quando o telefone tocou. Estranhando o horário da ligação, foi atender já temendo algo ruim que pudesse ter acontecido com alguém de sua família. E a voz masculina do outro lado da linha confirmou suas suspeitas. Seu marido, Antônio Di Gana, tinha sido encontrado desacordado há poucos minutos pelo homem ao telefone, e aparentemente sofrera um acidente. A julgar pelo seu estado, Antônio estava ali há um bom tempo. O mesmo homem avisou a esposa de Antônio de que já tinha chamado a ambulância e para onde tinham ido. Por gentileza, o homem desconhecido, juntamente com sua mulher, fez questão de acompanhar Antônio até o hospital.
A esposa chegou quinze minutos depois deles. Nervosa, cumprimentou ambos, agradecendo, e seguiu direto para onde o marido estava.
“Tic-tac”, “tic-tac”. Aquilo se tornava cada vez mais irritante.
– Preciso de ar fresco – falou a mulher.
Assim que se levantou, uma cabeça surgiu da porta mais próxima.
– Senhora Di Gana?
– Sou eu.
A jovem da porta, fez sinal para que a mulher se aproximasse, dando espaço para que esta pudesse entrar na sala.
– Senhora Di Gana, o doutor quer falar com a senhora no leito 16.
A mulher concordou com a cabeça e prosseguiu. Enquanto percorria o corredor até o leito 16, ela notava os demais pacientes. Quantas histórias ocultadas por todos aqueles aparelhos e tubos. Estava tão envolvida nesses pensamentos que quase passou despercebida pelo leito em questão.
– Lucy Di Gana? – Uma voz grossa e firme, porém suave, a trouxe de volta.
– Sim?
– Prazer, sou o doutor Marco. Sou eu quem está cuidando do caso de seu marido. – E estendeu a mão ao terminar.
– Ah, sim, olá, doutor. – Disse, cumprimentando-o também. Finalmente poderia perguntar o que tanto queria saber desde a hora que chegou ali. – Como vai meu marido? O que aconteceu? Ele vai ficar bem?
– Entendo sua ansiedade, senhora Di Gana, mas uma coisa de cada vez. Bem, sinto muito informar, mas a situação dele não é das melhores. – Lucy sentiu as lágrimas nascerem em seus olhos. O doutor, já acostumado com esse tipo de reação, ofereceu à moça um lugar para se sentar, mas ela pediu que continuasse. – De acordo com as informações fornecidas pelo homem que o encontrou, e os exames feitos, descobrimos que seu marido sofreu traumatismo craniano.
Após alguns minutos processando a informação, Lucy recuperou voz suficiente para perguntar:
– Mas... mas ele vai... – as lágrimas dificultavam a saída das palavras — ele vai ficar bem, não vai, doutor? – Marco suspirou, e antes que pudesse responder, Lucy gritou – Ele não vai morrer! Não! Ele... doutor, meu marido vai morrer?!
– Senhora Di Gana, por favor, acalme-se. O estado de seu marido é grave. O impacto que ele sofreu, comprometeu o tronco cerebral e isso pode levá-lo a morte. No momento, ele está sob observação médica e não há mais nada que possamos fazer.
– Isso quer dizer que ele pode sobreviver?
– Sim, ele pode sobreviver, mas não é garantia. – A mulher calou-se novamente. As lágrimas querendo voltar. – Sinto muito senhora Di Gana, mas é somente isso o que posso te dizer. Peço que volte amanhã para outra conversa. – A mesma cabeça jovem de antes apareceu outra vez na porta, agora chamando outro nome.
– Doutor Marco?
– Desculpe. – Falou, se dirigindo à mulher — Tenho que ir, mas fique à vontade. Qualquer coisa é só chamar algum enfermeiro, tudo bem? Até amanhã!
E ele se foi, caminhando com postura e passadas largas até a porta. Então, certificando-se de não ter ninguém por perto, encostou o rosto no de seu marido e disse:
– Antônio, meu amor, como eu te amo! Espero que fique bem logo, porque eu não me imagino sem você.
E após repetir várias vezes essas palavras, interrompidas por silêncio e lágrimas, Lucy deixou a sala. De volta àquele constante trânsito de pessoas, decidiu esperar por ali mesmo. Ela tinha fé de que o marido fosse melhorar logo, e não queria perder sua recuperação. Ajeitou-se num canto silencioso, em uma daquelas cadeiras desconfortáveis de hospital e sem nem perceber o sono chegando, dormiu mais depressa que uma gota de chuva indo de encontro ao chão.
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Lucy Di Gana, apesar do cansaço, não dormiu quase nada. Aquelas cadeiras não lhe deram trégua durante a madrugada. Já aceitando, então, o fato de que não conseguiria descansar tão cedo, foi à lanchonete do hospital, no andar de baixo, em busca de café. Na volta, distraída, esbarrou com uma moça no topo da escada.
– Perdão. – Disse, mal olhando para o rosto dela.
– Tudo bem. – Esta, mais atenta, ao reconhecer Lucy, chamou:
– Espere! Senhora Di Gana, espere! – a mulher olhou subitamente para trás. – Espere! Deixe-me acompanha-la.
– Me desculpe, mas não me lembro de você.
– Nesse caso, eu que peço desculpas. Deveria ter imaginado que não se lembraria de mim com tudo isso acontecendo. – Lucy se sentou na cadeira onde esteve a manhã inteira e a outra a seguiu, sentando-se ao lado. – Prazer, sou Julien Fintil. Eu e meu marido não conseguimos nos apresentar antes. Fomos nós quem trouxemos seu marido para cá.
– Agora me lembro. Ai meu Deus, me desculpe. Minha cabeça anda tão cheia! Ah, sim! Prazer, Lucy Di Gana.
– Tudo bem, Lucy, eu entendo. – E disse isso com um sorriso meigo e adorável.
– E seu marido, está aqui também?
– Não. Infelizmente, ele não pôde ficar. Alguns problemas para resolver, sabe? – Lucy fez sinal de que havia entendido e a outra continuou. – E o seu marido? Alguma notícia?
Lucy contou à Julien o que o doutor havia dito e sobre como estava aflita, porém esperançosa. E as duas continuaram conversando por mais algum tempo até o doutor Marco aparecer.
– Senhora Di Gana, podemos conversar? – E sua expressão era tão séria, que dava até medo.
Então Lucy levantou e o seguiu até sua sala.
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